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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Manhã Submersa. Vergílio Ferreira. «Apesar de tudo, com a segurança daquele moço a cobrir-nos de protecção, eu sentia-me quase bem. Esquecera a minha aldeia, a serra, o adeus do Calhau»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Nem por isso, todavia, sosseguei inteiramente. O desafio dos meus olhos era o medo de todo o meu corpo alerta, de um terror recurvo à escuta. (Falo agora à memória destes últimos vinte anos e pergunto-me que destino atravessou a minha vida além desse pavor, que outra voz mensageira lhe clamou ao futuro além da voz de uma noite sem fim). No grupo, o seminarista mais velho esmagava agora os caloiros com o terrorismo da sua experiência: vocês vão ver o senhor padre Lino a Latim. Cada erro nas declinações, quatro palmatoadas. Que são declinações?, perguntei. Você logo aprende. Só casos são seis. Que são casos? Você logo vê. Nominativo, genitivo, e por aí fora. Logo sabe o que é bom. Apesar de tudo, com a segurança daquele moço a cobrir-nos de protecção, eu sentia-me quase bem. Esquecera a minha aldeia, a serra, o adeus do Calhau. Abri o farnel e comi. Nunca mais na minha vida eu comi com tanto gosto, como se naquele desdobrar de notícias e paisagens novas tudo em mim estivesse comendo comigo. O meu corpo colava-se avidamente ao mundo novo, injectado de sangue ardente à mínima sensação. E assim, era como se eu estivesse nascendo outra vez... A certa altura, porém, quando já não pensava em reforços para as nossas hostes, entrou um destacamento de mais quatro fatos pretos. Todos crescidos. Um vendaval de clamores varreu a carruagem de lés-a-lés. Olhei os magalas e vi-os, já conformados, falando no limite da sua curta importância, apontando com o dedo ocasionais curiosidades da paisagem que rolava. Definitivamente, sentámo-nos para dominar à minha roda, cada um dos seminaristas tentava provar o interesse das suas férias. Passámos à identificação individual, para nos sentirmos, de uma vez para sempre, camaradas.
E você, como se chama?, perguntaram-me. António Santos Lopes. Um bafo maligno de vergonha subiu-me logo do ventre, no estúpido receio de que todos percebessem que este nome, só usado nas cerimónias da lei, me ficava largo como um fato de esmola. Mas eis que um seminarista dos mais antigos meteu subitamente um dedo à memória e varejou qualquer recordação esquecida: António Lopes? António Santos Lopes. Ergueu os braços triunfantes: então é o Borralho! Era. Era o Borralho. Não quis saber como é que a minha sorte me viera apanhar ao comboio, e sofri em silêncio. Durante os primeiros meses de seminário, a lei do meu nome clamou ainda contra a injúria. Inútil. A lei acabou por se dar por vencida e nas conversas clandestinas, quando me queriam ofender, fiquei Borralho por força. Decerto, esse nome não é de modo algum ofensivo, até porque é vulgar. Mas ofendia-me a mim, como dói a toda a gente o nome que lhe não pertence, como doeria a imposição de uma pessoa que se não é. Porque o nome também é a nossa pessoa.
Reparei então que um dos quatro da última leva mal abrira ainda a boca. Taciturno, como se remoesse o projecto de um crime, com dois chapéus na cabeça, o velho encaixado no novo para o poupar, ele olhava duramente e fixamente a ideia do seu rancor. De tez coriácea de um filho da gleba, as mãos grossas nos joelhos, rude, possante, pensava tenazmente, perdido de nós. Porque não falava? Ó Gama, tu não falas?, perguntou um dos mais velhos, pensando comigo. O Gama. Nunca mais o esqueceria desde essa manhã de 7 de Outubro, às dez horas, sexta-feira. E pela vida fora, sempre que penso no Seminário, ou sonho com ele (porque sonho muitas vezes), é a imagem do Gama que me enche o sonho e o pensar, para lhes dar algum sentido. Perdeste a fala?, insistia o outro. Gama não falava. Direito no encosto, tinha só aquela máscara valente de uma vingança reflectida. Por terem chegado a qualquer conclusão, habituados, decerto, a entenderem-se por sombras, alguns seminaristas entreolharam-se sabidamente, apertando os lábios na suspeita de qualquer mal irremediável». In Vergílio Ferreira, Manhã Submersa, 1954, Quetzal Editores, 2011, ISBN 978-972-564-740-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Manhã Submersa. Vergílio Ferreira. «Afinal chegámos meia hora antes do comboio. De modo que, aproveitando esse bónus de espera, Calhau e eu pusemo-nos a estudar as linhas, os vagões nos desvios, a engrenagem das agulhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar. Foi ele que me trouxe no carro de bois de dona Estefânia, em cuja casa, como se sabe, me talharam o destino. Minha mãe veio ainda à igreja, pela madrugada, ver-me partir; mas sentindo-me tão distante como se eu fosse preso, como se eu já pertencesse a um mundo que não era o seu, mal me falou. Por seu lado, dona Estefânia, defendendo a gravidade até ao último instante, olhando a minha mãe do alto das conveniências, disse-me brevemente que fosse na paz de Deus, e desapareceu. Sozinhos no carro, Calhau abismava-se no grande silêncio da manhã. Apenas de vez em quando, emergindo da solidão, mas fixo ainda na radiação de tudo, dizia coisas naturais da terra e das sementes, ou perguntava de novo a que horas era o comboio.
