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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

A Revolução da Mulher das Pevides. Isabel Ricardo. «Napoleão Bonaparte sabia bem tocar nas feridas e influenciar quem desejava. Fora só sugerir o plano implacável de retalhar Portugal em três partes…»

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«(…) Ainda antes mesmo de receber a resposta definitiva do príncipe regente de Portugal, a invasão já fora decidida há muito tempo. O seu comandante, o general Junot, em 5 de Setembro, já ultimava os derradeiros preparativos. Muito bem. Amanhã mesmo, 18, partirão. Os olhos de Jean-Andoche Junot brilharam de entusiasmo e emoção. O imperador fitou três dos homens que estavam diante de si, um a um, como se os avaliasse mentalmente. A primeira divisão do exército da Gironda terá o seu comando, Delaborde, com 9609 homens e 812 cavalos. Henri-François Delaborde, um homem de 42 anos, alto, aspecto distinto e olhos brilhantes, bateu com os tacões das botas em sentido, ao mesmo tempo que fazia uma vénia. Agradeço a confiança, Vossa Majestade. Napoleão fixou um homem de 36 anos, sem o braço esquerdo, cuja manga do casaco estava dobrada. Este tinha um aspecto sinistro e ameaçador. De cabelos escuros encaracolados e longas patilhas no rosto antipático de feições vincadas, nariz comprido e fino, os olhos pequenos e vivos de expressão cruel, reforçada pelos lábios muito finos que quase desapareciam numa linha. Uma personagem perigosa, talvez a pior daquele grupo de militares.
Loison comandará a segunda divisão, consistindo esta em 4984 homens e 109 cavalos. O general Henri-Louis Loison fez um leve aceno de cabeça, mantendo-se imperturbável. A terceira pertencerá a Travot, com 8389 homens e 620 cavalos. Jean-Pierre Travot, de 40 anos de idade, pôs-se em sentido, muito sério, agradecendo. Possuía um rosto mais sereno, quase o oposto de Loison. O general Kellerman comandará a cavalaria, a engenharia pertencerá ao coronel Vincent e a artilharia ao general de brigada Traviel. Junot será o comandante-em-chefe do exército. Três outros homens ainda não tinham falado, esperando ordens. E os espanhóis, Majestade?, inquiriu Junot, com a familiaridade da amizade de muitos anos com Bonaparte, quando era seu ajudante-de-campo, ainda ele não era o imperador temido e sim um oficial, de origens humildes. Podemos contar com eles como prometeram, com homens e mantimentos? Um sorriso astucioso surgiu no rosto de Napoleão Bonaparte. Claro. A Espanha caiu ingenuamente na minha armadilha, habilmente montada, vítima do rancor e ódio cegos que ainda vota a Portugal. Foi facilmente manobrada, brilhantemente aliciada para o meu lado. Foi só espicaçar-lhe a cobiça com um apetitoso isco. Aquele território que um dia lhe pertenceu e que jamais deixou de cobiçar.
Napoleão pegou num documento que se encontrava sobre a enorme secretária e mostrou-lhes, com um risinho malicioso. O Tratado de Fontainebleau (assinado por Michel Duroc e E. Izquierdo, em representação de França e Espanha, dividia Portugal em três fatias: Lusitânia Setentrional, região entre o rio Minho e o rio Douro, um principado que seria governado pela rainha do extinto reino da Etrúria, uma filha do rei de Espanha; Algarves, compreendendo Alentejo e Algarve, território a partir do sul do Tejo, futuramente governado por Manuel Godoy, com o título de rei; Resto de Portugal, compreendendo as províncias da Estremadura, Beira e Trás-os-Montes, território importante estrategicamente devido aos seus portos, devia ser governado directamente pela França. As colónias portuguesas seriam divididas depois entre a Franca e a Espanha) que brevemente será assinado...
Napoleão Bonaparte sabia bem tocar nas feridas e influenciar quem desejava. Fora só sugerir o plano implacável de retalhar Portugal em três partes, uma delas para França, outra para Castela e a restante para Manuel Godoy, o primeiro-ministro do rei de Espanha, para conseguir aliciar o reino espanhol para o seu lado. Isso fora relativamente fácil. Espanha traía de novo o seu vizinho mais chegado, unido a ele por tantos laços histórios e familiares. Um hermano como por vezes lhe chamava, quando lhe era conveniente… Já anos antes, quando tropas portuguesas (campanha do Rossilhão) se tinham juntado às espanholas, integradas na primeira aliança, chefiada pelos ingleses, para deter a revolucionária França, a Espanha, súbita e sub-repticiamente, fizera a paz (Tratado de Basileia, em22 de Julho de 1795, assinado por Manuel Godoy, vindo-lhe daí o título de Príncipe da Paz) com a inimiga França e atraiçoara Portugal e Inglaterra, esquecendo os motivos para se ter integrado na aliança, vendo somente a contrapartida oferecida pelos franceses. O reino de Portugal há muito cobiçado, não só pela excelente posição geográfica que ocupava, mas também pelo vasto e apetecível império ultramarino, perdendo-se na altura Olivença (curto conflito militar entre Portugal e Espanha, em 1801, conhecido jocosamente como Guerra das Laranjas, onde se criou o problema de Olivença) para a paz se fazer entre os dois reinos». In Isabel Ricardo, A Revolução da Mulher das Pevides, 2015, Edições Saída de Emergência, 2015, ISBN 978-989-637-855-4.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A Revolução da Mulher das Pevides. Isabel Ricardo. «O ultimato deveria ser executado até ao dia 1 de Setembro, senão dar-se-ia a invasão pelas tropas franco-espanholas no território português»

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«Europa, ano de 1807. No antigo continente abatera-se um terrível furacão que estava a arrasar tudo à sua passagem: Napoleão Bonaparte. Este homem estava decidido a tornar-se Imperador do Mundo e para isso precisava de calcar, aos seus pés, todos os reinos que lhe fizessem frente. Todos iam caindo diante dele, um a um, humilhados, esmagados sob as suas botas implacáveis e as do seu magnífico e feroz exército que não hesitava em cometer as maiores atrocidades para conseguir espezinhar os ideais e a independência desses reinos que eram obrigados a renderem-se perante tão grande ameaça, para evitar mais derramamento de sangue. França era a maior potência da época, só rivalizada por Inglaterra, que se revelava mais forte no mar. Bonaparte envolvera-se numa guerra feroz contra Inglaterra (bloqueio continental, 1806), decidido a destruí-la a todo o custo. Forçava os outros reinos a declararem-lhe guerra e a aliar-se a ele. Os que recusavam cumprir as suas ordens eram considerados inimigos, sujeitando-se às mais ferozes retaliações e invasões sangrentas. A França mantinha cerca de 620 000 homens de armas, número espantoso e bastante assustador para todas as nações da época. Como tal, o velho continente estava praticamente aos seus pés... Obedecia-lhe temerosamente, receando a sua vingança e os seus exércitos impiedosos. Faltava-lhe apenas subjugar, na Península Ibérica, a ponta mais ocidental da Europa, Portugal...

França, Outubro de 1807. No Palácio de Bayonne, num enorme salão luxuosamente decorado, perto da janela, encontrava-se um homem de 38 anos, de estatura baixa, cabelos e olhos escuros. Napoleão Bonaparte. Estava com uma expressão pensativa, mas ao mesmo tempo satisfeita. O seu grandioso sonho de uma única nação na Europa, os Europeus, unida sob um mesmo ceptro, o seu, com o mesmo código de leis, o mesmo sistema judiciário, estava prestes a concretizar-se. Por instantes o seu rosto ensombrou-se, irritado. Para que o seu projecto de bloqueio resultasse na perfeição, necessitava despojar Inglaterra de qualquer contacto com o seu único e ultimo aliado na Europa: Portugal, pequeno país à beira-mar, detentor do maior porto marítimo europeu. Era imperioso esmagar aquela ocidental praia lusitana, como Luís de Camões lhe chamara.
Depois de tantos anos aliado de Inglaterra este reino negara-se a obedecer às ordens imperiosas de França para declarar guerra ao seu mais velho aliado. Recusara-se a fechar os portos aos navios britânicos, a prender todos os cidadãos ingleses residentes no seu reino e a confiscar os seus bens. Por isso, Napoleão dedicava um intenso ressentimento e ódio a Portugal, não só pela sua lealdade a Inglaterra, mas por possuir excelentes portos dos quais a esquadra inglesa usufruía abertamente e, sobretudo, porque uma esquadra portuguesa ajudara uma inglesa a derrotar a marinha francesa no Mediterrâneo. O imperador observara a chegada de um grupo de militares em vários coches, encaminhando-se depois, muito solene, para a escadaria que se dirigia para o interior do palácio. Très bien! Não demoraram.
Napoleão Bonaparte desviou o olhar da rua e afastou-se da janela em passadas lentas, mas firmes, aproximando-se de uma enorme secretária. Pouco depois ouvia-se bater à porta dupla e um soldado vestido com farda de gala entrou. Vossa Majestade, os generais chegaram! Napoleão fez um sinal imperioso com a mão, numa ordem inequívoca de os fazer entrar. Segundos depois, o grupo de militares, muito circunspecto, entrou. Fizeram-lhe uma vénia respeitosa, parecendo animados. Junot, as tropas estão prontas? Um homem de 36 anos, um pouco mais alto do que ele, cabelos e olhos escuros, de figura elegante e expressão arrogante, fez um aceno afirmativo com a cabeça, nada surpreendido com a pergunta repentina. Tal como Vossa Majestade ordenou no dia 8 de Outubro. As tropas estão a postos para partir.
Os acordos secretos entre Espanha e França já vinham desde Julho, e em Agosto, em Bayonne, na fronteira franco-espanhola, já se concentravam as tropas para a invasão de Portugal, formando-se um poderoso e temível exército com o nome de Corpo de Observação da Gironda, e isto apesar de os representantes diplomáticos de França e Espanha terem entregado a João, príncipe regente de Portugal, o seu derradeiro ultimato. Portugal, sob risco de se tornar seu inimigo, teria de se aliar a eles e cumprir o que estava estipulado no Bloqueio Continental. O ultimato deveria ser executado até ao dia 1 de Setembro, senão dar-se-ia a invasão pelas tropas franco-espanholas no território português». In Isabel Ricardo, A Revolução da Mulher das Pevides, 2015, Edições Saída de Emergência, 2015, ISBN 978-989-637-855-4.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

domingo, 4 de setembro de 2016

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Barnabé recuava, assustado com a expressão do outro, que, mau-grado seu, manejava a espada na perfeição. Pronto, pronto, senhor fidalgo! Olhe que pode magoar-se com essa espada nas mãos! Não se altere!»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

«Gualdim é o seu nome
destemido mascarado
ao povo mata a fome
ao ministro deixa preocupado».

«(…) Todos se voltaram ao ouvir a voz grave do mascarado. Vários pares de olhos brilharam de emoção. Capitão Gualdim! Barnabé estremeceu. Tinha ordens para avisar as autoridades sempre que visse a misteriosa personagem que fazia a vida negra ao ministro e seus comparsas. Só que o terror que lhe tinha também era muito. Por fim, decidiu-se pelo medo que sentia das torpes vinganças de Miguel Vasconcelos. Fez sinal a uma mulher que espreitava do lado de dentro da taberna. Virou-se, mais descansado, pois esperava ajuda rapidamente. O fidalgo não se meta onde não é chamado! Isto é um assunto que tem de ser resolvido entre mim e este bandido! O cavaleiro aproximou-se mais do outro homem., que começou a tremer que nem varas verdes, cobarde como todos os fanfarrões. Isso é o que você pensa. Ou deixa de bater no rapaz ou, juro por Deus!, trespasso-o imediatamente com a minha espada! O taberneiro fitou-o em ar de desafio. Eu não recebo ordens de um mascarado. Este desmontou e, de um salto, acercou-se dele. Arrancou-lhe a chibata das mãos e desembainhou a espada, encostando-lha ao pescoço. Barnabé recuava, assustado com a expressão do outro, que, mau-grado seu, manejava a espada na perfeição. Pronto, pronto, senhor fidalgo! Olhe que pode magoar-se com essa espada nas mãos! Não se altere! O rapazola observava a cena, boquiaberto. Nunca antes vira o enigmático cavaleiro. Já nem sentia as dores do corpo, tal era a emoção que o dominava. As pessoas observavam tudo, quase sem respirar. Sempre que o capitão Gualdim fazia uma das suas misteriosas aparições, era como se houvesse magia no ar. Todos pareciam viver o mesmo sonho, maravilhoso e emocionante. O que fez o pobre rapaz para o castigar desta maneira? Gostava que eu lhe fizesse o mesmo com a minha espada?, inquiriu o justiceiro, com os olhos brilhando ameaçadoramente. Com a ponta da lâmina fez-lhe um corte superficial no pescoço. O taberneiro soltou um grito de horror. Pela sua cabeça passaram mil horríveis imagens, entre elas a do mascarado cortando-o às postas fininhas, com ar maquiavélico. Recuou, violentamente, contra a parede. Atemorizado, os olhos reviravam-se-lhe de uma maneira esquisita. De branco, passou a esverdeado, enquanto o diabo esfrega um olho.
Tentou recuar ainda mais, só que a parede não lhe acompanhava o passo. Curiosamente, metera-se entre a espada e a parede... Ó, senhor fidalgo..., esse rapaz é um ladrão..., e um comilão! Saiba vossa senhoria que me roubou metade de um pão, depois de ter comido a parte que lhe cabia para um dia inteiro. Vossa majestade há-de concordar que é um bandido! Pior que um desses reles salteadores de estrada!, disse, com um suor frio escorrendo-lhe da testa. Gesticulava aflito com as mãos, como se quisesse impedir o mascarado de lhe tocar. Gualdim dobrou a espada, demonstrando a sua flexibilidade. Depois, com a ponta do dedo enluvado, carregou na ponta da lâmina. Tinha um ar desinteressado. De repente, fez uns gestos rápidos com a espada, mesmo em frente do nariz do avarento, deixando-o sem pinga de sangue. As pernas deste fraquejaram e caiu de joelhos no chão. O povo desatou a rir às gargalhadas, nada fazendo para disfarçar o seu contentamento por ver castigar um tão grande e nojento delator. Parece-me que a lâmina precisava de ser mais afiada…, observou o mascarado, com um esgar de contrariedade na boca trocista. Olhou de esguelha para o outro, sorrindo do seu pavor. Encostou-lhe de novo a espada ao pescoço, obrigando-o a levantar-se. A cara dele quase se confundia com a parede. Sabe o que se passa, Judas de trazer por casa? É que não aprecio nada quem denuncia os companheiros. E quando isso acontece, gosto de afiar a minha lâmina nos corpos desses infelizes. É uma fraqueza minha… Que hei-de fazer?! Não sujeis a espada em mim, meu querido e poderoso senhor! Não mereço tamanha honra de vossa senhoria! O capitão Gualdim soltou uma gargalhada, ao mesmo tempo que embainhava a espada. Um sorriso misterioso aflorou-lhe aos lábios. Fez-lhe uma vénia, que deixou o taberneiro desconfiado e ainda mais atemorizado. Pois tem muita razão. Realmente a sua reles pessoa não merece que manche a minha lâmina em tão ultrajante sangue! Terá um outro castigo que nada tem a ver com pauladas, chicotadas ou qualquer outra punição corporal... Toda a gente se entreolhou, sem evitar um sorriso e tentando adivinhar que castigo o justiceiro reservava ao sovina e cruel Barnabé. Um largo sorriso apareceu na cara dele, deixando ver uns dentes podres e amarelos, nunca limpos em toda a vida». In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Naquele momento, surgiu um cavaleiro todo vestido de negro, montado num cavalo. À ordem do dono, o animal estacou, empinando-se nas patas traseiras. Largue o rapaz!»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

Gualdim é o seu nome
destemido mascarado
ao povo mata a fome
ao ministro deixa preocupado.

«(…) Não me bata mais, senhor! Por favor, senhor, perdoe-me! Não me bata mais! Um rapaz de dezoito anos, baixo e esguio, de cabelo escuro encaracolado berrava como um possesso. Estava amarrado a um poste de madeira, que normalmente servia para prender as rédeas dos cavalos. Encontrava-se diante de uma taberna escura, de mau aspecto, com muitos cheiros à mistura, entre eles o do chouriço assado nas brasas e vinho entornado. Não primava pela limpeza. Uma tabuleta ferrugenta permitia que os transeuntes se apercebessem de que estabelecimento se tratava. Quem lhe batia era baixo e atarracado, gordo, de cabelo escorrido e oleoso e olhar traiçoeiro. Taberneiro de muito má fama, avarento e amigo de trair o próximo por duas patacas, era conhecido do povo o seu empenho em servir a coroa espanhola, tratando de informar aos capachos do ministro português o que fulano ou beltrano dissera a respeito dele, para conseguir proveitos a seu favor. Por isso a freguesia era escassa e quem lá ia tratava de permanecer de bico calado, senão, quando menos esperasse, encontrar-se-ia preso no castelo de São Jorge, como já a muitos infelizes acontecera.
Maldito!, gritou o taberneiro, com um olhar cheio de raiva. A expressão do rosto revelava a crueldade e a mesquinhez de carácter. Chicoteava o jovem com satisfação e ar sádico. Voltou a deixar cair a chibata sobre o corpo indefeso. Um grito de dor sucedeu à pancada. Alguma gente já ali se juntara, atraída pelos gritos doloridos de alguém. Tentavam saber qual a razão para haver tal cena, mas ninguém sabia responder e também não se atreviam a interferir no assunto, sabendo dos contactos que o avarento tinha com as autoridades. O que fez o rapaz para o taberneiro lhe bater desta maneira?, perguntou um homem, de farfalhudo bigode. Olhava para outro, que chegara primeiro ao local. O interpelado encolheu os ombros. Uma mulher de lenço preto na cabeça e cesto de limões enfiado no braço observava a cena, contristada. Coitado! Mas o que foi que ele fez? Ninguém sabia responder.
Uma carroça carregada de tonéis passou pela taberna, tendo de abrir caminho entre toda aquela gente curiosa. O condutor mastigava um palito, com ar aparvalhado, talvez de tanto carregar e beber o vinho daqueles recipientes. Arregalou os olhos ao observar a cena, esquecendo-se de trincar o que tinha na boca. Um sorriso maldoso fez ver poucos dentes, quase todos apodrecidos. Barnabé, o que é que o rapazola lhe fez? Roubou-lhe a mulher? E o condutor da carroça soltou uma gargalhadinha divertida, quase engolindo o palito. Só então o taberneiro se apercebeu de que estava a ser alvo das atenções gerais. Virou-se, colérico, colocando as mãos na gorda cintura. O diabo te carregue, Jeremias! Este bandido! É um ladrão! Dei-lhe metade de um pão para comer durante o dia, como faço com os outros criados, pois toda a gente sabe que não sou rico e a vida não está para graças, e não é que dei pela falta da outra metade do pão?! Além de ladrão, é glutão!, declarou, continuando a bater no rapaz, que, a cada chibatada, soltava gritos capazes de comover pedras. Ai! Ai! Eu tinha fome, senhor! Ai, não me bata mais, por Deus! Por favor tende piedade de mim! Só roubei porque tinha fome...
O avarento arregaçou as mangas da camisa, já a suar do esforço. Os calções de pano grosso atados por baixo dos joelhos davam-lhe um ar muito ridículo e os sapatorros com grandes laços não ajudavam muito. Parecia um porco pronto para a matança. O infeliz tentava imitar os elegantes que via, mas em vão. O resultado era sempre uma desgraça… Ah, ladrão! Seu bandido! E Deus não é para aqui chamado! Deixa-O estar descansado onde quer que esteja. Solte o rapaz, Barnabé! Sim, deixe-o! O garoto devia estar com muita fome e quem rouba para comer merece perdão!, gritou um homem magro, brandindo uma rústica bengala. Deixe-o em paz! Já deve ter aprendido a lição. O taberneiro virou-se, de sobrolho carregado. Pôs a mão na cintura, provocador. Solto-o, uma ova! Vai ser castigado por me ter roubado o pão! Metam-se mas é na vossa vida! O povo entreolhou-se. Não podemos fazer nada. O rapaz é criado dele, observou um velho, olhando para uma mulher ainda jovem que tinha os olhos cheios de lágrimas. Maldito seja! Se tivéssemos um rei português, não se permitiriam estes abusos! Diabos levem os Filipes e seus lacaios!
Os outros estremeceram e olharam em volta, receosos. Cala-te, Berta! Sabes bem que há ouvidos por toda a parte! Naquela época havia uma imensidão de espiões ao serviço do rei espanhol. Além das patrulhas nocturnas, impedindo qualquer reunião de tipo suspeito, as pessoas não podiam falar abertamente do que pensavam, com receio das consequências que dali adviriam. A qualquer pretexto eram presas ou então denunciadas ao Tribunal do Santo Ofício (maldito), pelos motivos mais estrambólicos. Eram tempos tenebrosos aqueles, em que o povo tinha de calar a sua dor e angústia pelo peso dos impostos e, principalmente, pela falta de um soberano português. Eram aliciados a acusar secretamente o pai ou o irmão, a esposa ou o marido... Andavam todos de coração nas mãos, apertadinho com tanto medo e terror. Pairava no ar uma conspiração silenciosa entre todos os portugueses contra a coroa espanhola. Parecia um barril de pólvora prestes a explodir à primeira faísca riscada por alguém. Seria uma reacção em cadeia o primeiro que soltasse o grito da revolta, ecoando por todos os cantos do país, em todos os corações, em todas as vozes o brado da independência. O taberneiro continuava a bater no criado, impiedosamente. Naquele momento, surgiu um cavaleiro todo vestido de negro, montado num cavalo. À ordem do dono, o animal estacou, empinando-se nas patas traseiras. Largue o rapaz!» In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Pode retirar-se, Sanchez. Quando se restabelecer, quero que me descubra o mascarado e os seus encobridores. Esmagá-lo-ei com as minhas próprias mãos!, declarou, fechando a mão com fúria»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

«(…) Sanchez lançou-lhe um olhar capaz de aterrorizar um leão feroz, mas que não teve efeito algum no inimigo. A partir de hoy, señor enmascarado, tenéis un enemigo mortal para toda la vida y le juro que descubriré vuestra verdadera identidad y ay!, de vos cuando lo consiga!, ameaçou, estendendo-lhe a bolsa, com uma expressão dolorosa no rosto largo. O cavaleiro soltou um risinho trocista. Declaro a vossa mercê que já não dormirei nada descansado esta noite! O capitão e os seus soldados afastaram-se, mais feridos no orgulho do que na carne. Sentiam-se humilhadíssimos por terem sido derrotados por um único homem, apesar de este ser o terror dos mais temidos. Quando desapareceram de vista, o povo juntou-se à volta do misterioso cavaleiro, dando-lhe vivas. Ele sorriu e atirou-lhes a bolsa recheada de moedas de ouro. Tomem e distribuam por todos vós. É um presente do nosso querido ministro!, disse, com uma gargalhada irónica. As pessoas riram-se e as expressões dos seus rostos demonstravam a mais completa adoração pelo desconhecido. Até à vista, amigos!, despediu-se Gualdim, sacudindo levemente as rédeas. Com um aceno de despedida, desapareceu tão misteriosamente como surgira. Quem é que ajudou desta vez o capitão Gualdim a esconder-se dos soldados?, inquiriu um homem barbudo, interrogando com os olhos as outras pessoas. Acho que foi o padre Nicolau que lhe deu abrigo na igreja..., respondeu um outro, com um sorriso de contentamento. Agora, vamos distribuir o presente do nosso querido capitão Gualdim!
Passadas umas horas, algures num gabinete do Palácio da Ribeira, dois homens conversavam, com ar conspirador, e um deles tinha um braço ao peito. Temos de descobrir a verdadeira identidade desse mascarado. Decerto é um dos nobres que me desafiam a todo o momento..., comentou um indivíduo, engolindo de um só trago um cálice de licor verde. Passou a língua pelos lábios, deliciado. A expressão fria e cruel dos olhos contrariava a da boca. Las personas lo esconden, ministro, y hasta los padres lo hacen. Miguel Vasconcelos ficou pensativo. Tal como o fizeram com o Prior do Crato. Conseguiu estar escondido em Portugal um ror de meses até partir para o exílio. E nunca se soube quem o escondia, por mais dinheiro que se oferecesse para o denunciarem. Maldito! Se o pudesse ter nas minhas mãos! Sanchez tremeu de cólera, compartilhando o mesmo sentimento. Se sospecha que ese insolente estuvo envuelto en los motines de Évora… Lo vieron también distribuir los versos del Bandarra. Pero, se escapó siempre de las mallas de la ley.
Este era célebre pelos seus versos, que podiam ser interpretados de diversas formas, pois eram muito vagos. Falavam de um salvador que apareceria encoberto. Embora este sapateiro de Trancoso os tivesse escrito antes do nascimento do próprio rei Sebastião, o povo pensava que se referiam a ele. Achavam que Bandarra conseguira ver o futuro. Tenho de avisar Olivares do perigo que este mascarado representa para o reino. Daria tudo para o ter preso diante de mim, poder arrancar-lhe a maldita máscara e ver com os meus próprios olhos quem ele é. Você que o viu de perto, tem a certeza que não poderá ser o duque de Bragança disfarçado? O soldado abanou a cabeça com firmeza. No! No, señor! Este caballero es muy joven y totalmente diferente del duque. Además él está en Villa Viciosa. O ministro cofiou a barba, contrariado. Que pena! Se fosse ele o mascarado, poupar-nos-ia muitas preocupações. Tínhamo-lo na mão. Mas o duque é demasiado prudente para se meter numa coisa dessas. Nem lhe passaria pela cabeça! Si señor. Soy de la misma opinión.
O ódio que a população em geral votava ao ministro em parte era por ser filho do já falecido Pedro Barbosa, jurisconsulto estudioso e talentoso e o mais espanholado dos portugueses, que justificara com todos os argumentos possíveis a invasão castelhana, conseguindo, assim, o ódio e o rancor do povo e da nobreza, transformara-se no instrumento de vingança dos castelhanos. Acabou por ser assassinado de forma misteriosa, por espada desconhecida. Miguel Vasconcelos era um ambicioso sem escrúpulos, azedo, maldoso e vingativo, tal como o seu pai. Herdara-lhe o talento, a energia e o carácter estudioso. Nunca esquecera a humilhação que passara com a morte pouco honrosa do progenitor. Recordava-se bem do dia em que o povo furioso partira os vidros de sua casa, às pedradas, obrigando o seu pai a fugir pelos telhados. O seu desejo de vingança era desmedido. Com os vexames que fazia a população passar, principalmente a nobreza, esperava esquecer e, quiçá, consolar-se das injúrias feitas a si e a seu pai. Pode retirar-se, Sanchez. Quando se restabelecer, quero que me descubra o mascarado e os seus encobridores. Esmagá-lo-ei com as minhas próprias mãos!, declarou, fechando a mão com fúria. Levou novo cálice aos lábios e engoliu o líquido de um só trago. Um dos muitos defeitos desta personagem era o vício da bebida. Quero esse homem vivo ou morto, mas quero-o à minha frente! Entretanto, não muito longe dali, o mascarado tirava a máscara, mostrando totalmente o rosto, e sorria, misteriosamente...» In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Agora, se não desse muito trabalho a vossa mercê, gostaria de vos aliviar dessa bolsa que aí tendes à cintura; presumo ter sido resultado de mais um imposto mirabolante arrancado aos meus amigos...»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

«(…) Entretanto, os soldados continuavam a revistar as casas, atirando com tudo o que encontravam para a rua, tal era a raiva por não acharem quem procuravam com tanto ardor. De repente, ouviram-se os cascos de um cavalo no empedrado da rua. Os soldados não prestaram atenção e continuaram a espreitar Por todos os cantos capazes de esconder uma pessoa. Uma rapariguinha voltou-se para trás ao mesmo tempo que uma velhota e quando a primeira se preparava para soltar um grito de entusiasmo, a segunda tapou-lhe a boca, também ela com um grande sorriso na boca desdentada. Ei! Ei! De quem é que andam à procura? Não é de mim, com certeza!, gritou uma voz insolente, seguida de uma gargalhada trocista. A sua voz era grave e bem timbrada. Os soldados voltaram-se, dando de caras com a descarada personagem que tanto procuravam. O capitão Gualdim, como ele próprio se intitulava, era delgado e não muito alto. Aparentava ser bastante jovem, talvez na casa dos vinte anos, impetuosos e provocadores. Vestia com elegância um fato de veludo negro, cujas golas arrendadas brancas caíam sobre o peito. Uma magnífica espada, de copos de ferro artisticamente trabalhados, pendia-lhe do boldrié de veludo bordado a ouro. Sobre o lado esquerdo do peito brilhava uma cruz de ouro com o brasão português e as quinas estavam representadas por pedras preciosas. As mãos cobertas com luvas pretas e os punhos brancos da camisa surgiam cheios de renda, como era costume naquela época. Na cabeça tapada totalmente por uma máscara da cor do fato, tinha um chapéu de feltro mole e de abas largas, somente adornado por uma bela pluma branca presa por um travessão de ouro.
O rosto, parcialmente coberto com a máscara, deixava ver o bigode muito fino e elegante, formando uma linha recta, sobre uma boca de linhas bem pronunciadas e de lábios vermelhos carnudos, que fariam inveja à mais bela mulher do reino. Pelos contornos da máscara notava-se um nariz bem feito e quem observasse com atenção veria uns olhos azuis, que naquela precisa altura tinham uma expressão trocista. A pele do rosto e do pescoço era branca. Nos pés, umas botas de couro macio, de canos largos e dobradas sobre os joelhos, a dar com o resto da roupa. Para completar a indumentária do estranho cavaleiro, uma capa de veludo, escura como a noite, pendia-lhe dos ombros, presa por alfinetes de ouro. Vinha montado num cavalo puro-sangue árabe, preto, de belo porte e maneiras majestosas. Cavaleiro e cavalo formavam um todo, tornando quase impossível imaginá-los separados um do outro. Agarrenlo! No lo dejen escapar, por vuestras vidas! Os soldados lançaram-se sobre ele, mas este desviou-se, com um sorriso impertinente, e desembainhou a espada. Esta brilhou, reflectindo um raio de Sol, encandeando o primeiro homem que lhe surgiu à frente. Aproveitando aquela vantagem, desferiu-lhe uma estocada a fundo no braço que pegava na espada, obrigando-o a largá-la. Em pouco mais de cinco minutos, já o excelente espadachim desarmara todos os soldados, ferindo-os superficialmente, singularmente no mesmo sítio: o braço que segurava a arma.
A gente que ali se juntara observava, entusiasmada, a valentia do cavaleiro, voltando-se para um lado e para o outro, como mil demónios, desferindo golpes a torto e a direito. O cavalo parecia adivinhar-lhe os pensamentos e os movimentos seguintes, pois dava voltas e caracoleios, infatigável, virando-se sempre no momento propício. Sanchez, assim se chamava o capitão espanhol, parecia soltar fogo pelas ventas. O rosto, habitualmente avermelhado, estava de um roxo que até metia impressão. Os lábios brancos de raiva davam-lhe um aspecto ainda mais estranho. Tentou pegar na espada caída no chão, mas de novo o mascarado lho impediu, ferindo-o no outro braço. Maldito! Un rayo le caiga en cima, insolente! Um sorriso irónico aflorou aos lábios de Gualdim, deixando ver uns dentes brancos. De uma maneira tão insolente como elegante, tirou o chapéu, cuja pluma quase varreu o chão. Às vossas ordens, capitão Sanchez. Espero que ainda voltemos a nos encontrar e desta vez com uma melhor disposição da vossa parte...
Agora, se não desse muito trabalho a vossa mercê, gostaria de vos aliviar dessa bolsa que aí tendes à cintura; presumo ter sido resultado de mais um imposto mirabolante arrancado aos meus amigos... O capitão estremeceu de fúria e, apesar dos ferimentos, tentou sacar a pistola. Rápido que nem um relâmpago, o mascarado tirou da bota um punhal de lâmina reluzente e lançou-o com uma firmeza assombrosa, indo espetar-se no braço direito do espanhol. Este empalideceu e levou a mão ao braço ferido, largando a pistola. Os dedos abriam-se dolorosamente, sem os conseguir controlar. Agora, se já vos fartastes de brincar Sanchez, agradecia que fizésseis o que vos pedi com todas as boas maneiras que me ensinaram...» In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Com o passar dos anos, a reacção contra o domínio espanhol foi-se tornando cada vez maior, como uma bola de neve, até se tornar numa perigosa avalanche»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

«Corria o ano de 1639 da GNS Jesus Cristo. Há quase sessenta anos que Portugal vivia sob o domínio espanhol. Ia longe o desgraçado dia da invasão castelhana, em que a maior parte da nobreza do nosso reino quase oferecera de bandeja a pátria, em troca de meia dúzia de moedas de ouro. Morrera António, Prior do Crato, em Paris, exilado, desgostoso de tanto batalhar para sacudir o jugo estrangeiro do seu querido país, sem, no entanto, o conseguir. O povo, esse, jamais esquecera o seu amado Prior do Crato, rei por apenas dois meses e a última esperança para a tão preciosa independência. Cioso desta, sempre detestou a agregação do nosso reino ao de Castela, alimentando o rancor pelos nobres, por estes nunca terem feito nada para modificarem aquela situação. Com a subida ao trono de Filipe IV em 1621, e do seu odioso ministro, o conde-duque Olivares, o descontentamento tornou-se geral. Este poderoso ministro, que votava um ódio irracional a Portugal, adoptou uma política de dureza e tomou medidas que desagradaram profundamente aos portugueses. Choviam impostos em cima de impostos e o povo não os queria pagar, pois sabia estar a contribuir para despesas alheias. O conde-duque desejava, com tantos impostos e humilhações, pôr Portugal de rastos, para depois o poder subjugar pela força das armas, reduzindo-o a uma simples província de Espanha. O seu desejo era esse: transformar Espanha num só país, com leis únicas e, assim, tirar a autonomia a Portugal e à Catalunha. Indo contra os foros do reino jurados pelo primeiro Filipe, segundo de Espanha, entraram oficiais e tropas castelhanas no nosso país, com o pretexto de defenderem a costa contra os corsários ingleses, porque a Espanha estava envolvida na Guerra dos Trinta Anos, guerreando-se com França, Inglaterra e Holanda.
Outra das medidas impopulares do conde-duque foi o recrutamento forçado das nossas tropas para combaterem nessa guerra. Com o passar dos anos, a reacção contra o domínio espanhol foi-se tornando cada vez maior, como uma bola de neve, até se tornar numa perigosa avalanche. O povo começou a revoltar-se a partir de 1623. Os motins sucediam-se uns aos outros, devido a novos impostos e a outros problemas, e o mais perigoso foi o de Évora. Nessa altura, o povo não recebeu ajuda alguma do clero nem da nobreza, que apenas procuraram acalmar os ânimos, receosos das medidas que o governo de Madrid iria fazer cair sobre Évora, o que não tardou a acontecer... O povo revoltou-se contra eles, desta vez sem razão, pois a maioria do alto clero e da nobreza compartilhavam do mesmo sentimento: o desejo pela tão ambicionada independência. Na altura em que a nossa história se desenrola era vice-rainha de Portugal, Margarida, duquesa de Mântua e prima de Filipe IV e os portugueses nada tinham a apontar-lhe, pelo contrário, até gostavam dela, por ser amável e muito religiosa. Para secretário de Estado foi escolhido o odiado e detestado Miguel Vasconcelos, que conseguia inventar os impostos mais injustos imaginados, para angariar mais e mais dinheiro para Madrid. Servil adulador do conde-duque, Vasconcelos odiava e humilhava igualmente a nobreza, o clero e o povo, semeando ódios e rancores. A sua nomeação dera-se em 1635, pouco tempo depois da de Margarida, e houve grande irritação dos ânimos de toda a gente. Os impostos que até ali tinham sido pesadíssimos tornaram-se exorbitantes. O dia estava chuvoso, mas, de tempos a tempos, o Sol espreitava, um pouco tímido, como se estivesse a jogar às escondidas. Havia um grande alarido numa parte bem conhecida da bonita e airosa Lisboa. Soldados castelhanos extremamente irritados, não só com a chuva, mas principalmente pelo motivo por que se encontravam ali, mexiam-se de um lado para o outro, interrogando os habitantes e invadindo-lhes as casas, sem cerimónia alguma. Quiero ese enmascarado preso hoy! El fué visto por aquí y no estará muy lejos. El ministro me dio orden para matarlo, si resistir a la prisión, afirmou o capitão dos soldados, cujo bigode farfalhudo tremia de nervosismo cada vez que falava. Era alto e ruivo, de feitio irritadiço, e empurrava, impaciente, quem lhe surgia à frente. Um grupo de populares rodeava-os, indignados com a confusão e refilando com eles. Já lhes dissemos mil vezes que o capitão Gualdim não está aqui! O que é que ele fez desta vez?, perguntou uma mulher baixa e robusta, em ar de desafio. Um soldado português voltou-se para ela e disse a meia voz, com os cantos da boca tremendo, como se tivesse uma imensa vontade de rir: O capitão Gualdim ontem fez uma emboscada a Vasconcelos quando ele se ia deitar. Deixou-lhe espetada na almofada da cama uma mensagem com ameaças terríveis e o ministro está doido de raiva... Os olhos das pessoas brilharam de prazer e reconhecimento.
Um velho, todo vergado pelo peso dos quase noventa anos e cabelos brancos como a neve, levantou a mão trémula ao céu. A luz que tinha nos olhos denunciava bem a vida que no corpo lhe faltava. Um dia, o rei Sebastião há-de voltar no seu cavalo branco para arrancar o país desta escória que nos governa! Os outros concordaram com ele, mais por respeito do que por outra coisa. Bem sabiam o quanto era impossível o que o velho dizia. O monarca Sebastião, se ainda estivesse vivo, devia estar tão idoso quanto ele; mas o sentimento é que contava... Naquele tempo ainda havia uma grande parte da população que acreditava que o rei desaparecido em Alcácer Quibir, em 1578, voltaria numa manhã de nevoeiro, tão jovem quanto partira, para libertar Portugal dos espanhóis. Os jesuítas, sobretudo, faziam do sebastianismo uma arma perigosa, pois alimentavam, assim, as esperanças da população na restauração de Portugal. Desconfiava-se deles nos motins de Évora, na tão falada revolta do Manuelinho, pois eles eram inimigos mortais do domínio espanhol e havia razão nessas desconfianças. Os eclesiásticos tentavam excitar o povo contra os espanhóis, de todas as maneiras possíveis. Apesar da rivalidade existente entre Jesuítas e Dominicanos, ambas as ordens haviam achado por bem trabalharem em conjunto na restauração da pátria. Recorrendo a profecias e com o auxílio do sebastianismo, pressagiavam a queda do domínio espanhol e o regresso de um rei português, João, duque de Bragança, que os mais crédulos acreditavam ter sido encarnado pelo desditoso Sebastião». In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT