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sábado, 26 de fevereiro de 2022

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Você terá de ir ao Mercado de Carne e às barracas de peixe também. É outra das suas tarefas. Dito o quê, ela me deixou com a roupa para lavar. Contando comigo, havia dez pessoas na casa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas, outra vez, foram os quadros que me espantaram. Havia mais quadros naquele quarto que emqualquer outro lugar. Contei, em silêncio, dezanove. A maioria, retratos, parecia ser de membros das duas famílias. Tinha também um quadro da Virgem Maria e outro dos reis magos adorando o Menino Jesus. Olhei os dois, meio sem jeito. Agora, vamos subir. Tanneke tomou a frente na escada íngreme e colocou um dedo sobre os lábios fechados, pedindo silêncio. Subi fazendo o mínimo barulho possível e quando cheguei no alto olhei em volta e vi uma porta fechada. Atrás dela, um silêncio que eu sabia ser dele. Fiquei com os olhos pregados na porta, sem ousar me mexer, caso se abrisse e ele saísse. Tanneke
inclinou-se e sussurrou: Você vai limpar lá dentro, a jovem patroa explica depois. E esses quartos, apontou para as portas nos fundos da casa,são da minha patroa. Só eu entro lá para arrumar.

Descemos em silêncio outra vez. Quando estávamos na lavandaria, Tanneke disse: Você vai lavar toda a roupa da casa, e apontou um monte de roupas muito mal lavadas. Eu ia trabalhar bastante para colocar o serviço em dia. A cozinha tem uma cisterna, mas é melhor você pegar água no canal, que é bem limpa nesta parte da cidade. Tanneke, você fazia tudo isso sozinha? Cozinhar, limpar e lavar para a casa toda?, perguntei, baixinho. Escolhi as palavras certas. Tudo, além de algumas compras Tanneke estava orgulhosa da própria competência. Claro que a jovem patroa faz a maior parte das compras, a não ser carne e peixe quando está carregando um filho. O que acontece com frequência, acrescentou ela, num sussurro. Você terá de ir ao Mercado de Carne e às barracas de peixe também. É outra das suas tarefas. Dito o quê, ela me deixou com a roupa para lavar.Contando comigo, havia dez pessoas na casa, uma delas um bebê que deveria sujar mais roupas que todos os demais. Eu teria de lavar roupa todos os dias, minhas mãos ficariam rachadas e ásperas com o sabão e a água; meu rosto, vermelho por causa do vapor das roupas na fervura, minhas costas doídas de carregar roupa molhada, e meus braços queimados pelo ferro. Mas eu era jovem e nova na casa, esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.e meus braços queimados pelo ferro. Mas eu era jovem e nova na casa, esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.e meus braços queimados pelo ferro. Mas eu era jovem e nova na casa, esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.

As roupas precisavam ficar de molho um dia antes de serem lavadas. Na mesma despensa que levava ao porão, encontrei dois baldes de estanho e uma chaleira de cobre. Peguei os baldes e percorri o longo corredor até à porta da frente. As meninas estavam sentadas no banco. Lisbeth soprava as bolhas de sabão enquanto Maertge dava pão amolecido no leite para o bebé Johannes. Cornélia e Aley discorriam atrás das bolhas. Quando apareci, elas ficaram paradas me olhando, à espera. Você é a nova criada, declarou a menina ruiva. Sim, Cornélia. Cornélia pegou um seixo e jogou do outro lado da rua, no canal. Estava com o braço todo arranhado, deveria ter perseguido o gato da casa. Onde vai dormir?, perguntou Maertge, enxugando os dedos redondinhos no avental. No porão. Nós gostamos do porão, disse Cornélia. Vamos brincar lá agora! Ela entrou, mas não foi longe.Como ninguém a acompanhou, voltou e ficou emburrada.

Aley dis, chamei, estendendo a mão para a caçula. Pode-me mostrar como pegar a água do canal? Ela segurou minha mão e me olhou. Seus olhos eram como duas moedas cinzentas e brilhantes. Atravessamos a rua, com Cornélia e Lisbeth atrás. Aley dis me levou até uma escada que descia para o canal. Descemos e apertei a mão dela, como fiz anos antes com Frans e Agnes sempre que ficávamos perto de água. Não pise na água, avisei Aley dis, que, obediente, deu um passo atrás. Mas Cornélia estava bem nas minhas costas quando carreguei os baldes na escada. Cornélia, ajuda-me a carregar a água? Senão, fique com suas irmãs. Ela me olhou e fez o pior: se tivesse ficado brava ou gritado, eu saberia como controlá-la. Mas caçoou». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

 

Johannes Vermeer, Século XVII, JDACT, Pintura, Literatura,

terça-feira, 27 de julho de 2021

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Ela agora está fora, foi fazer compras. Tanneke vai-lhe mostrar a casa e explicar suas tarefas. Sim, madame. Concordei»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Nenhum era como eu esperava que ele pintasse. Mais tarde, descobri que eram todos de outros pintores, ele raramente mantinha seus quadros na casa. Além de artista era comerciante de arte, e havia quadros em quase todos os cómodos da casa, até no que eu dormia. No total, eram mais de cinquenta, embora o número variasse, conforme ele os vendia. Venha, não precisa ficar olhando. A mulher andou rápido por um comprido corredor que percorria um lado da casa até aos fundos. Fui atrás dela até virar de repente para um quarto à esquerda. Na parede em frente havia um quadro que era maior que eu. Mostrava Cristo na cruz, rodeado pela Virgem Maria, Maria Madalena e São João. Tentei não olhar, mas me impressionei com o tamanho e a cena. Meu pai tinha dito que os católicos não eram muito diferentes de nós. Mas nós não tínhamos aqueles quadros nas nossas casas, em igrejas nem em lugar algum. Eu ia ter que ver aquele quadro todos os dias. Sempre chamei aquele lugar de quarto da Crucificação. Nunca me senti bem lá. O quadro me deixou tão espantada que só percebi a mulher no canto quando ela falou. Bem, menina, algo novo para você ver, disse ela. Estava numa cadeira confortável fumando um cachimbo. Os dentes que seguravam o cachimbo tinham escurecido e os dedos estavam manchados de tinta. No resto, era impecável: seu vestido negro, sua gola de renda, sua touca branca engomada. O rosto enrugado era duro, mas seus olhos castanho-claros pareciam simpáticos.

Era o tipo da velha que parecia que ia viver mais tempo que todos. De repente, pensei: é a mãe de Catharina. Não era apenas por causa da cor dos olhos e da mecha castanha que escapou da touca, igual à filha. Tinha o jeito de alguém acostumado a lidar com pessoas menos capazes do que ela, de cuidar de Catharina. Entendi por que tinha sido levada para ela e não para a filha. Embora me parecesse olhar distraída, estava atenta. Quando apertou os olhos, percebi que sabia tudo que eu pensava. Virei a cabeça de forma que minha touca escondesse o meu rosto. Maria Thins deu uma baforada no cachimbo e riu. Está bem, menina. Aqui, seus pensamentos ficam para você. Quer dizer então que vai trabalhar para minha filha. Ela agora está fora, foi fazer compras. Tanneke vai-lhe mostrar a casa e explicar suas tarefas. Sim, madame. Concordei.

Tanneke tinha ficado ao lado da senhora e passou por mim. Segui-a, com os olhos de Maria Thins batendo nas minhas costas. Ouvi ela rir outra vez. Tanneke me levou primeiro para os fundos da casa, onde havia uma cozinha, uma lavandaria e duas despensas. A lavandaria abria para um pequeno pátio cheio de roupas brancas secando. Para começar, essa roupa precisa passar, disse Tanneke. Fiquei calada, embora parecesse que a roupa ainda não estava bem seca pelo sol do meio-dia. Ela me levou aos fundos e apontou um buraco no chão de uma das despensas, com uma escada para descer. Você dorme aqui, anunciou. Ponha suas coisas lá e venha.

Relutante, deixei minha trouxa cair naquele pequeno buraco sombrio, pensando nas pedras que Agnes, Frans e eu jogávamos no canal para acertar nos monstros. Minhas coisas fizeram um som surdo no chão sujo e me senti como uma macieira perdendo sua maçã. Segui Tanneke pelo corredor, para onde se abriam todos os quartos, muito mais quartos que em nossa casa. Ao lado do quarto da Crucificação, onde estava Maria Thins, na frente da casa, havia um quarto menor com camas de crianças, penicos, mesinhas e cadeirinhas com vários objectos de barro, castiçais, espevitadeiras e roupas, uma bagunça. As meninas dormem aqui, resmungou Tanneke, talvez sem graça com aquela confusão.

Voltou para o corredor e abriu a porta de um quarto grande, onde a luz vinha das janelas da frente e batia no chão de ladrilhos vermelhos e cinzentos. O grande cómodo. Aqui dormem o patrão e a senhora, disse ela. A cama de dossel tinha cortinas de seda verde. Havia outros móveis no quarto: um grande armário com entalhe de ébano, uma mesa de madeira branca encostada nas janelas com várias cadeiras de couro espanhol ao redor». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Os outros quadros eram de coisas mais conhecidas: pilhas de frutas, paisagens, navios no mar, retratos. Pareciam ser de vários pintores. Fiquei pensando qual deles seria do meu novo patrão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É melhor você estourar antes que batam no chão, sugeri. Senão, vai precisar limpar os ladrilhos outra vez. A mais velha abaixou a haste onde soprava. Quatro duplas de olhos me olharam de um jeito que não deixava dúvidas de que eram irmãs. Vi vários traços dos pais nelas: olhos acinzentados aqui, castanhos claros lá, rostos angulosos e movimentos impacientes. Você é a nova criada?, perguntou a mais velha. Mandaram a gente esperar você, interrompeu a menina ruiva, antes que eu pudesse responder. Cornélia, vai chamar Tanneke, mandou a mais velha. Vá você, Aleydis, disse Cornélia para a caçula, que arregalou os olhos para mim, mas não se mexeu. Eu vou. A mais velha deve ter achado que a minha chegada era importante, afinal. Não, eu vou. Cornélia pulou e correu na frente da irmã mais velha, deixando-me sozinha com as duas meninas mais caladas. Olhei para o bebé que batia braços e pernas no colo da menina. - É seu irmão ou irmã? Irmão, respondeu a menina com uma voz macia como um travesseiro de plumas. O nome dele é Johannes, mas nunca chame de Jan. Fez a recomendação como se fosse um refrão conhecido. Sei. E você, como se chama?

Lisbeth. E esta é Aleydis. A caçula sorriu para mim. As duas estavam arrumadinhas, de vestido marrom com aventais e toucas brancas. E sua irmã mais velha? Maertge, nunca chame de Maria. Nossa avó é Maria. Maria Thins. Esta casa é dela. O bebé choramingou. Lisbeth montou-o no joelho, para cima e para baixo. Olhei a casa. Sem dúvida, era maior que a nossa, mas não tanto quanto eu temia. Tinha dois andares e mais um sótão, enquanto a nossa tinha apenas um quarto e um pequeno sótão. Era uma casa de final de rua, com a Molenpoort de um lado, um pouco mais espaçosa do que as outras. Parecia menos apertada que muitas casas de Delft, que eram coladas umas às outras em estreitas fileiras de tijolo às margens dos canais, com suas chaminés e tectos inclinados reflectidos na água verde do canal. As janelas térreas da casa eram bem altas, e no primeiro andar havia três janelas juntas, em vez de duas como nas demais casas da rua.

Da casa, via-se a torre da Nova Igreja do outro lado do canal. Uma estranha vista para uma família católica, pensei. Uma igreja onde jamais entrariam. Então você é a criada, não?, ouvi alguém perguntar, atrás de mim. A mulher na porta tinha um rosto largo, com marcas da varíola que tivera há tempos. Seu nariz era grande e irregular e seus grossos lábios se apertavam formando uma boquinha. Os olhos eram azul-claros, como se ela tivesse um toque de céu neles. Estava de vestido marrom com camisa branca, uma touca bem apertada na cabeça e um avental não tão limpo quanto o meu. Ficou parada na porta de modo que Maertge e Cornélia tiveram de empurrá-la para ficar ao seu lado, olhando-me de braços cruzados como se esperassem um desafio. Ela já se sente ameaçada por mim, pensei. Se deixar, vai-me tiranizar. Meu nome é Griet, falei, olhando-a de frente. Sou a nova criada. A mulher mudou o peso do corpo de uma perna para a outra. Então é melhor entrar, concluiu logo. Afastou-se para o interior escuro para dar passagem na porta. Entrei. Sempre me lembro dos quadros, na primeira vez que entrei na sala da frente. Parei na porta, segurando minha trouxa, e olhei. Já tinha visto quadros, mas nunca tantos num só lugar. Contei onze. O maior era de dois homens, quase nus, lutando. Não identifiquei nenhuma história bíblica e achei que devia ser algum tema católico. Os outros quadros eram de coisas mais conhecidas: pilhas de frutas, paisagens, navios no mar, retratos. Pareciam ser de vários pintores. Fiquei pensando qual deles seria do meu novo patrão». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

Johannes Vermeer, Século XVII, JDACT, Pintura, Literatura, 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Naquela hora, eu seguia a ponta da estrela para onde nunca tinha ido, atravessando a praça mais devagar do que os outros, pois relutava em deixar os lugares que conhecia tão bem»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Havia alguns barcos no canal, navegando em direcção à Praça do Mercado. Mas não era dia de mercado, apesar de os barcos serem tantos que não se enxergava o canal. Um barco levava peixes de água doce para as barracas da ponte Jerónimo. Outro vinha carregado de tijolos, com água pelas beiradas. O homem que conduzia o barco gritou, cumprimentando-me. Apenas fiz um gesto e abaixei a cabeça para que a borda da minha touca escondesse o meu rosto. Atravessei uma ponte sobre o canal e virei para o espaço amplo da Praça do Mercado, que, mesmo àquela hora, estava agitada, com pessoas atravessando de um lado para outro, rumo a alguma tarefa: comprar carne no Mercado de Carne ou pão na padaria, levar madeira para pesar na Casa do Peso. As crianças iam à rua buscar coisas para os pais; os aprendizes para os seus mestres, as criadas para os seus patrões. Cavalos e carruagens passavam em tropel no piso de pedra. À minha direita estava a câmara municipal, com sua fachada de mármore branca e dourada olhando do alto das janelas. À minha esquerda estava a Nova Igreja, onde eu havia sido baptizada, dezasseis anos antes. A sua torre comprida e estreita lembrava-me uma gaiola de pedra. O pai uma vez levou-nos até lá ao alto. Jamais esquecerei a vista de Delft: cada pequena casa de tijolo vermelho e telhado inclinado, o canal verde e o portão da cidade ficaram marcados para sempre na minha memória, pequenos, porém nítidos. Naquele dia, perguntei ao meu pai se todas as cidades holandesas eram daquele jeito, mas ele não sabia. Nunca tinha ido a nenhuma outra cidade, nem mesmo a Haia, que ficava a duas horas a pé.
Andei até ao centro da praça. Lá, as pedras foram colocadas formando uma estrela de oito pontas dentro de um círculo. Cada ponta indicava uma parte de Delft. Achava que ali era o centro da cidade e o centro da minha vida. Frans, Agnes e eu tínhamos brincado na estrela desde que pudemos correr até ao mercado. A nossa brincadeira preferida era escolher uma ponta, dizer o nome de alguma coisa (cegonha, igreja, carrinho de mão, flor) e correr naquela direcção procurando por aquela determinada coisa. Foi assim que exploramos quase toda a cidade de Delft. Mas havia uma ponta em que nunca estivemos: nunca fui à Esquina dos Papistas, onde moravam os católicos. A casa em que eu ia trabalhar ficava a dez minutos de casa, tempo que uma caçarola de água levava para ferver, mas nunca passei por lá. Não conhecia nenhum católico. Não havia muitos em Delft e nenhum na nossa rua, nem nas lojas que frequentávamos. Não que os evitássemos, mas eles eram muito reservados. Eram aceites em Delft, mas não se esperava que demonstrassem a sua fé abertamente. Realizavam os seus ofícios religiosos discretamente, em lugares simples que por fora não pareciam igrejas. Meu pai tinha trabalhado com católicos e disse-me que eles não eram diferentes de nós. O máximo, que se podia dizer é, que eram menos sérios. Gostavam de comer, beber, cantar e jogar. O pai falou isso quase como se os invejasse.
Naquela hora, eu seguia a ponta da estrela para onde nunca tinha ido, atravessando a praça mais devagar do que os outros, pois relutava em deixar os lugares que conhecia tão bem. Atravessei a ponte sobre o canal e virei à esquerda para o Oude Langendijck. À esquerda, o canal ficava paralelo à rua, separando-a da Praça do Mercado. Na esquina em que a rua cruzava com a Molenpoort, quatro meninas estavam sentadas num banco ao lado da porta aberta de uma casa. Tomaram uma ordem por tamanho: da mais velha, que devia ter a idade de Agnes, à mais nova, que devia ter uns quatro anos. Uma das meninas do meio segurava um bebé no colo, grandinho, já devia gatinhar e logo estaria andando. Cinco filhos, pensei. E esperando mais um. A menina mais velha fazia bolhas de sabão soprando numa concha com uma haste na ponta, brinquedo parecido com um que o meu pai fizera para nós. As outras pulavam e estouravam as bolhas que surgiam. A menina, com o bebé no colo, não podia mexer-se muito e alcançava algumas bolhas, apesar de estar sentada ao lado da que soprava. A mais nova era a mais distante e não tinha chance de alcançar as bolhas. A segunda era a mais rápida, corria e apertava as bolhas nas mãos. Tinha o cabelo da cor mais forte das quatro, ruivo como a parede de tijolo atrás dela. A mais nova e a que estava com o bebé tinham cabelo cacheado e louro como o da mãe, enquanto a mais velha tinha o mesmo ruivo escuro do pai. Olhei a menina do cabelo ruivo pegar as bolhas, estourando-as antes que batessem nos azulejos cinzentos e brancos colocados em diagonal na frente da casa. Ela vai ser difícil, pensei». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

Cortesia de BertrandB/JDACT

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Quando cheguei ao final da rua e sumi de vista da minha família, ficou um pouco mais fácil andar firme e olhar ao redor. A manhã ainda estava fria…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Claro que tem de tirar as coisas, mas deve colocar de novo exactamente como se nada tivesse sido alterado. Como faz com o seu pai, agora que ele não enxerga. Depois do acidente com o meu pai, aprendemos a colocar cada objecto onde ele saberia que estava. Mas fazer isso para um cego era uma coisa. E outra bem diferente era arrumar para um homem com olhos de pintor. Agnes não me disse nada depois da visita. Quando me deitei na cama ao lado da dela naquela noite, permaneceu calada, embora não me desse às costas. Ficou olhando o tecto. Depois que soprei a vela, o quarto ficou tão escuro que não se enxergava nada. Virei-me para ela. Sabe que não quero ir embora, mas tenho de ir. Silêncio. Precisamos do dinheiro. Não temos nenhum, agora que o pai não pode trabalhar. Oito tostões por dia não chega a ser muito dinheiro. Agnes tinha uma voz rouca, como se a sua garganta estivesse cheia de teias de aranha. Vai manter a família com pão. E um pouco de queijo. Não é tão pouco. Vou ficar sozinha. Está deixando-me completamente só. Primeiro foi Frans, agora você. No ano anterior, fora Agnes quem mais sofrera quando Frans saiu de casa. Os dois sempre brigaram como cão e gato, mas, quando ele foi embora, ela ficou amuada vários dias, com dez anos, era a mais nova de três filhos e sempre estivera comigo e com Frans na casa.
A mãe e o pai continuarão aqui. Virei visitar-vos aos domingos. Além do mais, Frans não saiu de repente. Há anos sabíamos que o nosso irmão começaria como aprendiz aos treze anos. Nosso pai economizou muito para pagar a taxa e falou sem parar que Frans aprenderia um outro lado da profissão, voltaria para casa e os dois abririam uma fábrica de azulejos. Mas agora o nosso pai ficava sentado ao lado da janela e nunca falava do futuro. Depois do acidente com o pai, Frans passou dois dias em casa. E desde então não mais veio nos visitar. A última vez que o vi foi quando fui à fábrica do outro lado da cidade, onde ele é aprendiz. Parecia muito cansado e tinha queimaduras nos braços, sofridas ao tirar os azulejos do forno. Contou-me que trabalhava do amanhecer até tão tarde que às vezes chegava a perder a fome. O pai nunca avisou que seria tão duro, reclamou, magoado. Só disse que o aprendizado havia sido tudo para ele. Talvez tenha sido. Foi por isso que ele ficou assim, observei.
Na manhã seguinte, quando estava pronta para partir, meu pai veio à porta, arrastando os pés pelo corredor. Abracei a minha mãe e Agnes. O domingo chega logo, tranquilizou minha mãe. Meu pai entregou-me um lenço com alguma coisa embrulhada nele: isso é para se lembrar de casa, de nós, disse. Era o azulejo dele de que eu mais gostava. A maioria dos que fizeram e revestiam a nossa casa tinha algum defeito: estavam lascados, tortos ou manchados porque secaram em forno quente demais. Mas meu pai guardou aquele especialmente para nós. Mostrava apenas dois pequenos vultos, um menino e uma menina mais velha. Não estavam brincando, como as crianças costumam estar, nos azulejos. Apenas andavam e eram como Frans e eu, sempre que andávamos juntos: claro que o nosso pai tinha pensado em nós quando pintou. O menino estava um pouco à frente da menina, mas virado para trás, dizendo alguma coisa. Tinha o rosto travesso e os cabelos despenteados. A menina usava touca como eu e não como a maioria, que amarra as pontas sob o queixo ou atrás. Eu gostava de uma touca branca que tinha uma barra larga em volta do rosto, cobrindo todo o meu cabelo e caindo em ponta, uma de cada lado, de forma que não se podia ver o meu rosto de perfil. Eu deixava a minha touca bem-engomada, fervendo-a com casca de batata. Fui-me afastando de casa, carregando as minhas coisas amarradas num avental. Ainda era cedo, nossos vizinhos jogavam baldes de água nos degraus e na rua em frente das suas casas, esfregando-os. Agora, quem teria de fazer essa e muitas outras tarefas minhas era Agnes, que ficaria com menos tempo para brincar na rua e à margem dos canais. A vida dela também estava mudando.
As pessoas cumprimentavam-me e me olhavam, curiosas, enquanto passava. Ninguém perguntava aonde estava indo nem fazia gentilezas. Não precisavam, sabiam o que acontecia com as famílias quando um homem perdia o ofício. Era coisa para se comentar depois: a jovem Griet virou criada, o pai fez a família se rebaixar. Mas eles não gostavam de ver, pois poderiam facilmente passar por aquilo também.

Toda a vida eu tinha percorrido aquela rua, só que nunca tão ciente de estar dando as costas para a minha casa. Quando cheguei ao final da rua e sumi de vista da minha família, ficou um pouco mais fácil andar firme e olhar ao redor. A manhã ainda estava fria, o céu cinza-esbranquiçado caía sobre Delft como um lençol, o sol de Verão ainda não estava alto o bastante para apagar aquela cor. O canal em cuja margem eu passava era um espelho de luz branca com toques verdes. Quando o sol ficasse mais forte, o canal escureceria, ficando da cor do limo. Frans, Agnes e eu costumávamos sentar-nos à beira do canal e jogar coisas na água (seixos, galhos; uma vez, um azulejo quebrado), imaginando que no fundo não encontrariam peixes, mas criaturas da nossa fantasia, com muitos olhos, escamas, mãos e barbatanas. Frans inventava os monstros mais interessantes. Agnes era a mais assustada. Eu sempre acabava com a brincadeira, muito propensa a ver as coisas como elas deviam ser e não inventar o que não existia». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

Cortesia de BertrandB/JDACT

sábado, 15 de julho de 2017

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Não consegui pensar em nada que não parecesse acusação. Desculpa, Griet, gostaria de ter feito melhor por ti»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando a minha mãe voltou, eu estava sentada, usando a máquina de legumes. Aguardei que ela falasse. Ela estava com os ombros encolhidos como se enfrentasse um frio de Inverno, embora fosse Verão e a cozinha estivesse quente. Amanhã começas como criada deles. Se for bem, vais receber oito tostões por dia. Vais morar lá. Apertei os lábios. Não me olhes assim, Griet. Temos de fazer isso, agora que o teu pai perdeu o ofício. Onde eles moram? Na Oude Langendijck com a Molenpoort. Na Esquina dos Papistas? São católicos? Podes vir para casa aos domingos. Eles concordaram. Minha mãe juntou os nabos com um pouco de repolho e cebola e jogou tudo na panela com água, no fogo. Acabaram-se as fatias de torta que eu havia arrumado com tanto cuidado. Subi a escada para ver o meu pai, sentado à janela da frente do sótão, com o sol batendo no seu rosto. A luz era o máximo que ele podia enxergar. O pai tinha sido pintor de azulejos, os seus dedos ainda estavam manchados de azul, de pintar cupidos, donzelas, soldados, navios, crianças, peixes, flores, animais em azulejos brancos, vitrificando-os, secando-os no forno e vendendo-os. Um dia, o forno explodiu e lá se foram os olhos e o ofício. Teve sorte: dois homens morreram. Sentei-me ao seu lado e segurei a mão dele. Ouvi, ouvi tudo, disse ele, antes que eu falasse. A audição tinha substituído a visão que lhe faltava.
Não consegui pensar em nada que não parecesse acusação. Desculpa, Griet, gostaria de ter feito melhor por ti. O lugar onde ficavam os seus olhos, onde o doutor havia costurado a pele, parecia triste. Mas ele é um bom cavalheiro e educado. Vai cuidar bem de ti. O pai não disse nada sobre a mulher. Como pode ter a certeza, pai? O senhor conhece-o? Não sabe quem ele é? Não. Lembras-te do quadro que vimos na prefeitura, alguns anos atrás, que van Ruijven estava expondo depois que o comprou? Uma paisagem de Delft, dos portões de Roterdão e Schiedam, com o céu, que tomava grande parte do quadro e a luz do sol batendo em algumas construções. A tinta tinha areia para que tijolos e tectos parecessem ásperos, acrescentei. E havia longas sombras na água e pessoas pequenas na praia mais próximas de nós. Esse mesmo. As órbitas do pai se esticaram como se ainda tivessem olhos e vissem o quadro outra vez. Lembrava-me bem, eu estivera várias vezes naquele lugar e nunca vira Delft como o pintor.
Aquele homem era van Ruijven? O mecenas? Não, não, filha. É o pintor Vermeer. Johannes Vermeer e a esposa. Você vai trabalhar como criada no atelièr dele. Minha mãe colocou mais uma touca, uma gola e um avental nas poucas coisas que eu estava levando, de modo que todo dia eu pudesse lavar um e usar o outro, e estar sempre limpa. Ela me deu também um pente de tartaruga para enfeitar o cabelo, em forma de concha, que tinha sido de minha avó, muito fino para uma criada usar, e um livro de orações que poderia ler quando precisasse fugir do catolicismo à minha volta. Enquanto juntávamos as minhas coisas, ela explicou por que eu precisava trabalhar com os Vermeer. Sabias que o teu novo patrão é chefe da guilda de São Lucas desde que seu pai sofreu o acidente, no ano passado? Concordei, ainda assustada por ter de trabalhar com tal artista.
A guilda funciona do jeito que dá. Lembras-te daquela caixa onde o teu pai depositou dinheiro todas as semanas, durante anos? Esse dinheiro vai para mestres necessitados, como nós estamos. Mas é pouco, principalmente agora que Frans está como aprendiz e não recebe nada. Não temos outra saída. Não queremos caridade pública, pelo menos nos esforçaremos para não aceitar. O seu pai soube que o seu novo patrão estava precisando de uma criada para limpar o atelièr sem tirar nada do lugar e então sugeriu o teu nome, achando que, como chefe da guilda e sabendo da nossa situação, Vermeer tentaria ajudar. Pensei em tudo que ela havia dito e perguntei: como se limpa um lugar sem tirar nada?» In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

Cortesia de BertrandB/JDACT

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Toda a nossa família, até meu pai e meu irmão, tinha baixa estatura. A mulher parecia ter sido soprada pelo vento, embora estivesse um dia sereno»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Minha mãe não me contou que eles estavam vindo. Depois, disse que não queria que eu parecesse nervosa. Fiquei surpresa, porque achava que ela me conhecia bem. Estranhos poderiam pensar que eu estava calma. Não chorei como um bebé. Só a minha mãe notaria o meu maxilar duro, os meus olhos grandes mais arregalados. Cortava legumes na cozinha quando ouvi vozes na porta da frente de nossa casa: uma voz feminina e radiante como latão polido, e a de um homem, grave e sombria como a madeira da mesa onde eu estava a trabalhar. Eram vozes que raramente ouvíamos em nossa casa. Havia nelas ricas alcatifas, livros, pérolas e peles. Fiquei contente por ter esfregado tanto os degraus da frente. A voz de minha mãe, uma caçarola, uma jarra, veio da sala da frente. Eles se encaminhavam para a cozinha. Afastei os alhos-pôros que estava cortando, coloquei a faca na mesa, limpei as mãos no avental e apertei os lábios para acalmá-los. Minha mãe surgiu na porta da cozinha, os olhos eram dois avisos. Atrás dela, a mulher teve de abaixar a cabeça por ser bem alta, mais do que o homem que a seguia.
Toda a nossa família, até meu pai e meu irmão, tinha baixa estatura. A mulher parecia ter sido soprada pelo vento, embora estivesse um dia sereno. A sua touca estava torta. Por isso, pequenos cachos louros apareciam e caíam na testa dela como abelhas que ela precisou afastar várias vezes, impaciente. A gola estava frouxa e não tão engomada como deveria. Ela empurrou o manto cinza para trás dos ombros e vi então que sob o vestido azul escuro crescia um bebê. Chegaria lá pelo final do ano, ou antes. O rosto da mulher era como uma terrina oval, às vezes vivo, outras sem graça. Os olhos eram dois luminosos botões castanhos, cor que raramente vi combinando com cabelos louros. Ela fez que me ia examinar com atenção, mas não conseguiu. Seus olhos percorreram a cozinha. Então, é esta a moça, concluiu ela, de repente. É minha filha, Griet, acrescentou minha mãe. Fiz um gesto respeitoso para o casal, concordando, bom, não é muito grande, será que vai ter força? Quando a mulher se virou para falar com o homem, a ponta do manto que vestia bateu no cabo da faca que eu estava usando, fazendo-a cair e girar no chão. A mulher soltou um grito.
Catharina, chamou o homem, tranquilo. Pronunciou o nome dela como se tivesse canela na boca. A mulher fez um esforço para se acalmar. Peguei a faca, limpei a lâmina no meu avental e tornei a colocá-la na mesa. A faca havia esbarrado nos legumes. Recoloquei um pedaço de cenoura no lugar. O homem olhava-me, os seus olhos cinzentos como o mar. Tinha um rosto comprido, anguloso, de expressão firme, em comparação com a da esposa, que tremulava como a chama de uma vela. Não usava barba nem bigode, e gostei, porque isso lhe dava uma aparência limpa. Tinha um capote negro nos ombros, camisa branca e uma linda gola de renda. O chapéu apertava os cabelos que eram ruivos da cor de tijolo lavado pela chuva. O que estava fazendo, Griet?, perguntou ele. Fiquei espantada, mas sabia como disfarçar. Estava cortando legumes, senhor. Para a sopa. Eu sempre colocava os legumes num círculo, cada um numa parte, como fatias de torta. Havia cinco fatias: repolho roxo, cebola, alho-pôro, cenoura e nabo. Usei a ponta de uma faca para fazer cada fatia e coloquei uma rodela de cenoura no centro. O homem tamborilou os dedos na mesa.
Estão na ordem em que vão ser colocados na sopa?, perguntou, examinando o círculo. Não, senhor. Fiquei constrangida. Não conseguia dizer por que tinha arrumado os legumes daquele jeito. Achei que deviam ficar assim, mas estava muito assustada para dizer isso para um cavalheiro. Vejo que separou os brancos, disse ele, indicando os nabos e cebolas. Depois, o laranja e o roxo não estão juntos: por quê? Pegou uma tira de repolho e uma rodela de cenoura e misturou-os como dados na mão. Olhei para a minha mãe, que concordou discretamente, num gesto de cabeça. As cores brigam quando ficam lado a lado, senhor. Ele franziu o cenho, como se não esperasse aquela resposta. E gasta muito tempo arrumando os legumes antes de fazer a sopa? Ah, não, senhor, respondi, confusa. Não queria que ele pensasse que eu era preguiçosa.
Com o canto do olho, vi um movimento. Minha irmã Agnes estava olhando da porta e balançou a cabeça por causa da minha resposta. Eu não costumava mentir. Olhei para baixo. O homem virou um pouco a cabeça e Agnes sumiu na porta. Ele colocou a cenoura e o repolho nas tiras correspondentes. A tira de repolho invadiu o espaço das cebolas. Tive vontade de colocá-la no lugar. Eu não sabia, mas ele sabia que eu queria fazer isso. Estava testando-me. Chega de conversa, decidiu a mulher. Não estava gostando da atenção que ele me dava, mas foi para mim que olhou, séria. Amanhã, então? Olhou para o homem antes de sair da cozinha, seguida por minha mãe. O homem deu mais uma olhada no que seria a sopa, despediu-se com um gesto de cabeça e acompanhou a mulher». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

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