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quarta-feira, 27 de maio de 2020

O Manuscrito Alfield. Manuscrito de 1516. Alan Dorsey Stevenson. «Tirai sortes entre vós para saber quem ficará comigo primeiro. Por minha honra, disse uma delas, não quero tirar sortes por tal homem: abro mão da parte dele que me cabe»

Cortesia de wikipedia e jdact

Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
«(…) Por São João, disse a primeira, foi Bursegaunt que tive por último. Eu também, disse a segunda. Ora, disse a terceira, foi ele o último que eu tive também. Santa Maria, disseram as três, ele não é o amante fiel que pensávamos, pois não passa de um velhaco fingidor. Mandemos chamá-lo para saber o que dirá. Lá veio Bursegaunt; elas receberam-no sentadas em cadeiras e mandaram que se sentasse entre elas. Então disseram, cheias de raiva e de cólera, Bursegaunt, fomos torpemente enganadas por ti, pois pensávamos que fosses fiel nos amores, mas não passas de um falso fingidor que faz troça das mulheres, e isso é coisa muito torpe num cavaleiro. Senhoras, ele respondeu, porque dizeis isso? Porque, disse uma delas, foste amante aqui das minhas primas, e meu também, ao mesmo tempo, e disseste que nos amavas e que cada uma de nós era dona de teu coração, o que é uma falsa mentira, pois não podias amar direito nenhuma das três, pois não és três pessoas nem tens três corações, e por isso és falso e enganador, e não deves ser contado no número dos amantes fiéis. Senhoras, ele disse, isso não é justo, e eu vos direi porquê: pois, enquanto estava com cada uma de vós, amava mais aquela com quem estava, portanto creio que sois injustas dizendo de mim essas coisas. Elas, vendo-o assim nem um pouco desconcertado, não souberam o que dizer. Ah, disse ele, vou ensinar-vos o que fazer: que uma de vós fique comigo num dia, e outra no dia seguinte, e a terceira no terceiro dia, e assim diariamente seis dias seguidos, e o sétimo será meu dia de descanso.
Tirai sortes entre vós para saber quem ficará comigo primeiro. Por minha honra, disse uma delas, não quero tirar sortes por tal homem: abro mão da parte dele que me cabe. E as outras duas disseram, também abrimos mão de nossas partes, não queremos dele coisa alguma. Com isso Bursegaunt ergueu-se para sair e disse, Senhoras, não há razão para que brigueis umas com as outras nem todas as três comigo, se nenhuma de vós quer nada de mim. Mas então a mais petulante disse às primas, e agora: ele sai ou ele morre? Ele morre, para nunca mais enganar mulher alguma, disseram as outras. Então trancaram a porta às suas costas e vieram contra ele, cada qual com um punhal na mão, para matá-lo. Mas ele disse, Senhoras, se quereis matar-me sem piedade, assim seja, mas rogo que não me negueis sequer ao menos um último desejo. Elas assentiram, e ele, oferecendo o peito nu, pediu, que a pior pu… das três me dê o primeiro golpe. Elas ficaram ali olhando umas para as outras e por vergonha não houve uma só que ousasse feri-lo, pois nenhuma queria admitir que fosse uma pu… Ele, vendo-as naquele embaraço, correu até a porta, abriu-a, e lá se foi embora rindo delas. Assim, disse lady Marguerite, salvou-se meu marido, e essas três mulheres ficaram lá confusas e humilhadas. E bem que o mereceram, porque é um perigo para as mulheres brigar ou discutir com homens que conhecem as manhas do mundo e sempre acham meio de sair de dificuldades, como fez com elas Bursegaunt meu marido.

Podeis ter certeza de que Roger muito se espantou de ouvir contada pela boca de lady Marguerite essa crua história, que ele achava não devia ser contada por mulher de respeito. Tanto a bem amava, porém, que não era capaz de a inculpar nem repreender, nem de se afastar da sua presença. Assim disse a si próprio que aquilo fora só uma pequena indiscrição, coisa comum nas mulheres, e deixou passar. Quanto a ela, corridos já dois dias sem que Roger lhe tivesse pedido para ser sua amante, então começou a perceber que a ela mesma é que cabia achar meios de atingir o seu intento, scilicet, fazer daquele moço seu parceiro para vadiar e dormir com ela. Suas amigas de Danvil troçavam dela por ter feito péssima escolha e diziam de Roger que grande covarde era ele, que não tinha nada de homem, mas um eunuchus é o que mais parecia. Foi-lhe muito duro ao coração ouvir as palavras das amigas, e ela disse e jurou que a história não ficaria assim, mas vou cuidar dele de tal maneira antes de partir que nem todos os santos do céu serão capazes de lhe salvar a castidade. Ora vede Amidieu em que grande perigo ele jazia, pois essa mulher estava muito determinada a desviá-lo da virtude e fazê-lo perder a virgindade. Daí então chamou Roger para avisar que bem cedo na manhã seguinte pretendia sair a cavalo pelos bosques e campos de Male Mort com as amigas e que te aviso que, se me amas de verdade, que estejas pronto e bem montado para vires comigo. Assim, quando foi de manhã, saíram todas a cavalo, e Roger com elas, e puseram-se a cavalgar pelos bosques e prados em grande ledice e alegria; era um dia claro e formoso, e o tempo agradável, e aquela senhora trazia sobre o corpo um belo vestido de seda; Vem andar bem junto de mim, disse ela a Roger, para conversarmos pelo caminho. Ele pôs-se ao lado dela: e ela cantou para ele, enquanto cavalgavam, esta canção: Kyrie, sim, kyrie, Jacques cantando, para Aleison. Assim que entrei na capela para a missa de Natal o bom Jacques conheci pela voz tão musical, Kyrieleyson. Jacques deu começo à missa nesse dia de Natal, bem me lembro com prazer que não cantava tão mal, Kyrieleyson. Jacques foi ler a Epístola do começo até ao fim, bem me lembro com prazer de seus olhos sobre mim, Kyrieleyson. Jacques na hora do Sanctus cantou mais alegre ainda, bem me lembro com prazer que sua voz era linda, Kyrieleyson». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Manuscrito Alfield. Manuscrito de 1516. Alan Dorsey Stevenson. «Mas os cavaleiros do reino juntaram-se contra ele, dizendo que não deixariam queimar mulher nenhuma por causa de uma taça feita por feitiçaria pela mais falsa de todas as feiticeiras e bruxas…»

Cortesia de wikipedia

Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
«(…) Só então pôs os olhos na mulher, que se calara de cantar, e saudou-a com reverência, e às outras três também. Elas responderam à saudação e perguntaram, Qual é teu nome, e ele disse. Aí começaram a conversar elas e ele, e a mulher que cantara é que mais lhe fazia perguntas e lhe dava respostas, e Roger, quando soube que vinham em romaria à ermida de Byes, logo imaginou-as sensatas, devotas, prudentes e cheias de bondade, e aquela mulher em especial mais que as outras, e num piscar de olhos caiu enamorado dela. A mulher que cantara era Marguerite Reynespagne, e dali em diante ambos os dois começaram a passar muito tempo juntos, conversando juntos sobre muitas coisas, quer coisas do céu, quer da terra. A ela bem que agradou a companhia de Roger, que andava na flor da juventude e era tão formoso que ela não supunha que houvesse outro igual. Letrada era só um pouco, mas entendia algum latim e, quando ele a ouviu dizer, Inter vana, nihil vanius est homine, isto é, entre as coisas fúteis, nada há mais fútil que o homem, e outras tais palavras como essas, maravilhou-se muito e amou-a ainda mais. Uma vez perguntou-lhe sobre o seu marido Bursegaunt; ela respondeu com doçura que o marido era um ancião e que a idade o levara de volta à infância e, doente e decrépito, lançava o fluxo de suas purgações no leito e por todo o canto, como criança de berço.
Roger abriu bem as orelhas para sorver-lhe as palavras e gostou de ouvir aquele relato, pois sua imaginação lhe disse que essa boa mulher não saía de perto do marido, servindo-o humilde como uma camareira: e em sua imaginação ele a viu tal como uma santa na terra. Bem podia ela parecer uma santa, mas de santa não tinha nada por dentro, pois, ao contrário do que aparentava, era matreira e maliciosa como a senhora de Anvil e todas as outras. Uma noite, quando essas mulheres estavam no salão com sir Roger e frei Hugh, e Amidieu com eles, mas não Katherine, que fora a Mons visitar a madrinha, o frade disse que nunca vira tantas belas mulheres reunidas juntas a bem da virtude e da caridade. Por São João, disse a senhora de Danvil, também temos outros propósitos em nossa viagem. Ao que lady Marguerite disse que as palavras do frade trouxeram-lhe a relelembrança de uma história da bela Isolda, e tanto a incitaram todos a contá-la que ela começou assim: Como bem sabeis, nos antigos dias do rei Artur a fada Morgana tinha ódio mortal a sir Lancelote. E, quando soube que sir Lancelote e a rainha Guinevere tinham um amor verdadeiro um pelo outro, mandou ao rei Artur uma bela taça toda guarnecida de ouro, e o poder da taça era que nenhuma mulher seria capaz de beber daquela taça a não ser que fosse fiel ao marido: se lhe fosse infiel, cuspiria toda a bebida no chão. Ora, aconteceu que o mensageiro da fada Morgana topou no caminho com sir Lamorac, que o forçou a dizer a causa por que levava consigo aquela taça. E, quando sir Lamorac soube do poder que tinha a taça, pensou em usá-la para pôr à prova a bela Isolda, mulher do rei Marcos, pois suspeitava dela com sir Tristão. E disse ao mensageiro, Se não queres morrer, leva essa taça não ao rei Artur mas ao rei Marcos. E diz ao rei Marcos que lhe mando a taça para ele pôr à prova a sua mulher e saber se lhe é fiel ou não. O mensageiro pôs-se a caminho do palácio do rei Marcos e lá chegado contou-lhe a sua aventura com sir Lamorac e qual era o poder daquela taça. Então o rei mandou a rainha Isolda beber da taça, e uma centena de outras mulheres também: e só houve quatro dentre elas que beberam direito: todas as outras, e a rainha junto com elas, cuspiram a bebida em sinal de que não eram fiéis aos maridos. Que grande afronta, bradou o rei, e jurou solenemente que faria queimar a rainha e as outras mulheres na fogueira. Mas os cavaleiros do reino juntaram-se contra ele, dizendo que não deixariam queimar mulher nenhuma por causa de uma taça feita por feitiçaria pela mais falsa de todas as feiticeiras e bruxas que havia no mundo, pois daquela taça nunca viera nada de bom, mas só rixa e discórdia, e Morgana sempre durante a sua vida fora inimiga de todos os verdadeiros amantes.
E foi assim que a bela Isolda e as outras mulheres da corte do rei Marcos escaparam à fogueira. Por minha alma, disse a senhora de Danvil, se a nós mulheres de Danvil nos mandassem beber dessa taça, dentre cem de nós, nem quatro, nem duas, nem uma só sido capaz de beber sem lançar toda a bebida ao chão! Amidieu ficou muito confuso com toda essa conversa e não sabia o que pensar nem dizer. E ainda mais confuso ficou quando, pouco depois, ouviu Lady Marguerite contar a história de Bursegaunt seu marido e das três mulheres de que fora amante de todas elas ao mesmo tempo. Essas três mulheres eram todas primas e um dia sentaram-se juntas e puseram-se a conversar, até que uma hora uma delas disse: maldita aquela que não responder agora, em nome da boa amizade que há entre nós três, à pergunta que lhe será feita, isto é, se teve algum amante ou não este ano. Concordaram todas em responder, e a primeira delas disse: na verdade, eu tive; e a segunda e a terceira disseram o mesmo. Agora, disse a mais petulante, que dentre as três fora autorizada pelas outras a ser naquele dia rainha delas (era costume entre as mulheres da época escolher uma delas como rainha das outras, cabendo-lhe governá-las nos jogos e brincadeiras daquele dia), mal amada aquela que não disser o nome do último amante que teve». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

O Manuscrito Alfield. Manuscrito de 1516. Alan Dorsey Stevenson. «Indo para lá, ouviu cantar uma voz tão doce e melodiosa que outra coisa não supôs senão que era a voz de um anjo, e esgueirou-se até à fonte o mais oculto que pôde por trás das folhagens»

