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sábado, 3 de março de 2018

As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV. Miguel Aguiar. «O mesmo se diga relativamente a uma passagem da crónica dedicada a Pedro Meneses. Reportando-se às despesas efectuadas pelo capitão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ao longo dos cerca de trinta anos em que ocupou o cargo de cronista-mor, Zurara surge como autor de quatro textos distintos, orientados segundo o propósito de contar uma nova etapa na história do reino, isto é, o que a historiografia convencionou chamar o processo de expansão, mas que os homens de Quatrocentos conceberam como as guerras de Marrocos ou a descoberta de novas terras. Ao mesmo tempo, existia uma espécie de projecto contínuo no que toca à redacção da crónica geral do reino, como fica patente em várias partes das obras aqui em análise: como na cronyca do Regno he contheudo, como na coronica gerall do rregno mais largamente podeys achar ou como mays compridamente acharees na cronica do Regnado deste Rey dom Affomso [V]. Enquanto cronista-mor, Zurara estaria encarregado de ir reunindo materiais e provavelmente de ir redigindo o que seria a crónica geral do reino, mesmo que esta, tanto quanto se sabe, não tivesse visto a luz do dia senão já no século seguinte pela mão de Rui Pina. Essa função primordial seria executada em simultâneo com a feitura do conjunto de textos em análise neste artigo, sobre os quais é possível detectar algumas indicações acerca das fontes reunidas pelo autor e do tratamento que lhes terá dado. Creio aliás, como tentarei demonstrar, que uma parte delas poderá ajudar a explicar a forma de algumas das crónicas.
A primeira tipologia consiste nos testemunhos orais, dos quais Zurara faz explícita menção em várias passagens da sua obra. É o caso da importância dos testemunhos dos infantes Henrique e Pedro sobre a conquista de Ceuta e também de outros depoimentos que hoje se apresentam anónimos, mas de quem o cronista diz ter recebido avisamento. No caso da elaboração da Crónica de D. Duarte de Meneses é bem possível que o peso dos testemunhos orais tenha sido ainda mais significativo, uma vez que Zurara esteve cerca de um ano no Magrebe (partiu em 1467, tendo tido certamente a oportunidade de entrevistar muitos dos que conheceram e acompanharam o capitão de Alcácer nas suas lides bélicas. Essa estadia podia até ter permitido o contacto com algum tipo de documentação que não se encontraria na Torre do Tombo ou noutras instituições com sede em Lisboa e que albergavam arquivos potencialmente interessantes, como é o caso da Casa de Ceuta. Numa passagem da crónica em honra de Duarte Meneses, Zurara alude à estratégia utilizada pelo capitão para controlar as aldeias dos vales contíguos a Alcácer. A certa altura, Duarte logrou que essas aldeias lhe pagassem tributo, especificando o cronista que os moradores de uma determinada terra ao tempo que eu screuya esta storea eram trezentos casados e mais os que pagauam tributo. Sabendo que se trata de um mero indício que apenas permite avançar suposições, é pelo menos lícito colocar a possibilidade de Zurara ter consultado uma espécie de arrolamento desses vizinhos, talvez guardado no paço do capitão de Alcácer, local a partir de onde se exercia a autoridade sobre as terras em redor da praça. O mesmo se diga relativamente a uma passagem da crónica dedicada a Pedro Meneses. Reportando-se às despesas efectuadas pelo capitão aquando da estada na cidade dos infantes Henrique e João, Zurara afirma que achou per seus lyvros, isto é, provavelmente um registo contabilístico da casa de Pedro Meneses, que a despesa com carnes e dádivas subiu a 6756 dobras.
As fontes mencionadas mais frequentemente são, porém, escritos já compilados e trabalhados, e nos quais Zurara se baseou para elaborar a sua redação. É o caso de referências anónimas como aquelles que os feitos de Çeepta escreverão, ou alguuns screuerom em seus scriptos. Noutros casos, Zurara indica autores ou materiais específicos. Na Crónica da Guiné refere por três vezes huu Affomso cerueira que esta estorya primeiramente quis ordenar, enquanto na Crónica de D. Duarte de Meneses cita um livro dos feitos de Fernando Noronha, não aclarando, contudo, a utilização que dele terá feito. Seja como for, esta última e pequena referência deve sublinhar a evidência de que muito do que foi escrito na época não chegou até ao presente. É por isso plausível admitir a existência de outros textos, nomeadamente de proveniência nobiliárquica, que circulariam e podiam ter sido conhecidos e utilizados pelo autor em questão, mas cuja existência é totalmente obscura para a crítica moderna». In Miguel Aguiar, As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

