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sexta-feira, 1 de junho de 2012

O Teatro Naturalista e Neo-Romântico (1870-1910). Luiz Rebello. «… no ano seguinte o Partido Republicano reúne em Setúbal o seu congresso, que encarrega o Directório de apressar o movimento revolucionário para a instauração do novo regime, e em 5 de Outubro de 1910 a proclamação da República é saudada…»


Cortesia de wikipedia

Enquadramento Histórico-Social
«Todas as fronteiras são artificiais, e as fronteiras cronológicas não constituem excepção a esta regra. É sempre arbitrária a fixação de uma data certa para início de um movimento estético ou literário, pois, como ensinou Marx, «o modo de produção da vida material condiciona o processo social, político e espiritual da vida; não é a consciência dos homens que determina a sua essência, mas, ao contrário, a sua essência social é que determina a sua consciência». A estrutura económica da sociedade, definida pelas relações materiais de produção, constitui assim a base sobre a qual a literatura e a arte se constroem, o que as torna portanto inseparáveis do processo histórico, e incompreensíveis fora dele, não em termos puramente mecânicos mas numa perspectiva dialéctica, em que arte e realidade, num jogo de acção e reacção contínuas e recíprocas, acompanham e ao mesmo tempo promovem o seu incessante desenvolvimento.
Como, a propósito de Garrett e do seu contributo para a restauração da cena nacional, escreveu António José Saraiva, «pôr o problema do teatro nacional é nada menos que pôr todo o problema da estrutura da sociedade portuguesa».
E esta, no terço derradeiro do século XIX, que elegemos para marco inicial do presente estudo, estava longe de suscitar uma renovação profunda da arte dramática (não só ao nível do textoescrito mas ainda, mais amplamente, da sua produção cénica), a qual, pela mesma época, noutros países se estava a processar. O projecto sócio-económico subjacente à revolução liberal desencadeada em 1820, que o golpe de Estado da «Vila-Francada» deteve em 1823, só a partir de 1832 pôde começar a realizar-se, com as leis de Mouzinho da Silveira e Joaquim António de Aguiar, que respectivamente vieram abolir os direitos senhoriais, reorganizar as finanças públicas e a divisão administrativa e extinguir as ordens religiosas, cujos bens foram nacionalizados. Uma burguesia de proprietários rurais, que aspirava a nobilitar-se e que constituía, no vasto corpo da nação, uma minoria privilegiada, ascende ao poder. Em 1835 estabelece-se o princípio da escolaridade obrigatória, criam-se nos anos seguintes os liceus, as escolas médicas e politécnicas.
Em 1838 funda-se a primeira associação operária. Mas o governo «setembrista» de esquerda é derrubado, em 1840, pela reacção encabeçada por Costa Cabral, que defende a agiotagem, os interesses do clero e toma várias medidas repressivas. Derrotado em 1846, Costa Cabral retoma o poder em 1849, perdendo-o definitivamente, dois anos depois, com o pronunciamento de Saldanha.
Com a Regeneração inicia-se, em 1851, a política dos «melhoramentos materiais». Um tímido surto industrial conhece, em 1856, graças à construção da rede ferroviária e estradal, um novo impulso, de que, no entanto, apenas irão beneficiar os capitais nacionais e estrangeiros (sobretudo ingleses) e os grandes agrários, e que, de resto, as estruturas arcaicas do país a breve trecho condenam ao imobilismo. Continuam por resolver os problemas das camadas sociais menos favorecidas, marginalizadas do processo político, a pequena burguesia, o artesanato, a massa campesina, a que virá juntar-se mais tarde um incipiente proletariado industrial, o que, por vezes, dá origem a movimentos populares de descontentamento, como a «Janeirinha» (1868). A industrialização do país, encetada em 1835 com a introdução da máquina a vapor, processa-se através de saltos bruscos: um ano depois de a Associação Internacional dos Trabalhadores lançar em Portugal as suas raízes, desencadeia-se, em 1872, a primeira greve; e, em 1876, uma grave crise financeira provoca a falência de vários bancos (em menos de vinte anos, de 1858 para 1875, o número de estabelecimentos bancários subira de 3 para 51), um ano após a fundação do Partido Operário Socialista, que irá realizar em 1879 o seu primeiro Congresso. Certos acontecimentos exteriores, a revolução espanhola de 1868, a unificação da Itália, a guerra franco-prussiana, a Comuna de Paris, repercutem-se no país, onde uma consciência republicana (de que as comemorações do tricentenário de Camões, em 1880, foram o agente deflagrador) começa a formar-se, sob a influência de alguns intelectuais esclarecidos e insatisfeitos.
O cansaço evidente das instituições monárquicas, a reacção nacional ao Ultimato inglês de 1890, que veio travar o sonho quimérico de expansão ultramarina, a consequente crise económica e financeira, desembocaram na abortada revolta de 31 de Janeiro de 1891, no Porto. Mas este movimento para a implantação da República, apoiado pela acção de numerosas associações pedagógicas e sindicais, e subterraneamente pela actividade de organizações secretas e das lojas maçónicas, era já irreversível: em 1901 o deputado Afonso Costa apresenta na Câmara uma moção declarando que «o povo português carece de substituir sem demora as actuais instituições políticas por outras diversas, de feição republicana»; os surtos grevistas sucedem-se (1903, 1906, 1907); mas, neste último ano, a ditadura de João Franco, cerceando drasticamente as liberdades, iria precipitar os acontecimentos: o rei Carlos I e o príncipe herdeiro Luís Filipe são assassinados em 1908, no ano seguinte o Partido Republicano reúne em Setúbal o seu congresso, que encarrega o Directório de apressar o movimento revolucionário para a instauração do novo regime, e em 5 de Outubro de 1910 a proclamação da República é saudada como a abertura de um novo capítulo na história de Portugal». In Luiz Rebello, O Teatro Naturalista e Neo-Romântico (1870-1910), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 16, Instituto de Cultura Portuguesa, Pdf, Livraria Bertrand, 1978, Centro Virtual Camões.

Cortesia da Biblioteca Breve/JDACT

sábado, 21 de agosto de 2010

In Memorium: António Tavares Jacob. Um homem Bom! Pugnador entusiasta da República

(1923-2010)
Portalegre
JDACT

Distância

Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.
Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!
Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!
Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento
Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...
Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...
Fernanda de Castro, in «Antemanhã»

A Luta pela Recordação
«Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem. Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja, selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor. Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando. De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a este caminho, com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atónitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...
Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias...» In Pablo Neruda, «Nasci para Nascer».

Cortesia de O Citador/JDACT  

segunda-feira, 21 de junho de 2010

António Tavares Jacob: Um homem Bom! Um Portalegrense pugnador entusiasta da República. Faz um mês que a «Viagem» se iniciou

(1923-2010)
Portalegre
JDACT

Vendo-a Sorrir
Filha, quando sorris, iluminas a casa
Dum celeste esplendor.
A alegria é na infância o que na ave é asa
E perfume na flor.

Ó doirada alegria, ó virgindade santa
Do sorriso infantil!
Quando o teu lábio ri, filha, a minha alma canta
Todo o poema de Abril.
Ao ver esse sorriso, ó filha, se concentro
Em ti o meu olhar,
Engolfa-se-me o céu azul pela alma dentro
Com pombas a voar.

Sou o Sol que agoniza, e tu, meu anjo loiro,
És o Sol que se eleva.
Inunda-me de luz, sorri, polvilha de oiro
O meu manto de treva!
Guerra Junqueiro, in «Poesias Dispersas»

Canção de Batalha

Que durmam, muito embora, os pálidos amantes,
Que andaram contemplando a Lua branca e fria...
Levantai-vos, heróis, e despertai, gigantes!
Já canta pelo azul sereno a cotovia
E já rasga o arado as terras fumegantes...

Entra-nos pelo peito em borbotões joviais
Este sangue de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que somos nós? Ferreiros d'arsenais;
E bater, é bater com alma na bigorna
As estrofes de bronze, as lanças e os punhais.

Acendei a fornalha enorme — a Inspiração.
Dai-lhe lenha — A Verdade, a Justiça, o Direito —
E harmonia e pureza, e febre, e indignação;
E p'ra que a labareda irrompa, abri o peito
E atirai ao braseiro, ardendo, o coração!

Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio; embora!
O poeta é como o Sol: o fogo que ele encerra
É quem espalha a luz nessa amplidão sonora...
Queimemo-nos a nós, iluminando a Terra!
Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!
Guerra Junqueiro, in «Poesias Dispersas»

JDACT

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Miguel Bombarda: Um médico psiquiatra e político republicano português

(1851-1910)
Rio de Janeiro
Cortesia de vidaslusofonas
Miguel Augusto Bombarda foi um médico psiquiatra e político republicano português. Estudou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde viria a ser professor e foi director do Hospital de Rilhafoles, onde criou o Laboratório de Histologia em 1887. Como professor na Escola Médico-Cirúrgica deu um importante contributo para a reforma do estudos médicos. Republicano convicto, foi um acérrimo anticlerical. Tornou-se membro do Partido Republicano Português em 1909, tendo sido eleito deputado em Agosto de 1910.
Cortesia de vidaslusofonas

Membro do comité revolucionário que implantou a República em Portugal, em 5 de Outubro de 1910, e considerado o seu chefe civil. Não chegou, contudo, a assistir à vitória dos republicanos por ter sido assassinado por um doente mental do Hospital de Rilhafoles em 3 de Outubro de 1910, poucas horas antes do início da revolta. Teve um funeral conjunto ao de Cândido dos Reis, no dia 6 de Outubro.

«... Lá o mataram! Pela cidade, a notícia corre veloz, como correm as más novas. E toda a gente, ansiosamente, indagava do fundamento do que se propagava. Seria verdade? Teriam realmente assassinado o Dr. Miguel Bombarda? Mas quem? Com que fim? Para quê? E, enquanto a triste verdade não era conhecida em todos os seus pormenores, bordavam-se mil conjecturas. Grupos, pelas ruas, comentavam a notícia, ainda mal definida, dos quais saíam pragas contra o assassino, de identidade e condições de momento ignoradas. Lá o mataram! Nada está, a tal respeito, averiguado. O que, de positivo, se sabe, é que o ilustre psiquiatra morreu às mãos de um doido, com o delírio da perseguição. É o que, por enquanto, está averiguado. Se o doido, e a sua especial doença, foram alvo de uma criminosa sugestão, impossível é dizê-lo, ou, no momento prová-lo, caso este boato tenha qualquer fundamento. A verdade é que o Dr. Miguel Bombarda, deputado republicano por Lisboa, foi assassinado. Está morto; e a verdade é que esse facto produziu em toda a cidade de Lisboa e produzirá em todo o país uma sensação indescritível. A notícia realmente caíra na cidade como um raio. Ao princípio, a sensação foi de estupor; depois, foi de dor, depois de indignação contra o assassino. Mas se ele é um doido?...». In Vidas Lusófonas, José Brandão.
 


Cortesia de vidas lusófonas/Carlos Bobone/JDACT

segunda-feira, 31 de maio de 2010

António Tavares Jacob: Um homem Bom! Um Portalegrense pugnador entusiasta da República. Faz 10 dias que faleceu

(1923-2010)
António Tavares Jacob

Vaga, no Azul Amplo Solta
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.
Fernando Pessoa, in «Cancioneiro»
«Fazer qualquer coisa ao contrário do que todos fazem é quase tão mau como fazer qualquer coisa porque todos a fazem. Mostra uma igual preocupação com os outros, uma igual consulta da opinião deles - característica certa da inferioridade absoluta. Abomino por isso a gente como .... e outros que se preocupam com seres imorais ou infames, e com o impingir paradoxos e opiniões delirantes. Nenhum homem superior desce até dar à opinião alheia tal importância que se preocupe em contradizê-la.
Para o homem superior não há outros. Ele é o outro de si próprio. Se quer imitar alguém, é a si próprio que procura imitar. Se quer contradizer alguém, é a si mesmo que busca contradizer. Procura ferir-se, a si próprio, no que de mais íntimo tem... faz partidas às suas próprias opiniões, tem longas conversas cheias de desprezo e com as sensações que sente. Todo o homem que há sou Eu. Toda a sociedade está dentro de mim. Eu sou os meus melhores amigos e os meus verdadeiros inimigos. O resto - o que está lá fora - desde as planícies e os montes até às gentes - tudo isso não é senão paisagem...» In Fernando Pessoa, Reflexões Pessoais
Cortesia de O Citador (http://www.citador.pt/)

Poema do silêncio
Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!
(...)
José Régio
JDACT