Cortesia de wikipedia

Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
«(…) Agora vou falar de certa mulher que chegou perto de por amor dela Amidieu romper o voto de castidade e ser posto a ponto de perder-se. Como está contido no começo deste livro, havia no país de Soubezmayne, dentro da extensão de seus limites, um santo eremita que tinha uma capela dedicada a São João na sua ermida em Byes. Era ele, esse eremita, o mais santo dos homens: era um velho de dorso arqueado e cabelos brancos, e nunca se barbeava, de modo que os fios do cabelo e da barba cobriam-lhe quase todo o corpo. Nunca ninguém o ouviu dizer uma só palavra excepto em oração: por nove anos guardara uma pedra na boca até aprender a ficar calado e em silêncio, a qual pedra pode ser vista e venerada hoje entre as relíquias da capela; e, por conta da santidade desse homem, muita gente de muitas províncias longe e perto vinha até Byes em romaria. De Malemort à vila de Byes não são mais que oito ou nove léguas, e a estrada é boa e plana, e assim os nobres romeiros que iam a Byes ver e visitar o eremita tinham por costume já há longo tempo demorar-se em Malemort alguns dias. No Verão daquele ano a senhora de Danvil passou por Malemort a caminho da ermida, e com ela outras quatro mulheres também casadas, e Roger de Giac acolheu-a muito bem e acomodou-a com todo o conforto, a ela e a às suas acompanhantes; ali ficaram uma semana inteira, pois aonde iam levavam tanta alegria que sir Roger não queria deixar que seguissem caminho. Mas é bem verdade que ninguém deve fazer romaria por diversão nem para atender a delírios, prazeres, nem deleites carnais, mas, se querem fazê-la, que a façam com o coração e a mente inteiramente voltados para o propósito maior de servir a Deus. Pois os que vão em romaria a algum lugar por amor de torpes prazeres mais do que por devoção ao lugar aonde vão e fingem que o seu propósito é o serviço de Deus, essa romaria não tem valor nem mérito algum, pois o que fazem é troçar e escarnecer de Deus e de Nossa Senhora e profanar o santuário que visitam.
Ora, a senhora de Anvil não era fiel em seu casamento e, para ter melhor ocasião de encontrar o amante, deu a entender ao marido que queria pagar uma promessa que fizera de visitar o ermitão de São João de Byes; e o marido, sem ver nisso maldade alguma, e não querendo contrariá-la, consentiu que fosse a Byes ou aonde quisesse. Assim, ela mais o amante puseram dia certo para se encontrarem em Byes, onde pudessem entregar-se à sua torpe linguagem e comunicação e a seus afazeres juntos em vez de dizer preces a Deus nem fazer penitência alguma durante a romaria. Bem podemos supor que fagueiro séquito de demónios acompanhava essa senhora nessa romaria, pois era muito dada ao pecado, não sozinha, ela como com ela, todas as suas companheiras também. E se algum de vós me perguntar se eram elas belas, devo dizer, para não mentir, que eram sim, e que dentre todas a mais bela era Marguerite Reynespagne, que tinha um marido naquela ocasião que se chamava naquela ocasião Nicholas Bursegaunt. Bem, no dia em que essas mulheres chegaram com muita festa a Malemort, Roger Amidieu esteve fora o dia todo na floresta com o seu irmão Thibert e assim não soube que tinham chegado. Retornando a casa, eles dois desceram e apearam dos cavalos e cada qual foi para seu lado, um para cá, outro para lá; Thibert foi levar os cavalos ao estábulo e Roger, que estava com muita sede, foi beber de uma fonte que havia ali intramuros.
Indo para lá, ouviu cantar uma voz tão doce e melodiosa que outra coisa não supôs senão que era a voz de um anjo, e esgueirou-se até à fonte o mais oculto que pôde por trás das folhagens. Assim que vislumbrou a fonte viu ali quatro mulheres, todas elas desconhecidas, e no meio delas a mais bela mulher que jamais vira em dias de sua vida, que lhe pareceu mais viçosa que rosa de verão e mais clara que luz do dia: era ela que cantava tão melodiosamente. Ali ficou bem quieto, tanto pela beleza da mulher como para ouvir-lhe a doce voz canora, e escondeu-se o melhor que pôde entre os arbustos a fim de não ser percebido daquelas mulheres, e esqueceu até mesmo a grande sede que sentia. Ela continuou a cantar tão melodiosamente que ele ali enlevado não lembrava do mundo coisa alguma, mas apenas de estar ouvindo e vendo aquela mulher, e nem sabia se era dia ou se era noite, nem se estava desperto ou sonhando. Aí vieram-lhe correndo dois de seus cães com muita festa, e ele sobressaltou-se como quem desperta bruscamente, e então sentiu a sede renovar-se e, sem mais demora, saiu dentre os arbustos e chegou-se à fonte e tomou a vasilha que pendia ali e bebeu um pouco d’água».  In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Manuscrito Alfield. Manuscrito de 1516. Alan Dorsey Stevenson. «… vai, meu amor, vai depressa, vai jogar teu jogo com ele. Que jogo é esse, disse ela. O jogo que homem e mulher costumam jogar juntos, respondeu aquela: não há coisa melhor neste mundo. Já está mais do que na hora de jogares…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
Capitulum decimum
«(…) A história nos conta que havia então em Malemort uma moça chamada Aviz. Tinha rosto meigo e era pequena de corpo, tanto que sua pessoa parecia ter treze anos, mas os anos de sua idade, dizia-se, já eram dezoito completos; e ela achava Amidieu tão vistoso e delicado que havia algum tempo se enamorara dele. Um belo dia, enquanto ele, sentado sob uma das janelas da cozinha, perdia-se em pensamentos de contemplação, ela estava lá dentro e, por acidente ou por querer, derramou-lhe à cabeça a água que usara para lavar panelas, o que fez muito rirem e se alvoroçarem as mulheres que ali fora andavam em seus afazeres. Aquele incidente o incomodou, por isso ergueu-se e começou a afastar-se sem dizer nada. Com isso, a moça Aviz saiu e veio correndo e sem qualquer recado abraçou-se a ele e o beijou, coisa que fez, creio eu, só para se desculpar. Aí entre as outras mulheres o riso e a chacota foram ainda muito maiores que antes, tanto que caíram todas sentadas no chão rindo-se como um bando de loucas. Roger ficou muito mais confuso pelo beijo do que pela água derramada na cabeça, então afastou-se dali e passou os portões e saiu campo afora. Uma das mulheres começou a incitar Aviz a segui-lo, dizendo, vai, meu amor, vai depressa, vai jogar teu jogo com ele. Que jogo é esse, disse ela. O jogo que homem e mulher costumam jogar juntos, respondeu aquela: não há coisa melhor neste mundo. Já está mais do que na hora de jogares, disse outra, e Roger bem que serve para jogar contigo. E disse uma terceira, É só para isso que a mulher existe, para ter conforto e prazer na companhia do homem. E de novo a primeira, ah, que seria da mulher sem o prazer que lhe dá o homem? Estás perdendo tempo, meu amor, e mais todo o prazer que teu corpo te pode dar. E o que digo é para teu bem, já que não sabes o que é a companhia de um homem. Se soubesses o prazer que têm as outras mulheres, não darias valor a nada mais; pois temos tanto prazer na companhia dos homens que amamos que, se não tivéssemos mais que um naco de pão, ainda assim temos mais prazer e deleite do que tu com todas as iguarias do mundo.
Então ela saiu e foi seguindo Roger, mas, quanto mais o seguia, mais ficava para trás, até que ele entrou num bosque e desapareceu de vista. Lá foi ela atrás dele e por fim, depois de muito andar e muito procurar, achou-o rezando ajoelhado ao pé de um grande carvalho. Então achegou-se e ficou de pé diante dele, mas ele não ergueu os olhos, mas continuou rezando como antes. Então ela disse, ora, Roger, porventura aqui é lugar e hora de rezar? E respondeu ele, todo lugar e hora é hora e lugar de rezar, pois o tempo de nossa vida é muito curto. E respondeu ela, ah, Roger. Somos jovens e cheios de vida: deixemos as orações para quando tivermos mais idade, pois agora é tempo de jogar. Ele perguntou o que ela queria dizer. Eu te amo, ela disse, e quero jogar meu jogo contigo. Que jogo é esse, disse ele. O melhor jogo do mundo, respondeu ela: o jogo que homem e mulher costumam jogar juntos. Ela parecia uma criança, e não inspirava nele desejo mas ternura. Então ele disse, Querida Aviz, se amas teu corpo, maior razão para amares tua alma. Por isso, uma palavra de conselho: as almas chegam ao inferno aos montes, hoje e sempre; o porteiro à entrada do inferno fica ocupado o dia todo, levanta cedo e dorme tarde, não descansa nunca. Esse jogo de que falas não vale nada aos olhos de quem tudo pode e tudo determina, mas te conduzirá directo aos portões do inferno. Não, meu amor, ela disse. A boa mulher que falou comigo disse verdade.
Muito mal empregas teu tempo desse belo corpo que tens, que nunca saberá o que é prazer se tudo que lhe dás são rezas e jejuns. Aí Amidieu disse a ela o que o peregrino lhe dissera antes, dizendo, Aviz, nosso último dia é um mistério: sabemos que virá, mas não sabemos quando, nem a que hora. O ladrão preso no cárcere sempre indaga onde está o juiz e quando será a sessão, e anda sempre cheio de angústia com medo da forca: devias fazer a mesma coisa, pois dia virá de compareceres perante o julgamento de Deus para dares conta de todas as tuas ações. Como te atreverás então a olhá-lo no rosto? Porque ali só trarás contigo tua angústia no peito e teus pecados ao pescoço. Tuas palavras ímpias e vãs, tuas más acções, não as poderás ocultar, mas terás de responder por tudo que fizeste. Assim, minha pequena, pensa em tua alma e não ouças conselho algum que possa ser em prejuízo dela. E nada mais disse ele a ela, mas baixou os olhos e voltou às suas orações». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Manuscrito Alfield. Romance apócrifo que finge ser a edição crítica de um manuscrito de 1516, de uma crónica francesa desaparecida. Alan Dorsey Stevenson. «Sentiu-se fendido em dois: uma parte de si mesmo queria esquivar-se àquela criatura, a outra parte demovia-o a abraçá-la e a provar do veneno de seus beijos para então encerrar-se…»

Cortesia de wikipedia

Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
«(…) Daí que esse pobre moço, embora tivesse escolhido castidade e em castidade quisesse manter-se, porém por falsa tentação do Diabo se via muito tentado da tentação da carne. À noite, enquanto dormia, o Diabo, que nunca dorme, vinha tentá-lo em seu sono com grandes fantasias. Uma noite viu em sonho, em pé diante dele, aquela mulher Osanne que já uma vez vira deitada nua com sir Roger num leito de relva, misturados juntos como animais; e pareceu-lhe, em sua visão, que ela agora vinha ao encontro dele, com os dentes sorrindo, e junto à cama despia a camisa e mostrava-lhe o corpo em pêlo, branco como geada, e a negra flor felpuda entre as pernas, que o velho peregrino chamara de bainha do Diabo; e ali à sua frente dedilhava aquela coisa com os dedos como um alaúde, e soltava um profundo suspiro melodioso e estendia para ele a mão. Bem que Roger sabia que, se desse a mão àquela mulher, seria esposo do pecado para sempre. Sentiu-se fendido em dois: uma parte de si mesmo queria esquivar-se àquela criatura, a outra parte demovia-o a abraçá-la e a provar do veneno de seus beijos para então encerrar-se na jaula de seu corpo e consumir-se no fogo mortal de sua luxúria; mas, no exacto momento em que imaginou que não pudesse escapar, teve uma polução, e com isso despertou do sono e a visão se desfez no ar; aí caiu de joelhos e começou a rogar a Deus que o amparasse, pois sem seu amparo estaria sempre com medo e nunca seguro, e que o ajudasse, pois sem sua ajuda nunca poderia destruir o inimigo que jazia emboscado dentro de si; e ficou rezando até que sentiu grande sabor de doçura no coração, como sinal da presença de Cristo ali dentro. Aí, reconfortado, voltou outra vez a dormir. Ora, se ele se via tentado desse jeito durante o sono, que direi das tentações que o assombravam à luz do dia? Dizem bem os que dizem que oculus est inimicus cordis, o olho é inimigo do coração: por causa disso Terculiano arrancou os próprios olhos, pois não podia ver mulher sem sentir concupiscência. Também Amidieu, a menos que fosse cego, não podia ver mulher, de que Malemort andava muito povoada delas naquele tempo, sem perigo para sua castidade. Se passavam diante da presença de seus olhos, a visão de lábios e línguas, de ombros e braços, de nucas e peitos, de ventres e coxas, de pernas e pés, vinha feri-lo de grandes desejos da carne; se olhavam para ele, o olhar de seus olhos faiscantes semeava-lhe na mente pensamentos de pecado; se as ouvia garrulando, rindo ou sussurrando entre si, o seu linguajar e a melodia de suas vozes despertavam-lhe na carne estranhos espasmos; se se punham junto dele, tremiam-lhe as narinas ao sorver o tenro cheiro de fêmea; se porventura as tocava ou era por elas tocado, inflamava-se de fogo de luxúria, pois bem se sabe que tactus mulieris movet carnem viri, que significa, o toque da mulher atiça a carne do homem. Assim, ele vendo, ouvindo, cheirando ou tocando qualquer dessas mulheres, cada um de seus sentidos corporais gritava-lhe que fosse até elas saborear os deleites do sexo feminino. Em certos dias sentia-se forte o bastante para resistir à tentação e manter a carne submissa, e aí dizia dentro de si. Tudo isso é delírio e tentação do demo, pois por dentro essas mulheres são horríveis em imundície e em pecado, e lançam fluxos de sangue, e Deus ajudando jamais cairei em fornicação com elas: então virava-lhes as costas e benzia-se, e assim afastava de si a tentação. Em outros dias, porém, achando-se mais frágil, a tentação caía sobre ele e já não queria mais ir embora: aí restava-lhe seguir o que ensina o sábio, que ensina no livro Eclesiastes que a dor faz mitigar a luxúria. Então entrava no rio, metia-se na água fria até os ombros, e depois de algum tempo saía dali e deixava as vestes congelarem sobre a pele; e o frio tanto lhe picava e roía o corpo que toda a luxúria dentro dele era amansada. Ou senão corria à capela e punha-se de joelhos a rezar e rezava a Deus que lhe fosse escudo contra o demónio que continuamente trabalhava para matar Jesus Cristo em seu coração; Oh, Deus, dizia ele, com multidão de lágrimas, fere-me, eu te rogo, com alguma enfermidade ou dano ou tormento ou má ventura, se vires que por outra maneira não possa guardar minha virtude e pôr-me pronto para ser salvo. Aí, ao sair da capela, via-se renovado em pureza e castidade e por algum tempo os espíritos malignos deixavam-no em paz». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Manuscrito Alfield. Romance apócrifo que finge ser a edição crítica de um manuscrito de 1516, de uma crónica francesa desaparecida. Alan Dorsey Stevenson. «… todos esses jovens viviam vida ímpia, perversa e desregrada, e confirmavam o pensamento do moralíssimo Séneca…»

Cortesia de wikipedia

Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
«(…) A leitura desses falsos livros creio que foi a causa do primeiro princípio e começo de seu amor por Thibert, o qual amor vinha contra Deus e contra a razão e contra a natureza: ele era, dela, seu próprio irmão, e ela, dele, sua própria irmã, contudo amavam-se tão intensamente que ela ardia em chamas de amor por ele, e ele da sua parte por ela. A história nos diz que nessa ocasião ainda não se tinham irmã e irmão juntado carnalmente um com o outro, por medo do pecado e por pavor do pai: pois não ousavam provocar-lhe a ira: pois muito lhe temiam a fereza e a fúria. Mas no entanto, por inspiração do demónio, que pairava sempre activo e diligente ao redor deles, o amor entre ambos crescia e aumentava sempre, e queriam-se os dois tanto como outrora Tristão e a bela Isolda ou Lancelote e a rainha Genebra. Os dois filhos que sir Roger fizera em Anne Lablonde, que fora a sua principal concubina ainda nos dias de vida da legítima esposa, chamavam-se, como já antes o mostrou a crónica, Giles e Thierry. Giles, o mais velho de ambos, sentia pelas mulheres de Malemort grande e estranha tentação, pois não era vadiar com elas que lhe dava prazer, mas espiá-las escondido onde pudesse vê-las nuas, e aí aplicava-se de tal forma que me envergonha dizer, pois esfregando-se com a própria mão chegava ao derrame da semente. Thierry, que era dos bastardos o mais novo, tinha mente perversa e desejos infames: de todas as mulheres do lugar não havia uma só que, estando sozinha, não lhe fugisse como se ele fosse um sarraceno ou coisa pior. Havia nessa ocasião em Malemort uma mulher embrenhada no meio da floresta que no inverno dormia em grutas e no verão em baixo de árvores e entre moitas e sebes, como se fosse uma fera selvagem feroz. Vivia de frutas e do que mais pudesse achar, e não bebia a não ser água, e quase não tinha outra roupa além de uma camisa que lhe ia até os joelhos; e os cães e os meninos se divertiam a persegui-la por entremeio da floresta. A mulher não passava de uma pobre criatura desatinada, mas Thierry, sempre que o corpo exigisse, saía por aqueles ermos à sua procura e, achando-a, enchz com ela até se aliviar, saciando assim o apetite da carne. Portanto, como bem podeis perceber, todos esses jovens viviam vida ímpia, perversa e desregrada, e confirmavam portanto o pensamento do moralíssimo Séneca, segundo o qual o homem não tem coisa mais vil do que si mesmo.
Agora deixemos por algum tempo os pecadores com seus pecados e falemos com prazer do filho mais velho de Roger de Giac, que se chamava Roger como o pai e como o avô. Tinha uns dezoito anos nesse tempo. Tanto a cavalo como a pé era melhor em armas do que jamais o foi ninguém de sua idade; alguns diziam dele que pelo corpo e pelo coração era moço apto a vir a ser homem de grandes proezas e assim tornar-se tão bom cavaleiro como o pai; outros diziam que passaria o pai como o leão passa o leopardo em força e bravura, para ser, em lugar do pai, o melhor cavaleiro do condado de Níniva. Parecia-se tanto com sir Roger que nunca pai e filho mais se pareceram em semelhança: era bem moldado de corpo, de rosto agradável à vista, e de boa estatura, tendo oito pés de alto. No entanto, não se parecia nem um pouco com sir Roger pelo fervor que punha no amor que votava à religião. Certifico-vos por verdade que nele residia Nosso Senhor Jesus Cristo, o que transparecia muito às claras na sua vida virtuosa, pois cuidava diariamente de fazer tão-só aquilo que pudesse agradar a Jesus: tanto assim que, se ao pai chamavam Besedeable pelas costas, aberta e puplicamente ao filho chamavam Amidieu: amigo de Deus. Tinha gosto em amanhecer sempre cedo, antes de qualquer outro dos irmãos e dos companheiros, e já no começo do dia rezar as suas orações, coisa que é riqueza de grande excelência neste mundo, e rezava-as em jejum, pois estômago cheio não pode ser inteira e perfeitamente humilde nem devoto. No decurso do resto do dia, quando não estava ocupado com cavalos nem espadas, punha-se todo a pensar em santos mártires e santas virgens. Todo dia à noite antes de dormir fazia suas orações a Deus, que é nosso senhor, autor e criador, e também à abençoada Virgem, que dia e noite sem parar orat pro nobis, e recomendava-se a todos os santos e santas. Era muito devoto de Santa Maria e de dizer as suas horas, e já pensava prometer a ela a sua virgindade. Jejuava uma vez por semana, no sábado, em atenção a ela, rogando que o guardasse sempre puro e casto e longe de tentação; pois esse jejum é para dar ao homem vitória sobre sua carne. E dúvida não há nenhuma de que, se a maior alegria de Deus reside no arrependimento e conversão de um pecador, a do Diabo reside em especial no corrompimento e perdição de um justo; assim, Satã pugnava sem descanso para impor seu domínio a Amidieu, da mesma maneira como impusera ao pai dele e aos irmãos, e à irmã; pois de todas essas almas cobiçava a alma desse jovem mais que todas as outras. E, se me perguntardes em que lugar estava Satã determinado a vencer aquele justo, eu vos responderei dizendo: em nenhum lugar senão na sua castidade; pois Satã, como nos ensina a palavra de Leão papa, faz tudo que pode para corromper o homem no mesmo lugar em que o acha mais forte em bons feitos e firmes propósitos; razão por que os homens pios o Diabo tenta especialmente com a ajuda de ímpias mulheres». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

O Manuscrito Alfield. Romance apócrifo que finge ser a edição crítica de um manuscrito de 1516, de uma crónica francesa desaparecida. Alan Dorsey Stevenson. « Mas essa nova Catarina, filha de Malemort, preferia ler só aqueles livros que tratam de histórias fingidas e fábulas de amor, e de outras vaidades mundanas…»

Cortesia de wikipedia

Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
«(…) E é esse o maior de todos os sete pecados maiores, pois é o pecado que Deus odeia acima de todos, porque o corpo e alma do homem, que deve ser morada de Deus, torna-se morada do Diabo em virtude desse mesmo pecado. Assim, quando se levantou o cerco de Dysconvorte e Roger Besedeable retornou de volta a Malemort, a primeira coisa que fez mandou o seu frade chamar Margery Felelainne, que era então a mulher que ele melhor preferia pôr consigo na cama. Ora, acontece que Margery tinha morrido enquanto ele estava fora, por isso o frade mandou vir em lugar dela a prima, que se chamava Symone Flowry, que era moça alegre e viçosa, nem muito gorda nem magra demais, e bem mais inclinada aos prazeres do corpo que prostituta de bordel. O frade, vendo-a toda pronta e já feliz de vir à presença do senhor, começou a sorrir e disse, pelos dentes de Deus, minha filha, tirando minha senhora a rainha da França tu não tens par: não sei de melhor alimento para servir a nosso bom senhor. Aí tomou-lhe a mão e levou-a aos aposentos de Sir Roger, e quando lá chegaram a porta já estava toda aberta para ela entrar. Entra, querida, entra, disse o frade, e que Santa Maria Madalena te inspire. Frei Hugh deixou-a ali sozinha e ela entrou de cabeça cabisbaixa, como se tivesse vergonha na cara, mas quando ergueu os olhos nem viu nem percebeu ninguém ali. Então disse em voz alta, Ora, senhor, onde é que estás aí dentro; mas não houve resposta. Então se pôs a procurar em toda a câmara, mas nada viu que se parecesse com ele. Olhou aqui e ali, em cima e em baixo, e em todos os lados, mas nada achou. Quando então viu que não o achava, reclamou dizendo, Ah, senhor, procurei-te em todo o canto e não te achei em lugar nenhum, então creio que ou não estás aqui dentro ou senão deves ser o cavaleiro que anda invisível, então vou embora até que venhas me ver ou me mandes chamar de novo.
Então girou para retirar-se, e de súbito eis que lhe salta ele de onde estava escondido atrás da porta e a abraça pela cintura; assim colhida e surpreendida, ela deu um grito e num brusco movimento livrou-se das mãos dele, mas ele agarrou-a pelas tranças e puxou-a de encontro a si e beijou-a muitas vezes, chamando-a madame e mon amour. Ora, senhor, disse ela, sentindo a mão dele já lhe apalpando as coxas sob a saia, por que tanta pressa: temos tempo de sobra para brincar. E ele respondeu, Todos os dias em que estive no cerco de Dysconvorte pensava em ti, e já me via cercando-te tanto pela frente como por trás, e de todo lado, e tomando a fortaleza de teu corpo quantas vezes pudesse. E ela disse, Não era em mim que pensavas, senhor, mas em Margery minha prima; pois esta é a primeira vez que pões em mim o olho. Então mandemos vir tua prima, disse ele, para sermos três  numa cama só; onde está ela? A moça respondeu, Morta e enterrada, senhor, é onde minha pobre prima agora está; faz um mês que morreu, Deus que lhe guarde a alma. Sir Roger benzeu-se e disse, Bem, nós é que não estamos mortos, nem tu nem eu, pelo que posso ver; então façamos o que os mortos não podem fazer, mas os vivos sim, sempre que quisermos. Então trancou-se lá dentro com ela: era pouco antes de meio-dia quando a mandou chamar, e nove horas do dia seguinte quando a pôs porta afora gritando muita mer… contra ela e por que diabo não aprendera a fazer seu ofício direito. No mesmo dia, mal se recolhera o sol para descansar, mandou-a vir outra vez, e o mesmo fez no dia seguinte à mesma hora e continuou a fazer dia após dia pelo espaço de muitos dias. Era esse o mau costume da casa de Malemort: o ilícito pecado da luxúria. Os quatro filhos de sir Roger, que eram ainda meninos quando os conhecemos no livro anterior a este, já estão crescidos agora e em plena viçosa idade juvenil e ei-los aí feitos moços fortes e destros em coisas de caça e de guerra, ao passo que sua filha Katherine, a natureza operou nela tanta formosura que aí a temos convertida na moça mais bela que se conhecia então. Queria que me fosse possível dizer algo de bom sobre esses filhos e essa filha, mas, ai de mim, salvo o mais velho, é pelo contrário com grande tristeza para mim que me disponho a falar deles. Apesar de estarem ainda nos seus dias juvenis, já se mostravam servos fiéis e sinceros de Satanás, segundo estavam por predestinação predestinados a sê-lo sempre, hora a hora, noite a noite, dia a dia, verão e inverno, enquanto vivessem; pois deles bem posso declarar que era de pecado que se nutriam e de nada mais. Essa Katherine tinha aprendido a ler e escrever, e latim, e um pouco de grego: que sir Roger não era da mesma opinião desses homens que não querem das esposas nem das filhas que saibam nada de ler nem de escrever. O prazer de ler ela descobriu em criança, e muitos diziam que a sua mãe dera à luz uma nova Santa Catarina; contudo, diferente de Santa Catarina, que só lia livros de sabedoria e ciência, ou livros morais e de exemplos de bem viver que a ajudassem no salvamento de sua alma e de seu corpo, e que assim, por engenho e estudo, com a graça do Espírito Santo, superou os grandes filósofos da Grécia, e por firmeza de fé ganhou a palma do martírio, e seu corpo foi levado pelos anjos do céu a distância de doze jornadas até o monte Sinai, onde desse santo corpo escorre óleo até o dia de hoje. Mas essa nova Catarina, filha de Malemort, preferia ler só aqueles livros que tratam de histórias fingidas e fábulas de amor, e de outras vaidades mundanas, que nem trazem tesouro de ciência para a mente nem benefício de virtude para a alma». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

‘O Manuscrito Alfield’. Romance apócrifo que finge ser a edição crítica de um manuscrito de 1516, de uma crónica francesa desaparecida. Alan Dorsey Stevenson. «… pude verificar que o Manuscrito Alfield fora incorporado à colecção no ano de 1899; mas nenhuma pista havia ali que pudesse levar à identidade do proprietário anterior»


Cortesia de wikipedia

O Códice
«Assim, o manuscrito no seu estado actual acha-se mutilado, faltando as primeiras 35 folhas. Isso serve como evidência de que a cópia de 1516  foi feita a partir de um original completo.
Na sua forma integral a crónica compreendia treze livros (que é como o seu autor, seguindo critério comum na época, denomina as partes que o compõem) de extensão irregular, num total de 190 capítulos. Ressalvadas mutilações anteriores, as trinta e cinco folhas que nos faltam conteriam a folha de rosto, um possível prólogo do autor (e talvez outro do tradutor), todo o livro primeiro, os sete capítulos iniciais do livro segundo e parte do capítulo oitavo. Faltam-nos também alguns trechos ulteriores, onde o manuscrito sofreu danos ou mutilações, e toda a parte referente à batalha de Poitiers, num total de quatro folhas, que se perdeu por infeliz acidente na Biblioteca Ffowlkes pouco antes da transferência do documento para as minhas mãos.
A cópia quinhentista destinada a salvar para a posteridade a tradução de Hatch foi feita por encomenda de certo Thomas Alfield em 1516. Aqui também devemos essa informação ao próprio códice, pois ali foi consignado pelo próprio Alfield, ao final da transcrição, um registo em latim:
  • “Iste Liber pertinet Thomae Alfieldi, Tewkesbury, Gloucestershire, Gentleman, Quod Thomas Alfield, anno Domini D X VI, Cui scripsit carmen, sit benedictus. Amen.”
O Manuscrito Alfield na América do Norte
Na escassez de informações que paira sobre quase tudo que se refira a La Vraye Cronicque de Malemort e sua tradução quatrocentista para o inglês, pouco se sabe sobre o paradeiro do Manuscrito Alfield desde sua produção sob encomenda em 1516 até à sua aquisição, nos últimos dias do século XIX, ainda na Grã-Bretanha, por um magnata norte-americano, Henry Makepeace Ffowlkes, apaixonado coleccionador de livros e manuscritos antigos. Dificilmente teria permanecido todo esse tempo em poder de alguma instituição académica, onde, cedo ou tarde, teria chamado a atenção de eruditos. Assim, é plausível supor que, à semelhança do que ocorreu com os papéis de Samuel Pepys e James Boswell, por várias gerações tenha sido relegado à gaveta ou ao armário de alguma residência ou mansão inglesa, cujos sucessivos ocupantes pelo menos tiveram o cuidado de garantir-lhe o mínimo de condições necessárias à sua sobrevivência durante quase quatro séculos.
O excêntrico milionário nunca revelou a ninguém a origem de nenhum dos itens de sua riquíssima colecção: até à sua morte manteve o acervo inacessível a investigadores de qualquer categoria e o catálogo sob sigilo absoluto. Mesmo os seus bibliotecários assinavam termo de confidencialidade prevendo severas penas pecuniárias em caso de ‘fuga’ de informação a respeito do acervo. O que não impediu, porém, que a ‘fuga’ de algumas informações que, embora vagas, foram suficientes para despertar junto à comunidade académica a expectativa de eventual acesso a grande número de raridades documentais por ocasião da morte do milionário.
Depois da sua morte, ocorrida em 1948, Quentin Ffowlkes, seu filho único e herdeiro, decidiu-se desfazer da biblioteca paterna leiloando cada peça individual, o que provocou uma corrida académica e institucional pela colecção. Como representante da Universidade Jesuítica de Nova York tive então acesso ao catálogo e, pelo exame dos registos, pude verificar que o Manuscrito Alfield fora incorporado à colecção no ano de 1899; mas nenhuma pista havia ali que pudesse levar à identidade do proprietário anterior.
Por surpreendente iniciativa de Quentin Ffowlkes, o leilão foi cancelado e a Universidade Jesuítica recebeu a Colecção Ffowlkes não por lance mas por doacção (excepto o Manuscrito Alfield). Também por espontânea decisão dele, esse precioso documento foi separado da colecção e confiado a mim na condição de responsável pela sua edição crítica, incumbência que só aceitei com extrema relutância, depois de tê-la inicialmente declinado por questões pessoais.
O meu trabalho de edição, iniciado três anos atrás, quando recebi o manuscrito, está previsto para ser concluído dentro de mais três anos. Minha intenção é preparar uma ampla e confiável edição crítica, com vasta introdução filológica e histórica, texto crítico, e profusas notas de rodapé; como contemplo uma edição fac-similar acompanhada da transcrição correspondente, estimo que a obra ocupará pelo menos três volumes. Até agora fiz a transcrição integral do conteúdo do manuscrito e preparei cerca de setecentas notas (dois terços do total previsto), ainda sujeitas a uma revisão final. Espero que essa edição possa contribuir para promover estudos em todo o mundo sobre a província de Niniven durante a dinastia nalesiana. Tal é o objectivo maior com que me dedico ao projecto de publicação da versão em inglês médio de La Vraye Cronicque de Malemort. In Kathryn Lyell Thornham, Universidade de Santo Agostinho, Houston, Texas, USA.

In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

‘O Manuscrito Alfield’. Romance apócrifo que finge ser a edição crítica de um manuscrito de 1516, de uma crónica francesa desaparecida. Alan Dorsey Stevenson. «Durante algum tempo serviu como escudeiro na casa do conde de Níniva, e o uso ocasional dos pronomes eu ou nós na narrativa indica a sua presença em cena. Tornou-se monge em 1354, e narra-nos ele próprio as dramáticas circunstâncias de sua ordenação»



Cortesia de wikipedia

«Seja como for, a cópia do original francês exportada para a Inglaterra, se existiu, mais o manuscrito original do tradutor inglês e quaisquer outras cópias feitas desse documento excepto aquela agora conhecida como Manuscrito Alfield também desapareceram em circunstâncias de que não podemos, até agora, fazer a menor ideia.

O autor
O autor da crónica em francês chamava-se ‘Thomas Lelillois’, ou ‘Lemeschin’, monge cisterciense do convento de Dannemarie, em Níniva. ‘Lelillois’ foi contemporâneo dos homens e mulheres cuja história se propôs a contar em sua crónica: vivera no meio dessas pessoas antes de entrar para a vida monástica, e tinha propósito não só político mas moralizante ao escrever sobre elas. Por sorte nossa, espargiu ao longo das páginas da crónica algumas ralas mas importantes informações autobiográficas. Pelo seu sobrenome já se podia inferir que era natural da cidade de Lille, e ele mesmo confirma que nasceu e se criou na Picardia, região ao norte da França de que Lille era uma das principais cidades. Durante algum tempo serviu como escudeiro na casa do conde de Níniva, e o uso ocasional dos pronomes eu ou nós na narrativa indica a sua presença em cena. Tornou-se monge em 1354, e narra-nos ele próprio as dramáticas circunstâncias de sua ordenação. Um de seus irmãos, Guillaume de Prunes, cavaleiro de Níniva, fez os votos na mesma ocasião que ele, mas deixou o convento um ano depois e foi morto em 1359, defendendo contra os ingleses o castelo de Cernay.
Em dois pontos da crónica Lelillois refere-se a si mesmo como autor da ‘Vida de Roger Amigo de Deus’. Esse Roger, monge do convento de Dannemarie, falecido em 1356, destaca-se dentre os principais personagens da crónica, pois era filho primogénito de Roger de Giac, senhor de Malemort. Não se descobriu até agora nenhuma cópia dessa obra em qualquer língua.
Quanto à data de composição da crónica, podemos situá-la com certa precisão com base no próprio texto. Ao relatar, no livro 2, capítulo 32, um episódio ocorrido em 1347, ‘Lelillois’ informa de passagem que está escrevendo vinte e cinco anos após o facto, o que nos permite datar a obra como em progresso em 1372.
Quaisquer outras informações provavelmente existentes sobre o nosso autor se terão perdido no incêndio do convento ocorrido em 1488.

O códice
A versão inglesa da crónica de ‘Thomas Lelillois’ foi feita no final do século XV, pouco antes de se promover na Inglaterra a mudança dinástica da Casa de York para a de Tudor. Pouco sabemos a este respeito, sabemos porém o nome do tradutor, Bennet Hatch, e a data exacta em que concluiu sua tradução, 1 de Junho de 1483, porque os apôs na página final de seu trabalho e o copista quinhentista os reproduziu:
  • “Foi traduzido [‘o livro que Thomas Lelillois fez’] do francês para nossa maternal língua inglesa por mim, Bennet Hatch, pessoa simples, que o acabou e terminou no primeiro dia de Junho, ano de Nosso Senhor 1483, primeiro ano do reinado do rei Ricardo III, na cidade de Londres.”
Nada mais se sabe até o momento sobre o tradutor dessa crónica. A cópia manuscrita em meu poder, em que se preservou o texto de Hatch, foi feita em 1516. Suas especificações são as seguintes:
  • papel acetinado de alta qualidade;
  • 320 mm x 220 mm;
  • 166 folhas, escritas recto e verso em aproximadamente 32 linhas; 
  • uma só mão (excepto quatro linhas em latim ao final do manuscrito), caligrafia Bastarda Secretária, minúscula, bastante regular;
  • tinta preta, bem preservada;
  • sem iluminuras;
  • ambas as capas se perderam. 
Há muitas anotações marginais, algumas da época do manuscrito, outras, a maioria, de séculos posteriores. 
Os primeiros livros contêm poucos erros de cópia, que se multiplicam a partir do livro 5, alguns deles corrigidos à margem pelo próprio copista. A numeração actual, à margem superior direita de cada página recto, está sobreposta a outra mais antiga: a folha 1 actual corresponde à folha 36 do manuscrito supostamente completo». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