sexta-feira, 2 de março de 2018

As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV. Miguel Aguiar. «Os relatos de enfrentamentos militares, cercos, expedições navais, cavalgadas sobre aldeias inimigas, preenchem quase totalmente as diversas obras…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No capítulo 46 da Crónica do conde Duarte Meneses, depois de cerca de trinta páginas onde se descrevem os episódios que tiveram lugar durante o cerco muçulmano a Alcácer Ceguer, Gomes Eanes Zurara apresenta uma lista com os nomes daqueles que se a este cerco uyerom pera seruyr deos e seu Rey. O cronista realça trinta e três homens que se terão destacado, aí se encontrando, naturalmente, o illustre e muy famoso caualleyro dom Duarte de meneses, mas também outros indivíduos pertencentes a linhagens da média e alta nobreza de corte (Vasconcelos, Melo, Távora, Ataíde, Sousa, Noronha, entre outros). Depois de arrolados estes nomes, Zurara sublinha que na defesa da praça também participaram outros nobres homeens e gente, dispensando-se do trabalho de explicitar a sua identidade por nom causar fastyo. A lista é o corolário de um ciclo da narrativa em que se descrevem os principais acontecimentos que marcaram o assédio que a segunda praça portuguesa no Magrebe sofreu, decorria o ano de 1459. Aí são perceptíveis as dificuldades em aguentar a pressão muçulmana, mas também em gerir as tensões inerentes à própria composição da guarnição. Por isso, e como não podia deixar de ser, o capitão Duarte Meneses é amplamente elogiado. Personificando a autoridade na cadeia de comando e a encarnação da indispensável virtude da prudência, Duarte vai fazendo a sensível gestão dos egos e ímpetos bélicos dos fidalgos sob o seu comando, sem deixar, contudo, de dar provas da sua fortaleza, outra virtude essencial, ao desafiar o comandante inimigo para o combate. Ao longo destas páginas são também relatadas as façanhas individuais dos fidalgos portugueses: nas muralhas, nos combates travados na barreira erguida diante da praça, o lugar onde mais onradamente se podia combater, e também nas rápidas surtidas a cavalo fora das muralhas, organizadas sobretudo para destabilizar as forças inimigas ou para atingir determinados objectivos estratégicos.
Os relatos de enfrentamentos militares, cercos, expedições navais, cavalgadas sobre aldeias inimigas, preenchem quase totalmente as diversas obras de Zurara, a ponto de se ter dito que as suas obras convertiam a crónica geral do reino na crónica dos cavaleiros da Távola redonda da corte. Mas o que explica esta aparente devoção do autor pelos modelos narrativos de pendor cavaleiresco? Haverá razões que expliquem os repetitivos e estereotipados capítulos que descrevem façanhas mais ou menos reais de forma grandiloquente? De que forma se podem entender e enquadrar estas obras? O objectivo essencial deste artigo é analisar a produção cronística de Zurara de acordo com o contexto em que foi elaborada, com os objectivos que terão presidido à sua feitura e com os materiais de que o cronista dispôs. Por isso, começarei por me referir sumariamente às diversas obras por si assinadas, aos seus objectivos práticos, à sua relação com a chamada crónica geral do reino e também às fontes que Zurara terá utilizado, procurando demonstrar que todos estes aspectos são fundamentais para compreender o conteúdo e o estilo das obras em questão. Depois, o objectivo é analisar as obras de Zurara enquanto discurso sobre a cavalaria em Portugal no século XV. Ao realçar as perspectivas do cronista e sua relação com aquele que seria o sistema de valores que caracterizava a ideologia cavaleiresca nesta época, procurarei contrapor o discurso de Zurara com outros testemunhos coevos. Uma ideologia que, como se tentará demonstrar, tinha também implicações práticas, cuja tradução, no caso das crónicas assinadas por Zurara, se reflecte nomeadamente no seu carácter didáctico e de exempla, fazendo delas uma espécie de espelhos de nobres, mais à frente desenvolverei este conceito. Por fim, o derradeiro ponto a considerar nesta linha de inquérito é o papel desempenhado por este conjunto de escritos enquanto elementos de propaganda ao serviço de um dos desígnios constantes no reinado de Afonso V: a expansão ultramarina e a cruzada.

A actividade do cronista-mor: entre a crónica-geral do reino e as narrativas que chegaram aos nossos dias
A actividade de Gomes Eanes de Zurara enquanto cronista-mor do reino estendeu-se entre o final da década de 1440 e o início da década de 1470. Entre 1449 e 1450, e com possíveis alterações até 1460, compôs a Crónica da Tomada de Ceuta. Apesar de ser uma obra estruturada como se de uma gesta cavaleiresca se tratasse, foi entendida pela crítica como pertencente à crónica geral do reino, sendo neste caso a peça final da narrativa dedicada ao reinado de João I. A Crónica dos Feitos da Guiné, provavelmente composta entre 1452 e 1453 (ou seja, ainda em vida do infante Henrique), e com alterações até 1464, é aquela que suscitou mais problemas eruditos e acesas polémicas entre os especialistas (discutindo-se, entre outras coisas, a hipótese de resultar de uma fusão entre um livro dedicado aos feitos do infante e uma narrativa centrada nas navegações e conquistas propriamente ditas. O texto relata as navegações e as conquistas portuguesas promovidas pelo infante Henrique ao longo da costa ocidental africana, apresentando inúmeras descrições de expedições militares, em cujos interlúdios se podem encontrar descrições geográficas ou notícias de acontecimentos marcantes como, por exemplo, o célebre episódio da primeira grande venda de escravos negros em Lagos. As duas outras crónicas compõem, juntamente com a narrativa dedicada à conquista de Ceuta, uma espécie de trilogia do Norte de África. Em primeiro lugar, a crónica do Conde Pedro de Meneses, composta entre 1458 e 1464, e, finalmente, a Crónica do conde Duarte de Meneses, começada em 1464, depois da morte do capitão de Alcácer Ceguer, e completada até 1469. Ambas apresentam um carácter híbrido, aliando a biografia dos dois exemplares fidalgos e capitães ao relato pormenorizado dos cercos, recontros e cavalgadas dos portugueses em torno de Ceuta e de Alcácer Ceguer». In Miguel Aguiar, As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT