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domingo, 9 de outubro de 2011

António Ventura. José Frederico Laranjo (1846-1910): «A nível regional e local passava-se o mesmo, eram figuras influentes quem animava os partidos, caciques de diverso matiz que arregimentavam votos e conduziam os eleitores até às urnas, como muito bem descreveram os nossos caricaturistas do século passado …»

Cortesia de edicoescolibri

O político. Na Câmara dos Deputados
«As esperanças depositadas nas eleições de 1878 dissiparam-se parcialmente. A nível nacional a vitória pertenceu ao Partido Regenerador - Fontes Pereira de Melo era de novo chefe do governo - mas o Partido Progressista registou avanços substanciais no Alto Alentejo. No círculo de Portalegre, Frederico Laranjo triunfou com mais de 2000 votos de vantagem, vencendo em Castelo de Vide, Marvão e Portalegre, e só perdendo em Arronches. As áreas de influência sua, de Diogo da Fonseca e de Luís Xavier eram nítidas.

No entanto, o novo executivo não terá vida longa. No Parlamento levantam-se incómodas discussões em redor de questões candentes como a concessão da Zambézia. A Câmara dos Pares hostilizava o governo, que foi substancialmente enfraquecido com as demissões dos ministros Barjona de Freitas, Andrade Corvo, António Lourenço de Carvalho e Couto Monteiro. A sobrevivência do executivo estava comprometida, acabando por se demitir a 1 de Junho de 1879. Era tempo de os progressistas assumirem o poder. Naquele mesmo dia tomava posse um novo elenco ministerial chefiado por Anselmo José Braancamp, com José Luciano de Castro (Reino), Adriano de Abreu Cardoso Machado (Justiça), Barros Gomes (Fazenda), João Crisóstomo (Guerra), marquês de Sabugosa (Marinha e Ultramar) e Saraiva de Carvalho (Obras Públicas).
Frederico Laranjo assumira, entretanto, o seu lugar no Parlamento. Entrara na «cova dos leões», como lhe chamou António Cabral. Antes de partir pata a capital, Luís Xavier de Barros Castelo Branco procurou-o e disse-lhe:
  • «É provável que o Partido Progressista vá ao poder; é provável que me façam pedidos para lhe transmitir; se eu lhe fizer qualquer pedido, veja se o que peço é bom para o país, bom para o seu partido, bom para si; se for bom sob estes aspectos, faça, se puder; se não, não se apoquente, que não será por isso que me molestarei».

Cortesia de wikipedia

Luís Xavier queria marcar a diferença. O Partido Progressista estava agora no poder. Tinha que mostrar que não era igual ao Regenerador. Façamos um breve parêntesis para abordar outra questão. Como se sabe, os partidos políticos nessa época nada tinham que ver com os partidos dos nossos dias. Não eram partidos de massas, de militantes, com estruturas nacionais. Bem pelo contrário, assentavam em uma ou duas personalidades nacionais prestigiadas, que serviam de bandeira e de programa, em redor das quais se congregavam outros notáveis, os «marechais». A nível regional e local passava-se o mesmo, eram figuras influentes quem animava os partidos, caciques de diverso matiz que arregimentavam votos e conduziam os eleitores até às urnas, como muito bem descreveram os nossos caricaturistas do século passado e o próprio Eça de Queiroz, nessas páginas inolvidáveis de “As Farpas”. Nesta região, o Partido Progressista estruturava-se, assentando para além das personalidades já referidas, num conjunto assinalável de nomes bem sonantes:
  • Em Portalegre, Henrique de Sá Nogueira de Vasconcelos, Dr. Martinho de França de Azevedo Coutinho, João da Fonseca Achaioli, António Dinis Sampaio, Dr. António Joaquim Araújo Juzarte de Campos, Dr. Francisco António Rosa, Inácio Castelo Branco, o Cónego Adolfo Ernesto Mota;
  • No resto do distrito, salientamos os nomes de Eusébio David Nunes da Silva, José Alfredo Menice Sardinha, António Lino Neto, António José Repenicado, António Amaro Canelas, João Magrassó, José Augusto Serra, João Rafael Mendes Dona, Joaquim de Calça e Pina...
Era também o partido com maior popularidade junto dos operários, em especial os corticeiros. O tipógrafo Leonardo Augusto, por exemplo, um dos pioneiros do movimento associativo em Portalegre, era membro do Partido Progressista e será vereador da Câmara Municipal local por aquela formação política.
No campo contrário a situação era semelhante. Ali se congregavam figuras de relevo à frente das quais estava o Vigário Geral da diocese, Dr. José d'Andrade Sequeira, máximo responsável distrital do Partido Regenerador. Outros dirigentes regeneradores dignos de registo foram os viscondes de Reguengo e dos Cidrais (este, Adolfo Juzarte Rolo, acompanhará João Franco na cisão que dará origem ao Partido Regenerador-Liberal, sendo seu dirigente distrital), o conde de Avilez, Jerónimo Sequeira, o cónego José Maria Ressurreição, e, naturalmente, os diversos governadores civis que dirigiram o distrito, com especial destaque para o Conselheiro Cândido Maria Cau da Costa.

Cortesia de wikipedia

Os elencos dirigentes registaram algumas alterações na sua composição provocadas pela chegada de novos elementos, em especial funcionários públicos colocados quando mudava o governo, ou estudantes que terminavam os cursos, por falecimentos, mas nota-se uma certa estabilidade nos dirigentes concelhios e distritais.
Os mecanismos conducentes à designação dos candidatos a deputados, eram desencadeados pelos órgãos directivos nacionais dos partidos, que se impunham às regiões, provocando por vezes conflitos que levavam a demissões e ao aparecimento de candidatos independentes. Um caso paradigmático foi o do Conselheiro José Rebelo, que foi sucessivamente eleito deputado devido à influência que detinha na região de Gavião. As direcções partidárias acabavam por impor elementos alheios aos círculos pelos quais se apresentavam, como forma de assegurar a sua eleição. António Cabral, nas suas memórias políticas, dá-nos um bom exemplo com a sua experiência pessoal. A nível desta região, um futuro deputado do Partido Progressista e redactor do Correio da Noite, Lourenço Cayo1a, descreveu num dos seus livros de memórias o convite que José Luciano de Castro lhe dirigiu para ser candidato e a forma como foi escolhido o respectivo círculo:
  • «Uma noite, o prestigioso estadista, em sua casa, chamou-me de lado e disse-me sem preâmbulos: - Como sabe, vamos ter em breve eleições de deputados. Desejava que o meu amigo fizesse parte da futura Câmara e por isso queria combinar consigo o círculo por onde há-de vir a ser proposto. Sendo há quatro anos um dos redactores políticos do Correio da Noite, o órgão da imprensa do Partido Progressista, e conhecendo há muito a estima que me dedicava o meu chefe político, a frase que acabara de lhe ouvir não me causou grande surpresa. Nem por isso, porém, ela deixou de me dar o maior prazer».
In António Ventura, José Frederico Laranjo, Colecção Estudos de História Regional, Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-48-4.

Edições Colibri/JDACT

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

António Ventura. José Frederico Laranjo (1846-1910): «... falávamos de literatura, quando Luís Xavier nos disse: Pois se o Dr. Laranjo quiser o meu apoio para a sua eleição de deputado, está às suas ordens: - Mas V.ª Ex.ª, respondi eu, tem parentes que talvez queiram ser deputados, e eu não faço questão de mim. Mas faço-a eu, replicou ele; se for o Sr. o candidato, entro na luta; se não, não…»


Cortesia de bibdigitalfduc e fontedavilaorg

O político. Na Câmara dos Deputados
«Sendo natural de Castelo de Vide e desenvolvendo aí uma actividade continuada no campo associativo, não foi difícil o aproveitamento de um episódio particular, isolado, transpondo-o para o plano político, mais geral. Esse foi o primeiro passo. Depois, era uma questão de transformar o seu grupo de apoiantes e de amigos em núcleo local do Partido Progressista. Mas em Portalegre a situação era bem diferente. Quem conhecia José Frederico Laranjo, salvo alguns estudantes em Coimbra? Necessitava de apoios de personalidades de grande prestígio local. A mais importante foi a de Diogo da Fonseca Achaioli Coutinho de Sousa Tavares, figura proeminente na vida social portalegrense, descendente de algumas das principais famílias nobres da região, os Achaioli, os Fonsecas, os Jusantes, e os Sousas de Arronches. Diogo da Fonseca, (1831-1904), morgado da Lameira, quinta nos arredores de Portalegre, na freguesia de Reguengo, onde viveu como um cenobita, para utilizarmos a expressão de Rocha Martins num artigo que lhe dedicou, filiara-se no Partido Histórico pugnando sempre pelos interesses da sua terra e das camadas mais desfavorecidas. «O povo acompanhava-o, incondicionalmente, para onde fosse ou quisesse ir em matéria eleitoral». A sua acção humanitária fazia-se sentir junto das classes pobres que carinhosamente lhe chamavam «Pai Diogo». De 2 de Julho de 1871 até 1876, Diogo da Fonseca foi o máximo responsável pela Misericórdia de Portalegre, sendo então alvo de calúnias que pretendiam atingir a sua honorabilidades.

Cortesia de ecolibri e jdact

Tanto o episódio de Castelo de Vide como o de Portalegre foram largamente explorados por José Frederico Laranjo nos manifestos «Aos Habitantes de Castelo de Vide (1817) e Ao Concelho de Portalegre (1878)».

Foi nesse ambiente conflituoso e tenso que se vivia em Portalegre, que José Frederico Laranjo se deslocou à capital do distrito com dois objectivos:
  • procurar adesões ao Partido Progressista,
  • organizar uma candidatura para as eleições de 1878.
Uma das personalidades a contactar, era, naturalmente, Diogo da Fonseca. O próprio Laranjo descreve as razões que o levaram a avistar-se com ele e as circunstâncias em que o encontro decorreu:
  • «Diogo da Fonseca estava em disputa com o Governador Civil Read Cabrals; nós combatíamos em Castelo de Vide o governo regenerador; simultaneamente tivemos a ideia de nos procurarmos para unirmos esforços; foi a primeira conferência no palácio do Corro, hoje liceu; o Sr. Diogo da Fonseca pedia a nossa coadjuvação na luta em que estava empenhado, a troco da dele para a nossa candidatura a deputado; respondemos que sua Ex.ª tinha um cunhado que era advogado distinto, o Sr. Dr. Temudo, que podia querer ser deputado, não fazíamos questão de ser nós; a única questão era que as lutas devem ser em nome e sob a bandeira do Partido Progressista. O Sr. Dr. Temudo foi consultado; não quis a candidatura, e desde então ficou assente a nossa».
Outra personalidade que constituiu um dos esteios fundamentais no lançamento da carreira política de Frederico Laranjo, dedicando-lhe sempre uma amizade que ultrapassava camaradagens partidárias, foi Luís Xavier de Barros Castelo Branco, natural de Castelo de Vide e rico proprietário naquela vila, em Arronches, Nisa e Portalegre. Oriundo de uma família de tradições liberais, que estivera refugiada em Marvão, durante as Guerras Liberais, quando a vila foi tomada pelos emigrados vindos de Espanha, tomara posições semelhantes em períodos críticos como o de 1846 em que apoiou a revolta anticabralista. Em 1867 foi um dos dirigentes do movimento de repulsa contra o projecto de reforma administrativa do Ministro Martens Ferrão, que previa a supressão do distrito de Portalegre, o que se não concretizou por influência do Duque de Loulé e pela queda do executivo, e de unir o concelho de Arronches ao de Monforte.

Castello de Vide, 10-8-1907

Cortesia de fontedavilaorg e jdact

Durante as conversações entre Frederico Laranjo e Diogo da Fonseca Achaioli, levantou-se a hipótese da escolha do candidato progressista para as eleições de 1878 recair sobre Luís Xavier. A solução parecia a mais lógica pelas suas qualidades pessoais e pelo conjunto de apoios que poderia recolher. Era, por um lado, tio de Diogo da Fonseca, assegurando assim os votos que este mobilizaria. Por outro lado, através do casamento estava ligado a uma das mais importantes famílias regeneradoras de Portalegre. De facto, sua mulher, Brites Constança, era irmã de Álvaro e João da Fonseca Coutinho, pilares do Partido Regenerador naquela região. Quem poderia ser um candidato mais indicado que Luís Xavier, congregando amigos e dividindo inimigos? Frederico Laranjo foi-lhe apresentado num clube local e depois foi convidado para tomar chá em casa do influente proprietário. Vejamos como ele descreveu a entrevista:
  • «... falávamos de literatura, quando Luís Xavier nos disse: Pois se o Dr. Laranjo quiser o meu apoio para a sua eleição de deputado, está às suas ordens: - Mas V.ª Ex.ª, respondi eu, tem parentes que talvez queiram ser deputados, e eu não faço questão de mim. Mas faço-a eu, replicou ele; se for o Sr. o candidato, entro na luta; se não, não. - Ao que devo eu, perguntava, muito surpreendido, o então candidato a deputado, a espontânea adesão de V. Ex.ª à minha candidatura? - Ao facto de me parecer que tem as condições para ser um bom deputado; ao reconhecimento da sua instrução; às informações que tenho do seu carácter; se corresponder ao juízo que eu faço, continuo a auxiliá-lo; se não, não».
In António Ventura, José Frederico Laranjo, Colecção Estudos de História Regional, Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-48-4.


A amizade de AV
Edições Colibri/JDACT