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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Costureira. Kate Alcott. «O seu patrão lhe paga? Não pelos vestidos. Mas sou boa, e mereço ser paga. Talvez isso fosse arrogante demais. Ela respirou fundo e lançou todas as fichas. Quero trabalhar com a senhora. É a melhor estilista do mundo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cherbourg, França. 10 de Abril de 1912
«(…) Referências? Posso pedir que sejam enviadas pelo correio. Qualquer coisa que a senhora quiser. Lá no meio do Atlântico? Sempre há um marconigrama. Tess havia lido sobre eles e esperava que estivesse dizendo a coisa certa. Lucile de repente se cansou daquele vaivém. Lamento, não sei nada a seu respeito, disse. Não será possível. Ela se virou para conversar com Cosmo. Desesperada, Tess teve uma ideia. Olhe, por favor, olhe, pediu, abrindo a gola do vestido. Eu fiz isso. Tentei copiar a gola de um dos seus vestidos que vi no jornal. É uma cópia ruim, claro, mas... Nada mau, murmurou Elinor, observando a gola. Estava primorosamente virada, um linho firme desenhado para ser usado tanto aberto como fechado, requerendo pontos cuidadosos. Um trabalho bastante complexo. Incomum para uma servente. Lucile lançou um olhar interessado na direcção de Tess, depois inspecionou a gola com os dedos. Era um de seus melhores projectos. A garota havia cortado a gola em proporção perfeita com o seu vestido e costurado à mão. Não havia uma só ruga no tecido. Você está dizendo que fez isso?, inquiriu ela. Sim, fiz. Quem a ensinou a costurar? Minha mãe, que é muito habilidosa. Tess se empertigou com orgulho. Sou conhecida no condado. E corto os meus próprios modelos. Todo mundo corta, minha querida. Isso só requer tesoura. Está querendo dizer que desenha, presumo eu. Lucile estendeu a mão sem cerimónia e ergueu a manga do vestido de Tess, notando a habilidade do trabalho de montagem da garota. Sim. Desenho e costuro. Faço tudo. O seu patrão lhe paga? Não pelos vestidos. Mas sou boa, e mereço ser paga. Talvez isso fosse arrogante demais. Ela respirou fundo e lançou todas as fichas. Quero trabalhar com a senhora. É a melhor estilista do mundo, e não posso acreditar na sorte que tive de encontrá-la. Os seus vestidos são uma inspiração... Quem é capaz de desenhar como a senhora? Por favor, me dê uma oportunidade. A senhora não se vai arrepender.
Lucile encarou a menina, com expressão indecifrável. Algo passou por seus olhos enquanto os espectadores ao redor caíam em silêncio, esperando o que viria em seguida. Ela provavelmente é independente demais para você, disse Elinor baixinho, de lado. Nunca se sabe. Ela talvez não seja bem o que diz ser. A expressão de Lucile não mudou, embora um pequenino sorriso tenha curvado os seus lábios. Talvez. Mas eu poderia manter minhas joias trancadas no cofre do navio, não é? Ela se dirigiu a Tess. Sente-se satisfeita em ser uma empregada? Não estou oferecendo nada mais do que isso. Farei o que a senhora quiser. Só quero uma oportunidade de provar o meu valor e trabalhar para a senhora. Sim, sim, ela faria qualquer coisa. Não sonharia acordada nem faria montinhos com os cantos dos lençóis, trabalharia, aprenderia e mudaria tudo. Tess estava respirando com dificuldade. Sentiu as dobradiças do destino rangerem, uma porta se abrir..., ou será que se estava fechando? Que ela goste de mim, rezou ela.  Qualquer coisa? Tess se empertigou. Qualquer coisa respeitável, nada mais, disse.
Lucile avaliou com o olhar a silhueta da garota, observando o cabelo escuro emaranhado, as maçãs do rosto altas e rosadas e o queixo altivo, as botas desgastadas com um cadarço partido. Vamos embarcar em breve. Está preparada para partir daqui a uma hora, mais ou menos?, inquiriu ela. Sim, posso partir imediatamente. Tess emprestou um tom duro e rígido às suas palavras. Só uma oportunidade, pensou ela, não estrague tudo. O grupinho ao redor de Lucile parecia estar contendo a respiração colectivamente. Ela hesitou mais um segundo. Certo, está contratada, disse no final. Como empregada, apenas. Elinor lançou-lhe um olhar surpreso. Isso não é um pouco impulsivo, Lucy? A irmã não respondeu, simplesmente continuou olhando para Tess como se focasse o vazio, à distância. Obrigada, a senhora não se vai arrepender, disse Tess, trémula, tentando não esmorecer diante do olhar incessante de Lucile. Você precisa se vestir adequadamente para o trabalho, quer seja uma pessoa instruída ou não. Lucile estava pisando em terreno firme novamente. Deve-me chamar de madame. E precisa de uma touca. Ela fez um sinal para Cosmo. Meu marido, Sir Cosmo, cuidará dos detalhes. Tess sorriu gentilmente para o homem alto e magro de bigode grande e bem cuidado que deu um passo à frente para falar com ela. Depois de lhe fazer algumas perguntas, teve uma conversa sussurrada com um funcionário da White Star Line. Era, claro, uma passagem para uma servente, portanto não era necessário passaporte. Não haveria problemas? Eles terminaram a conversa com um aperto de mão firme. Tess expirou o ar com tanta intensidade que sentiu tontura. Sim, a porta estava-se abrindo.
Ela segurou no corrimão, descendo atrás de lady Duff Gordon por degraus escorregadios até um escaler com aparência encardida e meio frágil. Um oficial de uniforme da White Star dissera a todos os passageiros que o navio era grande demais para o porto raso de Cherbourg, portanto todos tinham de ir utilizando o escaler. Quão grande seria o navio, para ter provocado o rompimento do cabo de ancoragem de outra embarcação a caminho de Southampton? Tess procurou enxergar através da neblina cinzenta e fina, ansiosa para vislumbrá-lo. A névoa levantou. E lá estava ele, assomando tão altivo, tão orgulhoso e distinto, que parecia governar os mares, e não o contrário. Quatro chaminés enormes se erguiam graciosamente em direcção ao céu. Nove deques, e Tess sentiu o pescoço doer no esforço de contá-los. Não era de admirar que se chamasse Titanic. As pessoas que se amontoavam para prender o escaler ao navio estavam fora de proporção em relação a ele, mais pareciam formigas atarefadas.
Um marinheiro estendeu a mão para Tess, chamando-a para subir na prancha de embarque. Ela obedeceu, concentrando-se agora em colocar um pé atrás do outro. Estava acontecendo, não tinha mais volta. Adeus, Sussex; adeus, patroa de rosto enrugado e filho tarado; adeus, todos. Até ao seu lar, à sua mãe, aos irmãos e irmãs, a quem talvez ela jamais voltasse a ver novamente. O seu coração tremeu. E ela deu o passo seguinte com firmeza. Estava no topo. Um casal à frente, um homem com um queixo belamente esculpido e uma mulher com um casaco de pele branca, deu um passo para dentro do navio e parou para um abraço. Que bonito, que espontâneo. O homem, cujas mãos cheias de veias denunciavam que ele não era tão jovem quanto tinha parecido à primeira vista, de repente rodopiou a mulher num movimento preciso que terminou por fazê-la girar, rindo, para se aninhar nos braços dele. Os dois saltitaram com leveza, afastando-se, diante de aplausos aqui e ali. Seriam artistas?
Bem à frente dela estava um homem com rosto belo e inquieto dominado por um queixo forte e bem modelado e um nariz aquilino delgado. As suas mãos estavam enfiadas nos bolsos de um casaco de cashmere marrom imaculado. Seus olhos pareciam nublados. De tristeza? O cabelo estava ficando grisalho nas têmporas; provavelmente tinha uns quarenta anos, adivinhou ela. Um homem de negócios, que olhava constantemente o relógio de pulso. Parecia envolvido pela névoa, e não reagiu ao pequeno show à sua frente, apenas parou um instante para observar o casal alegre com o que ela supôs ser uma certa melancolia». In Kate Alcott, A Costureira, Geração Editora, tradução de Ana Mesquita, 2012/2013, ISBN 978-858-130-131-0.

Cortesia de Geração E./JDACT

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A Costureira. Kate Alcott. «Acha que ela está fugindo de alguém? Talvez da polícia? De um homem? Não tenho como saber, mas com certeza tu vais tecer uma bela história com isso, disse Lucy, acenando para Cosmo, que se aproximava…»

jdact

Cherbourg, França. 10 de Abril de 1912
«(…) As docas estavam escorregadias por causa das algas. Com o coração acelerado, ela encolheu-se entre o burburinho e o caos ao seu redor e inspirou o ar penetrante e salgado que vinha do mar. Mas onde estavam as placas anunciando os empregos? Ela abordou um homem metido num uniforme com grandes botões de metal e perguntou num francês hesitante, e depois num inglês urgente, quem estava encarregado de contratar funcionários para a limpeza e a cozinha daquele novo e grande navio. Chegou tarde, minha jovem, os serviçais já foram todos contratados e os passageiros logo estarão embarcando. Má sorte a sua, receio. Ele deu-lhe as costas. Não importava quanto ela sorrisse, seu plano estava ruindo. Que idiota... ,ela deveria ter ido antes. E agora? Engoliu o sentimento vazio de não saber o que viria a seguir e tentou pensar. Encontre famílias; procure crianças pequenas. Ela daria uma boa ama. Então ter sete irmãos e irmãs menores não contava como experiência? Ela estava pronta para isso, sem problema nenhum; só precisava encontrar a pessoa certa e dizer as coisas certas para conseguir o que queria. Ela não iria desistir, não seria mesmo. Iria embora de qualquer jeito. Mas ninguém lhe deu a mínima. Um casal inglês de idosos recuou quando ela perguntou se eles precisavam de companhia para a viagem. Quando se aproximou de uma família com crianças e ofereceu seus serviços, eles a olharam com desconfiança, sacudiram a cabeça com educação e se afastaram. O que ela esperava? Ela devia estar parecendo desesperada, com os cabelos desgrenhados e tudo o mais. Lucy, olha aquela garota ali. Elinor apontou um dedo delicado e bem cuidado para a frenética Tess. Ela é uma beldade. Linda, de olhos grandes. Olha só ela correndo para falar com as pessoas. Creio que está tentando entrar no navio. Acha que ela está fugindo de alguém? Talvez da polícia? De um homem? Não tenho como saber, mas com certeza tu vais tecer uma bela história com isso, disse Lucy, acenando para Cosmo, que se aproximava. Ele parecia, como sempre, meio alheio ao ambiente. Olhos frios, expressão calma; sempre no comando. Seguindo-o, vinha um mensageiro tímido. Lucile, houve um problema... Cosmo iniciou. Eu sabia, interrompeu Lucile, enrijecendo a mandíbula. Foi Hetty, não é? Ela disse que não pode vir. A mãe está doente, informou o mensageiro. Ele inclinou-se para a frente, quase numa reverência nervosa, o melhor que pôde, porque Lucile agora estava furiosa. Diga a essa garota que ela não pode desistir na hora de partirmos! Quem ela pensa que é? Se não embarcar connosco, está despedida! Você lhe disse isso? Ela olhou carrancuda para o homem. Sim, madame, ele arriscou-se a responder.
Tess ouviu a confusão e parou, atraída pela visão das duas mulheres. Seria possível? Sim, uma delas usava o mesmo chapéu grandioso com a belíssima fita verde que ela vira da janela; e estava bem ali, distraidamente dando leves batidas no chão com a ponta daquela mesma sombrinha. A voz aguda da outra mulher captou a sua atenção. Que desculpa miserável!, vociferou ela. Alguém não tinha aparecido para a viagem, alguma espécie de empregado, e aquela ‘pessoa’ de cabelo ruivo vivo e batom cor de carmesim estava furiosa. Que aparência formidável tinha ela. O rosto de ossos marcantes, imóvel, não admitia concessões, e os seus olhos arregalados pareciam capazes de mudar de suaves para duros numa questão de segundos. Naquele momento, não havia nenhuma suavidade neles. Quem é ela?, perguntou Tess a um rapaz que se juntara ao grupo. A sua voz tremia. Nada estava certo. Tu não sabes? Ela olhou de novo para a mulher e notou como as pessoas diminuíam os passos ao se aproximar, sussurrando, lançando-lhe olhares de admiração. Sim, havia algo familiar. Não acredito..., disse ela num fio de voz. É Lucile Gordon.
Óbvio. Couture, você sabe. E a outra mulher é a irmã dela, Elinor Glyn. Ela é de Hollywood, escreve romances. Alguns bastante escandalosos, na verdade.  Tess mal ouviu o que ele dizia. Aquela personagem irada era a estilista mais famosa do mundo, alguém cujos lindos vestidos ela havia visto nos jornais, e agora estava a poucos metros de distância. Era a sua chance, era a sua chance. Lady Duff Gordon, não acredito no que estou vendo!, irrompeu Tess, abrindo caminho. Eu a admiro tanto! A senhora é tão talentosa. Já vi fotos dos seus vestidos que me fizeram sonhar. Ela estava matraqueando, mas não se importava. A única coisa que queria era a atenção de Lucile. A estilista a ignorou. Eu adoraria trabalhar para a senhora, implorou. Conheço o ramo. Sou costureira, faço trabalhos muito bons, poderia ser de grande ajuda para a senhora. Ela pensou, enlouquecida: e agora, o que dizer?  Sou óptima com casas de botões, qualquer coisa que a senhora necessite. Por favor... Ela está desesperada, murmurou Elinor com um risinho enquanto endireitava o seu chapéu elaborado. Lucile virou-se na direcção de Tess. Você sabe de que trabalho se trata?, inquiriu ela. Tess hesitou. É para ser minha empregada pessoal. E agora, continua interessada? Tudo bem. Qualquer coisa, qualquer coisa para entrar nesse navio. Trabalhar com lady Lucile seria uma oportunidade inacreditável. Onde trabalha? O que faz? Eu..., trabalho numa casa em Cherbourg. E faço vestidos. Tenho clientes muito satisfeitos. Uma servente, nenhuma surpresa, murmurou Elinor. Lucile a ignorou. O seu nome? Tess Collins. Tessie. Ah, sei. Não. Tess. Que seja. Sabe ler e escrever? Mas é claro!, Tess estava indignada. Os olhos de lady Duff Gordon reviraram-se com admiração diante daquele arroubo». In Kate Alcott, A Costureira, Geração Editora, tradução de Ana Mesquita, 2012/2013, ISBN 978-858-130-131-0.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Costureira. Kate Alcott. «No alto da encosta, longe do ancoradouro, no meio das casas de tijolo que se espalhavam nos penhascos da costa da Normandia, Tess descia a escada até à sala de estar. À sua espera estava a patroa, uma inglesa empertigada com lábios tão finos…»

jdact e wikipedia

Cherbourg, França. 10 de Abril de 1912
«Tess puxou os cantos dos lençóis que acabara de recolher do estendal, tentou enfiá-los por baixo do colchão bem esticados e recuou para verificar o seu trabalho. Ainda meio malfeito e amarfanhado. O supervisor que administrava a casa com certeza inspecionaria aquilo e torceria o nariz, mas isso já não importava mais. Ela olhou pela janela. Uma mulher passava por ali, usando um chapéu esplêndido encimado por uma fita verde-escura brilhante e girando uma sombrinha vermelha, com uma expressão radiante e determinada. Tess tentou se imaginar andando assim com tanta confiança, sem ninguém para acusá-la de agir como se pertencesse a uma classe superior à sua. Quase podia sentir os seus dedos em redor do cabo macio e polido daquele guarda-chuva. Aonde estaria indo aquela mulher? Olhou para trás, para a cama feita pela metade. Chega de fantasias, nem mais um minuto. Caminhou para fora do quarto e parou, contida pela visão do próprio reflexo no espelho dourado de corpo inteiro do final ao corredor. Os seus longos cabelos escuros, como sempre, tinham escapado do desalinhado, embora a curvatura de seu queixo, que normalmente lhe conferia um ar de arrogância, continuasse intocada. Mas não havia como negar o vergonhoso ponto crucial: o que ela viu foi uma jovem magricela com um vestido preto e um avental branco, carregando uma pilha de roupa suja e que usava um chapéu idiota de servente bem no alto da cabeça. Uma imagem de servidão. Arrancou o chapéu e atirou-o em direcção ao vidro. Ela não era servente nenhuma. Era uma costureira, e das boas, e seria paga pelo seu trabalho. Tinha-se equivocado ao aceitar aquele emprego.  Tess enfiou as roupas sujas pelo alçapão da lavandaria e subiu a escada para o seu quarto no terceiro andar, desamarrando o avental pelo caminho. É agora. Chega de hesitação. Havia empregos disponíveis, disseram os estivadores, naquele navio gigantesco que estava zarpando para Nova Iorque. Ela correu os olhos pelo quartinho. Nada de malas: a patroa não a deixaria chegar à porta caso soubesse que ela estava indo embora. O retrato da sua mãe, sim. O dinheiro. Seu portfólio, com todas as suas criações. Tirou o uniforme, colocou o seu melhor vestido e enfiou algumas roupas de baixo, meias e o seu único outro vestido num saco de lona. Olhou para o vestido de baile inacabado que estava na máquina de costura, para os minúsculos lacinhos de veludo branco que ela havia prendido à mão com tanto esforço na seda azul enfunada. Outra pessoa teria de terminá-lo, alguém que fosse pago para isso. O que mais? Nada. Respirou fundo, tentando resistir ao eco da voz do seu pai na sua cabeça: Não seja metida, repreendia ele. Tu és uma garota do campo, faz o teu trabalho, mantém sempre a cabeça baixa. Recebe ordenado decente e suficiente; melhor não arruinar a vida com tanta ousadia. Não vou arruinar a minha vida, sussurrou. Vou transformá-la para melhor. Enquanto saía do seu quarto pela última vez, ela quase podia ouvir a voz dele acompanhando-a, rouca e raivosa como sempre: Cuidado, garota boba. As botas de salto de Lucile prendiam nas tábuas de madeira apodrecidas sob os seus pés enquanto ela abria caminho pela multidão no porto de Cherbourg. Ajeitou a estola de pele de raposa em redor do pescoço, deliciando-se com a maciez felpuda do pelo espesso, e empertigou a cabeça, atraindo muitos olhares, alguns motivados pela visão de seus cabelos ruivos de tom vivo, outros por saberem quem ela era. Olhou para a irmã, que andava rapidamente na sua direcção, cantarolando alguma canção nova e girando uma sombrinha vermelha. Tu gostas mesmo de bancar a jovial, não é?, disse. Tento de ser uma pessoa agradável, murmurou a irmã. Não preciso competir. Tu podes ficar com todas as atenções, disse Lucile com o seu tom mais áspero e altivo. Ah, para com isso, Lucy. Nenhuma de nós é deficiente nesse quesito. Tu andas rabugenta ultimamente. Se fosses apresentar uma colecção de Primavera em Nova Iorque dentro de poucas semanas, também estaria rabugenta. Tenho muito com que me preocupar com toda essa conversa de mulheres suspendendo as saias e achatando os seios. Tu, por outro lado, só precisas de escrever mais um romance sobre elas. As duas começaram o ziguezague entre as dúzias de malas e baús, cujas dobradiças de metal cintilavam à luz que caía, enquanto as suas saias de lã fina arrastavam camadas de poeira húmida. É verdade, as ferramentas da minha profissão são muito mais portáteis do que as tuas, disse Elinor, distraída. Com certeza que são. Sou obrigada a fazer esta travessia porque não tenho ninguém competente o bastante para cuidar do desfile, portanto eu mesma terei de estar presente. Então, por favor, não sejas frívola. Elinor fechou a sombrinha com um estalo e encarou a irmã, arqueando uma de suas sobrancelhas perfeitas. Lucy, tu és incapaz de ter senso de humor? Só vim aqui para te desejar bon voyage e acenar quando o navio partir. Devo ir embora agora? Lucile suspirou e tomou fôlego, inspirando profundamente. Não, por favor, disse ela. Gostaria tanto que viesses comigo. Vou sentir a tua falta. Adoraria ir, mas o meu editor quer aquelas provas de impressão revistas até o fim desta semana. A voz de Elinor tornou-se radiante mais uma vez. Mas tu tens o Cosmo, que é um doce, embora ele não goste de poesia. Um defeito mínimo. Ele é um querido, o melhor presente que te deu foi um livro. Fui grosseira? Mas a verdade é que ele não tem nenhum gosto literário. Elinor suspirou. E sabe como ser aborrecido. Tolice. Tu sabes disso tão bem quanto eu. Onde ele está? Lucile corria os olhos pela multidão, procurando a silhueta alta e angulosa de Sir Cosmo Duff Gordon. Esse atraso é de enlouquecer. Se tem alguém que consegue fazer as coisas funcionarem com eficiência, e na hora, é Cosmo. Claro. É o trabalho dele. Lucile lançou um olhar furioso para Elinor, mas a irmã já estava olhando para outra direcção, com uma expressão inocente.
No alto da encosta, longe do ancoradouro, no meio das casas de tijolo que se espalhavam nos penhascos da costa da Normandia, Tess descia a escada até à sala de estar. À sua espera estava a patroa, uma inglesa empertigada com lábios tão finos que pareciam ter sido costurados. Quero o meu pagamento, por favor, disse Tess, escondendo o saco de lona nas dobras da sua saia. Ela viu o envelope que aguardava por ela na mesinha de canto perto da porta e começou a se inclinar naquela direcção. Ainda não terminou o vestido para a festa, Tess, disse a mulher num tom mais autoritário que o normal. O meu filho mal conseguiu encontrar uma toalha no armário do corredor hoje de manhã. Agora ele irá encontra-lo. Ela não voltaria lá em cima. Nunca mais se deixaria encurralar naquele armário de roupas de cama, mesa e banho, desvencilhando-se dos dedos magros e ansiosos do filho adolescente dela. Aquele envelope era seu; ela pôde ver o seu nome escrito nele, e não estava disposta a ficar ali ouvindo as reclamações costumeiras antes de ele lhe ser entregue. Aproximou-se da mesa. Já disse isso antes. Vou lá em cima agora mesmo para testar. A mulher parou quando viu a garota estendendo a mão para apanhar o envelope. Tess, eu ainda não o entreguei! Talvez não, mas eu já fiz por merecê-lo, disse Tess com cuidado. A má-criação não é nada admirável, Tess. Tem andado muito misteriosa ultimamente. Se apanhar isso antes de lho entregar, terá ultrapassado os limites comigo. Tess respirou fundo e, sentindo-se ligeiramente tonta, apanhou o envelope e segurou-o contra o corpo, como se ele pudesse ser arrancado de suas mãos. Então já ultrapassei, disse ela. Sem esperar resposta, abriu a porta de entrada, ricamente ornada, que ela jamais teria de polir de novo e rumou para a saída. Depois de tanto sonho e reflexão, tinha chegado a hora». In Kate Alcott, A Costureira, Geração Editora, tradução de Ana Mesquita, 2012/2013, ISBN 978-858-130-131-0.

Cortesia de Geração E./JDACT

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «… os papéis que a sua vida lhe exigia e citava, o de mãe, avó, dona-de-casa e esposa, mostrando que o de ‘prostituta’ não a impedia de exercer os da vida doméstica, da mulher direita, da mulher da casa e feita para o casamento»

Cortesia de wikipedia

A prostituição e a cidade: problemas públicos e identidade social
«(…) O denominador comum de cada um desses tipos de prostituição é o lenocínio, isto é, a organização comercial que garante a prostituição de outrem. O cáften, o rufião, a cafetina, o proxeneta, o gigolô, o dono de bordel, de termas ou de casas de massagem, figuras, enfim, que possibilitam o trabalho ou vendem proteção à prostituta contra ataques de clientes ou mesmo contra agentes do Estado, são, segundo as leis brasileiras, o único aspecto criminal da prostituição. Enquanto a chamada prostituição localizada costuma ser tolerada por configurar uma espécie de cordão sanitário e região moral que responde aos interesses do poder público, a prática do trottoir, mais visível e difusa, é combatida por métodos muitas vezes violentos. Na década de 1960, a polícia da capital recolhia cerca de 80 mulheres por dia, o que, ao final do mês, somava cerca de 1400 mulheres levadas às delegacias e encaminhadas às malocas, local onde permaneciam detidas de 2 a 5 dias em condições inexistentes de higiene. Nesses recintos, eram obrigadas a dormir no chão e, frequentemente, também molestadas pelos policias que as guardavam.
A humilhação ou a obrigação de obediência são, contudo, práticas de controle igualmente disseminadas nos estabelecimentos da chamada prostituição localizada. Nessas cidadelas geridas pela figura do proxeneta, a prostituta torna-se a menina da casa. Mas, para tanto, deve ser domesticada pelos gerentes ou proprietários. No final dos anos 1950, num bordel da capital paulista, Lagenest presenciou cenas em que a cafetina humilhava publicamente prostitutas devedoras de diárias. Já em 2002, o gerente de uma casa na Vila Mimosa contou a esta etnógrafa ter agredido uma prostituta que trabalhava em seu estabelecimento, com o argumento de que a mulher fazia uso da cocaína. Com a formação das associações de prostitutas, as agressões físicas e outras humilhações, actos que marcam o processo incriminatório do sujeito, passaram a ser identificados como problemas não mais individuais, mas colectivos e principalmente concernentes aos direitos civis. Para compor e difundir esta consciência entre os membros da categoria, reuniões semanais, mensais e anuais tornaram-se uma das actividades mais importantes dessas associações.
No Rio de Janeiro, o Fórum de Profissionais do Sexo, de âmbito estadual, foi criado para ser um espaço onde as mulheres pudessem discutir questões relativas, especificamente, ao trabalho sexual e a qualidade das interacções mantidas com outros agentes durante o exercício do seu ofício. No Fórum, passaram a elaborar ainda mais suas narrativas de modo a comunicar suas experiências de modo mais adequado e, com isso, persuadir um público qualificado e cada vez mais amplo da importância de suas reivindicações. O teor fático das conversas e narrativas trazidas para este tipo de encontro em que expõem seus dramas pessoais e colectivos contribui para fortalecer a identidade e fundar a solidariedade de classe.
Num sobrado próximo ao Campo de Santana, a poucos metros da Praça Tiradentes, acontecem esporadicamente as reuniões do Fórum de Profissionais do Sexo. Numa destas, a directora, há mais de trinta anos na prostituição, informava aos vinte e dois presentes que o grupo e as reuniões tinham sido criados para acabar com a discriminação. Discursava vigorosamente sobre a importância da autoestima para o desempenho satisfatório de todos os papéis que a sua vida lhe exigia e citava, como exemplo, o de mãe, avó, dona-de-casa e esposa, mostrando que o de prostituta não a impedia de exercer aqueles representativos da vida doméstica, da mulher direita, da mulher da casa e feita para o casamento». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010.

Com amizade.
Cortesia de RAntropologia/JDACT

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «… a população da cidade prestou uma anti homenagem à nova sede do governo municipal, apelidando-o de ‘Piranhão’, uma explícita alusão à “alcunha popular de prostituta” e à menção que faz à voracidade carnívora do peixe amazónico»

Cortesia de wikipedia

A prostituição e a cidade: problemas públicos e identidade social
«(…) Tal medida prenunciava ser o Mangue o lugar ideal para a localização do meretrício carioca, contribuindo para a definição dos espaços morais da cidade e, pela óptica higienista de então, também para o controle da sífilis e de outras doenças venéreas que assombravam a vida da população no início do século XX. Junto a isso, a grande mobilidade dos habitantes desta área era um dos distintivos que davam à Cidade Nova o caráter de área natural do baixo meretrício no Rio de Janeiro. Entretanto, o inexorável processo da expansão urbana pouco a pouco confinou e reduziu os seus domínios. Em 1945, a construção da Avenida Presidente Vargas pôs abaixo cerca de quinhentos edifícios da região, entre eles quatro igrejas, um mercado, a sede da prefeitura e muitas casas onde funcionavam os bordéis, espalhando, entre os moradores da cidade, o medo de que a prostituição proliferasse para outros bairros. Em 1954, iniciou-se a experiência conhecida como República do Mangue, termo cunhado pelos policiais da Delegacia de Costumes e Diversões (DCD) com o objectivo de fichar as prostitutas daquela área para que fossem exercidos simultaneamente os controles médico e policial. Em 1967, a visita da rainha Elizabeth II e de sua comitiva tornaria o casario parcialmente invisível para aqueles que cruzassem a Avenida Presidente Vargas.
A ordem dos militares era esconder o Mangue com tapumes e, com isto, traçar, finalmente, os limites da zona. Em 1970, o Jornal do Brasil chegou a anunciar o fim do Mangue. Mais de trinta casas estavam sendo desapropriadas e outras tantas deveriam passar pelo mesmo processo, pois, desde o início, a década de 1970 seria marcada pelas obras de construção do metropolitano e do Centro Administrativo São Sebastião (CASS), sede da Prefeitura do Rio de Janeiro (a população da cidade prestou uma anti homenagem à nova sede do governo municipal, apelidando-o de Piranhão, uma explícita alusão à alcunha popular de prostituta e à menção que faz à voracidade carnívora do peixe amazónico; na cidade, todos conhecem a sede da prefeitura pelo nome de Piranhão, e mesmo os seus funcionários se referem ao local de trabalho utilizando este nome; mais recentemente, um prédio anexo foi construído e, novamente, a população lembrou a antiga área dos bordéis, dando-lhe a alcunha de cafetão). Com as obras, a área abrangida pelo CASS não mais deixava espaço para um novo deslocamento das prostitutas. Havia, porém, em um pequeno trecho fronteiriço entre a Cidade Nova e o bairro do Estácio, uma travessa com casas, próxima ao sítio reurbanizado e à estação de metro, onde os bordéis seriam reinstalados, pela última vez naquele bairro, em 1979. Em seu pórtico lia-se Vila Mimosa. E a vila, anteriormente ocupada por famílias, viria acolher a escória, os últimos habitantes de uma área já totalmente desmantelada pela renovação urbana. Nas casas da Vila Mimosa, prostitutas e cafetinas preservariam seus negócios e um estilo de gerir a prostituição, não sem sofrerem muitas novas ameaças. Porém, no decorrer desse social drama, transformariam o lugar e suas actividades em um símbolo de resistência da Zona do Mangue e do direito à cidade.
Os estudos de ecologia urbana desenvolvidos pelos sociólogos de Chicago buscaram compreender a cidade e seus problemas através da análise dos processos de expansão urbana. Num artigo de 1925, Ernest Burgess ilustrou o zoneamento da cidade e seu processo de expansão com a representação de círculos concêntricos, mostrando com isso os sucessivos processos da expansão. Assim, em Chicago a prostituição se situava na zona de Loop, também chamada Zona Central de Comércio; na zona de transição, ou de deterioração e na zona residencial. Transpondo o seu esquema para a cidade do Rio de Janeiro, vemos que aqui o mesmo ocorria: no centro de comércio, onde se situam as praças Tiradentes e Campo de Santana, e em cujo prolongamento também se encontra a praça Mauá, junto ao cais do porto, o cenário é marcado pela presença das prostitutas de rua, que fazem o trottoir e frequentam bares, clubes e cinemas cuja programação se destina à exibição de filmes ou espectáculos eróticos. A prostituição de bordel, também chamada prostituição localizada, se concentra na zona de transição. Nesta podemos classificar a Vila Mimosa, último reduto da prostituição na região central do Rio, e que, devido a renovação urbana, foi reinventada em um bairro contíguo pelos seus antigos proprietários. Um tipo de prostituição mais discreta, pois confinada aos apartamentos e sustentada por um público de maior poder aquisitivo. Ficaria reservada, por fim, às áreas residenciais da cidade. Nesta modalidade, o bairro de Copacabana se sobressai na geografia moral carioca». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010.

Cortesia de RAntropologia/JDACT

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «As polacas e as francesas eram maioria, contabilizando cerca de dez mil “escravas brancas” que entre 1918 e 1930 desembarcaram nos portos brasileiros para se prostituírem. … também aportaram romenas, russas, jugoslavas, argentinas e, entre todas, predominavam as judias»

Cortesia de wikipedia 

Visibilidade pública
«(…) Tudo isso veio se configurar no novo contexto político brasileiro, que havia se tornado propício à ampla mobilização social e à emergência de diversas reivindicações colectivas. E podemos dizer que a origem do movimento de prostitutas, no Brasil, foi eminentemente urbana, configurando-se em torno de denúncias contra atentados aos direitos civis e pelo direito à cidade. Em 1987, as prostitutas militantes organizam no Rio de Janeiro o I Encontro Nacional de Prostitutas, no Centro de Artes Calouste Gulbenkian. Outros encontros similares são realizados, em seguida, em várias capitais do país. No I Encontro Norte-Nordeste de Prostitutas, em Recife, em 1988, elas discutiram a retirada do capítulo V do código penal e lançaram o primeiro jornal destinado à categoria, o Beijo da Rua; no I Encontro das Prostitutas Gaúchas, realizado em Porto Alegre, em 1989, foram relatados os problemas de humilhação institucionalizada, como, por exemplo, a existência de um termo de vadiagem a ser assinado na delegacia pelas prostitutas presas ilegalmente nas ruas da cidade; e o I Encontro de Prostitutas do Pará, realizado em Belém, no ano de 1991, as mulheres puderam contar com o apoio institucional do governo daquele estado. Naquele mesmo ano, uma rádio comunitária foi criada na Vila Mimosa. E no ano seguinte, o Programa Prostituição e Direitos Civis desvincula-se do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e passa a existir como a organização não-governamental Davida - Prostituição, Saúde e Direitos Civis, assessorando a fundação de novas associações em todo o Brasil e difundindo, através do jornal Beijo da Rua, os ideais da Rede.
Em 1988 a Assembleia Constituinte promulgou também a nova Constituição. Com ela, o Ministério da Saúde criou o Sistema Único de Saúde (SUS) e o seu Programa Nacional de AIDS, que viria desempenhar o papel determinante de incentivo à formação associativa das prostitutas, em todo o território nacional, e à participação da categoria nas Coordenações Estaduais e Municipais de DST/AIDS. O aparato institucional de promoção e apoio às associações passou a reflectir tanto o resultado da mobilização das militantes quanto um estímulo à participação política cada vez mais florescente. Agentes de saúde, profissionais do sexo e, mais recentemente, profissionais da sexualidade são terminologias que foram testadas e cunhadas na démarche das actividades associativas e no diálogo estabelecido entre os grupos organizados e o Estado. Para este, tais terminologias permitem melhor formular as acções multiplicadoras, com a qual se espera alcançar um determinado resultado junto aos membros da categoria do agente.
No que concerne aos interesses dos grupos, essas terminologias podem não passar de eufemismos ou, em alguns casos, representar uma nova profissão, o que gerou inúmeros e aguerridos debates entre as prostitutas militantes. Apesar desses imponderáveis, as terminologias vieram mudar, de todo modo, certos paradigmas relativos à prostituição ao considerarem os membros da categoria como profissionais do sexo ou da sexualidade. Permitiram também realçar uma série de procedimentos e capacidades desenvolvidas no aprendizado do métier. O emprego dessas terminologias possibilitaram, ainda, incluir e manter o debate sobre a prostituição nas mais diversas arenas sob a perspectiva do trabalho e, mais precisamente, à luz de determinadas competências reconhecidas para o exercício de um ofício. Ofício e custos aprendidos, por sua vez, nas interacções que ocorrem em determinados horários, situações, ruas e casas da cidade e que serão, a seguir, objecto de nossa atenção. 
A prostituição e a cidade: problemas públicos e identidade social
Durante quase todo o século XX o Rio de Janeiro comportou, em sua região central, conhecida como Cidade Nova, uma vasta área onde o baixo meretrício floresceu e perdurou. A Zona do Mangue, como era chamado aquele conjunto de ruelas e casas que se estendia às margens do canal, estava próxima das estações dos trens da Central do Brasil e da Leopoldina, e ligava-se ao cais do porto pelo bairro vizinho da Gamboa. Além disso, abrigava em seu perímetro pequenos alojamentos, cortiços, pensões e casas de zungu (data de 1877 e, em língua quimbundo, nzangu, quer dizer confusão, barulho, rixa. Casa de zungu possuía as mesmas características das casas de cómodo, ou seja, residências multi-familiares cuja ocupação ocorria sobretudo nos casarões da região central da cidade) que proporcionavam o acolhimento dos trabalhadores que por ali passavam nas suas rotinas quotidianas ou na chegada à cidade. Precisamente pela razão de sua localização e pelo grande número de pessoas que concentrava, (entre 1920 e 1930, para cada três brasileiras que trabalhavam no Mangue havia uma estrangeira. As polacas e as francesas eram maioria, contabilizando cerca de dez mil escravas brancas que entre 1918 e 1930 desembarcaram nos portos brasileiros para se prostituírem. Nas fichas reunidas no 13º. Distrito de Polícia vê-se que ali também aportaram romenas, russas, jugoslavas, argentinas e, entre todas, predominavam as judias, pois muitos traficantes de mulheres eram israelitas), instalaram-se nos limites do Mangue duas instituições disciplinares responsáveis por destinar àquela área a função capital de um cordão sanitário. A primeira delas foi o Hospital São Francisco de Assis, em 1922, que passou a funcionar no antigo prédio do primeiro asilo de mendigos da cidade. Dois anos antes de abrirem as portas como hospital destinado ao tratamento de doenças venéreas, o governo da antiga capital da República já havia mandado retirar as prostitutas que faziam o trottoir em outros bairros centrais, obrigando-as a permanecerem nos lupanares do Mangue durante a visita do rei e da rainha da Bélgica à cidade. A segunda instituição disciplinar instalada na região foi o 13º. Distrito de Polícia, o qual mantinha nos seus arquivos um ficheiro com o nome de todas as mulheres que trabalhavam nos bordéis locais». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010. 
 
Cortesia de RAntropologia/JDACT

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «As rubricas podem contemplar desde a capacitação de pessoal, o trabalho de campo, a elaboração de material para campanhas preventivas, reuniões e o fomento institucional, entre outras possibilidades mais pontuais»

 
Cortesia de wikipedia

«(…) Por isso, fazer reconhecer a prostituição como uma ocupação tornou-se um dos principais objectivos das associações de prostitutas de diversos países, encontrando, no Brasil, apoio entre os agentes do Ministério da Saúde e, por conseguinte, do Ministério do Trabalho e do Emprego. Utilizando a metodologia por pares e beneficiando-se da ideia de agente multiplicador, ou seja, da acção de um membro da categoria informando os outros membros sobre determinado problema e modos de agir, o Ministério da Saúde não só consubstanciou a formação das associações como as transformou em seu braço direito no combate às doenças venéreas e AIDS. O auxílio institucional e financeiro para campanhas de fortalecimento da identidade colectiva representou a consolidação de um novo capital social e político e, do mesmo modo, cumpriu o papel de um seed money que veio contribuir para o processo de definição da categoria como uma ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho. Segundo o conjunto dos conceitos empregados na formulação dessas políticas de saúde, o leitmotiv de toda a empreitada se assenta nos argumentos de resgate da auto-estima, resgate da cidadania e de redução de vulnerabilidades, como forma de melhor estimular o cuidado de si no âmbito da vida pessoal, mas também, e de maneira inextrincável, no âmbito da vida cívica. As reivindicações das prostitutas brasileiras por reconhecimento não se restringiu, ao novo papel de interlocutores competentes para a definição das políticas e das ações do MS. Inúmeras outras iniciativas do grupo, ligadas também à cultura e à moda, afastaram de vez o discurso vitimizador instituindo, no espaço público, uma concepção da actividade pautada pela escolha e não pelas vicissitudes da vida. Com isso, atraíram a atenção e a simpatia de um público mais amplo e tornaram conhecidas as causas da categoria.
 
Visibilidade pública
A partir dos anos 1990, a ONG Davida, fundada pela presidente da Rede Brasileira de Prostitutas (D. Gabriela Silva Leite) e com sede no Rio de Janeiro, montou peças de teatro e organizou serestas em vários pontos de prostituição da cidade. Na década seguinte, a mesma associação ganharia visibilidade internacional com a criação da Daspu, grife para a qual desfilaram não só as prostitutas que fazem o trottoir na Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, como manequins de renome. Na Vila Mimosa, conhecida zona de prostituição situada em região contígua ao centro de negócios da cidade, desfiles de moda também foram organizados. Aqui, no entanto, pela associação dos proprietários dos bordéis para serem protagonizados pelas prostitutas que ali trabalham. Para este desfile, a associação comprou máscaras para que as mulheres preservassem suas identidades. Estas, no entanto, preferiram deixar o rosto à mostra, surpreendendo os organizadores do evento.
Estes dois episódios exerceram um forte apelo na de comunicação social, tendo sido fartamente noticiado pela imprensa nacional e estrangeira o modo como se deu, nos dois casos, a exibição pública dessa identidade social. Os leads precisavam, no entanto, que as iniciativas partiram de grupos distintos (prostitutas, no primeiro caso; cafetinas e empresários, no segundo), reunidos em associações em torno dos quais se estruturam duas das principais áreas de prostituição na cidade do Rio de Janeiro: a Praça Tiradentes, localizada na área central de negócios, e a Vila Mimosa, espécie de cidade cenográfica da prostituição carioca, cujos bordéis funcionam em uma rua sem saída, entre os trilhos das duas gares da cidade, próximo ao centro de negócios do Rio. Essas associações, formadas por prostitutas ou por empresários da prostituição, disputam, hoje, recursos provenientes de programas financiados pelo Ministério da Saúde, através de acordos bilaterais estabelecidos com o Banco Mundial, do BID, de ONGs internacionais e, até 2004, da USAID. Nem todas integram a Rede Brasileira de Prostitutas, defensora do reconhecimento profissional da categoria e principal parceira do MS nas campanhas de prevenção da AIDS e das doenças sexualmente transmissíveis (DST). Em função disso, os conteúdos dos projectos podem variar tanto em termos de metodologia quanto em suas finalidades, embora sejam todos destinados a sustentar campanhas de prevenção junto a uma mesma população. Os principais recursos são obtidos através de projectos estruturados com um pequeno orçamento e encaminhados pelas associações ao Ministério da Saúde. As rubricas podem contemplar desde a capacitação de pessoal, o trabalho de campo, a elaboração de material para campanhas preventivas, reuniões e o fomento institucional, entre outras possibilidades mais pontuais.
Mas é o estímulo à formação de novas associações de profissionais do sexo e seu fortalecimento institucional a principal finalidade a ser alcançada através dos financiamentos oferecidos, sobretudo, pelo Ministério da Saúde. Esta, ao menos, foi a pauta estipulada pela Rede Brasileira de Prostitutas e apoiada pela Comissão Nacional de AIDS (CNAIDS). A participação dos chamados profissionais do sexo categoria que abrange prostitutas, travestis e michês, no trabalho de prevenção da AIDS e das DST é considerado, tanto pelos agentes do MS quanto pelos demais membros da CNAIDS, um dos factores responsáveis pelo reconhecimento do Programa Nacional de AIDS brasileiro como um dos mais bem estruturados e eficazes do mundo». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010.
 
Cortesia de RAntropologia/JDACT

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «… objectivos do processo de profissionalização. O termo profissão pode, por isso, ser interpretado como um símbolo da concepção do trabalho que é reivindicado e, por conseguinte, um símbolo do” eu”»

Cortesia de wikipedia 

Resumo
«Este artigo procura analisar o percurso de mobilização das prostitutas no Rio de Janeiro até o reconhecimento de uma identidade profissional. A formação das associações de prostitutas no Brasil, a partir dos anos 1980, a participação efetiva no movimento de prevenção da AIDS e a interlocução com o Ministério da Saúde na conquista do almejado registro da prostituição na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), do Ministério de Trabalho, contribuíram para a definição de suas causas e serão aqui restituídos de seus contextos político, social e urbano, de modo a evidenciar o desenvolvimento de um código deontológico de um grupo profissional».
 
... la morale de demain será ce que seront les convictions de demain relativement à l’importance, à la nature et à la signification des rapports sexuels. In Gabriel Tarde, La morale sexuelle, 1902.
 
«A prostituição é uma actividade estigmatizada, proibida em alguns países e em outros tolerada ou regulamentada. Apesar dos problemas que a cercam, é também conhecida como a profissão mais antiga do mundo. Considerá-la deste modo supõe, entre outras coisas, certa virtude no seu exercício e um status positivo para essa ocupação. Pois o conceito de profissão, visto da perspectiva interacionista privilegiada por Everett Hughes (1996), é antes um julgamento de valor e prestígio do que um termo descritivo. Também para Howard Becker, profissão é ainda um folk concept que nada diz sobre as especificidades do trabalho levado a termo por certos profissionais, mas sim sobre seu status. Perguntar-se, então, se um métier é uma profissão obscurece questões mais fundamentais como, por exemplo, em que circunstâncias os membros de um métier tentam transformar o seu ofício em uma profissão? No momento em que a profissionalização se torna um objecto de discussão entre os membros do métier, pode-se observar que esta tendência corresponde à mobilidade colectiva de alguns (ou muitos) deles. Identificar aqueles que não acompanham essa mobilidade passa a ser um dos objectivos do processo de profissionalização. O termo profissão pode, por isso, ser interpretado como um símbolo da concepção do trabalho que é reivindicado e, por conseguinte, um símbolo do eu. Por essa razão, considerar o contexto em que essa mobilidade se produz e se transforma em objecto de discussão torna-se imprescindível. E isto na medida em que uma causa é sustentada não só pelos actores directamente interessados, mas, sobretudo, por aqueles outros, persuadidos de sua pertinência e capazes de conduzi-la e de legitimá-la em outras arenas.
Reivindicar a prostituição como uma profissão obriga a distinção de condutas, posturas, procedimentos, direitos, deveres e certa ética. Mas não só: para a aquisição de certas competências e a assunpção de responsabilidades, torna-se necessário recusar o papel de vítima, frequentemente atribuído às prostitutas independente do contexto em que exercem a actividade. Paralelamente às reivindicações de reconhecimento, empreendidas por prostitutas em diversos países do mundo, as histórias tristes (sad stories) continuam integrando os repertórios de argumentação de muitas dessas mulheres, de modo a justificar, paradigmaticamente, a entrada, noção demarcadora, no métier. Para o desempenho de uma actividade estigmatizada, como a prostituição, o indivíduo munido de uma história triste pode melhor organizar a sua vida, diz Goffman (1975). Mas, em contrapartida, deverá resignar-se a viver em um mundo incompleto onde figura como alguém prestes a ser desacreditado em função dos atributos do estereótipo que encarna. Ao fazer uso da história triste, que relata o momento fundador da possessão do seu estigma, a prostituta se desembaraça, justamente, da responsabilidade de ter efectuado uma escolha. Por serem eminentemente tristes, essas narrativas justificadoras distanciam o sujeito das virtualidades, confiança, respeito e estima, que lhe asseguram o auto-reconhecimento positivo do qual necessita para se sentir uma pessoa normal. E, entre outras coisas, uma profissional.
Mudar o registro da justificação de uma fatalidade para algo que possa ser percebido como uma opção é, portanto, abrir uma perspectiva sobre as responsabilidades assumidas com essa escolha. Um horizonte profissionalizante pode, então, se esboçar. E, entre as responsabilidades exigidas para a oferta de tal serviço, o cuidado do próprio corpo surge como uma das condições primeiras para o desempenho da função de prostituta. Mesmo que a tendência profissionalizante se torne pronunciada, nem sempre ela é capaz de mudar o status do indivíduo estigmatizado. Contudo, esse movimento, na medida em que ganha espaço nas arenas públicas, permite a formação de um novo consenso, possibilitando uma nova auto-representação e, com ela, uma transformação do ego e novas formas de agir». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010.
 
Cortesia de RAntropologia/JDACT

terça-feira, 17 de abril de 2012

Trabalhador do Conhecimento. Profissão. Thomas Davenport. «O mais difícil é identificar as pessoas que clara e definitivamente não são trabalhadores do conhecimento. [...] o facto de o número de funções que não requerem qualquer nível de conhecimento ter vindo a diminuir ao longo do tempo»



jdact

O que é um trabalhador do conhecimento?
«O que é um trabalhador do conhecimento? Há mais de uma década que os tenho definido da seguinte forma:
  • Os trabalhadores do conhecimento possuem competências de elevado nível, formação, ou experiência, e o principal objectivo das suas funções envolve a criação, distribuição ou aplicação de conhecimento.
 Os trabalhadores do conhecimento utilizam o pensamento como forma de vida. Qualquer aumento da carga de trabalho é intelectual, não física, logo, eles vivem de forma racional. Resolvem os problemas, compreendem e vão de encontro às necessidades dos consumidores, tomam decisões e comunicam com outras pessoas enquanto desempenham as suas funções.
É fácil apontar exemplos de trabalhadores do conhecimento:
  • médicos e físicos;
  • cientistas e escritores de ficção científica;
  • pilotos e ‘designers’ de aviões.
Reconhecemo-los assim que os vemos. Não têm necessariamente de trabalhar em indústrias ‘conhecimento-intensivas’; os gestores de qualquer empresa são sempre trabalhadores do conhecimento, que recorrem a ele para tomar decisões no melhor interesse das suas empresas. Até uma organização de cariz mais industrial possui engenheiros, investigadores, profissionais de ‘marketing’ e planeadores. Os trabalhadores do conhecimento operam em pequenas empresas emergentes e em grande empresas globais.
Fora do local de trabalho, residem em zonas badaladas das cidades e em zonas suburbanas de classe média ou alta; alguns deles mudaram-se para empreendimentos mais afastados e fazem o seu trabalho virtualmente. Muitas das pessoas com quem a maioria dos leitores deste livro se relaciona profissional ou socialmente, podem ser trabalhadores do conhecimento.
O mais difícil é identificar as pessoas que clara e definitivamente não são trabalhadores do conhecimento. A maioria das funções exige algum nível de conhecimento Para ser cumprida com sucesso; e, provavelmente, é também verdade o facto de o número de funções que não requerem qualquer nível de conhecimento ter vindo a diminuir ao longo do tempo. Mesmo que eu conduza um táxi, necessito de alguns conhecimentos geográficos para chegar ao destino (os taxistas de Londres, em particular, têm de possuir ‘o conhecimento’ das ruas da cidade antes de obterem as suas licenças). Mesmo que eu vendesse bilhetes num cinema, eu precisaria, quer de conhecimentos na prestação de serviços ao consumidor, quer da capacidade de me aperceber de quando alguém está a tentar entrar sem pagar. Até mesmo os operários de escavação de diques devem possuir alguns conhecimentos sobre as condições do solo e sobre como ler-anta: baldes cheios de desperdício sem magoarem as suas costas. Agrada-me a ideia de que cada vez mais trabalhadores precisam de conhecimento nas suas funções. Porém, isso não faz deles necessariamente trabalhadores do conhecimento.
As definições existentes de trabalhadores do conhecimento, que incluem qualquer pessoa que utilize o conhecimento na sua função, não são muito úteis. Peter Druckel, por exemplo, definiu ‘trabalhador do conhecimento’ como ‘alguém que sabe mais acerca do seu trabalho do que qualquer outra pessoa dentro da sua empresa’. Drucker estava certamente consciente do facto de que o trabalho do conhecimento se está a tornar cada vez mais importante; e está certo quando afirma que, normalmente, os trabalhadores do conhecimento compreendem melhor as suas funções do que os outros. Porém, esta definição também pressupõe que os taxistas, os funcionários das bilheteiras e os operários de escavação de diques não estão incluídos na definição de "trabalhador do conhecimento” de Drucker; adicionalmente, a sua definição também implica que só existe um trabalhador do conhecimento por função e por empresa». In Profissão. Trabalhador do Conhecimento, Thomas Davenport, 2005, Biblioteca Exame, Concept Advertising, 2007, ISBN 978-989-612-282-9.

Cortesia Concept Advertising/JDACT

segunda-feira, 5 de março de 2012

Trabalhador do Conhecimento. Profissão. Thomas Davenport. «Porém, alguns dos seus analistas são, definitivamente, mais produtivos do que outros. Uma delas, por exemplo, gera duas vezes mais cobertura da imprensa e encontra-se com duas vezes mais analistas da indústria do que qualquer outro membro da equipa»

jdact 

Afinal, o que é um trabalhador do conhecimento?
Como ser mais produtivo e eficaz no desempenho das suas funções.
«Robin sente-se fora de controlo. Ela é a responsável pelas relações com a imprensa e com analistas de uma grande empresa de serviços profissionais. As oito pessoas que a ela reportam são ‘trabalhadores do conhecimento’. Algumas lidam com tipos particulares de relações com a imprensa e outras com analistas da indústria da tecnologia. Algumas das relações em causa são geridas pessoalmente por ela. A sua função consiste em melhorar a imagem da empresa perante estes agentes externos; mesmo para ela, esta é uma missão de certa forma vaga e difícil de quantificar.
Apenas metade das pessoas da sua equipa trabalham com ela na sede, em Nova lorque; e apenas uma destas quatro está no seu piso. São todas relativamente independentes nos seus hábitos de trabalho e Robin não vê a maioria delas com grande frequência. Algumas trabalham regularmente a partir de casa. A equipa costumava tentar reunir-se uma vez por mês, porém, a empresa impôs restrições no orçamento para deslocações, por isso estes encontros deixaram de ser possíveis. Robin sente que na maior parte do tempo não sabe exactamente o que a sua equipa está a fazer Claro que ela sabe o que se passa na ‘conference call’ semanal; mas o que estão elas a fazer quando não estão em reuniões? Robin pensa confiar na equipa, mas tem sempre dúvidas perturbantes em relação a quão árdua e eficazmente as pessoas estão a trabalhar.
Robin definiu alguns indicadores para a sua equipa tais como o número de menções na imprensa ou avaliações favoráveis nos relatórios dos analistas. Porém, quando algo não corre bem, os membros da equipa têm sempre uma explicação pronta: 
  • ‘Um dos nossos principais líderes de pensamento deixou de exercer’, ou ‘Aquele analista teve sempre um ressentimento em relação a nós’.
Mas de que outras formas poderá ela avaliar a força de elementos tão intangíveis quanto ‘relações e imagem’? E, na maior parte dos casos, os membros da sua equipa têm razão: eles têm relações mais próximas com os jornalistas, editores e analistas do que a Robin. Ela conhece o negócio muito bem por também o ter feito, mas tem consciência de que o trabalho muda muito de dia para dia e é altamente dependente de factores inter-pessoais. Como resultado, ela tem alguma relutância em criticar directamente o que aparenta ser um mau desempenho porque não pode perder os relacionamentos e a proximidade que as pessoas da sua equipa construíram ao longo do tempo.

Cortesia de papodeempreendedor

Porém, alguns dos seus analistas são, definitivamente, mais produtivos do que outros. Uma delas, por exemplo, gera duas vezes mais cobertura da imprensa e encontra-se com duas vezes mais analistas da indústria do que qualquer outro membro da equipa. Outros analistas no grupo subestimam o seu desempenho:
  • ‘Os tipos de serviços que ela representa têm mais a dizer do que os meus’.
Porém, Robin pensa que a razão está em algo que esta analista faz. Já tentou descobrir o segredo do sucesso, mas nunca o discutiu directamente com ela porque tem receio que a profissional de elevado desempenho peça um aumento se Robin abordar tão directamente o seu desempenho extraordinário.
Robin pensa constantemente em formas de obter o máximo dos membros da sua equipa, porém, raramente fica convencida de ter a resposta. Na ‘conference call’ desta semana por exemplo, planeia anunciar uma iniciativa para comunicar a nova campanha de ‘marketing’ da sua empresa à imprensa e aos analistas. Ela tem a certeza de que alguns dos membros mais participativos a lembrarão de que ‘o canal já está sobrelotado; não podemos forçá-lo mais’. Mas, na realidade a situação é pior do que eles suspeitam: foi-lhe dito pelo seu chefe que talvez tivesse que despedir um dos seus colaboradores em virtude de um corte orçamental para o ano seguinte. Todos terão que fazer mais com menos; todos terão que ser mais produtivos. Porém, Robin pensa que é difícil imaginar uma forma de obter mais resultados de pessoas que ela raramente vê e que conhecem melhor os seus próprios trabalhos do que ela. No curto prazo, decide apenas telefonar a um jornalista com quem ela tem tentado criar um relacionamento; é mais fácil fazer o seu próprio trabalho de conhecimento do que melhorar o dos outros.
Tal como a Robin você e eu, e a maioria dos nossos amigos e colegas, somos trabalhadores do conhecimento. Todos pensamos como forma de vida. Como a Robin muitos de nós gerimos outros trabalhadores do conhecimento. Todos fazemos o nosso trabalho o melhor que sabemos? Podemos, tal como a Robin, descobrir uma forma de obter melhores resultados por parte dos trabalhadores do conhecimento?
A maioria de nós nunca sequer analisou o seu próprio desempenho, ou teve uma grande ajuda por parte dos empregadores para nos tornarem mais produtivos e eficazes.
Queremos tomar-nos mais eficazes a fazer o nosso trabalho, e ajudar os outros a conseguir o mesmo, mas não sabemos como. Sabemos mais acerca do nosso trabalho do que qualquer outra pessoa, por isso, é difícil para um gestor tentar melhorar a nossa ‘performance’ e, de qualquer forma, não gostamos que nos digam o que devemos fazer». In Profissão. Trabalhador do Conhecimento, Thomas Davenport, 2005, Biblioteca Exame, Concept Advertising, 2007, ISBN 978-989-612-282-9.

Cortesia Concept Advertising/JDACT