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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Poesia. Matilde Campilho. «… em cada copo de minha cidade um dia você diz que me a… eu a…-te no dia seguinte a amendoeira se expande e floresce cinco folhas mais nesse dia reparo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Rio de Janeiro. Lisboa
«Um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda

três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego

No outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas

fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu

e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a…
eu a…-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento
da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta».

In Matilde Campilho, Jóquei, Coordenador da colecção Pedro Mexia, Lisboa, Edições Tinta-da-China, 2014, ISBN 978-989-671-213-6.

Cortesia de ETintadaChina/JDACT

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Poesia. Matilde Campilho. «Aquele que pinta a natureza, o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em posição horizontal, de corpo muito junto ao chão»

Cortesia e wikipedia e jdact

Explicação do sopro
«Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel
porque nos lugares anónimos é muito possível ficar encosta-
do numa parede branca vendo a água correr no chão do chu-
veiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam quatro-
centos e vinte quilómetros até achar a costa. Ao alcançá-la,
tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lom-
bar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada
do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro
horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um
conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um
dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de
Deus. O motorista do ônibus sabe perfeitamente que dentro
da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de jóias
que contém uma caixa de medicamentos que contém uma
caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba
está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura
de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está
consciente também de que todo o desenho acha sua acústica
perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza,
o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em
posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por
acaso o observarmos no processo por mais de sete minutos,
podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca
a tela, sempre na mesma cadência. A moça de vinte e sete
anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio
rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos esco-
lher. Entre o batom alaranjado, a carabina calibre 12, o pó
de arroz e o crucifixo em miniatura vai uma distância de dois
passos a galope».

In Matilde Campilho, Jóquei, Coordenador da colecção Pedro Mexia, Lisboa, Edições Tinta-da-China, 2014, ISBN 978-989-671-213-6.

Cortesia de ETintadaChina/JDACT

sábado, 31 de agosto de 2019

No 31. Poesia. Matilde Campilho. «Isto é um poema não fala de comoções na missa das sete nem fala da percentagem de mulheres que se espantam com a imagem do marido aparando a barba no ocaso»


Cortesia de wikipedia e jdact

Jóquei
Príncipe no Roseiral
«Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima.
Não fala do lago drenado
na floresta americana.
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou.
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso.
Não fala de tractores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários.
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos.
Nem de manadas de cervos.
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé.
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado.
Não vai melhorar.
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa».

In Matilde Campilho, Jóquei, Coordenador da colecção Pedro Mexia, Lisboa, Edições Tinta-da-China, 2014, ISBN 978-989-671-213-6.

Cortesia de ETintadaChina/JDACT

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Poesia. Matilde Campilho. «Você falava que os dólares vinham sempre com uma forma diferente eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jóquei
FUR, com cara de Whitman

«foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste eléctrico
sempre pendurado num ramo qualquer
sempre usando o Verão.
Você se lembra daquele Verão no Brooklyn
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
Você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
Você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklyn como se nunca nos houvesse visto antes?
E não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklyn.
Me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
Você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso
foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha

foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. Eu também não.
Me lembro de você na mercearia
do Brooklyn você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
Se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black & Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black & Decker enfiado no cinto.

Foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.

Só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não».

In Matilde Campilho, Jóquei, Coordenador da colecção Pedro Mexia, Lisboa, Edições Tinta-da-China, 2014, ISBN 978-989-671-213-6.

Cortesia de ETintadaChina/JDACT