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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ao Fim da Memória (1906-1939). Fernanda de Castro. «Por uma grande escada de pedra chegávamos aos aposentos da tia Emiliana, Que se compunham de sala, quarto de dormir e quarto de vestir e lavagens. O quarto de dormir tinha uma janela que dava para o Tejo»

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«(…) Também me lembro da casa da minha bisavó, em Cacilhas, isto é, lembro-me duma casa onde havia sempre muita gente, onde não me obrigavam a beber café com leite, onde ninguém me ralhava nem me punha de castigo- O resto, os pormenores, o tempo se encarregou de mo revelar, à medida que íamos crescendo, os meus irmãos e eu. Era uma casa pombalina, cor-de-rosa. Nem pequena nem enorme, tinha janelas de sacada com grades pintadas de verde e muitos vasos de sardinheiras nas varandas. A casa de jantar e a sala, ambas muito grandes, tinham pinturas a fresco nas paredes, cenas de caça na primeira, anjinhos, instrumentos musicais e grinaldas de flores na segunda. Os quartos, excepto o da minha bisavó e o da tia Emiliana, eram alcovas com portas de vidrinhos que davam para a sala e para a casa de jantar. O sótão, enorme, tinha um delicioso cheiro a pó e a bafio. Por uma grande escada de pedra chegávamos aos aposentos da tia Emiliana, Que se compunham de sala, quarto de dormir e quarto de vestir e lavagens. O quarto de dormir tinha uma janela que dava para o Tejo, podendo ver, quando estava deitada, o vaivém das fragatas no rio.
No pátio lajeado da cozinha havia outra escada de pedra, toda enredada numa trepadeira que dava umas flores esverdeadas chamadas martírios. A quinta que me parecia muito grande era na realidade pequena e bastante mal tratada por falta de água e por já não haver, nessa altura, hortelão nem jardineiro. Ainda assim tinha algumas árvores de fruto, pereiras e macieiras, alguns pés de uva moscatel, uma enorme amoreira e duas figueiras que davam uns figos pequenos mas muito doces. E havia ainda o mirante, a praia da Margueira e o poço onde, dizia a cozinheira Guilhermina, viviam lagartos e lacraus. A tarde cai lentamente, o Sol começa a diluir-se no horizonte, a Ria é agora um espelho que recolhe os últimos lumes do poente, um espelho que umas vezes parece azul, outras vezes cinzento, outras de prata velha. Estou a ver a água parada, a olhar aquelas aves brancas duma brancura de cisne, que se perfilam no horizonte a tentar surpreender a ondulação dos peixes. Estou aqui na ilha de Faro, à beira da Ria, mas que fio de Ariana me levou para bem longe, para a casa da minha infância? A doçura da tarde? O voo das gaivotas? Os reflexos dos últimos raios de sol na água imóvel? De repente compreendi: não era o lento subir da maré que eu captava, nem o sussurro da água na areia, mas o longínquo marulhar do Tejo na pequena praia da Margueira.
Os dias aqui decorrem serenos, mas cheios de acontecientos importantes. Esta manhã reparei que algumas figueiras tinham pequenos tufos de folhas tenras nas extremidades dos braços descarnados, e tanto bastou para que deixasse de acreditar nas penas eternas. Deus é infinitamente misericordioso, e Judas arrependeu-se: Não há árvores malditas. Esta noite o mar rompeu os diques, desconjuntou os barcos, derrubou as barracas dos pescadores e arremessou à praia uma pequena Cyprea do Mediterrâneo, ainda viva, e uma gaivota do Atlântico já morta. O fragor do mar parece o rugido dum leão que fosse capaz de rugir a noite inteira. Não sei se é um bem, se um mal esta corrida para o espaço, mas não posso esquecer os olhos angustiados daquela criança que me perguntou ao ver no Cinema um foguetão apontado para o céu: vão matar os anjos? Sim, confesso: estou de mau humor por causa da Lua. A Lua sempre foi dos Poetas, não esse miserável planeta que os sábios inventaram, mas a Lua que eu amo, ninhada de luar, algo de branco puro, inacessível, algo para cantar quando o silêncio, a noite, a solidão são lágrimas de sangue que o Poeta se recusa a chorar». In Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória (1906-1939), Editorial Verbo, Lisboa, 1988, Depósito legal nº 21636.

Cortesia de EVerbo/JDACT

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ao Fim da Memória (1906-1939). Fernanda de Castro. «Um misto de memórias e de diário poético, que transfigura o mundo que a envolveu e evoca as transformações do modernismo. Testemunho apaixonado de um largo período da nossa história contemporânea»

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Memórias
«No dia em que nasci, os meus pais discutiram por minha causa. Faltavam cinco para a meia-noite, afirmava peremptoriamente a minha mãe. Era meia-noite e cinco, rectificou o meu pai. Bem sabes que o meu relógio nunca se adianta. Tudo isto porque nasci por volta da meia-noite, mais minuto menos minuto, conforme os diferentes relógios da casa. Conclusão: meu pai, que se dizia ateu, decidiu que eu nascera aos cinco minutos de 9 de Dezembro. Minha mãe, católica praticante, afirmava que eu nascera nos últimos cinco minutos do dia 8, dia de N. S. da Conceição. Assim, para tudo o que é oficial, passaporte, B. I., etc., nasci a 9. Para a minha família, porém, para os amigos, para a festinha de anos, para as prendas, para o arroz-doce e leite-creme polvilhados com canela, nasci a 8, e assim tem sido sempre, e assim será até ao fim. Surpreendi-me agora a sorrir. Se lá onde estão podem ver o que se passa cá em baixo, a querela continua. Bem sabes que o meu Omega nunca se engana. Ao que a minha mãe responde: O dia oito é, um dia mais bonito, o dia da N. S., Padroeira de Portugal.
E vejo-a muito feliz, com as flores, as prendas, as velas, a fita vermelha, com que, a muito custo, conseguiram prender-me os cabelos rebeldes. Há pessoas que se lembram de coisas que lhes aconteceram aos quatro e até três anos de idade. Não é o meu caso; por mais que pense, que force a memória, só me lembro de coisas vagas, de frases soltas que parecem sem sentido e, mesmo assim, pelas minhas contas, nada antes dos meus cinco anos. Lembro-me, por exemplo, de estar no campo sentada debaixo de uma árvore e de ouvir gritar: fujam, fujam, anda aí um touro tresmalhado! Uma vez entrei de mão dada com a minha tia Castelo num lugar onde havia bolos de muitas cores, uma pastelaria, com certeza. Tem violetas?, perguntou a minha tia. Ah!, como me lembro bem do som das patas dos cavalos, no chão empedrado da cocheira, quando havia visitas e eu dormia numa cama de chão, na sala. Sempre que havia trovoadas, íamos todos para cima da cama da minha bisavó, embrulhados em cobertores de papa. A minha ama gritava: Santa Bárbara, valei-nos! Valei-nos, Santa Bárbara!
Uma vez a minha mãe, que era míope, tentava ler o letreiro de um eléctrico. Eu soletrei: Rossio. Estupefacta, a minha mãe perguntou-me: tu sabes ler?! Mas eu não sabia, sabia só juntar algumas letras, graças à costureira Jacinta, graças sobretudo a uns cubos que me tinham dado em letras encarnadas e azuis. Longe, mais longe, nos confins da memória, a Carolina a gritar: um lobisomem! Um lobisomem! Arrastada pelos braços, aterrada, estive dois dias sem poder falar. A primeira recordação nítida, sem aquela espécie de nevoeiro que envolvia as outras, deve ser dos meus cinco anos e meio, data confirmada pela família: Eu tinha febre e o médico mandou-me tomar quinino. Estava então a passar férias no campo, para os lados de Belas ou do Cacém, com a minha tia Castelo, que foi à botica aviar a receita. O quinino vinha embrulhado em papel de seda, papel de mortalha, e devia engolir-se assim mesmo, com papel e tudo. Mas a minha tia não sabia, deitou fora o papelinho e deu-me o quinino numa colher de chá. Horror! Não houve chá nem açúcar nem rebuçados que me valessem! Aquele pó era tão horrivelmente amargo que ainda hoje o sinto na língua e nas gengivas cada vez que oiço a palavra quinino. Todas as pequenas coisas de que acima falo me pareciam então carregadas de mistério.
Mais tarde compreendi, com pena, que tudo era simples e natural: o toiro fugira da manada e o campino andava a procurá-lo; as violetas que a minha tia Castelo queria eram violetas cristalizadas, guloseima muito apreciada no princípio do século; o lobisomem era a sombra de um cipreste agitado pelo vento, que assustara uma pobre criatura boçal: só não me desiludiu nunca o bater das patas dos cavalos no chão empedrado da cocheira e o cheiro a palha fresca e a feno que passava pelas frinchas das velhas tábuas do sobrado da sala». In Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória (1906-1939), Editorial Verbo, Lisboa, 1988, Depósito legal nº 21636.

Cortesia de EVerbo/JDACT

domingo, 8 de março de 2015

Neste Domingo. Homenagem. Fernanda de Castro. «O perfeito não se manifesta. O santo chora e é humano. Por isso podemos amar o santo (a), mas não podemos amar os deuses…»

jdact e wikipedia

Alegria
«De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,
de pequenas traições
que achei no meu caminho...,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

Duma nova amargura...
De cada crueldade
que pôs de luto a minha mocidade...
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte...
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Volúpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raiz.

Volúpia de sentir na minha mão,
a côdea do meu pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte
é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir
o tédio,

Esse estranho cilício,
e de entregar-me à vida como a
um vício.

Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!
Poema de Fernanda de Castro, in ‘D'Aquém e D'Além Alma’


JDACT

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Jazz em Quinta. Brasil. Bossa Nova. «Eu que só quero o que ninguém cobiça, oiros de sol e pratas de nevoeiros, filigranas de flores nos canteiros, folhas soltas que o vento desperdiça, espuma de marés, conchas vazias, cintilações de estrelas, céus distantes, gotas de orvalho…»

jdact

«Eu que só gosto de vestidos velhos,
de velhas casas com paredes tortas,
de poeiras ancestrais, de cinzas mortas,
de desbotados rosas e vermelhos…

Eu que só gosto de velhos quintais
com ásperas roseiras mal regadas;
de cortinas de rendas passajadas
por velhos dedos, com velhos dedais…

eu que só gosto de velhas gavetas,
de velhas malas com cetins puídos,
sedas, fitas, perfumes esquecidos,
leques, missais, raminhos de violetas…
[…]


«Eu sei onde nasci; naquela rua
de árvores mortas e de velhas casas
onde ensaiei os meus primeiros passos,
e onde as minhas pueris, tímidas asas,
se transformara simplesmente em braços.

Mas que importa? Sinto-me perdida
como alguém que em menino se perdeu
e sei que a minha vida é outra vida,
e sei que não sou eu, que não sou eu!
Que venho de mais longe… da distância
que medeia entre o sonho e a realidade,
que nunca teve pátria a minha infância,
que nunca teve idade a minha idade.
Que o meu país, se existe, é como a quilha
de um barco a demandar inutilmente
uma impossível, ignorada ilha
banhada por um mar inexistente.

E contudo eu nasci naquela rua
de árvores mortas e de velhas casas
onde ensaiei os meus primeiros passos,
e onde as minhas pueris, tímidas asas,
se transformaram simplesmente em braços».
Poemas de Fernanda de Castro, in ‘Exílio’

JDACT

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Poesia. Fernanda de Castro. «Saudade não é dor nem amargura, dilui-se ao longe a derradeira festa. Não me tentam as rotas da aventura, agora sei que a minha estrada é esta: difícil de subir, áspera e dura, mas branca a urze, de oiro puro a giesta»

jdact e cortesia de wikipedia

Quem pudera Cecília
Tenho fome de campo e de verdura,
de terra bem lavrada,
e sede, muita sede de água pura.

Quero pegar no cabo de uma enxada,

quero cheirar os troncos e as raízes,
pisar, descalça, a terra ainda molhada,
ver, nas noites, o rasto das perdizes.

Já Cecília Meireles o dizia,
com imenso carinho:
“Portugal não tem campo, tem campinho.”
E ria, ria,
rasgando as mãos nas silvas,
comendo amoras, colhendo malmequeres, madressilvas.

Tinhas razão, Cecília.
Em Portugal, as estações são festas,
são festas de família,
enfiadas, colares de alegrias;
na Primavera as flores;
os frutos no Verão, e as romarias;
no Outono o vinho novo e o ritual
profano das vindimas.
No Inverno,
a mística alegria do Natal,
as portas bem fechadas,
a lenha a crepitar
e as rabanadas.

Quem pudera, Cecília, quem pudera,
mandar-te para lá, para onde estás,
mm raminho da nossa Primavera.


Alma Serena
Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

Poemas de Fernanda de Castro, ‘in "Ronda das Horas Lentas"

JDACT

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Leituras. Mariazinha em África. Fernanda de Castro. «’Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite’, David Mourão Ferreira»


Ilustração de Ofélia Marques
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«Mariazinha, porém, estava fula:
- Sabichão das dúzias! Se não me fosse hoje embora, dava-te um puxão de orelhas que até vias as estrelas!
- E eu não te deixava um pêlo na cabeça!
Felizmente, nesse instante, Manuela apareceu a correr, dizendo que o almoço ia para a mesa. Imediatamente, todos se levantaram. Estavam com fome e a cozinheira, para despedida, prometera-lhes uma grande travessa de arroz doce...
O pai destes meninos era oficial de Marinha e havia perto de três anos que estava em África, na Guiné em comissão de serviço. Em todas as cartas mandava dizer que tinha muitas saudades da mulher e dos filhos e, um, dia, acabada quase a época das chuvas, pediu à mulher, que fosse passar uns meses com ele e que levasse Mariazinha, que era a mais velha, e Afonsinho, que era o mais novo, e não podia ainda separar-se da mãe.
Contentíssima, a mãe começou logo a tratar de tudo para poder embarcar o mais depressa possível. Mariazinha não cabia na pele de contente. Gostava de viajar, de ver coisas novas, caras novas, e, como ,era valente e decidida, não a a assustava aquela grande viagem num barco que lhe parecia enorme, capaz de afrontar todos os perigos, mas que, na realidade, deixava muito a desejar.
Na última semana, não tivera mãos a medir. A mãe comprara-lhe vestidos brancos por causa do calor, sapatos de sola de borracha para não escorregar a bordo, uma espécie de capacete, forrado de cortiça, para, evitar o perigo das insolações. Já fizera a sua mala e já acondicionara, num caixote, a caixa de tintas, a linha e os anzóis, a raquette, a carabina e os vinte ou trinta livros de que nunca se separava.
Na véspera, à noite, depois dum dia agitado, a mãe beijara com muitas lágrimas os filhos que ficavam, e estes, muito tristes, haviam chorado, também, e só altas horas da noite tinham sossegado.
Agora, faltavam poucas horas para a partida. O vapor saía às quatro em ponto. Mariazinha, embora o não confessasse, tinha um nó na garganta. Afonsinho andava rabugento, a choramingar pelos cantos. Mas, para despedida, a mãe encomendara um almoço com muitas coisas boas, prometera mandar presentes aos que ficavam, de modo que, ao sair de casa, só ela tinha ainda os olhos tristes, marejados de lágrimas...
Como viviam numa quinta, na ‘Outra Banda’, tiveram de atravessar o Tejo.
Estava um dia lindo, ,sem vento e sem nuvens. Quando chegaram ao cais, já lá estavam os tios, os primos e os amigos. O vapor, cinzento com o cano encarnado, estava a deitar fumo. Os marinheiros andavam dum lado para o outro no convés e os carregadores do cais levavam as malas dos passageiros para as cabines.
Ouviu-se então um apito muito agudo, que era o primeiro sinal de partida. Mariazinha e Afonsinho andavam de mão em mão. A mãe, ao beijar os filhos que ficavam, não podia evitar que as lágrimas lhe corressem em fio pela cara. E todos recomendavam a Mariazinha:
 - Cautela! Não te debruces! Toma conta do teu irmão! Passados momentos, ouviu-se o segundo sinal. No cais, muita gente chorava, acenando com lenços brancos.
 - Senhores passageiros, para bordo! - gritava um criado de casaco branco, agitando uma sineta. Então, levados na onda dos passageiros, separados bruscamente do resto da família, Mariazinha, a mãe e o irmão encontraram-se, sem saber como, no convés do barco, que daí a instantes ia partir e onde teriam de viver longos dias, entre o céu e o mar, à mercê das ondas...
Sobre o rio, balouçavam-se gaivotas. O barco ia a caminho da barra, No cais, os lenços pareciam borboletas brancas». In Fernanda de Castro, Mariazinha em África, literatura infantil, Edições Ática, Lisboa, 1959.

Cortesia de E. Ática/JDACT

Poesia. Fernanda de Castro. «Lentamente, cresceste, eras frágil, pequena, como um pé de violeta. Vergavas sob o peso duma abelha ou duma borboleta. Depois, cresceste a muito custo, o pé de violeta transformou-se em arbusto»



jdact e cortesia de wikipedia

Ó Árvore
Ó árvore, alguém pensou
na tua imensa alegria
quando enfim rompeste a crosta
e alcançaste a luz do dia?

Manhã cedo, na mata,
respira-se mais fundo.
Tudo é puro, auroral, duma inocência
de princípio do mundo.
De ti mesma cativa,
sem pressas, folha a folha, vais crescendo
com uma falsa indolência

Árvore, como invejo
a tua paciência!

Lentamente, cresceste,
eras frágil, pequena,
como um pé de violeta.
Vergavas sob o peso duma abelha
ou duma borboleta.

Depois, cresceste
a muito custo,
o pé de violeta
transformou-se em arbusto.

Então, ano após ano,
o arbusto fez-se árvore, tão forte
que nem o vento lhe faz dano.

Agora, desse tempo, nada resta:
o é de violeta
é um deus da floresta.

Árvore, alguém te perguntou:
És feliz, infeliz,
imóvel presa ao chão
pela raiz?

Árvore,
eu sinto em mim o teu sofrimento,
sempre que o vento, à doida, à toa,
te fere, te magoa,
eu tenho calafrios, pesadelos,
como se o vento em vez de sacudir-te
e de arrancar-te as folhas,
me arrancasse os cabelos.

Quando à noite abro as janelas
não é só por ter calor
ou para ver as estrelas:
é mais para respirar
e para dormir melhor,
porque sei que as tuas folhas,
exalam de noite o ar
que me alivia a fadiga
e que me lava os pulmões,
ó árvore minha amiga.

Pássaros, vossa vida que seria
sem o doce aconchego das ramagens
onde escondeis as asas e as plumagens,
quando anoitece, à espera de outro dia?

Quando se cala a vossa melodia
e regressais, exaustos de viagens,
de voos sem destino, de miragens,
de amorosa, secreta fantasia,

voltais à paz do ninho, às vossas casas
onde cabem, exactas, vossas asas
e os filhos que de vós hão-de nascer.

Ó árvores da mata, da floresta,
o chilreio das aves é uma festa
que só a vida pode agradecer.

Árvore,
alguém ouviu o teu lamento
quando o vento,
esse cavalo doido à desfilada,
deixa a sua pegada
em cada flor, cada rebento,
cada frágil ramada?

Se acaso estás cansado,
se uma pena, um cuidado,
uma onda de tédio
te dão a sensação
de que tudo na vida é sem remédio,
vai procurar a sombra duma árvore,
olha as folhas, os ramos, os botões,
enche de ar os pulmões
e saberás, então,
que essa árvore estava à tua espera,
só para te dizer:
"Queiras ou não,
amigo, é Primavera!"

E tudo o mais que as árvores nos dão
na dádiva telúrica e total
duma vida que à vida se destina,
desde a flor e dos frutos à resina,
desde a resina à casca estaladiça
da cortiça,
da cortiça arrancada
à árvore passiva,
à árvore submissa,
deixando-a sangrar, em carne viva.

E tudo o mais que as árvores nos dão:
frutos de inverno, frutos de verão,
ó árvores das matas e das quintas,
para as bocas sedentas,
para as bocas famintas.

E onde vamos buscar as nossas brasas,
o lume das lareiras, o calor,
e as madeiras das casas,
das vigas ao sobrado?
Acaso não será à tua dor
à dor do tronco retalhado
a golpes de machado?

E não esqueçam, por favor,
essas árvores de flor,
que são só para enfeitas,
com seu jeito, sua graça,
cada rua, cada praça;
que são só para alegrar
as vidas sem horizontes,
como se fossem as fontes,
duma tímida esperança;
que são só para enxugar
o choro duma criança
ou lágrimas de mulher,
duma pessoa qualquer;
que são só para evitar
um gesto desesperado
na Cidade indiferente,
quando sofre, lado a lado,
muita gente, tanta gente:
que são só para abrigar,
quando, à sombra dos seus ramos,
se trocam beijos de amor;
que só servem para pôr
alegria na tristeza
e pouco mais... Para dar
uma gota de beleza
a quem por elas passar...

Essas árvores de flor
que são só para enfeitar.

Se vires uma árvore,
e se fores comigo,
faz, Irmão, o que eu faço:
pára e dá-lhe um abraço,
não tens melhor amigo.
 
Poema de Fernanda de Castro, in em ‘E eu saudosa, saudosa...’ 
(1973)

JDACT

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Hoje, só Poesia. Fernanda de Castro. «Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento, e eu cada vez mais vaga, mais alheada. Percorro o céu e a terra aqui sentada, sem uma voz, um olhar, um movimento»

Cortesia de vered

Já não Vivi, Só Penso
Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.


Os Anos são Degraus
Os anos são degraus, a Vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.

São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da Estrada,
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e mais nada?
Poemas de Fernanda de Castro, in «Asa do Espaço»

JDACT

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Bela Poesia: Fernanda de Castro. Há dias assim... «Não fora o mar e o longo apelo, o canto da sereia, apenas ilusão, miragem»

Cortesia de ciewordpress

Não Fora o Mar!
Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Cortesia de momentosadois

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.
Fernanda de Castro
 
In Memoriam de MLAC
Cortesia de O Citador/JDACT

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Fernanda de Castro: «A primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria (...) que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite»

(1900-1994)
Lisboa
Cortesia de nandafernandarocmsncom

Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro foi uma escritora portuguesa.
Foi juntamente com o marido e outros, fundadora da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, actualmente designada por Sociedade Portuguesa de Autores.

David Mourão-Ferreira, durante as comemorações dos cinquenta anos de actividade literária de Fernanda de Castro disse: «Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite».
Parte da vida de Fernanda de Castro, foi dedicada à infância, tendo sido a fundadora da Associação Nacional de Parques Infantis, associação na qual teve o cargo de presidente. Como escritora, dedicou-se à tradução de peças de teatro, a escrever poesia, romances, ficção e teatro.

 Fotografia de Cecil Beaton
Algumas das suas Obras:
  • Náufragos (1920) (teatro);
  • Maria da Lua (1945) (romance), prémio Ricardo Malheiros, a primeira mulher a obter este prémio da Academia das Ciências;
  • Antemanhã (1919) (poesia);
  • Náufragos e Fim da Memória (poesia);
  • O Veneno do Sol e Sorte (1928) (ficção);
  • As aventuras de Mariazinha (literatura infantil);
  • Mariazinha em África (1926) (literatura infantil) (fruto da passagem da escritora pela Guiné Portuguesa;
  • A Princesa dos Sete Castelos (1935) (literatura infantil);
  • As Novas Aventuras de Mariazinha (1935) (literatura infantil);
  • Asa no Espaço (1955) (poesia);
  • ( ... )
  • Asa no Espaço (poesia);
  • Cartas a um Poeta (tradução de Rainer Maria Rilke);
  • O Diário (tradução de Katherine Mansfield);
  • Verdade Para Cada Um (tradução de Piradello);
  • O Novo Inquilino (tradução de Ionesco)
Alma Serena
Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.
Fernanda de Castro, in «Ronda das Horas Lentas»

Se os Poetas Dessem as Mãos
Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.

Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.
Fernanda de Castro, in «Ronda das Horas Lentas»

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