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terça-feira, 3 de maio de 2011

Oliveira Martins. História da República Romana. A Lenda dos Reis: Parte I. «Daí, Ascânio, trinta anos depois da fundação de Lavínio, funda Alba-Longa, onde a dinastia troiana reina por espaço de três séculos. Sucedeu então que, reinando o rei Númitor, seu irmão Amúlio o derrubou do trono»

Cortesia de abaciente


A Lenda dos Reis
«Rezava assim a tradição:
Primeiramente veio Hércules e matou Caco, o filho de Vulcano, no seu antro do Aventino, onde jazia vomitando chamas:
  • Em memória da façanha levantou Hércules em Roma a Ara maxima,
  • obra que o povo lhe atribuía ainda no tempo de Virgílio, de Juvenal e de Ovídio.
Depois deu-se o caso de Evandro, sessenta anos antes da guerra de Tróia. Evandro era um rei grego, filho de Hermes e duma ninfa da Arcádia, por nome Carmenta ou Tiburtis. Partiu de Palâncio, na Arcádia, com uma colónia que veio assentar na margem do Tibre, ao pé do Monte Palatino, dando à nova cidade o mesmo nome da metrópole donde se destacara. Ensinou aos vizinhos as artes e as leis, ensinou-lhes nomeadamente o alfabeto, e introduziu os cultos helénicos de Pã, de Demeter (Ceres), de Poseidon (Neptuno) e de Heracles (Hércules).
Segue-se a história de Eneias, o troiano refugiado na Itália depois da queda da sua pátria.

Eneias abandona Tróia
Cortesia de wikipedia
Era filho de Anquises e de Afrodite (Vénus) e dele diziam descender os Júlios de Alba depois nacionalizados romanos. Eneias reuniu no Monte Ida os destroços dos troianos e veio em vinte navios para a Itália. Seu pai Anquises morre na Sicília; e Eneias desembarca no Lácio, onde o rei Laurente, que reina sobre os latinos, recebe amoravelmente, dando-lhe terra para uma cidade e a mão de sua filha Lavínia. Mas a rainha Amata, que viu isto com maus olhos, excitou Turno, rei dos rútulos, noivo afiançado antes a Lavínia, a levantar-se em armas contra o rival e intruso. O rei de Cera, Mezêncio, e muitos outros reis abraçaram a causa de Turno contra Eneias, que tinha por si Evandro. Batalharam todos muito, e por fim Eneias matou Turno. Esta é a lenda histórica como a contam, pouco mais ou menos, Virgílio, Tito Lívio e Ovídio.

Roma na sua fundação
Cortesia de wikipedia
Não acabaram aqui os trabalhos do herói, que afinal se some, como mais tarde Rómulo, no meio de uma escuridão de trevas, entre relâmpagos, e trovões, enquanto os latinos ferem uma batalha nas margens do rio Numício. Aparece depois de morto, armado em guerra, a seu filho Ascânio, anunciando-lhe ser deus e estar no Olimpo. Daí ficou sendo um Júpiter (Jup. indiges) e levantaram-lhe um altar no lugar da batalha, com outra a Latino, igualmente Júpiter.
Daí, Ascânio, trinta anos depois da fundação de Lavínio, funda Alba-Longa, onde a dinastia troiana reina por espaço de três séculos. Sucedeu então que, reinando o rei Númitor, seu irmão Amúlio o derrubou do trono. Tinha o rei destronado uma filha, Reia Sílvia, que professara no culto das vestais proferindo voto de castidade isso não impediu porém que o deus Marte lhe fizesse dois gémeos: Rómulo e Remo, os quais o rei usurpador, seu tio, sem atenção à origem divina dos recém-nascidos, mandou deitar ao Tibre».  In Oliveira Martins, História da República Romana, Guimarães Editores, 7ª edição 1987, depósito legal nº 18351/87.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

sexta-feira, 22 de abril de 2011

História da República Romana: Oliveira Martins. Conquista de Etrúria. «Pelo cabo Peloron, através dum estreito brevíssimo, passa-se para a península itálica, para o Brúcio antigo; mas ao entrar na Itália peninsular austral dir-se-ia que não se mudou de terra, nem de nação. O solo é o mesmo, os habitantes são também gregos, jónios, dóricos, eólios»

Roma durante a República
Cortesia de wikipedia

No centro do Mediterrâneo, a distância igual das costas da Ásia Menor e das colunas de Hércules, está a Sicília, a que os gregos chamavam Trinácria, da sua forma triangular inscrita entre o promontório do Peloron (c. di Faro) que a prende quase à extremidade, da península italiana, o de Pachynon (c. Passero) na costa oriental, e, o Lilybeu (c. Boeo) voltado para a península cartaginesa em África.

A Sicília, transição do mundo africano para o europeu, era durante as primeiras épocas romanas o teatro das famosas colónias gregas, Agrigento com mais de duzentos mil habitantes, Selinonte, Siracusa, que arma cem mil soldados, e um sem-número de cidades magníficas, livres e federadas, bordando as costas insulares feracíssimas. A ilha é o estrado montuoso dum gigante, o Etna, que levanta da sua base de duzentos e cinquenta quilómetros quadrados, a uma altura de três mil metros. O penacho de fumo negro duma dessas chaminés das fornalhas da terra, às vezes iluminado pelos clarões rubros de línguas de fogo.

Cortesia de wikipedia
Pelo cabo Peloron, através dum estreito brevíssimo, passa-se para a península itálica, para o Brúcio antigo; mas ao entrar na Itália peninsular austral dir-se-ia que não se mudou de terra, nem de nação. O solo é o mesmo, os habitantes são também gregos, jónios, dóricos, eólios. É uma região de montanhas agrestes onde a natureza atinge o colossal: um castanheiro cobre cem cavalos e o aloés de África sobe a dezoito ou vinte metros, coroado pelas suas plumas vermelhas que rutilam no céu como além fulgem as chamas na cratera do vulcão. No planalto em que as montanhas acabam ao centro está Consência (Cosenza), a capital dos brúcios indígenas, e as cidades coloniais gregas estendem-se pelas costas, ancoradas sobre os dois mares:
  • o Tirreno de oeste,
  • o Jónio de leste.
Entre elas vê-se Sybaris, que armou trezentos mil homens contra Croton (Crotone) e que os crotonenses arrasaram em 244, um ano antes da instituição da república romana, fundando no seu lugar Thurri em 311. Era terrível a existência dessas Tiros ou Babilónias do Ocidente, cidades expostas às comoções igualmente destruidoras dos terramotos e das revoluções.

Cortesia de wikipedia
Aí a demagogia soltava-se em ondas de lava como a dos vulcões, arrastando consigo em turbilhão as cinzas e o fumo acre das tiranias devastadoras. Quando os crotonenses arrasaram Sybaris, para que nem sequer o lugar da cidade restasse, introduziram nele as águas de duas torrentes… Locri fora uma colónia eólia, e Régio, que dá o nome ao estreito, honrava-se de ser o mais antigo estabelecimento dos jónios de Chalcis na Magna Grécia.

Subindo, do lado do mar Tirreno ou inferior, fica a Lucânia; do Adriático ou superior, a Messápia (Calábria) e a Apúlia, tendo nas encostas litorais adriáticas as tribos ilírias dos iapules helenizados que recebem a cultura e o tom de Tarento assente sobre o seu golfo. Do lado oposto, na entrecosta, está Brundísio, que os gregos diziam Brentesion (Brindisi), o porto por onde mais tarde os, romanos, efectuada a unificação da Itália, realizaram as suas relações com a Ásia e com o Egipto e a Síria. A Lucânia tem sobre o mar ocidental Poesto, e, sobre o golfo de Tarento, Metaponto e Heraclea. As colónias gregas que bordam as costas da Itália Austral ainda vão mais acima, sobre o Tirreno, pela Campânia, com Salerno e Neápolis (Nápoles) até Cumas, guardando o golfo Cumano que o Vesúvio domina». In Oliveira Martins, História da República Romana, Guimarães Editores, 7ª edição 1987, depósito legal nº 18351/87.

Cortesia Guimarães Editores/JDACT