‘O Manuscrito Alfield’. Romance apócrifo que finge ser a edição crítica de um manuscrito de 1516, de uma crónica francesa desaparecida. Alan Dorsey Stevenson. «O documento é fonte histórica para o estudo da política de ‘Níniva’ no conturbado decénio de 1347-56. Trata o drama de Malemort, que vai culminar numa rebelião contra o conde de Nalles por um grupo de vassalos»


Cortesia de jazzseen

«O códice quinhentista ‘FfC1516Ms136’, mais conhecido como “Manuscrito Alfield”, é documento singular por três diferentes razões.
  • Primeira: porque o texto de uma versão inglesa de 1483 de uma crónica francesa, ‘La Vraye Cronicque de Malemort’, foi preservado para a posteridade unicamente nesse manuscrito;
  • Segunda: porque o conteúdo dessa crónica francesa foi também preservado unicamente nesse manuscrito, pois não se conhece documento algum que o tenha preservado na língua original;
  • Terceira: porque essa crónica perdida também apresenta uma singularidade própria, pois trata-se do único documento histórico de que têm conhecimento os especialistas que traz detalhadas informações sobre a guerra civil ocorrida em 1356 no condado de Níniva desde as suas mais remotas origens até o seu desfecho.
Se a cópia que chamamos de ‘Manuscrito Alfield’ não tivesse sido feita e preservada, todas essas informações (além de muitas outras) se teriam perdido irreversivelmente para o historiador interessado no cenário social, político e militar do século XIV em países como França, Inglaterra e, mais particularmente, os Países Baixos.
Aceitei com grande relutância a posse deste manuscrito, até concluir o trabalho de edição crítica do documento para eventual publicação, quando então será doado ao Museu Britânico, sendo assim, comme il faut, devolvido ao país de origem. Quanto a este artigo, foi divulgar algumas informações preliminares de carácter geral sobre a história e o conteúdo do manuscrito a quem quer que possa interessar.

La Vraye Cronicque de Malemort
‘La Vraye Cronicque de Malemort’ é uma crónica francesa escrita na primeira metade da década de 1370 no convento cisterciense de Dannemarie, situado no antigo condado de Níniva, condado que se acotovelava entre várias outras pequenas nações, a saber, Visgo e Luxemburgo, Flandres, Frísia, Zelândia, Holanda, Hainaut, Brabante e o bispado de Brei, para compor um conglomerado político ao norte da França. Como toda e qualquer crónica medieval, trata-se de um registro de factos reais, embora composto com certa medida de diálogo e de drama e prejudicado por rasgos de exagero, inconsistência e ingenuidade.
Em sua essência a crónica conta a história de Roger de Giac, senhor de Malemort (poderoso vassalo do conde de Níniva), de sua filha, Katherine, e de seus quatro filhos, acompanhando-lhes o itinerário de vida através de virtude ou pecado, amor ou ódio, lealdade ou traição, martírio ou homicídio, até o trágico desfecho que sela o destino de toda a família no ano de 1356. No entanto, o documento é fonte histórica preciosa para o estudo da política de Níniva no conturbado decénio de 1347-56, pois é no drama doméstico de Malemort que têm origem certos incidentes que vão culminar numa rebelião contra o conde Carlos de Nalles levada a efeito por um grupo de seus vassalos.
Embora de duração efémera (não mais que dois meses) essa rebelião teve importância pelo menos por três motivos.
  • Primeiro, por sua própria natureza de levante de vassalos contra seu senhor, na época um dos crimes mais graves da estrutura social e política da Europa;
  • Segundo, porque os rebeldes contaram também com o franco apoio de príncipes vizinhos, Bartolomeu de Queiem, duque de Visgo, e Norberto de Florbeche, bispo de Brei;
  • Terceiro, porque pouco faltou para que os rebeldes alcançassem seus objetivos políticos e militares.
Apesar disso, são raras e superficiais as referências ao levante em registos da época, talvez devido à rapidez com que foi abafado; aliás, nem mesmo alguns dos principais historiadores que se dedicam à história de ‘Níniva’, como Pieter Koontz e Arnold Craenhals, dão à revolta mais que dois ou três parágrafos de referência passageira e trivial. Koontz aponta como líder da revolta o cavaleiro Jean d’Oultreleaue e não Giles Blanchemains, cujo nome nem chega a mencionar em sua História geral de Níniva na baixa Idade Média (Liège, 1938). Uma exaustiva análise historiográfica da crónica será feita na edição crítica do manuscrito.

Um original perdido
‘O Manuscrito Alfield’ é um códice que contém cópia da tradução para o inglês médio de uma crónica escrita em francês, La Vraye Cronicque de Malemort, de autoria de um monge cisterciense do convento de Dannemarie, no condado de Níniva. Tanto quanto podem afiançar os especialistas, nenhum manuscrito com o texto francês original dessa crónica sobreviveu. Sem dúvida estaria ela destinada a juntar-se a outras centenas (quem sabe milhares) de documentos medievais perdidos na travessia até os dias de hoje não fosse uma série de intervenções eu diria milagrosas. Crê-se que seu conteúdo tenha sido preservado tão somente na oportuna tradução para o inglês concluída em 1483. Essa versão inglesa preservou-se por sua vez apenas numa cópia feita em 1516 que, por ínvios caminhos de que trataremos mais adiante, foi trazida para a América do Norte em fins do século XIX. Aqui no Novo Mundo, depois de atravessar cinco décadas em segredo e isolamento numa biblioteca particular, foi-me confiada para fins de elaboração da edição crítica e posterior publicação.
É muito provável que o manuscrito original da crónica em francês tenha tido pouca ou nenhuma circulação. Nem é tão absurdo supor que o texto não tenha existido a não ser no próprio manuscrito original, que certamente desapareceu no grande incêndio de 1488 que destruiu a maior parte do acervo da biblioteca abacial. Se o tradutor inglês executou sua tarefa in loco em Dannemarie a partir do manuscrito original, ou na Inglaterra, munido de uma possível cópia ou, por mais improvável que possa parecer, do próprio códice original, trazido sabe-se lá como do continente às suas mãos, eis aí um dos muitos segredos que pairam sobre a história desse texto. Nem podemos confiar no facto de ter o tradutor indicado Londres em sua nota final como local em que concluiu o trabalho: pode ter escrito em Londres apenas a nota final, datando-a de acordo. Seja como for, a cópia do original francês exportada para a Inglaterra, se existiu, mais o manuscrito original do tradutor inglês e quaisquer outras cópias feitas desse documento exceto aquela agora conhecida como Manuscrito Alfield também desapareceram em circunstâncias de que não podemos, até agora, fazer a menor ideia». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT