Mostrar mensagens com a etiqueta António Lobo Antunes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Lobo Antunes. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «Agora, percebe, estendido no convés numa cadeira de repouso, a sentir no progressivo suor do colarinho a implacável metamorfose do Inverno de Lisboa no Verão gelatinoso do Equador, mole e quente…»

Cortesia de jdact e wikipedia

B

«As senhoras do Movimento Nacional Feminino vinham por vezes distrair os visons da menopausa distribuindo medalhas da Senhora de Fátima e porta-chaves com a efígie de Salazar, acompanhadas de padre-nossos nacionalistas e de ameaças do inferno bíblico de Peniche, onde os agentes da PIDE superavam em eficácia os inocentes diabos de garfo em punho do catecismo. Sempre imaginei que os pelos dos seus púbis fossem de estola de raposa, e que das vaginas lhes escorressem, quando excitadas, gotas de Ma Griffe e baba de caniche, que abandonavam rastros luzidios de caracol na murchidão das coxas. Sentadas à mesa do brigadeiro, comiam a sopa com a ponta dos beiços tal como os doentes das hemorroidas se acomodam no vértice dos sofás, deixando nos guardanapos de papel pegadas de copas de bâton de que se evolavam ainda desgostos com as criadas e restos de tiradas patrióticas, e reencontrei-as no portaló do barco na manhã da partida, encorajando-nos com maços de cigarros Três Vintes e apertos de mão viris em que as falanges, falanginhas e falangetas se articulavam entre si por intermédio dos anéis de brasão: Sigam descansados que nós na rectaguarda permanecemos vigilantes.

E com efeito, observando bem, pouca coisa havia a recear de nádegas tão tristes, em relação às quais as cintas se conformavam com o papel secundário de fundas herniárias.

E depois, sabe como é, Lisboa principiou a afastar-se de mim num turbilhão cada vez mais atenuados de marchas marciais em cujos acordes rodopiavam os rostos trágicos e imóveis de despedida, que a lembrança paralisa nas atitudes de espanto. O espelho do camarote devolvia-me feições deslocadas pela angústia, como um puzzle desarrumado, em que a careta aflita do sorriso adquiria a sinuosidade repulsiva de uma cicatriz.  

Um dos médicos, dobrado no colchão do beliche, soluçava aos arrancos em palpitações irregulares de motor de táxi que se engasga, o outro contemplava os dedos com a atenção vazia dos recém-nascidos ou dos idiotas que lambem longamente as unhas com os olhos extasiados, e eu perguntava a mim próprio o que fazíamos ali, agonizantes em suspenso no chão de máquina de costura do navio, com Lisboa a afogar-se na distância num suspiro derradeiro de hino. Subitamente sem passado, com o porta-chaves e a medalha de Salazar no bolso, de pé entre a banheira e o lavatório de quarto de bonecas atarraxados à parede, sentia-me como a casa dos meus pais no Verão, sem cortinas, de tapetes enrolados em jornais, móveis encostados aos cantos cobertos de grandes sudários poeirentos, as pratas emigradas para a copa da avó, e o gigantesco eco dos passos de ninguém nas salas desertas. Como quando se tosse nas garagens à noite, pensei, e se sente o peso insuportável da própria solidão, nas orelhas, sob a forma de estampidos reboantes, idênticos ao pulsar das têmporas no tambor do travesseiro.

Ao segundo dia alcançamos a Madeira, bolo-rei enfeitado de vivendas cristalizadas a flutuar na bandeja de louça azul do mar, Alenquer à deriva no silêncio da tarde. A orquestra do navio resfolegava boleros para os oficiais melancólicos como corujas na aurora, e do porão onde os soldados se comprimiam subia um bafo espesso de vomitado, odor para mim esquecido desde os meios-dias remotos da infância, quando na cozinha, à hora das refeições, se agitavam à volta da minha sopa relutante as caretas alternadamente persuasivas e ameaçadoras da família, sublinhando cada colher com uma salva de palmas festiva, até que alguém mais atento gritava: Cantem o Papagaio Loiro que o miúdo está a puxar o vómito.

Em resposta a este aviso terrível, todos aqueles adultos desatavam a desafinar em uníssono como no naufrágio do Titanic, de beiços arrepiados sobre os dentes de ouro, uma criada batia tampas de tacho a compasso, o jardineiro fingia marchar de vassoura ao ombro, e eu devolvia ao prato um roldão de massa e arroz que me obrigavam a engolir, desta vez sem coro, sibilando em voz baixa insultos furibundos.

Agora, percebe, estendido no convés numa cadeira de repouso, a sentir no progressivo suor do colarinho a implacável metamorfose do Inverno de Lisboa no Verão gelatinoso do Equador, mole e quente como as mãos do senhor Melo, barbeiro do avô, no meu pescoço, na loja da Rua 1º de Dezembro, onde a humidade multiplicava o cromado das tesouras nos espelhos canhotos, o que com mais veemência me apetecia era que, tal como nesses tempos recuados, a Gija me viesse coçar as costas estreitas de menino num vagar feito da paciência da ternura, até eu adormecer de sonhos lavrados pelo ancinho dos seus dedos apaziguadores, capazes de me expulsarem do corpo os fantasmas desesperados ou aflitos que o habitam». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, Cultura e Conhecimento, Escrita,  

terça-feira, 22 de novembro de 2022

O Manual dos Inquisidores. António Lobo Antunes- «Pode sentar-se os lobos da Alsácia que se evaporavam a galope na casa tombando cadeiras, rasgando sofás, destruindo reposteiros, que regressavam ao jardim num temporal de caçarolas…»

jdact

«(…) Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão o meu pai de chávena de chá, a viúva do farmacêutico a alimentar de pedacinhos de biscoito o cãozito horrível, e a minha sogra não furiosa, não indignada, indulgente  Que pena o seu pequeno não lhe ter herdado o sentido de humor Francisco o mar a seguir às palmeiras, e as gaivotas no pontão sossegadas e brancas tão diferentes dos corvos desgrenhados da quinta Que pena o seu pequeno não lhe ter herdado o sentido de humor Francisco o meu pai calado esmiuçando as cunhadas do bridge na paciência aborrecida com que examinava as vacas no estábulo, a raspar crostas das botas com o canivete e no entanto eu gostava de si pai, gostava de si, não fui capaz de dizer-lhe mas gostava de si, a mãe da Sofia a oferecer torradas que o meu pai não se dava ao trabalho sequer de recusar ocupado com o lodo das solas, a mãe da Sofia, solícita O meu irmão Pedro procurou-o várias vezes por problemas lá do banco quando você foi secretário de Estado lembra-se do Pedro com certeza e no tribunal em Lisboa o advogado para mim O juiz chamou senhor engenheiro o advogado preocupado, inquieto, implorativo, com os cheviotes subitamente baratos e ruços, o corte de cabelo subitamente vulgar aparado por um barbeiro de vão de escada da Penha de França ou da Amadora Não abra a boca durante o julgamento senhor engenheiro não se ponha com essas histórias de patrão um corredor com empregados que escreviam à máquina, convocatórias e avisos que proibiam fumar num painel de cortiça, pessoas à espera e ao fim do corredor uma prateleira de livros, um calendário de parede, dossiers no soalho, uma mesa de repartição pública preenchida por códigos e processos e o juiz entrincheirado de caneta em riste por detrás das leis como para se defender de nós, idêntico a um mestre-escola com a metade inferior da cara oculta por tratados com farpas de cartão a marcarem as páginas, fitando-me como se pedisse desculpa tal como fitei o meu pai quando na semana seguinte ou duas semanas depois da revolução (soldados marchas militares armas prisões a minha sogra e as cunhadas em Espanha em hotéis de terceira ordem nos arredores de Madrid sem malas de viagem sem passaporte apavoradas tentando ligar para Lisboa sem que lhes respondessem tentando ligar para a herdade e os camponeses a insultarem-nas aos berros a minha sogra e as cunhadas em Espanha com vários casacos de peles uns por cima dos outros com vários relógios de ouro em cada pulso e os irmãos da minha sogra humilhados por civis de pistola na companhia de seguros humilhados por civis de pistola no Guincho os irmãos da minha sogra transportados em camionetas de talho para Caxias para Peniche para Vale de Judeus) tal como fitei o meu pai quando na semana seguinte ou duas semanas depois da revolução nos chamou à quinta, à Sofia, aos miúdos e a mim e tinha trancado as janelas e aferrolhado os quadros e as pratas, solto os lobos da Alsácia dos canis e despedido as criadas e nos esperava no topo da escada, de caçadeira no sovaco e os bolsos inchados de cartuchos, o meu pai que continuava a fumar cigarrilhas de chapéu na cabeça O primeiro comunista que se atrever a entrar leva um tiro nos cor… a ameaçar com a caçadeira o pântano, o celeiro, o pomar e a azinhaga de ciprestes, os lobos da Alsácia a rebolarem nos canteiros decepando os narcisos O primeiro comunista que se atrever a entrar leva um tiro nos cor… e o advogado baixinho Pode sentar-se os lobos da Alsácia que se evaporavam a galope na casa tombando cadeiras, rasgando sofás, destruindo reposteiros, que regressavam ao jardim num temporal de caçarolas e panelas, com pedaços de almofadas, de cortinas, de toalhas e o meu pai disparando contra o susto dos corvos O primeiro comunista que se atrever a entrar leva um tiro nos cor…» In António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores, 1996, Publicações Dom Quixote, Grupo Leya, 1996, ISBN 978-972-204-234-5.

Cortesia de PDQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, O Saber,

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

O Manual dos Inquisidores. António Lobo Antunes. «O menino é parvo ou faz-se?, o palacete do Estoril onde acompanhei o meu pai vestido como um camponês, de corrente de cobre, botas de carneira…»

 

jdact

«(…) Nunca devia ter tirado o chapéu da cabeça para que se soubesse quem era o patrão e o advogado do vértice dos cheviotes sem entender Como?, o advogado parecido com os advogados, os banqueiros, os gestores, os deputados e os ministros que chegavam à quinta no tempo do meu pai, invisíveis nos vidros opacos de um cortejo de automóveis fúnebres avançando pelo caminho de ciprestes que separava o portão da casa, me faziam uma festa distraída no queixo comentando sem me verem Como tu cresceste se fechavam na sala do piano a tarde inteira com as criadas de luvas brancas num corrupio de bandejas, a governanta a mandar-me brincar para as traseiras, o caseiro a afugentar os corvos e a calar os cães, os advogados, os banqueiros, os gestores, os deputados e os ministros que regressavam já de noite aos seus carros imensos, desapareciam na estrada de Lisboa e o meu pai esquecido deles, voltado para a respiração do pântano onde as últimas rolas se sumiam, a Sofia a passar por mim com a desenvoltura desdenhosa da mãe e o advogado sem entender inclinando-se para escutar melhor Perdão?, eu não no tribunal, na quinta, a dirigir-me ao meu pai entre o choro das rãs Nunca devia ter tirado o chapéu da cabeça para que se soubesse quem era o patrão e o advogado com o espanto das sobrancelhas pegando-se à raiz dos cabelos Perdão?, como se dissesse, possesso, não ali no tribunal, no Estoril, no bridge do Estoril diante da janela para as palmeiras do Casino olhando o candeeiro de globo que eu acabara de quebrar O menino é parvo ou faz-se?, o palacete do Estoril onde acompanhei o meu pai vestido como um camponês, de corrente de cobre, botas de carneira, um chapéu velho na cabeça e a cigarrilha nos dentes, o meu pai que deixou o Nash na garagem com chofer fardado a puxar lustro aos cromados e convocou único táxi de Palmela conduzido por uma espécie de palhaço de pala de verniz parando em todas as tabernas com o pretexto de descansar o motor e demorando-se horas entre parreiras e moscas, o meu pai acompanhado pela viúva do farmacêutico escondida atrás de um camaféu de madrepérola e de um leque sevilhano a que faltavam varetas, com um cãozinho microscópico a latir-lhe guinchos no colo, a viúva e eu torrando dentro do táxi que cheirava a caixa de sapatos antiga e o meu pai e o palhaço de pala de verniz a chuparem calicezinhos e a esfriarem o radiador com abanos de trança, enodoados de fuligem, de forma que alcançámos o Estoril muito depois do almoço quando tinham desistido de esperar-nos e jogavam bridge no terraço sobre a praia e as gaivotas, e a minha sogra em lugar de indignar-se com a falta de educação do meu pai que empurrava a viúva e o cãozito microscópico protegido por uma capa de lã casa adentro O menino é parvo ou faz-se?, deixando o palhaço no pátio a cambalear nas hortênsias e a enroscar e a desenroscar o motor do táxi que trepidava explosões e agonias, o meu pai de chávena de chá na mão a mirar a mãe da Sofia e as cunhadas com a pálpebra sonolenta com que mirava a cozinheira, a filha do caseiro, as ciganas, as criadas, sem tirar o chapéu da cabeça nem deixar de fumar, que dali a nada empurraria uma delas para o primeiro quarto livre a fim de lhe erguer a saia e achatar as nádegas contra um armário ou uma cómoda cujas gavetas gemiam, informando quem quer que entrasse» In António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores, 1996, Publicações Dom Quixote, Grupo Leya, 1996, ISBN 978-972-204-234-5.

Cortesia de PDQuixote/JDACT

 JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, O Saber,

terça-feira, 8 de março de 2022

Explicação dos Pássaros. António Lobo Antunes. «Já a comeste, velho? O quê?, pergunta o pai. Nada, estava a dizer que sigo agora mesmo para Tomar. Um congresso sobre o século XIX, sabe como é»

jdact

«(…) Sentado nos teus ombros quase tocava os ramos dos castanheiros com a cabeça, aureolado de luz à maneira dos santos dos milagres, enquanto uma eternidade de fotografia me imobilizava o sorriso que encontro, tantos anos depois, no espelho do quarto, a troçar-me numa careta azeda: como eu cresci, caraças, como o cabelo, por meu turno, me começa a faltar também: tento calcular de memória a idade do pai nessa época (serias mais novo do que eu hoje?) e a voz baralha-lhe as contas através dos furinhos de baquelite do telefone: Ouvi dizer que ias sair uns dias. Percebia-se o ruído das máquinas de escrever do escritório, gente debruçada para as mesas, o desodorizante da secretária transformando o espaço livre, salas, paredes, corredores, num enorme sovaco depilado e morno: Já a comeste, velho? O quê?, pergunta o pai. Nada, estava a dizer que sigo agora mesmo para Tomar. Um congresso sobre o século XIX, sabe como é. A minha irmã contou-me que tinhas outra casa com outros filhos, outro televisor, outros óleos, outra mesa de gamão, outro pote de Fixador Azevichex O Produto Favorito Do Homem De Sucesso, outro jornal. Escrever é uma coisa idiota, entendes, quando não se ganha o Nobel: tira o cursozinho. Houve uma pausa e a voz do senhor careca respondeu a hesitar: Realmente nestes telefones não se percebe nada. Não tem importância, sigo agora mesmo para Tomar. Hum, rosnou o pai, desconfiado. E ele adivinhava-lhe os olhos escuros, atrás dos óculos, a calcularem sem acreditar: Tinha de mentir-te, tinha sempre de mentir-te, não suportavas que eu fosse diferente de ti, que arranhasse versos, que preferisse ser professor num péssimo liceu dos subúrbios, a uma miséria por mês, a trabalhar na companhia, composto, de gravata, como os outros da tribo. Às vezes consolava-me pensar que o homem novo e alegre, que passeava comigo na quinta, me teria entendido: íamos os dois até ao muro coberto de cacos de garrafa, e permanecíamos fascinados a olhar o saguim do vizinho, preso à casota por uma corrente de cão, a figueira suspensa sobre o poço, a tranquilidade lilás dos fins de tarde, muito para lá das estátuas de loiça do jardim e das cadeiras de lona desbotadas da família, ao acaso na relva. Os pavões da mata gritavam angustiadamente ao longe:

Têm medo da noite, explicava o pai, têm medo de poder sonhar. Pensa O tipo que me levava às cavalitas pode bem acontecer que percebesse, percebia com certeza: quem conhece os pavões compreende um mau poeta à légua. Pensa Chiça, o que eu gostava de dizer e não consigo. Pensa A ausência de coragem é uma grande por… Quando é que voltas?, questiona o pai como se remexesse um pauzinho cruel numa ferida infectada. No domingo, acho eu, declara ele. E emenda, irritado consigo mesmo (Como vês tenho medo de ti, não sirvo para dirigir nenhuma empresa), numa afirmação categórica: No domingo sem falta. Domingo era a chatice da desocupação, o quarto dos brinquedos revolvido, o corpo a arrastar-se, maçado, pelos cantos. A mãe jogava as cartas com as amigas, na sala, numa cintilação de pulseiras e de brincos, as bocas pintadas conversavam, como periquitos, de filhos, de criadas, dos empregos dos maridos. Mãe. E agora estava ali a morrer no Outono de Campolide, num quarto de clínica, diante do tabuleiro de espinhas do almoço, que a prima colocou ao pé da jarra das flores antes de se afundar de novo, distraída, no tricot.

Pelo sim pelo não deixa o número de telefone aí, ordena o pai. Já sabes como estas coisas são: pode ser que de um momento para o outro haja necessidade de falar contigo». In António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom Quixote, 1983, ISBN 978-972-205-020-3.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, A Arte,

segunda-feira, 7 de março de 2022

António Lobo Antunes. Explicação dos Pássaros. «Um telefone principiou a chorar como uma criança numa mesinha baixa junto dele. Sim, respondeu a prima que se apoderou velozmente do auscultador como um elefante do seu molho de cenouras»

jdact

«(…) Cuidado, Fernanda, não se arrisque. Solicitamos à estimada assistência o máximo silêncio durante a perigosa refeição. A criatura jovial principiou a subir à manivela a cabeceira da cama, como os tipos de farda azul que esticam a mesa alemã para os exercícios de saltos. O laço, teso de goma, do avental, vibrava-lhe no rabo à laia de uma asa de borboleta aprisionada. Quem vai papar o almocinho todo, quem é?, perguntou ela no tom irritantemente divertido de uma mestra de meninos. Sopinha, pescadinha, perinha, uma delícia, a capsulazinha antes e o comprimido depois, já está. Ariops, berrou triunfalmente o pai num molinete do braço. As tuas irmãs também têm telefonado, disse a mãe a retirar cuidadosamente as espinhas em forma de aspa, muito brancas, da pescada. Esta noite, com toda a gente que garantiu que aparecia, o quarto vai ser uma sociedade recreativa em terça-feira gorda: vou-me divertir imenso. Uma orquestra de parentes idosos, de casaco de palhetas prateadas, tocava um bolero lento ao pé do lavatório, com a expressão impassível ou vagamente aborrecida dos músicos de bar. À luz velada do candeeiro de folhos da mesa de cabeceira, enodoado de manchas, as enfermeiras, os médicos, os tios graves conversavam baixinho, mastigavam croquetes espetados em palitos, aproximavam e afastavam, ao acaso, os rostos pálidos e lunares. O doutor indiano dançava com a prima do tricot num recato digno de termas, quando arredam as mesas da sala de jantar para lúgubres serões de violoncelos tristes.

Quietos, repetiu o pai, estou a ler o jornal. A mãe sorriu inesperadamente: a infância escorregou-lhe, lenta, ao longo da boca, como a água num desnível de tábuas: Não te preocupes, disse ela, tratam tão bem de mim aqui. Ele saía de casa com a mala cheia de rótulos de hotéis estrangeiros e tu ficavas sozinha, minúscula a um canto da cama enorme, a ler grossos livros ingleses incompreensíveis, romances, histórias de guerra, um homem e uma mulher a beijarem-se sem vergonha na capa. Voltava três, quatro dias depois, queimado do sol, com um resto de luz estranha nas pupilas alheadas. Eu ia vê-lo fazer a barba de manhã, em calças de pijama e tronco nu, fascinado pelo brilho da navalha. Usava Fixador Azevichex O Produto Favorito do Homem De Sucesso, e gargarejava impetuosamente, de nariz no ar, contra a cárie, a piorreia e o mau hálito: Quando eu for grande mando calar toda a gente para ler o jornal. Os cães das Amoreiras, diante da clínica, farejavam no nevoeiro as penas da galinha, um resto de sangue, o montículo gelatinoso e repelente das tripas. A mãe marcava o livro com um bilhete de eléctrico, apagava a luz, e eu tinha a certeza de que os olhos dela permaneciam abertos no escuro, resplandecentes e fixos como os dos mortos nos retratos. Um telefone principiou a chorar como uma criança numa mesinha baixa junto dele. Sim, respondeu a prima que se apoderou velozmente do auscultador como um elefante do seu molho de cenouras.

Sim. Sim. Não, passou bem a noite, o médico visita-a logo à tarde. Se houver alguma alteração eu aviso-te. O pai, a vaga culpabilidade do pai, a preocupação distraída do pai, a amante de que conhecia apenas a voz rouca e densa, como se uma lamparina de álcool lhe aquecesse permanentemente a garganta. Uma vez por mês almoçavam juntos num restaurante ao pé do escritório dele, sem falar, comendo silenciosamente num incómodo que se apalpava, que crescia. A calva inclinada para o prato luzia como um bule. As bochechas aumentavam e diminuíam, elásticas, enquanto mastigava, e vinham-me à ideia dias longínquos de infância, na quinta (a sombra móvel das árvores no chão, o odor seco das folhas e da terra), e um homem novo, magro, alegre, cujas gargalhadas se espalhavam no sossego da tarde, trotando, comigo às cavalitas, a caminho de casa. Pensa: Vamos voltar o filme para trás, recomeçar. A prima tapa o bocal com a mão: Queres dizer alguma coisa ao teu marido? O talher de peixe estremece sem responder, agarro no aparelho: Pai.

As sílabas chegam do outro lado, dentro do seu ouvido, nítidas e precisas como as paisagens gravadas a estilete numa placa de bronze:  Como está ela? O homem novo, magro e alegre, deu lugar a um senhor de idade que engordava, apertando constantemente os cabelos ralos contra as têmporas: Melhor, pai, melhor. Não se preocupe». In António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom Quixote, 1983, ISBN 978-972-205-020-3.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, A Arte,

sábado, 28 de agosto de 2021

António Lobo Antunes. Explicação dos Pássaros. «A doença boleara-lhe as arestas da voz, tornara-a doce, suave, delicada como o canto de um búzio: Mozart, la mer ou l’écho de vos rêves: reclame de uma marca qualquer de gira-discos franceses…»

jdact

«(…) Um carro de pensos rebolou a guinchar no corredor, entrechocando como bilhas de leite as latas cromadas, cheias do silêncio fofo das compressas. Do quarto vizinho crescia um queixume rítmico, a ondulação de um gemido, um protesto que subia e descia de mulher: Tapem-me a boca para não gritar. Respondeu a contragosto: Ainda não, mãe, uma data de chatices na tipografia, as provas gatadas, pensando Lá vão os cínicos dos críticos cair-me em cima com a sua raivinha de impotentes, as resenhas minúsculas, anónimas, secas, sem retrato, nos jornais da tarde. Quando eu principiar a putrefazer-me considerar-me-ão primordial, entrevistar-me-ão, dissertarão sobre mim, seleccionar-me-ão para os aborrecidos cemitérios das suas selectas. Deu um passo em frente, afagou a mão da mãe: porosa, sem sangue, leve e dura como as raízes ocas das vinhas. As pessoas já não gostam de história, de poesia, suspira a prima por trás das agulhas de tricot, fabricando uma horrível camisola furta-cores, aos losangos, que ninguém vestiria (Muito obrigado mas agora não preciso, acho que o Francisco adorava). Não gostam de romances sem escândalos, sem palavrões, sem sexo: quanto mais porcaria melhor. O cheiro das casas de saúde, pensou ele, põe-me um peso na testa, um desconforto, uma dor esquisita: quando fui operado às costas vi o meu pus num balde e apeteceu-me vomitar aos arrancos, de bruços na marquesa, o oco das tripas. O cirurgião conversava com o ajudante à medida que lhe remexia a sumaúma do corpo, e ele notava-lhes as botas de pano idênticas às dos burros a fingir, formados por dois comparsas, no circo. Uma menina de saia de lantejoulas e sombrinha passeava num arame altíssimo, iluminada por um foco roxo e amarelo. Na plateia deserta, um palhaço rico, de boca vermelha, experimentava o saxofone.

O pai?, perguntou ele, e as palavras pairaram muito tempo, adiante dos lábios, como uma escala de música. O progenitor, de casaca e pálpebras sublinhadas a carvão, avançou até ao microfone em meneios miudinhos de mestre-de-cerimónias. Um cone de claridade azul, vindo do tecto, perseguia-o: Palavras para quê?, anunciou a alisar as farripas da calva entre os assobios fanhosos dos altifalantes. É um artista português. Muito trabalho no escritório, explicou a mãe. Deve passar logo por cá. A secretária dele já telefonou três vezes, esclareceu a prima, mandou aquelas flores embrulhadas em celofane com uma fita cor-de-rosa nos pés. A jarra de vidro facetado aumentou subitamente de tamanho: o pai estendeu a mão para um reposteiro coçado e ele e as irmãs saíram lá de dentro a correr, vestidos de tártaros, num turbilhão de cambalhotas e de pulos. Quietos, ordenou o pai, estou a ler o jornal. A careca severa, a cara fechada, o odor de água de colónia e de tabaco americano da roupa: e depois, de tempos a tempos, as viagens de negócios de que demorei anos a entender o motivo, a mãe trancada no quarto, estendida na cama (Uma enxaqueca, não é nada, vou já jantar), as visitas ao psiquiatra, o ioga, a macrobiótica, os jogos de cartas, a ginástica. E os meus olhos mudos a interrogarem-te nas costas Porque não voltas mais cedo para casa? Talvez passe cá logo, suspirou a mãe, talvez passe logo em toda a parte.

A doença boleara-lhe as arestas da voz, tornara-a doce, suave, delicada como o canto de um búzio: Mozart, la mer ou l’écho de vos rêves: reclame de uma marca qualquer de gira-discos franceses, lido numa revista no dentista. Aproximou-se da janela, espreitou para fora: uma mulher de avental depenava uma galinha na rua (a cabeça do bicho, dependurada, oscilava ao ritmo sem ritmo dos seus puxões), dois cães, instalados nas patas traseiras, contemplavam-na de longe numa avidez submissa. Os edifícios das Amoreiras vogavam, desgovernados e feios, na neblina: cidade de mer…, porque não me piro enquanto é tempo? O almocinho, gritou uma criatura jovial, de tabuleiro metálico nos braços: canja, pescada cozida com grelos, uma pêra, um pires ao contrário a proteger o copo de água. As irmãs sumiram-se numa cambalhota derradeira, o pai experimentou o microfone com a unha: Comida de doentes, vociferou para um público de primas remotas, que tricotava instalado em volta nas bancadas de pau». In António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom Quixote, 1983, ISBN 978-972-205-020-3.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, A Arte,

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Explicação dos Pássaros. António Lobo Antunes. «Os Novos Emissores em Marcha. Quando o Telefone Toca. Que Quer Ouvir? Pensa Como o teu cabelo era castanho, os gestos decididos, nesse tempo»

dact

«(…) Como é que se sente?, perguntou numa voz derrotada, enquanto observava a mãe a pensar As lágrimas estão já do outro lado dos teus olhos, deslizam por dentro da cabeça, para a garganta, num ardor ácido de bagaço. Não a achas com melhor aspecto?, perguntaram de súbito à sua esquerda e ele viu, sentada na única poltrona do quarto, entalada entre a cama e a janela, uma prima remota com um livro aberto nos joelhos: Aposto que és a única pessoa da família disposta a acompanhar um moribundo. Colados ao vidro os prédios feios, desbotados das Amoreiras: Ainda estaria viva quando chegasse a sua vez? Mais corada, confirmei eu, mais cheia. E para mim mesmo, envergonhado: Desculpa mãe. Quando eu era pequeno e adoecia de gripe trazias-me a velha telefonia Philips do pai para o quarto, e eu ficava a escutar os programas de discos pedidos no torpor morno da febre. Os Novos Emissores em Marcha. Quando o Telefone Toca. Que Quer Ouvir? Pensa Como o teu cabelo era castanho, os gestos decididos, nesse tempo. Nunca deixarias, imaginava ele, que nos acontecesse mal. Os miúdos?, disse a mãe da infinita distância de dois metros. Havia botijas ferrugentas de oxigénio à cabeceira, um aspirador de secreções ao pé do lavatório, um ramo de flores numa jarra de vidro facetado, sobre um naperon. Óptimos, mãe, óptimos. Sem problemas. Sempre que os vou buscar ao colégio perguntam por si, e assaltou-o a certeza de que a mãe se apercebera da pausa, do segundo de espera, da mentira. Entravam no carro de roldão, empurrando-se um ao outro, como cãezinhos, para o beijarem. A porteira da escola, gorda, com cara de toupeira, sorria, na boutique ao lado uma senhora alta e ruiva acariciava com as longas unhas vermelhas um frasco estreito de perfume: Que tes… me dás. Onde é que vocês querem ir almoçar? Ao Pónei. À Tasca. Mas a senhora ruiva veio à porta e a ternura dissolveu-se-lhe num ápice no furioso desejo daquele rosto de louça, da saia travada que aprisionava o leque de carne espessa das coxas. Através dos anos o colega de carteira do liceu sussurrou-lhe ao ouvido: É o que elas querem, pá: agarras-te ao colchão, apertas os dentes, e é para trás e para a frente, para trás e para a frente, percebes, até os quadros se virem na parede.

Devem estar enormes, afirmou a prima do fundo da cadeira, a retirar o tricot de um saco de plástico. A respiração da mãe tornara-se um assobio difícil, baixo, imperceptível. As falanges, azuis, moviam-se devagar no cobertor em reptações de insecto. Vou esta tarde para Tomar, mãe, ao congresso, volto no domingo à hora do jantar. Livre-se de se apaixonar pelo indiano manhoso do médico nestes três dias: não quero vacas sagradas na família. Que falta de humor, catano, nem uma piada de jeito te sai, recriminou-se ele, graças pesadas como os pingos de chumbo das banheiras da insónia, parvoíces tolas de revista: preciso urgentemente de me reciclar no Charlie Hebdo. A prima espalhava cuidadosamente os novelos no colo: São tão simpáticos, os indianos, tão delicados. Ó Fernanda, reparaste no bigode dele? Imensas metástases pulmonares, informou o doutor, um derrame monstro na pleura. (Parecia referir-se às anginas de um esquimó que nenhum deles conhecia.) O melhor é irem-se preparando para o que der e vier.

Mostrava radiografias, exibia análises, fornecia explicações pomposas. A perfeição do nó da gravata irritava-me ao rubro: desabotoar-lhe o colarinho com um puxão, amarrotar o excessivo cuidado da camisa: a minha mãe vai morrer e este cabr… nas tintas. Os olhos verdes fitavam-no impiedosamente da almofada. Já saiu o teu manual?, soprou ela a custo». In António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom Quixote, 1983, ISBN 978-972-205-020-3.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, A Arte, 

Explicação dos Pássaros. António Lobo Antunes. «Bom dia, mãe, disse ele e pensou logo Como tu emagreceste catano, ao mirar os tendões do pescoço, a testa demasiado pálida, as veias salientes dos braços…»

jdact

«Um dia destes dou à praia aqui, devorado pelos peixes como uma baleia morta, disse-me ele na rua da clínica olhando os prédios desbotados e tristes de Campolide, os monogramas de guardanapo dos anúncios luminosos apagados, os restos de purpurina das boas-festas das montras, um cão que vasculhava, na manhã de Janeiro, o monte de lixo de um edifício demolido: caliça, pó, pedaços de madeira, bocados de tijolo sem alma. Vinha a pé desde a avenida dos eléctricos, a cheirar os caixotes de fruta das mercearias num apetite brumoso e sôfrego de gaivota, como em criança, de regresso da escola, farejava o aroma ácido das drogarias ou a penumbra castanha, cor de sangue seco, das tabernas, onde um cego, de copo na mão, o seguia com as órbitas alarmantes e imóveis dos políticos nos cartazes, e pensou Trazem-me para a casa de saúde, empurram por mim o fecho de latão do guarda-vento (Não se incomode, Não se incomode, Não se incomode), obrigam-me a esperar na sala repleta de cadeiras de couro com grandes pregos amarelos (cadeiras de velório, verifico eu), uma mesa de pernas em saca-rolhas, reposteiros pesados como arrotos de juiz e as visitas invisíveis do meu funeral cochichando gravemente pelos cantos, enquanto eles parlamentam em voz baixa com empregadas poeirentas que se devem limpar de manhã a si próprias com espanadores de penas, retirando das gavetas das barrigas maços de cartas antigas e caixas de costura de embutidos. A rapariga magrinha e feia do PBX, de cócoras atrás de um balcão de farmácia como uma coruja na sua gruta, desenhava corações enlevados num bloco: devia ter ido duas vezes seguidas ao cinema com o mesmo oficial de finanças míope, que morava num quarto alugado à Penha de França e tirava por correspondência cursos de inglês, curvado para um caderno com bonecos (my garden, my uncle) diante de uma bica vazia. Disse-lhe o nome da mãe enquanto a outra, de língua de fora, aperfeiçoava um coração enorme, idêntico ao rótulo dos frascos de arear metais da época da avó: um batalhão de criadas de farda cinzenta friccionava com energia as maçanetas do andar de baixo: Esteja quieto com as mãos, menino, senão vou fazer queixa às suas manas. Cheiravam a sabão azul e branco, a açúcar amarelo e a pão de segunda, e à noite primos soldados, de grandes dedos de pedra de camponeses ou de pastores, vinham tocar-lhes à socapa o peito no portão do jardim. Terceiro quarto à direita, informou a coruja a esboçar uma flecha de cupido num sorriso lânguido de postal: as orelhas do oficial de finanças deviam arder por cima de uma soma de repente impossível, e ele ultrapassou uma espécie de copa onde duas enfermeiras arrulhavam, encostadas a um armário, como um casal de pombos num beiral: uma delas comia um bolo, de mão em concha para aparar as migalhas, e o sol da janela conferia às batas engomadas a alvura lisa do giz. Um sujeito de meia-idade cruzou-se com ele a examinar um balão de urina que segurava à altura dos olhos, como um lacrau morto, numa curiosidade pensativa. O odor de álcool, de medo e de esperança dos hospitais avançava e recuava no corredor, idêntico ao de um mar adormecido no qual flutuassem os gemidos sem som dos doentes, afogados pelos suspiros aflitos da família: Não quero aqui ninguém quando chegar a minha vez: enxotá-los com as sobrancelhas para onde os não veja, aonde não chegue a sua insuportável amabilidade compungida, os seus cuidados excessivos, as pupilas amareladas pelo seu próprio pânico da morte. Ficar sozinho, de nariz no tecto, a esvaziar-me lentamente de mim: como me chamo, o sítio em que nasci, os anos que tenho, os filhos grisalhos que fornecem pormenores no corredor. Bom dia, mãe, disse ele e pensou logo Como tu emagreceste catano, ao mirar os tendões do pescoço, a testa demasiado pálida, as veias salientes dos braços, as íris verdes cravadas na almofada, redondas, a espiá-lo, o suor viscoso do nariz. A aliança dançava no dedo: Qual de nós a tirará daqui a pouco, a pousará no prato de louça da cómoda do teu quarto, sob o espelho, inundado de colares, de brincos, de anéis? Não tenho gravata preta para o enterro, só a de tricot cinzento de um Natal antigo, do tempo em que ainda usava casaco, se tomava a sério, escrevia intermináveis ensaios péssimos que ninguém leria, eriçados de conceitos prolixos, de teorias confusas, de aproximações absurdas. O dedo invisível do editor roçou-lhe o braço: Talvez alguma coisa se possa aproveitar desses estudos». In António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom Quixote, 1983, ISBN 978-972-205-020-3.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, A Arte, 

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O Manual dos Inquisidores. António Lobo Antunes. «Vamos a ver o que se pode arranjar senhor engenheiro não prometo nada e ao ir-me embora a telefonista mirou-me como se eu fosse testemunha de Jeová ou vendesse enciclopédias…»

jdact

«(…) Como é que consegue viver sozinho num chavasco destes? o advogado caro de cabelo cortado num barbeiro caro que me recebeu num gabinete caro com quadros caros encadernações caras em estantes caras a mulher cara e os filhos caros a sorrirem numa moldura de prata e mobília quase tão cara como a mobília do meu pai, o advogado a fingir não reparar no pedaço de corda que me servia de cinto, nos sapatos sem graxa, nas peúgas sem elástico, nas calças gastas, a observar-me no desdém aborrecido com que a minha sogra me observou quando entrei pela primeira vez a derrubar bibelots, envergonhadíssimo, no palacete do Estoril, a minha sogra que jogava bridge com as cunhadas a recolher a vasa numa combustão de anéis e a erguer para mim a sobrancelha que se mostra ao jardineiro incompetente culpado de estragar os buxos do terraço O menino tem dinheiro para manter a Sofia ao nível a que ela está habituada? o advogado incomodado com o meu casaco demasiado curto, os meus fundilhos, o meu bigodinho cómico, a brincar com a lapiseira de prata numa nuvem de after-shave e a tentar ao mesmo tempo desembaraçar-se do assunto e ser simpático para a minha filha Vamos a ver o que se pode arranjar senhor engenheiro não prometo nada e ao ir-me embora a telefonista mirou-me como se eu fosse testemunha de Jeová ou vendesse enciclopédias e a minha filha mais velha a remexer as gavetas da cozinha onde as cuecas se misturavam com os talheres (os garfos tortos as colheres com verdete as facas que não cortavam) Não tem ao menos um fatinho decente? e a Sofia a escovar-me os ombros com o dorso da mão Podias arranjar-te um bocadinho para conhecer a minha mãe e a minha sogra a esquecer-se das cartas assim que despenhei um candeeiro de globo O menino é parvo ou faz-se? eu no tribunal em Lisboa escoltado pelo advogado que batia no relógio com a unha, a lembrar-me das pás do moinho escurecidas de ferrugem que cessaram de trabalhar apesar do vento, dos canis vazios e dos lobos da alsácia sem comida galopando ao acaso pela serra ou a uivarem do pântano no momento em que uma funcionária começava a soletrar nomes marcando os que respondiam com uma cruzinha a lápis, a lembrar-me de quando levei a minha noiva à quinta em Agosto e o meu pai se achava no pátio numa cadeira de baloiço a beber limonada com a mulher do sargento, dama de cetins barrocos que tomava a camioneta de Setúbal nas tardes em que o marido ficava de plantão no quartel e eu para o meu pai A Sofia pai e o meu pai a mirá-la com a pálpebra adormecida com que mirava a cozinheira a filha do caseiro as ciganas as criadas, a afundar a copa na testa com um piparote Faz tudo o que ela quiser mas nunca tires o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão e o advogado inquieto mostrando-me o relógio O que terá acontecido à sua esposa?

a Sofia a ajeitar a bandelete corada de timidez, os corvos a gargalharem nas faias, o reflexo da casa a estremecer na piscina, a mulher do sargento a sorrir para nós caretas de madrinha, o meu pai a medir a Sofia, na voz distraída com que falava dos animais no estábulo Um cabide um esqueleto nunca percebeste nada de vitelas e o advogado de repente sereno, de repente grave, a endireitar-se para o elevador compondo os punhos Até que enfim senhor engenheiro e lá estava a Sofia sem bandelete sem vinte anos sem corar de timidez sem me escovar os ombros com o dorso da mão, flanqueada por um advogado tão semelhante ao meu que se diria o mesmo ao espelho, que se diriam réplicas, gémeos, ambos de cabelo cortado num barbeiro caro, ambos de cheviotes por medida, ambos seguros autoritários severos, flutuando na mesma loção de barbear numa majestade de congros, a Sofia com o anel da minha sogra no dedo da aliança, com a desenvoltura desdenhosa da mãe (O menino é parvo ou faz-se?) sem me olhar sem me sorrir sem me dizer Podias arranjar-te um bocadinho João e eu para o meu advogado igual ao advogado dela» In António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores, 1996, Publicações Dom Quixote, Grupo Leya, 1996, ISBN 978-972-204-234-5.

Cortesia de PDQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, O Saber, 

terça-feira, 10 de agosto de 2021

António Lobo Antunes. O Manual dos Inquisidores. «Oxalá a sua esposa não se atrase senhor engenheiro senão o juiz marca-nos o divórcio para as calendas gregas (e contudo não se viam gaivotas, não se vêem gaivotas deste lado da serra)…»

jdact

«E ao entrar no tribunal em Lisboa era na quinta que pensava. Não na quinta de agora com as estátuas do jardim quebradas, a piscina vazia, o capim que devorava os canis e destroçara os canteiros, a grande casa destelhada onde chovia no piano com o retrato autografado da rainha, na mesa de xadrez a que faltavam peças, nos rasgões da alcatifa e na cama de alumínio que armei na cozinha, encostada ao fogão, para um sono afligido toda a noite pelas gargalhadas dos corvos ao entrar no tribunal em Lisboa não pensava na quinta de agora mas na casa e na quinta do tempo do meu pai quando Setúbal (uma cidade tão insignificante como uma aldeia de província, de luzes a dançarem em torno do coreto numa vibração de trevas, laceradas pelo desespero dos cães) ainda não chegara ao portão e aos salgueiros do muro e descia rio adentro num atropelo de traineiras e tabernas, Setúbal onde a governanta me levava às compras aos domingos de manhã arrastando-me pelo cotovelo sob o alvoroço dos pombos a casa e a quinta do tempo do meu pai de escadaria ladeada de anjos de granito e dos jacintos que cresciam ao longo das paredes, uma agitação de criadas nos corredores do mesmo modo que as pessoas se agitavam no vestíbulo do tribunal (era Julho e as árvores da rua Marquês da Fronteira torciam-se ao sol contra as fachadas) em cachos que se agrupavam e desfaziam em torno dos elevadores numa pressa ansiosa e nisto o meu advogado no meio das testemunhas e dos réus e dos oficiais de diligências a agarrar-me a camisola e a apontar-me os degraus Por aqui senhor engenheiro os divórcios por aqui e eu indiferente ao tribunal, indiferente a ele, a lembrar-me daquele Julho antigo em Palmela (devia ter quinze ou dezasseis anos porque construíam a garagem nova junto às faias, o tractor girava a seguir à horta e as pás de ferro do moinho chiavam no calor) em que ouvi cochichos e passos e murmúrios na capela e não eram galinhas não eram rolas não eram gralhas era gente, talvez os ciganos de Azeitão a roubarem a santa e os castiçais de talha (mulheres de saias negras, homens soprando cafeteiras ao lume, magras mulas tristíssimas) e peguei numa das bengalas do vaso de louça da entrada e atravessei a trote a sala de jantar Por aqui senhor engenheiro os divórcios por aqui com o lustre pingando sombras de vidro na toalha, saltei o canteiro de estrelícias, saltei as petúnias, a porta da capela encontrava-se aberta, os círios oscilavam nos arcos e não dei com os ciganos de Azeitão (mulheres de saias negras, homens soprando cafeteiras ao lume, magras mulas tristíssimas) dei com a cozinheira estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço, e o meu pai escarlate, de cigarrilha na boca e chapéu na cabeça, segurando-lhe as ancas a olhar para mim sem surpresa nem zanga, e nesse domingo depois de responder aos gritos ao latim do padre, à frente do caseiro, da governanta, das criadas, o meu pai a acender cigarrilhas durante a comunhão (o vento remexia as dálias secas e os eucaliptos do pântano, que aumentavam e diminuíam segundo o respirar dos limos) chamou-me ao escritório de janela para a estufa das orquídeas e o sopro do mar

Oxalá a sua esposa não se atrase senhor engenheiro senão o juiz marca-nos o divórcio para as calendas gregas (e contudo não se viam gaivotas, não se vêem gaivotas deste lado da serra) e levantou-se, contornou a secretária, tirou o isqueiro a gasolina do colete e pousou-me a mão aberta na nuca no gesto com que avaliava os borregos e as crias do estábulo Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão. o meu pai de mão aberta na nuca da filha do caseiro, uma adolescente descalça, suja, ruiva, suspensa das tetas das vacas acocorada num banquinho de pau, a filar-lhe o cachaço e a obrigá-la a dobrar-se para a manjedoura sem largar os baldes do leite, o meu pai outra vez escarlate a esmagar-lhe o umbigo nas nádegas, de cigarrilha acesa apontada às vigas do tecto sem que a filha do caseiro protestasse, sem que o caseiro protestasse, sem que ninguém protestasse ou imaginasse protestar, o meu pai tirando a mão da minha nuca e designando com desprezo a cozinha, os quartos das criadas, o pomar, a quinta inteira, o mundo Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão. o meu pai que aos sábados, depois da sesta, mandava o chofer comprar duzentos e cinquenta gramas de bolachas de araruta e conduzi-lo a Palmela à moradia da viúva do farmacêutico na rampa do castelo, uma vivenda geminada com cortinas de crochet e um gato de gesso no aparador, que voltava para a quinta à noite a tresandar a perfume barato e passada meia hora se tanto ouvia-o ressonar na poltrona da sala com o chapéu na linha das pálpebras e a última cigarrilha a consumir-se-lhe na boca à medida que os mochos do pântano palravam no jardim, e o advogado vestido de advogado caro com o tom da camisa a ligar com o tom das meias, batendo a unha no mostrador do relógio Se a sua esposa se atrasa para a conferência do divórcio estamos fritos o advogado que a minha filha mais velha me arranjou ao aparecer na quinta para ralhar comigo examinando indignada as janelas sem vidraças e as tábuas podres do soalho, examinando indignada um tacho de sopa fria no piano ao lado do retrato da rainha, examinando indignada as cascas no tapete». In António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores, 1996, Publicações Dom Quixote, Grupo Leya, 1996, ISBN 978-972-204-234-5.

Cortesia de PDQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, O Saber, 

domingo, 12 de janeiro de 2020

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «De tempos a tempos chegavam visitas inesperadas ao cu de Judas: oficiais do Estado-Maior de Luanda, que o formol do ar condicionado conservava, quinquagenárias sul-africanas que beijavam os doentes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Se você soubesse o que é acordar com vontade de urinar a meio da noite numa noite sem lua, vir cá fora mijar e nada existir em torno, nenhuma luz, nenhuma caserna, nenhum vulto, só o ruído do seu chichi invisível e as estrelas congeladas na meia laranja do céu, afastadas demais, pequenas demais, inacessíveis demais, prestes a desaparecer porque a manhã surge de repente e é dia adulto, acordar a meio da noite e sentir na quietude e no silêncio, percebe?, o sono inumerável de África, e nós ali de pernas afastadas, em camisa e cuecas, minúsculos, vulneráveis, ridículos, estranhos, sem passado nem futuro, a flutuar na estreiteza assustada do presente, coçando a flor-do-congo dos testículos. Já nessa altura certamente você acostara neste bar, com o mesmo cigarro na mão esquerda, o mesmo copo na mão direita e a mesma absoluta indiferença nos olhos, inalteravelmente imóvel, pássaro de pálpebras pintadas pousado no ramo do banco a tilintar as pulseiras indianas na música precisa dos seus gestos. Gosto dos seus gestos, assim automáticos e lentos como os das figuras dos relógios prosseguindo o seu trajectozinho obstinado, acabava-se de urinar e as bolhas ferviam na terra como se a bexiga, sabe como é, fosse uma chaleira a arder, voltava para dentro, e estendia-me na cama esmaltada de branco da enfermaria até o primeiro clarim me extrair em sobressalto dos meus vapores difusos.
De tempos a tempos chegavam visitas inesperadas ao cu de Judas: oficiais do Estado-Maior de Luanda, que o formol do ar condicionado conservava, quinquagenárias sul-africanas que beijavam os doentes em arroubos de cio da menopausa, duas actrizes de revista a agitarem a descompasso as pernas gordas num palco de mesas, acompanhadas por um acordeão exausto; jantaram na messe ao lado do comandante reluzente de orgulho, cuja timidez se embrulhava nos sorrisos de um adolescente em falta, enquanto o tenente da criada lhes cirandava em torno, farejando os decotes num êxtase mudo. O capelão, contrito, descia as pálpebras virgens sobre o breviário da sopa.
Quarenta anos a acumular esperma, calculava o capitão idoso a medi-lo de longe. Se aquele gajo se vier afoga-nos a todos na água benta dos tomates. As actrizes acabaram por dormi no posto da PIDE, vigiadas por agentes biliosos cujas sobrancelhas se franziam de ameaças indecifráveis. Dizia-se que a mulher do inspector, espanhola magra com aspecto de contorcionista decadente que se exprimia aos gritos numa linguagem de circo, torturava ela mesma os prisioneiros inventando martírios sem subtiliza de Lucrécia Bórgia das Portas de Santo Antão. Mais tarde, na Baixa do Cassanje, ouvi falar do enforcamento de um ginga para edificação da sanzala, e dos negros que cavavam um buraco na mata, desciam para dentro, e aguardavam pacientemente que lhes rebentassem a cabeça a tiro e os cobrissem de areia, puxando um cobertor de terra por sobre o sangue dos cadáveres. Filhos da pu…, filhos da pu…, filhos da pu…, repetia o tenente, siderado. O branco veio com um chicote, cantava o milícia na viola, e bateu no soba e no povo.

Já reparou que a esta hora da noite e a este nível do álcool o corpo se começa a emancipar de nós, a recusar-se a acender o cigarro, a segurar o copo numa incerteza tacteante, a vaguear dentro da roupa oscilações de gelatina? O encanto dos bares, não é?, consiste em, a partir das duas da manhã, não ser a alma a libertar-se do seu invólucro terreste e a seguir verticalmente para o céu no esvoaçar místico de cortinas brancas das mortes do missal, mas a carne que se livra, um pouco espantada, do espírito, e inicia uma dança pastosa de estátua de cera que se funde até terminar nas lágrimas de remorso da aurora, quando a primeira luz oblíqua nos revela, com implacabilidade radioscópica, o triste esqueleto da solidão sem remédio». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT

sábado, 28 de setembro de 2019

As Naus. António Lobo Antunes. «Da escada assistiam não apenas à chegada da noite que diluía as gaiolas e ressuscitava os cães mas à partida do bando de tágides de lamê que a mãe do indiano enxotava, pela erva da encosta abaixo…»

jdact

«(…) De manhã, enquanto a mulata dormia anestesiada de anis, rosnando de quando em quando palavras de sanzala, eu procurava emprego nas redondezas a fim de satisfazer os juros dementes do gordo: oferecia-me de aprendiz no martelar satânico, de sangue nas têmporas, das oficinas de serralharia, ou de marçano nos talhos de Bácoros esventrados, de pestanas loiras de menina; tentava provar a capatazes de bóina aos quadrados que era tão dextro como os cabo-verdianos das obras a furar à picareta o alcatrão das ruas, ou convencer os inspectores sanitários, de bafo de lula doente, que governava melhor os urinóis municipais do que os reformados trôpegos que despejam cartuchinhos de soda cáustica em regos de pedra onde uma espuma leveda e borbulha. A pouco e pouco, com o garoto a trotar-lhe nos fundilhos, alargou a sua busca inútil a zonas mais distantes da cidade, perto do bairro da lepra onde as carroças da Câmara moíam os eixos todo o dia; propunha-se para desocupar as valas comuns dos cemitérios das cartilagens incómodas dos mortos; queria à viva força, de boné de pala nos olhos, guardar cachalotes de automóveis nos parques junto ao rio, patrulhado pelas escunas do reyno, a vê-los transformarem-se lentamente em corvetas; esquadrinhava os becos do Cais do Sodré, mendigando trabalho aos porteiros-valetes-de-espadas das boites de put…; almoçava bolos de arroz em leitarias solitárias com uma única mosca a teimar sobre o balcão; passava um chupa-chupa de tangerina ao miúdo e trepava aos miradoiros a impingir-se de guia para traduzir aos alemães o panorama de capoeiras humildes e de miséria tranquila de Lixboa e os gatos que lambiam o sol que lhes poisava na garupa; solicitava, quase de graça, o emprego de levar bofetadas dos mímicos do Coliseu à medida que os trapezistas rodopiavam a cintilar na cúpula, desprendendo nuvenzinhas virginais de talco; e acabava por tornar, desalentado, à Residencial, por roçar um beijo distraído na mulata que descia a colina coberta de escamas sumptuosas, por atravessar o vestíbulo onde o lumbago do senhor Francisco Xavier, padroeiro de Setúbal, gania como um metrónomo na cadeira de baloiço, e por se sentar finalmente nos degraus ao lado do navegador ébrio, que riscava no chão, com um pauzinho, a latitude provável das ilhas por achar.
Da escada assistiam não apenas à chegada da noite que diluía as gaiolas e ressuscitava os cães mas à partida do bando de tágides de lamê que a mãe do indiano enxotava, pela erva da encosta abaixo, na direcção das discotecas de Arroios, da fachada da Morgue e do lago de patos do Campo de Santana, deusas magras aos tropeços nos seixos e nas raízes da terra perseguidas pelos filhos de umbigo ao léu que as chamavam, que desistiam, que entravam na pensão como os cachorros regressam, derrotados, aos portões das quintas, e a minha esposa cambaleava entre elas no exagero dos saltos, estropiando sem remédio os sapatos doirados que o gordo me obrigava a pagar para aumentar a dívida e a manter eternamente ligada aos seus impiedosos compromissos de chulo, de forma que o meu débito crescia sem cessar com a força dos pêlos do nariz e das plantas sem nome dos telhados, até que o fiscal da Companhia das Águas me somou o dinheiro em atraso com os olhos de quem conta draga-minas no horizonte, Faz tanto, e me aconselhou, a mamar da aguardente da garrafa, A única solução é espetares uma faca na barriga desse preto que com o corpinho da tua patroa já comprou dois prédios na Morais Soares e o trespasse de uma mercearia na Penha de França, o camelo cada vez mais rico e eu reduzido aos meus cálculos de ilhas e aos meus diários inúteis num reyno onde os marinheiros se coçam, desempregados, nas mesas de bilhar, nos cinemas pornográficos e nas esplanadas dos cafés, à espera que o Infante escreva de Sagres e os mande à cata de arquipélagos inexistentes à deriva na desmedida do mar. Afastávamos a medo os reposteiros da sala e ele logo Descubram-me os Açores, e a gente descobria-os, Encontrem-me a Madeira, e a gente, que remédio, encontrava-a, Encalhem-me no Brasil e tragam-mo cá antes que um veneziano idiota o leve para Itália, e a gente trouxe-lhe ao Algarbe, onde ceava no meio de uma roda de physicos e bispos, esse monstro esquisito de carnavais, papagaios e cangaço, de tal jeito que ao vê-lo, assim estupidamente enorme, arrastado por dezassete galés e mil e quatrocentos pares de bois, isto sem contar as mulas e os escravos mouros, se apartou dos seus e nos perguntou baixinho, ca hera homem avisado e de bom entendimento, Para que quero eu tal coisa se já tenho chatices que me sobram?, de modo que nos ordenou que o puséssemos, durante a hora da sesta, onde o tínhamos achado, sem conservar um papagaio sequer, e nos esquecêssemos logo da pelagra e dos mortos que padecêramos para lho dar, e ao pajem que interrogou, apontando a janela, Senhor, que nação é?, respondeu sem hesitar, na sua voz rouca de almirante ancorado que era um banco de areia da baixa-mar, meu palerma que nem o litoral conheces, e com muita Ave-Maria e muito trabalho obedecemos ao que nos disse, ou seja puxar o Brasil de volta para a América e quem viesse depois que se tramasse com aquilo, só que não conseguimos conter os papagaios inverosímeis que voavam aos gritos nos largos de Lixboa na agitação colorida das toalhas de banho». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «O primeiro amigo que fizeram na Residencial Apóstolo das Índias dormia três colchões adiante, chamava-se Diogo Cão, tinha trabalhado em Angola de fiscal da Companhia das Águas…»

jdact

«(…) Depois do jantar, no quarto, o homem, debruçado da magnificência presidencial da janela a que apenas faltava uma colcha e um discurso, confrontou-se pela primeira vez com a noite fosca, de carvão de escape, de Lixboa, sob a forma de um parque a descer para uma praça redonda, e de árvores que se aglomeravam ou separavam de acordo com a atmosfera inexplicável dos sonhos, surpreendendo-se de não encontrar cubatas nem missões de noviças famélicas, e da ausência do odor de fémur bichoso da mandioca nas esteiras. O halo das lâmpadas da rua impedia-o de distinguir o céu onde os lagos palustres da Guiné transbordavam de peixes estranhos, guerrilheiros e caniços, ocultos pela neblina do cacimbo. Veio-lhe à cabeça a frase da esposa, Já não pertenço aqui, e pensou que na idade de elefantes deles, reformados, sem dinheiro, sem família, sem móveis, dependentes de uma pensãozita que não lhes entregariam mais, perdida nos escaninhos burocráticos ou nas gavetas do palácio dos pretos, em que mariposas e vespas se multiplicavam no interior dos armários e os fuzilados se afundavam nas dálias dos jardins, nada lhes sobejava para além de si próprios, da máquina de costura suturando o tempo, do cofre de embutidos que sei lá onde pára, olha que coisa, e do bom senso de morrer, de engolir a embalagem completa das pílulas calmantes que o médico dos fuzileiros lhe receitava contra a enxaqueca dos pesadelos, umas pastilhas que sabiam a cré e possuíam a virtude de despenhar uma pessoa nas águas sem limites do esquecimento completo. Preparava-se para perguntar à mulher Onde meteste a maçada do remédio que o não vejo, que é da gaita dos comprimidos da ausência total, quando a escutou de dentro a chamá-lo dos damascos absurdos, das sedas incríveis, das almofadas da avestruz e dos móveis sem preço riscados a canivete por hóspedes pretéritos, e a encontrou de pé, numa postura vitoriosa, apoiando a mão na máquina de costura ferrugenta, cercada por um emaranhado de fios, pedaços de colcha, fatias de reposteiro e sobras de cortina espalhadas ao acaso no soalho. Vestia uma blusa e uma saia vermelhas e brancas, idênticas às das restantes hóspedes, e um cinto em que se entrançavam, como nos truques dos ilusionistas, os aros de latão das janelas. O seu sorriso era pelo menos tão alegre, malicioso e jovem como na época da fotografia de casados e das primeiras horas de dificuldade e aflição no desassossego dos lençóis: convidaram-me para um churrasco de gato na casa de banho do andar de cima, disse ela a apontar o sapo de baquelite do telefone prestes a mover-se a custo ao comprido de um tampo de verniz. Queres vir?

O primeiro amigo que fizeram na Residencial Apóstolo das Índias dormia três colchões adiante, chamava-se Diogo Cão, tinha trabalhado em Angola de fiscal da Companhia das Águas, e quando à tarde, depois da mulata partir para o bar, se sentava comigo e com o miúdo nos degraus da pensão a ver nas ripas dos telhados o frenesim das rolas, anunciava-me, já de voz incerta, beberricando de um frasco oculto no forro do casaco, que há trezentos, ou quatrocentos, ou quinhentos anos comandara as naus do Infante pela Costa de África abaixo. Explicava-me a melhor forma de estrangular revoltas de marinheiros, salgar a carne e navegar à bolina e de como era difícil viver nesse árduo tempo de oitavas épicas e de deuses zangados, e eu fingia acreditá-lo para não contrariar a susceptibilidade das suas iras de bêbedo, até ao dia em que abriu a mala à minha frente e debaixo das camisas e dos coletes e das cuecas manchadas de vomitado e de borras de vinho, dei com bolorentos mapas antigos e um registo de bordo a desfazer-se». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

As Naus. António Lobo Antunes. «Colocaram-nos na mesma mesa que três fazendeiros de Carmona que carpiam o café perdido e a lembrança das prostitutas da Muxima, um caçador de hipopótamos capaz de sobreviver séculos…»

jdact

«(…) Uma banheira pontifícia ocupava a sacristia de azulejos do compartimento vizinho, ao lado da escultura de uma sanita de Henry Moore só para eles, nós que em África partilhávamos a nossa intimidade com a intimidade dos restantes hóspedes, contendo a flora do intestino à espera do autoclismo de quem se nos antecipara na urgência das necessidades. Para lá das cortinas vermelhas e brancas percebiam-se os edifícios de Lixboa, flechas de igreja, os quarteirões isolados da peste, jardinzinhos exíguos e o céu, liberto das nuvens de tempestade da Guiné, em que subiam e desciam santos de túnica e mãos postas que o sol doirava de uma poeira de talha. O velho deixou a fotografia de casamento numa cómoda ducal sem se atrever a confrontar a noiva do retrato, de corpete de barbas de baleia, com a septuagenária de cabelo sem viço de que conhecia os tiques e os gestos até à quase absoluta inutilidade das palavras. E no entanto, amolecido numa almofada de toucador cujos espelhos o reproduziam numa repetitiva náusea intolerável, palpou-se longamente para se convencer da sua própria idade, tomando consciência dos molares que faltavam, dos músculos que obedeciam em guinadas dolorosas, do rosto devastado pelo clima da Guiné desde que aos quinze anos o pai o enviara para os trópicos aos cuidados de um primo sargento que se decompunha de aguardente e de sífilis numa guarnição de fronteira. Agora o casal do retrato tornara-se numa aguarela de iodo e nós em múmias sem préstimo espantadas diante das dezenas de garrafinhas do bar do apartamento, expostas em prateleiras de mogno na imobilidade inquietante das peças de xadrez. Ao escurecer entraram a medo na nave de mosteiro de Alcobaça da sala de jantar enfarpelados com a roupa que escondemos, no decurso da viagem, numa maleta de linha: a minha mulher com o vestido pré-histórico do seu antigo emprego de caixeira numa loja de fivelas, e eu com o fato de bandas largas, à Al Capone ou à dançarino de tango, estreado no baptizado da nossa filha juntamente com a gravatinha ridícula, do diâmetro de um atacador, que procurava inutilmente unir as metades de um colarinho sem botão.
Colocaram-nos na mesma mesa que três fazendeiros de Carmona que carpiam o café perdido e a lembrança das prostitutas da Muxima, um caçador de hipopótamos capaz de sobreviver séculos, sem um gesto, nas margens dos rios mais inclementes, e um faquir goês de perinha ascética que mastigava parafusos e roscas, a aperfeiçoar bolas de pão nos espargos dos dedos. Ao servirem a sopa um gordo de laçarote subiu o tamborete de um piano eléctrico, puxou os punhos com os anéis dos dedos e acompanhou a canja a semifusas. Escudeiros de travessa na palma bailavam nos intervalos dos aparadores. Os alões de caça do infante João devoravam lebres pelos cantos. E o marido deu consigo a reparar, espadeirando contra o caldo, que quase todas as senhoras traziam cintos ou mantilhas ou saias vermelhas e brancas onde se reiterava o estampado das cortinas. Nalgumas dependuravam-se ainda as argolas de lata dos reposteiros tilintando os seus sininhos sem júbilo, e que as raparigas mais novas, pegas da tropa, desaforadas filhas de chefe de posto ou alunas de colégio de freiras que os motoristas dos conventos transviaram, usavam perfurando-lhes o lábio ou o septo do nariz, como quando as conheci nadando em redor dos veleiros num alarido de pasmo. Quase no fim da salada de frutas de conserva sul-africana que os pára-quedistas desmobilizados deixaram a fermentar nos armazéns da Manutenção de Lixboa sob peças de fardamento, cruzes de guerra e catapultas, um tenente de cabelos ralos, penteados desde a nuca numa minúcia de ourives, atravessou as tapeçarias de hibiscos a fazerem o pino e de alicornes monstruosos da sala cumprimentando aqui e ali, recomendando detalhes aos criados, e após conversar um momento com o artista das colcheias, que se abanava com um lenço afectado, adaptou o microfone à sua altura, soprou-lhe um hálito disforme, disse Um dois três experiência, batucou com o indicador numa saraivada de pedras, segredou ao pianista do laçarote que se desfez que sim e suspendeu as mãos sobre o teclado num acorde militar, e então uma voz divina, imensa, autoritária, nascida não só das madeixas complicadas do tenente mas de todos os pontos da sala, das cantoneiras, dos jarros de florinhas, das pipetas de remédio sobre as toalhas e dos beiços dos animais fantásticos bordados na trança dos muros, uma voz de garagem ou de despenhadeiro do tamanho dos bombardeamentos e dos temporais de Bissau, informou com ferocidade, damas e cavalheiros, informou com pompa, senhoras e senhores, que se encontravam no Hotel Ritz por pura benevolência paternal das autoridades revolucionárias preocupadas em zelar pelo conforto e tranquilidade dos seus filhos até o Estado democrático, nascido, com a ajuda da parteira mão castrense, do ventre putrefacto do totalitarismo fascista que durante tantos decénios nos garroteou e oprimiu, conseguir casas ou pré-fabricados ou apartamentos nos bairros económicos para as vítimas da ditadura felizmente extinta, e que em nome, camaradas, da luta de classes e da construção do socialismo dirigida pela vanguarda política do exército, passariam a ser punidos com a forca, a decepação da mão esquerda, a extracção de vísceras pelas costas ou o degredo em Macau, os intoleráveis abusos de assar sardinhas nos lavatórios, engasgar os ralos com tornozelos de faisão, cozinhar refogados e fritos nas cerâmicas dos chuveiros, vender as torneiras, concebidas por arquitectos franceses, nos antiquários caquéticos da Rua de São Bento, assim como servir-se das cortinas estampadas do hotel, repito, servir-se das cortinas estampadas do hotel para blusas e adornos, tenho dito, de barregã de moiro». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «A seguir ao jantar os jeeps dos oficiais giravam de palhota em palhota hesitações de pirilampos: o amor barato e rápido em compartimentos abafados, aclarados por pavios indecisos de petróleo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Gago Coutinho era também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massa cujo esforço para falar o torcia de caretas de defecação, casado com uma espécie de botija de gascidla enfeitada de colares estridentes, sempre a queixar-se aos oficiais dos beliscões com que os soldados lhe homenageavam as nádegas atlânticas, difíceis, aliás, de discernir numa mulher aparentada a um imenso glúteo rolando em que mesmo as bochechas possuíam qualquer coisa de anal e o nariz se aparentava a inchaço incómodo de hemorróida, café para refrescos inocentes nas tão compridas tarde de domingo, e onde pela primeira vez o tenente, confidencial, abriu a carteira para me mostrar a fotografia da criada, e revelou, recostando-se para trás no assento de ferro por demais exíguo para as duas omoplatas enormes, o produto sintético das meditações de uma vida: sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa. No edifício sinistro do hospital civil, idêntico a uma pensão de província moribunda de paredes empoladas por furúnculos de humidade, os doentes de paludismo estremeciam de febre nos degraus da entrada, no corredor, na sala de consulta, no cubículo destinado às injeções, à espera das ampolas de quinino na tranquilidade imemorial dos negros, para quem o tempo, a distância e a vida possuem uma profundeza e um significado impossíveis de explicar a quem nasceu entre túmulos de infantas e despertadores de folha, aguilhoado por datas de batalhas, mosteiros e relógios de ponto. Diante da secretária, espessa como um bunker, à qual instalava a minha ciência de manual, a miséria e a fome desfilavam manhã fora na serenidade monótona da chuva de Setembro, e a única resposta que a minha impotência me permitia eram as pastilhas de vitamina da tropa adoçadas por um sorriso de desculpa e de vergonha.
Impedidos de pescar e de caçar, sem lavras, prisioneiros do arame farpado e das esmolas de peixe seco da administração, espiados pela PIDE, tiranizados pelos cipaios, os luchazes fugiam para a mata, onde o MPLA, inimigo invisível, se escondia, obrigando-nos a uma alucinante guerra de fantasmas. A cada ferido de emboscada ou de mina a mesma pergunta aflita me ocorria, a mim, filho da Mocidade Portuguesa, das Novidades e do Debate, sobrinho de catequistas e íntimo da Sagrada Família que nos visitava a domicílio numa redoma de vidro, empurrado para aquele espanto de pólvora numa imensa surpresa: sãos os guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, os Americanos, os Russos, os Chineses, o car… da pu… que os pariu combinados para no fod… os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou sem aviso neste cu de Judas de pó vermelho e de areia, a jogar às damas com o capitão idoso saído de sargento que cheirava a menopausa de escriturário resignado e sofria do azedume crónico da colite, quem me decifra o absurdo disto, as cartas que recebo e me falam de um mundo que a lonjura tornou estrangeiro e irreal, os calendários que risco de cruzes a contar os dias que me separam do regresso e apenas achando à minha frente um túnel infindável de meses, um escuro túnel de meses onde me precipito mugindo, boi ferido que não entende, que não entende, que não logra entender e acaba por enterrar o triste focinho molhado nos ossos de frango com esparguete do rancho, do mesmo modo, percebe, que aqui, na sua companhia, me sinto cavalo de narinas enfiadas na alcofa de vodka, mastigando o feno azedo do limão.
A seguir ao jantar os jeeps dos oficiais giravam de palhota em palhota hesitações de pirilampos: o amor barato e rápido em compartimentos abafados, aclarados por pavios indecisos de petróleo que coloriam as paredes de barro de uma ilusão de capelas. Chegava-se de bisnaga antivenérea no bolso e aplicava-se a pomada através da braguilha aberta à maneira de uma vulva de pano, sob o olhar indiferente de mulheres de dentes serrados em triângulo, acocoradas na cama no alheamento de perfil de certos retratos de Picasso, em cuja curva dos lábios flutuam Guernicas desdenhosas. No mesmo colchão dormiam, em regra, os filhos, as galinhas e algum antepassado decrépito perdido em pesadelos de múmia, rosnando os hieróglifos dos seus sonhos. O tenente fornicava de pala do boné para trás e pistola à cinta, com o impedido de espingarda em riste a vigiar as redondezas, o oficial de operações mandou vir uma máquina de costura do Luso e cozia bainhas de calça de madrugada ao lado de uma negra esplêndida, de enérgicos seios pendentes como os da loba de Roma, e o capitão das damas, instalado ao volante, pedia à raparigas impúberes que o masturbassem, oferecendo em troca cartuchinhos de rebuçados de hortelã-pimenta: o branco chegou com um chicote, cantava o milícia na viola, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT