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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «Não fiquei convencida de que o meu irmão me dissera a verdade. Que poder extraordinário tinha esse governador da Síria…»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) Quando o meu irmão e eu tivemos esta conversa, tínhamos chegado à colina de Claro, na costa, e Germânico disse casualmente, à nossa frente, que no dia seguinte iria ao templo de Apolo orar ao deus. Sabes, disse-me Caio, quando estávamos sós, ele vai consultar o oráculo! Que o meu pai desejasse conversar com os deuses, não me espantava. Não era ele da raça deles? Os deuses só podiam querer-lhe bem, sobretudo aquele Apolo, que falava em Claro, e que eu conhecia bem, pelo templo que lhe mandara construir Augusto, não muito longe da nossa casa, no Palatino. Daquele encontro só podiam resultar boas coisas. Todavia, à noite, quando o nosso pai regressou, tinha um ar preocupado. A minha mãe interrogou-o, mas ele respondeu evasivamente. Que soubeste?, perguntava ela oh, nada de especial.
E para além disso? Tu sabes como são todos os oráculos. Palavras ocas, frases obscuras e tudo isso em verso, e nem sequer belos ou simétricos. Ela não conseguiu fazê-lo dizer mais, mas sentia, como eu, que ele estava inquieto, que o oráculo não fora assim tão impreciso e insignificante como Germânico queria fazer crer. Assim que parámos em Éfeso e em Mileto, os Gregos que estavam connosco vangloriavam-se das maravilhas. Germânico tinha pressa de chegar a Rodes. Estávamos quase no Verão. Fazia bom tempo no mar e cruzávamo-nos constantemente com navios. Um dia, ouvi a minha mãe dizer: o outro não deve estar longe! Quem era esse outro, ao qual não se chamava pelo seu nome? Foi Caio quem mo revelou, naturalmente. Uma noite disse-me: não sabes por que não paramos? Tu não sabes, mas eu sei, e não to vou dizer. Devo ter implorado durante muito tempo, prometendo nada dizer a ninguém. Por fim, ele anuiu em falar: aquele que deve vir é o novo governador da Síria, e nem a mãe nem o pai gostam dele. A sua voz tornou-se um sussurro: creio que têm medo dele! Fiquei incrédula, porém um pouco inquieta. Os meus pais, esses seres todo-poderosos, o meu pai a quem toda a gente tratava com o maior respeito, que comandava todos aqueles soldados, todos aqueles marinheiros que pareciam ter nascido somente para o servir, como podia ele ter medo, e de quem?
Não fiquei convencida de que o meu irmão me dissera a verdade. Que poder extraordinário tinha esse governador da Síria, desse país cujo nome eu ouvira pela primeira vez e para o qual, segundo me dissera Caio, nos dirigíamos? Estava ele, também, em relação com os deuses?» In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.


Cortesia Lyon E./JDACT

sábado, 11 de junho de 2016

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «Descobria que o mundo que os meus olhos viam era apenas uma pequena parte de tudo o que existe. Sendo ainda uma pequena rapariga, já não era mais surpreendida…»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) Eu também queria ter no meu pescoço ouro e pedras preciosas. Parecia-me, por mais pequena que eu fosse, a coisa mais maravilhosa do mundo e, ainda que hoje eu saiba que há bens infinitamente mais desejáveis, sou sempre sensível ao seu brilho. Prometi a mim mesma ir, quando fosse grande, interrogar os Cabiros. O que o meu pai, no decurso da sua viagem, não pôde fazer. Ele disse-nos, quando voltou, que o vento do Norte havia sido tão violento que o seu navio não pudera aportar em Samotrácia. E acrescentou: vou aproveitar para ir a Tróia. A minha mãe, não sei por que razão, pareceu irritar-se com esse projecto. Não farias tu melhor, disse-lhe ela, em pensar no que deves fazer, quando o outro..., mas ela interrompeu-se, porque Germânico franziu o sobrolho, dirigindo-nos o olhar, ao meu irmão e a mim. Mas penso que em vez disso, continuou ele, como se ela não o tivesse interrompido, não será mau que eu vá consultar os Manes dos nossos antepassados mais distantes. Talvez eles me dêem algum conselho útil. Fiquei muito intrigada com aquelas palavras. Caio assumiu um ar sério. No dia seguinte, roguei-lhe que me explicasse o que o nosso pai quisera dizer. Se tu não fosses tão pequena, saberias, começou ele, que a nossa família veio para Roma vinda do país em que nós estamos. Bom, não exactamente, mas daquela cidade de Tróia, de que ontem se falava... Pelo que ele se pôs a contar toda a Ilíada, seguida da Eneida. O seu pedagogo falava-lhe disso todos os dias, para o manter tranquilo, porque Caio adorava histórias, sobretudo aquelas em que intervinham heróis, dos quais lhe tinham dito que nós descendíamos. E depois, ele descobria que essas altas personagens, suas antepassadas, estavam sempre em contacto íntimo com os deuses e as deusas, o que o lisonjeava e parecia prometer-lhe que, quando ele fosse maior, faria a mesma coisa, teria o mesmo poder. Muitos anos mais tarde, quando ele foi imperador, pude ver que ele jamais esquecera esse sonho da sua infância, tornado, com os anos, uma certeza indiscutível.
Quando o nosso pai voltou de Tróia foi altura de deixarmos Lesbos. A minha mãe estava já restabelecida e Livila podia aguentar uma viagem. Percorríamos as costas da Ásia. A terra nunca estava distante e fazia bom tempo. Parávamos o mais frequentemente possível num porto, e eles são muitos, sucedem-se, naquela região. Essas escalas eram-me agradáveis. De cada vez que o fazíamos, com Caio e o seu preceptor, íamos a terra, e víamos o que havia para ver em todo o nosso redor. Construía-se um pouco por todo o lado, recuperavam-se os edifícios públicos meio arruinados pela antiguidade ou construíam-se de novo. Eu achava esses passeios um pouco longos e, quando regressava ao barco, o sono não se fazia esperar. Estava cansada também pela interminável tagarelice do meu irmão, que punha mil questões sobre as cenas que estavam representadas nos frontões dos templos recém-construídos ou ao longo dos pórticos. Eu ouvia o que lhe dizia o seu pedagogo e aprendi muito durante os nossos passeios a Mirina, a Sardes, a Esmirna e a outros locais célebres. À noite, sonhava com o que ouvira contar na viagem. Os Gigantes revoltados contra Júpiter, o combate dos Titãs e dos deuses eram os companheiros do meu sono. Descobria que o mundo que os meus olhos viam era apenas uma pequena parte de tudo o que existe. Sendo ainda uma pequena rapariga, já não era mais surpreendida pelas coisas do que o eram as grandes personagens, que tinham tanta ciência, mas também tanta ignorância!
Como é que se sabia, por exemplo, a história que eu acabava de decifrar num relevo: a bela Aracne, tão orgulhosa que pretendera saber tecer e bordar melhor do que a deusa Minerva? E como é que se sabia que Minerva se encolerizara e aceitara o desafio? Ambas teceram, durante dias, mas, naturalmente, Minerva ganhou-lhe. Então, para punir a imprudente, a deusa transformou-a numa aranha (um animal que eu detestava e que me fazia fugir), que jamais cessava de fazer, por todo o lado, as suas teias miseráveis e que toda a gente perseguia nos cantos poeirentos onde ela escondia a sua vergonha. Quando eu perguntava a Caio como é que se havia tomado conhecimento de tudo isso, ele respondia-me, desdenhosamente: foram os Antigos que o contaram. Mas eles, como o souberam eles? Mas pelos próprios deuses! Não sabes que os deuses nos falam, que nos transmitem oráculos?» In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia Lyon E./JDACT

sábado, 2 de abril de 2016

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «Caio sabia sempre o nome do país onde ele devia ir, mas esse nome não nos dizia grande coisa, não mais a ele do que a mim. Foi assim que ouvi falar, pela primeira vez, da ilha de Samotrácia»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) Visavam obter um efeito oposto ao que se pensava, e que ele próprio confessava. No mesmo momento em que encarregou Germânico daquela inspecção geral do Oriente, apressou-se a substituir o governador da Síria, que era parente de Germânico por afinidade, por uma personagem arrogante, insolente, orgulhosa, casada com uma mulher que, nesse campo, também nada lhe ficava a dever. Não seria tudo aquilo calculado para se opor à acção de Germânico, estender-lhe armadilhas, ou pior ainda? Naturalmente, eu ignorava tudo isso e devo dizer que Caio, com toda a sua curiosidade e o seu talento inato para descobrir os segredos, não sabia mais do que eu. A minha mãe estava preocupada e, quando o meu pai estava connosco, eu reparava que se esforçava por afastar as preocupações que o ensombravam e por se mostrar o mais alegre possível. Mas ele estava muitas vezes em viagem. Caio sabia sempre o nome do país onde ele devia ir, mas esse nome não nos dizia grande coisa, não mais a ele do que a mim. Foi assim que ouvi falar, pela primeira vez, da ilha de Samotrácia, que não era muito longe de Lesbos, onde nos encontrávamos. Pelo menos foi o que me disse Caio. Caio, que devia os conhecimentos que tinha ao seu pedagogo, um Grego tão dado a palrear como a esvaziar taças. Em grande segredo, Caio disse-me que havia em Samotrácia, deuses cujo nome ninguém sabia ao certo, mas que tinham um grande poder. Eu perguntei qual. O dos outros deuses, e algum mais. Mas o quê? São capazes de andar não apenas sobre a terra, mas no céu e ir aos Infernos. Sabem onde se encontram os tesouros e, se lhes orares como é devido, farão com que os descubras. O que é um tesouro?, perguntei. Idiota, são pedras preciosas, como as que a nossa mãe põe quando há um grande jantar; coisas que brilham, e que são vermelhas, verdes ou límpidas como uma gota da água mais pura, mas que ao mesmo tempo emitem raios de luz. Sabem também onde se encontra o ouro, para fabricar colares e braceletes. Penso que o nosso pai foi vê-los para que lhe digam tudo isso. Ele quer dar à nossa mãe o mais belo presente que houver. É a razão por que ele partiu». In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia de LyonE/JDACT

domingo, 13 de setembro de 2015

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «Teriam eles sido sempre pássaros? Não teriam eles sido, há muito tempo, também humanos? A minha ama tinha-me contado histórias em que homens e mulheres haviam sido transformados em pássaros»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) Quando lhe perguntei o que os oradores tinham dito, respondeu-me vagamente, e com um ar superior: oh! O que é hábito, sempre a mesma coisa. Pelo que pude entender, lembraram que o mundo inteiro lhes devia a liberdade, além de que, os deuses os amavam de tal forma que haviam dissimulado no seu solo os mármores mais belos do mundo e que a sua cidade estava a igual distância de todos os pontos mais longínquos da terra. Vantagem cujo alcance eu não compreendi, de forma alguma. Disse-o a Caio, que me respondeu: é que tu és muito pequena. Quando fores grande, verás. Então, desapareceu numa pirueta, para interrogar um ou outro e obter deles conhecimentos que me seriam inacessíveis. A viagem do meu pai, eu deveria dizer a nossa viagem, continuou, depois da paragem em Atenas. O nascimento que a minha mãe esperava estava agora próximo, o que nos obrigou a sacrificar alguns desvios. Limitámo-nos a atravessar a Eubeia para chegar o mais cedo possível à ilha de Lesbos. Foi lá que nasceu Livila a mais nova das minhas irmãs e o último rebento da nossa família. Enquanto a minha mãe se restabelecia, Germânico não ficou junto dela e eu perguntava-me por que razão não fez. Foi-me dito que, graças aos deuses, tendo a criança vindo bem ao mundo, o nosso pai deva entregar-se por completo ao serviço do príncipe. Caio, que eu interrogara para saber em que consistiam esses deveres, repetindo gravemente o que ouvira dizer, disse-me que havia, lá, na Ásia (e apontava para o Leste), uma quantidade de cidades que tinham necessidade de ajuda.
A terra tremera, no ano anterior, e isso tinha causado muitos estragos. Era preciso ir ver o que acontecera ao certo. E depois, ao que parecia, as coisas não iam pelo melhor entre as cidades. Estavam em conflito, os cidadãos imaginavam todas as formas para não pagar o imposto e os magistrados para se apropriarem do pouco que restava. Assim falava Caio, com um conhecimento e um saber que não lhe eram naturais. Confesso que tudo aquilo me interessava muito pouco. Apenas lamentava que esses problemas, tão distantes de nós, retivessem o nosso pai e nos privassem dele. Na verdade, que sabia eu dele? Eu teria querido amá-lo com todo o meu coração, como amava a minha mãe, mas as suas ausências constantes e todo o tempo que ele dedicava ao trabalho, quando não estava longe, eram também obstáculos entre ele e eu. O seu prestígio tinha talvez aumentado por isso, é possível; mas parecia-me, confusamente, que entre um pai e a sua filha deveria existir outra coisa e que a admiração que eu lhe dedicava, e que eu não era a única a sentir, deveria ter encontrado nele a recompensa merecida. Eu quisera tanto que, por vezes, ele me tivesse tomado nos seus braços e me tivesse falado docemente! Nesse momento, o herói, o deus ter-se-ia humanizado, ter-lhe-ia podido contar os meus pequenos segredos, como os contava à minha mãe, falar-lhe dos pássaros que vira no mar, quando vínhamos para o Oriente, e que tanto me tinham intrigado, quando mergulhavam nos sulcos provocados pelo nosso barco. Teria adorado ouvi-lo contar-me a sua história, se é que a tinham. Teriam eles sido sempre pássaros? Não teriam eles sido, há muito tempo, também humanos? A minha ama tinha-me contado histórias em que homens e mulheres haviam sido transformados em pássaros. Falara-me de alcíones, de gaivotas e também de rouxinóis.
Graças a ela, eu sabia que os rouxinóis, as andorinhas (que eu aprendi a reconhecer, no céu de Roma, que atravessavam, à tardinha, com o seu voo rápido e cortante como uma lâmina), as poupas, os picanços (que havia nos bosques do Palatino) tinham todos sido, outrora, membros de uma mesma família, que os deuses tinham transformado em pássaros, por razões que eu não compreendia muito bem. Era tudo isso que eu teria querido perguntar ao meu pai. Se ele me tivesse dito que isso era verdade, então eu teria acreditado. Mas que tinha um imperator romano, encarregado pelo príncipe de missões da maior importância, a ver com tais histórias de pássaros? Entendi, desde então, quais eram as preocupações de Germânico durante aquela Primavera do seu segundo consulado. Ele estava inquieto. Não disfarçaria Tibério alguma estranha conspiração com as honras que lhe tinha concedido? Ele suspeitara disso quando o imperador o separou das suas legiões, na Germânia, as legiões que ele soubera apaziguar e afeiçoar a si, talvez mais estreitamente do que teria sido conveniente. As decisões de Tibério tinham muitas vezes motivos secretos». In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia LyonE./JDACT

terça-feira, 21 de julho de 2015

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «A língua grega ainda não me era, de todo, compreensível, apesar de me ir habituando a ouvi-la à minha ama, que era grega. Caio, esse, estava encantado…»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) Caio, no meio de tudo aquilo, ia e vinha, corria por todo o lado e tornava-se muito popular entre os soldados da escolta, colocava perguntas que por vezes faziam rir os homens mas que, também, lhe valiam longas respostas, que ele escutava com o ar mais sério e que retinha até à última palavra. Tinha seis anos, precisamente o dobro da minha idade. Parecia-me já terrivelmente idoso. E ele estava também convencido disso e dava-me uma lição a propósito de qualquer coisa. Explicava-me a razão de ser do que eu via e compreendo agora, depois de todos estes anos, a profunda influência que exerceu sobre mim. O seu maior sucesso foi no dia em que ele me mostrou Nicópolis, a Cidade da Vitória, em frente da qual se deu a batalha entre Augusto e António. Uma vez mais repetiu-me que o nosso bisavô Augusto, e mais ainda o nosso avô Agripa, tinham feito todos os possíveis para eliminar completamente o nosso outro bisavô. Isso parecia aos seus olhos algo da maior comicidade possível. De repente, começava a chorar, a gritar, e parava para me dizer a meia voz: … vês, é por António e, sem transição, rebentava a rir. Era por Augusto e Agripa! Tal comédia encantava-me, apesar de me fazer um pouco de medo. Eu dizia, vagamente, a mim própria, que as coisas eram ou tristes ou alegres, que não podiam ser simultaneamente razão para tristeza e razão para alegria. Ali, em frente da baía de Áccio, ao lado dos troféus erguidos por Augusto, para celebrar a derrota daquele que havia sido o esposo de Octávia, sua irmã tão amada segundo me dissera a minha mãe, eu não sabia mais o que pensar. Se se amava alguém, como se poderia querer fazer-lhe mal? Eu amava a minha mãe mais do que ninguém no mundo. Eu teria querido que ela nunca se sentisse mal. Eu não suportava pensar que ela pudesse sofrer. Ela sabia-o e esforçava-se Por sorrir, por me sorrir, mesmo quando alguma dor a impedia bruscamente de respirar. Sobretudo nesses momentos, para que eu não pudesse adivinhar o que ela sentia.
Apesar da sua fadiga, ela pareceu reanimar quando chegámos a Atenas. Essa foi uma entrada verdadeiramente triunfal, e digna dessa cidade, de que sempre me disseram que não existiam duas iguais. Acreditava nisso de bom grado, visto que era a pátria da minha mãe. Pensei, ingenuamente, que o meu pai só mostraria aos Atenienses em toda a sua glória, com uma escolta de soldados. Mas ele não fez nada disso. Apresentou-se de toga, e fez-se preceder por um único lictor. E nós seguimo-lo a pé. Para um romano, parecia que era demonstrar um orgulho insuportável entrar-se numa cidade aliada, fazendo-se transportar de carro ou mesmo de liteira. Isso humilha os habitantes. Eu não teria hesitado em humilhar os Atenienses, se isso dependesse apenas de mim, Para evitar que a minha mãe andasse aquele longo percurso a pé, por aquelas ruas tão estreitas e tortuosas. Quanto a Caio, manteve um ar sério, imperturbável, durante todo o trajecto, lançando olhares à direita e à esquerda, que denunciavam a sua curiosidade. Via-o abanar a cabeça quando passávamos por baixo de arcos improvisados, em que haviam sido penduradas inscrições que, naturalmente, eu não conseguia ler. Caio pretendia dar a impressão que as conseguia ler e compreender, o que, afinal, até era possível. Na verdade, eu preocupava-me muito pouco com tudo isso. A minha sandália, que era nova, magoava-me o pé. Cada passo me era doloroso. Mas eu estava perfeitamente consciente de que seria humilhante queixar-me, e mais ainda chorar. A minha honra de Romana, a honra da própria Roma estava em jogo. Aos três anos, eu já sabia que não se chora em frente dos Gregos!
Quando chegámos à casa que devia acolher-nos, durante a nossa estada na cidade, aguardava-nos uma delegação de magistrados. Vi um grupo de personagens austeras, que se inclinavam em conjunto perante o meu pai, o que os fazia parecer pássaros a debicar e nos tornava simpáticos. Eu gostava bastante de pássaros, sobretudo de pombas, que voavam bastante sobre o Palatino. Empoleiravam-se nos plátanos, nos loureiros, nos ciprestes e nos pinheiros dos jardins vizinhos e nos que rodeavam os templos. A princípio não se viam, mas de repente a folhagem parecia desfazer-se, com um grande barulho de asas, e um pombo descia perante mim. Eu deixava cair docemente, em frente dele, um punhado de trigo. Eu sabia por experiência, que um movimento demasiado brusco o faria voar, mas eles conheciam-me todos e não tinham medo, com a condição de que as normas entre nós fossem respeitadas. Ir-se-ia também dar aos homens que eu via ali algo para debicarem? Germânico disse-lhes algumas palavras que eu não entendi, e cada um respondeu com um discurso interminável, cheio de nomes próprios, que me eram totalmente desconhecidos. A língua grega ainda não me era, de todo, compreensível, apesar de me ir habituando a ouvi-la à minha ama, que era grega. Caio, esse, estava encantado». In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia Lyon E./JDACT

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «… a propósito de segredos de Estado, sabes quem é o verdadeiro pai da nossa mãe? Não? Pois bem, o próprio Augusto, com a sua filha Júlia. E acrescentava, como se essa mentira lhe inspirasse prazer: nós somos o produto de um incesto»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) A minha mãe nunca gostou da Germânia. Ela não lhe encontrava luz suficiente, sol e alegria como gostava. Jamais esquecia que nascera em Atenas, durante a longa viagem de seu pai, Agripa, encarregado de aí restabelecer a majestade de Roma. Também ela era filha de rei, um rei sem coroa, mas dotado de um poder absoluto sobre aquela metade do mundo, como o fora António vinte anos antes. E eis que ela desposara, precisamente um neto desse António. Bem podiam ensinar a calar este nome, ou a pronunciá-lo apenas em voz baixa, que ninguém no palatino conseguia deixar de pensar nele. Mesmo que ela própria já não o mencionasse, o mesmo não se passava com o meu irmão Caio, que só jurava por ele. Caio tinha só treze anos, quando a minha mãe e eu tivemos esta conversa memorável, que me pôs a par do drama em que eu fiz a minha aparição neste mundo; mas ele, ele não tinha qualquer dificuldade em falar fosse do que fosse. E muito em particular de temas proibidos. Foi ele quem me deu a conhecer a história do nosso bisavô António. Ele adorava chamar-me à parte e fazer-me conversas que tanto me apavoravam como fascinavam. Acreditas que os nossos pais e os nossos avós foram sempre sábios, tão bem comportados como querem que nós sejamos? Hipócritas! Olha, a velha Lívía, que fala tão bem do seu marido, o deus Augusto, com pesar na voz; sabias que ela foi raptada por ele, que ela só se casou forçada e que o casamento deles não foi dos melhores? Para o manter, ela arranjava-lhe servas e outras moças. E quanto a ela..., mas chiu, silêncio! São segredos de Estado." Depois, sussurrando com dificuldade, disse-me ao ouvido: a propósito de segredos de Estado, sabes quem é o verdadeiro pai da nossa mãe? Não? Pois bem, o próprio Augusto, com a sua filha Júlia. E acrescentava, como se essa mentira lhe inspirasse prazer: nós somos o produto de um incesto. Temos o mal connosco. Nada o pode apagar. Somos impuros! Impuros!
E subitamente: só os idiotas se preocupam com isso. Pensas que isso de dormir com a filha incomoda os deuses? E ele recitou-me uma lista interminável. Apenas retive o nome de Tiestes, porque era o de uma personagem da tragédia e eu gostava de tragédias. Por fim, ele acrescentou: e não esqueças, pequena Agripina, que Júpiter tomou como esposa a sua irmã Juno... Depois do que ele começava a dançar, cantando: quem quer tornar-se deus para dormir com a própria irmã? Eu não levava aquilo muito a sério e estava muito longe de compreender tudo mas, pouco a pouco, insinuava-se em mim a ideia de que a nossa família não era do mesmo tipo que as dos outros homens. Não era Augusto um deus? E, para os deuses, são o Bem e o Mal a mesma coisa que são para nós? Para nós? De todo; para os outros! Eu sentia o sangue de Augusto correr em mim, esse sangue de um Imortal que me fora transmitido pela sua filha Júlia, minha avó, como a minha outra avó, Antónia, me transmitira o de António, que os egípcios honraram como um deus. Caio não ficou por ali nas suas revelações. Também me falou de Júlia da forma como ela viveu, dos amantes que teve. Ele era inesgotável também sobre Cleópatra, sobre a maneira como ela se suicidou. Conhecia tudo aquilo muito melhor do que qualquer um, e muito melhor do que eu, sobretudo, pois as alusões que a minha mãe alguma vez possa ter feito a todo esse passado nunca foram muito claras.
Quando o meu pai, depois do seu triunfo, foi enviado por Tibério para as províncias situadas além-mar, aminha mãe regozijou-se por reencontrar o país da sua infância. E tanto mais que Germânico teria aí plenos poderes, como Agripa outrora. Pelo menos, assim o pensava ela. O imperador declarara aos Patrícios que apenas a sabedoria de Germânico poderia reconduzir a calma a essa região. Naturalmente, ninguém o contrariou e Germânico partiu para o Oriente, e nós com ele. Recordo-me dessa interminável viagem. Uma vez mais, a minha mãe estava grávida. Eu começava a ser suficientemente crescida para compreender que ela suportava mal os balanços do nosso carro, nas más estradas, e pouco melhor os movimentos do navio, quando, após longos trajectos por terra, embarcávamos num barco da frota militar. A viagem começara no Inverno e eu soube mais tarde que esse era o pior momento do ano para uma travessia. A nossa mãe sofria muito. Eu passava tanto tempo quanto podia junto dela. Ela dizia-me que eu a reconfortava. Eu percebia também que ela era sensível às honras com que a rodeavam, a bordo e ao longo das estradas, mas isso não a impedia de sofrer dores terríveis, em certos momentos. O meu pai, bastante ocupado, mesmo durante as navegações, recebendo a todo o momento mensagens que lhe chegavam de barcos rápidos ou de correios especiais, tendo de ditar sem demora as respostas, preparando, dizia-nos ele, as medidas que deveria tomar quando chegasse aqui ou ali, não podia fazer melhor do que vir de tempos a tempos saber como suportava ela todas aquelas provas; e então, depois de algumas palavras de encorajamento, desaparecia, completamente dedicado aos seus deveres». In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia Lyon E./JDACT

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «O quarto estava agora em completa escuridão. A minha mãe estava em silêncio, mas os seus lábios moviam-se. Sonhava com o quê? Com o passado que vivera? Com o futuro que a esperava e que eu percebera que ela temia?»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) Não era absolutamente seguro que tudo não passasse de uma comédia, e decerto imaginas que eu protestei contra tudo aquilo. Conheces-me o suficiente para saber até que ponto detesto a cobardia ou mesmo a sua aparência. Eu era sincera, e isso permitiu dar o espectáculo de uma cena de suplicações, eu recusando-me a deixar Germânico e ele pressionando-me com argumentos afectuosos. Naturalmente, tal cena atraiu, pouco a pouco, espectadores. Assim que eu cedi e que a fila de carros partiu do centro do acampamento, para se dirigir para a porta principal, uma multidão de soldados acompanhou-o. Tudo aquilo era suficientemente patético. Espalhou-se o boato de que íamos pedir abrigo aos Tréveros, tu sabes quem são, o povo gaulês que nos é tão fiel. Perante a ideia de que estaríamos mais seguros entre Gauleses do que no acampamento das legiões, os soldados indignaram-se, ficaram desolados e enfureceram-se. Queriam reter os carros. O teu pai aproveitou para lhes dirigir um discurso bastante hábil; nele reconheci, em diversos momentos, a memória dos grandes oradores do passado. A conclusão foi que eu não ficaria no acampamento. A estação estava já muito avançada e tu não tardarias em nascer. Aqueles que procuravam reter-me, mas por que não provavam eles, de uma forma evidente, que tinham voltado ao cumprimento do dever? Eles podiam fazê-lo, condenando à morte, de surpresa, os culpados da rebelião! Eis, concluiu a minha mãe, as circunstâncias em que tu, minha filha, nasceste. Entre perigos e semelhante a uma personagem trágica.
Eu ouvia tudo aquilo um pouco enfastiada, como a narração de coisas distantes com as quais se deleitam, inexplicavelmente, os mais velhos, que lhes associam um interesse, que, de uma forma vã, tentam partilhar com jovens auditores. Não obstante, guardava para mim a ideia de que o destino fizera de mim, antes mesmo de eu nascer, uma heroína de tragédia. Uma rainha, evidentemente. Com excepção das rainhas, não há, nas tragédias, senão amas e confidentes. Eu não poderia ser nem uma nem outra. Portanto, era chamada a ser rainha! Quando a tardinha sobreveio, uma luz mais clara apareceu sobre o Janículo, acompanhando o pôr-do-sol. A minha mãe adormecera, e eu fiquei sozinha, a pensar, tentando recordar-me do que ela dissera. Não tinha a certeza de ter compreendido tudo. As palavras, por certo, seria capaz de as repetir, estavam gravadas na minha memória e ainda hoje, depois de trinta anos, as posso recordar! Mas o seu sentido não me parecia muito claro. Deixaram-me duas ou três impressões. Em primeiro lugar, a importância dos soldados na vida do Estado, o poder que tinham para pôr ou depor imperadores, consoante aqueles a quem se ligavam. Compreendi também que esse poder assentava no direito, que lhes era reconhecido, de matar.
E então, a minha digressão voou até à pessoa de meu pai, de quem apenas tinha imagens confusas, mas bastante exaltantes! A do triunfador, sobre o carro que o conduzia ao Capitólio, para homenagear Júpiter Óptimo Máximo com a sua vitória. Também eu estava no carro, com os meus três irmãos mais velhos e a minha irmã Drusila, a mais nova. Ela não tinha ainda seis meses. Eu tinha muito orgulho por ser maior do que ela. Eu tinha dois anos e meio! O triunfo do meu pai. Ainda uma das minhas maiores recordações, aquela que eu gostava de lembrar, com todos os pormenores que conseguia encontrar, à noite, quando adormecia: os gritos da multidão, o passo dos soldados sobre as lajes da Via Sacra, os prisioneiros germanos que precediam o cortejo dos vencedores e as imagens, pintadas em grandes painéis, dos países que as nossas legiões tinham conquistado, das montanhas, dos rios, do sítio onde eu nascera e que, para mim, assumia a forma de uma lenda. E depois, vinha o próprio Germânico, grande, magnífico, dominando toda a cena. Conheci-o tão pouco, por tão pouco tempo!
O quarto estava agora em completa escuridão. A minha mãe estava em silêncio, mas os seus lábios moviam-se. Sonhava com o quê? Com o passado que vivera? Com o futuro que a esperava e que eu percebera que ela temia? As últimas luzes do dia deixavam-me ainda distinguir, sobre as paredes do quarto, imagens que, como eu sabia, o meu pai mandara pintar, muito antes de conhecer o Egipto, aonde ele não conseguiu evitar ir, no último ano da sua vida. Aí havia figuras estranhas, que me causavam um pouco de medo. Um servo, chamado Psamútis, que viera de 1á com a minha mãe, ensinara-me o nome dessas figuras e coisas estranhas a seu respeito. Vês, dizia-me ele, esta deusa de pé, que tem um crescente de lua sobre a cabeça, vês o seu longo vestido branco e o seu manto azul? É Ísis, a rainha. Acaba de dar a vida a Osíris, seu marido, que estava morto... Eu pensava naquela que tinha o poder de reanimar os mortos, e perguntava a mim mesma se a minha mãe alguma vez se tentara convencer de que a graçade Ísis lhe devolveria, um dia, aquele que ela perdera?» In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia Lyon E./JDACT

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «Como sabes, dizia ela, eu estava no acampamento, durante esses dias difíceis. Estava com o teu irmão Caio, e esperava o teu nascimento. Tu serias o meu quinto filho, normalmente, tomamos tantas precauções em circunstâncias semelhantes!»


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O Tempo de Meu Pai
«(…) O juramento do casamento era tão sagrado como o do legionário ao seu chefe? A fidelidade que a minha mãe guardava à recordação do seu marido fazia-me suspeitar que, pelo menos algumas vezes, podia ser assim. No meu devaneio, as palavras da minha mãe continuavam a chegar até mim: Morto Augusto, dizia-se-lhes que Tibério César era agora o seu imperator. Também muitos o conheciam. Sabiam que era bravo no combate e um bom general. Mas o quê? Também ele era um velho. Com mais de cinquenta e seis anos, numa idade em que, há já muito tempo, um cidadão não é convocado para o recrutamento, como podia ele ser esse companheiro de armas que eles desejavam? Havia muito tempo que ele não deixava a cidade. Cada vez que anunciava a intenção de ir ter com os exércitos, esquivava-se quando chegava o momento de o fazer. Eles tinham necessidade de um chefe que soubesse ouvi-los e que com seus olhos fosse testemunha dos sofrimentos deles. Ah, certamente, Germânico sabia bem compreender os seus homens. Ele tinha consciência do fascínio que exercia sobre eles. Devia-o, como sabes, tanto ao seu prestígio pessoal como à recordação do seu pai, Druso, que as legiões jamais haviam esquecido. E depois, havia também nele qualquer coisa do seu avô, António, que durante alguns anos, tivera um destino real… Percebi, mais ou menos, que os soldados haviam proposto a meu pai fazê-lo imperador, sem que as razões me fossem completamente claras. Levada pelas recordações, a minha mãe contou-me então como Germânico imaginara uma saída para a situação, na qual um e outro tinham sido postos.
Como sabes, dizia ela, eu estava no acampamento, durante esses dias difíceis. Estava com o teu irmão Caio, e esperava o teu nascimento. Tu serias o meu quinto filho, normalmente, tomamos tantas precauções em circunstâncias semelhantes! Não seria perigoso para mim permanecer no meio de soldados amotinados? Soldados esses que Germânico sabia amarem-nos bem. Tinham um carinho especial por Caio. Haviam-no alcunhado de pequena sandália, tal era a satisfação por o verem vestido como eles. Tudo aquilo me tranquilizava. Germânico fez-me ver que era possível um acidente, que, por muito popular que ele fosse, esse sentimento podia não ser partilhado por todos. Recordou-me como tivera um exemplo disso antes da sua chegada ao acampamento de Colónia. Quando os soldados se ofereceram para o proclamar imperador, ele que conhecia bem Tibério e sabia o perigo que isso podia representar para o Estado, dois imperadores simultâneos era o risco de uma guerra civil, deu a entender que se suicidaria, preferindo a morte ao simples pensamento de uma traição. Retirou a sua espada e deixou, sem se fazer muito rogado, que os seus amigos que o acompanhavam lhe segurassem o braço. A maioria dos soldados presentes aplaudiu. Todavia, houve um que ousou aproximar-se de Germânico e estendeu-lhe uma espada desembainhada, dizendo-lhe que estava mais afiada do que a sua. Ao contar a cena, Germânico acrescentou uma expressão que me marcou, e com a qual aprendi, ao longo da minha vida, a compreender a verdade. Um exército, disse ele tem uma só alma, a que se lhe impõe. É para isso que serve a disciplina. Em tempo de rebelião, as almas revelam-se, exprimem o que são, e então tudo é possível.
Como vês, disse a minha mãe, era preciso ser prudente e esse foi o pretexto que ele teve para levar o drama ao fim que desejava, e que convinha. Aparentemente, a maioria das unidades voltou ao cumprimento do dever. Todavia, ele fingiu pensar que essa calma podia ser enganadora e que era prudente pôr-me em segurança, assim como a Caio e a ti mesma, tu que ainda nem havias nascido! Encenou tudo. Um cortejo de carros acompanhar-nos-ia, a mim, juntamente com Caio, assim como às mulheres e filhos dos outros oficiais superiores que formavam o seu estado-maior». In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia Lyon E./JDACT

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «Eu não compreendia muito bem o que a minha mãe queria dizer, mas sentia que o passado era, naquele dia, demasiado pesado para que ela pudesse suportar o seu peso sozinha. Então, eu aninhei-me junto dela enquanto as nuvens…»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) Ainda eu não tinha vindo ao mundo e já a esperança que eu era se encontrava no centro de um drama. O facto de o saber devo-o ao que me contou a minha mãe, quando eu tinha dez anos. Nesse dia estávamos na nossa casa do Palatino, muito próxima da residência imperial. Mas não era para aí que se dirigiam os nossos olhares, era para a outra margem do Tibre, aquela que o meu tio Cláudio teimava em chamar a margem etrusca. Um dia acabaria por me dizer a razão disso, durante uma conversa memorável, que tivemos longe de Roma, e que contarei a seu tempo. A minha mãe estava fatigada, o seu semblante estava tenso. Ela, que normalmente era cheia de energia, estava, nesse dia, a repousar num divã, numa sala grande da casa. Deixava o olhar errar pelos pinheiros do Janículo e pela folhagem dos jardins que desciam pela encosta da colina até à margem do rio. Estávamos no Inverno, quase no início da Primavera. Algumas nuvens vindas do Ocidente obscureciam o dia. Mas eu sabia que a cor do céu e o tempo que fazia não eram suficientes para derrubar assim a coragem da minha mãe, para ensombrar o seu humor. Seriam as notícias que eu ouvira, de manhã, o processo que no senado decorria contra um homem que conhecíamos bem, aquele Cordo, cuja filha mais tarde viria a ser uma das nossas amigas? Eu não sabia ao certo de que era acusado Cordo. Apenas sabia que o senado o condenara. Depois de ter permanecido silenciosa por algum tempo, a minha mãe fez-me vir para junto dela, tomou a minha mão e disse-me: Como desejaria minha filha, que não conhecesses dias como os que vivo neste momento. Estes dias de solidão, nesta casa desolada, com tantas recordações! É tudo o que me resta. Por vezes, voltam a mim, como nuvens de pássaros, que voam sobre a minha cabeça e me escondem o céu! Como gostaria de as lembrar com aquele que as partilhou comigo. Ajudas-me a fazer com que elas não sejam para mim mais do que horríveis pesadelos?
Eu não compreendia muito bem o que a minha mãe queria dizer, mas sentia que o passado era, naquele dia, demasiado pesado para que ela pudesse suportar o seu peso sozinha. Então, eu aninhei-me junto dela enquanto as nuvens continuavam o seu caminho e me pareciam que se tornavam menos ameaçadoras, que anunciavam, talvez não a neve do Inverno, mas os aguaceiros vivificantes da Primavera. Lembras-te, talvez, disse a minha mãe, quando o teu pai e eu estávamos na Gália, quando morreu o deus Augusto. Ele tinha recebido o comando de todas as legiões da Gália e da Germânia. Esse comando, ele não o exercia directamente, e como não tinha de partir em missão militar, eu acompanhei-o. O seu trabalho era mais o de um administrador civil do que o de um soldado. Consistia em fazer o censo dos Gauleses, tu sabes o que é, elaborar a lista dos proprietários, com a quantidade dos seus rendimentos , Para repartir o imposto... Ouvia a minha mãe apenas por um ouvido. O quê? Aquele herói, pelo menos assim o pensava, conservado piedosamente naquele quarto, a coroa de louros que levara aquando do seu triunfo, aquele general magnífico que eu vira nesse dia em toda a sua glória, havia dedicado meses e meses a desempenhar esse papel de intendente? Em nossa casa, tais ocupações eram para os libertos.
A minha atenção desviara-se um pouco, enquanto a minha mãe continuava a falar: ...então, subitamente, soube-se que Augusto morrera e, em algumas guarnições, os soldados amotinaram-se. Naturalmente, era uma falta grave, um crime. Faltavam ao seu juramento. Eu indignei-me, disse-o a Germânico, que, sem lhes dar razão, se tornou até um certo ponto o seu advogado diante de mim, no segredo da nossa casa, o quartel-general... A minha mãe parou de falar. Revivia a cena, reencontrava as palavras do discurso, com uma espécie de alegria que dava ao seu rosto a animação que um momento antes estava ausente, e eu estava mais interessada e comovida por aquela metamorfose, que eu percebia que se devia mais ao amor que ela jamais deixara de sentir pelo marido, que às palavras do meu pai. É verdade, dizia Germânico, é imperdoável, mas muitos deles servem o exército há já trinta anos e nada lhes permite antever que um dia voltem a ser homens livres. A sua única perspectiva é a de morrer em serviço, nos campos onde, como sabes, a disciplina é dura, onde não encontram qualquer dos encantos da vida. Augusto acaba de morrer. Era o seu chefe, o seu imperator. Alguns conheceram-no, noutros tempos. Mas, há já muito tempo que ele não era mais do que um simples nome. Não se podia esperar que ele viesse apresentar-se-lhes. Tinha mais de setenta e cinco anos. E, no entanto, era a ele que estavam ligados, a ele que prestaram juramento... Tudo aquilo me aborrecia um pouco. Perguntava a mim mesma, vagamente, por que razão o facto de se ter pronunciado, um dia, algumas palavras endereçadas a um homem, isso se tornava um laço que nada mais podia romper. Até mesmo a morte? Mas a de quem? A do soldado ou a do imperator? Passar-se-ia o mesmo nas relações entre homens e mulheres?» In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia Lyon E./JDACT

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «… tomei a decisão de começar estas memórias. Tenho muitas recordações, conheço demasiados segredos para deixar que tudo isso pereça. E depois, quero justificar-me, dizer a minha verdade, prestar justiça…»

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«Esta noite, no final do terceiro dia dos Jogos Palatinos, começo a escrever o que será a minha história e a da minha família, e os meus olhos estão horrorizados. Britânico morreu. Morreu esta mesma noite, durante o jantar que marcava o encerramento dos jogos. Vi-o, sentado com os outros jovens e com as mulheres, bastante perto de mim. Pediu de beber. Não sei o que se passou, ao certo. Levou uma taça à boca, e depois rejeitou-a. Um servo, um novo que não conheço, acorreu com um jarro, deitou água na taça e Britânico, por fim, bebeu. Então, o seu corpo ficou de imediato completamente hirto. Pensei que se quisesse levantar, mas ele não concluiu o seu gesto. Voltou a cair, inerte e já inconsciente. Em torno dele, as pessoas deram a impressão de se apressarem. Um olhar de Nero, mais forte do que uma ordem, imobilizou toda a gente nos seus lugares. Dois dos servos pessoais de Britânico avançaram e, com o consentimento do príncipe, que lhes dirigiu um gesto, levantaram o que já era um cadáver. Ninguém ousava falar. Nero, por fim, rompeu o silêncio e lembrou que o seu irmão costumava ter crises de epilepsia, que então desmaiava, como esta noite, mas que não tardaria a voltar a si. A mesma doença, acrescentava ele, não impedira o seu pai, Cláudio, de viver até uma idade muito avançada. Vi então o seu olhar passar sobre mim, por um breve instante, e compreendi tudo. Eu sabia que Britânico estava morto. Nero jamais pensou que eu pudesse deixar-me enganar. E avisava-me. A alusão à morte de Cláudio era clara. Britânico também fora envenenado. Se eu matara o pai, não teria Nero o direito de fazer desaparecer o filho? A jogada era a mesma. Tomar ou conservar o poder, aquela omnipotência que pertencera a Cláudio, que pertencia agora a Nero e que eu, sua mãe, a quem ele a devia, podia disputar também agora.
O jantar terminou como se nada tivesse acontecido. Eu não queria mostrar que tinha compreendido, mas é provável que a expressão do meu rosto me tenha traído. Cometi igualmente o erro de olhar para Octávia que estava presente, como convém à esposa do príncipe. Ela mantivera-se impassível, sem deixar transparecer qualquer sentimento. Mas também ela, decerto, compreendera. Nero tinha visto o meu olhar. Terei eu, ao dirigir os meus olhos para ela deixado transparecer o temor que senti pela filha de Cláudio? Octávia era uma refém. Nero não hesitaria em fazê-la desaparecer, como fizera com o seu irmão. Perguntei, então, a mim mesma, que motivo teria para acrescentar um crime ao outro. Octávia não era para ele uma ameaça. Antes pelo contrário, ela era uma das razões que faziam dele um imperador legítimo, filho e genro de Cláudio. Não, Octávia era demasiado preciosa para ele a sacrificar. A menos que...? Mas não ousei ir mais longe nestes terríveis pensamentos. Todavia, a verdade impunha-se, o que eu estava a querer dizer era: a menos que uma outra paixão, que não a do poder, se apodere dele. Caberia a mim zelar para que isso não acontecesse.
Mas por quanto tempo poderei eu própria fazê-lo? Há já muitos anos que me sabia condenada a morrer, a morrer por ele. Como esquecer o dia em que Balbilo, o filho de Trasilo, que não era pior astrólogo do que o seu pai, me revelou, como um desafio, que Nero reinaria e que mataria a sua mãe? Respondi-lhe sem hesitar: Que me mate, desde que reine! Talvez estivesse próxima do momento em que a segunda parte da profecia se cumprirá. Na liteira que me conduzia a casa, perguntava a mim mesma: estaria eu, de facto, assim tão resignada como pretendia fazer parecer, há já mais de vinte anos? Estaria eu preparada para morrer? Mas, não haveria outra saída? Talvez os destinos não sejam implacáveis; talvez sejamos pouco hábeis para os interpretar. Os oráculos aparentemente mais evidentes deixam lugar para escapatórias.
Chegada a casa, e depois das servas terem terminado os mil cuidados que acompanham todos os dias o meu recolhimento, tomei a decisão de começar estas memórias. Tenho muitas recordações, conheço demasiados segredos para deixar que tudo isso pereça. E depois, quero justificar-me, dizer a minha verdade, prestar justiça aos que me rodearam ou cuja imagem acompanhou toda a minha existência, ouvir de novo as suas vozes. Sei que alguns fizeram nascer ódios violentos e que em Roma não se é meigo para com a sua recordação. Mas que tenho eu com o que pensam os outros, com os que não sabem, que jamais conheceram essas violências da alma, inseparáveis daquilo que somos, nós, a quem os deuses dão a tarefa de reinar! Tais arrebatamentos podem muito bem ser comprados ao preço da morte». In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

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