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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Crónica de Pedro I. Fernão Lopes. «… prometendolhe merçees por lho hir buscar, e mandavalhe que nom vehesse ante elle, ataa que todaria lho trouvesse aa maão; e assi lhos tragiam presos do cabo do reino, e lhos apresentavom hu quer que estava; e da mesa se levantava…»

Cortesia de wikipedia

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Crónica de D. Pedro I
«Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom
Este Rei Dom Pedro em quanto viveo, husou muito de justiça sem afeiçom, teendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhuum perdoava os erros que fazia, por criaçom nem bem querença que com el ouvesse; e se dizem que aquel he bem aventurado Rei, que per si escodrinha os malles e forças que fazem os pobres, e bem he este do conto de taaes, ca el era ledo de os ouvir, e folgava em lhes fazer direito, de guisa que todos viviam em paz, e era ainda tam zeloso de fazer justiça, espeçiallmente dos que travessos eram, que perante si os mandava meter a tormento, e se confessar nom queriam, el se desvestia de seus reaaes panos, e per sua maão açoutava os malfeitores, e pero que dello muito prasmavom seus conselheiros e outros alguuns, anojavasse de os ouvir, e nom o podiam quitar dello per nenhuuma guisa. Nenhuum feito crime mandava que se desembargasse salvo perantelle, e se ouvia novas dalguum ladrom ou malfeitor, alongado muito donde el fosse, fallava com alguum seu de que se fiava, prometendolhe merçees por lho hir buscar, e mandavalhe que nom vehesse ante elle, ataa que todaria lho trouvesse aa maão; e assi lhos tragiam presos do cabo do reino, e lhos apresentavom hu quer que estava; e da mesa se levantava, se chegavom a tempo que el comesse, por os fazer logo meter a tormento; e el meesmo poinha em elles maão quando viia que confessar nom queriam firindoos cruellmente ataa que confessavam. A todo o logar honde elRei hia, sempre achariees prestes com huum açoute, o que de tal offiçio tiinha encarrego, em guisa que como a elRei tragiam alguum malfeitor, e el dizia chamemme foaão que traga o açoute, logo elle era prestes sem outra tardança. E pois que escrepvemos que foi justiçoso, por fazer dereito em reger seu poboo, bem he que ouçaaes duas ou tres cousas: por veerdes o geito que em esto tiinha. Assi aveo que pousando el nos paaços de Bellas que el fezera, dous seus escudeiros que gram tempo avia que com el viviam, seendo ambos parceiros ouverom comselho que fossem roubar huum Judeu que pelos montes andava vendendo speçearia, e outras cousas, e foi assi de feito, que forom buscar aquella çuja prea e roubaromno de todo, e o peor desto, foi morto per elles; sua ventura que lhe foi contraira, aazou de tal guisa que forom logo presos e tragidos a elRei ali hu pausava. ElRei como os vio tomou gram prazer por seerem filhados, e começouhos de preguntar como fora aquello, elles pensando que longa criaçom e serviço que lhe feito aviam, o demovesse a ter alguum geito com elles, nom tal como tiinha com outras pessoas, começarom de negar, dizendo que de tal cousa nom sabiam parte. El que sabia ja de que guisa fora, disse que nom aviam por que mais negar, que ou confessassem como ho matarom, se nom que a poder de cruees açoutes lhe faria dizer a verdade: elles em negando, virom que elRei queria poer em obra o que lhe per pallavra dizia, comfessarom todo assi como fora; e elRei sorrindosse disse que fezerom bem, que tomar queriam mester de ladroões e matar homeens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro dos Judeus, e depois viinriam aos Christãos; e em dizendo estas e outras palavras passeava perantelles dhuma parte aa outra, e parece que nenbrando-lhe a criaçom que em elles fezera e como os queria mandar matar, viinham-lhe as lagrimas aos olhos per vezes; depois tornava asperamente contra elles reprendendoos muito do que feito aviam, e assi andou per huum grande espaço. Os que hi estavam que aquesto viam, sospeitando mal de suas razoões, aficavamse muito a pedir merçee por elles, dizendo que por huum Judeu astroso nom era bem morrerem taaes homeens, e que bem era de os castigar per degredo, ou outra alguuma pena, mas nom mostrar contra aquelles que criara pello primeiro erro tam grande crueza. ElRei ouvindo todos respondia sempre que dos Judeos viinriam depois aos Christaãos, en fim destas e outras razoões, mandou que os degollassem, e foi assi feito.
A Portugal forom tragidos Alvoro Gomçallvez e Pero Coelho, e chegarom a Samtarem omde elRei Dom Pedro era; e elRei com prazer de sua viimda, porem mal magoado por que Diego Lopez fugira, os sahiu fora arreçeber, e sanha cruel sem piedade lhos fez per sua maão meter a tromento, queremdo que lhe confessassem quaaes forom na morte de Dona Enes culpados, e que era o que seu padre trautava contreelle, quamdo amdavom desa viindos por aazo da morte della; e nenhuum delles respomdeo a taaes preguntas cousa que a elRei prouvesse; e elRei com queixume dizem que deu huum açoute no rostro a Pero Coelho, e elle se soltou emtom comtra elRei em desonestas e feas pallavras, chamamdolhe treedor, fe perjuro, algoz e carneçeiro dos homeens; e elRei dizemdo que lhe trousessem çebolla e vinagre pera o coelho, emfadousse delles e mandouhos matar. A maneira de sua morte, seendo dita pelo meudo, seria mui estranha e crua de comtar, ca mandou tirar o cora çom pellos peitos a Pero Coelho, e a Alvoro Gomçallves pellas espadoas; e quaaes palavras ouve, e aquel que lho tirava que tal officio avia pouco em costume, seeria bem doorida cousa douvir, emfim mandouhos queimar; e todo feito ante os paaços omde el pousava, de guisa quc comendo oolhava quamto mandava fazer. Muito perdeo elRei de sua boa fama por tal escambo como este, o qual foi avudo em Portugal e em Castella por mui grande mal, dizemdo todollos boons que o ouviam, que os Reis erravom mui muito himdo comtra suas verdades, pois que estes cavalleiros estavom sobre seguramça acoutados em seus reinos». In Fernão Lopes, Projecto Vercial, Universidade do Minho.
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Cortesia de UMinho/JDACT

Crónica de Pedro I. Fernão Lopes. «Semelhavelmente mandou elRei fazer outro tal muimento e tam bem obrado pera si, e fezeo poer açerca do seu della, pera quamdo se aqueeçesse de morrer o deitarem em elle. E estamdo el em Estremoz, adoeçeo de sua postumeira door…»

Cortesia de wikipedia

«Fernão Lopes (1380?– 1460?) terá nascido em Lisboa, de uma família do povo. É considerado o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à preocupação pela busca da verdade. Foi escrivão de livros do rei D. João I e escrivão da puridade do infante Fernando. O rei Duarte I concedeu-lhe uma tença anual para ele se dedicar à investigação da história do reino, devendo redigir uma Crónica Geral do Reino de Portugal. Correu a província a buscar informações, informações estas que depois lhe serviram para escrever as várias crónicas, Crónica de D. Pedro I, Crónica de D. Fernando, Crónica de D. João I, Crónica de Cinco Reis de Portugal e Crónicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal. Foi guardador das escrituras da Torre do Tombo».

Como foi trelladada Dona Ines pera o moesteiro Dalcobaça, e da morte delRei Dom Pedro
«Por que semelhante amor, qual elRei Dom Pedro ouve a Dona Enes, raramente he achado em alguuma pessoa, porem disserom os antiigos quc nenhuum he tam verdadeiramente achado, como aquel cuja morte nom tira da memoria o gramde espaço do tempo. E se alguum disser que muitos forom ja que tanto e mais que el amarom, assi como Adriana e Dido, e outras que nom nomeamos, segumdo se lee em suas epistolas, respomdesse que nom fallamos em amores compostos, os quaaes alguuns autores abastados de eloquemcia, e floreçentes em bem ditar, hordenarom segumdo lhes prougue, dizemdo em nome de taaes pessoas, razoões que numca nenhuuma dellas cuidou; mas fallamos daquelles amores que se contam e leem nas estorias, que seu fumdamento teem sobre verdade. Este verdadeiro amor ouve elRei Dom Pedro a Dona Enes como se della namorou, seemdo casado e aimda Iffamte, de guisa que pero dela no começo perdesse vista e falla, seemdo alomgado, como ouvistes, que he o prinçipal aazo de se perder o amor, numca çessava de lhe emviar recados, como em seu logar teemdes ouvido. Quanto depois trabalhou polla aver, e o que fez por sua morte, e quaaes justiças naquelles que em ella forom culpados, himdo contra seu juramento, bem he testimunho do que nos dizemos. E seemdo nembrado de homrrar seus ossos, pois lhe ja mais fazer nom podia, mandou fazer huum muimento dalva pedra, todo mui sotillmente obrado, poemdo emlevada sobre a campãa de çima a imagem della com coroa na cabeça, como se fora Rainha; e este muimento mandou poer no moesteiro Dalcobaça, nom aa emtrada hu jazem os Reis, mas demtro na egreja ha maão dereita, açerca da capella moor. E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Samta Clara de Coimbra, hu jazia, ho mais homrradamente que se fazer pode, ca ella viinha em huumas andas, muito bem corregidas pera tal tempo, as quaaes tragiam gramdes cavalleiros, acompanhadas de gramdes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e domzellas, e muita creelezia. Pelo caminho estavom muitos homeens com çirios nas maãos, de tal guisa hordenados, que sempre o seu corpo foi per todo o caminho per antre çirios açesos; e assi chegarom ataa o dito moesteiro, que eram dalli dezassete legoas, omde com muitas missas e gram solenidade foi posto em aquel muimento: e foi esta a mais homrrada trelladaçom, que ataa aquel tempo em Portugal fora vista. Semelhavelmente mandou elRei fazer outro tal muimento e tam bem obrado pera si, e fezeo poer açerca do seu della, pera quamdo se aqueeçesse de morrer o deitarem em elle. E estamdo el em Estremoz, adoeçeo de sua postumeira door, e jazemdo doemte, nembrousse como depois da morte Dalvoro Gomçallvez e Pero Coelho, el fora çerto, que Diego Lopes Pachequo nom fora em culpa da morte de Dona Enes, e perdohou-lhe todo queixume que del avia, e mandou que lhe emtregassem todos seus beens; e assi o fez depois elRei Dom Fernamdo seu filho, que lhos mandou emtregar todos, e lhe alçou a semtemça que elRei seu padre comtra elle passara, quamto com dereito pode. E mandou elRei em seu testamento, que Ihe tevessem em cada huum ano pera sempre no dito mosteiro seis capellaaens, que cantassem por el e lhe dissessem cada dia huuma missa oficiada, e sahirem sobrel com cruz e augua beemta: e elRei Dom Fernamdo seu filho, por se esto melhor comprir e se cantarem as ditas missas, deu depois ao dito moesteiro em doaçom por sempre o logar que chamam as Paredes, termo de Leirea, com todallas rendas e senhorio que em el avia. E leixou elRei Dom Pedro em seu testamento çertos legados, a saber, aa Iffamte Dona Beatriz sua filha pera casamento cem mil livras; e ao Iffamte Dom Joham seu filho viimte mil livras; e ao Iffamte Dom Denis outras viinte mil; e assi a outras pessoas. E morreo elRei Dom Pedro huuma segumda feira de madurgada, dezoito dias de janeiro da era de mil e quatro cemtos e cimquo anos, avemdo dez annos e sete meses e viimte dias que reinara, e quaremta e sete anos e nove meses e oito dias de sua hidade, e mandousse levar aaquel moesteiro que dissemos, e lamçar em seu muimento, que esta jumto com o de Dona Enes. E por quamto o Iffamte Dom Fernamdo seu primogenito filho nom era estomçe hi, foi elRei deteudo e nom levado logo, ataa que o Iffamte veo, e aa quarta feira foi posto no muimento. E diziam as gentes, que taaes dez annos numca ouve em Portugal, como estes que reinara elRei Dom Pedro». In Fernão Lopes, Projecto Vercial, Universidade do Minho.
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Cortesia de UMinho/JDACT

sexta-feira, 1 de março de 2013

Outras Maneiras de Ver. Temas Portugueses. José Hermano Saraiva. «… o autor diz que ela estava em vigor desde o tempo de Afonso Henriques até ao momento em que a obra estava a ser escrita, ao momento em que “nós o Infante fizemos esta crónica”. ‘Quem era o Infante?’ Provavelmente “Duarte”»

jdact e costapinheiro

A Revolução de Fernão Lopes
«No manuscrito do Porto indica-se a data em que a redacção foi iniciada a 1 de Julho de 1419, passado portanto cerca de um ano sobre a data em que Fernão Lopes foi nomeado guarda das escrituras do arquivo, entre essas escrituras estavam muitos dos elementos que serviram de fontes às crónicas. E em ambos os manuscritos se pode ler uma informação curiosa: ao referir-se à regra dos frades de Alcobaça, o autor diz que ela estava em vigor desde o tempo de Afonso Henriques até ao momento em que a obra estava a ser escrita, ao momento em que nós o Infante fizemos esta crónica.
E portanto um Infante que figura como autor, não obviamente no sentido que a expressão hoje assume, mas no de pessoa por cujo mandado a crónica era elaborada.
Quem era o Infante? Provavelmente Duarte, que nessa altura já partilhava os encargos do governo com o monarca. Mas não deixa de impressionar que Duarte, memoralista minucioso que no Leal Conselheiro nos dá conta dos seus trabalhos e das suas predilecções intelectuais, não faça a menor referência à Crónica que teria mandado fazer.
Nem o Leal Conselheiro, nem a Ensinança de Bem Cavalgar, nem os textos reunidos no chamado Livro dos Conselhos, nem a correspondência conhecida indicam que o rei Duarte tivesse tido algum interesse pela história. Escreveu, como se sabe, as minutas para os sermões de exéquias de Nun'Álvares Pereira e de João I, e em ambos esses textos se desinteressa do aspecto histórico, para acentuar apenas as virtudes morais. Quanto aos feitos do Condestável, resume-os na frase de que foi muitas vezes vencedor e nunca vencido; em relação a João I, proíbe mesmo que se fale, clara ou veladamente, nem por claro nem por figura, na guerra da independência, para não magoar os castelhanos que possam estar presentes, e à rainha, que era aragonesa!
Por outro lado acontece que, embora o monarca Duarte tivesse sido escritor de verdadeiro mérito, não era ele, mas a seu irmão infante Pedro que os seus contemporâneos atribuíam a qualidade de homem de letras. Um dos fundamentos de que foi Duarte I quem mandou escrever a Crónica de 1419 está na informação dada por Zurara de que Duarte, em sendo infante, incumbiu Fernão Lopes de apanhar os avisamentos que pertenciam a todos aqueles feitos e os juntar e ordenar segundo pertencia à grandeza deles.
Essa ordem teria de se referir à tarefa de 1419,visto que o alvará de 1434 foi já assinado por Duarte em sendo rei. Mas os feitos a que a frase se refere são os do interregno e da primeira parte do reinado de João I. Isto é, são precisamente aqueles que  são especificados no alvará de 1434. E existe outro motivo para levar a pensar que em 1419
Fernão Lopes não recebeu a ordem de redigir a cronica do reinado de D. João I: a queixa que o próprio cronista faz de não ter podido escrever os feitos de Nun’Álvares enquanto ele foi vivo:
  • certamente a nós fora singular prazer se em sua história pudéramos seguir a ordenança dos que ditam as cousas em vida daqueles a que acontecem (...); mas ora, depois de seu passamento, mortos os mais dos que lhe foram companheiros, já de seus bons feitos mais gastar não podemos se não as escassas relíquias deles.
Ora o Condestável morreu em 1422, e a queixa mal se compreenderia se em 1419 Fernão Lopes tivesse sido incumbido de escrever a crónica do período da guerra, visto que este incluía necessariamente o relato dos feitos de Nun’Álvares». In José Hermano Saraiva, Outras Maneiras de Ver, Temas Portugueses, Círculo de Leitores, 1981.

Cortesia de C. Leitores/JDACT

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Outras Maneiras de Ver. Temas Portugueses. José Hermano Saraiva. «Em 1423 sabemos que acumulava o cargo de guarda-mor com um outro; “o de escrivão da puridade do infante Fernando”. Era um lugar de confiança, que exercia ainda em 1437. Em 1428 exerce, além das duas anteriores, mais uma função, “notário público do dito senhor rei (João I) em todo o seu senhorio”»


jdact

A Revolução de Fernão Lopes
«Com a expressão a revolução de Fernão Lopes pretendo colocar este problema: a revolução descrita na Crónica de D. João I – 1ªparte é a que se verificou no último quartel do século XIV, mais ou menos pela época em que o escritor nasceu, ou é também, reflexamente, o conjunto dos acontecimentos políticos verificado nos meados do seculo XV, época em que o escritor pensou e escreveu o seu livro, ou é, finalmente, uma concepção em grande parte pessoal do escritor, que julga o passado que descreve à luz do presente que vive?
A primeira condição para podermos saber até que ponto a vida e a experiência do autor se projectam na sua obra seria o conhecimento pormenorizado dessa vida. E o que a tal respeito sabemos não é muito. Ignora-se, designadamente, quando e onde nasceu, de que meio social provinha, o que fez em jovem, quando e onde morreu. O que se pode dar por seguro, ou pelo menos muito provável, é o seguinte:
  • Nasceu entre 1380 e 1390. Os motivos que há para o pensar são que em 1437 tinha um filho formado em medicina que estava ao serviço do infante Fernando. Ora os estudos médicos eram então demorados, e dificilmente se pode admitir que o rapaz tivesse menos de trinta anos naquela data. Se foi o primeiro filho, é o único de que há notícia, e se nasceu de um primeiro casamento, teríamos o casamento por volta de 1407, e o nascimento do escritor uns vinte a vinte cinco anos mais cedo. Muito antes não poderia ter sido, visto que em l459 ainda vivia. Este cálculo situaria o nascimento entre 1387 e 1382. É realmente à volta disso que andam as estimativas dos biógrafos.
Em 1418 é pela primeira vez mencionado como guarda das escrituras da Torre do Tombo. Era um cargo muito mais importante do que hoje nos poderia parecer. Não existiam conservatórias prediais nem do registo civil e a fonte de muitos direitos estava em títulos individuais, de que o único exemplar que fazia fé era o que se guardava no arquivo do Estado. Era pois o guarda das escrituras quem conservava, buscava e mandava certificar as fontes do direito de cada um.
O facto de atingir essa função relativamente novo (trinta e poucos anos) revela que já então devia ter longa carreira de funcionário, ou gozar de protecção valiosa. De facto, sabe-se que anteriormente tinha sido escrivão dos livros do rei, isto é, amanuense nas secretarias regias. Em 1423 sabemos que acumulava o cargo de guarda-mor com um outro: o de escrivão da puridade do infante Fernando. Era um lugar de confiança, que exercia ainda em 1437. Em 1428 exerce, além das duas anteriores, mais uma função:
  • notário público do dito senhor rei (João I) em todo o seu senhorio.
Nessa qualidade assistiu em Estremoz ao acto pelo qual João I passou procuração ao infante Duarte com poderes gerais e especiais para tratar das negociações relativas ao dote do casamento dele Duarte com D. Leonor de Aragão. Assistiu ao acto, mas não foi ele quem executou materialmente o instrumento, fê-lo escrever por Pedr’Eanes, seu fiel escrivão. Era certamente o rei quem escolhia o notário para os seus próprios actos, havia vários tabeliães-gerais, e isto sugere que Fernão Lopes seria homem da confiança pessoal do monarca.
Depois de João I morrer (14 de Agosto de 1433) foi nomeado cronista. Mais exactamente: recebeu encargo de pô, em crónica as histórias dos reis que antigamente em Portugal foram, Isso mesmo os grandes feitos e altos do mui virtuoso e de grandes virtudes el-rei meu senhor e padre cuja alma Deus haja. O alvará de nomeação tem a data de 19 de Março de 1434, e já se afirmou que antes dessa época já exercia a função, pois a forma usada (temos dado carrego) parece referida ao passado. Mas suponho que o facto de nesse mesmo documento se mandar abonar o vencimento respectivo a partir de 1 de Janeiro daquele ano é suficiente para mostrar que a nomeação é realmente dessa altura.
Mas tudo indica que, muito antes de 1434, já Fernão Lopes seria, além de burocrata, historiador. É um problema muito discutido o de saber se são, ou não, de sua autoria as cronicas dos Reis de Portugal que chegaram ate nós em duas cópias, conhecidas por Crónica dos Cinco Reis e Crónica dos Sete Reis, e encontradas pelos eruditos Magalhães Basto e Silva Tarouca respectivamente na Biblioteca Municipal do Porto e nos arquivos da Casa do Cadaval. Mas tudo indica que sim, e que essa crónica representa a parte até há pouco considerada perdida da obra de Fernão Lopes.
No manuscrito do Porto indica-se a data em que a redacção foi iniciada: 1 de Julho de 1419, passado portanto cerca de um ano sobre a data em que Fernão Lopes foi nomeado guarda das escrituras do arquivo, entre essas escrituras estavam muitos dos elementos que serviram de fontes às crónicas». In José Hermano Saraiva, Outras Maneiras de Ver, Temas Portugueses, Círculo de Leitores, 1981.

Cortesia de C. Leitores/JDACT

segunda-feira, 26 de março de 2012

Crónicas de Fernão Lopes. O critério histórico: «… que abrangem os dez anos de reinado, de 1357 a 1367, embora mais de um terço se ocupe apenas de Pedro, o ‘Cruel’, rei de Castela, contemporâneo do ‘justiceiro’ e seu sobrinho, pois era filho de D. Maria, “a formosíssima Maria”, heroína de um dos mais conhecidos episódios de “Os Lusíadas”»


Cortesia de alfarrabiodiuminho alfarrabiodiminho e leituragulbenkian 

O critério histórico
«Além de valorizadas por um estilo inconfundível, estas crónicas exprimem, como nenhumas outras, o sentimento nocional. E talvez por terem sido interpretadas como a expressão do ‘Evangelho português’, segundo a expressão do próprio cronista, as suas primeiras edições coincidiram com momentos graves da vida do nação:  
  • a “Crónica de D. João I” foi editada em 1644;
  • as “Crónicas de D. Pedro e D. Fernando”, em 1816.

A “Crónica de D. Pedro I”, continuação da “Crónica de D. Afonso IV”, também da autoria de Fernão Lopes, como provam as frequentes remissões, já referidas, é constituída por um prólogo e quarenta e quatro capítulos, que abrangem os dez anos de reinado, de 1357 a 1367, embora mais de um terço se ocupe apenas de Pedro, o ‘Cruel’, rei de Castela, contemporâneo do ‘justiceiro’ e seu sobrinho, pois era filho de D. Maria, “a formosíssima Maria”, heroína de um dos mais conhecidos episódios de “Os Lusíadas”.
Esta crónica baseia-se fundamentalmente em fontes diplomáticas: os documentos dos livros da ‘Chancelaria de Pedro I'. E o carácter folgazão do rei, que o tornou tão popular, assim como as facetas mórbidas, acentuadas por Fernão Lopes, ao traçar o seu retrato moral, a preocupação obsessiva de fazer justiça, o temperamento impulsivo e cruel, quase sádico, como diríamos hoje, aparecem comprovadas nas ‘púbricas.escrituras’, que ainda se encontram na Torre do Tombo.

Contudo, Fernão Lopes utilizou também fontes narrativos, as quais, analisadas de acordo com um critério interpretativo e crítico, inteiramente inovador na época, são reproduzidas integralmente, ou então apenas resumidas; outras vezes, aparecem refundidas, ou completadas com elementos colhidos directamente nas fontes diplomáticas. Assim, Fernão Lopes transcreve textos da obra do cronista castelhano Pero Lópes de Ayala (1332 a 1407), ‘Cronicas de los Reyes de Castilla’, e também muito provavelmente de uma ‘estória’ sobre o ‘Justiceiro’, cuja vida teria ainda inspirado uma lenda, segundo observou Damião Peres. Mas Fernão Lopes não descurou a consulta das fontes arqueológicas, como, por exemplo, os túmulos de Pedro e D. Inês.
A inclusão de fontes narrativas muitas vezes sem indicação de autor, as ‘estórias’, redigidas por testemunhas oculares, eram anónimas, constitui uma característica do método historiográfico de Fernão Lopes, e não pode confundir-se com plágio, visto que o cronista não dissimula a origem do trabalho alheio. Esses textos, que a fim de completar a informação histórica, tão habilmente soube integrar na narração, de acordo, aliás, com a missão que lhe fora confiada: ‘poer, em crónica as estórias dos reis que em Portugal foram’ são apenas, conforme afirma, ‘garfos [que] per mais largo estilo enxertamos, segundo que cumpre’.

Efectivamente, no século XV, a função do historiador oficial consistia apenas em seriar os factos já relatados, ordenando-os numa narrativa sequente, que abrangesse cronologicamente os vários reinados. Na realização dessa tarefa, era livre de utilizar materiais alheios, fontes narrativas anónimas ou de autores conhecidos, que seriam refundidas ou incorporadas directamente na obra.
Todavia, Fernão Lopes, excedendo o que era vulgar na sua época, não só tomou uma atitude selectiva e crítica em relação às fontes narrativas, como também, aproveitando as facilidades proporcionadas pelo cargo que exercia, recorreu a fontes diplomáticas, diplomas régios, tratados, bulas, cartas, procurações, preitesias dos castelos, as quais são também sujeitas a rigorosa análise.

Assim, pelo critério com que escolhe e utiliza as fontes escritas, tanto como pela importância que atribui aos documentos do Arquivo Régio, Fernão Lopes aproxima-se da cocepção científica e crítica da História, introduzida entre nós por Alexandre Herculano. Portanto, na evolução da historiografia portuguesa, o método histórico do nosso primeiro cronista constitui uma completa inovação no final da Idade Média». In Maria Tarracha Ferreira, Crónicas de Fernão Lopes, biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1993, ISBN – 972-568-132-0.

Cortesia de M. T. Ferreira/JDACT

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Crónicas de Fernão Lopes. O critério histórico: «Competia ao primeiro cronista-mor do reino a narração dos "grandes feitos e altos" de D. João I, mas como acentuavam as duas cartas régias, na sequência das crónicas dos reis da primeira dinastia, ou, nos termos da carta de 1449, da "crónica dos feitos dos reis de Portugal"».

Cortesia de wikipedia

O critério histórico
«Ainda está por determinar quais as crónicas redigidas por Fernão Lopes, além daquelas que averiguadamente lhe pertencem, Crónica de D. Pedro I, Crónica de D. Fernando e Crónica d’elrei Dom João I de Boa Memória, e dos Reis de Portugal o Décimo (primeira e segunda partes). Já no século XVI, Damião de Góis atribuía também ao nosso primeiro cronista a redacção da Terceira Crónica de D. João I, texto que teria sido parcialmente aproveitado por Gomes Eanes de Azurara, na Crónica da Tomada de Ceuta. E segundo aquele humanista, Fernão Lopes teria redigido também a Crónica de D. Duarte, plagiada e publicada por Rui de Pina. Damião de Góis foi também o primeiro a observar que Fernão Lopes alude frequentemente a acontecimentos anteriores ao reinado de D. Pedro, como se os tivesse narrado.
Assim, no Prólogo da Crónica de D. Pedro, o cronista refere-se à «ordem do nosso arrazoado, no primeiro prólogo já tangida», no capítulo I observa: «Morto el rei D. Afonso, como haveis ouvido, insistindo, nos capítulos XXVII e XLIV: «Já tendes ouvido», «como ouvistes», «como em seu lugar tendes ouvido». No capítulo XII é mais explícito: «Já vós ouvistes bem quanto os Reis antigos fizeram…».
Também Gomes Eanes de Azurara afirma que a actividade cronística de Fernão Lopes começara ainda antes da nomeação oficial, visto que D. Duarte «em sendo infante, lhe cometeu o cargo de apanhar os avisamentos que pertenciam a todos aqueles feitos e os ajuntar e ordenar segundo pertencia à grandeza deles e autoridade dos príncipes e outras notáveis pessoas que os fizeram».
Se a carta régia de 1434 atribuía já a Fernão Lopes o cargo de «poer em carónica as estórias dos reis que antigamente em Portugal foram», a 11 de Janeiro de 1449, assinada por D. Afonso V, pouco antes do encontro de Alfarrobeira, e destinada a aumentar a tença atribuída por D. Duarte, sublinhava:
  • «pelos grandes trabalhos que ele há tomado e ainda há-de tomar em fazer a crónica dos feitos dos reis de Portugal».

Cortesia de wikipedia 

Assim, competia ao primeiro cronista-mor do reino a narração dos «grandes feitos e altos» de D. João I, mas como acentuavam as duas cartas régias, na sequência das crónicas dos reis da primeira dinastia, ou, nos termos da carta de 1449, da «crónica dos feitos dos reis de Portugal».
Deste modo, Fernão Lopes teria deixado dois volumes de crónicas, como também se deduz do seguinte passo da Primeira Parte da Crónica de D. João I:
  • «[…] No começo desta obra nomeados fidalgos alguns, que ao conde dom Henrique ajudaram ganhar a terra aos mouros; assi neste segundo volume diremos uns poucos dos que ao Mestre foram companheiros em defender o reino de seus imigos».
A descoberta dos manuscritos de duas crónicas anónimas parece vir confirmar as hipóteses sugeridas por Damião de Góis, corroborando as afirmações do próprio Fernão Lopes. O códice encontrado, em 1942, na Biblioteca Municipal do Porto (publicado com o título de Crónica dos Cinco Reis de Portugal, porque apenas relata a história dos cinco primeiros reinados) apresenta grandes semelhanças, quanto à técnica da narração e ao estilo, com as crónicas de Fernão Lopes.
O mesmo acontece com o manuscrito pertencente à Casa Cadaval, que abrange, além do governo do conde D. Henrique, os sete primeiros reinados. Corresponde ao códice completo (de que a Crónica dos Cinco Reis é apenas um fragmento) e foi impresso em 1952 com o título de Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal. É também conhecido por Crónica de Portugal de 1419, porque, segundo está registado no texto, foi iniciada nesta data, pouco tempo depois de FL ter entrado ao serviço do rei e do infante D. Duarte. Deve corresponder, pois, à Crónica de Portugal ou Crónica Geral do Reino, que segundo o testemunho de Azurara, existia na livraria de D Duarte.
Considerada perdida, teria sido aproveitada por Rui de Pina e outros cronistas. Também a Crónica do Algarve se integra nesta obra, apresentando as características dos textos de FL, o qual, todavia, e de acordo com o método historiográfico de então, poderá ter aproveitado e desenvolvido uma «estória» ou relato de uma testemunha presencial.
Parece poder concluir-se que as Crónicas de D. Pedro e D. Fernando fazem parte da Crónica dos Feitos dos Reis de Portugal, mas está ainda por averiguar com exactidão qual a contribuição de FL nas crónicas assinadas por Rui de Pina (1440? – 1522), assim como nas de Duarte Galvão (? – 1517), Acenheiro (1474 - ?) e Duarte Nunes de Leão (1530? – 1608). Contudo, as três crónicas de FL não chegaram até nós no texto original, assinado pelo autor; apenas possuímos os apógrafos, isto é, cópias elaboradas por ordem de D. Manuel, nos princípios do século XVI». In Maria Tarracha Ferreira, Crónicas de Fernão Lopes, biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1993, ISBN – 972-568-132-0.

Cortesia de M. T. Ferreira/JDACT

sábado, 1 de maio de 2010

João das Regras: Segundo Fernão Lopes «notável barom, comprido de ciência e mui grande letrado em leis»

João das Regras (13??-1404)
Pintura de Acácio Lino
João das Regras nasceu em Lisboa em data desconhecida pelo ano de 13.. e foi um jurisconsulto português. No contexto da Crise de 1383-1385 em Portugal destacou-se pela magistral representação da causa do Mestre de Avis nas cortes de Coimbra de 1385, cujo corolário foi a aclamação dele como rei de Portugal.
De acordo com Fernão Lopes esteve em Bolonha, e é verosímil que tenha estudado na Universidade daquela cidade. Foi professor da Universidade de Lisboa, onde mais tarde desempenhou o alto cargo de encarregado ou protector, equivalente, segundo alguns, ao cargo de reitor (Carta Régia de 25 de Outubro de 1400).

Túmulo de João das Regras (século XV) na Igreja de S. Domingos de Benfica.
Tal como o seu padrasto, teve uma acção importante no levantamento de Lisboa que alçou o Mestre de Avis por regedor e defensor do Reino. Conselheiro e chanceler do Mestre, a sua acção na crise de 1383-1385 culminou na inteligente argumentação em que, omitindo o nome do mestre, negou validade às pretensões dos outros candidatos ao trono:
  • A D. Beatriz, filha do falecido rei de Portugal, nega João das Regras quaisquer direitos por nulidade do casamento de Fernando I de Portugal com Leonor Teles de Menezes, que era já casada com João Lourenço da Cunha quando o rei a desposou; por incerteza quanto à paternidade de D. Fernando, dado o comportamento irregular de Leonor Teles; por haver contraído um casamento com o rei D. João I de Castela, seu parente (a mãe do rei de Castela era tia-avó de D. Beatriz) sem a dispensa do papa legítimo Papa Urbano IV, em vez do antipapa Clemente VII;
  • Ao rei de Castela, por ter quebrado o tratado antenupcial de Salvaterra de Magos de Março de 1383 e por ser herege, refuta João das Regras o direito a ser rei de Portugal, pois, pela violação daquele tratado, perdia o direito que havia nos reinos de Portugal e, ademais, reconhecera o antipapa e fora excomungado pelo legítimo papa; além disso, porque o seu parentesco com o rei D. Fernando se dava pela linha feminina (as suas mães eram irmãs), o que pelo direito consuetudinário hispânico não dava direitos de sucessão;
  • Os infantes D. Dinis e D. João, filhos de el-rei D. Pedro I e de Inês de Castro, portanto, irmãos de D. Fernando, não podiam ter direito ao trono porque eram ilegítimos: D. Pedro nunca casara com Inês de Castro; além disso fizeram guerra contra Portugal aliados a Henrique II de Castela e a D. João I de Castela.
Inteligentemente, a sua estratégia demonstrou que o trono português estava vago, pois nenhum dos pretendentes tinha direito a ele. Cabia assim às Cortes escolher livremente um novo rei, sendo o Mestre, «per unida concordança de todolos grandes e comum poboo» aclamado rei de Portugal.
O rei concedeu muitas mercês a João das Regras:
  • Fê-lo cavaleiro de sua casa, senhor das vilas de Castelo Rodrigo, Tarouca e Beldigem;
  • Senhor de Cascais e seu termo, do reguengo de Oeiras, das dízimas das sentenças condenatórias de Évora, da jurisdição da Lourinhã e das rendas da portagem de Beja.
Fernão Lopes refere-se a ele «como notável barom, comprido de ciência e mui grande letrado em leis».
História de Portugal/Wikipédia/JDACT

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Fernão Lopes: O maior cronista de língua portuguesa. A preocupação pela busca da verdade

(1378?-1459?)
Fernão Lopes foi funcionário do paço e notário, nomeado cronista pelo rei D. Duarte, escreveu as crónicas dos reis D. Pedro I, D. Fernando e D. João I (1.ª e 2.ª partes). Do ponto de vista da forma, o seu estilo representa uma literatura de expressão oral e de raiz popular. Ele próprio diz que nas suas páginas não se encontra a formosura das palavras, mas a nudez da verdade. Era um autodidacta. Foi um dos legítimos representantes do saber popular, mas já no seu tempo um novo tipo de saber começava a surgir: de cunho erudito-académico e humanista.
Ocupa, entre a série dos cronistas gerais do Reino, um lugar de destaque, quer como artista quer pela sua maneira de interpretar os factos sociais. Fernão Lopes deve ter nascido entre 1378 e 1390, visto que em 1418 já ocupava funções públicas de responsabilidade (era Guardião-mor das escrituras da Torre do Tombo). Pertencia portanto à geração seguinte à que viveu o cerco de Lisboa e na batalha de Aljubarrota. A guerra com Castela acabou em 1411, pelo que Fernão Lopes pôde ainda acompanhar a sua fase, e conhecer pessoalmente alguns dos seus protagonistas, como D. João I, Nuno Álvares Pereira, os cidadãos de Lisboa que se rebeliaram contra D. Leonor Teles e elegeram o Mestre de Avis seu defensor em comício popular, alguns dos procuradores às Cortes de Coimbra de 1385 que, apoiando o dr. João das Regras declararam o trono vago e, chamando a si a soberania, elegeram um novo rei e fundaram uma nova dinastia.

Profissionalmente, Fernão Lopes era um tabelião, provavelmente de origem mesteiral, porque contava um sapateiro na família de sua mulher. Foi empregado da família real e da corte, escrivão de D. Duarte, ainda infante, do rei D. João I, e do infante D. Fernando, em cuja casa ocupou o importante posto de «escrivão da puridade», que correspondia ao cargo de maior confiança pessoal concedido pela alta nobreza. A partir de 1418, como disse anteriormente, aparece a desempenhar as funções de Guarda-mor da Torre do Tombo, encarregado de guardar e conservar os arquivos do Estado, lugar de confiança da Corte. Como prémio dos seus serviços, recebeu o título de «vassalo de El-rei», carta de nobreza atribuída então com certa liberalidade a membros das classes não nobres. Ainda vivia em 1459, segundo atesta um documento de transmissão de sua herança.

Cortesia de alfarrabio.di.uminho
Durante este longo período de actividade, Fernão Lopes atravessou os reinados de D. João I, D. Duarte, o governo de D. Pedro, e parte do reinado de D. Afonso V. Conheceu muitas alterações políticas e sociais. Ao rei eleito e popular, D. João I, viu suceder um rei mais dominado pela aristocracia, D. Duarte. Viu crescer o poder feudal dos filhos de D. João I, e com ele o predomínio da nobreza, que saíra gravemente abalada da crise da Independência. Assistiu à guerra civil subsequente à morte de D. Duarte, à insurreição de Lisboa contra a rainha viúva D. Leonor, e à eleição do infante D. Pedro por esta cidade, e em seguida pelas cortes, para o cargo de Defensor e Regedor do Reino, em circunstâncias muito parecidas com as que tinham levado o mestre de Avis ao mesmo cargo e seguidamente ao trono em 1383-1385. Assistiu depois à reacção do partido da nobreza, à queda do infante D. Pedro, à sua morte na sangrenta batalha de Alfarrobeira, à perseguição e dispersão dos seus partidários, ao triunfo definitivo da nobreza, no reinado. Foi testemunha do início da expansão ultramarina e teve a sua quota parte no desastre militar de Tânger, por causa da morte de seu filho médico do infante D. Fernando, que veio a morrer em cativeiro, em Marrocos.

Assinatura de Fernão Lopes (Fernandus Lopi). Consta de uma certidão de 14 de Dezembro de 1436, extraída a pedido do concelho e julgado de Riba de Lima, do Livro das Inquirições Régias, na parte aplicável à região, vistoriada em 26 de Abril de 1228.
«Esta preciosidade diplomática foi publicada em 1934, por Rocha Madahil. Elevam-se, assim, a vinte o número de certidões passadas pelo nosso primeiro historiador, no seu oficio de Guardador das escrepturas do tombo e chaves dela». In www.geira


Fernão Lopes viveu uma das épocas mais perturbadas da história de Portugal, cheia de ensinamentos para o historiador. A carreira de Fernão Lopes como historiador é provavelmente a mais longa do que há pouco se supôs, pois é provável que já em 1419 realizasse por encargo do então infante D. Duarte a compilação e redacção de uma crónica geral do reino de Portugal. Só em 1434, porém, aparece oficialmente encarregado pelo rei D. Duarte de relatar as histórias dos reis anteriores e os feitos do rei D. João I, pelo qual seria remunerado com uma pagamento anual. Após a morte deste rei o Regente D. Pedro, em nome de D. Afonso V, confirma Fernão Lopes na mesma incumbência, mantendo-lhe o salário. Em 1449, pouco antes da batalha de Alfarrobeira, ainda recebe um pagamento de D. Afonso V pelos seus trabalhos historiográficos, mas já nessa época entrara em actividade um outro cronista, Gomes Eanes de Zurara. A última obra em que Fernão Lopes trabalhou, a Crónica de D. João I, embora monumental, ficou incompleta e foi continuada por Zurara (a Crónica estava dividida em 3 partes das quais Fernão Lopes só pode escrever as duas primeiras).
As suas Obras:
  • Crónica de el-rei D. Pedro I;
  • Crónica de el-rei D. Fernando;
  • Crónica de el-rei D. João I, 1.ª e 2.ª partes.
A Crónica de el-rei D. Pedro é uma das crónicas de Fernão Lopes, escrita no século XVI, relatando a vida e feitos do rei D. Pedro I de Portugal, assim com o que de importante aconteceu em Portugal durante o seu reinado.
A Crónica d’El Rei D. João I, foi escrita pelo cronista Fernão Lopes, por incumbência do Rei D. Duarte.
A crónica é composta por duas partes:
  • 1ª parte – descreve o que se passou entre a morte de D. Fernando e a subida ao trono de D. João I;
  • 2ª parte – descreve os acontecimentos ocorridos durante o reinado de D. João I até 1411, altura em que foi assinada a paz com Castela.
Cortesia de cercarte
Cortesia Biblioteca Nacional de Lisboa/Rocha Madahil/Wikipédia/Ebooks/História de Portugal/JDACT