Às nove, respondia eu. Chegamos a tempo. E outra vez se calava, de capote às orelhas, sentado na borda do carro, com as pernas suspensas. Mas logo depois murmurava de novo: tens sorte. Olha eu que nunca pus os pés num comboio. Já o vi três vezes com esta. Mas nunca lá pus os pés. Tens sorte. A névoa da madrugada desprendia-se dos campos, ia envolvendo a montanha. Dobrado de frio, o queixo nos joelhos, a saca da roupa ao lado, eu sentia-me quase feliz, mas de uma estranha felicidade inquietante. Perturbavam-me de prazer a trepidação da partida, o halo da novidade e sobretudo o apelo intrínseco e doce de todas as pequenas coisas que ficavam mais perto de mim, como o fato novo, estreado esse dia, e o farnel da merenda para comer no comboio. Fechado nestas quimeras, eu calava-me também, como se com o silêncio me defendesse de tudo o que era ameaça à minha roda. Porque tudo para mim era estranho e ameaçador, desde a montanha imóvel na enorme manhã circular até ao espectro do Calhau e dos bois, tão insólitos na sua placidez inicial, como se viessem carregando o carro, submissamente, através de longos séculos...
Afinal chegámos meia hora antes do comboio. De modo que, aproveitando esse bónus de espera, Calhau e eu pusemo-nos a estudar as linhas, os vagões nos desvios, a engrenagem das agulhas. Como achava tudo aquilo maravilhoso, estranhei que o Calhau só três vezes tivesse visto o comboio. Há pior, disse-me ele, sossegado. Conheces a Felícia? Pois é mais velha do que eu e nunca o viu. E aqui tão perto!, admirei-me eu, condoído. Mas Calhau não se perturbou, convencido, decerto, de que isso de ver comboios não era assim muito importante para a vida. Um homem fardado veio à plataforma dar avisos de corneta, uma inquietação nova centrou a atenção de todos. E, bruscamente, entre dois grandes penhascos, o comboio rompeu enfim como um rancor subterrâneo, alucinado de ferros e fumarada. E tive medo. Pela primeira vez estremeci de medo até aos limites da vida, não tanto, porém, da fúria do comboio, como dessa coisa insondável e enorme, tão grande para mim, que era partir. E então desejei ardentemente, profundamente, ficar. Mas era tarde: tudo quanto eu tinha feito desde há meses, tudo quanto fizera dona Estefânia, conduzia justamente àquilo mesmo, partir. Por isso, apertado de amargura, ameaçado de lágrimas, fui-me deixando abraçar em silêncio pelo Calhau. Até que, por entre um furor de fardos e cabazes, lá rompi, de saca às costas, para a carruagem de terceira. Fechei a porta, apanhei ainda o último adeus do Calhau e sentei-me então para chorar quanto quisesse. Em verdade, eu não gostaria de chorar. Mas, espoliado abruptamente da minha infância, aturdido de solidão, sentia-me quase bem dentro do choro.
Inesperadamente, por entre a minha dor, eu descobria em mim o aceno de um passado. Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente. Logo encontras colegas, declarara dona Estefânia ao meu alarme. E, realmente, pouco depois, eu reparei que na carruagem já vinham dois fatos pretos. Batidos pelos olhos de toda a gente do comboio, logo nos unimos em defesa e tentámos confraternizar. Isso animou-me bastante. Mas quanto me custava suportar o olhar filado, os sorrisos malignos da matula da terceira, que se me cravavam nos flancos como dentes carniceiros. Até que um malandro, que vinha de púrria com seis magalas, decidiu morder de frente. E disse alto: padreca! Ó padreca!
Sofri. Olhámo-nos os três, congregando a coragem, mas logo vimos que não tínhamos que chegasse. E então odiei. Pela primeira vez na vida me cerrei dentro do meu ódio impotente e infeliz, e aprendi o sentido do desespero e da morte. Pela primeira vez eu medi a minha distância do mundo que me havia de ficar para sempre distante. Calados, destruídos de peste, para ali ficámos, sufocados de vergonha, pedindo paz com sorrisos corados para a matula carnívora, detestando-nos surdamente uns aos outros, como se cada um de nós fosse afinal o culpado...
Com a secreta esperança de que nas paragens do comboio nos surgissem reforços, eu ia pelas janelas esquadrinhar o movimento das estações. De facto, não me enganei. Em dada altura, por entre a barafunda de uma estação agitada, lá cacei um fato preto. Prà qui!, berrei. Prà qui! Mais um. Como era já aluno adiantado, trouxe-nos o conforto da sua experiência. Dissemos os nossos nomes, não perguntámos o dele, submissos e radiantes. Logo depois, num apeadeiro solitário, mais outro fato preto. Prà qui!, clamei de novo, mais forte. Cinco. Já não era mau. Mas eu não desistia de engrossar as nossas hostes e, de janela em janela, lá recrutei mais sete. Pude enfim descansar. Fitei, desassombrado, os galuchos, e pareceu-me então que eles cediam terreno por falarem já só com os olhos». In Vergílio Ferreira, Manhã Submersa, 1954, Quetzal Editores, 2011, ISBN 978-972-564-740-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Do Mundo Original. Ensaios. Vergílio Ferreira. «Porque uma condição geral para que a arte de hoje melhor vingue é precisamente a de que ela “negue”. De um modo geral, digo eu, porque a arte, que “afirma”, podendo ser muito mais bela»

jdact e wikipedia

O Sim e o Não
«Ao contrário do que diz Vieira, o non não é terrível. É uma palavra inteira, acabada, Por qualquer lado que se tome. Mais brilhante que a afirmação é sempre a negação. Porque a negação ê a afirmação que pára no limite dos riscos. Quem nega, afirma um critério, mas não se responsabiliza pela reconstituição do que esse mesmo critério destruiu. Sim, a negação é sempre mais brilhante que a afirmação. Porque quem apenas nega tem na sua mão a possibilidade de todas as soluções positivas, inclusive, portanto, a de quem, além de negar, afirma. Se eu digo apenas que este livro é mau, que este quadro falhou, que determinada instituição social é um erro, e tenho razão (que a tenho quase sempre, porque nada é perfeito), consegui isso mesmo: ter apenas razão. Nem uma sombra corrói o juízo que emiti. Quem me ouve, pode suprir à vontade o que lhe falta de positivo. Se digo que o quadro é mau pela cor, todas as hipóteses de boa qualidade e harmonia de cores ficam ao meu alcance. Mas se eu, além de negar, afirmar, escolher, dentre as mil hipóteses de afirmação, uma só, expor-me-ei imediatamente à contradita de alguém. Negar é ter tudo o que se não afirmou. Afirmar é ter só o que se escolheu com a afirmação. À primeira vista, parecerá estranho que a negação seduza mais que a afirmação. E admitir-se-á que ao leitor ou ouvinte do que nega, bastaria um nada de imaginação para descobrir o logro.
Mas não é imaginação que lhe falta: falta-lhe é justiça. É isto particularmente visível no êxito do cómico. Porque uma das bases desse êxito, talvez, a mais segura, é a fuga às responsabilidades, mediante a lisonja do leitor. Quem ri, nega. A afirmação no cómico é sempre, intrinsecamente, uma negação. Descobrir que a negação é muitas vezes um suborno, é difícil, precisamente, porque o cultor do cómico nos ajuda a rir dos outos, ou da vida, que é um prazer pelo qual pagamos qualquer preço, mesmo o de sermos logrados. Sem dúvida, rir dos outros é muitas vezes justo. A mesquinhez do que se combate nem sempre merece a honra da seriedade. Mas o processo é o mesmo que nos serve para rirmos com injustiça. Diremos que, em si mesmo, o processo é injusto, até na medida em que lisonjeia a vaidade pessoal do leitor, que por isso mesmo é levado a julgar os outros inferiores a si próprio, quando nem sempre terá razão para isso.
Mas o que, sob certos aspectos, é estritamente uma injustiça, orgulho, talvez deslealdade (que o é só, quando o ataque é menos justo), vem a ligar-se, no campo geral da arte, a uma necessidade humana, a uma exigência dessa mesma arte. Porque uma condição geral para que a arte de hoje melhor vingue é precisamente a de que ela negue. De um modo geral, digo eu, porque a arte, que afirma, podendo ser muito mais bela, é, sem dúvida, muito menos exequível. E só por isso, porque é difícil, toda a arte comprometida com um sistema doutrinário é, na sua maior parte, inferior. Poder-se-á talvez descobrir, da parte do espectador, na custosa aceitação da arte afirmativa, uma razão de orgulho ou de vaidade (que é sempre, intrinsecamente, um orgulho menor). Porque tal aceitação assenta, basicamente, na exigência do espectador de ser ele a decidir. Se se propõe um romance à apreciação do leitor, é necessário que a história nele incluída o convença. O romance tem de ser uma história verosímil (como sempre teve, aliás, conquanto as exigências da verosimilhança não sejam hoje o que foram ontem). Mas o ser uma história verosímil, implica o estar o leitor à vontade, para que ele decida se é autêntica ou não. Se a história não é autêntica, é que o autor pretende violentar o leitor, impondo-lha. Dando-se logo conta disso, o leitor protesta, não acreditando». In Vergílio Ferreira, Do Mundo Original, Ensaios, Livraria Bertrand, Lisboa, 1979.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sábado, 18 de janeiro de 2014

Conhecimento. O Saber Ouvir. O Povo Canta. O Desejo do Basta. «Original é o poeta de origem clara e comum que sendo de toda a parte não é de lugar algum. O que gera a própria arte na força de ser só um por todos a quem a sorte faz devorar em jejum. Original é o poeta que de todos for só um»

jdact

Não Penses
Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de pare, escute, olhe com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio.

«Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.


Uma Significação para a Vida
Como é que o homem vai viver sem uma significação para a vida? Donde essa significação? Os sucedâneos dos deuses atropelam-se tumultuosos, mas duram menos que os deuses, duram menos que um homem. Imaginei um dia que o homem viria a aceitar a sua condição em plenitude. Só não imagino esse homem. Porque imaginando-o como me é possível, penso que admitirá uma transcendência inominável, uma dimensão que supere o imediato da vida. Só que o pensá-lo não me afecta o sentir. Tenho o enigma mas não a chave que o desvende. Sei a interrogação, mas não posso convertê-la na pergunta a que se dá uma resposta. Da integração do homem no mistério do universo o que me fica é a vertigem. Mas aguento-me aí sem me retirar do abismo nem cair nele. O curioso é que são os racionalistas quem menos se perturba com a sem-razão de tudo isto. Porque eles é que deviam saber, mais do que os outros, o porquê e o para quê. Não querem. O mundo existe-lhes assim mesmo, sem significação. Para mim me existe também. Mas isso aturde-me. A velhice que se anuncia, anuncia-me a aceitação e a serenidade. Mas não me anuncia a liquidação do problema. Respiro mais calmo diante do irritante mistério. Mas estar calmo não é anular o que me intriga, ou o seu terror: é só anular-lhe o efeito sobre nós. Os imbecis ou os inocentes é que os ignoram. A expressão final do homem de hoje é o heroísmo. Porque tudo tende a esmagá-lo de todo o lado. Mas ser herói é ser consciente. E aguentar, com um mínimo de pulsações por minuto. Referi-me um dia a um indivíduo condenado à guilhotina e a quem um amigo dizia: fatiga o teu medo. Não fatiguei ainda a minha inquietação. Mas fatigá-la é só o que tenho para a anular.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos    quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer».


A Verdade é um Modo de Estarmos a Bem Connosco
Cada época, como cada idade da vida, tem o seu secreto e indizível e injustificável sentido de equilíbrio. Por ele sabemos o que está certo e errado, sensato e ridículo. E isto não é só visível no que é produto da emotividade. É visível mesmo na manifestação mais neutral como uma notícia ou um anúncio de jornal. Donde nasce esse equilíbrio? Que é que o constitui? O destrói? Porque é que se não rebentava a rir com os anúncios de há cento e tal anos? (Rebentámos nós, aqui há uns meses, em casa dos Paixões, ao ler um jornal de 186...). Mas a razão deve ser a mesma por que se não rebentou a rir com a moda que há anos usámos, os livros ridículos que nos entusiasmaram, as anedotas com que rimos e de que devíamos apenas rir. O homem é, no corpo como no espírito, um equilíbrio de tensões. Só que as do espírito, mais do que as do corpo, se reorganizam com mais frequência. Equilibrado o espírito, mete-se-lhe uma ideia nova. Se não é expulsa, há nela a verdade. Porque a verdade é isso: a inclusão de seja o que for no nosso mecanismo sem que lhe rebente as estruturas. Ou: a coerência de seja o que for com o nosso equilíbrio espiritual. A verdade é um modo de estarmos a bem connosco. Mas é um mistério saber o que nos põe a bem ou a mal. Os anúncios de há cem anos eram ridículos porque sim. Nos meus escritos de há anos, mesmo nos ensaios, aquilo de que me separo não são muitas vezes as ideias, a argumentação, mas um certo modo de se olhar para os argumentos, os problemas, um certo nível humano de encarar as coisas. Leio um ensaio de há vinte anos e sinto que eu tinha menos vinte anos. Há um nível etário para a mesma verdade nos existir. A verdade de que falei há vinte anos é-me exactamente a de hoje; e todavia há um desfasamento no modo como corri para ela e me entusiasmei com ela e me comovi com ela. Tudo agora me acontece ainda mas num registo diferente. Não é em si que as verdades envelhecem: é com as rugas que temos no rosto e na alma.

In Vergílio Ferreira, ‘Conta-Corrente 2’

JDACT

domingo, 19 de maio de 2013

Clarice Lispector e Vergílio Ferreira. A existência problematizada. Evely Vânia Libanori. «O tempo cronológico pelo qual o indivíduo coordena as actividades diárias, em ambos os romances, dá vez às sensações subjectivas (…). É na própria acção que o homem constrói um perfil e se expõe às pessoas. É necessário partir das coisas para entender o ser»

jdact

Introdução
«A obra da escritora brasileira Clarice Lispector (1925-1977) e a produção literária do escritor português Vergílio Ferreira (1916-1996), iniciada a partir da publicação do romance Mudança, em 1969, apresentam semelhanças no que diz respeito tanto à exposição dos temas quanto ao processo de construção textual. As obras desses escritores são marcadas pela análise introspectiva, por isso prevalecem a constatação sobre a vida em curso, o sentimento de solidão existencial e o questionamento sobre a morte. O presente artigo consiste na exposição da trajetória existencial de Lóri em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Lispector, e Alberto Soares em Aparição, de Vergílio Ferreira. Para tanto, nosso suporte teórico principal será o tratado filosófico Ser e tempo, de Martin Heidegger. Segundo Heidegger, só é possível entender a natureza humana em seu incessante movimento de interacção consigo mesma, com outras pessoas e com os objectos ao seu redor. Assim sendo, é necessário delinear a identidade do homem que rompe as vinculações fáticas com os objectos e seres ao redor e se vê como o fundador de si e do mundo.
Tal exposição permitirá a investigação da própria natureza do ser em suas relações consigo e com o outro, com o espaço à sua volta e com a morte. Nesses romances, as personagens principais são indivíduos que se vêm na difícil condição de construtores de si mesmos. Trata-se de personagens que transcendem as circunstâncias mundanais fora de si e olham para suas próprias possibilidades ontológicas; por isso, encontram-se eminentemente vigilantes e presentes ao mundo. Para essas personagens, a realidade imediata interessa à medida que provoca reflexões na consciência individual, pois só importam os seres e objectos relacionados com o destino humano. Assim, os cenários externos não se constituem apenas o lugar das acções humanas, mas o ambiente que reflecte a agitação interna do homem que se sente existencialmente perdido e não vê, no mundo ao redor, um espaço onde possa aplacar o tormento. O tempo cronológico pelo qual o indivíduo coordena suas actividades diárias, em ambos os romances, dá vez às sensações subjectivas que não coincidem com os padrões de medição cronológica. Uma vez que a marcação temporal do processo fabular não pode mais ser imposta sobre o amorfo da vida, é necessário delinear a identidade do homem que rompe as vinculações fáticas com os objectos e seres ao redor e se vê como o fundador de si e do mundo.
É na própria acção que o homem constrói um perfil e se expõe às pessoas. Portanto, é necessário partir das coisas como se apresentam para entender o ser. Na verdade, o ser não é passível de definição e também não se deixa determinar em seu sentido por outra coisa, nem como outra coisa. A sucessão temporal significa o incessante devenir em que o ser se encontra e, por isso, não se deixa apanhar em um estado definitivo. A definição do ser revela-se fugidia também porque o ser dos entes não pode constituir-se por outro ente.
No entanto, Heidegger esclarece que a impossibilidade de se definir o ser não dispensa a questão de seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige. A impossibilidade de definição do ser implica o movimento contínuo de dar forma e sentido às coisas e impõe a necessidade de flagrar o ser como acto e não como coisa formada. As personagens principais de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Lispector, e Aparição, de Ferreira, rompem a crosta daquilo que, em sentido lato, pode-se denominar hábitos sociais, ou seja, um conjunto de formas habituais de comportamento e de compreensão da existência. De facto, em grande medida, o homem recebe a vida feita, pois o eu social é um princípio anónimo e objectivo, uma estrutura à qual o indivíduo deve se adequar para inserção em determinado grupo. A consciência de existir é rara.
A massa dos homens comuns concentra-se nos objectos externos e posições sociais para, assim, condicionar sua felicidade. Na vida quotidiana, as pessoas esquivam-se de reflectir acerca da própria condição de ser-no-mundo, a fim de se concentrar na existência das coisas, o que implica a cristalização do ser num contorno existencial definido. No entanto, num sentido ontológico, o homem é a proposição de suas escolhas e tudo quanto ofusque o sentido dessa lei fundamental resulta no falseamento e na ocultação do ser. Uma vez que a liberdade é parte constituinte da existência humana, o homem não pode ter um ser fixo e terminado, pois, como afirma Heidegger, o ser não pode ser determinado, acrescentando-lhe um ente.. Não existe um modelo de homem, pois o ser é um projecto sempre incompleto de suas possibilidades.
Independentemente de suas acções e de sua idade, o homem morrerá inacabado porque jamais poderá transformar-se num ente; somente transcendendo em direção às suas próprias possibilidades é que o homem desperta para aquilo que o rodeia e transforma a sua circunstância em matéria de seu destino. O envolvimento amoroso presente nos dois romances constitui uma leve trama de acção romanesca que é secundária como interesse. A experiência amorosa de Lóri e Ulisses, no romance de Lispector, bem como os desentendimentos afectivos entre Alberto e Sofia, no romance de Ferreira, serve como fio condutor das reflexões das personagens acerca de si, do outro, da dificuldade de comunicação. Os autores levam a língua portuguesa a domínios pouco explorados. A minúcia na descrição de múltiplas experiências psíquicas é expressa por meio de comparações inusitadas, sinestesias, paradoxos». Wikipédia. In Evely Vânia Libanori, Clarice Lispector e Vergílio Ferreira, A existência problematizada, Acta Scientiarum. Language and Culture, volume 32, Universidade Estadual de Maringá, 2010.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Bela Poesia: Alves Redol. Vergílio Ferreira. Fernando Namora. «Não m'importo ser soldado, contando que o batalhão..., de me estar tudo a contento, em todo o meu pensamento... Homem, até o barro tem poesia! Olha as coisas com humildade»

Cortesia de fabiomozart

Quadras
Se me vires de pau e manta,
não cuides que sou pastor:
sou da vila de Samora,
das Lezirias guardador.
(Samora Correia)

Não m'importo ser soldado,
contando que o batalhão
traga sempre na bandeira
bordado o teu coração.
(Benavente)

O meu amor disse à mãe
que me havia de deixar.
Agora deixo-o eu;
tome lá, vá-se gabar!
(Samora Correia)
Alves Redol
 
Que Há para Lá do Sonhar?
Céu baixo, grosso, cinzento
e uma luz vaga pelo ar
chama-me ao gosto de estar
reduzido ao fermento
do que em mim a levedar
é este estranho tormento
de me estar tudo a contento,
em todo o meu pensamento
ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar?
Vergílio Ferreira
 
Coisas, Pequenas Coisas
Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
Fernando Namora

JDACT

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Vergílio Ferreira: «Porque era já no passado o presente dessa hora, e que me ressoa agora a um outro mais alongado»

Cortesia de corcoise

Que Há para Lá do Sonhar?
Céu baixo, grosso, cinzento
e uma luz vaga pelo ar
chama-me ao gosto de estar
reduzido ao fermento
do que em mim a levedar
é este estranho tormento
de me estar tudo a contento,
em todo o meu pensamento
ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar?
Vergílio Ferreira

Cai a Chuva Abandonada
Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.
Vergílio Ferreira

JDACT

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Vergílio Ferreira: Aparição. O discurso da solidão está sempre patente na sua obra, como aspecto mais profundo da condição humana. O silêncio. Qualquer que seja a problemática tratada, Vergílio Ferreira parte da reflexão sobre a questão do «eu» quase sempre no sentido do «homem» ao Homem

(1916-1996)
Melo, Gouveia
Cortesia de portliteratura

Vergílio António Ferreira foi um escritor português. Embora formado como professor foi como escritor que mais se distinguiu. O seu nome continua actualmente associado à literatura através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira. Em 1992, foi galardoado com o Prémio Camões.
A sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois períodos literários: o Neo-realismo e o Existencialismo. Considera-se que «Mudança» é a obra que marca a transição entre os dois períodos.


Cortesia de daliedaqui
Obras
Ficção
  • 1943 O Caminho fica Longe;
  • 1944 Onde Tudo foi Morrendo;
  • 1946 Vagão "J";
  • 1949 Mudança;
  • 1953 A Face Sangrenta;
  • 1953 Manhã Submersa;
  • ( ... )
  • 1959 Aparição;
  • 1960 Cântico Final;
  • 1962 Estrela Polar;
  • 1963 Apelo da Noite;
  • 1965 Alegria Breve;
  • 1971 Nitido Nulo;
  • ( ... )
  • 1987 Até ao Fim;
  • 1990 Em Nome da Terra;
  • 1993 Na Tua Face;
  • 1996 Cartas a Sandra;
  • 1976 A Palavra Mágica (publicada em separado, no entanto faz parte do livro Contos).
Ensaios
  • 1943 Sobre o Humorismo de Eça de Queirós,
  • 1957 Do Mundo Original;
  • 1958 Carta ao Futuro;
  • 1963 Da Fenomenologia a Sartre;
  • ( ... )
  • 1976 Espaço do Invisivel II;
  • 1977 Espaço do Invisivel III;
  • 1981 Um Escritor Apresenta-se;
  • 1987 Espaço do Invisivel IV;
  • 1988 Arte Tempo.
Diários
  • 1980 Conta-Corrente I;
  • 1981 Conta-Corrente II;
  • 1983 Conta-Corrente III;
  • ( ... )
  • 1993 Conta-Corrente-nova série II;
  • 1994 Conta-Corrente-nova série III;
  • 1994 Conta-Corrente-nova série IV.
 
Cortesia de wook
Aparição
«Sento-me nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. (...)». «Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objectos inertes, dominados, todos revelados às minhas mãos (...)». In Aparição.

Opinião:
«Uma autêntica epopeia que aborda frontalmente e sem rodeios a complexa temática dos insondáveis caminhos que tomamos para nos conhecermos a nós próprios ou resolvermos as nossas dúvidas existenciais, «Aparição» é um romance que deslumbra pela obstinada busca de Alberto Soares, o narrador, que na sua evidência quase divina do mistério da vida (na revelação instantânea de si a si próprio) que entende traduzível numa explicação nunca completamente encontrada das razões e sentido da existência do Homem, inquieta tudo e todos na pacata cidade de Évora, onde, destacado para dar aulas no Liceu, conhece a família dos Noronhas e as três irmãs, Ana, Sofia e Cristina, a quem vai afectar de forma dramática ou involuntária os seus destinos. Gerador de conflitos apesar da sua conduta tímida e discreta, as questões existenciais de Alberto acabam sempre por vir ao de cima e aos poucos azedam todas as relações criadas por este, possuidor de um passado onde desde tenra infância se inquietou com o mistério da existência, e, sempre renegando todos os caminhos facilitadores do espírito, tais como dogmas, doutrinas e religiões, Alberto distancia-se de tudo e de todos na incompreensão hostil que lhe é movimentada.

Évora
Cortesia de daliedaqui
Entre uma Sofia que partilha dos seus pensamentos mas que radicaliza a sua existência por, tal como Alberto, só lhe fazer sentido viver o presente, e então vive-o de uma forma cruel para todos os outros com consequências trágicas devida à forma como brinca com os sentimentos dos outros; uma Ana que é atraída pelo pensamento de Alberto mas que lhe move uma resistência tenaz, até se deixar cair na religião como tábua de salvação; uma Cristina que representa o ideal de pureza e cuja presença roça o divino na forma como se dedica à música, inspirador de Alberto na sua busca existencial - um trio de destinos que se vai resolver no choque de personalidades e ideias com Alfredo, marido de Ana e defensor de uma atitude simplista de viver e deixar viver, Chico, secreto apaixonado de Ana e opositor acérimo de Alberto na sua complicada visão da vida, Carolino, ingénuo rapaz que se deixa cair nas malhas das ideias de Sofia e Alberto num triângulo amoroso de contornos muito perigosos.

Cortesia de companhiadeideias
Diálogos e desenlaces curiosos em torno das opções espirituais de vida de cada um tornam este romance extremamente interessante embora um pouco denso. Directo e abrupto no desenlace da narrativa, a grandes reflexões ou discussões seguem-se radicais acções, colocando a nú a inquietude de cada um e a forma como se protege ou ataca nos seus medos, e a orientação final que encontra para se cumprir a si próprio no sentido que encontra para a sua vida ou para a justificação da sua existência. Cada homem é único e cada um tem a sua verdade. Bem ou mal, de forma violenta ou pacata, cada um encontra ou termina o seu caminho, com soluções diversas revelando cada uma um tipo de sabedoria que nem sempre Alberto compreende mas que sente terem o seu fundo de consistência, consistência essa da qual Alberto encontra muitos lampejos que se intersectam com a sua procura, sôfrega e nunca resolvida até ao fim dos seus dias, não obstante a evidência que sente de si próprio - sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim - e que o reconhecimento da morte ajuda a perceber o que de extraordinário se perde».  In O Citador.

Disse Vergílio Ferreira: «O que pretendi em Aparição foi a necessidade, para uma realização total do homem, de ele se redescobrir a si próprio, não nos limites de uma estreita individualização, mas no da sua condição humana».

Cortesia de profviseu 

Cortesia de O Citador/JDACT

domingo, 5 de setembro de 2010

Vergílio Ferreira: «Um autor fixa um tema. Mas esse tema, revelando, como revela, um interesse, revela sobretudo que foi só em torno dele que o artista pôde realizar-se como tal»

Cortesia de silencio

Veio Ter Comigo Hoje a Poesia
Veio ter comigo hoje a poesia.
Há quantos anos? Desde a juventude.
Veio num raio de sol, num murmúrio de vento.
E a ilusão que me trouxe de uma antiga alegria
reinventou-me a antiga plenitude
que já não invento.

Fazia-lhe outrora poemas verdadeiros
em fornicações rápidas de galo.
Hoje não sou eu nunca por inteiro
e há sempre no que faço um intervalo.

Estamos ambos tão velhos — que vens fazer?
— a cama entre nós da nossa antiga função.
Nublado o olhar só de a ver.
E tomo-lhe em silêncio a mão.
Vergílio Ferreira, in «Conta-Corrente 1»


Joga Todo o Teu Ser na Breve Ideia
Joga todo o teu ser na breve ideia
que incerta entre o corrente te procura
pra lá do que banal te prende e enleia
e pelo destacá-la emerge pura.

Fazê-lo é dar-lhe já o que perdura.
Porque a banalidade que a medeia
como à pedra vulgar por entre a areia
esquece o que em tomá-la a rareia.

Ser homem é escolher o que o oriente
e ser-lhe o mais a margem que lhe mente.
Vergílio Ferreira, in «Conta-Corrente 1»

Cortesia de O Citador/JDACT

terça-feira, 18 de maio de 2010

O Pensamento e as Interpretações: Parte I. De quem olha ou mesmo espreita de forma criticamente curiosa

Paulo Freire
Cortesia de talbot.edu
Frequentemente encontra-se em Paulo Freire o termo pensar certo. O pensar certo que emana uma estratégia crítica de pensamento, um pensamento autónomo, livre, e consciente, «como manifestação presente à experiência vital». A curiosidade humana vem sendo histórica e socialmente construída e reconstruída. Precisamente porque a promoção da ingenuidade para a criticidade não se dá automaticamente, uma das tarefas precípuas da prática educativo-progressista é exactamente o desenvolvimento da curiosidade crítica, insatisfeita, indócil. Curiosidade com que nos podemos defender de «irracionalismos» decorrentes do ou produzidos por certo excesso de «racionalidade» de nosso tempo altamente tecnologizado. E não vai nesta consideração nenhuma arrancada falsamente humanista de negação da tecnologia e da ciência. Pelo contrário é consideração de quem, de um lado, não diviniza a tecnologia, mas, de outro, não a diaboliza. De quem a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa. In Paulo Freire; Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à pratica educativa- São Paulo : Paz e Terra, 1996.
Com a devida vénia ao CITADOR (http://www.citador.pt) apresento algumas interpretações do pensamento:
Cortesia de corcoise
A Verdade é um Modo de Estarmos a Bem Connosco.
Cada época, como cada idade da vida, tem o seu secreto e indizível e injustificável sentido de equilíbrio. Por ele sabemos o que está certo e errado, sensato e ridículo. E isto não é só visível no que é produto da emotividade. É visível mesmo na manifestação mais neutral como uma notícia ou um anúncio de jornal. Donde nasce esse equilíbrio? Que é que o constitui? O destrói? Porque é que se não rebentava a rir com os anúncios de há cento e tal anos? (Rebentámos nós, aqui há uns meses, em casa dos Paixões, ao ler um jornal de 186...). Mas a razão deve ser a mesma por que se não rebentou a rir com a moda que há anos usámos, os livros ridículos que nos entusiasmaram, as anedotas com que rimos e de que devíamos apenas rir. O homem é, no corpo como no espírito, um equilíbrio de tensões. Só que as do espírito, mais do que as do corpo, se reorganizam com mais frequência. Equilibrado o espírito, mete-se-lhe uma ideia nova. Se não é expulsa, há nela a verdade. Porque a verdade é isso: a inclusão de seja o que for no nosso mecanismo sem que lhe rebente as estruturas. Ou: a coerência de seja o que for com o nosso equilíbrio espiritual. A verdade é um modo de estarmos a bem connosco. Mas é um mistério saber o que nos põe a bem ou a mal. Os anúncios de há cem anos eram ridículos porque sim. Nos meus escritos de há anos, mesmo nos ensaios, aquilo de que me separo não são muitas vezes as ideias, a argumentação, mas um certo modo de se olhar para os argumentos, os problemas, um certo nível humano de encarar as coisas. Leio um ensaio de há vinte anos e sinto que eu tinha menos vinte anos. Há um nível etário para a mesma verdade nos existir. A verdade de que falei há vinte anos é-me exactamente a de hoje; e todavia há um desfasamento no modo como corri para ela e me entusiasmei com ela e me comovi com ela. Tudo agora me acontece ainda mas num registo diferente. Não é em si que as verdades envelhecem: é com as rugas que temos no rosto e na alma. In Vergílio Ferreira, «Conta-Corrente 2»

Cortesia de 1st-art-gallery
As Artes e as Ciências Nasceram dos Vícios.
A astronomia nasceu da superstição; a retórica, da ambição, do ódio, da adulação, da mentira; a geometria, da ganância; a física, da curiosidade vã; e todas elas, mesmo a ética, do orgulho humano. As artes e as ciências devem portanto o seu nascimento aos nossos vícios, e nós deveríamos duvidar menos das suas vantagens se elas tivessem tido origem nas nossas virtudes. (...) Quantos perigos! Quantos caminhos equivocados na investigação das ciências? Por meio de quantos erros, milhares de vezes mais perigosos do que a verdade é útil, não é preciso abrir caminho a fim de alcançá-la? O problema é patente; pois a falsidade admite um número infinito de combinações; mas a verdade possui apenas um modo de ser. In Jean-Jacques Rousseau, «Discurso sobre as Ciências e as Artes»

Cortesia de pbase
Toda a Sociedade Está Dentro de Mim
Fazer qualquer coisa ao contrário do que todos fazem é quase tão mau como fazer qualquer coisa porque todos a fazem. Mostra uma igual preocupação com os outros, uma igual consulta da opinião deles - característica certa da inferioridade absoluta. Abomino por isso a gente como Oscar Wilde e outros que se preocupam com seres imorais ou infames, e com o impingir paradoxos e opiniões delirantes. Nenhum homem superior desce até dar à opinião alheia tal importância que se preocupe em contradizê-la.
Para o homem superior não há outros. Ele é o outro de si próprio. Se quer imitar alguém, é a si próprio que procura imitar. Se quer contradizer alguém, é a si mesmo que busca contradizer. Procura ferir-se, a si próprio, no que de mais íntimo tem... faz partidas às suas próprias opiniões, tem longas conversas cheias de desprezo e com as sensações que sente. Todo o homem que há sou Eu. Toda a sociedade está dentro de mim. Eu sou os meus melhores amigos e os meus verdadeiros inimigos. O resto - o que está lá fora - desde as planícies e os montes até às gentes - tudo isso não é senão paisagem... In Fernando Pessoa, «Reflexões Pessoais».
Cortesia do Citador/JDACT