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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O Anatomista. Federico Andahazi. «Mateo Colombo tornara-se a última obsessão do reitor. Ambos jamais se haviam entendido. Legnano nutria por Mateo Colombo um ódio proporcional…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ninguém em toda Pádua tinha qualquer simpatia pelo reitor. E ninguém, sem dúvida, lastimaria por vê-lo morto. Como todas as manhãs, por volta do meio-dia, Alessandro Legnano ía à Piazza dei Frutti. Atravessará a Riviera di San Benedetto, na sua passagem será cumprimentado por todos, não sem uma empolada grandiloquência, e depois de virar em direcção ao Ponto Tadivão desejar-lhe, por trás, os piores augúrios. Com o mesmo anelo do messere Vittorio, a obesa vendedora de frutas, de quem, como todos os dias, o reitor haverá de comprar uns damascos, irá augurar-lhe um bom apetite e, para si, rogará que o freguês se engasgue com o caroço. E tal qual a vendedora de frutas, o alfaiate, em cuja loja haverá de se deter para encomendar um lucco de seda, desejará vê-lo enforcado na delicada estola que ele lhe encomendara na semana anterior e que provocou o seu comentário, com um gesto de repulsa: não a haveríeis cortado com os dentes? Legnano sabia que todos o odiavam, o que só lhe provocava um imenso prazer.
O reitor fora discípulo de Jacob Sylvius, em Paris. Mas não possuía o talento do mestre para as artes médicas. A única coisa que Alessandro herdara de Sylvius era a sua visceral tendência a suscitar o desprezo dos seus semelhantes. Todos os qualificativos aplicados ao anatomista francês, avaro, grosseiro, arrogante, vingativo, cínico e cobiçoso, entre outros, eram poucos para adjectivar o reitor da Universidade de Pádua, e ele mesmo, sem dúvida, não esperava para o seu epitáfio algo menos lapidar do que o que dedicaram ao seu mestre: aqui jaz Sylvius, que jamais fez nada sem pagamento. Agora que está morto, fica furioso de que leias isto de graça.

Naquela manhã o reitor estava de excelente humor. Parecia confortado. Tinha o aspecto espiritual de quem ganhou uma batalha. E, com efeito, assim fora exactamente. Deleitava-se antecipadamente com o ansiado lume da fogueira que com todo o prazer acenderia, se dele dependesse, com as próprias mãos. Esperava ansiosamente que o dia que estava recém-começando acabasse de uma vez. Amanhã seria o início do processo que ele iniciara, não sem inumeráveis escolhos, ante os cardeais Caraffa e Alvarez Toledo e, consequentemente, ante Paulo III em pessoa. Alessandro Legnano caminhava animado, como se de repente houvesse deixado de sofrer da gota que arrastava, fazia anos, como um empecilho pertinaz. Tanta era a sua euforia que sequer notou que da sandália de messere Vittorio sobressaía um pedaço de papel maldobrado. Talvez a solícita atitude do messere não tivesse outro fundamento senão a ignorância. Quiçá o escultor florentino não soubesse que, se descoberto, teria a mesma sorte que o seu amigo: segundo a Sagrada Legislação, quem falasse com hereges presos haveria de ser considerado também herege.
Mateo Colombo tornara-se a última obsessão do reitor. Ambos jamais se haviam entendido. Legnano nutria por Mateo Colombo um ódio proporcional à íntima admiração que lhe devotava. Sempre se havia dirigido ao anatomista com desprezo e não perdia oportunidade para desqualificá-lo diante dos alunos, chamando-o il barbieri, como alusão à norma que excluía os cirurgiões do Real Colégio de Médicos e os obrigava a filiarem-se à Corporação de Barbeiros, que os igualava a padeiros, cervejeiros e notários públicos. Naturalmente, quando Mateo Colombo se tornou uma eminência, o reitor não se furtou aos elogios e tomou posse das felicitações chegadas de toda parte quando o seu catedrático descobriu as leis da circulação sanguínea, tal como se o mérito devesse ser atribuído à inspiração que a sua reitoria irradiava. O anatomista e o reitor em nenhum momento demonstraram grande simpatia mútua. Ao contrário. Mantinham uma recíproca, embora não simétrica, inveja». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Anatomista. Federico Andahazi. «O reitor tinha a perfeita expressão do idiota: as faces inflamadas, um severo prognatismo (conformação da face em que as maxilas são alongadas, em especial com o maxilar inferior mais saliente) que dava baseamento ao rosto…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Aquele ia ser o começo da tragédia. Se soubesse que o que estava por revelar a Inês de Torremolinos acabaria resultando pior do que a morte e o silêncio, não teria escrito uma só palavra mais. Não obstante, voltou a mergulhar a pena no tinteiro. Acabava de pôr o ponto final na carta quando viu que todos começavam a sair da capela.
Mateo Colombo arrancou o fólio do caderno e dobrou-o de maneira tal que o verso ficasse voltado para fora. Primeiro saíram em silencioso tumulto os estudantes, que, do centro do pátio, distribuíam-se em pequenos grupos para as salas de aula. Por último saiu o messere Vittorio e, junto com ele, Alessandro Legnano. Messere Vittorio deteve-se no átrio e, com uma inclinação de cabeça, despediu-se do reitor. Mateo Colombo, pela janela do seu claustro, pôde ver como o reitor permanecia parado junto ao messere e não se afastava dele. Viu que o reitor, reclinado sobre uma coluna, iniciava um de seus habituais interrogatórios. Não chegava a ouvir o que estavam falando, mas o anatomista conhecia bem os gestos inquisitoriais de Alessandro Legnano, de mãos nos quadris e franzindo o cenho mais do que habitualmente. O anatomista já havia perdido toda a esperança de entregar a carta ao messere quando, surpreendentemente, o reitor se afastou em direcção ao seu claustro. Messere Vittorio aguardou um pouco mais e, quando se certificou de que não havia ninguém no pátio ou perambulando pela arcada, encaminhou-se directamente e com passo rápido para a janela do claustro do anatomista. Mateo Colombo jogou então a carta pelas grades. Messere Vittorio empurrou-a com o pé até afastá-la o bastante, acocorou-se e guardou o papel entre o calcanhar e a sola da sandália. Nesse preciso momento, do fundo da arcada, surgiu Alessandro Legnano.
Parece que é hora de substituir o vosso calçado, disse o reitor e, antes que messere Vittorio pudesse ensaiar uma resposta, acrescentou: espero-vos na oficina, e depois girou sobre o próprio eixo e perdeu-se fora da arcada. Messere Vittorio bem que gostaria nesse instante de ver o reitor morto, desejo que, de certo modo, haveria de ver realizado.
                     
A cabeça de Alessandro Legnano jazia sobre a mesa de messere Vittorio olhando para o tecto da oficina, olhando, por assim dizer, pois que na realidade os olhos eram duas esferas inertes. O mestre passou a palma da mão pela testa do reitor, que parecia decapitado, deteve-se na dobra do cenho, encostou ali o cinzel e descarregou uma marretada seca, surda, que levantou uma poeira que parecia óssea. O reitor apresentava a rigidez dos mortos, mas a sua expressão era a dos vivos. Estava, contudo, gelado. Muito mais frio do que um morto. Meio ano empregou o messere para concluir o busto de Alessandro Legnano, que acabava de levantar-se da banqueta onde estava posando e caminhou até a escultura com a qual se homenageava. Contemplou-se e, nariz contra nariz, parecia estar diante de um espelho de mármore de Carrara. O mestre obtivera a exacta expressão do seu cliente, e qualquer pessoa que se detivesse para ver o busto sentiria a mesma repugnância que se experimentava diante do próprio reitor. Foi exactamente o que ocorreu ao messere Vittorio nos últimos seis meses e, sem dúvida, não lhe faltavam desejos de enfiar o cinzel na testa do próprio Alessandro Legnano, sobretudo depois de ouvir o seu veredicto: já vi coisas piores, disse, enquanto se contemplava com paradoxal desdém e quase jogava na cara do messere os quinze ducados. Que o levem esta tarde para o meu escritório, acrescentou, enquanto girava sobre os calcanhares e se retirava da oficina batendo a porta com força. O busto que o messere Vittorio acabava de concluir era fiel ao modelo. O reitor tinha a perfeita expressão do idiota: as faces inflamadas, um severo prognatismo (conformação da face em que as maxilas são alongadas, em especial com o maxilar inferior mais saliente) que dava baseamento ao rosto sobre uma espécie de varanda maxilar e umas pálpebras semifechadas que lhe conferiam um ar sonolento. O mestre florentino não usara de nenhuma benevolência; se os clientes eram do seu agrado, tinha a generosidade de embelezá-los um pouco, como fizera, por exemplo, com o perfil irremediável de certo ilustre próximo aos Médici. Mas a escultura de Alessandro Legnano era uma verdadeira opinião do messere a respeito de Alessandro Legnano». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Anatomista. Federico Andahazi. «A única coisa que vos suplico agora, é que me escuteis. Mais nada. Quiçá vos pergunteis por que razão admito revelar o meu segredo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Encarcerado no seu próprio claustro, Mateo Colombo acabava de redigir a alegação que haveria de apresentar ao tribunal. Ainda reverberava o eco da última badalada a chamar para a missa quando, diante da sua janela, divisou uma figura em contraluz. Posso ajudar-vos em alguma coisa?, murmurou a silhueta. Mateo Colombo, que por imposição do tribunal se viu forçado a fazer voto de silêncio, calou-se cautelosamente enquanto se aproximava um pouco mais da janela. Só então pôde discernir que aquela figura de pé contra o sol era o seu amigo, messere Vittorio. Estais louco, quereis porventura acabar preso como eu?, murmurou, e com um gesto nada hospitaleiro sugeriu que se afastasse de imediato.
Messere Vittorio passou a mão pelas grades da janela e estendeu ao amigo uma bota com leite de cabra e uma taleiga com pão. Com um gesto de aborrecimento, quase a contragosto, Mateo Colombo recolheu-as. Na verdade, estava com fome. Quando o furtivo visitante girou sobre os calcanhares e já se dispunha a dirigir-se para a capela, ouviu um novo sussurro: podeis enviar uma carta para Florença com um mensageiro? Messere Vittorio titubeou por um instante. Podíeis ter-me pedido coisa mais fácil..., sabeis com quanto zelo o reitor revista a correspondência..., naquele momento, os dois homens viram Alessandro de Legnano conferindo, do vão da porta da capela, se todos estavam presentes na missa. Bem, dai-me a carta. Agora tenho que ir-me, disse o messere Vittorio, passando a mão por entre as grades. Ocorre que ainda não a escrevi. Se pudésseis passar por aqui à saída da missa...
O reitor divisou, então, messere Vittorio de pé sob a arcada. O que estais fazendo aí?, inquiriu, pousando as mãos nos quadris e franzindo o cenho ainda mais do que já o tinha por natureza. O messere Vittorio ajeitou as tiras da sua sandália e encaminhou-se para a capela. Porventura faláveis com vosso sapato? O messere limitou-se a corar, com um sorrisinho estúpido. Mateo Colombo contava com o escasso tempo de duração da missa para escrever a carta. Quando se certificou de que não havia ninguém fora da capela, voltou a retirar o caderno que mantinha escondido sob a pequena scriptoria, era-lhe proibido escrever, empunhou a pena de ganso, mergulhou-a no tinteiro e, na última página, começou a anotar. Por certo, o voto de silêncio que o tribunal lhe impusera não era um castigo arbitrário; tinha um fundamento muito preciso: evitar que o seu satânico descobrimento se propagasse como as sementes ao vento. Pela mesma razão haviam proibido que escrevesse. Restava-lhe pouco tempo. Tornou a certificar-se de que não havia ninguém por perto e então começou a escrever:

Minha senhora
O meu espírito se debate no abismo da incerteza e se oprime na amargura de quem, tendo feito a promessa de segredo em Nome de Deus, ofende o sagrado Nome quando, injustamente, pretende-se velar a Obra Divina. É em Nome de Deus, minha querida Inês, que decidi quebrar os votos de silêncio que me foram impostos pelo reitor da Universidade de Pádua e pelos Doutores da Igreja. Temo menos a morte do que o silêncio. Embora, no que diga respeito a mim, eu esteja condenado tanto a um quanto ao outro. Quando esta carta chegar a Florença já não estarei com vida. Passei a noite redigindo o arrazoado que irei expor amanhã diante do tribunal presidido pelo cardeal Caraffa. Contudo, bem sei que, antes de poder pronunciar uma só palavra a meu favor, a sentença já estará decidida. Sei que não tenho outro destino senão a fogueira. Se pensasse que vós pudésseis interceder por minha vida nessa paródia de processo, sem duvidar eu vo-lo pediria, tantas coisas já vos pedi que, mais uma..., porém sei que a minha sorte está decidida. A única coisa que vos suplico agora, é que me escuteis. Mais nada. Quiçá vos pergunteis por que razão admito revelar o meu segredo somente a vós. Mas ocorre que, embora ainda não o saibais, fostes a fonte dos descobrimentos que me foram revelados. Depende de vós agora. Se considerais que estou cometendo sacrilégio por dizer o que jurei silenciar, detende agora mesmo a leitura, e que estes papéis acabem no fogo. Se porventura ainda mereço um pouco de crédito e haveis decidido prosseguir a leitura, peço-vos, em Nome do próprio Deus, que guardeis o segredo.

Antes de prosseguir a carta, Mateo Colombo hesitou por uns instantes. O tempo era curto. A missa devia estar no meio. Esfregou os olhos, remexeu-se na cadeira e, antes de continuar escrevendo, perguntou a si mesmo se não era uma loucura». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O Anatomista. Federico Andahazi. «Numa época feita de nomes, de singularidades, Mateo Colombo usava o seu nome como quem carrega um lastro. Como evitar o forçoso lugar nas sombras…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os últimos alunos que transitavam junto à janela do claustro de Mateo Colombo ficavam nas pontas dos pés e olhavam para o interior; então o anatomista podia ouvir os murmúrios e as risadinhas maliciosas daqueles que, até ontem, tinham sido seus alunos, e mesmo dos que poderiam ter chegado a tornar-se seus fiéis discípulos. Podia vê-los. Embora talvez devesse dar graças pela sua sorte, Mateo Colombo amaldiçoou o dia em que saiu de sua Cremona natal. Amaldiçoou o dia em que o seu actual algoz, o reitor, decidiu colocá-lo à frente da cadeira de anatomia e cirurgia. E amaldiçoou o dia em que, quarenta e dois anos antes, nascera.
Il Chirologi, como diziam os seus conterrâneos, Il Cremonese, no seu exílio em Pádua, Mateo Realdo Colombo havia estudado Farmácia e Cirurgia na Universidade em que agora estava preso. Foi o mais brilhante discípulo de Leoniens, primeiro, e de Vesalio, depois. Quando partiu, em 1542, para fazer escola na Alemanha e na Espanha, o próprio mestre Vesalio sugeriu ao reitor, Alessandro Legnano, que o seu discípulo cremonense herdasse a cátedra. Ainda muito jovem, Mateo Colombo ganhou, por direito, o título de Maestro dei maestri. Para orgulho de Alessandro Legnano, o catedrático cremonense descobriu as leis da circulação pulmonar antes do seu colega, o inglês Harvey, que injustamente recebeu os louros. Muitos o consideraram lunático quando afirmou que o sangue se oxigena nos pulmões e que não existem orifícios no tabique que divide as duas metades do coração, atrevendo-se a refutar o próprio Galeno. E, por certo, aquela era uma afirmação perigosa: um ano antes, Miguel Servet vira-se obrigado a fugir da Espanha quando declarou, no seu Christianismi Restitutio, que o sangue era a alma da carne, anima ipsa est sanguis. A sua tentativa de explicar em termos anatómicos a doutrina da Santíssima Trindade levou-o às fogueiras de Genebra, onde o queimaram com lenhos verdes para prolongar a agonia. Mas os louros da descoberta de Mateo Colombo iriam, cem anos depois, para o inglês Harvey, que, como assinalou Hobbes em De Corpore, foi o único anatomista que viu a sua doutrina ser aceita em vida.
Mateo Colombo era, eminentemente, italiano; filho da plástica, da gala e do ornamento. Filho pródigo daquela Itália na qual tudo, das cúpulas das catedrais até ao copo no qual o lavrador bebia, dos afrescos que enfeitavam os palácios até à foice com que o camponês ceifava, dos capitéis bizantinos das igrejas até ao cajado do pastor, tudo era de uma feitura prodigiosa. Daquela mesma feitura era o espírito de Mateo Colombo; da mesma graça ornamental, da amável gentilezza italiana. Tudo estava animado pelo hálito de Leonardo: o artesão era artista; o artista, cientista; o cientista, guerreiro; e o guerreiro, de novo, artesão. Saber também era, além do mais, saber fazer com as mãos. Caso faltem exemplos, o próprio papa Eugénio I havia cortado com as suas próprias mãos a cabeça de um prefeito um pouco díscolo. Com a mesma mão com que deslizava a pena pelo caderno de capa de pele de cordeiro, Mateo Colombo sabia empunhar o pincel e preparar os óleos com os quais pintou os mais esplêndidos mapas anatómicos; era capaz, se quisesse, de pintar como Signorelli ou o próprio Michelângelo. No seu autorretrato, apresentou-se como um homem de traços finos porém enérgicos; os olhos negros e a barba escura e espessa revelavam, talvez, uma ascendência moura. A testa, alta e proeminente, era emoldurada por dois cachos que desciam até aos ombros. Segundo o seu próprio testemunho, tinha mãos delicadas e pálidas, cujos dedos, longos e finos, conferiam-lhe uma elegância que se diria quase feminina. Segurava o escalpelo entre o indicador e o polegar. O autorretrato não foi apenas um fiel testemunho da sua fisionomia, mas também da sua obsessão; olhando-se bem, pois é francamente difícil perceber, em baixo do bisturi, na base inferior do quadro, pode-se distinguir, em meio a uma bruma difusa, o corpo nu e inerte de uma mulher. A pintura lembra outra, sua contemporânea: o São Bernardo de Sebastiano del Piombo; a desproporção entre a beatitude da expressão do santo e sua atitude, a enfiar o cajado no corpo de um demónio, é a mesma que transparece no gesto do anatomista afundando o escalpelo na carne feminina. Uma expressão de triunfo.
Numa época feita de nomes, de singularidades, Mateo Colombo usava o seu nome como quem carrega um lastro. Como evitar o forçoso lugar nas sombras a que o seu ilustre xará o submetia? Mateo Colombo estava condenado à paródia, à zombaria fácil dos detractores. A sua obra, decerto, não foi menos extraordinária que a do seu homónimo. Ele também descobriu a sua América e, como ele, soube da glória e da desgraça. E soube da crueldade. Mateo Colombo, ao fundar a sua colónia, não teve mais escrúpulos nem piedade que Cristóvão. O madeiro da haste fundadora não estaria fincado nas tépidas areias do trópico, mas no centro das terras descobertas que reclamou para si: o corpo da mulher». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Anatomista. Federico Andahazi. « Sentiu remorsos pelo seu Leonardino. Talvez devesse dar graças pela sorte que tinha; por certo seria muito pior ocupar uma cela fria e asquerosa no presídio de Santo António»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O corvo e o seu amo sabiam quem era quem. E por isso mesmo nutriam um mútuo e velado receio. Leonardino, esse era o nome que o amo lhe dera, nunca pousava confiante no ombro do seu senhor; mantinha uma distância mínima entre as suas patas e a estola, elevando-se com um bater de asas curto e regular. O amo também não se fiava do companheiro. Um e outro, ambos sabiam disso, compartilhavam o mesmo espírito inquisitivo de indagar o que se oculta por trás da carne. Ouviu-se a segunda badalada e o amo continuava sem aparecer. Algo estranho estava acontecendo, o corvo podia adivinhar. Todos os dias, Leonardino, pousado na balaustrada da escadaria da morgue, acompanhava atentamente os movimentos do amo, as mãos que guiavam sabiamente o escalpelo; então, ao ver o sangue que surgia por trás do fino sulco que a lâmina deixava na sua passagem, Leonardino se balançava da esquerda para a direita e emitia um grasnido de satisfação. Por mais que tenha tentado, o amo não conseguira fazer com que Leonardino comesse da sua mão. Na verdade, não faltavam motivos para temer: o corvo sabia de quem era a tripa que o amo lhe oferecera no dia anterior, reconhecia o cheiro daquele gato que, até ontem, sentava-se confiante no colo do homem que o esvaziara por dentro para dissecá-lo com a mesma mão que o acariciava e lhe dava de comer.
Leonardino..., cantarolava o amo enquanto se aproximava lentamente do corvo, com o braço estendido brandindo uma tripa. Leonardino..., repetia, e, à medida que avançava um passo, o corvo retrocedia outro. Leonardino não olhava para a tripa; sentia o cheiro dela, mas não olhava. Mantinha os olhos fixos nos do amo, que, ao que tudo indica, pareciam-lhe mais apetitosos que aquele pedaço de intestino. Então o homem jogava-lhe a tripa, e o corvo a segurava no bico com uma voracidade longamente contida. Naquela manhã, contudo, ninguém apareceu na arcada. Soava a terceira badalada quando o corvo teve certeza de que o seu amo não compareceria ao encontro quotidiano. Desgostoso e faminto, alçou voo rumo a Veneza.
O nome do amo era Mateo Realdo Colombo e, decerto, tinha naquela manhã de Inverno do ano 1558 motivos muito bons para não comparecer ao encontro habitual que o reunia todos os dias, antes da missa, com o seu Leonardino. Encerrado entre as quatro paredes do claustro na Universidade de Pádua, Mateo Colombo escrevia. Se me assiste o direito de dar nome às coisas por mim descobertas, chamarei isso de Amor ou Prazer de Vênus, anotou Mateo Colombo, e dessa maneira concluiu o arrazoado que estivera redigindo durante a noite inteira. No mesmo instante em que fechou o grosso caderno de capas de pele de cordeiro, escutou as badaladas que chamavam para a missa. Esfregou as pálpebras; tinha os olhos vermelhos e as costas cansadas. Olhou para a pequena vigia que se elevava por cima da sua escrivaninha e comprovou que a vela junto ao caderno ardia agora inutilmente. Mais além, sobre as cúpulas da catedral, o sol começava a aquecer o ar e a evaporar pouco a pouco o orvalho que reverdecia o relvado do jardim em que a Universidade se erguia. Do outro lado do pátio chegava o perfume do incenso recém-aceso da capela, que por momentos se alternava, segundo dispusesse o vento, com os aromas hospitaleiros da fumegante chaminé da cozinha. E à medida que o sol se levantava por sobre as telhas da arcada, na mesma proporção ia crescendo o morno alvoroço que chegava da Piazza dei Frutti. Os gritos dos lojistas e o pregão dos vendedores ambulantes, os balidos das ovelhas oferecidas por dois ducados, como vociferavam as camponesas que desciam para a cidade, contrastavam com o monástico silêncio imposto pelo toque do sino a convocar para a missa.
Ainda sonolentos, esfregando as mãos para atenuar o frio e soltando vapor branco pela boca, os alunos saíam dos pavilhões para a arcada que circundava o pátio central, convergindo todos numa fila que se iniciava na entrada do pequeno átrio da capela. De pé junto ao pároco, Alessandro Legnano, o reitor da Universidade, controlava com unção a ordem e impunha o silêncio por meio de olhares severos dirigidos para aqui e acolá, ou, se fosse o caso, com um pigarro directamente dedicado aos contraventores. Antes de ouvir a última badalada, Mateo Colombo levantou-se e caminhou até a porta. Só quando girou a maçaneta e verificou que a porta do claustro estava trancada por fora, lembrou que aqueles sinos não dobravam mais para ele. O cansaço da noite em claro e, mais que isso, a força do hábito, que toda a manhã o conduzia até à capela depois de uma breve visita à morgue, fizeram-no esquecer que agora, por disposição dos Superiores Tribunais, estava preso no seu próprio claustro. Sentiu remorsos pelo seu Leonardino. Talvez devesse dar graças pela sorte que tinha; por certo seria muito pior ocupar uma cela fria e asquerosa no presídio de Santo António. Talvez devesse dar graças ao Tribunal e ao reitor pelo facto de não estar de pés e mãos acorrentados e poder ver o morno sol de Inverno através da pequena vigia do claustro. Certamente, as acusações que lhe eram imputadas mereciam o maior dos rigores: heresia, perjúrio, blasfémia, bruxaria e satanismo. Por muito menos do que tais acusações os punidos eram encarcerados. Agora mesmo, do seu claustro, podia ouvir os passantes insultando, em meio a cusparadas, os réus exibidos nos pelourinhos da praça. E não passavam de ladrões de quinquilharias». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O Livro dos Prazeres Proibidos. Federico Andahazi. «Não apresentava contusões visíveis nem ossos quebrados. O pano, que surgia do fundo da sua garganta, era a prova de que morrera asfixiada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Começara a clarear; no entanto, as adoradoras do Mosteiro da Sagrada Canastra permaneciam em vigília como se a noite ainda não tivesse terminado. Diferentemente de outras madrugadas, o amanhecer não as encontrara no meio do habitual clima de sagrada libertinagem; ao contrário, impunha-se um silêncio feito de dor e tristeza, de medo e estupor. De dor. As velas dos castiçais não ardiam para celebrar os prazeres dionisíacos da vida, mas para acompanhar a angústia diante dos inesperados avatares da morte. Os habituais gemidos de satisfação provenientes dos aposentos haviam-se transformado, naquela madrugada, em soluços e prantos abafados. Todas as mulheres daquele peculiar prostíbulo haviam passado a noite velando os restos de Zelda. A sua beleza madura e a pele firme e perfeita semelhante à suavidade da porcelana eram lembranças difíceis de conciliar com os despojos que jaziam no caixão. O seu corpo fora encontrado pouco depois do crime, esticado de costas sobre a cama. As outras mulheres descobriram horrorizadas, embora não surpresas, o cadáver cuidadosamente esfolado. Não apresentava contusões visíveis nem ossos quebrados. O pano, que surgia do fundo da sua garganta, era a prova de que morrera asfixiada. Zelda era a terceira meretriz exterminada nos últimos meses. Não cabia a menor dúvida de que se tratava de uma mesma mão criminosa, que, com idêntica habilidade, primeiro asfixiava as suas vítimas e depois, sem objectivo aparente além de obter um prazer doentio, as esfolava. A primeira morte despertara nas outras mulheres um sentimento de espanto, angústia e vulnerabilidade. Foi um facto inusitado, uma sangrenta excepção na festiva rotina do bordel. A segunda não apenas agregou estupor e semeou o enigma e o medo, mas quebrou a rotina. A terceira transformou o medo em pânico, e a excepção em regra. O inesperado se converteu numa atormentada espera pela próxima fatalidade: qualquer uma poderia ser a próxima vítima; qualquer um poderia ser o assassino. O temor impedia as mulheres de notar que os crimes tinham, pelo menos, uma lógica: a sucessão de mortes estava relacionada com a idade das vítimas. A primeira era imediatamente mais velha do que a segunda, e a segunda do que a terceira. Não havia resposta para o motivo dos crimes pela simples razão de que ninguém conseguia sequer formular uma pergunta. Quanto à identidade do assassino, nenhuma das mulheres no bordel conseguia nem mesmo fazer uma conjectura. Os últimos clientes que solicitaram os serviços das mulheres mortas depois de serem atendidos foram acompanhados por elas até à porta e, tal como rezava o protocolo da casa, foram embora depois de gentis despedidas. De maneira que o assassino devia ter entrado nos aposentos de maneira furtiva. O medo não se apoderara apenas das prostitutas, mas também dos clientes. As notícias macabras espalhavam-se pela cidade, e a clientela diminuía conforme os assassinatos se multiplicavam, até que desapareceu quase por completo; os homens não apenas temiam pela vida, mas também pela reputação: de repente, todos os olhares se voltavam para o bordel. Todos, salvo o das autoridades, que não demonstravam muito interesse pelos assassinatos; pelo contrário, poderia dizer-se que a preguiça com que agiam deixava patente uma complacência velada: a vida de um punhado de put… não merecia uma investigação. Além disso, existia o risco de que uma sondagem revelasse que personagens muito poderosos visitavam o bordel assiduamente. O público rareava; os salões e os aposentos do outrora alegre Mosteiro da Sagrada Canastra agora estavam vazios, e um frio desconhecido tomara conta do lugar. A solidão, longe de oferecer segurança às mulheres, não fazia mais do que confrontá-las com a silenciosa espreita da morte. Apesar da quietude e de todas as precauções que haviam tomado, fechavam as portas e as janelas com trincos, não houve maneira de evitar que o incógnito assassino, depois dos primeiros dois crimes, voltasse a penetrar como uma sombra, matasse Zelda sem se fazer ouvir e fugisse sem ser percebido. O terror não se limitava às paredes do bordel. Quando a noite caía, as ruas ficavam desertas». In Federico Andahazi, O Livro dos Prazeres Proibidos, Editora Bertrand Brasil, 2013, ISBN 978-852-861-692-7.

Cortesia de EBertrandB/JDACT

O Livro dos Prazeres Proibidos. Federico Andahazi. «Quando o cónego que presidia o tribunal deu a ordem, os réus, um a um, foram obrigados a se sentar na cadeira curial, cujo assento de madeira tinha um buraco no centro»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O corpo da mulher estremeceu tentando expulsar o trapo com uma náusea involuntária. A ceia frugal subiu do estômago à garganta e, ao topar com o pano, voltou como um refluxo incontrolável e inundou os seus pulmões. A pele rosada de Zelda transformara-se numa superfície roxa por causa da falta de ar. A mulher conservava a expressão de horror: os olhos lutavam para sair das órbitas e a boca aberta numa máscara de pânico e desespero formavam um quadro macabro. O estranho, coberto da cabeça aos pés por uma túnica negra, observava a pele da sua vítima com olhos extasiados, enquanto ela resfolegava, alucinando até à convulsão. Zelda ainda conservava um vestígio de vida, embora já não conseguisse mover-se. Então, o agressor se apressou antes que alguém pudesse bater à porta. Com o corpo ainda morno e palpitante, ela sentiu que o encapuzado afundava o escalpelo na base do pescoço e fazia uma incisão vertical que ia até ao púbis. O objectivo não era matá-la de imediato, mas, antes, esfolá-la. Zelda, in pectore, implorava a Deus que a levasse o quanto antes. O agressor exibia uma destreza assombrosa. Segurava o escalpelo como quem segura uma pluma. Trabalhava com uma habilidade própria dos ofícios mais delicados. Não agia como um carniceiro. Feita a primeira incisão, começou a separar a pele da carne com cortes subtis, desprendendo-a sem danificá-la. Foi um trabalho rápido e preciso; retirou o couro inteiro, numa única peça, como se fosse um casaco. Zelda morreu no exacto momento em que o agressor concluiu a sua macabra tarefa, sem poupá-la de nenhum sofrimento. Aquela figura semelhante à névoa estendeu a peça de couro humano e abraçou-a como quem reencontra a pessoa amada. A cena era patética: o assassino, coberto dos pés à cabeça de tal maneira que não deixava ver nem uma nesga de seu corpo, se agarrava ao trapo de pele com a forma de uma mulher desabitada como se quisesse enfiar-se naquele couro. Permaneceu assim por muito tempo, até que, finalmente, enrolou a pele, guardou-a em uma bolsa, abriu a porta do quarto, assegurou-se de que não havia ninguém por perto, desceu as escadas correndo e, como um fantasma, desapareceu tão misteriosamente como aparecera.

A madrugada dissipara a neblina da noite anterior. O sol do amanhecer penetrava pelos vitrais da catedral, em cujo interior começava a primeira audiência do julgamento dos três maiores falsários de que o Sacro Império Romano Germânico se recordava. Os homens haviam sido presos quando tentavam vender livros falsos que fabricavam, com grande talento para tais procedimentos obscuros, nas lúgubres ruínas da abadia de Santo Arbogasto, nos arredores de Estrasburgo. Quando o cónego que presidia o tribunal deu a ordem, os réus, um a um, foram obrigados a se sentar na cadeira curial, cujo assento de madeira tinha um buraco no centro. O primeiro, um homem alto, magro e de barba vasta chamado Johann Fust, levantou a falda de sua túnica de fina seda e se sentou de tal modo que seus genitais desnudos ficaram pendendo dentro do orifício. Outro religioso se pôs aos seus pés, fechou os olhos, esticou o braço e levou a mão à parte inferior do assento. Com todos os seus sentidos concentrados no tacto, sopesou as partes do acusado. Depois de comprovar a consistência touruna dos testículos que repousavam na concavidade de sua mão direita, o religioso virou a cabeça para os juízes e disse em voz alta: Duos habet et bene pendentes (tem dois e pendem bem). No entanto, a inspecção não terminou ali. O prelado, designado para esse único fim, mudou ligeiramente a mão de lugar e percorreu com os dedos as vergonhas do réu como se ainda tivesse alguma dúvida. Cerrou as pálpebras, franziu o cenho e, então, com expressão de quem é experiente, concluiu: Haud preaputium, iudaeus est (não tem prepúcio, é judeu).
Desde que Joana de Ingelheim, também nascida em Mainz, se fizera passar por varão e chegara a ocupar o papado com o nome de Bento III, fazia-se em toda a Rheinland-Pfalz a inspecção curial antes do início de cada formalidade. Era imprescindível que o tribunal tivesse certeza do género dos acusados para que o erro não se repetisse. Escondendo a humilhação, o primeiro acusado levantou-se e, ajeitando a roupa, cedeu o lugar ao segundo, um homem enxuto, pálido e de aspecto enfermo, de nome Petrus Schöffer. Com a mesma técnica, o clérigo se ajoelhou, tacteou em baixo da tábua e, desta vez sem hesitar, resumiu em uma única frase: Duos habet et iudaeus est. Não era boa para Fust e Schöffer a revelação das suas origens judaicas perante o tribunal da Santa Igreja. Por último, sentou-se o terceiro, um homem de aparência singular: as pontas de seu espesso bigode confluíam numa barba arruivada, que ia dos lábios ao peito como torrentes de uma cascata. Tinha o semblante altivo, a testa ampla e o olhar orgulhoso. Os olhos puxados e um gorro de pele lhe conferiam um aspecto de alguém vindo da Mongólia. Diferentemente dos anteriores, vestia um avental de trabalho, e tanto as suas vestes quanto às suas mãos estavam manchadas de preto e vermelho. O sacerdote voltou a se prostrar ao lado da cadeira curial e, depois de tocar o homem, sentenciou sem vacilar: Duos habet et bene pendentes. O sobrenome do réu era Gensfleish zur Laden, embora fosse mais conhecido pelo nome da casa em que fora criado: Gutenberg, Johannes Gutenberg, o falsário mais audacioso de todos os tempos». In Federico Andahazi, O Livro dos Prazeres Proibidos, Editora Bertrand Brasil, 2013, ISBN 978-852-861-692-7.

Cortesia de EBertrandB/JDACT

O Segredo dos Flamengos. Federico Andahazi. «Era possível dizer que o mestre florentino via como se evaporavam diante de seus olhos as esperanças de vingar as suas próprias frustrações com a consagração de seu filho de ofício»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Com o passar dos anos, Pietro havia se transformado nm jovem magro, alegre e disciplinado. Tinha um olhar inteligente e um sorriso afável e claro. O seu cabelo crespo e loiro contrastava com aqueles olhos negros, profundos e cheios de perguntas. Falava com uma voz suave e serena, e tinha herdado aquele jeito levemente amaneirado do mestre, mas sem a sua afectação. Conservava os mesmos traços que tinha quando menino, agora modificados pela puberdade, e conduzia a sua nada usual beleza com certa timidez. À sua queda natural para o desenho havia somado o estudo metódico da geometria e da matemática, as proporções áureas, a anatomia e a arquitectura. Era possível dizer que era um verdadeiro florentino. O manejo impecável da perspectiva e dos escorços (representação de uma figura em proporções menores do que ao natural) revelava uma perfeita síntese entre a sensibilidade nascida do coração e o cálculo minucioso das fórmulas aritméticas. Francesco Monterga não podia dissimular um orgulho que lhe enchia o peito diante dos comentários elogiosos de doutos e leigos sobre o talento do seu discípulo. Mas, como correspondia à sua natureza austera, despojada de arrogância, Pietro conhecia as suas próprias limitações; podia admitir que, com muitos esforços, tinha alcançado o domínio das técnicas de desenho e o manejo da perspectiva, mas, na hora de aplicar as cores, a sua serenidade desaparecia diante da tela, e o seu pulso, seguro com o lápis, tornava-se vacilante e indeciso com o pincel. E mesmo que as suas tábuas não revelassem as suas incertezas íntimas, as cores eram para ele um mistério indecifrável. Se todas as virtudes do futuro pintor que Pietro exibia eram obra do paciente ensino do seu mestre, com a mesma justiça era preciso admitir que as fissuras na sua formação eram responsabilidade de Francesco Monterga. E, a bem da verdade, quem sabe sem perceber, o mestre florentino havia instalado no espírito do seu discípulo as suas próprias carências e obsessões.
Mesmo sendo um homem velho, Francesco Monterga não queria morrer sem poder desvendar o segredo das cores. Quem sabe o seu aprendiz, jovem, inteligente e profundamente inquieto, poderia ajudá-lo a resolver o enigma. Juntos, trancados na biblioteca, passavam noites inteiras relendo e estudando, uma e outra vez, cada um dos dígitos que se misturavam com o texto de Santo Agostinho e que não pareciam ter uma lógica inteligível. No momento da tragédia, Pietro della Chiesa estava muito perto de completar a sua formação e converter-se, por fim, num pintor. E, sem dúvida, um dos mais brilhantes que Florença gerou. De modo que todos podiam compreender o desconsolo, em alguns momentos patético, de Monterga. Era possível dizer que o mestre florentino via como se evaporavam diante de seus olhos as esperanças de vingar as suas próprias frustrações com a consagração de seu filho de ofício.

Enquanto assistia à terrível cerimónia dos coveiros atirando terra húmida sobre o triste caixão, Francesco Monterga mantinha um ar abstraído, de quem se concentra profundamente nos seus pensamentos. O prior Severo Setimio, com a cabeça baixa e as mãos cruzadas sobre o peito, com os seus pequenos olhos de ave movendo-se de um lado a outro, examinava cada um dos presentes. Sempre fora a sua vocação suspeitar. E era isso exactamente o que fazia. A sua presença nos funerais de Pietro della Chiesa não tinha o propósito de elevar orações pela alma do morto nem de render-lhe homenagens póstumas. Se durante os primeiros anos de Pietro o antigo inspetor do arcebispado tinha-se convertido no seu mais temível pesadelo, agora, dezasseis anos depois, parecia disposto a persegui-lo até o além. Quis o destino que a comissão ducal constituída para investigar a morte do jovem pintor fosse presidida pelo velho inquisidor infantil Severo Setimio. Mais calvo e um pouco curvado, ainda conservava o mesmo olhar desconfiado. O prior não manifestava nenhum pesar; ao contrário, as suas antigas suspeitas com relação ao preferido do abade Verani pareciam ter sido aprofundadas com o passar do tempo. Talvez por não tido a sorte de poder mandar o pequeno Pietro para a casa dei morti, por causa, quem sabe, do velho desejo não realizado, por mais paradoxal que pudesse parecer, todas as suas suspeitas dirigiam-se à própria vítima. Os primeiros interrogatórios que fez giravam em torno de uma pergunta não-formulada: que acto terrível havia cometido o jovem discípulo para ocasionar este final?» In Federico Andahazi, O Segredo dos Flamengos, L&PM Pocket, 2002, ISBN 978-852-541-357-4.

Cortesia de L&PM Pocket/JDACT

O Segredo dos Flamengos. Federico Andahazi. «Nesse manuscrito, estava o valioso Secretus coloris in status purus, o mítico segredo das cores em estado puro. No entanto, quando Francesco Monterga leu com avidez o tratado e releu várias vezes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Pietro dava-se conta de que agora conhecia uma grande quantidade de pigmentos, óleos, tintas e ferramentas cuja existência antes ignorava completamente; reconhecia que podia falar de igual para igual com o seu mestre sobre diferentes materiais e técnicas e sobre os artefactos mais extraordinários, mas também se perguntava de que servia toda aquela erudição se tudo aquilo lhe estava vedado, a não ser para limpar, organizar e classificar. Mas Francesco Monterga sabia que quanto mais retardasse os ímpetos de seu discípulo, tanto maior seria a força com que libertaria o seu talento contido quando chegasse o momento. E o grande dia chegou quando Pietro menos esperava. Numa manhã qualquer, o mestre chamou o seu pequeno aprendiz. Diante dele estavam uma pequena tábua, três lápis, cinco formões bem afiados e um frasco de tinta negra. Como uma homenagem ao seu mestre, Francesco Monterga encomendou a Pietro della Chiesa o seu primeiro exercício. No coro da capela do hospital de São Egídio, havia um pequeno retábulo de madeira, obra de Cosimo, conhecido como O triunfo da luz. O mestre florentino deu ao seu discípulo a tarefa de copiar a obra e gravá-la na madeira com os formões resplandecentes. A gravura era a mais completa e a mais complexa das técnicas; combinava o desenho, o entalhe e a pintura. Sem ter as três dimensões da escultura, a figura devia imitar a mesma profundidade; sem contar com a vantagem da cor, devia apresentar a impressão das tonalidades somente com o uso da tinta preta e o fundo branco do papel. Os enormes olhos negros de Pietro quase saltaram das órbitas quando ouviu a encomenda do mestre. Um sorriso involuntário instalou-se no seu rosto, e o coração lutava para sair do peito. Além disso, aquela era uma demonstração de confiança, já que o menor descuido no uso dos afiados formões podia causar um terrível acidente. Sem dúvida, era um prémio muito maior do que podia esperar por sua paciência. Em poucos dias, o trabalho estava terminado. Francesco Monterga estava maravilhado. O resultado foi surpreendente: a gravura não só fazia justiça ao original, como podia-se dizer que, somente com o uso da tinta negra, emanava uma profundidade e uma subtileza ainda superiores. Mas nem Pietro, nem Francesco Monterga imaginavam que aquelas quatro tábuas mudariam o curso das suas vidas.
Junto à fossa rectangular que com cada nova porção de terra ia devorando os restos corrompidos daquele que até pouco tempo apresentava o aspecto de um efebo, Francesco Monterga não podia evitar uma caótica sucessão de recordações. Da mesma forma que a evocação de um filho remete à lembrança do pai, Francesco Monterga pensava agora no seu próprio mestre, Cosimo Verona. Com ele havia aprendido tudo o que sabia e dele havia herdado, também, tudo o que ignorava. E, de facto, Francesco Monterga parecia muito mais obcecado por todos os mistérios que não conseguia desvelar do que pelo punhado de certezas de que era dono. Mas o que mais o atormentava, o que nunca podia se perdoar era a vergonha de ter permitido que o seu mestre morresse na prisão, onde fora parar por causa das dívidas que tinha. Preso, velho, cego e na mais absoluta indigência, nenhum discípulo, incluindo o próprio Monterga, teve a generosidade de pagar aos seus credores e tirá-lo da prisão. Mas o velho mestre Da Verona, longe de converter-se num misantropo corroído pelo ressentimento, conservou, até ao dia da sua morte, a mesma filantropia que sempre o guiou. Teve até a imensa generosidade de deixar nas mãos do, na época, jovem Francesco Monterga o seu mais valioso tesouro: o tratado Diversarum Artium Schedula. Sem dúvida, aquele manuscrito do século IX excedia com vantagens o montante de sua dívida, mas Cosimo da Verona nunca ia permitir que acabasse nas mãos miseráveis de um ganancioso. Antes disso, preferia morrer na sua cela. E assim o fez. Segundo Cosimo Verona havia revelado a Francesco Monterga no dia em que lhe confiara o tratado, aquele manuscrito continha o segredo mais procurado pelos pintores de todos os tempos, aquele mistério pelo qual qualquer artista daria a sua mão direita ou, até, o dom mais valioso para um pintor: a sua visão. Nesse manuscrito, estava o valioso Secretus coloris in status purus, o mítico segredo das cores em estado puro. No entanto, quando Francesco Monterga leu com avidez o tratado e releu várias vezes o último capítulo, Coloribus et Artibus, longe de encontrar, como esperava, a mais preciosa das revelações, deparou-se com uma inesperada surpresa. Em lugar de uma explicação clara e sucinta desse segredo, não havia nada mais que um longo fragmento de Os livros da ordem, de Santo Agostinho, em cujas linhas se intercalava uma série de números sem arranjo aparente e sem nenhuma ordem. Durante mais de quinze anos, Francesco Monterga tentou decifrar o enigma sem conseguir elucidar sentido algum. O mestre guardava o manuscrito a sete chaves. O único a quem revelou a existência do tratado foi Pietro della Chiesa.
O seu discípulo havia aprendido o ofício rapidamente. O precoce talento que aquela distante primeira gravura revelava era uma pálida antecipação do seu potencial. Em doze anos de estudo junto ao seu mestre, segundo todas as opiniões, havia superado Taddeo Gaddi, o mais conhecido aluno de Giotto, que permaneceu vinte e quatro anos com o célebre pintor». In Federico Andahazi, O Segredo dos Flamengos, L&PM Pocket, 2002, ISBN 978-852-541-357-4.

Cortesia de L&PM Pocket/JDACT

sábado, 7 de abril de 2018

O Segredo dos Flamengos. Federico Andahazi. «Frascos, pincéis e ferramentas estavam reluzindo e dispostos com uma ordem metódica e escrupulosa. Quando o mestre baixou o olhar, viu o pequeno Pietro…»

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«(…) O pequeno Pietro ficou corado, envergonhado das suas desatinadas ilusões. No entanto, colocou-se sobre um banco e começou a sua tarefa com todo o empenho. Os sinos da igreja haviam tocado duas vezes quando terminou de limpar o último pincel, antes que desse por encerrado o seu trabalho, Francesco Monterga aproximou-se do seu aprendiz e perguntou onde estava o lápis que lhe havia dado na noite anterior. Com as mãos molhadas e os dedos brancos e enrugados, Pietro remexeu na bolsa que estava presa na cintura e de lá tirou o lápis e o ergueu em frente aos seus olhos. Muito bem, sorriu o mestre, é hora de começar a usá-lo. Pietro não se atreveu a alegrar-se, mas, quando viu que Francesco Monterga trazia um papel e lhe oferecia, o seu coração bateu com força. Então o mestre apontou para a imensa estante que se perdia na penumbra do tecto e lhe disse que organizasse tudo o que se amontoava nas infinitas prateleiras, que limpasse o que estivesse sujo e que, depois, com o lápis e o papel, fizesse um inventário de todas as coisas. E, antes de voltar para o cavalete, disse que lhe perguntasse sempre que não soubesse o nome de algum objecto. Sem que Pietro imaginasse, aquele era o primeiro degrau da íngreme escada da formação de um pintor. Assim havia escrito o grande Cosimo da Verona, que tinha sido o mestre de Francesco Monterga. No seu Tratado de pintura, dizia: a primeira coisa para quem aspira a ser pintor, deve conhecer as ferramentas com que vai trabalhar. Antes de fazer o primeiro esboço, antes de traçar a primeira linha sobre um papel, uma tábua ou uma tela, deverá familiarizar-se com cada instrumento, como se fosse parte do seu corpo; o lápis e o pincel deverão responder à sua vontade da mesma maneira como o fazem os seus dedos. (...) Por outro lado, a ordem é a melhor amiga do ócio. Se, vencido pela preguiça, deixa sujos os pincéis, será muito maior o tempo que gastará para retirar as crostas secas da tinta velha. (...) O melhor e o mais caro dos pincéis de nada serve se não está em condições, pois arruinaria tanto a tinta quanto a tábua. (...) Terá que saber qual é a ferramenta mais adequada para cada fim. Antes de usar um carvão, deve comprovar a sua dureza: um carvão muito duro pode arruinar o papel, e um muito tenro não deixará marca numa tábua; um pincel de pelos rígidos arrastará o material que ainda não estava completamente seco, e outro muito flexível não fixará as capas grossas de tinta. Por isso, antes de iniciar-se no desenho e na pintura, deve poder reconhecer cada uma das ferramentas.
Já havia caído a noite quando Pietro, cochilando sobre o papel e fazendo esforços sobre-humanos para manter os olhos abertos, terminou de fazer a lista com cada um dos objectos da estante. Francesco Monterga olhou para as prateleiras e percebeu que nunca as tinha visto tão arrumadas. Frascos, pincéis e ferramentas estavam reluzindo e dispostos com uma ordem metódica e escrupulosa. Quando o mestre baixou o olhar, viu o pequeno Pietro adormecido sobre as suas anotações. Francesco Monterga felicitou-se pelo seu novo investimento. Se tudo se ajustasse, como na previsão do abade, em alguns anos iria colher os frutos da trabalhosa tarefa de ensinar. Sempre seguindo os passos do seu próprio mestre, Cosimo da Verona, Francesco Monterga fixava-se nos preceitos de que o ensino de um aprendiz se completa no décimo terceiro ano. Em termos ideais, a educação de um aspirante devia começar exactamente aos cinco anos.
Primeiramente, é necessário um ano para estudar o desenho elementar que depois vai ser transposto aos quadros. Mais tarde, junto com um mestre no ateliê, para colocar-se a par de todas as ramificações de nossa arte, começar por moer as cores, cozinhar as colas, amassar os gessos, ganhar prática no preparo dos quadros, realçando-os, polindo-os, dourar e fazer bem o granado, serão necessários seis anos. Depois, para estudar as cores, fixá-las com mordentes, fazer roupagens douradas e iniciar-se no trabalho em murais, são necessários mais seis anos, desenhando sempre, não deixando o desenho nem em feriados, nem em dia de trabalho. (...) Há muitas pessoas que afirmam que aprenderam a arte sem mestres. Não acredites. Este livro, por exemplo, se tu o estudasses dia e noite sem praticar com algum mestre, não chegarias a lugar nenhum, nunca estarias entre os grandes pintores. Durante os primeiros tempos, o pequeno Pietro resignou-se à sua nova existência, que consistia em limpar, organizar e classificar. Em alguns momentos, sentia falta de sua vida no orfanato; sem dúvida, o alegre padre Verani era uma boa recordação em comparação com seu novo tutor, um homem áspero, severo e mal-humorado». In Federico Andahazi, O Segredo dos Flamengos, L&PM Pocket, 2002, ISBN 978-852-541-357-4.

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O Anatomista. Federico Andahazi. «No ponto mais alto do maciço promontório que separa Verona de Trento, em cima do último penhasco a destacar-se no colar de morros que coroa o pico do monte Veldo…»

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A Trindade
«(…) Naquela madrugada de 1558, na mesma hora em que Mona Sofia, em Veneza, concluía a sua esgotadora e rentável jornada, Inês de Torremolinos começava o seu dia de alegre e desinteressada labuta. Uma ignorava a remota existência da outra. E nada permitiria supor que uma e outra pudessem ter algo em comum. O acaso, porém, traça às vezes caminhos impossíveis. Sem suspeitarem, sem nem se conhecerem, uma e outra eram parte de uma mesma trindade, cujo vértice estava em Pádua.

O corvo
No ponto mais alto do maciço promontório que separa Verona de Trento, em cima do último penhasco a destacar-se no colar de morros que coroa o pico do monte Veldo, tão quieto quanto a rocha onde pousava, o perfil de um corvo recortava-se contra o confim crepuscular, cujo epicentro dourado não parecia provir do sol, ainda virtual, e sim da própria dourada Veneza. Como se o fundamento daquela abóbada de luz fosse o das remotas cúpulas bizantinas da catedral de São Marcos. Era o crepúsculo que antecede o dia. O corvo estava esperando. Tinha paciência. E sentia, como sempre, uma fome voraz, mas não peremptória. O seu domínio era Veneza inteira: a Veneza Eugânea, Treviso, Rovigo, Verona e, mais adiante, Vicenza, e também a Veneza Júlia. Mas o seu paradeiro era em Pádua. Lá em baixo, tudo estava disposto para a festa de São Teodorico, a festadi tori. Depois do meio-dia, a multidão, entre um copo e outro, manearia cinco ou seis bois, um de cada vez, que seriam degolados, seguros pelos chifres por outras tantas mulheres, com um único e exacto golpe de sabre. Era como se o corvo soubesse que haveria de ser assim. Sentia com antecedência o cheiro que mais apreciava. Mas também sabia que, com sorte, mal poderia rapinar uma mísera tripa ou um olho, que teria de disputar com os cães. Não valia a pena a viagem, nem o risco, nem o esforço. Ainda não se movera. Tinha a paciência dos corvos. Poderia esperar até que os autómatos da Torre do Relógio batessem a última badalada e, como todas as manhãs, surgisse do Canal Grande o catamarã público que vinha recolher os cadáveres do Hospital de Humberto Primo e levá-los até a Ilha do Cemitério. Mas tampouco valeria a pena. Com sorte, poderia arrebatar uma tira de carne ruim, muito magra e já dizimada pela peste. Girou sobre as patas e olhou para o lado oposto, o leste, onde ficava a sua morada. Lá estava o seu amo. E então remontou voo em direcção a Pádua.
Voou sobre as dez cúpulas da basílica e depois sobre a Universidade. Pousou sobre o capitel da quarta porta que dava para o pátio interno. Esperava. Sabia que seu amo sairia dali de uma hora para outra. Era o que acontecia todos os dias. Tinha paciência. Esticou uma asa e enfiou o bico entre as penas. Parecia só dar atenção aos íntimos agrados que se prodigava: ajeitar a plumagem do peito, livrar-se de um piolho. No mesmo momento em que soou a badalada chamando para a missa, o corvo ficou tenso como uma corda, abriu morosamente as asas, emitiu um grasnido surdo e preparou-se para dar um pulo até ao ombro do seu amo, que, como todas as manhãs, haveria de aparecer na arcada e, antes de encaminhar-se em direcção à paróquia, iria até à morgue para dar ao corvo aquilo de que ele tanto gostava: uma tripa ainda morna. Entretanto, naquela manhã de Inverno as coisas não seriam iguais. Já soara a primeira badalada e o amo ainda não aparecera. O corvo sabia que o seu senhor estava dentro do claustro, podia sentir o seu cheiro, podia até ouvir a sua respiração. E no entanto ele não saía. O corvo grasnou de desgosto. Estava com fome». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

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O Anatomista. Federico Andahazi. «Dava consolo para os desconsolados e guiava o caminho dos desencaminhados. Ela avançava sem obstáculos em direcção à santidade»

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A Trindade
«(…) Do outro lado do monte Veldo, na viela de Bocciari, perto da Santa Trindade, estava il bordello dil Fauno Rosso, a casa de pu… mais cara de Veneza, cujo esplendor não tinha concorrência em todo o Ocidente. A atracção do bordel era Mona Sofia, a pu… mais bem-cotada de Veneza e, com toda a certeza, a mais esplêndida do Ocidente. Superior, inclusive, à lendária Lenna Grifa. Assim como ela, Mona Sofia percorria as ruas de Veneza numa liteira conduzida por dois escravos mouros. Assim como Lenna Grifa, levava uma cadela da Dalmácia aos pés da liteira e, no ombro, um papagaio. Como se podia constatar no catalogo di tutte le puttane del bordello con il lor prezzo, seu nome vinha impresso em letras destacadas e, em números mais notórios ainda, o preço: dez ducados, ou seja, seis ducados a mais do que a própria lendária Lenna Grifa. O catálogo, de feitura muito bem-cuidada, editado que era para viajantes selectos, nada dizia, naturalmente, sobre os seus olhos verdes como esmeraldas nem sobre os mamilos duros como amêndoas, cujo diâmetro e textura evocavam a pétala de uma flor, se houvesse, que possuísse o diâmetro e a textura dos mamilos de Mona Sofia. Nada dizia sobre as suas coxas firmes de animal, torneadas como a madeira, nem sobre a sua voz de lenho ardendo. Nada dizia sobre as suas mãos que, de tão pequenas, pareciam não abranger o diâmetro de um falo, nem sobre a sua boca mínima, cuja cavidade se diria impossível de acolher o volume de uma glande inflamada. Nada dizia sobre o seu talento de pu…, capaz de levantar até um ancião desenganado. Numa madrugada de Inverno do ano 1558, pouco antes de o sol aparecer no meio das duas colunas de granito, trazido da Síria e de Constantinopla, e de situar-se entre o leão alado e São Teodorico, quando os autómatos mouros da Torre do Relógio se dispunham a bater a primeira das seis badaladas, Mona Sofia acabava de despedir-se do seu último cliente, um rico comerciante de sedas. Descendo os degraus que conduziam ao pequeno átrio do bordel, o homem ajeitou a estola de lã que usava por cima do lucco, enfiou a beretta até às sobrancelhas e, espreitando pelo vão da porta, certificou-se de que nenhum passante o veria sair. Do bordel foi directo para a Santa Trindade, cujos sinos convocavam para o primeiro ofício. Mona Sofia estava com as costas cansadas. Para seu desgosto, quando puxou as cortinas de seda púrpura da janela de sua alcova, constatou que já amanhecera. Odiava ter que dormir com o burburinho que chegava da rua. Pensou que era uma boa oportunidade para aproveitar o dia. Reclinada sobre a cabeceira da cama, começou a fazer planos. Primeiro se vestiria como uma dama e iria ao ofício da catedral de São Marcos, a rigor, fazia muito tempo que não ia à missa, depois se confessaria e, livre de qualquer remorso, passaria finalmente pela Bottega dil Moro para comprar uns perfumes que havia prometido solenemente a si mesma. Continuou planeando enquanto se cobria um pouco mais com as mantas, o repouso, depois daquela noite fatigante, estava começando a baixar a sua temperatura, e fechou os olhos para pensar com mais clareza. Os sinos ainda não haviam terminado de tocar quando Mona Sofia, como todas as manhãs, adormeceu profunda e placidamente.
Naquele mesmo horário, porém em Florença, caía uma garoa fina sobre o campanário da modesta abadia de São Gabriel. Os sinos tocavam com tanta decisão que até parecia que quem lhes puxava as cordas era o obeso abade, e não as delicadas mãos de uma mulher. Entretanto, o abade ainda estava dormindo. Com a pontual devoção que todas as manhãs a tirava da cama antes da alvorada, fizesse frio ou calor, chovesse ou caísse gelo, Inês de Torremolinos pendurava-se nas cordas com a sua leve ossatura e, como se estivesse animada pelo Todo-Poderoso, conseguia mover os sinos, cujo peso superava em não menos de mil vezes o do seu feminino e imaculado corpo. Inês de Torremolinos vivia numa austeridade franciscana, apesar de ser uma das mulheres mais ricas de Florença. Primeira filha de um nobre casal espanhol, ela era muito jovem quando contraiu matrimónio com um insigne senhor florentino. De maneira que, como prescreviam as normas maritais, partiu da sua Castela natal para ir morar no palácio do cônjuge, em Florença. Quis a fatalidade que Inês enviuvasse sem dar ao marido um elo na sua nobre genealogia: pariu três filhas mulheres e nenhum varão.
Viúva muito jovem, tudo o que Inês tinha era: o pesar por não ter engendrado um menino, uns poucos olivares, vinhas, castelos, dinheiro e uma alma devota e caridosa. De modo que decidiu, para esquecer a sua mágoa e remediar a culpa que tinha em memória do marido, converter em dinheiro todos os bens herdados do finado, em Florença, e do seu defunto pai, em Castela, para construir um mosteiro. Assim, ficaria para sempre unida ao esposo imortal por meio de uma existência de pureza e celibato, e dedicaria a vida a servir aos filhos homens que o seu ventre não soubera engendrar: a comunidade monástica e os pobres. E assim fez. Inês parecia uma mulher feliz. Tinha um olhar franciscano que irradiava paz e sossego. As suas palavras eram sempre um bálsamo para os atormentados. Dava consolo para os desconsolados e guiava o caminho dos desencaminhados. Ela avançava sem obstáculos em direcção à santidade». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Segredo dos Flamengos. Federico Andahazi. «Quando terminaram de comer, o pequeno desceu da cadeira e recolheu os pratos, examinou a cozinha e, com os olhos, procurou a pia para lavá-los»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Nessa noite, o mestre e o pequeno discípulo comeram em silêncio. Pela primeira vez em muitos anos, Francesco Monterga compartilhava a sua mesa com alguém além da sua própria sombra. Não se atreviam a olhar-se; seria possível dizer que o velho mestre não sabia como se dirigir a um menino. Pietro, por seu lado, tinha medo de importunar o seu novo tutor; comia tentando fazer o menor barulho possível e não parava de mover nervosamente as pernas, que pendiam da cadeira e não chegavam a tocar o chão. Gostaria de agradecer a generosidade do mestre, por tê-lo tomado a seus cuidados, mas, diante do silêncio de seu tutor, não se animava a dizer qualquer palavra. Até este momento, Pietro nunca se havia questionado sobre a própria orfandade, não conhecia outro lar além do Ospedale e não sabia exactamente o que era um pai. E agora que tinha uma casa e, de alguma maneira, uma família, uma tristeza desconhecida se instalou na sua garganta. Quando terminaram de comer, o pequeno desceu da cadeira e recolheu os pratos, examinou a cozinha e, com os olhos, procurou a pia para lavá-los. Sem levantar-se, Francesco Monterga apontou o lugar. Sentado na sua cadeira, enquanto o menino lavava a louça, o mestre florentino olhava o seu inesperado hóspede com uma mescla de estranheza e satisfação. Quando terminou a sua tarefa, Pietro aproximou-se de seu tutor e perguntou-lhe se precisava de mais alguma coisa. Francesco Monterga deu um meio sorriso e balançou negativamente a cabeça. Impulsionado por uma espécie de inércia incontrolável, o pequeno foi até o atelier e outra vez ficou a contemplar os tesouros que abarrotavam as prateleiras. Respirou fundo, enchendo os pulmões com aquele aroma feito da mistura de verniz, de pinho e de sementes usadas para preparar óleos e resinas. Então a sua tristeza se dissolveu nos eflúvios daquela mistura de perfumes até quase perder os sentidos. O mestre decidiu que era hora de dormir e conduziu-o até o pequeno mezanino, que daquele momento em diante seria o seu quarto.
Amanhã teremos tempo para trabalhar, disse, e entregou ao menino um lápis com cabo de vidro. Pietro dormiu com o lápis apertado entre as mãos, desejando que a manhã seguinte chegasse o quanto antes. Quando acordou, teve medo de abrir os olhos e descobrir que tudo aquilo havia sido apenas um sonho. Temia despertar e encontrar diante de si a mesma paisagem: o tecto descascado do orfanato. Mas ali estava, na sua mão, o lápis que Francesco Monterga lhe dera na noite anterior. Então abriu os olhos e viu o céu radiante do outro lado da pequena janela do quarto. Levantou-se num salto, vestiu-se tão rapidamente quanto pôde e desceu as escadas correndo. No atelier, de pé, em frente ao cavalete, estava o seu mestre preparando uma tela. Sem olhar, Francesco Monterga chamou a sua atenção, de modo amável mas severo, de que aquelas não eram horas de começar o dia. Ele teria que se acostumar a levantar antes do amanhecer. O pequeno Pietro abaixou a cabeça, e, antes que pudesse pensar numa desculpa, o velho mestre disse-lhe que tinham uma longa jornada de trabalho pela frente. Imediatamente, pegou num frasco cheio de pincéis e colocou-o nas mãos do seu novo discípulo. O rosto de Pietro iluminou-se. Finalmente, ia pintar como um verdadeiro artista, sob os sábios cuidados de um mestre. Quando estava quase escolhendo um dos pincéis, Francesco Monterga mostrou-lhe uma tina cheia de água castanha e ordenou: quero que fiquem bem limpos, que não se veja nem um resto de tinta. Antes de retomar o seu trabalho, o pintor apareceu novamente no vão da porta e acrescentou: e cuidado para que não soltem um só pelo». In Federico Andahazi, O Segredo dos Flamengos, L&PM Pocket, 2002, ISBN 978-852-541-357-4.

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