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domingo, 20 de julho de 2014

O Papel da Diplomacia Portuguesa no Tratado de Tordesilhas. Baquero Moreno. «Durante a crise de 1383 verifica-se que João Gomes Silva está próximo do partido de D. Beatriz, mulher de João I de Castela, na medida em que se junta em Coimbra ao conde Gonçalo, irmão da rainha D. Leonor Teles»

Cortesia de wikipedia

«A acção da diplomacia portuguesa que participa, conjuntamente com a diplomacia castelhano-aragonesa na feitura do tratado de Tordesilhas insere-se num contexto mais amplo que deverá estender-se, pelo menos, até ao tratado de paz celebrado entre Portugal e Castela em 1411. Quando o monarca João I se encontrava na capital de reino, pelo menos desde o início do mês de Agosto desse ano, com uma presença ininterrupta que se estende até ao ano seguinte, celebra-se em Ayton, a 3l de Outubro desse ano, um acordo que põe termo a vinte e sete anos de hostilidades e compromete ambas as partes no sentido de se restaurar um clima de estabilidade.
A embaixada portuguesa encarregada de negociar o acordo de paz era constituída pelo alferes-mor João Gomes Silva, e pelos licenciados Martim Dossem e Fernão Gonçalves Beleágua, e ainda Álvaro Gonçalves Maia, escrivão da câmara do rei João I, a qual colaborou activamente na redacção das cláusulas concordatórias, tendo cabido a assinatura do mesmo, por parte de Castela, aos tutores do rei João II, sua mãe D. Catarina e seu tio Fernando de Antequera.
Embora aos licenciados mencionados coubesse a parte técnica, a chefia da missão diplomática encontrava-se confiada a João Gomes Silva. De quem se tratava? Era filho de Gonçalo Gomes Silva e de D. Leonor Gonçalves, filha de Gonçalo Martins Coutinho. Do seu casamento com D. Margarida Coelho teve numerosa descendência. Era esta constituída por Aires Gomes Silva, regedor da Casa do Cível, alcaide-mor do castelo de Montemor-o-Velho e senhor de Vagos; D. Teresa Silva, mulher de Fernão Eanes Lima, senhor das terras de Valdevez e de Coura e D. Isabel Gomes, mulher de Pedro Gonçalves Malafaia, vedor da fazenda do rei João I. Teve alguns filhos bastardos: Diogo Silva, Pedro Silva e Lopo Silva.
Durante a crise de 1383 verifica-se que João Gomes Silva está próximo do partido de D. Beatriz, mulher de João I de Castela, na medida em que se junta em Coimbra ao conde Gonçalo, irmão da rainha D. Leonor Teles. Contudo, não tardaria muito a seguir o partido do mestre de Avis, recebendo como recompensa, em 23 de Abril de 1384, o lugar de Vagos, com suas rendas, direitos e pertenças. Anos mais tarde, por carta de 26 de Fevereiro de 1412, o rei João I tornou perpétua essa mercê, de juro e herdade. Quando os castelhanos passaram a exercer o cerco terrestre e naval de Lisboa, em Maio de 1384, João Gomes Silva foi um dos que veio em auxílio dos sitiados, participando no socorro dos mesmos com a nau Farinheira. De notar que ao tomar esta atitude este fidalgo deixou seu pai Gonçalo Gomes Silva em Montemor-o-Velho e partiu para a cidade do Porto com a finalidade de se incorporar na esquadra que veio em defesa da capital ameaçada pelos castelhanos.
Logo apos o levantamento do cerco de Lisboa, o mestre de Avis, por carta de 23 de Setembro de 1384, recompensou-o, com transmissão a seus herdeiros, com a doação da renda da comenda de Valhelhas, situada nas terras da ordem de Alcântara, atribuindo-lhe os direitos que a coroa possuía na colheita. O mestre de Avis iniciou o cerco ao castelo de Torres Vedras em 19 de Dezembro de 1384, tendo durado o assédio dessa praça de armas até meados de Fevereiro do ano seguinte. Nessa campanha teve parte activa este fidalgo. Ao lado de seu pai esteve este fidalgo presente nas cortes de Coimbra, celebradas em Abril de 1385, as quais procederam à eleição de João I como rei de Portugal. Embora não exista qualquer documento que o designe como copeiro-mor do novo rei, diz-nos Fernão Lopes que o monarca o nomeou para esse cargo da sua confiança. Subsistem, contudo, algumas dúvidas. Entre os dias 8 e 17 de Maio de 1385 o monarca procede ao cerco do castelo de Guimarães cujo alcaide Aires Gomes Silva era tio paterno de João Gomes Silva e tinha voz por D. Beatriz. No âmbito das operações militares participou este fidalgo, cuja actuação se viu recompensada com a obtenção duma parte dos bens do seu mencionado tio, o qual entretanto devido à idade e ao desgosto morreu no reino passados poucos dias». In Humberto Baquero Moreno, O Papel da Diplomacia Portuguesa no Tratado de Tordesilhas, a Joaquim Veríssimo Serrão os Amigos, Fraternidade e Abnegação, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1999, ISBN 972-624-126-X.

Cortesia da APdaHistória/JDACT

Um Retrato Italiano de Portugal no Século XVI. Carmen Radulet. «Fazendo recurso a este artifício retórico o anónimo florentino, elimina qualquer responsabilidade própria de carácter moral e informativo, não só porque atribui as duas partes do texto a dois autores diferentes da sua pessoa…»

jdact

«(…) Ao lado de um esforço de descrição de tipo global da Península, em que predomina uma tradição medieval e/ou humanista, surgem obras que têm como objectivo declarado uma apresentação e uma análise do território nacional, regional ou até local elaboradas em moldes mais concretos e, consequentemente, menos condicionadas pela retórica presente nos tratados de cunho tradicional. Os exemplos são numerosos e portanto, limitar-nos-emos a recordar só alguns dos mais significativos: o Tratado sobre a província d’antre Douro e Minho, do Mestre António, a Geographia d’antre Douro e Minho e Trás-os-Montes, de João de Barros, o Sumário em que brevemente se contem algumas couses (assim eclesiasticas como seculares) que há na cidade de Lisboa, de Cristóvão Rodrigues Oliveira, o Tratado da magestade e grandeza e abastança da cidade de Lisboa, de João Brandão, a História e antiguidade da cidade de Évora, de André de Resende ou a Urbis Olisiponis descriptio de Damião de Góis.
Além da ordem cronológica, não é casual o facto que citamos como último exemplo exactamente a Urbis Olisiponis descriptio de Damião de Gois já que esta obra assume no contexto que nos interessa um significado privilegiado, como aliás salientou Serrão:
  • AUrbis Olisiponis descriptio pode considerar-se um grande festival de erudição antiga e de história portuguesa. Citam-se Plínio, Xenofonte, Cornélio Nepos, Pomponio Mela, entre outros, ao lado dos lusitanos Santo António, André de Resende, Fernando Álvares e Brás Albuquerque. Para fundar a origem do topónimo Olisipo ou Ullissea, o autor invoca os nomes de Ptolomeu, Terêncio, Estrabão e Justino e discute as respectivas teses. Em todo o opúsculo não se vislumbra uma ordem temática, misturando-se a história, a geografia, a religião, as tradições e os dados concretos numa colorida simbiose de que a cidade emerge, tanto nas raízes do seu passado como na sua integração, desde o século XII, no corpo nacional português. O opúsculo é, na verdade, uma fonte histórica, mas com o devido respeito também uma peça literária.
O mesmo ilustre investigador vincava também o facto que este texto de Damião de Góis é uma obra eminentemente literária, nos moldes da evocação de certas terras e lugares, como a concebiam os humanistas ao elevar as raízes longínquas e as grandezas do presente. É nesta linha que se insere também o Ritratto et Riverso del Regno de Portogallo, apesar de o autor, ainda anónimo, perseguir um programa não só filosófico mas também formal, algo diferente do cumprido por Damião de Góis na Urbis Olisiponis descriptio. O objectivo do autor italiano não é o de tratar um itinerário através de uma determinada região, reconstruindo a história antiga e moderna daqueles lugares, mas o de facultar aos leitores italianos que não conheciam a realidade portuguesa um tratado descritivo do Reino de Portugal, assim como este se apresentava num momento bem definido da sua evolução histórica, social e administrativa. No acto de introduzir a segunda parte do seu tratado, o autor oferece também uma primeira indicação acerca do género em que se coloca a sua obra: O retrato deste reino de Portugal, que V.S. me mandou, li-o com aquela avidez e com aquele gosto com que se lêem as coisas belas e mui desejadas. Todavia, segundo algumas outras informações que tenho, pareceu-me ver sobretudo muito engenho e muita eloquência, mais do que o completo relato daquele reino. Não por que as coisas que escreveis não sejam verdadeiras, antes as tenho por mui verdadeiras, mas por que julgo haver muitas (talvez não tão louváveis) de que não fazeis menção alguma.
O retrato é portanto atribuído a um autor cuja qualificação e especialização ficam desconhecidas, apesar de se tratar de uma pessoa que possuía muito engenho e muita eloquência. A resposta-complementa, isto é o reverso com base num artificio retórico, representaria um texto redigido por motivos contingentes e fortuitos já que, como vinca o autor: ao tempo que recebi a vossa [obra], estavam aqui comigo dois nobres italianos, práticos das coisas do mundo, um dos quais tinha residido muito tempo naquela Corte. O gentil-homem ao qual foi pedida a opinião sobre aquela descrição do Reino de Portugal, teria notado que se tratava de um verdadeiro retrato e que, consequentemente, os retratos necessitam de um reverso: ele declarava-se, portanto disponível a redigir o reverso daquele retrato para que em tudo fosse perfeito. Fazendo recurso a este artifício retórico o anónimo florentino, elimina qualquer responsabilidade própria de carácter moral e informativo, não só porque atribui as duas partes do texto a dois autores diferentes da sua pessoa, mas também porque, no mesmo momento em que declara que se trata de um retrato e de um reverso, justifica também certas escolhas formais e de conteúdo. Depreende-se assim, claramente, que a obra respeita uma bem definida retórica, baseada no jogo dos contrastes e das contraposições e que, portanto os materiais informativos e a realidade apresentada sofrem uma determinada transfiguração literária ditada pelo próprio género». In Carmen Radulet, Um Retrato Italiano de Portugal no Século XVI, a Joaquim Veríssimo Serrão os Amigos, Fraternidade e Abnegação, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1999, ISBN 972-624-126-X.

Cortesia da APdaHistória/JDACT

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Um Retrato Italiano de Portugal no Século XVI. Carmen Radulet. «… mas que no reverso quis olhar para o País por outro prisma e relatar as coisas más, os aspectos feios dos Portugueses e que dedicou um pouco mais de espaço a este reverso que é um libelo terrível contra Portugal…»

jdact

«(…) A primeira parte começa com uma breve descrição geográfica do Reino, descrição em que o autor respeita o esquema típico dos tratados epidíticos, tão na moda na Itália do século XVI, para abordar depois as questões relacionadas com a situação administrativa, com o sistema jurídico e com a organização religiosa. Depara-se, sobretudo, que o autor conhece em profundidade o sistema jurídico português, que apresenta em toda a sua complexa estrutura: corregedores do cível e do crime, juízes do cível e do crime, ouvidores da alfândega, juízes das propriedades, juízes dos órfãos, juiz da Índia, Tribunal da relação do cível, Tribunal dos feitos novos, Casa da suplicação, Desembargo do Paço, Mesa da Consciência, etc.. Neste retrato, o autor não esquece de assinalar o facto que além daquilo que o rei de Portugal possui na Europa, ele é também senhor, na África, de Ceuta, Tânger, Arzila e Mazagão, que são quatro praças fortes de honesta grandeza na Mauritânia Tingitana, as duas primeiras no estreito de Gibraltar e as outras duas seguindo a costa, mais a poente. A Ilha da Madeira é igualmente sua, distante de Lisboa 150 léguas. É senhor das Terceiras, chamadas ilhas dos Açores, que são oito, s., a Terceira, S. Miguel, Santa Maria, S. Jorge, o Pico, o Faial, a Graciosa e a das Flores, todas distantes de Lisboa 300 léguas. E visto que, seguindo a costa da África, quase por toda a parte, junto ao mar, tem muitas fortalezas e ilhas até chegar à Índia, passarei a indicar a maior parte.
A esta realidade, menos conhecida pelo público italiano, o autor dedica amplo espaço, procedendo a uma descrição pormenorizada em que, seguindo a costa ocidental da África chega até Malaca e, para o ocidente ate ao Brasil, descrição em que indica não só as possessões portuguesas mas também, o seu regime político, o comércio e as rendas que a Coroa recebe destas praças e regiões. Se, neste retrato o Reino de Portugal é apresentado de uma maneira precisa e completa no que diz respeito à sua organização administrativa, política e económica, não o é no que toca à sociedade não directamente envolvida no sistema burocrático do Estado: encontram-se sobretudo breves notícias sobre a nobreza, sobre a concessão dos encargos públicos, dos benefícios e das comendas.
A segunda parte da obra, o reverso, não foi elaborado, como poderia parecer à primeira vista, como contraposição da primeira, mas como sua integração, como complemento capaz de propor ao leitor um conjunto amplo e variado da realidade portuguesa. Neste reverso o autor retoma brevemente, em sentido negativo, alguns dos temas abordados na primeira parte e enfrenta novos assuntos relacionados sobretudo com a qualidade da vida e com o sistema social descrição de Lisboa e reflexos da estrutura arquitectónica sobre a vida quotidiana, vias de comunicação, fortalezas, ordens militares, componentes étnicas, hábitos da vida das diferentes camadas sociais, relação da população com a religião, etc.
Oliveira Marques vinca ainda na sua breve introdução que o autor tentou dar no retrato uma descrição objectiva de Portugal e das coisas positivas que encontrou neste reino, mas que no reverso quis olhar para o País por outro prisma e relatar as coisas más, os aspectos feios dos Portugueses e que dedicou um pouco mais de espaço a este reverso (20 páginas manuscritas num total de 37) que é, na realidade, um libelo terrível contra Portugal, cujo povo ele desprezaparu além de todas as medidas. Esta impressão, justa, à primeira vista, deve todavia ser corrigida através da avaliação de alguns factores colaterais, como são o género em que se insere a obra e a cultura de um autor italiano do século XVI, para o qual a vida espiritual e material com que era habituado no seu país tinha um peso condicionante nas considerações sobre uma realidade bastante diferente, como era a portuguesa.
Durante os séculos XVI e XVII depara-se com um fôlego muito marcado do homem europeu de descrever e definir não só o mundo que estava descobrindo e explorando, mas também os países que se integravam numa Europa, aparentemente bem conhecida. Neste sentido a Península hispânica não foge à regra e, por exemplo, Damião de Góis, seguindo a linha de um Lúcio Marineo Sículo que tinha escrito De Laudibus Hispaniae  e, ao mesmo tempo, para combater as informações não correctas e depreciativas incluídas por Sebastião Münster na sua edição da Geografia de Ptolomeu, elabora em 1541 uma obra intitulada Hispania, enquanto que Pedro Medina publica em Sevilha, em 1548, o seu Livro de grandezas y cosas memorables de España». In Carmen Radulet, Um Retrato Italiano de Portugal no Século XVI, a Joaquim Veríssimo Serrão os Amigos, Fraternidade e Abnegação, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1999, ISBN 972-624-126-X.

Cortesia da APdaHistória/JDACT

Um Retrato Italiano de Portugal no Século XVI. Carmen Radulet. «… não se trata de um diário, de uma memória ou de um itinerário, mas sim de um tratado que tem por objectivo facultar ao leitor o retrato de um determinado país. A intenção é, de oferecer um retrato completo, nos aspectos positivos e negativos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Em 1984 Oliveira Marques publicou na revista Nova História Século XVI um texto até aquele momento inédito que apresentou com o título: Uma descrição de Portugal em 1578-80. Na breve introdução, o investigador vincava o facto que se tratava de um códice anónimo, encontrado em Hannover, cujo título, na versão original, e Ritratto et Riverso del Regno di Portogallo. No que diz respeito à datação, o investigador afirmava que o manuscrito, devido às características da grafia, datava dos inícios do século XVII se bem que a elaboração do texto deveria ser colocada em 1578-1580, depois de morte do monarca Sebastião I, mas ainda na época do cardeal Henrique, considerado pelo autor como rei, muito bom e muito santo. Com base numa série de elementos internos, Oliveira Marques chegava também à conclusão que o italiano devia ser um clérigo ou um homem ligado à Igreja, que nunca critica, exaltando a Inquisição (maldita), odiando os Judeus, etc. Pode tratar-se de um súbdito dos Estados Papais, pelas alusões respeitosas que faz ao Sumo Pontífice e seus decretos. Além disso punha em evidência o facto que a língua utilizada era o florentim, elemento capaz de oferecer indicações úteis para estabelecer a sua pátria de origem, dentro da Itália. Este conjunto de considerações induziu o investigador a levantar a hipótese que o autor devia ser, com toda a probabilidade membro de uma das muitas embaixadas e outras missões enviadas pelos diversos Estados italianos a Portugal durante o século XVI.
Como veremos, a análise do texto revela que o autor conhecia profundamente a realidade portuguesa, a vida quotidiana, a organização política, administrativa e religiosa do Reino, facto que deveria excluir uma frequentação exterior e limitada como, com toda a probabilidade, era aquela de um membro de uma embaixada. Além disso, se o autor dedica um espaço bastante amplo à problemática religiosa e se a sua atitude não é abertamente crítica perante as instituições eclesiásticas, não significa forçosamente que se trate de um religioso. Com efeito, durante o século XVI era perfeitamente natural para qualquer cristão conhecer os mecanismos da religião e ter consideração pela igreja e pelo papa. Por outro lado, revela-se mais difícil explicar que um religioso se mostre tão interessado nos aspectos técnicos da organização administrativa e jurídica, pela vida material, pelo viver quotidiano, pela maneira de vestir, pelos hábitos das diferentes camadas sociais, etc.
Graças a uma feliz coincidência, na Biblioteca Nacional de Florença existe uma outra versão da mesma obra, também anónima que, com base na grafia, pode ser considerada como uma cópia quinhentista. Este manuscrito aparece praticamente idêntico na grafia com uma carta autógrafa do engenheiro militar Baccio Filicaia. Como muitos outros arquitectos ou engenheiros militares italianos, Baccio Filicaia, originário da região de Florença, começou a trabalhar em Portugal e sucessivamente transferiu-se para o Brasil onde viveu onze anos. Uma personagem deste tipo, directamente envolvida na vida social portuguesa tinha a possibilidade de chegar a uma compreensão profunda do país que o hospedava, portanto, apesar das muitas dúvidas que ainda persistem acerca da identificação do autor do Ritratto et Riverso del Regno di Portogallo, consideramos mais provável a atribuição desta obra a um engenheiro militar florentino como Baccio Filicaia ou a um outro conacional radicado em Portugal, do que a um eclesiástico membro de uma das numerosas embaixadas italianas que naquela época foram enviadas a Portugal.
O facto de a questão da autoria ficar por enquanto em aberto não anula minimamente a importância desta obra, mas para uma melhor compreensão do seu significado global, vale a pena avaliar o género, a estrutura do texto e os campos de interesse preferenciais. O título Ritratto et Riverso oferece uma primeira indicação relativamente ao género escolhido pelo autor: não se trata de um diário, de uma memória ou de um itinerário, mas sim de um tratado que tem por objectivo facultar ao leitor o retrato de um determinado país. A intenção é, ao mesmo tempo, aquela de oferecer um retrato completo, nos aspectos positivos e negativos e, consequentemente, o texto é estruturado em duas partes, diferentes no que diz respeito simultaneamente às suas características e extensão». In Carmen Radulet, Um Retrato Italiano de Portugal no Século XVI, a Joaquim Veríssimo Serrão os Amigos, Fraternidade e Abnegação, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1999, ISBN 972-624-126-X.

Cortesia da APdaHistória/JDACT

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Sociedade Medieval Portuguesa. H. Oliveira Marques. «Cada cidade possuía, praticamente, o seu tipo de pano especial, de cujo fabrico só ela conhecia o segredo que ciosamente guardava. Lãs mais ou menos espessas, mais ou menos finas, riscadas ou lisas…»

Cortesia de wikipedia 

A Mesa
«(…) E era cousa formosa para ver as mesas como estavam ordenadas, que em cada uma havia três grandes bacios de iguarias cobertos , e em cima dos dois dos cabos estavam tendas de damasco branco e roxo, que eram as cores da Princesa; as tendas eram borladas e muito galantes, com muitas bandeirinhas douradas, e eram grandes de dez côvados cada uma. E na iguaria do meio estava um castelo de feição de tríbulo, feito de madeira subtil, e pano de tafetá dourado, que era muito formosa cousa, e de muito custo. Começaram a comer, e por a infinidade das iguarias, manjares, conservas, fruitas, que foi como consoada, durou muito grande espaço. E acabado houver muitos e muitos momos e mui singulares entremeses, cada vez com mais riquezas, gentileza, e melhores invenções, que duraram até acerca da manhã.
[…]
 
O Traje
O conceito de moda é antiquíssimo. Remonta porventura à Pré-História. Mas eram modas simples e duradouras, essas dos tempos antigos. Só a partir do século XIII a moda se acelerou, em relação directa com as transformações económicas que o mundo ocidental conheceu a partir do undécimo século. Essas transformações caracterizavam-se por um aumento das transacções comerciais, em especial à distância. No plano social assistiu-se ao nascimento de uma nova classe, a burguesia. A população concentrou-se nas cidades, que passaram a constituir os núcleos principais da actividade económica e cultural. Ora, vivendo na cidade, nobres e burgueses contactaram, directa e quotidianamente, com os outros nobres e os outros burgueses. A emulação, característica também das actividades profissionais, foi reflectir-se no vestuário. Ao sair da igreja, ao tomar assento na assembleia camarária, ao participar nas festividades da sua cidade, o burguês sentia sempre o desejo de superar o seu concidadão. Pretendia chamar a atenção sobre si através da qualidade de tecido que envergava e da forma como o talhava. Queria, em suma mostrar-se diferente, mais rico, e mais belo. Foi aformosear-se, e à família, como aformoseou a casa pelos móveis que adquiriu e as tapeçarias que a revestiram. Por outro lado, o nascimento da vida de corte pôs os nobres em presença uns dos outros e suscitou também neles competição na aparência.
Mas a moda, no sentido de variedade, surgiu igualmente das novas condições da produção. Antes do século XI, os tecidos fabricados no ocidente da Europa obedeciam a uma relativa uniformidade. As diferenças de qualidade existiam, é certo, mas em grau muito menor. A tradição romana nem mesmo tingia as peças de lã ou de linho fiadas, que se talhavam e vestiam em sua cor natural. Ora, o desenvolvimento da indústria têxtil, cujos centros principais foram a Flandres, o norte de Itália e, um pouco mais tarde, a Inglaterra, trouxe consigo a fabricação de numerosíssimas qualidades de panos. São dezenas e dezenas de tecidos diversos que os documentos dos séculos XIII, XIV e XV nos revelam. Cada cidade possuía, praticamente, o seu tipo de pano especial, de cujo fabrico só ela conhecia o segredo que ciosamente guardava. Lãs mais ou menos espessas, mais ou menos finas, riscadas ou lisas, com adornos e bordados, se produziam, exportavam e utilizavam para a confecção dos variados trajes». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, a Esfera dos Livros, 2010, ISBN 978-989-626-241-9. 
 
Cortesia de E. dos Livros/JDACT

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

H. Oliveira Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa: A Mesa. «O rei e seus conselheiros consideraram que eram feitas maiores despesas que as que deviam fazer em comer... Daí saiu uma pragmática que estabelecia um certo número de regras, moderadas»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Mesa
«(…) Embora escasseiem os dados, sabemos que grande número de regras de boa conduta à mesa vigoravam no Portugal medievo. Já atrás tomámos contacto com algumas delas. Também no serviço havia normas. O cozinheiro levante as colheres, dizia a regra cisterciense, primeiramente à parte direita, começando no prior; despois à parte sestra, começando junto com o prior. Estamos em crer que a disciplina conventual, estendida até aos pormenores mais ínfimos das regras de boa conduta à mesa, influiu muito na fixação de um código social de comportamento. Mas só nos fins do século XIV ou princípios do XV se começaram a estabelecer regras de colocação de lugares. Ainda por 1386, ao encontrarem-se o rei João I e o duque de Lancaster, ali se desarmaram e assentaram-se a comer ambos de uma parte, sem curarem de parte direita nem esquerda, cá inda então não era em uso, e assim os que vinham com o duque. Os monarcas preocupavam-se, às vezes, em refrear o excesso de luxo que os nobres e os ricos ostentavam. Essa preocupação surgia, quase sempre, em períodos de crise, ou que a imediatamente precediam, quando a sumptuária mais se fazia notar. Em certos casos, o desejo de refrear excessos alargava-se à própria alimentação. Foi o que sucedeu no Portugal de 1340. O rei e seus conselheiros consideraram que eram feitas maiores despesas que as que deviam fazer em comer... Daí saiu uma pragmática que estabelecia um certo número de regras, moderadas. Dividindo a população que importava considerar em ricos-homens, filhos d'algo e cidadãos, proibia aos primeiros o uso de mais de três pratos de carne ao jantar e de dois, à ceia; aos segundos e terceiros, o uso de mais de dois pratos, ao jantar, e de um, à ceia.
Podiam, é certo, comer todo o peixe, marisco, caça, criação e lacticínios que quisessem, desde que o houvessem por serviço ou por venação. A concluir este capítulo, vejamos a descrição de dois banquetes festivos, que Garcia de Resende inclui na sua Crónica de EI-Rei D. João II, ao narrar o casamento do príncipe Afonso com D. Isabel, filha dos reis Católicos.

Logo à terça-feira à noite houve banquete de ceia na sala da madeira, em que El-Rei e a Rainha, e o Príncipe e a Princesa comeram, e com eles o Senhor D. Jorge, e Rodrigo de Ilhoa, embaixador, todos em uma grande mes, com muito grandes dorséis de brocado, que tomavam toda a sala através, e na primeira mesa da mão direita comia o marquês de Vila Real com as senhoras donas e damas, e na primeira da mão esquerda o arcebispo de Braga, e o bispo de Évora, e de uma parte, e da outra, assim homens como mulheres. E a mesa de El-Rei com todo-los oficiais vestidos de brocados, e servida por moços fidalgos que serviam de tochas e bacios, ricamente vestidos. E as outras mesas todas com trinchantes e oficiais vestidos de ricas sedas e brocados e mui galantes, e assim os moços da câmara ordenados a cada mesa, todos vestidos de veludo preto. No qual banquete houve infinitas e diversas iguarias e manjares, e singular concerto e abastança e muitas e assignadas cerimónias. E quando levaram à mesa de El-Rei as iguarias principais era a primeira e derradeira, e de beber a ele e à Rainha, e ao Príncipe e Princesa, iam sempre diante, dois e dois, muitos porteiros de maça, reis de armas, arautos e passavantes, os porteiros-mores, quatro mestres-salas, o veador, e os veadores da fazenda, e detrás de todos o mordomo-mor, e todos iam com os barretes na mão até o estrado, onde faziam suas grandes mesuras, e os veadores da fazenda iam com os barretes na cabeça até o meio da sala, e do meio por diante os levavam na mão, e o mordomo-mor ia sempre coberto até o fazer da mesura, que juntamente fazia e tirava o barrete. E era tamanha cerimónia que durava muito cada vez que iam à mesa. E o estrondo das trombetas, atambores, charamelas e sacabuxas, e de todo-los ministréis era tamanho que se não ouviam, e isto se fazia cada vez que El-Rei, a Rainha, e a Princesa bebiam, e vinham as primeiras iguarias à mesa; e a copeira era coisa espantosa de ver. E logo à entrada da mesa veio uma grande carreta dourada, e traziam-na dois grandes bois assados inteiros, com os cornos e mãos e pés dourados, e o carro vinha cheio de muitos carneiros assados inteiros com os cornos dourados, e vinha tudo posto num cadafalso tão baixo com rodetas por fundo dele, que não se viam, que os bois pareciam vivos e que andavam. E diante vinha um moço fidalgo com uma aguilhada nas mãos picando os bois, que pareciam que andavam e levavam a carreta, e vinha vestido como carreteiro com um pelote e um gabão de veludo branco forrado de brocado, e assim a carapuça, que de longe parecia próprio carreteiro, e assim foi oferecer os bois e carneiros à Princesa e feito o serviço os tornou a virar com sua aguilhada por toda a sala até sair fora, e deixou tudo ao povo, que com grande grita e prazer foram espedaçados, e levava cada um quanto mais podia. E assim vieram juntamente a toda-las mesas muitos pavões assados com os rabos inteiros, e os pescoços e cabeça com toda a sua penar que pareceram muito bem por serem muitos, e outras muitas sortes de aves e caças, manjares e frutas, tudo em muito grande abundância e grande perfeição.

Muitas e grandes festas se fizeram todos os dias e noites até domingo, cinco dias de Dezembro, em que houve outro segundo banquete na dita sala da madeira, de muitas mais invenções, abastança e gentileza, e de muito mais política, e muito melhor servido que o primeiro». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, A Esfera dos Livros 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT

sexta-feira, 13 de abril de 2012

História da Maçonaria em Portugal. A. H. Oliveira Marques. Das Origens ao Triunfo. «Quanto às lojas estabelecidas em várias outras praças fortes do País, há referência precisa a uma, criada em Olivença ou Elvas, existente em 1765-66 e de que participavam oficiais alemães servindo nas duas localidades. Esta loja fazia recrutamento, como nos informa Kinselach nas suas declarações»



jdact

O Pombalismo
«A loja de Coimbra é tão provável e verosímil como a de Valença, embora não existam provas decisivas dos seus trabalhos. A juventude estudantil foi aí sempre um foco de irrequietismo e de vanguardismo culturais, de onde saíram, em todos os tempos, núcleos de maçons e lojas maçónicas, tão variadas e efémeras como a condição escolar o exigia. Sabe-se que, na década de Setenta, esteve activo, na cidade do Mondego, um núcleo de ‘libertinos’, quase todos eles perseguidos pela Inquisição (maldita) a partir da queda do marquês de Pombal, de que fizeram parte, entre outros, os estudantes António Morais Silva, João Bezerra de Seixas, José Laureano Leger, Manuel Espírito Limpo, o Morgado de Mateus, José Maria Teixeira, Francisco José Almeida, Diogo José Calado, Lourenço Justiniano Calado, António Caetano Freitas, Vicente Júlio Fernandes, Francisco José Almeida, Nuno Freitas da Silva, José Maria da Fonseca, João Manuel Abreu, Rodrigo de Sousa Coutinho e o afamado lente José Anastácio Cunha. Ainda em 1778-79 se faziam provavelmente iniciações na cidade, como se verá no capítulo seguinte. Com mais forte razão elas se realizariam nos anos anteriores, quando a liberdade religiosa e maçónica era maior. A influência de José Anastácio Cunha, que exerceu funções docentes em Coimbra de 1773 a 1778, pode ter sido decisiva na instalação da loja coimbrã.

Quanto às lojas estabelecidas em várias outras praças fortes do País, há referência precisa a uma, criada em Olivença ou Elvas, existente em 1765-66 e de que participavam oficiais alemães servindo nas duas localidades. Esta loja fazia recrutamento, como nos informa Kinselach nas suas declarações.
O mesmo depoente refere a existência de um maçon, oficial alemão em Estremoz, presente numa iniciação na loja de Lisboa. O próprio Kinselach, aquando da sua estada no Alentejo, durante o ano de guerra (1762), procedera a aliciações para a Maçonaria, conseguindo a adesão de um sobrinho ou primo do conde de Lippe. E em Almeida havia, já em 1760, um foco de ‘libertinagem’ entre a oficialidade, de que participava o morgado de Balsemão.
Também em Braga, apesar de não se tratar de uma praça forte, houve, junto de Kinselach, diligências por parte de nobres e oficiais do Exército portugueses para ser constituída uma loja, algures em 1776. A iniciativa não foi, ao que parece, levada a efeito.

Esta Maçonaria pombalina dos anos de Sessenta distinguia-se consideravelmente da Maçonaria das décadas de Trinta e Quarenta. Não no ritual nem nos objectivos expressamente professados, entenda-se, que se mantinham inalteráveis. A diferença estava antes nos maçons aderentes. Enquanto as lojas joaninas eram constituídas, com poucas excepções, por pequenos e médios comerciantes e artesãos, gente de pouco peso social, conformista e sem nada que a distinguisse do comum da população, nas novas lojas josefinas predominavam jovens militares bem pensantes, cônscios da sua visão diferente do mundo e desejosos de contribuir para uma modificação estrutural. Não se tratava ainda de uma maçonaria ‘liberal’, como viria a ser a de começos de Oitocentos, nem a ordem política sobretudo preocupava os novos maçons. As questões religiosas e filosóficas é que principalmente os norteavam. A contestação dirigia-se mais a Deus do que ao Príncipe. Eram postos em causa o Deus católico tradicional e as verdades da religião católica ou, pelo menos, do catolicismo interpretado por Roma. Daí, o impacte dos protestantes e da sua maneira diferente de entender o Cristianismo. E distinguiam-se também muitos desses maçons pela maneira de estar no mundo, de viver o dia-a-dia, em contraste com a esmagadora maioria da população. Ampla tolerância de ligações extramatrimoniais, recusa ao jejum e à abstinência, convívio com hereges e com estrangeiros ‘diferentes’, leitura de livros ‘proibidos’, aceitação de uma nova ciência, de uma nova filosofia e de uma nova moral ou, pelo menos, discussão em seu torno, eis o que uma percentagem significativa de novos maçons defendia e professava.
Maçonaria passou a ser geralmente conotada com libertinagem, tal como a palavra era definida no Portugal do século XVIII, mesmo que grande número de ‘irmãos’ continuasse arreigado às práticas religiosas e morais impostas pela tradição». 
In A. H. Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal, das Origens ao Triunfo, Editorial Presença, 1990.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

História da Maçonaria em Portugal. A. H. Oliveira Marques. Das Origens ao Triunfo. «O quarto de século que, ‘grosso modo’, correspondeu ao ministério de Sebastião José Carvalho e Melo, foi ponteado de iniciações de cidadãos portugueses fora de Portugal. A fama e a moda da Maçonaria corriam fronteiras»

Cortesia de editorialpresenca

O Pombalismo
«Em Viena, acamaradou com maçons conhecidos, como por exemplo Manuel Teles da Silva, duque e príncipe de Silva Tarouca, sugerindo-se que tivesse visitado a loja “Aux Trois Canons” (é curioso que os historiadores não maçons aceitam a visita de Pombal à loja vienense, como se tal visita fosse possível a um não iniciado! A menos que Carvalho e Melo se tivesse limitado a ‘visitar’ o espaço físico da loja...) A entrada de Pombal na Maçonaria permitiria explicar melhor, para além dos argumentos expostos, a ausência de perseguições durante todo o seu governo e a tolerância plena que demonstrou para com maçons confessos, guindando-os aos mais altos cargos e favorecendo-os com a sua protecção declarada. E ajudaria a explicar também a profusão de símbolos maçónicos ou maçonizantes, espalhados pelas várias formas artísticas, durante o tempo do seu consulado.

NOTA: Compassos, esquadros e outros utensílios de pedreiro, por vezes em posição tipicamente maçónica, surgem em pinturas, azulejos, baixos-relevos, etc., Se muitos nada têm a ver com a Maçonaria, simbolizando apenas a arte de construção, alguns podem resultar de um espírito maçónico e de uma consciência maçónica, discretamente transmitidos pelo artista ao monumento em que trabalhava. Apontem-se, como exemplos, o famoso tecto da Sala da Concórdia, no Palácio do Marquês de Pombal em Oeiras, em que os ‘três’ irmãos se abraçam e dão as mãos, entre ‘três’ colunas-pilares, tendo aos pés a ambígua legenda «Concordia Fratrum» (Concórdia dos Irmãos); a alegoria ao Marquês de Pombal, desenho de Francisco Roiz e gravura de Steph. Fessard, no Museu Nacional de Arte Antiga e no Museu da Cidade (cf . Lisboa e o Marquês de Pombal, Museu da Cidade, vol. I, Lisboa, 1982, nº 15, p. 29): a alegoria a José I, gravura no Banco de Portugal; a alegoria à Expulsão dos Jesuítas, de João Tomás da Fonseca e Ventura da Silva, conservada também no Banco de Portugal; outra alegoria à Expulsão dos Jesuítas, gravura a água forte e buril, existente igualmente no Banco de Portugal; um painel de azulejos no salão nobre do Hospital de S. José, em Lisboa; o baixo-relevo de João Tomás da Fonseca na parte de trás do pedestal da estátua equestre na Praça do Comércio, em Lisboa, etc..

O quarto de século que, ‘grosso modo’, correspondeu ao ministério de Sebastião José de Carvalho e Melo, foi ponteado de iniciações de cidadãos portugueses fora de Portugal. A fama e a moda da Maçonaria corriam fronteiras. 

 
Cortesia de editorialpresenca

Muitos súbditos de Estados onde as lojas estavam proibidas ou tinham pouca projecção social recorriam às instituições maçónicas estrangeiras, se se dava o caso de residirem ou de passarem algum tempo fora do seu país. Assim sucedia com diplomatas, com mercenários de qualquer profissão e, sobretudo, com marítimos e com comerciantes internacionais. Uma vez regressados à pátria de origem, estes maçons seguiam trajectórias variadas. Uns, porventura a maioria, não mais trabalhavam em loja, quer por a não existir na sua terra quer por não estarem interessados em se dar a conhecer ou em conviver com os seus compatriotas. Outros, mais imbuídos de espírito maçónico, procuravam integrar-se nas lojas que encontravam em actividade ou fomentar até a criação de novas oficinas. Em qualquer caso, traziam consigo o espírito da Maçonaria, e a história dos seus casos não pode ser esquecida.

Na ausência de Maçonaria portuguesa organizada, os membros da colónia britânica continuaram a trabalhar na sua loja própria. Entre 1755 e 1763 levantou colunas, em Lisboa, uma loja «inglesa», restrita aos cidadãos das Ilhas Britânicas e de que nada praticamente se sabe (1755 corresponde, à data em que a primeira loja inglesa foi abatida ao quadro das oficinas da Grande Loja de Londres). Esta loja não consta dos registos da Grande Loja de Londres, o que mostra que nunca se chegou a regularizar. Era aparentemente muito fechada, existindo escassa comunicação entre os seus membros e outros iniciados na Maçonaria. Ignora-se também em que data deixou de trabalhar. Em 3 de Julho de 1762, no quadro de uma reestruturação geral do Exército português, envolvido na Guerra dos Sete Anos, chegou a Portugal, a convite de Sebastião José de Carvalho e Melo, o conde reinante de Schaumburg-Lippe, Friedrich Wilhelm Ernst [O conde sucedera a seu pai, o maçon Albert Wolfgang, em 1748, com o nome de Wilhelm (Guilherme)].

 
Cortesia de editorialpresenca

O conde de Lippe era conhecido internacionalmente como um bom organizador e estratega, tendo actuado em Inglaterra, no Hannover e em Lippe, e participado em várias operações militares. Fora o Governo Britânico que o recomendara ao Governo Português. O conde de Lippe residiu em Portugal de Julho de 1762 a 20 de Setembro de 1764 e depois, novamente, de 16 de Setembro de 1767 a 1 de Março de 1768, com influência decisiva na reorganização das forças militares portuguesas.
Ora, o conde de Lippe pertencia à Maçonaria. Fora iniciado na Alemanha e, aparentemente, não passara a coberto como tantos outros. Rodeou-se de oficiais também maçons e trouxe-os consigo para Portugal. A tradição da profunda influência do conde de Lippe na Maçonaria portuguesa mantinha-se bem viva em meados do século XIX. Leiam-se declarações de ‘irmãos’ tão bem informados como Silva Carvalho (1846) ou Miguel António Dias (1853). Ficaram conhecidos, certamente entre outros muitos, os nomes de vários mercenários que o acompanharam.

Foi grande o impacte destes mercenários na Maçonaria portuguesa. Fundaram-se, pelo menos, três lojas, uma em Lisboa, outra em Valença e outra no Funchal e, possivelmente, outras ainda, em Coimbra, Almeida, Elvas, Olivença, Estremoz, etc., onde quer que existissem guarnições militares importantes. E quando não houve oportunidade, ou iniciativa, para a instalação de oficinas, houve ‘irmãos’, dispersos por todo o Portugal, difundindo os ideais maçónicos e contribuindo para o seu melhor conhecimento por parte dos Portugueses.
A loja de Lisboa trabalhava já em 1763, embora sem a autorização de qualquer Grande Loja. Compunha-se de uma dúzia de pessoas, predominante ou exclusivamente estrangeiros, com a participação de holandeses, alemães, franceses, italianos do Piemonte, etc., saídos do pessoal diplomático e militar. Realizava as suas sessões em vários locais, fazendo-se referência à casa do Venerável e à de um francês, na rua da Estrela, mas igualmente a uma fragata de guerra, surta no porto de Lisboa, onde se efectuaram banquetes e se deu, até, instrução a aprendizes». In A. H. Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal, das Origens ao Triunfo, Editorial Presença, 1990.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

História da Maçonaria em Portugal. A. H. Oliveira Marques. Das Origens ao Triunfo. «…a filiação do próprio Carvalho e Melo na Ordem Maçónica. A afirmação foi feita, ainda durante a vida do primeiro marquês de Pombal, por inimigos seus […]. A tradição, essa, iria manter-se até aos nossos dias. Carvalho e Melo pode ter sido iniciado maçon em Londres»

A construção
Cortesia de editorialpresenca

Das Origens às Primeiras Perseguições
«Instalada em finais de 1741, a loja de Coustos trabalhou pouco mais de um ano, até começos de 1743, com grande dinamismo, resultado da energia e dos conhecimentos do seu fundador. Reuniu quase uma trintena de pessoas, das quais cerca de 75% eram franceses, sendo os outros ingleses, um italiano, um holandês e, porventura, um ou dois portugueses. Começando com pouca gente, conseguiu iniciar uns quinze «irmãos» e aumentar de grau alguns outros, que haviam sido iniciados fora de Portugal. Quanto a profissões, a loja englobava uma esmagadora maioria de homens de negócio, onde pontificavam os ourives e os lapidários e contratadores de diamantes, tendo ainda dois alfaiates, um banqueiro, um marítimo e quatro sem profissão conhecida. Em religião, predominavam os católicos, mas havia igualmente alguns protestantes, entre eles o próprio Venerável. As sessões tinham lugar, alternadamente, nas casas dos «irmãos, preferindo as casas de pasto, de que havia umas quatro ou cinco disponíveis. O ritual fazia-se em francês.

A loja de Coustos não teve tempo, sequer, para tentar uma regularização. Mas é provável que o seu fundador, bom conhecedor das leis maçónicas, a tivesse em mente junto da Grande Loja de Londres, onde não lhe faltariam contactos.
O ambiente em Lisboa não estava favorável à disseminação da Maçonaria, a bula de 1738 era demasiado recente para se ter esquecido. A Inquisição (maldita) mantinha-se alerta, sendo provável que circulassem, nos meios eclesiásticos, as notícias das perseguições que, no estrangeiro, se iam fazendo a coberto da decisão papal. Em 1741, o padre agostinho João Evangelista, que publicara sob o pseudónimo anagramático de Gelásio António de Sá, dava à estampa, em Lisboa, a tradução de uma obra francesa onde a Maçonaria aparecia muito maltratada. Definiam-na como heresia dos tempos modernos, acusando-a de defender proposições como a de que todo o pecado cometido entre quatro paredes era venial, a de que a fornicação simples não era pecado ou a de que todas as acções do homem deviam ser conduzidas com vista ao próprio homem ou à Humanidade. Durante os anos seguintes, a tentativa de identificar Maçonaria como heresia continuou. A Inquisição (maldita) não teve dúvidas em aceirar as proposições heréticas como características da «seita». O padre José Marta Henriques glosou o tema e os pontos «heréticos» difundidos por João Evangelista, dando à estampa nova obra que pouco acrescentava à anterior.

A generosidade régia socorrendo Lisboa
Cortesia de editorialpresenca

Assim, não tardou que a Inquisição (maldita) se apercebesse do que se estava passando. Ainda em 1742, nos começos de Outubro, recebeu a primeira denúncia, de um tal Henrique M. de Moura, procurador de negócios e causas. Em Fevereiro de 1743,a Mesa do Santo Ofício chamou-o de novo para segundo interrogatório, mandando depois ir à sua presença diversas pessoas que poderiam confirmar a denúncia inicial. Nos começos de Março, de posse já de elementos bastantes, o Santo Ofício ordenou a prisão dos membros da loja Jean Coustos, Alexandre Mouton e Jean-Thomas Bruslé. Seguiu-se-lhes, em Abril, Jean-Baptiste Richard. No entretanto, um quinto «irmão, Lambert Boulanger, correra a denunciar as suas culpas.

Os processos contra os quatro presos arrastaram-se durante cerca de um ano. Os réus foram interrogados e torturados, saindo por fim no auto-de-fé público de domingo, 21 de Junho de 1744, com as seguintes penas: quatro anos de galés para Coustos; e cinco anos de degredo para fora do patriarcado de Lisboa, além de penitências espirituais, para Mouton e Bruslé. Richard, que se quis converter ao catolicismo, ficou, ‘ipso facto’, isento de mais penas. Veio a sair no auto-de-fé de 1 de Julho. Boulanger e os demais «irmãos» foram deixados em paz.
Coustos não cumpriu a pena durante muito tempo. Logo a seguir ao auto-de-fé, beneficiou aa influência da Maçonaria inglesa, que fez as pressões necessárias sobre Lord Charles Compton, representante diplomático em Lisboa, para tirar da prisão um súbdito de sua Majestade Britânica. Em Setembro de 1744, Compton avistou-se com o cardeal da Mota, todo poderoso valido do rei, e com o Inquisidor-Mor, cardeal Nuno da cunha, obtendo a libertação em finais de Outubro seguinte. Em Novembro, Coustos, acompanhado por Mouton, abandonava Portugal.
De regresso à Pátria, escreveu um livro sobre as suas aventuras nos cárceres do Santo Ofício que constitui ainda hoje testemunho importante para a história da Inquisição setecentista portuguesa.

O Pombalismo
A intervenção violenta do poder inquisitorial travou, durante algum tempo, a expansão da Maçonaria em terra portuguesa. Compreende-se. As lojas maçónicas não eram locais de conspiração nem de actividade política ou religiosa subversiva. Os maçons não tinham ainda consciência do seu espírito de vanguarda nem do papel que podiam desempenhar como mensageiros das Luzes do século.

O marquês de Pombal
Cortesia de editorialpresenca

Tudo o que pretendiam era reunir-se ritualmente, conviver um pedaço, comer, beber e cantar na companhia dos seus «irmãos», ajudar-se mutuamente e sentir-se, por isso mesmo, seguros e bem dispostos. Não estavam interessados em ser inimigos nem vítimas fosse de quem fosse, muito menos da temível instituição.

Para mais, a Igreja voltara à carga. O papa Benedito XIV reeditara, em 1751, a bula do seu antecessor. Num novo texto, denominado ‘Providas Romanorum’, o Sumo Pontífice confirmava e transcrevia o documento de Clemente XII, justificando a condenação e a proibição das assembleias maçónicas por motivos muito semelhantes: associavam-se nelas homens de todas as religiões, «do que assaz se manifesta quão grande perdição daí possa resultar à pureza da religião católica»; existia na ordem Maçónica, sob forma de juramento, o vínculo apertado e impenetrável do segredo; associações como a da Maçonaria eram contrárias às leis civis e canónicas e tidas em má conta por varões prudentes e honrados. Mesmo que a nova bula não constituísse lei do Reino por não ter obtido o Beneplácito, era, ainda assim, mais um argumento para desencorajar a admissão de católicos fervorosos na sociedade maçónica e para incitar o Santo Ofício à vigilância e à perseguição.
O reverso da medalha neste ambiente pouco favorável à expansão da Maçonaria em Portugal estava na situação política do País. Com a morte de João V (30 de Julho de 1750) e a subida ao trono de José I, o poder caiu gradualmente nas mãos de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro conde de Oeiras e marquês de Pombal.

Ora o novo ministro (nunca permitiu que a Inquisição perseguisse os Framaçons, defendendo assim os direitos do seu Amo contra a usurpação dos «eclesiásticos», como foi reconhecido na época. Os motivos podem ter sido vários.
Um foi, com certeza, o aduzido na frase transcrita, isto é, a proibição da ingerência de qualquer outro poder, que não o do Estado, em questões que envolviam a liberdade e a segurança dos súbditos desse mesmo Estado. Outro terá sido o melhor conhecimento que Carvalho e Melo e os seus colaboradores tinham da Maçonaria: havendo residido em diversos países europeus, tanto o futuro marquês de Pombal como Martinho de Melo e Castro, seu colega no ministério, e como Luís da Cunha, seu protector ainda em tempo de João V, sabiam bem que os trabalhos maçónicos em nada perturbavam a autoridade do Estado, podendo até cimentá-la, mercê do juramento de fidelidade ao Príncipe reinante.
Um terceiro motivo pode ter sido a filiação do próprio Carvalho e Melo na Ordem Maçónica. A afirmação foi feita, ainda durante a vida do primeiro marquês de Pombal, por inimigos seus e, quer em sua vida quer poucas décadas após a sua morte, por maçons também. A tradição, essa, iria manter-se até aos nossos dias. Carvalho e Melo pode ter sido iniciado maçon em Londres, entre 1738 e 1744 ou, com menos probabilidade, em Viena, entre 1745 e 1749, tal qual como foi aceite sócio da prestigiada Royal Society». In A. H. Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal, das Origens ao Triunfo, Editorial Presença, 1990.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

H. Oliveira Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa: A Mesa. «Limpavam-se as mãos a ‘napeiras’ ou toalhas mais pequenas. O regulamento das refeições no mosteiro de Alcobaça estabelecia, logo como primeira cláusula, que se lavassem e limpassem sempre as mãos, antes de comer»

Refeição, século XV
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A Mesa
«Em 1451, Lopo de Almeida, valido de D. Afonso V, acompanhou a Itália a infanta D. Leonor, que ia casar com o imperador da Alemanha, Frederico III. Do caminho, foi escrevendo cartas ao seu rei, em que lhe descrevia os pormenores da viagem e o estado de saúde da princesa.

Dessas missivas curiosíssimas pelo rigor das descrições e pelo colorido do panorama do dia-a-dia que nos apresentam, ficaram-nos apenas três. Numa delas, refere o embaixador de Portugal um banquete oferecido em Itália ao imperador, sua noiva e comitivas. Pelos comentários que faz ao arranjo das mesas e aos costumes locais, podemos nós hoje inferir do que se passava no Portugal dos meados do século XV.
Espantava-se Lopo de Almeida de que as toalhas não chegassem a cobrir toda a superfície da mesa principal, "e ficava descoberta da mesa acerca de dois palmos". Nas pontas estavam colocadas toalhas mais pequenas «para se alimparem», ou, como diríamos hoje,’guardanapos comuns’. Ao que parece, era costume em Portugal introduzir sob a toalha uma espécie de alcatifa, o chamado ‘bancal’ ou ‘mantel’, que se usava também a cobrir os bancos: porque Lopo de Almeida se admirava da sua ausência, excepto no assento destinado ao imperador, onde havia «uma almofada de cremezim aveludado».
Na distribuição dos lugares não houve qualquer norma: «nas outras mesas se assentaram bispos, condes e prelados e todos os outros fidalgos, e toda a outra gente a feixe e molhos, como em boda...». A algazarra testemunha-nos ainda, foi medonha! O costume, em Portugal, fazia preceder cada iguaria, como também o vinho, de tochas empunhadas por criados, sob a chefia de um porteiro.
Antes das refeições, era hábito lavar as mãos. Servidores traziam ‘justas’ ou ‘gomis’, de prata ou de outro metal consoante a abastança da mesa, e bacias grandes, sobre as quais se colocavam as mãos. Em banquetes de especial requinte, a água simples podia ser substituída por água de rosas ou de outro perfume. Limpavam-se as mãos a ‘napeiras’ ou toalhas mais pequenas. O regulamento das refeições no mosteiro de Alcobaça estabelecia, logo como primeira cláusula, que se lavassem e limpassem sempre as mãos, antes de comer.

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Sobre a mesa dispunham-se peças de ourivesaria, com fins simultaneamente decorativos e utilitários. Em França, usava-se colocar a chamada «nave» defronte do anfitrião, com os objectos destinados ao seu serviço: facas, colheres, sal, especiarias, etc.
Os manjares eram depois trazidos dentro de terrinas, ou ‘bacias’. Em Castela, como na Alemanha, usavam-se terrinas muito grandes, de onde todos comiam em comum. Mas em Portugal, as ‘bacias’ eram mais pequenas. D. Dinis tinha onze, de prata, pesando entre 1 e 2 kg.
Embora fosse uso trazer as iguarias em procissão, antecedidas pelo porteiro e pelos tocheiros, o Regulamento de Cister prescrevia que «os manjares ou condutos sejam postos pelas mesas ante que tanjam a campa», isto é, fossem todos trazidos de uma só vez. O receio dos envenenamentos, aliado à superstição geral do tempo, levava ao emprego de umas curiosas, «alfaias», destinadas a detectar os alimentos. Usavam-se «chifres de unicórnio» (na realidade bicos de aves ou chifres de outros animais), encabados em ouro ou prata, «lingueiros», espécie de suportes onde se suspendiam línguas de serpente, e uma série abundante de pedras raras (como a ágata, a pedra serpentina, etc.) a que se atribuíam virtudes mágicas. Ao contacto com alimentos impuros, estes e outros talismãs mudariam de cor, manchar-se-iam ou começariam até a sangrar, acreditavam as gentes...

O Inventário da Casa de D. Dinis enumera algumas pedras, de nomes por vezes bem estranhos, que se deviam destinar ao mesmo fim. Menciona também um «dente de escorpião», um «osso pendurado em castão de prata», etc. Durante muito tempo se não utilizaram pratos na Idade Média. Comiam-se a carne e o peixe sobre grandes metades de pão, de forma arredondada, postas em frente de cada conviva. Nas casas ricas, esses pedaços de pão, que resultavam embebidos em molho ou noutros detritos mais ou menos saborosos, distribuíam-se depois pela turba dos mendigos. Ou deitavam-se aos cães que rodeavam a mesa...
Mais tarde, a rodela de pão foi substituída pelo ‘talhador’ de madeira. Embora um e outro sistema coexistissem por muito tempo. «Talhador» designava também uma salva ou travessa grande, onde a carne era trinchada antes de ser distribuída pelos convivas. É claro que para a sopa e outros alimentos líquidos, se usavam pratos, as chamadas ‘escudelas’, de madeira ou de prata (sendo de barro denominavam-se ‘tigelas’). Mais tarde, essas escudelas passaram a servir também para os alimentos sólidos. Contudo, note-se bem que sempre cada escudela ou talhador servia para dois convivas, sentados lado a lado. Talvez daqui derive a expressão de «comer com alguém no prato».

Conheciam-se e utilizavam-se, se bem que pouco, as ‘colheres’. Mas não havia garfos, só muito mais tarde divulgados no Ocidente. Daí a necessidade imprescindível de lavar as mãos antes e depois das refeições. O emprego do garfo levou, em última análise, a uma menor higiene, porquanto o contacto da mão com os alimentos se reduziu. Passou a não ser necessário, como outrora, lavar os dedos antes e depois de comer... A ‘faca’, ponteaguda, era o instrumento por excelência. Mas só excepcionalmente se distribuíam facas aos convidados a um banquete. Eram as próprias pessoas que levavam consigo a faca de que se iriam servir, tal como nós, hoje, levamos um pente ou um espelho. Depois de comer, limpavam o objecto à toalha ou aos toalhetes. Uma das regras de conduta dos monges de Cister determinava que não limpassem «as mãos ou o cutelo à toalha, salvo se o primeiramente alimpar com pão». Para beber, usavam-se copos, um tanto maiores e mais pesados do que os de hoje, e chamados ‘vasos’ na linguagem medieval. «O que beber, com duas mãos tenha o vaso», mandava a regra alcobacense.

Vasos ainda maiores denominavam-se ‘grais e tagras’. Serviam-se muitas vezes os líquidos quentes em ‘copas’ tapadas por ‘sobrecopas’. As ‘púcaras e pucarinhas’ de barro eram munidas de asas». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, A Esfera dos Livros 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT