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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Construção da Casa do Ser. Manuel Nemésio. Leituras. «Por isso o artista anda sempre preocupado e inseguro no seu antetrabalho de pesquisa, num estado febril de encubação. O artista, para se projectar, tem antes de se injectar, mas nada de cocaínas, claro, que isso é perigoso e inautêntico»

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30-07-84
«O vento lá fora canta. Começo a adormecer. Boa noite Bachelard de ‘La poètique de l'éspace’. Boa noite meus irmãos. Umberto Eco - Le nom de la rose - oferta de minha irmã Ana Paula, prenda de anos. Seiscentas e trinta páginas para ler e digerir. Urbano Tavares Rodrigues diz que toda a gente o compra, mas poucos o lêem. Vamos a ver... Pelo lado que me compete, parece-me que o autor encontrará um leitor atento. Esta coisa do Diário lembra-me o Torga que já vai no décimo terceiro e que, mesmo com ele, nem tudo o que luz é ouro... Mas... adiante com o Nocturno ao claro-morno do candeeiro de petróleo. Sete crimes serão cometidos ao longo das seiscentas páginas de Eco, estilo romance policial com requintes medievais. E aqui estou eu para pactuar com os criminosos, na doce paz dum leito horizontal. A arquitectura dum romance é como a duma casa; não se faz sem alicerces. Por isso tantas vezes se constroem casas no ar sem que se cimentem as ideias. A estrutura é essencial; é preciso criar corpo, criar matéria, para que a forma se sinta segura, englobante sim, mas recriativa. Há toda uma medida desmedida que é urgente desenvolver num desabrochar da flor, num desabrochar da forma. Mas a forma não engloba ab aeterno, antes terá de ser flexível na passagem da flor ao fruto que engendrará novas formas.
Teremos portanto que comer o fruto, para que não caiamos na queda livre das formas desmanteladas. Por isso o artista anda sempre preocupado e inseguro no seu antetrabalho de pesquisa, num estado febril de encubação. O artista, para se projectar, tem antes de se injectar, mas nada de cocaínas, claro, que isso é perigoso e inautêntico. Será?!... Não será?!... Tudo é possível... O estilo dum escritor cultiva-se, como as rosas a quem depressa caem as pétalas, ficando no entanto os espinhos na lembrança, para novas sangrias. Um operário das letras tem de trabalhar todos os dias para que seja livre, para que se liberte, com garantias de alicerces.

31-07-84
Mas não... O castelovidense é necessariamente um feliz caldeamento do açoriano de S. Miguel, mesurado, bravio e cantante, com o alentejano, lento, mas a contento, de poucas falas, mas certeiro no que diz e refere. À alegria despreocupada e saltitante do primeiro ramo junta-se a compostura sólida dum tronco de castanheiro, bem direito e firme como madre. À bonomia dum, junta-se a ligeireza e o não-te-rales, cantante e agudo, do outro. A traços largos, é este o perfil do homem de Vide. A mulher acompanha-o dando-lhe filhos e vasos de flores pela Rua Direita do Castelo acima. Boa tarde minhas senhoras!... Boa tarde senhor comandante... Mas que lindas flores que vocês têm... mesmo lindas... E como as senhoras as tratam com tanto esmero!... É verdade senhor comandante, é bem verdade senhor comandante, traga-me o senhor um vasinho que nós deitamos terra e plantamos um raminho». In Manuel Nemésio, Construção da Casa do Ser (ou Roteiro Sentimental de Castelo de Vide), Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-39--5.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Construção da Casa do Ser. Manuel Nemésio. Leituras. «É maravilhoso podermos afirmar que o homem é, a cada instante, o novo homem, o homem mais, que contém em-si a pomba, cada vez mais branca e translúcida do espírito santo, ámen, da coisa-em-si»

29-07-84
«Apenas e só, sem mente, quatro horas da madrugada. Depois dum grande dia de calor, anteontem, o tempo refrescou ligeiramente e ontem, ao cair da tarde, o céu encheu-se de nuvens, o vento cresceu e a chuva ameaçou cair, caindo mesmo um pouquinho.
Regressei de Lisboa onde fui festejar os cinquenta e quatro anos civis,... Com igual número de solares e contando já com treze bissextos. É muito para uma vida, mas promissor para uma vida ainda maior, que Nosso Senhor me poderá dar se para aí estiver virado... e está... porque Nosso Senhor é um girassol perpétuo a girar, tal um farol sempre aceso raiando em todas as direcções. Obrigado meu Deus pela luz que me dás no raio que me dedicaste.
As obras continuam. Ontem, mestre Francisco Grincho deu os últimos remates no soalho do segundo andar. Há que compor a lareira. Vai ser colocada baldosa sobre rede, com fina camada de cimento, para ficar leve e consolidada. Não esqueceremos as duas boas lajes de granito, ao centro, as que já tinha, para garantir um bom lume multifacetado e colorido. A chaminé tem uma tiragem esplêndida, onde o poder mágico do Fogo nos irá oferecer longos serões de cavaco e de trabalho de criação. Que Bachelard nos ensine a desvendar o enigma do Fogo sagrado do tempo!...

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Do tempo? Sim... Dum tempo bonito e aliciante. Não apenas do tempo cronológico, fictício, do cronos, que aproxima os povos na disciplina do horário e nos compromissos dos homens, onde o tempo do lançamento do foguetão e da nave conta sempre para um devir indeciso pela incerteza do sucesso e onde a tragédia ronda tal como o Diabo à solta. Mas não há-de ser nada. O homem é dialéctico e como tal optimista. No entanto, cuidado com os micro-segundos das fatais decisões. Verdadeiramente, para o homem, é o tempo psicológico que mais conta:
  • ‘o meu tempo, o teu tempo, o nosso tempo, o tempo de cada um. Tempo e espaço convidam-se mutuamente numa caridade hospitaleira, bem necessária para a harmonia do mundo-homem’.
O espaço convida o tempo a preenchê-lo. O tempo é másculo, o espaço fêmea. O tempo pede ao espaço para que se alargue na garantia perpétua dum infinito necessário. A verdade é cada vez mais certa, na certeza dum nunca ser. Temos assim a garantia perpétua da imortalidade humana na maratona da criação dum novo mundo, sempre recriado no compasso da ressurreição. É maravilhoso podermos afirmar que o homem é, a cada instante, o novo homem, o homem mais, que contém em-si a pomba, cada vez mais branca e translúcida do espírito santo, ámen, da coisa-em-si.
O vento lá fora canta. Começo a adormecer. Boa noite Bachelard de ‘La poètique de l'éspace’. Boa noite meus irmãos». In Manuel Nemésio, Construção da Casa do Ser (ou Roteiro Sentimental de Castelo de Vide), Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-39-5.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Leituras. Construção da Casa do Ser. Manuel Nemésio. «… em substituição do antigo, que foi hoje tapado com tijolo e cimento pelo mestre José Parrichon para assentar a madre e os barrotes de castanho velho para suporte do soalho da lareira que será colocado e travado pela mão certeira de mestre Francisco Grincho»

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25-07-84
«É quase uma da noite. O dia que passou foi rigoroso de trabalho, de paciência e de confiança. Levantei-me cedo, cerca das seis e meia, já com a claridade fresca das primeiras horas do raiar do Sol. Tudo a postos, tudo bem. Custou-me um tanto saltar da cama, mas, de repente, aí vou eu, de botas anti-cascalho e de fato de treino como quem se está a preparar afincadamente para um decisivo combate de boxe: dez carros de entulho; parede do fundo da casa-de-banho completamente descascada, com mais um arco em ogiva à vista que terá de ser coberto a tijolo, com o carinhoso cuidado de o não danificar, com a instalação de canos de água. Fica registada a descoberta arqueológica, a terceira desde o início das obras. Não havia água desde sábado. Decidi ir tomar banho à barragem e fazer uma barrela de roupa que pus a corar no dorso das pedras paquidermes com um Sol radioso de brancura. Lembrei-me das pernas de alva, por ali acima, das lavadeiras do Mondego, fruto da adolescência, curiosidade de quem, excitado, procura o desconhecido com a marca do proibido. Por essa altura, além da roupa, coravam também as mocinhas lavadeiras pelos piropos que recebiam.
As mais velhas, às vezes as mães, já mais estragadas pela idade e pelo peso diário dos açafates de roupa lavada, a distribuir pelas freguesas, donas de casa, com quem regateavam o preço de cada peça, alegando o último aumento da barra de sabão azul, enxotavam a garotada chamando-nos de desenvergonhados. Por vezes atiravam-nos pedras e nós ríamos ao desafio indo tomar banho, nus, para a ínsua do Vale d’Azenha, ou para os bocais de passagem junto aos moinhos do pão do Mondego. Ao fim da tarde, regressava o bando, depois dum bom dia de pesca ao peixe à toca em que o Midota era o exímio, trincando-os na boca, aos dois e três, num só fôlego de mergulho. Santa vida aquela que por vezes redundava numa tareia de minha Mãe por termos chegado tarde a casa, ou então num pequeno, quase nulo, ralhete de meu Pai, que vinha preocupadíssimo ao nosso encontro pelos Malheiros adiante e que, todo contente, por nos ter finalmente encontrado, nos dava suavemente, e a compasso, com a bengala nos tacões, à laia de maestro. Quando chegávamos a casa era jantar, lavar a focinheira e os pés e toca para a cama, a sono solto; até de manhã.
Boa noite filhota. Boa noite minha gatinha do teu Manuel amoroso. Amanhã faço cinquenta e quatro anos, noves fora nada, o que é importante. E a minha netinha Inês faz o seu primeiro mês. Vou-lhe dar uma colher de prata que achei no entulho por obra de milagre de Nossa Senhora d’Alegria. - Boa noite meus filhos Gonçalo, Rui, Assunção, Kika, Nucha, Miguel e Pedro. Boa noite meu Santo António que me olhas daí, dum cestinho da pesca, enquanto aguardas que te faça o teu novo altarzinho, em substituição do antigo, que foi hoje tapado com tijolo e cimento pelo mestre José Parrichon para assentar a madre e os barrotes de castanho velho para suporte do soalho da lareira que será colocado e travado pela mão certeira de mestre Francisco Grincho. Boa noite a todos e à noite também que mansamente nos cobre com um manto de bom sonho.
Tem graça, nunca sonhei senão a preto e branco! A minha filha Nucha sonha sempre a cores, é mais moderna, mais contemporânea. E já agora, a propósito de cores, que magnífico aquele livrinho, dum astrofísico canadiano, ao alcance de todos: "um pouco mais de azul", com um extenso e infindável mundo estelar de milhões anos-luz, enquanto, cá em baixo, a meia altura, o Principezinho de Saint-Exupéry prepara cuidadosamente a recepção desses fascinantes raios de luz, limpando as crateras dos vulcões com um escovilhão. Do mundo estelar, onde o caos tende para o cosmos, ao meu pequeno mundo da casa do Terreiro da Senhora d’Alegria, a distância não é grande. O cosmos surgirá um dia. Para já, a revolução, mas a revolução pacífica dum filósofo de carapuça, deitado em cama de través com elegantes pernas de cadeiras acima do horizonte, como se estivessem no céu, ou a caminho. Uma delas, a austríaca de balanço, já voou ligeira e já brilha no firmamento como estrela de primeira grandeza. Bengalas, tachos de cobre, tapetes de trapos de Coimbra, dois lavatórios de ferro e algumas teias de aranha completam o cenário deste céu fictício donde eu sou o centro, o egocentro um tanto excêntrico, com este ar distraído de filósofo aprendiz. E os quadrinhos na parede!... Tão românticos: Pai, Mãe e Filha, sentados, com punhos de renda e vestidinhos de folhos, olhando embevecidos para o cão fiel que marca o compasso da harmonia. Entretanto, no chão, além do penico, tenho vários pares de calçado para as solenidades múltiplas dum dia em Castelo de Vide. Uma fina camada de pó chama a atenção para uma escova que faz prodígios. Limpa fatos e tudo e o pó esvoaça dumas coisas para as outras de modo idêntico à fecundação das flores. Esta desordem é simplesmente magnífica. Opera e sobreleva a ordem hierárquica do acaso sobre a causa e o efeito, programados pelos enfadonhos computadores sem vida, accionados a botão e tecla. Ora, que eu saiba, botões, só de rosas ou então de camisas e de cuecas à moda antiga, e teclas, só de piano ou de órgão onde o artista dedilha o maravilhoso número sete do diapasão de Frederico Chopin e de João Sebastião Bach.
E por hoje basta... quedemo-nos um pouco na música pura: o Silêncio Absoluto». In Manuel Nemésio, Construção da Casa do Ser (ou Roteiro Sentimental de Castelo de Vide), Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-39--5.

Cortesia de E. Colibri/JDACT