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sábado, 1 de maio de 2021

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… esbarrei num major e não captei muita coisa. Então ele parou para se despedir. Ah, sim! Outra coisa. Para os judeus, cinco fuzis é muito, vocês não têm homens suficientes»

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«(…) A estrada de terra batida tinha sido desimpedida mas viam-se os vestígios das explosões, as grandes manchas de óleo, destroços amontoados. Depois vinham as primeiras casas de Sokal. No centro da cidade, alguns incêndios ainda crepitavam mansamente; cadáveres empoeirados, a maioria em trajes civis, obstruíam uma parte da rua, misturados aos escombros e ao entulho; em frente, na sombra de um parque, cruzes brancas cobertas por curiosos telhados alinhavam-se com precisão sob as árvores. Dois soldados alemães inscreviam nomes nas cruzes. Ficamos ali esperando enquanto Blobel, acompanhado por Strehlke, nosso oficial de intendência, ia até ao QG. Um cheiro agridoce, vagamente enjoativo, misturava-se à pungência da fumaça. Blobel não demorou a voltar: tudo certo. Strehlke vai cuidar dos alojamentos. Sigam-me. O AOK instalara-nos numa escola. Sinto muito, desculpou-se um intendente baixinho num feldgrau amarfanhado. Ainda estamos nos organizando. Mas mandaremos rações para vocês. Nosso segundo-comandante, Von Radetzky, um báltico elegante, gesticulou com uma mão enluvada e sorriu: nem precisa. Não vamos ficar. Não havia camas, mas tínhamos trazido cobertas; os homens sentavam-se em pequenas carteiras estudantis. Devíamos ser aproximadamente setenta. À noite, serviram-nos sopa de repolho e de batata-doce, quase fria, cebolas cruas e pedaços de um pão preto, grudento, que secava assim que o cortávamos. Eu estava com fome, tomei avidamente a sopa e devorei as cebolas cruas mesmo. Von Radetzky organizou uma patrulha. A noite correu tranquilamente.

Na manhã seguinte, o Standartenführer Blobel, nosso comandante, reuniu seus Leiter para irem todos ao QG. O Leiter III, meu superior directo, queria dactilografar um relatório e me mandou em seu lugar. O estado-maior do 6º Exército, o AOK 6, ao qual pertencíamos, ocupara um grande casarão austro-húngaro, com a fachada alegremente rebocada em laranja, realçada por colunas e decorações em estuque e crivada de pequenos estilhaços. Um Oberst, visivelmente íntimo de Blobel, nos recebeu: o Generalfeldmarschall está trabalhando do lado de fora. Sigam-me. Levou-nos para um vasto parque em declive que se estendia do prédio até um meandro do Bug. Perto de uma árvore isolada, um homem em trajes de banho dava grandes passadas, cercado por uma nuvem sibilante de oficiais em uniformes encharcados de suor. Voltou-se para nós: Ah, Blobel! Bom-dia, meine Herren. Nós o cumprimentamos: era o eneralfeldmarschall Von Reichenau, comandante-em-chefe do Exército. Seu peito estufado e hirsuto irradiava vigor; imerso na gordura em que, a despeito de sua compleição atlética, a delicadeza prussiana de seus traços terminava se afogando, seu monóculo brilhava ao sol, incongruente, quase ridículo. Ao mesmo tempo que formulava instruções precisas e meticulosas, continuava suas idas e vindas intermitentes; tínhamos que segui-lo, era um pouco desconcertante; esbarrei num major e não captei muita coisa. Então ele parou para se despedir. Ah, sim! Outra coisa. Para os judeus, cinco fuzis é muito, vocês não têm homens suficientes. Dois fuzis por condenado bastarão. No caso dos bolcheviques, veremos quantos há. Se forem mulheres, podem utilizar um pelotão completo. Blobel fez a saudação: Zu Befehl, Herr Generalfeldmarschall. Von Reichenau juntou seus calcanhares descalços e ergueu o braço: heil Hitler! Heil Hitler!, respondemos todos em coro antes de debandarmos.

O Sturmbannführer dr. Kehrig, meu superior, recebeu meu relatório com um ar amuado. É tudo? Não escutei muita coisa, Herr Sturmbannführer. Fez uma careta ao mesmo tempo que brincava distraidamente com seus papéis. Não compreendo. De quem devemos receber nossas ordens, afinal? De Reichenau ou de Jeckeln? E o Brigadeführer Rasch, onde está? Não sei, Herr Sturmbannführer. O senhor não sabe muita coisa, Obersturmführer. Vamos, debandar.

Blobel convocou todos os seus oficiais no dia seguinte. Mais cedo, uns vinte homens haviam partido com Callsen. Enviei-o a Lutsk com um Vorkommando. O conjunto do Kommando seguirá num ou dois dias. É lá que estabeleceremos nosso estado-maior por enquanto. O AOK também será transferido para Lutsk. Nossas divisões avançam velozmente, temos que começar a trabalhar. Estou esperando o Obergruppenführer Jeckeln, que nos dará instruções. Jeckeln, um veterano do Partido de quarenta e seis anos de idade, era o Höhere SS - und Polizeiführer para o sul da Rússia; por esse motivo, todas as formações SS da zona, inclusive a nossa, dependiam dele de uma maneira ou de outra. Mas a pergunta sobre a cadeia de comando continuava a martelar Kehrig: e então, estamos sob o controle do Obergruppenführer?» In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher, 

segunda-feira, 8 de março de 2021

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… derrubados, varridos, misturados numa interminável faixa calcinada de pilhas irregulares ao longo dos acostamentos. Mais além, bosques resplandeciam sob a luz esplêndida do Outono»

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«(…) O dr. Korherr, que compilava estatísticas para o Reichsführer-SS Heinrich Himmler, chegou a pouco menos de dois milhões em 31 de Dezembro de 1942, mas reconhecia, quando pude discutir com ele em 1943, que seus números de partida eram pouco confiáveis. Enfim, o respeitabilíssimo professor Hilberg, especialista na questão e que dificilmente teria pontos de vista sectários, pró-alemães pelo menos, chega, ao fim de uma demonstração cerrada de dezanove páginas, à cifra de 5.100.000, o que corresponde grosso modo à opinião do finado Obersturmbannführer Eichmann. Aceitemos então os números do professor Hilberg.

Agora, a matemática. O conflito com a URSS durou das três horas da manhã de 22 de Junho de 1941 até, oficialmente, as 23h01 de 8 de Maio de 1945, o que perfaz rês anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto, ou seja, arredondando, 46,5 meses, 202,42 semanas, 1.417 dias, 34.004 horas, ou 2.040.241 minutos (contando o minuto suplementar). Para o programa dito da Solução Final, ficaremos com as mesmas datas; antes, nada fora decidido nem sistematizado, as perdas judaicas são fortuitas. Associemos agora um conjunto de cifras ao outro: para os alemães, isso dá 64.516 mortos por mês, ou seja, 14.821 mortos por semana, ou 2.117 mortos por dia, ou 88 mortos por hora, ou 1,47 morto por minuto, isto em média para cada minuto de cada hora de cada dia de cada semana de cada mês de cada ano, tudo durando três anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto. Para os judeus, incluindo soviéticos, temos cerca de 109.677 mortos por mês, ou seja, 25.195 mortos por semana, ou 3.599 mortos por dia, ou 150 mortos por hora, ou 2,5 mortos por minuto para um período idêntico. No lado soviético, finalmente, isso nos dá uns 430.108 mortos por mês, 98.804 mortos por semana, 14.114 mortos por dia, 588 mortos por hora, ou 9,8 mortos por minuto, período idêntico. Ou seja, para o total global no meu campo de actividade, médias de 572.043 mortos por mês, 131.410 mortos por semana, 18.772 mortos por dia, 782 mortos por hora e 13,04 mortos por minuto, todos os minutos de todas as horas de todos os dias de todas as semanas de todos os meses de cada ano do período dado, ou seja, para memorizar, três anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto. Que os que zombaram desse minuto suplementar de facto um pouco pedante considerem que isso dá assim mesmo 13,04 mortos a mais, em média, e, se forem capazes, imaginem treze pessoas de seu círculo mortas num minuto. Podemos também efectuar um cálculo definindo o intervalo de tempo entre cada morte: isso nos dá em média um morto alemão a cada 40,8 segundos, um morto judeu a cada 24 segundos e um morto bolchevique (incluindo os judeus soviéticos) a cada 6,12 segundos, ou seja, isso para o conjunto do mencionado período. Agora vocês estão em condições de efectuar, a partir desses números, exercícios concretos de imaginação. Peguem por exemplo um relógio e contem um morto, dois mortos, três mortos etc. a cada 4,6 segundos (ou a cada 6,12 segundos, a cada 24 segundos ou a cada 40,8 segundos, se tiverem uma preferência definida), tentando imaginar, como se estivessem à sua frente, alinhados, estes um, dois, três mortos. Vocês verão, é um bom exercício de meditação.

Ou peguem outra catástrofe, mais recente, que os tenha afectado intensamente, e façam a comparação. Por exemplo, se forem franceses, considerem a pequena aventura argelina, que tanto traumatizou seus concidadãos. Vocês perderam ali 25.000 homens em sete anos, incluindo os acidentes: o equivalente a pouco menos de um dia e treze horas de mortos na frente do Leste; ou cerca de sete dias de mortos judeus. Não estou contabilizando, evidentemente, os mortos argelinos: como vocês não tocam no assunto, digamos, nunca em seus livros e programas, eles não devem significar muito para vocês. Entretanto vocês mataram dez para cada um de seus próprios mortos, esforço respeitável mesmo comparado ao nosso. Paro por aqui, poderíamos continuar por muito tempo; convido-os a prosseguirem sozinhos, até que o chão se abra sob seus pés. Quanto a mim, não preciso de nada disso: há muito tempo o pensamento da morte está mais próximo de mim que a veia do meu pescoço, como diz essa belíssima frase do Corão. Se um dia vocês conseguissem me fazer chorar, minhas lágrimas desfigurariam seu rosto. A conclusão de tudo isso, se me permitem outra citação, a última, prometo, é, como dizia muito bem Sófocles: o que se deve preferir a tudo é não ter nascido. Schopenhauer, por sinal, escrevia claramente a mesma coisa: Seria melhor que não existisse nada. Como há mais sofrimento que prazer sobre a terra, toda satisfação é apenas transitória, criando novos desejos e novas aflições, e a agonia do animal devorado é maior que o prazer do devorador. Sim, eu sei, isso dá duas citações, mas a ideia é a mesma: na verdade, vivemos no pior mundo possível. Tudo bem, a guerra terminou. E depois aprendemos a lição, não vai acontecer mais. Mas vocês estão mesmo seguros de terem aprendido a lição? Têm certeza de que não acontecerá de novo? Têm mesmo certeza de que a guerra terminou? De certa maneira, a guerra nunca terminou, ou então só terminará quando a última criança nascida no último dia de combate for enterrada sã e salva, e mesmo assim ela continuará, em seus filhos e depois nos deles, até que finalmente a herança se dilua um pouco, as recordações sejam desfiadas, e a dor, amenizada, ainda que nesse momento todos já tenham há muito esquecido e tudo esteja relegado ao lote das histórias de antigamente, boas sequer para assustar as crianças, e ainda menos os filhos dos mortos e daqueles que houverem desejado sê-lo, mortos, esclareço.

[…]

Tínhamos lançado uma ponte flutuante na fronteira. Bem ao lado, esparramadas nas águas cinzentas do Bug, ainda vinham à tona vigas retorcidas da ponte metálica dinamitada pelos soviéticos. Nossos batedores haviam montado a nova numa noite, diziam, e Feldgendarmes impassíveis, cujas placas em meia-lua irradiavam fagulhas de sol, organizavam a circulação com desenvoltura, como se ainda estivessem em casa; disseram-nos para esperar. Contemplei o grande rio preguiçoso, os pequenos bosques tranquilos do outro lado, a multidão na ponte. Depois foi a nossa vez de passar, e logo em seguida começava uma espécie de avenida de carcaças de material russo, caminhões queimados e amassados, tanques rasgados como latas de conserva, trens de artilharia enrugados como fetos, derrubados, varridos, misturados numa interminável faixa calcinada de pilhas irregulares ao longo dos acostamentos. Mais além, bosques resplandeciam sob a luz esplêndida do Outono». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

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sábado, 5 de dezembro de 2020

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Para o conjunto das perdas soviéticas, opto pelo número tradicional, citado por Khrutchev em 1956, de vinte milhões, ao mesmo tempo observando que Reitlinger»

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«(…) Nesse ritmo, espero um dia alcançar o estado de graça de Jerónimo Nadal e não influir em nada, apenas não influir em nada. Eis que me torno livresco; é um dos meus defeitos. Para azar da santidade, ainda não me livrei das necessidades. Ainda satisfaço minha mulher de tempos em tempos, conscienciosamente, com pouco prazer mas tampouco sem repulsa excessiva, a fim de garantir a paz doméstica. E, muito raramente, em viagens de negócios, dou-me o trabalho de reatar com meus antigos hábitos; mas, na prática, é apenas por uma questão de higiene. Tudo isso perdeu muito do interesse para mim. O corpo de um belo adolescente e uma escultura de Michelangelo são iguais: já não me sinto mais sem fôlego. É como depois de uma longa doença, quando os alimentos ficam sem gosto; qual a importância, então, de comer carne ou frango? É preciso alimentar-se, ponto final. A bem da verdade, não existe mais muita coisa que me interesse. A literatura, pode ser, ainda assim não estou convencido de que não seja por hábito. Talvez seja por isso que redijo essas recordações: para chacoalhar meu sangue, ver se ainda consigo sentir alguma coisa, se ainda sei sofrer um pouco. Exercício curioso. No entanto, eu deveria conhecer o sofrimento. Todos os europeus da minha geração passaram por ele, mas posso dizer sem falsa modéstia que vi mais que a maioria. E depois as pessoas esquecem rápido, constato isso todos os dias. Mesmo aqueles que lá estavam em geral só fazem uso, para falar disso, de pensamentos ou frases clichês. Basta ver a prosa lamentável dos autores alemães que abordam os combates no Leste: um sentimentalismo putrefato, uma língua morta, horrenda. A prosa de Herr Paul Carrell, por exemplo, autor de sucesso nos últimos anos. Acontece que conheci esse Herr Carrell, na Hungria, na época em que ainda se chamava Paul Carl Schmidt e escrevia, sob a égide de seu ministro Von Ribbentrop, o que pensava de verdade numa prosa vigorosa e cheia de estilo: A questão judaica não é uma questão de humanidade, não é uma questão de religião; é unicamente uma questão de higiene política. Agora, o honorável Herr Carrell-Schmidt conseguiu a façanha considerável de publicar quatro volumes insípidos sobre a guerra na União Soviética sem mencionar uma única vez a palavra judeu. Sei disso, li: é árduo, mas sou teimoso. Nossos autores franceses, os Mabire, os Landemer e outros do gênero, não valem mais que isso. Quanto aos comunistas, é a mesma coisa, só que do ponto de vista oposto. Onde se meteram aqueles que cantavam Filhos, amolem suas facas no meio-fio das calçadas? Ou estão calados, ou mortos. Tagarela-se, careteia-se, chafurda-se numa turba insossa modelada pelas palavras glória, honra e heroísmo, é cansativo, ninguém fala disso. Talvez eu esteja sendo injusto, mas ouso esperar que me compreendam.

A televisão nos entope com números, números impressionantes, uma fila de zeros; mas quem de vós pára às vezes para pensar realmente nesses números? Quem de vós tentou ao menos uma vez na vida contar quantas pessoas conhece ou conheceu até hoje e comparar esse número ridículo aos números que vê na televisão, os famosos seis milhões ou vinte milhões? Vamos à matemática. A matemática é útil, oferece perspectivas, refresca o espírito. É um exercício às vezes muito instrutivo. Tenham então um pouco de paciência e concedam-me a sua atenção. Vou considerar que os dois teatros em que desempenhei um papel, ainda que ínfimo, foram: a guerra contra a União Soviética e o programa de extermínio oficialmente designado em nossos documentos como Solução Final da Questão Judaica, Endlösung der Judenfrage, para citar tão belo eufemismo. No que se refere às frentes de batalha no Ocidente, de toda forma, as perdas foram relativamente menores. Meus números de partida serão um pouco arbitrários: não tenho escolha, não há consenso. Para o conjunto das perdas soviéticas, opto pelo número tradicional, citado por Khrutchev em 1956, de vinte milhões, ao mesmo tempo observando que Reitlinger, reputado autor inglês, encontra apenas doze, e Erickson, autor escocês tão reputado quanto, se não mais, por sua vez atinge um total mínimo de vinte e seis milhões; os números oficiais soviéticos, assim, cortam muito nitidamente a maçã em duas, com a diferença de um milhão. Para as perdas alemãs, apenas na URSS, entenda-se, podemos nos basear na cifra mais oficial e germanicamente precisa de 6.172.373 soldados perdidos no Leste entre 22 de Junho de 1941 e 31 de Março de 1945, cifra contabilizada num relatório interno do OKH (o Alto-Comando do Exército) encontrado depois da guerra, mas englobando os mortos (mais de um milhão), os feridos (quase quatro milhões) e os desaparecidos (ou seja, mortos, prisioneiros e prisioneiros mortos, cerca de 1.288.000). Digamos então, para abreviar, dois milhões de mortos, os feridos não nos interessam aqui, incluindo os cerca de cinquenta e poucos mil mortos suplementares entre 1º de Abril e 8 de Maio de 1945, principalmente em Berlim, a que devemos acrescentar ainda o milhão de civis mortos estimado durante a invasão do Leste alemão e deslocamentos subsequntes de populações, ou seja, no total, digamos, três milhões. Quanto aos judeus, podemos escolher: a cifra consagrada, ainda que poucas pessoas saibam sua origem, é de seis milhões (foi Höttl quem disse a Nuremberg que Eichmann lhe dissera; mas Wisliceny, por sua vez, afirmou que Eichmann mencionara a cifra de cinco milhões aos seus colegas; e o próprio Eichmann, quando os judeus finalmente puderam lhe fazer a pergunta pessoalmente, respondeu entre cinco e seis milhões, mais possivelmente cinco)». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Mas ele percebia muito bem que tínhamos interesses em comum: eu, em arranjar um posto, e ele, em manter o seu»

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«(…) É verdade, eu falava um francês impecável; é que tive mãe francesa; passei dez anos da minha infância na França, fiz o primário, o curso preparatório e até dois anos de estudos superiores, na ELSP, e como cresci no Sul podia inclusive impingir uma pitada de sotaque meridional, de toda a forma ninguém prestava atenção, era realmente uma bagunça, recebiam-me em Orsay com uma sopa, alguns insultos também, convém dizer que não tentei me fazer passar por um deportado, mas por um trabalhador da STO, e disso eles não gostavam muito, os gaullistas, então me maltrataram um pouco, os outros pobres coitados também, depois nos soltaram, nada de Lutetia para nós, mas a liberdade. Não fiquei em Paris, conhecia muita gente lá, e do tipo irrelevante, fui para o interior, vivi de pequenos expedientes aqui e ali. Depois as coisas se acalmaram. Logo pararam de fuzilar as pessoas, mais um pouco e sequer se davam o trabalho de levá-las para a prisão.

Então fiz umas buscas e acabei encontrando um conhecido meu. Ele tinha-se saído bem, passara de uma administração à outra sem choques; homem precavido, tivera grande cuidado em não alardear os favores que nos prestava. No início, não queria-me receber, mas quando finalmente compreendeu quem eu era viu que não tinha realmente escolha. Não posso dizer que foi uma conversa agradável: reinava uma nítida sensação de desconforto, de constrangimento. Mas ele percebia muito bem que tínhamos interesses em comum: eu, em arranjar um posto, e ele, em manter o seu. Ele tinha um primo no Norte, um ex-despachante que estava tentando montar uma pequena empresa com três Leavers recuperados junto a uma viúva falida. Esse homem me contratou, eu tinha que viajar, ir de porta em porta vendendo os seus rendados. Eu tinha horror àquele trabalho; finalmente consegui convencê-lo de que poderia ser mais útil no plano da organização. É verdade que eu tinha uma boa experiência nesse domínio, ainda que não pudesse aproveitá-la, como no caso do meu doutorado. A empresa cresceu, sobretudo a partir dos anos 50, quando reatei laços na República Federal e consegui abrir o grande mercado alemão para nós. Poderia ter voltado para a Alemanha na época: vários dos meus ex-colegas viviam lá na maior tranquilidade, alguns haviam cumprido uma pena curta, outros sequer foram perturbados. Com o meu currículo, eu poderia ter recuperado o meu nome, meu doutorado, reivindicado uma pensão de ex-combatente e de invalidez parcial, ninguém teria notado. Teria encontrado trabalho rapidamente. Mas, eu pensava, que interesse havia naquilo? O direito, no fundo, motivava-me tão pouco quanto o comércio, e depois eu acabara tomando gosto pela renda, essa deslumbrante e harmoniosa criação do homem. Quando compramos teares suficientes, meu patrão decidiu abrir uma segunda fábrica e me entregou a sua direcção. É esse posto que ocupo desde então, à espera da reforma. Nesse período casei-me, com certa repugnância, é verdade, mas aqui, no Norte, isso era mais que necessário, uma forma de consolidar minhas conquistas. Escolhi-a de boa família, relativamente bonita, uma mulher como convém, e dei-lhe imediatamente um filho, um pouco para ocupá-la. Infelizmente ela teve gémeos, deve ser coisa da família, da minha, quero dizer, para mim um pirralho teria sido mais que suficiente. Meu patrão me adiantou um dinheiro, comprei uma casa confortável, não muito longe do mar. Foi assim que fui parar no meio da burguesia. Em todo o caso, era melhor daquele jeito. Depois de tudo que aconteceu, eu precisava sobretudo de calma e regularidade. Meus sonhos de juventude, o curso da minha vida lhes quebrara a espinha e minhas angústias haviam-se dissipado lentamente, de uma ponta da Europa alemã à outra. Saí da guerra um homem vazio, apenas com amargura e uma vergonha infinita, como areia rangendo nos dentes. Assim, uma vida de acordo com todas as convenções sociais me calhava: um casulo confortável, ainda que o contemple frequentemente com ironia, às vezes com ódio». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Fiz estudos de direito e de economia política, sou doutor em direito, na Alemanha as letras Dr. jur. fazem legalmente parte do meu nome»

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«(…) Os primeiros teares de tule ingleses, segredo ciosamente guardado, entraram como contrabando na França no dia seguinte às guerras napoleónicas, graças a operários que fugiam das taxas alfandegárias; foi um lionês, Jacquard, que os modificou para produzir renda, introduzindo uma série de cartões perfurados que determinam o padrão. Cilindros, por baixo, alimentam o trabalho com linha; no coração do tear, cinco mil bobinas, a alma, são comprimidas num carro; depois um catch-bar (preservamos em nossa língua alguns termos ingleses) vem segurar e chacoalhar esse carro, com um grande estalido hipnótico, para a frente e para trás. As linhas, guiadas lateralmente por combs em cobre sobre chumbo, segundo uma coreografia complexa codificada por quinhentos ou seiscentos cartões Jacquard, tecem os pontos; um pescoço de cisne faz o pente subir; finalmente aparece a renda, aracnídea, vacilante sob sua camada de grafite, vindo se enrolar lentamente num tambor fixado no topo do Leavers. O trabalho na fábrica segue uma rigorosa segregação sexual: os homens criam os motivos, perfuram os cartões, montam as séries, vigiam os teares e administram os subsidiários; suas mulheres e filhas, por sua vez e ainda hoje, continuam a enrolar, desgrafitar, reparar, desfiar e dobrar. As tradições são fortes. Os rendeiros, aqui, formam algo como uma aristocracia proletária. O aprendizado é longo, o trabalho, delicado; no século passado, os rendeiros de Calais chegavam à fábrica de caleche e de cartola, e tratavam o patrão por você. Os tempos mudaram. A guerra, apesar de alguns teares usados pela Alemanha, arruinou a indústria. Foi preciso recomeçar tudo do zero; actualmente restam apenas cerca de trezentos teares no Norte, onde funcionavam quatro mil antes da guerra. Contudo, durante a retomada económica, os rendeiros compraram automóveis bem antes dos burgueses. Mas os meus operários não me tratam por você. Não creio que gostem de mim. Isso não é grave, não lhes peço que gostem de mim. Além disso, tampouco gosto deles. Trabalhamos juntos, é tudo. Quando um funcionário é consciencioso e aplicado, quando a renda que sai do seu tear exige poucas repetições, dou-lhe uma recompensa no fim do ano; já aquele que chega atrasado ao trabalho, ou bêbado, castigo-o. Nessas bases, nos entendemos bem.

Vocês talvez estejam perguntando como fui parar no ramo do rendado. Eu estava longe de ser predestinado ao comércio. Fiz estudos de direito e de economia política, sou doutor em direito, na Alemanha as letras Dr. jur. fazem legalmente parte do meu nome. Mas é bem verdade que as circunstâncias me impediram de validar o meu diploma depois de 1945. Se realmente quiserem saber da história toda, eu também estava longe do direito: moço, queria acima de tudo estudar literatura e filosofia. Mas não deixaram; mais um triste episódio do meu romance familiar, talvez eu volte a isso. Devo contudo admitir que, no que se refere ao ramo das rendas, o direito é mais útil que a literatura. Eis mais ou menos como as coisas se passaram. Quando finalmente tudo acabou, consegui vir para a França e me fazer passar por francês; não era muito difícil, considerando o caos da época; voltei com os deportados, não faziam muitas perguntas» In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

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sábado, 28 de maio de 2016

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Ora se suspendermos o trabalho, as actividades banais, a agitação de todos os dias, para nos entregarmos seriamente a um pensamento, as coisas passam a ser completamente outras»

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«(…) A verdade é que nos estamos nas tintas para a última crise ministerial, mas de que mais havemos de falar? Eliminem-se os pensamentos do mesmo género, e toda a gente terá de reconhecer como eu que não resta muita coisa. Há, bem entendido, momentos diferentes. Inesperado entre dois anúncios de detergente, um tango de antes da guerra, digamos que a Violetta, e eis que ressurgem o murmurar nocturno do rio, as lanternas do bar, o leve cheiro a suor na pele de uma mulher alegre; à entrada de um parque, o rosto sorridente de uma criança traz-nos de regresso o do nosso filho, justamente pouco antes da altura em que começou a andar; na rua, um raio de sol trespassa as nuvens e ilumina as grandes folhas, o tronco alvacento de um plátano: e pensamos bruscamente na nossa infância, no pátio de recreio da escola onde brincávamos à guerra uivando de terror e de felicidade. Acabamos de ter um pensamento humano. Mas é muito raro.
Ora se suspendermos o trabalho, as actividades banais, a agitação de todos os dias, para nos entregarmos seriamente a um pensamento, as coisas passam a ser completamente outras. Depressa as coisas começam a vir à tona, em vagas densas e negras. À noite, os sonhos desarticulam-se, desdobram-se, proliferam, e ao despertar deixam uma fina camada acre e húmida na cabeça, que leva muito tempo a dissolver-se. Nada de mal-entendidos: não é de culpabilidade, de remorsos que aqui se trata. Isso existe também, sem dúvida, não quero negá-lo, mas penso que as coisas são muito mais complexas. Até mesmo um homem que não fez a guerra, que não teve de matar, sofrerá aquilo de que estou a falar. Regressam as pequenas maldades, a cobardia, a falsidade, os gestos mesquinhos que afligem todo e qualquer homem. Não é de admirar por isso que os homens tenham inventado o trabalho, o álcool, as conversas fiadas estéreis. Não é de admirar que a televisão tenha tanto sucesso. Em suma, em breve pus fim ao meu período de licença inoportuno, mais valia assim. Tinha tempo suficiente com efeito, à hora de almoço ou ao fim da tarde depois de as secretárias saírem, para me pôr a garatujar.
Uma breve pausa para ir vomitar, e recomeço. É mais outra das minhas numerosas pequenas aflições: de vez em quando, as minhas refeições voltam a vir-me à boca, por vezes logo a seguir a tomá-las, por vezes mais tarde, sem razão, assim sem mais. É um velho problema, uma coisa que data da guerra, que começou no Outono de 1941 para ser mais preciso, na Ucrânia, em Kiev penso eu, ou talvez em Jitomir. Também disso hei-de falar sem dúvida. Seja como for, desde então habituei-me: escovo os dentes, engulo um pequeno copo de álcool, e continuo o que estava a fazer. Voltemos às minhas recordações. Comprei vários cadernos escolares, de grande formato mas de quadriculado pequeno, que guardo na minha secretária dentro de uma gaveta fechada à chave. Antes, rabiscava notas em fichas de papel brístol, também com uma quadrícula miúda; agora, decidi retomar tudo isso de uma assentada. Para quê, não sei lá muito bem. Decerto que não para edificar a minha descendência. Se neste mesmo instante eu sucumbisse subitamente, de uma crise cardíaca, digamos, ou de uma embolia cerebral, e as minhas secretárias pegassem na chave e abrissem esta gaveta, teriam um choque, as pobres, e o mesmo se diga da minha mulher: as fichas em papel brístol serão largamente suficientes. Vai ser dentro em breve necessário queimar tudo isto para evitar o escândalo. Quanto a mim, tanto me faz, estarei morto. E bem vistas as coisas, ainda que me dirija aos que me lêem, não é para eles que escrevo.
O meu gabinete é um sítio agradável para se escrever, grande, sóbrio, tranquilo. Paredes brancas, quase sem decoração, um móvel de vitrina para as amostras; e ao fundo uma grande parede envidraçada que dá sobre a casa das máquinas. Mesmo com vidros duplos, o estalido incessante dos teares Leavers enche a sala. Quando quero pensar, deixo a minha mesa de trabalho e vou pôr-me diante do vidro, contemplo os teares alinhados aos meus pés, os movimentos seguros e precisos dos tecelões, deixo-me embalar. Por vezes, desço para deambular entre as máquinas. A sala é escura, os vidros sujos estão pintados de azul, porque a renda é frágil, tem medo da luz, e essa claridade azulada repousa-me o espírito. Gosto de me perder um tanto no bater monótono e sincopado que domina o espaço, esse compasso metálico a dois tempos, obsidiante. Os teares continuam a impressionar-me. São de ferro fundido, pintaram-nos de verde, e cada um deles pesa dez toneladas. Alguns são muito velhos, deixaram de ser produzidos há muito tempo; as peças para reparação, mando-as fazer de encomenda; é certo que passámos, a seguir à guerra, do vapor à electricidade, mas quanto às próprias máquinas não lhes tocámos. Não me aproximo delas para evitar sujar-me: as suas muitas peças móveis têm de ser constantemente lubrificadas, mas o óleo, evidentemente, arruinaria as rendas, por isso recorre-se à grafite, uma mina de chumbo triturada com que o tecelão salpica os órgãos em movimento com o auxílio de uma meia, manejada como um turíbulo. A renda fica negra de grafite, e esta cobre as paredes, e do mesmo modo o chão, as máquinas e os homens que as vigiam. Ainda que não lhes toque muitas vezes, conheço bem estes grandes aparelhos mecânicos». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Poetisas Portuguesas. Antologia. Nuno Cardoso. «Saudade, causa tanta vez, ainda, a própria dôr, a sensação medonha. Mas essa é, a que provem risonha, do recordar de uma ilusão infinda. Saudade, encanto e lagrimas…»

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Conforme o original

Antologia
Virginia C. Silva Agoas
«(…) Faleceu contando apenas 27 anos de idade. Era filha do empregado do Ministério da Fazenda, Agoas. O seu volume de versos, Outr’ora, prefaciado por Candido Figueiredo, foi comprado por mim em plena rua, onde se vendia por preço ridículo, como sucede a tantas outras obras. O facto apontado é a prova evidente do pouco interesse que uma bôa parte dos Portuguezes tem por assumptos literários. E' com satisfação, que presto homenagem á sua auctora, que em vida, tão assidua e distinctamente colaborou no interessante jornal Os Echos da Avenida que já conta bastantes anos de existência e no qual se encontram as biografias e retratos de pessoas mais em evidencia no nosso meio literário. Virgínia Agoas colaborou também nos jornaes A Tarde, Folha do Sul, de Montemór-o-Novo, etc. Num certapien literário iniciado pelos Echos da Avenida, em 1906, uma das suas quadras foi das mais votadas. Esta Poetisa tinha grande vocação para a pintura e para a musica. Escreveu ainda, um livro de contos, Silvas, prefaciado por Carlos Malheiro Dias e que á semelhança do que aconteceu com o seu volume de versos, foi publicado postumamente.

Saudade
«Saudade tem-se de uma rosa linda
que a gente vê desfolhar tristonha,
saudade tem-se, quanto mais se sonha…
De um bem que morre… de um prazer que finda.

Saudade, causa tanta vez, ainda,
a própria dôr, a sensação medonha.
Mas essa é, a que provem risonha,
do recordar de uma ilusão infinda.

Saudade, encanto e lagrimas, existe
de um sonho bom de um sonho belo ou triste,
e tudo envolve em sua roxa côr.

Saudade!, ai é sentir todo um passado
nitidamente e sempre reavivado,
é derradeira pagina do Amor».
Virgínia Agoas. Outr’ora, versos póstumos. Porto, 1913

Imaculada
«Um primor de arte antiga e requintada
essa medalha de subtis lavores,
que eu encontrei um dia abandonada
no banco de um jardim, por entre flores.

Na tampa de oiro, oval e cinzelada,
exibia uns idilios de pastores,
abraçando-se á luz da madrugada,
nos mais simples e candidos amôres.

Encontrei-a, e uma intensa vontade
levou-me a abril-a, cheia de anciedade,
essa medalha antiga e cinzelada…

Vi então, mais formosa do que Ester
um retrato de deusa, ou de mulher,
e uma palavra só: Imaculada!»
Virgínia Agoas. Outr'ora

Dormir. Esperar…
«Dormir, dormir, esquecer…
Coisa boa, que inda existe!
Dormir é quasi morrer,
allivio de quem é triste.

O tormento mais amargo,
o mais luminoso amor,
tudo cae n’esse letargo,
sempre pacificaôr!

Dormir! A paz para a alma!
Tréguas para qualquer dôr!
Descanso para o sentir!

Vaga, que instantes acalma!
Morte efémera do amôr
Esquecer… Dormir, dormir!»
Virgínia Agoas. Outr'ora

«No calvário espinhoso d’esta vida,
vou caminhando em busca de uma luz
que me será depois, na despedida,
derradeiro clarão, deposta a cruz».
Virgínia Agoas. Outr'ora

In Nuno Catarino Cardoso, Poetisas Portuguesas, Prefácio, Antologia contendo dados de 106 poetisas, Livraria Scientífica, Lisboa, 1917, Library University of Toronto, 1969.

Cortesia de LScientífica/PCardoso/JDACT

Poetisas Portuguesas. Antologia. Nuno Cardoso. «A cabeça descoberta e a chuva tão miudinha… E ella a rir, travessa e esperta, pára na rua, deserta, e os pés na lama chapinha. O cabello a desfrizar-se com a chuva miudinha…»

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Conforme o original!

Antologia
Maria Anna Achioli
«Maria Anna Achioli nasceu em Torres Vedras. É filha de Lia de Magalhães Collaço, da Casa de Condeixa e de Fonseca Achioli, descendente de uma família nobre e ilustre de Florença. É, portanto, Maria Anna Achioli bisneta dos condes de Condeixa e sobrinha dos condes d’Avilez. Maria Anna Achioli, apezar de muito nova, tem já a sua vida esmaltada por titulos de valor literario e artístico. Obteve 20 valores no seu exame do quinto ano de portuguez, no liceu. E na pintura foi discipula dilecta e notável de madame Zoé Wautelet Batalha Reis. As suas poesias são tão singelamente naturaes, tão impregnadas de candura, tão filhas de um grande coração, que bem se encarregam essas obras de iniciarem o alvorecer de uma vocação poética de primeira ordem.

Chapinhando
«Ao de leve, na vidraça
bate a chuva miudinha
e ella, a Maria da Graça
finge que a saia arregaça
e ri com gosto, a tontinha!

A cabeça descoberta
e a chuva tão miudinha…
E ella a rir, travessa e esperta,
pára na rua, deserta,
e os pés na lama chapinha.

O cabello a desfrizar-se
com a chuva miudinha…
E ella, rindo, a arregaçar-se,
como quem sêdas trajasse
em vez de curta sainha.

Ris, pequena endiabrada?
E a chuva cae miudinha
mas olha a saia encarnada
que de tanto arregaçada,
se não vê, a pobresinha!

Que gosto é esse, Maria?
Cai a chuva miudinha…
Foge, corre, que ella é fria
e eu sei que alguém choraria
ao saber-te doentinha».
Maria Anna Achioli. Almanach de Lembranças, 1913

Lar Feliz
«Olha o sol já se escondeu,
não tenho tempo a perder,
vem o Manel, quer comer.
Todo o dia a trabalhar,
É tempo de descançar!
Tão branco e tão pequenino,
como dorme o meu menino
o filho que Deus me deu!

Na mesa nova de pinho
manchando a alvura do linho.
Luz o verde cangirão,
dois talheres, copos e pão.

Ah! mulher, temos bom anno,
não ha fome cá n’aldeia,
a espiga é grande e cheia,
cahiu a agua dos Ceus
e inchou-a, benza-a Deus!
E a gente sempre a pensar
que a chuva a vinha estragar,
e ás terras causar damno…

A comida é bem frugal
batatas, couves com sal;
mas na terrina aldeã
cheira a sopa a hortelã.

Está boa a ceia, Maria;
Ah!... Olha lá, meu amor,
faz hoje um anno, pois não?
Que o bom do senhor prior
me deu para a minha mão
a cachopa mais bonita,
a moçoila mais catita
que eu vi lá na romaria.

E os copos enchem-se então
á nossa e á do petiz,
Fructo d’aquella affeição,
Enlevo do lar feliz!»
Maria Anna Achioli

In Nuno Catarino Cardoso, Poetisas Portuguesas, Prefácio, Antologia contendo dados de 106 poetisas, Livraria Scientífica, Lisboa, 1917, Library University of Toronto, 1969.

Cortesia de LScientífica/PCardoso/JDACT 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Rainha e Mulher. Cleópatra. Terenci Moix. «Como homem preparado há tempos, como um valente, dá o teu adeus a Alexandria, que se afasta. Não te enganes, não digas que foi um sonho. Não aceites tão vãs esperanças»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cleópatra
«Cleópatra Sétima, rainha do Egito, amante de Júlio César e de Marco António, soberana de um império em decadência cujas fronteiras sonha ampliar para muito além dos limites a que chegaram os antigos faraós. Uma vulgar prostituta? Uma criatura ambiciosa que não hesita em matar para concretizar os seus projectos? Uma destruidora de homens? Neste belo romance de amor e morte, ganhador do Prémio Planeta de 1986, o mais importante da literatura espanhola, o escritor catalão Terenci Moix mostra uma outra verdade sobre essa mulher deslumbrante, dona de vasta cultura e de enorme habilidade política, uma das personagens mais fascinantes da História. Tendo como principal cenário a mítica Alexandria, Terenci cria um vigoroso romance que resgata uma das personagens mais fascinantes da História: Cleópatra Sétima, rainha do Egipto. A célebre soberana aparece aqui como uma mulher de extraordinária cultura, apaixonada e ambiciosa, que acalenta o sonho de transformar a sua Alexandria na capital de um vasto império, do qual Cesário Ptolomeu, seu filho com Júlio César, seria o chefe supremo. Seu amor por Marco António, retratado como um soldado grosseiro, colecionador de derrotas políticas e militares, insere-se nesse projecto grandioso. Mesclando ficção e realidade, Terenci leva o leitor a transportar-se no tempo e no espaço para conviver com egípcios e romanos, sacerdotes e prostitutas; para participar de batalhas e cerimónias místicas; e para conhecer intrigas que determinaram a queda e a consolidação de dois impérios. Desse modo é elaborado um deslumbrante painel da Antiguidade, merecedor do Prémio Planeta. O romancista catalão Terenci costuma dizer que nasceu em algum ano da década de 50, no século XX, com um pé em Alexandria e outro em Barcelona. Em 1968-1969, irrompeu no mundo da literatura com La torre de los vícios capitales e Olas sobre una roca desierta, que, aplaudidos pela crítica internacional, lançaram-no de imediato a uma posição de destaque dentro da nova geração de escritores espanhóis. Ganhador de cinco troféus importantes da literatura catalã, Terenci conquistou, em 1986, o Prémio Planeta, com o romance Cleópatra, rainha e mulher (No digas que fue un sue-no). Opera, teatro, pintura e cinema (uma de suas obras mais famosas é justamente O dia em que Marilyn morreu, publicado pela Editora Globo) igualmente despertam o seu interesse e inspiram-lhe numerosos artigos e romances». In Prefácio

«Quando à meia-noite se ouvir
passar uma invisível folia
com música maravilhosa e grandes vozes,
tua sorte que declina, tuas obras fracassadas,
os planos de tua vida que não deram certo,
não chores em vão.
Como homem preparado há tempos,
como um valente,
dá o teu adeus a Alexandria, que se afasta.
Não te enganes,
não digas que foi um sonho.
Não aceites tão vãs esperanças.
Como homem preparado há tempos,
como um valente,
como convém a quem de tal cidade foi digno,
aproxima-te com passo firme da janela
e ouve com emoção, não com lamentos
nem súplicas de fracos, como derradeiro prazer,
os sons, os maravilhosos instrumentos da
folia misteriosa,
e dá o teu adeus a esta Alexandria
que perdes para sempre».
Poema de Cavafis, in ‘O deus abandona António’

«Ela era o último membro de uma raça solitária e subtil. Era uma flor que Alexandria havia tardado trezentos anos a produzir e que a eternidade não pode murchar. E abriu-se ante um soldado romano, simples mas inteligente... In Forster, Alexandria

Serpente do Nilo
«E disse a mulher: Maldito seja Amor, que me assassina. Tingi de morte o Nilo. Cobri de luto as nuvens. Convertei o Egipto em sepulcro. E assim se fez. O pavor foi descendo pelo rio. A morte instalou-se nas suas margens. E caiu o inferno sobre o universo. Cumprida a ordem, uma densa nuvem negra cobriu os céus nos quais nunca há nuvens. Tão insólita era que se diria o véu de uma deusa traiçoeira. Dir-se-ia sangue apodrecido gotejando sobre os frondosos palmeirais, as florestas de papiros, os pomares e jardins que um dia foram férteis. Uma galera real vogava com majestosa lentidão em busca dos confins mais remotos do reino, onde este se perde nos desertos que correm em busca das selvas ignotas, onde dizem que nasce o rio santo. O negror chegava acompanhado por hinos tão tristes quanto o dia. Era a percussão incessante de cem timbales doloridos. Era o bater de cem remos nas águas, por sua vez tão tristes que também se tornaram negras. As ribeiras encheram-se de camponeses procedentes dos vilarejos mais próximos. Chegavam em procissão, e nos seus rostos enrugados, nas suas rugas sulcadas pelo sol de muitos séculos, o espanto alternava-se com o medo. Jogavam-se no chão, escondiam a cabeça entre os juncos, golpeavam o peito com pedras afiadas e esfregavam os olhos com lodo, como se vem fazendo desde os tempos mais remotos quando morre um monarca ou quando a natureza interrompe o seu curso inexorável, porque os deuses não estão satisfeitos. A nuvem negra pousava sobre todas as cores da paisagem, tão sensível nos albores do mês de Atir, quando a luz já não chega, esgotada pelos flagelos do estio. Os palmeirais e os trigais, os bosques de sicómoros, as mimosas, os hibiscos, as heras que sobem pelos palácios, tudo que ontem foi uma profusão de esplendoroso colorido ficava encerrado naquela cor única, manto sinistro que os camponeses, aterrados, não podiam reconhecer. Pois ignoravam o tipo de perfume de cuja mescla brotava. Perfumes que os escravos negros da nave espargiam por toda parte. Perfumes das noites de Alexandria! Emanações entre-mescladas de sândalo, almíscar e ambarina; essências de incenso, patchuli e da mirra que adormece os sentidos; flutuações de heliotrópio e açucenas combinadas com o sumo oleoso que as gardénias destilam quando roçam o sexo de uma virgem nabateia. Em contacto com o ar, a mescla tingia-o de luto. E, assim empeçonhadas, as auras caíam sobre os camponeses como uma condenação. A noite mais pavorosa apoderava-se do dia. Todos interpretaram aquilo como um augúrio do final do universo, segundo se anuncia nas inscrições dos templos antigos. Os camponeses acolheram a catástrofe salmodiando cantos mortuários aprendidos nos grandes funerais e transmitidos de uma geração a outra. Quando os escravos que espargiam os perfumes descansavam um instante, a nuvem artificial se diluía. Em meio a uma breve pausa, semelhante a um amanhecer, surgiam como um consolo as águas familiares do Nilo e, sulcando-as, uma soberba proa em forma de papiro. E, sobre as estrias rosicleres que seu avanço abria na corrente, emergia a embarcação de Cleópatra Sétima». In Terenci Moix, Cleópatra, Rainha e Mulher, Prémio Planeta, Espanha, Editora Globo, 1989, ISBN 852-500-662-9.

Cortesia de Globo/JDACT

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Palavras Mal Ditas. Poesia. Pedro Barroso. «… e o código começou e tu me ofereces o máximo que alguém nos pode dar e a guerra não tem hoje nem tabus são duas vontades grandes que ali estão e mais que as mãos e a boca e o Futuro…»

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Excesso
«Há amores estranhos fundos sem razão
- são secretos vivem na cumplicidade
indizíveis nas palavras que aqui vão
são impróprios de viver em liberdade
levaram a ternura ao exagero
e a um excesso saboroso a nossa pele
só compreende quem sente o latejar
bem mais dentro que os olhos do olhar,
há amores que não posso aqui explicar
pois quer queiram quer não inda vivemos
na pré-História de um Futuro de cem mil anos
nas grutas de um sentir que não sabemos

há uma palavra escandalosa e proibida
quando se fecha a porta e começa a fantasia
e me sento no sofá e desligo-me da vida
e fico Senhor completo do teu corpo
e o código começou e tu me ofereces
o máximo que alguém nos pode dar
e a guerra não tem hoje nem tabus
são duas vontades grandes que ali estão
e mais que as mãos e a boca e o Futuro
e o vício de dois corpos seminus
amarro em ti a vida que me escapa
e acordas-me explicando o mundo todo
e cedo a esta raiva que me mata


e sinto em ti Mulher, Mulher de mais
e houvesse aqui, agora, já, um altar
e eu casava-me contigo poro a poro,
casava-me contigo em todos os rituais
se é que não estou exactamente assim casando
o ontem com o presente e o infinito
e a cada jogo beijo salto ou grito
pressinto o chão fugir e o mundo longe
e há um abuso consentido que não peço
e tu olhas-me plácida e tremente raiva e calma
e a tormenta desabrocha e sai de nós
pela porta escancarada do excesso»
Poema de Pedro Barroso, in ‘Palavras Mal Ditas’

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terça-feira, 8 de julho de 2014

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… o aturdimento dos sobreviventes, um silêncio estranho como uma placa sobre os tímpanos, o começo do medo prolongado, calmo? Sim, continuo calmo, aconteça o que acontecer, nada dou a ver…»

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Toccata
«(…) Declarei-lhe que não, mas que leria o livro com interesse. De facto, tendo-me cruzado por um instante com ela, talvez mais tarde o conte aos leitores, se tiver coragem ou paciência para tanto. Mas ali, não tinha qualquer sentido falar disso. O livro, de resto, era bastante mau, confuso, lamuriento, banhado de uma curiosa hipocrisia religiosa. Talvez estas notas sejam também confusas e más, mas farei o melhor que puder para ser claro; posso garantir-vos que pelo menos se hão-de manter livres de toda a contrição. Não me arrependo de nada: fiz o meu trabalho, e foi tudo; quanto às minhas histórias de família, que talvez conte também, só a mim dizem respeito; e quanto ao resto, na parte final, forcei sem dúvida os limites, mas então já não era completamente eu próprio, vacilava e além disso à minha volta era o mundo inteiro que oscilava, não fui o único a perder a cabeça, todos terão de o reconhecer. E depois, não escrevo para alimentar a minha viúva e os meus filhos, pelo meu lado, sou perfeitamente capaz de prover às suas necessidades. Não, se acabei por decidir escrever foi com efeito para passar o tempo, e também, é possível, para esclarecer um ou dois pontos obscuros, talvez para os que me lêem e para mim próprio. Penso além disso que me fará bem fazê-lo. E verdade que o meu estado de humor é bastante baço. Por causa da prisão de ventre, sem dúvida. Problema aflitivo e doloroso, de resto novo para mim; outrora, era de facto o contrário. Durante muito tempo, tive de ir à casa de banho três, quatro vezes por dia; agora, uma vez por semana seria uma felicidade.
Estou reduzido a clisteres, processo o mais desagradável possível, mas eficaz. Peço desculpa de falar de pormenores tão escabrosos: tenho bem o direito de me queixar um pouco. E depois os leitores que não o suportem fariam melhor em ficar por aqui. Não sou Hans Frank, não gosto, no que me toca, de rodeios. Quero ser preciso, na medida dos meus meios. Apesar dos meus vezos, e foram numerosos, continuei a ser dos que pensam que as únicas coisas indispensáveis à vida humana são o ar, o comer, o beber e a excreção, e a busca da verdade. O resto é facultativo. Há algum tempo, a minha mulher trouxe para casa um gato preto, pensando sem dúvida causar-me prazer. Bem entendido, não me perguntara a minha opinião. Devia suspeitar que eu teria recusado terminantemente, o facto consumado era mais seguro. E uma vez dado o passo, nada a fazer, os netos começariam a chorar, etc. Contudo este gato era bastante desagradável. Quando tentava fazer-lhe festas, para dar mostras de boa vontade, fugia para se sentar no rebordo da janela e fixava em mim os seus olhos amarelos; se procurava pegar-lhe ao colo, arranhava-me. À noite, pelo contrário, vinha deitar-se enrolado numa bola em cima do meu peito, uma massa sufocante, e no meu sono eu sonhava que me asfixiavam por baixo de um monte de pedras. Com as minhas recordações, passou-se um pouco a mesma coisa. A primeira vez que me decidi a registá-las por escrito, pedi uma licença. Foi provavelmente um erro. As coisas estavam todavia bem encaminhadas: comprara e lera uma quantidade considerável de livros sobre o assunto, a fim de refrescar a memória, delineara quadros de organização, estabelecera cronologias detalhadas, e assim por diante. Mas com aquele período de licença tinha de repente tempo e pusera-me a pensar. Além disso era Outono, uma chuva cinzenta e suja despia as árvores, afundei-me lentamente na angústia. Apercebi-me de que pensar não é coisa boa.
Poderia ter desconfiado antes, os meus colegas consideram-me um homem calmo, pausado, reflectido, calmo, com certeza; mas muitas vezes durante o dia a minha cabeça começa a rugir, surdamente como um forno crematório. Falo, discuto, tomo decisões, como toda a gente; mas ao balcão do bar, diante da minha aguardente, imagino que um homem entra com uma caçadeira e abre fogo; no cinema ou no teatro, represento-me uma granada despoletada que rola por baixo das cadeiras em fila; na praça pública, num dia de festa, vejo a deflagração de um veículo cheio de explosivos, a animação da tarde transformada em carnificina, o sangue correndo por entre as pedras da calçada, os pedaços de carne colados às paredes ou projectados através das janelas para aterrarem na sopa dominical, ouço os gritos, os gemidos das pessoas com os membros arrancados como as patas de um insecto por um rapazinho curioso, o aturdimento dos sobreviventes, um silêncio estranho como uma placa sobre os tímpanos, o começo do medo prolongado, calmo? Sim, continuo calmo, aconteça o que acontecer, nada dou a ver, permaneço tranquilo, impassível, como as fachadas mudas das cidades sinistradas, como os velhinhos nos bancos dos parques com as suas bengalas e as suas medalhas, como os rostos à flor das águas dos afogados que nunca chegam a encontrar-se. De quebrar esta calma aterradora, eu seria de facto incapaz, ainda que o quisesse. Não sou dos que fazem um escândalo por causa de um sim ou de um não, sei conter-me.
Todavia, também a mim estas coisas pesam. O pior não são forçosamente as imagens que acabo de descrever; fantasias como essas habitam-me há muito, desde a minha infância sem dúvida, e em todo o caso desde muito antes de também eu ter dado comigo em pleno talho. A guerra, neste sentido, não foi mais do que uma confirmação, e habituei-me a esses pequenos guiões, tomo-os como um comentário pertinente sobre a vaidade das coisas. Não, o que se revelou penoso, pesado, foi não me ocupar senão de pensar nisso. Considere-se o seguinte: em que pensa o cidadão, ao longo de um dia? Em muito pouca coisa, de facto. Estabelecermos uma classificação reflectida dos seus pensamentos correntes seria coisa fácil: pensamentos práticos ou mecânicos, planos que organizam os gestos e o tempo (exemplo: pôr a água do café a ferver antes de lavar os dentes, mas as fatias de pão a torrar depois, porque ficam prontas mais depressa); preocupações ligadas ao trabalho; questões financeiras; problemas domésticos; fantasias sexuais. Pouparei os detalhes. Ao jantar, contemplamos o rosto que envelhece da nossa mulher, incomparavelmente menos excitante do que a amante, mas muito melhor do que ela em todos os aspectos, que se há-de fazer, é a vida, e começamos a falar da última crise ministerial». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PDQuixote/JDACT

quinta-feira, 12 de junho de 2014

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Uma pequena granada redonda que despoletaria com delicadeza antes de soltar a cavilha, sorrindo ao pequeno som metálico da mola, o último que ouviria, exceptuadas as pulsações do meu coração nos meus ouvidos»

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Toccata
«Irmãos humanos, deixem-me contar-vos como foi que se passou. Não somos seus irmãos, replicarão os que me lêem, e não queremos saber. E é bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto-vos eu. Corre o risco de ser um tanto comprida, afinal de contas passaram-se muitas coisas, mas caso os leitores não esteiam demasiado apressados, com um pouco de sorte o tempo há-de chegar. E depois isto diz-vos respeito: acabarão por ver bem que vos diz respeito. Não pensem que procuro convencer-vos seja do que for; bem vistas as coisas, as opiniões do leitor são da sua conta. Se me decidi a escrever depois de todos estes anos, é para esclarecer as coisas para mim mesmo e não para os que me lêem. Durante muito tempo, cada um de nós rasteja nesta terra como uma lagarta, na expectativa da borboleta esplêndida e diáfana que traz em si. E depois o tempo passa, a ninfose não chega, ficamos larva, constatação aflitiva, que havemos de fazer com ela? O suicídio, bem entendido, continua a ser uma opção. Mas, para dizer a verdade, o suicídio tenta-me pouco. Pensei longamente nele, é evidente; e se tivesse de me valer desse recurso, eis como procederia: poria uma granada bem apertada contra o meu coração e partiria numa viva explosão de júbilo. Uma pequena granada redonda que despoletaria com delicadeza antes de soltar a cavilha, sorrindo ao pequeno som metálico da mola, o último que ouviria, exceptuadas as pulsações do meu coração nos meus ouvidos. E depois a felicidade enfim, ou em todo o caso a paz, e as paredes do meu escritório enfeitadas com os meus retalhos. Para as mulheres-a-dias ficará o trabalho de limpeza, é para isso que são pagas, tanto pior para elas. Mas, como disse, o suicídio não me tenta. Não sei porquê, de resto, um velho fundo de moral filosófica talvez, que faz com que eu me diga que afinal de contas não é para nos divertirmos que cá estamos. Para fazer o quê, então? Não faço ideia, para durar, sem dúvida, para matar o tempo antes que ele nos mate. E nesse caso, como ocupação, nas horas vagas, escrever não vale menos do que qualquer outra coisa. Não que eu tenha horas vagas em demasia, sou um homem ocupado; tenho aquilo a que se chama uma família, um trabalho, e por conseguinte responsabilidades, tudo isso nos toma tempo, não nos deixando muito para descrevermos as nossas recordações. Tanto mais que recordações, tenho-as, e até mesmo numa quantidade considerável.
Sou uma verdadeira fábrica de recordações. Poderia ter passado a vida a manufacturar recordações minhas, ainda que me paguem antes, agora, a manufactura de rendas. De facto, poderia igualmente não escrever. Bem vistas as coisas, não é uma obrigação. Desde o fim da guerra, mantive-me um homem discreto; graças a Deus, nunca tive necessidade, como alguns dos meus ex-colegas, de escrever as minhas Memórias com intuitos de justificação, porque nada tenho a justificar, nem com propósitos lucrativos, porque ganho bastante bem a minha vida com o que faço. Uma vez, estava na Alemanha, numa viagem de negócios, discutia com o director de uma grande casa de peças de roupa íntima, ao qual pretendia vender rendas. Fora-lhe recomendado por antigos amigos; assim, sem fazermos perguntas, sabíamos os dois a que nos atermos, um em relação ao outro. A seguir à nossa entrevista, que se desenrolara aliás de maneira bastante positiva, levantou-se para tirar um volume da sua biblioteca e ofereceu-mo. Eram as memórias póstumas de Hans Frank, o Governador-Geral da Polónia; o livro intitulava-se Frente ao Cadafalso. Recebi uma carta da viúva dele, explicou-me o meu interlocutor. Editou à sua custa o manuscrito, que ele redigiu depois do seu processo, e está a vender o livro para cobrir as necessidades dos filhos. Imagine o ponto a que as coisas chegaram. A viúva do Governador-Geral. Encomendei-lhe vinte exemplares, para os oferecer. Propus também a todos os meus chefes de departamento que comprassem um. Ela escreveu-me uma carta de agradecimentos comovente. Você conheceu-a?» In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PDQuixote/JDACT

domingo, 11 de agosto de 2013

História do Pudor. Jean-Claude Bologne. «Rousseau, numa tentativa para justificar um pudor natural e exclusivamente feminino, invoca argumentos fisiológicos. Se a mulher está sempre pronta a receber o homem, e não o inverso, é portanto necessário que a iniciativa pertença a este último»

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Definir o pudor
Pudores masculino e feminino
«(…) Chorar, lamentar-se, corar, orar:o pudor do sentimento é considerado domínio do homem, a mulher privilegia o pudor corporal. A cada página encontraremos este pudor feminino, que será rei e senhor até, ao século XVIII e que hoje se mantém bem vivo, apesar do feminismo. Nada é tão natural na mulher como o pudor, escrevia o padre La Moyne, é um véu que ela não compra e que não custa a fazer. Nasce, forma-se, cresce com ela. Os cabelos só lhe nascem depois deste véu, que ficará quando eles caírem. É de todos os países e de todas as épocas, de todas as condições e de todas as idades... Quanto ao homem, o nosso jesuíta não consegue negar-lhe todos os pudores. Mas não são naturais nele: tendo-lhe Deus doado o seu próprio espírito, há que mostrar-se digno da oferta. Mas trata-se, quando muito, de uma premente obrigação de modéstia...
O pudor é, portanto, o estado original da mulher: ai daquela que o maltrata! A mulher sem pudor é depravada, proclama Rousseau, maltrata um sentimento natural do seu sexo. E Rétif de la Bretonne, abordado por uma prostituta na rua, responde-lhe com firmeza: Renunciaste ao pudor do teu sexo; já não és uma mulher, o homem já nada tem a ver contigo. É tentador incriminar a velha misoginia judaico-cristã para explicar esta ideia de sexo feminino. Contudo, o pudor feminino é bem mais antigo. É omnipresente na Grécia antiga, imagina-se o Apolo de Belvedere a tapar-se com a mão como a Vénus de Médicis? Pelo contrário, Platão não vê com bons olhos as mulheres nuas no estádio: seriam ridículas, pensa ele, mas, como filósofo íntegro, acha que não deve ser proibido...
Repete-se o mesmo argumento especioso, sobretudo depois de Plínio, para declarar natural o pudor feminino: o corpo de uma afogada flutua de cabeça para baixo para esconder os órgãos sexuais, ao passo que o afogado flutua de costas. Esta constatação (?), que não se procura pôr em causa, irá transmitir-se de livro em livro até ao século XVII para encerrar solidamente a mulher no seu pudor. O cristianismo primitivo vai acrescentar a este pudor pretensamente natural a sua obsessão paranóica da sexualidade feminina. Durante quinze séculos vive-se à sombra da imagem de Eva, a tentadora, que suscitou a queda do homem. Até os médicos, no século XVI, estão de acordo quanto a definir um desejo mais feminino que masculino. O coito não é necessário ao homem para a preservação da sua saúde, demonstra Bailly. Mas se a mulher for privada de companhia masculina, expõe-se a perturbações graves. A prova, segundo ele, está na frequência das sufocações da matriz nas viúvas, freiras e donzelas idosas. É uma fome ou sede dessa parte... Chamo-lhe doença, que cessa com grande dificuldade sem a ajuda do macho. O próprio Paré surge impregnado da concepção cristã de que a luxúria é fêmea.
Se as fêmeas dos animais fogem do macho logo que estão fecundadas, explica, é o contrário com as mulheres, pois elas desejam pelo deleite, não apenas pela espécie. Homem quer de experiência quer de tradição, é no entanto forçado a admitir, que o desejo masculino é muitas vezes mais premente que o da mulher... É nestas condições que se perpetua o pudor feminino, revestido de uma severa proibição sexual. No Juízo Final, as mulheres ressuscitarão como homens, pensam os integralistas do tempo de Santo Agostinho: é o único meio de o homem, nesse santo estado (?), não ser tentado por essa carne funesta! Elas não vão ressuscitar, afirmam os extremistas: não se diz que os corpos ressuscitarão na sua integralidade, por mais dispersos em pedaços que possam estar? A mulher terá portanto que desaparecer, para que Adão recupere a sua costela…(?)
O corpo feminino é negado no além, o seu prazer, na terra. Paradoxo de uma mulher que, sendo só desejo, se vê a recusar o prazer sexual. La clef d'Amors, no século XIII, é o único exemplo que ousa erguer-se contra esta ocultação da sexualidade feminina e pedir ao homem que adie o seu prazer. Não será seguido. Montaigne ainda pensa que o prazer feminino impede a concepção. O Renascimento, a despeito do seu amor pela carne, não põe em causa este pudor feminino. Mas confere-lhe um outro sentido. Ver uma mulher nua, segundo Montaigne, arrefece o ardor sexual em vez de incitar o macho à tentação. No reino de Pegu, explica Montaigne, os homens afastaram-se das mulheres para tomarem o prazer entre si; aquelas, para tentarem os seus antigos companheiros, adoptaram vestidos decotados que nada dissimulavam, mas com isso apenas desgostaram ainda mais os homens dos seus corpos! Viva pois, o pudor feminino, que alimenta o desejo do homem.
No século XVIII, a laicização da cultura suscita uma crescente racionalização do pudor feminino. Rousseau, numa tentativa para justificar um pudor natural e exclusivamente feminino, invoca argumentos fisiológicos. Se a mulher está sempre pronta a receber o homem, e não o inverso, é portanto necessário que a iniciativa pertença a este último. Que seria da espécie humana se se alterasse a ordem do ataque e da defesa? O assaltante escolheria ao acaso tempos em que a vitória seria impossível; o assaltado ficaria em paz, tendo embora precisão de se render, perseguido sem descanso, sendo então demasiado fraco para sucumbir; enfim, não se permitindo o poder e a vontade, sempre em discórdia, partilhar os desejos, o amor deixaria de ser o sustento da natureza, seria o seu destruidor e flagelo. Um texto que exasperaria as mulheres emancipadas, mas quem sabe se Jean-Jacques, ao descobrir a actual igualdade dos sexos, não veria aí a confirmação da sua teoria do pudor?»

In Jean-Claude Bologne, Histoire de la pudeur, Olivier Orban, 1986,  0História do Pudor, Editorial Teorema, Círculo de Leitores, 1996, ISBN 972-42-1374-9.

Cortesia de CL/JDACT