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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Radar Meteorológico. Norte. «É uma ferramenta de observação remota que emitirá um feixe com um alcance de 300 quilómetros, especifica. É automático e, tal como o de Coruche e de Loulé, será gerido em Lisboa»

Cortesia dejpublico

Com a devida vénia ao Jornal Público

«No Pico do Gralheiro, em plena Serra da Freita, em Arouca, a cerca de 1100 metros de altitude, está uma torre com 47 metros e 13 pisos. É o radar meteorológico mais moderno de Portugal, que cobrirá a zona Norte, até agora dependente dos dados de quatro radares espanhóis. É o único radar do país com polarização dupla e com um miradouro à disposição dos visitantes. Vai ser inaugurado dia 18 deste mês, pelo PR, Cavaco Silva, que andará pelo geoparque de Arouca num roteiro que inclui uma visita às pedras parideiras. Ainda em regime experimental, o radar do Norte, que representou um investimento de cerca de três milhões de euros comparticipados em 85% por fundos comunitários, deverá entrar em funcionamento durante este trimestre. É o único radar do país que emite os seus sinais tanto na horizontal como na vertical, o que permite identificar o tipo de partículas de água em diversos estados na atmosfera e, além disso, tem um miradouro à disposição dos visitantes. Portugal passará a ter um terceiro radar com tecnologia mais avançada do que os dois já existentes. O radar de Coruche, que cobre a zona Centro, funciona desde Junho de 1998, e o de Loulé, no Sul, desde Janeiro de 2005. O radar de Arouca distingue-se, desde logo, pela emissão horizontal e verticalmente dos seus sinais (polarização dupla do sinal), o que facilita a classificação do tipo de partículas na atmosfera, de chuva, neve ou granizo, e permite determinar com mais rigor a sua intensidade. Com um radar de polarização dupla podemos ter uma definição mais correcta dos contornos das partículas e, com isso, podemos dizer com boa precisão o tipo de partícula estamos a detectar. Dentro da chuva [por exemplo], se são chuviscos ou é chuva forte, explica o gestor do projecto do radar, o meteorologista Sérgio Barbosa, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA - ex-IM). Os radares de Coruche e Loulé, acrescenta, são de polarização só horizontal, pelo que permitem dizer que se está a detectar uma mancha forte de partículas, por exemplo, mas não o seu tipo. A tecnologia permite assim detectar alterações meteorológicas e hidrológicas, como fenómenos inesperados e o aumento da intensidade da chuva, além de ocorrências pontuais como nuvens de fumo que se formam nos incêndios florestais. Ou seja, detecta chuva forte e localizada, chuva forte e prolongada, saraiva, granizo, ventos muito fortes e acompanha as suas trajectórias. Os radares de Coruche e de Loulé também o fazem, mas o do Norte será mais eficiente pela tecnologia que incorpora. E a distância de 200 quilómetros entre cada um dos três radares permite desenvolver um padrão espacial da precipitação e medir a velocidade do vento com maior precisão. O receptor do novo radar é mais sensível, por isso detecta partículas mais pequenas. E há um aspecto que Sérgio Barbosa salienta como um contributo valioso na salvaguarda de pessoas e bens: o radar de Arouca fornecerá informações actualizadas e com previsões até um máximo de três horas de fenómenos meteorológicos adversos e perigosos. Será possível detectar e acompanhar esses fenómenos com uma previsão a tempo imediato. Além disso, permitirá melhorar os modelos de previsão meteorológica e, segundo Sérgio Barbosa, será o local ideal para fazer investigação na área da meteorologia. É uma ferramenta de observação remota que emitirá um feixe com um alcance de 300 quilómetros, especifica. É automático e, tal como o de Coruche e de Loulé, será gerido em Lisboa. Desde Outubro que está em regime experimental. Há sempre ajustamentos a fazer, rastreios... Tarefas que incluem reduzir a influência dos parques eólicos. Com o radar de Arouca, a região Norte deixa de depender, como agora acontece, dos radares espanhóis da Corunha, Santander, Valladolid e Cáceres. Estes radares têm sido muito úteis e a colaboração com Espanha continuará, diz Sérgio Barbosa. Os radares espanhóis serão utilizados para cobrir zonas onde se verifiquem ocultações, nomeadamente devido a cadeias montanhosas, e quando o radar de Arouca estiver em manutenção.

Um miradouro para o mar e as serras
E há ainda o miradouro. Não estava programado no projecto inicial, mas quando a torre do radar meteorológico de Arouca começou a ganhar formas percebeu-se que um dos seus varandins daria um belo miradouro. E assim é. A 45 metros de altura, no 10º piso, está um miradouro, um varandim envidraçado, que permite um giro de 360 graus para ver o mar, a ria de Aveiro, o Porto, as serras da Estrela, do Caramulo e de Montemuro e a frecha da Mizarela, uma das cascatas mais altas da Europa, ou seja, toda a paisagem em redor. O acesso é por elevador ou escadas. Depois da inauguração, as visitas podem ser marcadas através do Geoparque de Arouca, que vai gerir o miradouro que será mais um geossítio do seu roteiro. O presidente da Câmara de Arouca, Artur Neves, está feliz com a obra e com a receptividade do IPMA para aí albergar o miradouro. É um exemplo que nem sempre acontece. Trata-se de um investimento da Administração Central que, em boa hora, se disponibilizou para uma concertação com a estratégia local, que assenta no geoparque e nas visitas ao território, frisa. É fantástico. As pessoas têm possibilidade de subir e apreciar a paisagem». In Sara Dias Oliveira, Jornal Público, 5 de Fevereiro de 2015.

Cortesia de Jornal Público

Um abraço, Sérgio! Do amigo JDACT

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «Ao nosso camarada Belino este pequeno livro-recordação em que escreverá as datas memoráveis da nossa luta depois da formação em Eysses da nossa Amicale das B.I.»

Emílio Pereira foi deportado para o campo de Buchenwald, como atesta a sua ficha de prisioneiro
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«(…) Apesar de toda esta informação, Luiz continuava a ser apenas um conjunto de dados inseridos pelos nazis em documentos oficiais. Mas a Revista 2 encontrou, nos livros de baptismo do distrito de Braga, o registo no qual o padre Joaquim Rodrigues da Silva certificava ter baptizado solenemente, na igreja de S. Paio de Figueiredo, em Guimarães, um menino chamado Luiz, que nascera naquela freguesia às oito horas da manhã do dia dezoito do mês de Outubro do ano de mil novecentos e dois, filho legítimo de Lourenço Ferreira Martins, jornaleiro, natural desta freguesia e de Joanna de Oliveira, tendeira de cotim e natural da freguesia de S. Martinho de Leitões, deste concelho de Guimarães. Luiz nasceu nove meses depois de os pais terem protagonizado o primeiro casamento do ano em Figueiredo, a 9 de Janeiro de 1902, e haveria de ser o mais velho dos seis filhos do casal. O pai especializou-se como funileiro e viu a vida melhorar, fazendo vários acrescentos à casa que entretanto adquiriu em Airão, Santa Maria, para onde a família se mudou. Hoje, a velha casa ainda existe, em ruínas, abandonada às silvas, e há pelo menos uma sobrinha de Luiz, filha da sua irmã mais nova, Ana da Glória, que continua a morar em Airão. Mas é em Joane, Vila Nova de Famalicão, que encontramos Amélia Martins, a sobrinha favorita de Luiz, com 62 anos e uma colecção de memórias do tio. Amélia foi quem mais se aproximou do tio, quando ele, comunista, regressou ao religioso e conservador Minho do pré-25 de Abril. Nos anos seguintes, Amélia nunca parou de trocar correspondência com ele, de o visitar em França e até de o acompanhar em eventos do Partido Comunista francês. Quando morreu, foi a Amélia que Luiz confiou a responsabilidade de cumprir os seus desejos. E é ela quem guarda os seus livros relacionados com a II Guerra Mundial.
Amélia recebe-nos com essa pilha de livros e também com um álbum de fotografias do tio, dedicado a este conflito e à Guerra Civil de Espanha. Entre os volumes que Amélia trouxe de casa de Luiz, em Lyon, depois da morte deste, aos 89 anos, há um livro chamado La Déportation, feito pela Fédération Nationale des Déportés et Internés Résistants et Patriotes, que contém a inscrição, em francês: Impresso especialmente para Louis Ferrera Martins Deportado em Buchenwald. Neste livro, Luiz introduziu folhas pautadas, escritas à mão e dirigidas a Amélia, com o objectivo de a ajudar a compreender melhor as imagens a preto e branco que ocupam quase todas as páginas. Estas pequenas notas, cheias dos erros naturais de quem pouco fora à escola e abandonara o país há décadas, são um documento precioso para preencher as lacunas deixadas pelos documentos nazis e pelas memórias de Amélia. O meu tio foi uma pessoa que cumpriu bem a vida, porque entendeu tudo muito bem, apesar de todo o sofrimento. Cumpriu o papel dele no mundo. Penso que não era daquelas pessoas que chega ao fim e diz: a minha vida foi uma perda de tempo. Ele não podia dizer isso. Ele tinha a ideia de que tinha feito tudo o que podia, conta Amélia, enquanto vai correndo os olhos e os dedos pelas fotografias espalhadas pela mesa.
Segundo Amélia, o filho mais velho de Lourenço e Joana chegou a estar emigrado com o pai em Inglaterra e em França, antes de um desentendimento entre ambos o ter levado a permanecer neste país. Acho que o meu tio tinha algumas queixas do meu avô, já quando trabalhavam aqui, e lá as dificuldades acentuaram-se. Acabou por deixar o pai e desaparecer, já com vinte e tal anos. O meu avô teve de regressar sozinho, que ele nunca mais deu notícias. A minha avó perguntava, queria saber do filho, e o meu avô dizia o rapaz fugiu. Nada a fazer, conta. Os pais de Luiz haveriam de morrer, ela com 83 anos e ele com 95, sem terem mais notícias do filho. Sem fazerem a mínima ideia se estava morto ou vivo e, muito menos, que passara quase cinco anos em prisões francesas e em campos de concentração nazis.
Luiz começou a sua vida em França, sozinho, não se sabe exactamente em que ano, mas em 1932, conforme escreveu numa das notas deixadas à sobrinha, já militava no Partido Comunista Francês. Foi sindicalista até morrer, em 1991. Em 1936, partiu como voluntário para a Guerra Civil de Espanha e por lá ficou até 1938, usando o nome de código Simon. Nas notas que deixou a Amélia, uma foi colocada junto à fotografia do Coronel Fabien (Pierre Georges), morto em 1944 na frente da Alsácia, com a indicação: Foi combatente comigo na 12.ª Brigada (Madrid 1938). Luiz integrou o Batalhão André Marty, liderado pelo comunista Fernand Belino e, quando ambos estavam já detidos na Prisão Central de Eysses, em França, o português é um dos prisioneiros que lhe oferece, a 7 de Novembro de 1943, um caderno, ostentando na capa um desenho de um voluntário das Brigadas Internacionais e um texto (com a assinatura, entre outras, de Luiz Ferreira) em que se pode ler: Ao nosso camarada Belino este pequeno livro-recordação em que escreverá as datas memoráveis da nossa luta depois da formação em Eysses da nossa Amicale das B.I.; como testemunho da nossa fraternidade e dos serviços que ele prestou como oficial do Batalhão André Marty. Nas notas manuscritas inseridas no livro La Déportation, Luiz refere: Desde 1940 a Resistência se organiza. Eu fui apanhado a 15 de Outubro de 1940. Outros seguiram o mesmo combate. Junto a uma fotografia da Prisão Central de Eysses, o português escreveu: Foi uma das minhas várias cadeias em França, antes de ser deportado [para] Buchenwald». In Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «Além da morada de Michael, o documento indica que ele morreu às 15h20 do dia 24 de Julho de 1942, menos de um mês depois de chegar ao campo que, por esta altura, já se expandira para os terrenos em Birkenau e se tornara numa verdadeira máquina organizada de matar»

Luiz Ferreira numa fotografia da colecção familiar
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«(…) Apesar de a deportação e morte de Michael em Auschwitz ser algo de que Alberto se recorda de ouvir falar desde criança, não sabe precisar quando é que o primo emigrou para França, nem se se casou, se teve filhos ou em que condições é que foi preso. A neta de Raquel lembra-se de a avó contar que o irmão casara e que fora denunciado aos alemães por um cunhado francês. Alberto diz que essa é uma história que também já ouviu, mas que nunca foi confirmada. Pode ter acontecido que, à semelhança de outros passageiros do comboio n.º 813, Michael Fresco tenha respondido voluntariamente à convocatória para apresentação às autoridades feita a todos os judeus estrangeiros residentes em França, a 14 de Maio de 1941, pelo regime de Vichy, e que ficaria conhecida como a rafle du billet vert. Do que não há dúvidas é que Michael Fresco residia no Quai d’Orléans, n.º 11, em Nantes, antes de ser detido. Os nazis eram meticulosos nos registos que faziam dos prisioneiros e o certificado que atesta a morte do português em Auschwitz escapou à destruição organizada de todos os registos, pelos alemães, nos últimos meses da guerra. Além da morada de Michael, o documento indica que ele morreu às 15h20 do dia 24 de Julho de 1942, menos de um mês depois de chegar ao campo que, por esta altura, já se expandira para os terrenos em Birkenau e se tornara numa verdadeira máquina organizada de matar. Para aqueles que não eram imediatamente seleccionados para as câmaras de gás, a esperança de vida era de poucos meses, Graças ao trabalho escravo que eram obrigados a suportar, à subnutrição ou às experiências médicas ali desenvolvidas.
No caso de Michael, a causa de morte apontada pelos nazis é hidropisia cardíaca. Rebecca Boehing, directora do International Tracing Service (ITS), na Alemanha, avisa que estas certidões de óbito devem ser olhadas com reserva. Muitos dos nossos documentos foram criados pelas autoridades nazis, por isso se os nazis dizem: o seu avô morreu de um ataque cardíaco, numa situação normal… Bom, não havia nada de normal em estar num campo de concentração, por isso é preciso contextualizar. Talvez tenha havido um ataque cardíaco, mas o que se passou? Que esforço foi feito antes?, questiona. Esta norte-americana, historiadora na Universidade de Maryland, Baltimore County, dirige o ITS desde Janeiro de 2013. Criado ainda antes do final da guerra, em 1943, pelos Aliados, o ITS congrega toda a documentação relativa aos campos de concentração. Estão ali fichas de nomes, listas de entrada ou de transferência dos campos, os Livros dos Mortos, em que se registavam as vítimas, as fichas de avaliação médica e as relações dos bens que os prisioneiros transportavam, cartões de identificação e, até, listas de pessoas com piolhos em determinado campo, que pormenorizam quantos piolhos foram encontrados em cada uma no dia em causa (os piolhos eram os principais transmissores de tifo, uma das doenças que mais assolaram os campos de concentração).
O ITS guarda cerca de 30 milhões de documentos relativos aos prisioneiros dos campos, aos homens e mulheres submetidos a trabalhos forçados durante o regime nazi e aos sobreviventes, que passaram pelos chamados Campos de Deslocados. Em Outubro de 2013, os seus arquivos foram classificados pela UNESCO como Memória do Mundo, pelo valor excepcional e importância para a humanidade, pelo seu contributo para o conhecimento do impacto da guerra nas pessoas. Apesar da sua longa existência, o ITS só se abriu ao público em 2007. Até aí, apenas as vítimas directas do nazismo ou os seus familiares podiam aceder à informação guardada em três edifícios na pequena cidade no centro da Alemanha, Bad Arolsen. A digitalização de um elevado número de documentos e o alargamento dos objectivos do ITS, que passaram a incluir o acesso à pesquisa académica ou jornalística, disponibilizaram um manancial de informação de um valor inestimável. Permitiu, por exemplo, que se tornasse muito fácil responder a uma pergunta que até há pouco tempo não se fazia: houve portugueses nos campos de concentração?

Campo de Auschwitz II. Luiz, o militante
Nos arquivos do ITS os dados sobre Luiz Ferreira são abundantes. Só com a leitura dos documentos produzidos pelo regime de Adolf Hitler fica-se a saber que Luiz nasceu a 18 de Outubro de 1902, em Braga, Província do Minho. Que os seus pais se chamavam Lourenço (Laurent é a forma como aparece escrito nas fichas) e Joana Ferreira (Jeanine, de acordo com os documentos alemães), nascida Oliveira. Descobre-se também que Luiz foi internado no campo de concentração de Buchenwald como prisioneiro político, com o número 69369, e que era solteiro e sem filhos. As características físicas do português, anotadas na sua ficha do campo, indicam que media 1,58 metros, pesava 61 quilos, era louro, esguio, de olhos castanhos e não tinha todos os dentes. Além disso, falava francês, português e espanhol. Já a ficha médica indica que ele tivera um acidente em 1925, que lhe deixara a mão esquerda danificada e que, em 1937, sofrera uma fractura na parte inferior da coxa direita, classificada como ferimento de guerra, o que apontava para a sua presença na Guerra Civil de Espanha (1936-1939). O nome de Luiz Ferreira aparece ainda numa lista de oito sobreviventes portugueses do campo de Buchenwald, feita pelos Aliados após a libertação». In
Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

domingo, 29 de junho de 2014

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «O comboio partiu às 6h15mim. Era o dia 25 de Junho de 1942 e no seu interior apinhavam-se mil homens. “Todos judeus”. Tinham passado os últimos meses no campo de internamento de Pithiviers, a 87 quilómetros a Sul de Paris, mas agora chegara a ordem de partida»

Certificado de morte de Michael Fresco, em Auschwitz
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«A pergunta surgiu depois de uma visita a Auschwitz: seria possível que, de todos os prisioneiros que por ali passaram, de tantos países, nenhum fosse português? Em 2013, fomos à procura da resposta. Durante nove meses, vasculhámos arquivos, analisámos listas de transporte e registos de baptismo, percorremos Portugal e visitámos campos de concentração, bases de dados e familiares de vítimas em França, Alemanha e Polónia. A resposta está dada: houve muitos portugueses enviados para os campos de concentração nazis. O comboio partiu às 6h15mim. Era o dia 25 de Junho de 1942 e no seu interior apinhavam-se mil homens. Todos judeus. Tinham passado os últimos meses no campo de internamento de Pithiviers, a 87 quilómetros a Sul de Paris, mas agora chegara a ordem de partida. O destino, desconhecido para os passageiros do comboio n.º 813, era o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. A bordo ia Michael Fresco, um judeu português, nascido em Lisboa, a 15 de Setembro de 1911. Enquanto Michael era deportado para Auschwitz, Luiz Ferreira, um funileiro da região de Guimarães, emigrado em Lyon, já tinha sido apanhado pelo regime colaboracionista francês, por causa da sua filiação no Partido Comunista e da acção clandestina contra os ocupantes nazis. Maria Barbosa, natural de Ponte de Lima e também emigrada em Lyon, estava longe de saber que, dois anos mais tarde, em 1944, estaria a iniciar a sua viagem em direcção ao campo de concentração de Ravensbrück. Já Casimiro Martins, um algarvio que partira para os Pirenéus franceses, para se juntar a um irmão e trabalhar na construção civil, não podia ainda imaginar que dali a dois anos e meio seria uma das vítimas mortais do campo de concentração de Neuengamme. Portugal manteve a neutralidade durante a guerra que devastou a Europa entre 1939 e 1945, mas os portugueses não saíram incólumes do conflito. Dezenas foram transportados para os campos de concentração e alguns morreram lá. Um destino ignorado pelo seu país, esquecido por membros das suas famílias, desconhecido dos portugueses. Quase 70 anos depois do fim da guerra, as suas histórias são, finalmente, contadas.
Michael Fresco morreu com 30 anos, apenas por ser judeu. O Michael Strogoff, alcunha pela qual era carinhosamente tratado em família, nas tardes de reunião que os Fresco gostavam de partilhar com os primos, em Lisboa, abandonara Portugal para se instalar na cidade francesa de Nantes, como comerciante. Foi aí que o seu futuro foi definitivamente interrompido. Para trás, deixava uma vida lisboeta que parece doce e alegre, nas palavras dos descendentes da família. Alberto Fresco, 65 anos, filho de uma prima de Michael, nunca conheceu este parente distante, mas lembra-se de ouvir a mãe, Rebeca, falar dele. A família juntava-se toda e havia grandes brincadeiras. A minha mãe contava que o Michael era uma pessoa muito extrovertida, muito jovial, de tal modo que ele tinha uma alcunha, um petit nom entre os membros da família. Era conhecido como o Michael Strogoff. Estava-se numa época em que os livros do Júlio Verne eram muito apreciados e eu lembro-me sempre de ouvir falar do Michael como sendo o Michael Strogoff, o correio do czar. Uma sobrinha-neta de Michael, que prefere não ser identificada, também se lembra bem de ouvir a avó, Raquel, falar do irmão perdido na guerra. Eu adorava que a minha avó contasse histórias de família e ela falava muitas vezes do Michael, com grande tristeza. Contava como tinha sido deportado e morrera em vagões de gado, diz. A Comunidade Israelita de Lisboa ainda guarda o Termo de Nascimento de Michael Joseph Fresco, um dos seis filhos de Nissim e Sultana Fresco, dois judeus turcos de Constantinopla que se haviam fixado em Lisboa, no final do século XIX. Dos seis irmãos, Alberto, Miriam, Rebeca (que haveria de mudar o nome para Raquel depois de casar com um português de uma família profundamente católica), Vitória, Michael e Ventura, Michael é o único cuja morte nos campos de concentração nazis está confirmada». In Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

sábado, 15 de dezembro de 2012

Código de Barras. Um dos inventores. Joseph Woodland. «Há mais de 60 anos, um engenheiro traçou quatro riscos na areia de uma praia em Miami e teve a ideia para o sistema que viria a catalogar milhões de objectos diariamente»

(1921-2012)
Atlantic City, Nova Jersey, USA
jdact e cortesia do publico

Com a devida vénia do Público.

«Joseph Woodland pensou no código de barras há mais de 60 anos. O norte-americano Norman Joseph Woodland, que imaginou pela primeira vez o código de barras, morreu com 91 anos de idade de acordo com o New York Times. Woodland gravou a sua marca no mundo em todos os objectos comercializados que trazem as riscas icónicas. O código de barras tornou-se, para quem vende, uma forma simples de ler e identificar muitos dos objectos e serviços que se pagam: um pacote de leite, um bilhete de concerto ou uma consulta de saúde.
O momento “eureka!” de Joseph Woodland chegou num cenário de uma praia há mais de 60 anos. O engenheiro questionava-se sobre como poderia encontrar uma forma de codificar a informação de cada produto comercializado. Em Miami Beach, na casa dos pais, no Inverno de 1948-1949, Woodland passou o tempo na praia a pensar sobre este problema. A questão tinha-lhe chegado na Universidade de Drexel, onde Woodland tinha tirado a licenciatura em engenharia mecânica e estava então a fazer o mestrado. Bernard Silver, um colega de Woodland, apresentou-lhe a questão. Silver ouvira uma conversa entre o director da universidade e um responsável de um supermercado que pedia que lhe inventassem um código para a informação dos produtos que vendia.
Silver e Woodland pensaram primeiro numa tinta fluorescente utilizada na impressão da informação dos produtos que fosse lida com luz ultravioleta. A ideia não funcionou. Tempos depois, na praia, Woddland chegou à conclusão de que precisava de um código para representar visualmente a informação. A memória do único código que Woodland conhecia vinha dos seus tempos de escuteiro:
  • o código Morse, que representa as letras e os números por traços e pontos. Na praia, o corpo e areia deram-lhe a pista que precisava.
“O que vou dizer parece-se com um conto de fadas”, disse Joseph Woodland, muitas décadas mais tarde, numa entrevista que deu à revista Smithsonian em 1999, citada pelo New York Times. ‘Enterrei os meus quatro dedos na areia e por nenhuma razão arrastei os dedos na minha direcção formando quatro riscas. Disse ‘Agora tenho quatro linhas, e podem ser linhas grossas ou linhas finas, em vez de traços e pontos’.
Esse foi o começo do código de barras. Woodland contou a descoberta a Silver e juntos desenvolveram a ideia.
A patente número 2.612.994 dos Estados Unidos nasceu a 7 de Outubro de 1952 com o título desenxabido “Método e aparato de classificação”. E foi vendida algum tempo depois à empresa Philco por 15 mil dólares. A empresa utilizava um equipamento demasiado complexo e caro para a tecnologia se tornar rentável e massificada. Só no final da década de 1960, quando a patente expirou, é que a ideia renasceu das cinzas.
No início da década de 1970, George Laurer, um colega de Woodland na IBM, onde o engenheiro entrou em 1951 e permaneceu até à sua reforma em 1987, aperfeiçoou o princípio desenvolvido 20 anos antes. Laurer desenhou o rectângulo com as barras a preto e os espaços a branco que seria lido por um scanner de laser. O método só funcionou graças às tecnologias do laser e dos microprocessadores, que entretanto tinham sido desenvolvidas.
Em 1973, o código de barras foi adaptado pela indústria e em Junho de 1974, em Troy, no Ohio, foi vendido o primeiro produto com código de barras, um pacote de pastilhas elásticas a 67 cêntimos, refere o jornal britânico Guardian. Actualmente, todos os dias são passados no mundo cinco mil milhões de produtos com código de barras, refere o mesmo jornal.
Woodland, que nasceu em Atlantic City, Nova Jersey, foi condecorado primeiro em 1992 com a medalha dos Estados Unidos de Tecnologia e Inovação e, em 2011, entrou no Hall of Fame dos inventores. Bernard Silver, que morrera em 1963, entrou também, já postumamente, para o mesmo Hall of Fame.
Há mais de 60 anos, um engenheiro traçou quatro riscos na areia de uma praia em Miami e teve a ideia para o sistema que viria a catalogar milhões de objectos diariamente. Norman Joseph Woodland morreu na sua casa, em Edgewater, Nova Jersey, onde vivia com a mulher. Deixou também a memória de quatro dedos a gravarem uma ideia na areia, que é recuperada todas as vezes que passamos o código de barras de um produto pela caixa registadora e ouvimos um “beep”». In Nicolau Ferreira, Jornal Público, Dezembro, 2012.

Cortesia de Público/JDACT

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Peste Negra medieval não foi primeira pandemia de peste bubónica. Ana Gerschenfeld. «Análise de ADN revela que a doença que dizimou a população europeia entre os séculos VI e VIII d.C. era de uma forma ancestral da peste bubónica. A’ praga de Justiniano’ parece ser a que corresponde melhor a esta pandemia mais antiga»

O Triunfo da Morte, Pieter Bruegel, o Velho, cerca de 1562
jdact e cortesia do publico

«Há muito que os historiadores suspeitavam de que a “praga de Justiniano”, uma doença altamente contagiosa que, entre os anos de 541 e 750 da nossa era, matou mais de metade da população europeia e contribuiu para a queda do Império Romano do Oriente era, na realidade, a peste bubónica. Só que, até aqui, não existiam dados científicos que corroborassem esta hipótese. Nada permitia afirmar que a mortal doença se manifestara de forma pandémica na Europa antes da Idade Média, sendo oficialmente a Peste Negra que matou mais de 100 milhões de pessoas entre 1347 e 1351 e de cujas consequências a Europa demorou 150 anos a recuperar, era a primeira pandemia oficial de peste bubónica.
Mas a partir de agora há provas concretas: uma equipa internacional de cientistas acaba de acrescentar um novo “ramo” à “árvore genealógica” genética da bactéria responsável pela peste bubónica, a Yersinia pestis. E a conclusão é a de que, afinal, terá havido uma pandemia de peste bubónica vários séculos mais cedo, que terá começado quando o imperador Justiniano I ainda reinava em Constantinopla.
Johannes Krause, da Universidade de Tübingen (Alemanha), e colegas, que em 2011 tinham reconstituído o genoma completo da estirpe da Yersinia pestis responsável pela pandemia de Peste Negra, compararam agora este ADN bacteriano ancestral com o de 311 estirpes modernas da bactéria da peste bubónica. Os seus resultados foram publicados na revista online de acesso livre PLoS One. Segundo explica um comunicado daquela universidade, os cientistas confirmaram resultados já obtidos no ano passado, mostrando que 275 dessas estirpes modernas descendem da bactéria medieval. Mas, desta vez, também identificaram 11 estirpes modernas que divergiram das outras, formando um novo “ramo” da árvore, entre os séculos VII e X. Isto sugere que terá havido, já naquela altura, que coincide grosso modo com a praga de Justiniano, um surto devastador de peste bubónica. “A nossa nova análise indica que a peste bubónica poderá ter sido um assassino em massa já no fim do Império Romano”, diz Krause, citado pelo mesmo comunicado. “A praga de Justiniano parece ser a que corresponde melhor a esta pandemia mais antiga.”


In Ana Gerschenfeld, A Peste Negra medieval não foi primeira pandemia de peste bubónica, ´Público’, Ciência.

Cortesia de Público
JDACT

domingo, 1 de julho de 2012

Fortificações de Elvas classificadas como Património Mundial. Público. «… a entrada das fortificações na lista do património cultural da humanidade sensibilize agora o Ministério da Defesa, proprietário do Forte da Graça, jóia da arquitectura militar do século XVIII e peça central da candidatura, para a preservação daquele conjunto»



Cortesia da cme

«As fortificações de Elvas, que atravessam séculos da história militar e da cidade, foram classificadas ontem (30 de Junho) como Património Mundial pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura). Palco decisivo das guerras de fronteira que se seguiram à Restauração, em 1640, as estruturas agora classificadas constituem a maior fortaleza abaluartada da Europa (reconhecido pela forma em estrela), sendo formada, para além do castelo, pelas fortalezas secundárias de Santa Luzia e da Graça. Fundadas no reinado de Sancho II e construídas sobre uma estrutura muçulmana, foram incluídas na Lista Indicativa do Património Mundial da UNESCO em 2009.
As fortificações, através das quais se atravessa o período mouro e medieval, bem como as inovações renascentistas e, pelas modernizações regulares das estruturas, o avanço do tempo até ao século XIX, são "um dos mais importantes casos de sobreposição de funções e de evolução das concepções estratégicas e militares ao longo da História", referia a proposta então enviada à Comissão Nacional da UNESCO.
A decisão foi tomada pelo Comité do Património Mundial, que está reunido até dia 6 de Julho em São Petesburgo, na Rússia. A candidatura da classificação das fortificações abrangia vários monumentos, os fortes de Santa Luzia, do século XVII, e da Graça, do século XVIII, três fortins do século XIX, as três muralhas medievais e a muralha do século XVII, além do Aqueduto da Amoreira. Era a única candidatura portuguesa entre as 33 que a UNESCO tinha sobre a mesa.


“Esta classificação não tem só um grande significado para mim e para todos aqui em Elvas, tem um grande significado para o país", disse o presidente da Câmara Municipal de Elvas, [...]. "Não é todos os dias que um órgão como a UNESCO diz que temos à porta de casa um bem que é único e de valor universal”, completou. O presidente [...] espera que a entrada das fortificações na lista do património cultural da humanidade sensibilize agora o Ministério da Defesa, proprietário do Forte da Graça, jóia da arquitectura militar do século XVIII e peça central da candidatura, para a preservação daquele conjunto.
O projecto de candidatura começou a ser preparado em 2004 e decorreu sem sobressaltos, segundo a vereadora da Cultura. [...] “Foi um trabalho intenso que implicou uma forte componente de preservação do património mas também de educação”, explicou, falando do centro interpretativo do complexo formado pelas fortificações, inaugurado em Outubro do ano passado, e nos painéis informativos criados para os bens agora classificados». In Público (2012/Junho/30).

Cortesia do PÚBLICO/JDACT

quinta-feira, 29 de março de 2012

Nuvem de poeira do deserto, atinge Portugal até Segunda-feira. «As minúsculas partículas de pó vindas do Norte de África, a acção do vento em regiões áridas pode fazer com que as partículas mais finas sejam transportadas a longas distâncias, viajando mais de cinco mil quilómetros, invadiram o território nacional na passada sexta-feira»

Cortesia de publico

Com a devida vénia a Andrea Freitas e ao Público

Nuvem de poeira do deserto, atinge Portugal até segunda-feira (2 de Maio de 2012) «O fenómeno, frequente na Primavera e Verão, pode afectar as pessoas mais sensíveis como idosos, crianças e com problemas cardio-respiratórios. Amanhã espera-se uma nova vaga de "chuva suja".Se nos últimos dias sente a garganta seca e os olhos a lacrimejar, a culpa pode ser das poeiras vindas do Norte de África que pairam sobre o nosso território. Não é a primeira vez nem será a última que Portugal recebe este pó do deserto soprado pelos ventos. Porém, desta vez, o fenómeno estende-se além dos normais dois ou três dias para um período de mais de uma semana. Por outro lado, as medições dos especialistas estão também a registar níveis elevados destas partículas à superfície, mais perto de nós, o que, apesar de não ser inédito, é considerado invulgar. Sem razão para alarme, os idosos, crianças e pessoas com problemas respiratórios devem, porém, proteger-se, avisam as autoridades de saúde.
As minúsculas partículas de pó vindas do Norte de África, a acção do vento em regiões áridas pode fazer com que as partículas mais finas sejam transportadas a longas distâncias, viajando mais de cinco mil quilómetros, invadiram o território nacional na passada sexta-feira. No dia seguinte à chegada da nuvem, a chuva apanhou o pó no ar e acabou por manchar carros estacionados nas ruas, tornando o fenómeno mais visível. Esta "chuva suja" - ou "chuva vermelha", como lhe chamam os especialistas, deverá repetir-se amanhã ou sábado, se as previsões do Instituto de Meteorologia estiverem correctas.


Francisco Ferreira, coordenador da área do ar do departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL), nota que o "fenómeno meteorológico de baixa pressão localizado sobre a Argélia já se dissipou e as partículas em suspensão que influenciam o território nacional são residuais, por permanecerem na atmosfera em circulação". Assim, acrescenta, "a intensidade deste fenómeno natural já está a decrescer e, segundo os dados mais recentes, a sua influência pode fazer-se sentir em Portugal Continental e arquipélago da Madeira até segunda-feira".
Ontem, os níveis de poluição por partículas em suspensão observados mantinham-se ainda no nível médio. Francisco Ferreira confirma que este fenómeno é frequente, mas sublinha que, "normalmente, dura dois ou três dias" e que, desta vez, está a prolongar-se um pouco mais. "A persistência dessas concentrações elevadas pode afectar as pessoas mais sensíveis", refere, considerando que se justificava um aviso à população.


Natural e menos nociva Apesar de notar que esta poluição atmosférica de fonte natural não é tão nociva como a que resulta da actividade humana, como, por exemplo, a provocada pelo tráfego automóvel, Francisco Ferreira recomenda alguns cuidados às pessoas mais sensíveis. O especialista lembra ainda que os índices de qualidade do ar podem ser consultados no site da Agência Portuguesa do Ambiente (um trabalho no qual participa numa parceria com a Universidade de Aveiro). "Todos os dias é possível consultar ali a qualidade do ar, cidade a cidade", nota. O Governo já garantiu que a Agência do Ambiente está a acompanhar a evolução do nível de poeiras no ar e ontem mesmo a Direcção-Geral da Saúde lançou no seu site um alerta com várias recomendações à população.

Imagem de satétite das 16h00 UTC, de 29Mar2012
Poeiras na região Sul
Cortesia do im

De acordo com a legislação comunitária, só pode haver 35 dias por ano com valores acima do limite máximo (50 microgramas por metro cúbico) para as partículas em suspensão PM10 (partículas inaláveis com diâmetro inferior a 10 milésimos de milímetro). Este ano, desde sexta-feira, os valores ultrapassaram esse limite máximo durante vários dias, rondando actualmente os 60 e 70 microgramas por metro cúbico, numa média diária. O "excesso" foi mais notado no fim-de-semana, quando outras fontes de poluição são menores e as estações de medição continuaram a registar valores elevados.
A nuvem desceu à terra "Não é normal a um sábado e a um domingo, em que há muito menos tráfego rodoviário, existir uma ultrapassagem do valor limite diário de partículas em estações de monitorização de norte a sul", confirma Francisco Ferreira. Ainda assim, a situação actual está muito longe do episódio registado em 2009, que afectou a qualidade do ar durante 141 dias.
Maria João Costa, especialista na área de meteorologia e clima do Centro de Geofísica de Évora, não trabalha com modelos de previsão mas com equipamentos capazes de medir os níveis de concentração destas partículas em altitude e à superfície. Segundo explicou ao PÚBLICO, desta vez, "o mais fora do normal é que estes níveis elevados que normalmente são detectados a quatro ou cinco quilómetros de altitude desceram até à superfície". Logo, as poeiras estão mais perto de nós e serão mais facilmente inaladas pelo sistema respiratório.
De resto, a especialista nota que as imagens de satélite registam "uma grande tempestade que envolve o transporte destas poeiras", mas que se dirige agora para o Atlântico Oeste, fazendo com que Portugal seja apenas "ligeiramente afectado".


O que fazer? Se juntarmos as poeiras do Norte de África ao tempo seco e à Primavera com os pólenes à solta, temos o cenário ideal para um aumento de problemas respiratórios (sobretudo asma) e alergias na população portuguesa.
Porém, Paulo Diegues, chefe da Divisão de Saúde Ambiental da Direcção-Geral da Saúde (DGS), refere que "não há qualquer razão para alarme". "As pessoas devem fazer a sua vida normal e as mais vulneráveis [crianças, idosos e as pessoas com problemas respiratórios] devem simplesmente evitar situações como fazer esforços físicos intensos ao ar livre", diz
». In Andrea Cunha Freitas, Público.

Imagem de satélite, em arquivo, com poeiras a oeste da costa ocidental africana

Cortesia de Público/JDACT

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Um Homem que só diz "Palavras". «Ironia e verdade são as noções inseparáveis que suportam e orientam a audição do fazer-desfazer. Arranca esse senhor à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar o “discurso”. In Ruy Belo»


Cortesia de guicastrofelga

«Gui desenha cartazes. Pedimos-lhe um texto, ela enviou-nos uma receita de cola de farinha. Acedemos. “Ferver ¾ de água numa panela grande. Misturar separadamente numa tigela ¼ da água com as 7 colheres de farinha até dissolver totalmente. Ao ferver a água, juntar a mistura com a farinha. Mexer por cinco minutos até engrossar. No final, deixou um aviso: “Serve-se fria”». In Público.

JDACT

terça-feira, 21 de junho de 2011

Elena Bonner: A coragem na luta pelas liberdades fundamentais e a dignidade humana. «Conheceu Andrei Sakharov em 1970 e os dois casaram em 1972. A sua morte é uma grande perda, e não só para o movimento de defesa dos direitos humanos»


(1923-2011)
Moscovo
Cortesia de rakeshbera e aterceiranoite

«Elena (Yelena) Georgievna Bonner foi médica, activista dos direitos humanos e proeminente dissidente da época da União Soviética. Foi casada com o físico Andrei Sakharov.


Quando Andrei Sakharov foi distinguido com o Nobel da Paz, em 1975, foi Elena Bonner quem o representou na cerimónia a que o regime soviético não o deixou comparecer. Mas para além de ser a mulher do dissidente russo, que acabou por dar nome a um prémio do Parlamento Europeu que todos os anos é entregue a um activista pela liberdade de expressão, ela era também uma lutadora pela defesa dos direitos humanos, fundadora da organização Grupo Helsinki, em Moscovo.

«Anunciamos com grande tristeza que morreu a nossa mãe Elena Georguievna Bonner», confirmou em comunicado a filha da activista, Tatiana Iakelevitch. Bonner viveu nos últimos anos em Boston, onde será realizada uma cerimónia de homenagem antes de o corpo ser transferido para o cemitério Vostriakovo de Moscovo, onde também está sepultado Sakharov.
Nascida na república soviética do Turquemenistão, em 1923, Bonner, enfermeira que chegou a ser condecorada pelos seus serviços de apoio ao Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial, era uma crítica do regime desde finais dos anos 60. Nessa altura deixou as fileiras do Partido Comunista, depois de ver, durante a Primavera de Praga, a repressão das forças soviéticas na principal cidade da então Checoslováquia.

Cortesia de politicalstew

Conheceu Andrei Sakharov em 1970 e os dois casaram em 1972. Ele foi físico nuclear, chegou a participar na criação da bomba de hidrogénio soviética mas depressa se juntou à contestação ao regime, por isso foi perseguido, submetido a um exílio interno na cidade de Gorki, a cerca de 400 quilómetros de Moscovo. Ela tornar-se-ia a sua voz no exterior, mas acabou por também ser expulsa para Gorki em 1984 por «agitação anti-soviética».
Um ano depois acabou por ser autorizada a deixar o país, partiu para Itália e mais tarde para Boston, onde vivia a sua mãe e a sua filha. Aí foi submetida à primeira intervenção cirúrgica ao coração. Até que, em 1986, foi autorizada a regressar a Moscovo, já Mikhail Gorbatchov procurava levar a cabo diversas reformas no regime. Sakharov também voltou, viria a morrer dois anos depois. E Bonner continuou envolvida na defesa dos direitos humanos e a ser uma das vozes mais críticas do regime.

Críticas à guerra na Tchetchénia e a Putin
Condenou com firmeza a intervenção militar russa na Tchetchénia, em 1994, guerra que qualificou como «genocídio do povo tchetcheno». E como protesto renunciou ao cargo que ocupava na comissão de direitos humanos russa, era já Boris Ieltsin quem estava na presidência do país.
Ieltsin, aliás, voltaria a ser alvo das suas críticas por ter promovido a ascensão de Vladimir Putin a seu sucessor. Putin foi Presidente, é agora primeiro-ministro, e ainda no ano passado Bonner assinou uma petição na Internet contra ele, a condenar as violações de direitos humanos na Rússia.


Cortesia de alexeypichugin e newyorker 

«A sua morte é uma grande perda, e não só para o movimento de defesa dos direitos humanos», disse à agência Interfax a sua amiga e presidente do Grupo Helsinki, Lioudmila Alexeeva. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, prestou homenagem «à coragem de Bonner na sua luta pelas liberdades fundamentais e a dignidade humana». In Público.

Cortesia de Jornal Público/JDACT

sábado, 7 de maio de 2011

David Lopes Ramos: «Iniciou a profissão de jornalista na revista Vértice. ...Não pretendo resolver os problemas da Humanidade, mas permitir que os homens se relacionem melhor e sejam mais sábios»

(1948-2011)
Estarreja
Cortesia de cmestarreja

«David Lopes Ramos foi o crítico gastronómico do jornal Público. Um bom gourmet, não só como excelente apreciador e crítico, mas também como pessoa. De acordo com José Quitério, «era ouro de lei». Em 1970, filiou-se no Partido Comunista Português, mas estava na política como na vida: a pugnar por uma ética social.
No final dos anos 1960, estudou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em tempos de agitação estudantil na qual participou de forma bastante activa. Viveu na república estudantil «Ninho de Matulões», ao lado de Domingos Lopes, Artur Jorge, Eugénio Alves e Ribeiro Cardoso.

Cortesia de revistadevinhos 
Fez parte do grupo de fundadores do jornal «O Diário», em 1976, onde começou nos anos 1980 a fazer crónicas de gastronomia a par da actividade jornalística. Em 1989, fez parte do grupo de fundadores do jornal «Público», onde se manteve até se reformar.
Aceitou o desafio do antigo primeiro-ministro Vasco Gonçalves para participar nas movimentações do 25 de Abril, chegando, inclusivé, a ser seu porta-voz. 
Numa homenagem que lhe prestaram diria:
  • «... escrevemos sempre para alguém. Estou sempre a pensar o que ele (Quitério) achará disto»;
  • «... não pretendo resolver os problemas da Humanidade. A sua função é muito mais comezinha, mas igualmente nobre, permitir que os homens se relacionem melhor e sejam mais sábios».
O bom Jornalista e o bom Gourmet morre aos 63 anos». In Pedro d'Anunciação (Em Paz) e Correio da Manhã online.

Cortesia de sicsapo
  
Cortesia de wikipédia/Sol/Correio da Manhã/JDACT