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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Maya. Jostein Gaarder. «… répteis de idade avançada vivem em tocas subterrâneas, muitas vezes compartilhadas com algum petrel. Podem medir até setenta centímetros de comprimento…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vê melhor, quem vê por último
«(…) Hoje em dia, tem-se mais fé em venenos, vírus e formas distintas de esterilização; noutras palavras, na guerra química e biológica. Mas não se compõe uma nova cadeia trófica num abrir e fechar de olhos, e até se pode perguntar se isso é factível. Por outro lado, é triste verificar como é fácil acabar com o equilíbrio ecológico construído pela natureza durante muitos milhões de anos. Mas a insensatez do mundo não tem mais limites nem fronteiras. Penso nessa arrogante insensatez dos sabichões, uma espécie de miopia do engenho, tão maravilhosamente subdesenvolvida entre aborígines, maoris e melanésios, antes de eles se transformarem em apêndices do homem branco. Penso na insensatez da cobiça e do lucro. Hoje em dia se empregam eufemismos como globalização e acordos comerciais. Isso implica que a comida já não se define como alimento, e sim como mercadoria. Onde outrora as pessoas podiam comer o que colhiam nos seus campos, hoje se cultivam cada vez mais produtos inúteis, a que somente os países mais ricos do mundo podem ter acesso. Não vivemos mais da natureza. Foi-se o tempo dos paraísos.
De resto, V conhece de sobra o meu velho interesse pelos répteis. Foi um fascínio pueril pela vida neste planeta há cem ou duzentos milhões de anos que me tornou biólogo, e isso muito antes da moda dos dinossauros, que surgiu por volta de dez ou quinze anos atrás. Eu queria compreender por que todos esses répteis altamente especializados se extinguiram de repente. Além disso, obcecava-me uma pergunta que desde então nunca me saiu da cabeça: o que teria acontecido se os dinossauros não se tivessem extinguido? O que teria acontecido nesse caso com todos esses mamíferos parecidos com os musaranhos, dos quais V e eu descendemos? Mas sobretudo: o que teria acontecido com os dinossauros? Na Oceânia, tive a oportunidade de estudar várias espécies antigas de répteis. Muito especial foi o arcaico tuatara, encontrado nalgumas ilhas isoladas da Nova Zelândia. Embora arriscando-me a ofendê-la um pouco, atrevo-me a confessar que experimentei um sentimento quase religioso ao contemplar um dos vertebrados vivos mais antigos se desenvolver nos restos dos velhos bosques do antigo continente da Gonduana. Esses répteis de idade avançada vivem em tocas subterrâneas, muitas vezes compartilhadas com algum petrel. Podem medir até setenta centímetros de comprimento, têm uma temperatura corporal singularmente baixa, nove graus, e podem viver mais de cem anos. Quando V o vê de noite, é como se retrocedesse ao Jurássico, na época em que a Laurásia se separou da Gonduana, e os grandes dinossauros mal haviam começado a se desenvolver. Era então que os rincocéfalos se distinguiam das outras famílias de sáurios como uma família de répteis pouco numerosa, mas sumamente resistente. O seu único representante vivo, o tuatara, conservou-se espectacularmente inalterado por cerca de duzentos milhões de anos.
Preciso tomar fôlego, Vera. O tuatara não é um facto menos notável do que se, de repente, alguém encontrasse um arqueópterix vivo numa dessas ilhas isoladas. É certo que algo parecido ocorreu no Leste da África do Sul, no dia 22 de Dezembro de 1938, quando um barco pesqueiro pegou nas suas redes um crossopterígio, o chamado latimeriídeo. O grupo de peixes com aletas em forma de ramalhete, tão importante para a evolução, simplesmente porque deles descendemos, V e eu, e todos os outros vertebrados terrestres, só estava documentado por achados fósseis até ao Natal de 1938, e se acreditava que havia se extinguido fazia quase cem milhões de anos. Tanto o peixe azul como o tuatara merecem a denominação de fósseis vivos, e eu talvez deva acrescentar um por enquanto. Não faz muitos anos, o tuatara se espalhava por amplas zonas da Nova Zelândia». In Jostein Gaarder, Maya, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2001, ISBN 978-972-232-737-4

Cortesia de EPresença/JDACT

Maya. Jostein Gaarder. «A última etapa da expedição de dois meses pelo Pacífico era Taveuni, uma das ilhas Fiji. A minha missão consistia em estudar como as espécies vegetais e animais…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Querida Vera
«(…) Preocupa-me um pouco o facto de que talvez V só entre na internet mais tarde, e fico tentado a ir enviando este relatório por partes. Mas V vai receber tudo de uma vez só: ou tudo ou nada. Ocorreu-me que eu poderia lhe mandar um e-mail dizendo que amanhã pela manhã V. receberia uma mensagem. Mas não sei se V deseja continuar tendo notícias minhas. Além do mais, terei de me esforçar bastante para que acredite nesta história e, como sabe, ainda não a escrevi. Fui envolvido nesta teia de aranha em Fiji e não me lembro mais do que contei, pois só nos vimos alguns dias, e creio que nos pareceu, tanto a mim como a V, mais adequado manter certa distância, por razões de decoro. Lembro que, quando julguei ter avistado aquele estranho casal em Fiji, tudo começou a se mover como uma avalanche, mas sou incapaz de me lembrar do que contei ou deixei de contar, porque me interrompia o tempo todo com as suas gargalhadas, já que pensava que tudo era uma invenção minha, que eu estava improvisando, como numa espécie de espectáculo nocturno, com o único fim de retê-la a meu lado junto do rio.
Vai perguntar o que Ana e José têm a ver comigo, ou connosco, se preferir. E eu vou lembrar-lhe um postal que certa vez me mandou de Barcelona. Será que eu e V podemos fazer alguma coisa para aceitar que a vida seja tão breve?, escreveu. Agora sou eu que faço a pergunta, mas para respondê-la tenho de falar primeiro de Ana e José. Para compreender o alcance da minha tarefa, V terá inclusive de retroceder comigo um pouco mais no tempo, talvez até ao Devoniano, período em que entraram em cena os primeiros anfíbios. Na minha opinião, é aí que começa esta história. Independentemente do que venha a acontecer connosco, vou pedir-lhe um favor. Instale-se bem confortavelmente e leia, leia!

Vê melhor, quem vê por último
A última etapa da expedição de dois meses pelo Pacífico era Taveuni, uma das ilhas Fiji. A minha missão consistia em estudar como as espécies vegetais e animais importadas intervieram no equilíbrio ecológico. Trata-se de passageiros clandestinos como ratos e camundongos, insectos e lagartixas, assim como de uma importação mais ou menos planeada de espécies como o opossum e o mangusto, feita para pôr em xeque outras espécies, em particular os bichos relacionados a novas formas de agricultura. Um terceiro grupo é constituído de animais domésticos extraviados, como gatos, cabras, porcos, não esquecendo as descuidadas fontes de carne, ou presas de fácil acesso, representadas por animais herbívoros como coelhos e corços. No que se refere às plantas, tanto decorativas como alimentícias, a lista das espécies importadas é tão longa e, além disso, varia tanto de ilha para ilha, que não vale a pena citar nomes.
A parte sul do Pacífico é um paraíso para a realização desse tipo de estudo, pois essas ilhas isoladas mantinham cada uma, até bem pouco tempo atrás, o seu antiquíssimo equilíbrio ecológico com uma rica variedade de espécies vegetais e animais endémicas. Hoje em dia, proporcionalmente à sua superfície e a seu número de habitantes, a Oceânia tem a maior percentagem de espécies animais em perigo de extinção. Esse facto não se deve unicamente à importação de novas espécies, mas também ao desflorestamento e à exploração imprudente de plantações, que causaram uma erosão fatal da terra, o que em última instância arruinou os habitats tradicionais. Várias das ilhas que visitei não haviam praticamente estado em contacto com a cultura europeia até há pouco mais de cem anos. Estamos diante da última grande vaga de colonização ocidental. É óbvio que cada ilha, cada novo assentamento e cada pequeno porto têm a sua própria história. Apesar disso, as consequências ecológicas tiveram o mesmo e triste denominador comum: os clandestinos dos navios, ratos, camundongos e insectos, foram como uma praga ecológica que chegou com as primeiras embarcações. Para sanear os efeitos daninhos dessas espécies importadas, procedia-se à importação de uma nova espécie, por exemplo, sapos, que manteriam sob controle certos insectos, sobretudo nas plantações de cana, ou se importavam felinos a fim de combater os ratos. Essas espécies se transformariam mais tarde numa peste pior ainda do que tinham sido os ratos e os insectos, levando à importação de uma nova espécie de animais predadores, com a função de manter sob controle sapos, cobras e ratos. Esses animais logo se tornavam uma catástrofe ecológica para muitas espécies de aves, entre outras, mas também para muitos dos répteis autóctones, o que trazia consigo a necessidade de uma espécie de predador ainda maior, e assim por diante, Vera». In Jostein Gaarder, Maya, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2001, ISBN 978-972-232-737-4

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 25 de dezembro de 2016

Maya Jostein Gaarder. «Logo terei me acostumado à vida de viúvo. Também é uma forma de existir. Ao olhar para a grande foto em cores de Sheila, já não estremeço tanto quanto antes».

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Desde que eu era pequeno, o que não faz tanto tempo assim, sabia que teria sessenta e sete anos se chegasse a viver a mudança de milénio. Esse sempre foi para mim um pensamento fascinante e aterrador ao mesmo tempo. Tive de me despedir de Sheila neste século. Ela só chegou a fazer cinquenta e nove anos. Talvez volte a visitar a ilha da linha de mudança de data antes da passagem de século. Estou pensando em encerrar a carta a Vera numa cápsula do tempo, para que aí permaneça selada por mil anos. Quem sabe não se deva publicá-la até então, e o mesmo se pode dizer do manifesto. De qualquer modo, mil anos não são nada se comparados aos enormes períodos de tempo esboçados pelo manifesto. No entanto, mil anos são mais que suficientes para que se tenha apagado grande parte dos vestígios do que agora vivemos na Terra, e a história de Ana María Maya parecerá, na melhor das hipóteses, uma saga de um passado remoto. Sou velho o bastante para não me incomodar com o momento em que virá à luz o que quero contar. O mais importante é que seja contado, mais cedo ou mais tarde, e tampouco é necessário que seja eu a contar. Talvez por isso mesmo eu tenha começado a ruminar a ideia de uma cápsula do tempo. Espero que daqui a mil anos haja um pouco menos de barulho no mundo. Depois de ter lido mais uma vez a carta a Vera, sinto-me por fim capaz de organizar as roupas de Sheila. Já chegou a hora. Amanhã de manhã virão algumas pessoas do Exército da Salvação buscar tudo. Vão levar também os vestidos velhos, embora eu não acredite que consigam vendê-los. É uma sensação parecida com a de remover um ninho de andorinhas em que faz anos não há nenhum passarinho.
Logo terei me acostumado à vida de viúvo. Também é uma forma de existir. Ao olhar para a grande foto em cores de Sheila, já não estremeço tanto quanto antes. Apesar de toda essa retrospecção que preencheu minha vida nos últimos tempos, pode parecer um paradoxo o facto de que nem mesmo agora eu teria hesitado em tomar a bebida mágica de Vera. Teria tomado sem pestanejar, mesmo sem ter certeza de encontrar uma pessoa a quem pudesse dar a outra metade. Para Sheila é tarde demais. Ela não recebeu muito mais do que quimioterapia no último ano de vida. Amanhã tenho um encontro. Convidei Chris Batt para jantar. Chris é o bibliotecário-chefe da nova biblioteca aqui de Croydon. Sou um dos seus frequentadores mais assíduos. Parece-me ser uma grande honra para este bairro contar com uma biblioteca moderna, com escadas rolantes ligando os andares. Chris é um homem muito activo. Não creio que ele tivesse acendido aquele isqueiro no bar do Maravu. Também não teria sentido nojo ao ver todos aqueles sapos. Resolvi perguntar a Chris se ele acha que o prólogo de um livro deve ser escrito antes ou depois de se escrever o livro. Minha teoria é que o prólogo deve ser escrito no fim de todo o processo. Isso estaria em consonância com outra coisa em que tenho pensado, sobretudo depois de ler a carta de Frank. Transcorreriam centenas de milhares de anos desde o momento em que os primeiros anfíbios saíram da água até aquele em que um ser vivo deste planeta fosse capaz de descrever o que aconteceu então. Hoje por fim podemos escrever o prólogo da história da humanidade, isto é, muitíssimo tempo depois de a história, em si, ter acabado. Dessa maneira, a essência das coisas morde o próprio rabo. Talvez isso seja válido para todos os processos de criação, inclusive o das composições musicais. Imagino que a última coisa que se compõe numa sinfonia é o seu compasso inicial. Vou perguntar a Chris o que ele acha disso. Ele tem muito senso de humor, e também acho que é um homem sábio. Duvido que Chris Batt seja capaz de mencionar uma só opereta cuja abertura tenha sido composta antes de a opereta estar terminada em sua versão derradeira e final. Só se tem uma visão global de uma sucessão de factos quando estes deixam de ter utilidade. Quem tiver a pretensão de entender o destino tem de sobreviver a ele. Não sei se Chris Batt entende muito de astronomia, mas vou lhe perguntar o que acha do seguinte breve resumo da história deste nosso Universo: o aplauso à grande explosão só chegou quinze bilhões de anos depois de a explosão ocorrer.

Querida Vera,
já se passaram algumas semanas desde que nos vimos, e levando em conta o que aconteceu na última noite, talvez você ache que já é hora de saber algo de mim. O que acontece é que tive de esperar todos os fios estarem atados. Como sabe, fiquei em Salamanca depois do congresso porque tinha certeza, certeza total, de que eram eles que eu tinha visto debaixo da ponte que cruza o Tormes. Você achava que eu estava brincando, pensava que eu estava inventando histórias para entretê-la antes de voltarmos ao hotel. Mas foram Ana e José que eu vi, e não podia deixar a cidade sem reservar um ou dois dias para tentar encontrá-los de novo. Já na manhã seguinte topei com eles na plaza Mayor, mas não vou adiantar os acontecimentos: calculei expor tudo a você na ordem cronológica.
Encontrei José cerca de dez dias depois no Museu do Prado, em Madrid, e era como se ele estivesse me procurando pelas salas enormes. No dia seguinte, quer dizer, nessa mesma manhã, voltamos a nos encontrar. Eu estava sentado no Parque del Retiro repassando mentalmente tudo o que ele tinha me contado, embora ainda faltassem algumas peças do quebra-cabeça, quando ele de repente apareceu diante de mim, como se alguém o tivesse avisado dos meus passeios diários, sentou-se a meu lado e ficámos horas no banco, até que o acompanhei, atravessando o parque, até a estação de Atocha. Justo ao sair correndo para pegar o comboio, ele me deu uma porção de fotos, e, de volta ao hotel, descobri que havia algo escrito no verso de cada uma delas. Era o manifesto, Vera! Eu tinha todo o baralho cabalístico nas mãos. Por causa do que José me contou no Parque del Retiro e, sobretudo, do que me entregou antes de desaparecer tão apressadamente, não posso deixar esta cidade sem antes contar toda a história. São duas horas da tarde, e sei que não vou conseguir dormir muito esta noite. Servem-me o café e algo de comer no quarto, e não tenho outro plano além de mandar esta carta antes de arrumar as malas e ir para Sevilha, sexta de manhã». In Jostein Gaarder, Maya, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2001, ISBN 978-972-232-737-4

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Maya. Jostein Gaarder. «Também brindamos àquele pequeno grupo de pessoas que não era capaz de reprimir sua inveja dos anjos por viverem eternamente. Por fim, Frank apontou para os sapos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Pareceu de repente um pouco irritadiço: creio que me lembro literalmente do que ela disse: para mim só existe um homem e uma Terra, e se sinto isso tão intensamente, é porque só vivo uma vida. Que declaração mais singular, disse eu. E o que aconteceu em seguida? Foi bem seco. Depois de esvaziar o copo de cerveja, contou-me que tinham perdido Sonja quando ela estava com quatro anos e meio, e que, desde então, a convivência dos dois se tornara impossível. Era muita dor sob o mesmo tecto, explicou Frank. E ficou contemplando o coqueiral. Não falou mais no assunto, apesar de eu ter feito algumas tentativas discretas para retomá-lo. A conversa também foi interrompida de certo modo por um sapo enorme que pulou para o deck em que estávamos. Ouviu-se um chap!, e o contrariado sapo sentou-se debaixo da mesa, entre as nossas pernas. Um sapo-cururu, esclareceu o norueguês. Sapo-cururu? Ou bufos-marinus. Foram importados do Havaí faz pouco tempo, em 1936, para combater a grande quantidade de insectos nas plantações de cana-de-açúcar, e se deram muito bem aqui. Apontou para o coqueiral, onde descobrimos outros quatro ou cinco exemplares. Minutos depois, pude contar até dez ou doze sapos na relva húmida. Já estava na ilha fazia muitos dias, mas nunca tinha visto tantos sapos juntos. Tive a sensação de que era Frank quem os atraía, e não passou muito tempo até eu poder contar mais de vinte exemplares. Senti uma espécie de aversão ao ver tantos sapos juntos. Acendi um cigarro. Continuo pensando nessa bebida de que você falou, disse. Nem todo mundo ousaria prová-la. Acho que a maioria não provaria. Pus o isqueiro na mesa, apontei para ele e sussurrei: esse é um isqueiro mágico. Se você o acender agora, viverá eternamente na Terra.
Ele me encarou fixamente, sem sorrir. Suas pupilas pareceram se iluminar. Mas tem que pensar muito bem nisso, precisei, porque só vai ter uma oportunidade e nunca poderá voltar atrás na decisão que tomar. Não tem importância, replicou com altivez, e não tive certeza da escolha que ele faria. Quer viver até à idade normal do ser humano? perguntei solenemente. Ou quer ficar na Terra por todos os séculos dos séculos? Frank ergueu o isqueiro, lenta, mas decididamente e acendeu-o. Aquilo me impressionou. Fazia quase uma semana que eu estava na ilha, e finalmente não me sentia tão só. Não somos muitos, comentei. Afinal sorriu, um sorriso largo. Creio que nosso encontro o surpreendeu tanto quanto a mim. Não, parece que não somos tantos assim, admitiu. Endireitou-se e me estendeu a mão por cima do copo de cerveja. Foi como se tivéssemos confiado um ao outro que pertencíamos à mesma ordem selecta. Nem a Frank nem a mim metia medo a ideia de viver eternamente. O que nos aterrorizava era o contrário. Faltava pouco para o jantar, e insinuei que devíamos celebrar a confraternização com uma bebida. Sugeri um gim puro, e ele concordou. Os sapos continuaram se multiplicando no coqueiral, e voltei a sentir nojo. Confessei a Frank que ainda não tinha me acostumado com os gecos no quarto. Chegaram os copos de gim, e enquanto o pessoal começava a arrumar as mesas para o jantar, continuávamos sentados, brindando aos anjos do céu. Também brindamos àquele pequeno grupo de pessoas que não era capaz de reprimir sua inveja dos anjos por viverem eternamente. Por fim, Frank apontou para os sapos do coqueiral. Julgou que, por educação, também deveríamos fazer um brinde a eles. Afinal de contas, são nossos irmãos de sangue, comentou. Somos mais aparentados a eles do que aos anjos do céu. Frank era assim. Um sujeito excepcional mas que tinha os pés solidamente plantados no chão. No dia anterior tinha me confessado que não se sentira nada à vontade no táxi aéreo que o levara de Nadi a Matei. Os ventos estavam extremamente desfavoráveis, disse, e ainda por cima não gostara nem um pouco de saber que não havia copiloto no avião.
Enquanto bebíamos, o norueguês me contou que em fins de Abril participaria de um congresso na velha cidade universitária de Salamanca e que na véspera tomara conhecimento, por um telefonema à secretaria do congresso, de que Vera também tinha se inscrito. Mas não sabia se ela estava a par de que iriam se encontrar em Salamanca. E você, espera que isso aconteça?, perguntei. Espera poder se encontrar com Vera em Abril? Ele não respondeu. Tampouco pude notar se assentiu com um gesto de cabeça. Naquela noite, todas as mesas do restaurante do Maravu se juntaram, formando uma comprida e única mesa. A ideia fora minha, pois muitos dos hóspedes eram pessoas sozinhas. Quando Ana e José entraram, lancei um derradeiro olhar para o cartão-postal com as oito torres antes de devolvê-lo a Frank. Pode ficar com ele!, exclamou. Eu me lembro de cada palavra. Não me passou despercebido o tom amargo da sua voz, e tentei fazê-lo mudar de ideia. Mas ele não se deixou convencer. Soou como se tivesse tomado uma decisão importante quando disse: se eu o guardar, em algum momento poderia picá-lo em pedacinhos; por isso é melhor você ficar com ele. E, depois, quem sabe não voltamos a nos ver em algum lugar? Apesar disso, decidi que o devolveria no dia em que Frank fosse embora. Mas na manhã em que ele deixou o Maravu, muitas coisas aconteceram. Encontrar-me novamente com o norueguês quase um ano depois foi um desses acasos estranhos que condimentam a existência e criam a esperança de que, apesar dos pesares, existem forças ocultas que conduzem nossas vidas fora de cena e de vez em quando dão uma puxadinha nos fios do destino.
O acaso quis que eu já não tenha diante dos meus olhos apenas um velho cartão-postal. Desde hoje conto também com uma longa carta que Frank escreveu a Vera depois de encontrá-la em Abril. Considero uma vitória pessoal o facto de esse documento escrupuloso estar enfim em minhas mãos, o que com certeza não teria acontecido se uma coincidência extraordinária não tivesse me levado a reparar em Frank em Madrid. Aliás, encontrei-o no mesmo hotel em que ele havia escrito a carta a Vera em Maio. Nosso encontro ocorreu no Hotel Palace, no mês de Novembro de 1998. Na carta a Vera, Frank descreve vários episódios que nós dois tínhamos vivido naquela ilha do arquipélago Fiji. Centralizava a carta, logicamente, em Ana e José, mas também fazia referência a algumas conversas que ele e eu tivemos a sós. Já que resolvi trazer a lume essa longa carta, poderia me sentir tentado a interromper o relato de Frank com comentários adicionais meus. Mas optei por apresentar a carta a Vera em sua totalidade e acrescentar um amplo epílogo. Naturalmente, estou muito contente por possuir essa missiva, sobretudo porque ela me permitiu estudar as cinquenta e duas máximas do manifesto. Permito-me precisar que não me apoderei de uma carta pessoal. Não é o caso, de maneira nenhuma. Mas também sobre essa questão falarei no epílogo». In Jostein Gaarder, Maya, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2001, ISBN 978-972-232-737-4

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Maya. Jostein Gaarder. «Sentado à escrivaninha na minha casa de Croydon, olho para um cartão-postal amassado, datado de Barcelona, 26 de Maio de 1992. O postal mostra uma foto da Sagrada Família, a catedral inacabada de Gaudí»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Jamais vou esquecer aquela húmida e tempestuosa manhã de Janeiro de 1998 em que Frank aterrou em Taveuni, uma pequena ilha do arquipélago Fiji. Trovejara a noite inteira, e, antes do café da manhã, os donos do Maravu Plantation Resort tiveram de cuidar do conserto de um problema na instalação eléctrica. Como a câmara frigorífica corria perigo, ofereci-me para ir de carro a Matei buscar os novos hóspedes, que chegariam à linha de mudança de data no voo da manhã, vindos de Nadi. Angela e Jochen Kiess aceitaram agradecidos a minha ajuda, e Jochen me elogiou dizendo que numa situação crítica sempre se podia contar com um britânico. O sério norueguês chamou minha atenção assim que entrou no jipe em companhia de um casal de americanos. Tinha cerca de quarenta anos, estatura mediana e cabelos louros, como a maioria dos escandinavos, mas olhos castanhos e um semblante um tanto abatido. Apresentou-se como Frank Andersen, e lembro que cheguei a pensar que talvez pertencesse àquela rara categoria de seres humanos que na vida toda se sentem oprimidos na Terra pela brevidade da existência e pela falta de espírito. Essa suposição se dissipou quando, naquela mesma noite, soube que ele era biólogo evolutivo. Para quem já tem certa predisposição à melancolia, a biologia evolutiva deve ser uma ciência bem pouco reconfortante.
Sentado à escrivaninha na minha casa de Croydon, olho para um cartão-postal amassado, datado de Barcelona, 26 de Maio de 1992. O postal mostra uma foto da Sagrada Família, a catedral inacabada de Gaudí, e traz no verso: Meu querido Frank, chegarei a Oslo terça, mas não vou sozinha. Tudo vai ser diferente a partir de agora, você tem que estar preparado. Não me chame! Quero sentir seu corpo antes que haja palavras entre nós. Lembra da bebida mágica? Logo você vai tomar algumas gotas. Às vezes tenho medo. Será que eu e você podemos fazer alguma coisa para aceitar que a vida seja tão breve? Sempre sua, Vera.
Frank me mostrou de repente o postal com aquelas torres altas uma tarde em que tomávamos cerveja no bar do Maravu. Eu tinha lhe contado que perdera Sheila alguns anos antes, e Frank continuou ali, sentado, por um bom momento, até que com um gesto brusco tirou a carteira do bolso e puxou um cartão-postal dobrado, que imediatamente desdobrou e pôs em cima da mesa. O texto estava escrito em espanhol, mas o norueguês traduziu palavra por palavra. Parecia precisar da minha ajuda para assimilar o que acabava de traduzir. Quem é Vera?, perguntei. Vocês eram casados? Aquiesceu com um movimento de cabeça. A gente se conheceu na Espanha, no fim dos anos 80. Passados alguns meses, já vivíamos juntos em Oslo. E o relacionamento terminou? Negou com a cabeça, mas disse: ela voltou a Barcelona dez anos depois. Foi no Outono passado. Vera não é um nome tipicamente espanhol, objectei. Nem catalão. É o nome de um povoado da Andaluzia, explicou. Segundo sua família, ela foi concebida lá. Examinei o postal. Ela foi a Barcelona visitar a família? De novo negou com a cabeça. Foi apresentar a sua tese de doutoramento. Não diga. Sobre as migrações da espécie humana a partir da África. Vera é paleontóloga. E quem ela levou a Oslo? Frank olhou para o fundo do copo. Sonja, disse sem mais nem menos. Sonja? Nossa filha, Sonja. Quer dizer que vocês têm uma filha? Apontou para o postal. Foi assim que fiquei sabendo que Vera estava grávida. De você? Estremeceu. A menina era minha filha, sim.
Compreendi que alguma coisa devia ter ido mal e tentei adivinhar o que poderia ter acontecido. Mas eu tinha outro ponto de referência e falei: e a tal bebida mágica, da qual você ia provar algumas gotas? Soa bastante tentador. Hesitou. Depois sorriu com certa timidez antes de negar a importância daquilo. Nada, coisas da Vera. Chamei o garçom e pedi outra cerveja. Frank mal havia tocado na dele. Conte, pedi. E Frank contou: Tinhamos em comum a mesma sede intransigente de vida. Ou será que devo chamar isso de ânsia de eternidade? Não sei se compreende o que quero dizer. Claro que compreendia. Senti o coração bater no peito e pensei que devia me acalmar. Ergui a palma da mão para lhe dar a entender que não precisava me explicar o que era a ânsia de eternidade. Ele entendeu. Aparentemente, não era a primeira vez que Frank tentava explicar o que queria dizer com aquela história de ânsia de eternidade. Acrescentou: nunca tinha encontrado numa mulher essa necessidade irresistível. Vera era uma pessoa calorosa e realista. Mas também vivia metida no seu mundo, melhor dizendo, no mundo da paleontologia. Era das que se orientam mais verticalmente do que horizontalmente. Como? Não lhe interessava o que acontece na rua ou no espelho. Era bonita, muito bonita. Mas nunca a vi folheando uma revista feminina. Ele continuava sentado, mexendo a cerveja com o dedo. Contou-me que, quando jovem, tinha tido muitas fantasias sobre uma bebida mágica que lhe concederia a vida eterna quando tivesse bebido a metade da dose. Assim, disporia de um tempo ilimitado para encontrar o homem a quem daria a outra metade e poderia ter certeza que um dia encontraria esse homem da sua vida, se não na semana seguinte, pelo menos depois de cem ou mil anos. Apontei para o postal. Frank sorriu com resignação: quando voltou de Barcelona, naquele Verão de 92, declarou solenemente que, de uma maneira ou de outra, tínhamos tomado algumas gotas da bebida mágica com que sonhava desde pequena. Pensava no filho que ia nascer. Algo de nós dois já tinha começado a viver sua própria vida, dizia ela. Algo que talvez desse fruto durante milhares de anos. A posteridade, você quer dizer? Sim, era nisso que ela pensava. De facto, todos os seres humanos da Terra descendem de uma mulher que viveu na África faz algumas centenas de milhares de anos. Tomou um gole de cerveja, e como não disse mais nada por um bom tempo, tentei fazê-lo prosseguir. Continue, se quiser, falei. Olhou-me nos olhos. Foi como se, por um instante, avaliasse se eu era ou não um homem em quem poderia confiar. Continuou: quando chegou a Oslo, me garantiu que não teria hesitado em compartilhar comigo a bebida mágica, se a tivesse. Obviamente não me deu nenhuma bebida mágica, mas, de todo modo, eu vivi aquilo como um grande momento. Considerei uma coisa sublime o facto de que ousasse fazer uma escolha irreversível. Com um gesto de cabeça, declarei-me de acordo. Já não é comum as pessoas se prometerem fidelidade eterna. Ficam juntas no que é bom, mas logo que vem o que é ruim, muitas simplesmente se separam». In Jostein Gaarder, Maya, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2001, ISBN 978-972-232-737-4

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 21 de agosto de 2016

O Mundo de Sofia. Jostein Gaarder. «Era o começo de Maio. Nalguns jardins, os narcisos formavam coroas de flores sob as árvores de fruto. As bétulas tinham uma fina penugem verde. Não era estranho que nessa estação do ano tudo começasse a crescer e a desenvolver-se?»

jdact e wikipedia
«...algo teria de surgir a certa altura do nada... 
«Sofia Amundsen regressava da escola. Percorrera com Jorunn o primeiro trecho do caminho. Tinham conversado sobre robôs. Para Jorunn, o cérebro humano era um computador complexo. Sofia não estava de acordo. Um homem deveria ser algo mais do que uma máquina. No supermercado, despediram-se. Sofia morava no extremo de um extenso bairro de residências e o caminho que tinha de percorrer para a escola era quase o dobro do de Jorunn. A sua casa parecia ficar no fim do mundo, porque atrás do jardim já não havia casas, apenas floresta. Seguiu para Klöverveien. No fim da rua, havia uma curva estreita, a que chamavam a Curva do Capitão, e onde quase só ao fim-de-semana se viam pessoas. Era o começo de Maio. Nalguns jardins, os narcisos formavam coroas de flores sob as árvores de fruto. As bétulas tinham uma fina penugem verde. Não era estranho que nessa estação do ano tudo começasse a crescer e a desenvolver-se? Porque é que essa massa de plantas verdes podia nascer da terra inanimada logo que o tempo ficava mais quente e os últimos vestígios de neve tinham desaparecido? Sofia espreitou para a caixa do correio antes de abrir o portão do jardim. Geralmente havia muita publicidade e alguns envelopes grandes para a sua mãe. Sofia colocava sempre um monte de cartas na mesa da cozinha, indo depois para o quarto fazer os trabalhos de casa. Para o seu pai chegavam por vezes cartas do banco, mas ele também não era um pai comum. O pai de Sofia era capitão num petroleiro e estava fora quase todo o ano. Quando regressava a casa por poucas semanas, passeava de chinelos pela casa, e cuidava de Sofia e da mãe de uma forma enternecedora. No entanto, quando estava em viagem, podia parecer muito distante. Nesse dia havia apenas uma pequena carta na grande caixa do correio, e era para Sofia. Sofia Amundsen estava escrito no pequeno envelope. Era tudo, sem remetente. A carta nem sequer tinha selo. Imediatamente após ter fechado o portão, Sofia abriu o envelope. Encontrou uma pequena folha, que não era maior do que o respectivo envelope. Na folha estava escrito: quem és tu? Mais nada. Não havia assinatura, apenas estas três palavras escritas à mão, seguidas de um grande ponto de interrogação. Observou uma vez mais o envelope. Sim, a carta era de facto para si, mas quem é que a tinha posto na caixa do correio? Sofia apressou-se em abrir a porta da casa vermelha. Como de costume, o gato Sherekan saiu furtivamente dos arbustos, saltou para o patamar e enfiou-se em casa, antes de Sofia fechar a porta. Bichano, bichano, bichano! Se, por algum motivo, a mãe de Sofia estava zangada, dizia que a sua casa parecia uma feira de animais. Uma feira de animais era uma colecção de animais diversos e, na realidade, Sofia estava bastante satisfeita com a sua colecção. No início, tinha recebido um aquário com os peixes dourados Caracolinho Dourado, Chapeuzinho Vermelho e Diabrete. Mais tarde, foi a vez dos periquitos Tom e Jerry, a tartaruga Govinda e finalmente o gato amarelo Sherekan. Todos aqueles animais eram uma espécie de compensação pelo facto de a sua mãe chegar tarde a casa e de o seu pai estar quase sempre a viajar. Sofia atirou a mala da escola para um canto e pôs um prato com comida de gato para Sherekan. Depois, foi sentar-se num banco da cozinha, com a misteriosa carta na mão. Quem és tu? Se ela soubesse! Era obviamente Sofia Amundsen, mas quem era Sofia Amundsen? Ainda não tinha descoberto totalmente. E se tivesse outro nome? Anne Knutsen, por exemplo. Seria então uma outra pessoa? Subitamente, lembrou-se de que o seu pai inicialmente gostaria de ter lhe dado o nome Synnöve. Sofia procurava imaginar como seria se cumprimentasse alguém e se se apresentasse como Synnöve Amundsen, mas não, não conseguia. Imaginava sempre uma outra pessoa. Saltou do banco e, com a estranha carta na mão, dirigiu-se para o quarto de banho. Colocou-se em frente do espelho, e olhou-se fixamente nos olhos. Eu sou Sofia Amundsen, disse. A moça do espelho nem sequer respondeu com uma careta. Aquilo que Sofia fizesse, ela fá-lo-ia exactamente da mesma forma. Sofia procurava adiantar-se em relação ao espelho com um movimento muito rápido, mas a outra era igualmente rápida». In Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia, 1991, Editorial Presença, 1995, ISBN 978-972-231-949-2. 

Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 13 de junho de 2015

A Garota das Laranjas. Jostein Gaarder. «Você está sentado, Georg? É bom que esteja, porque eu vou-lhe contar uma história electrizante... Talvez já se tenha instalado confortavelmente no sofá de couro amarelo. Isso caso vocês não o tenham trocado por outro, como vou saber?»

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«(…) Está sentado, Georg? Tive a impressão de estar ouvindo aquele vozeirão de trovoada, e agora não só no vídeo, eu a ouvia como se meu pai tivesse ressuscitado de uma hora para a outra e estivesse ali na sala connosco. Embora o envelope estivesse fechado, achei bom perguntar se os adultos já tinham lido aquelas páginas, mas todos negaram com a cabeça e garantiram que não tinham lido uma palavra. Absolutamente nada, disse Jorgen, e sua voz me pareceu acanhada, coisa não muito típica dele. Mas ele acrescentou que, quando eu terminasse, talvez eu pudesse deixá-los ler a carta do meu pai. Devia estar louco para saber o que havia nela. Sei lá por quê, achei que estava com a consciência pesada.
Você está sentado, Georg? É bom que esteja, porque eu vou-lhe contar uma história electrizante... Talvez já se tenha instalado confortavelmente no sofá de couro amarelo. Isso caso vocês não o tenham trocado por outro, como vou saber? Também posso perfeitamente imaginá-lo na velha cadeira de balanço do jardim-de-inverno, da qual sempre gostou tanto. Ou será que está lá fora na varanda? Não sei qual é a estação do ano. E, além disso, é possível que já nem morem mais no Humlevei. Como hei de saber? Eu não sei nada. Quem é o chefe do governo norueguês? Como se chama o secretário-geral das Nações Unidas? E, diga, como vai o telescópio Hubble? Tem ideia? Será que os astrónomos já sabem como é feito o universo? Muitas vezes tentei imaginar-me aí no futuro, mas nunca consegui ter uma ideia nem mesmo aproximada de agora, na sua vida actual. A única coisa que sei é quem é. Só isso. Não sei sequer com que idade está lendo isto. Talvez tenha doze ou catorze anos, e eu, o seu pai, há muito estou fora do tempo.
O facto é que já me sinto uma assombração, tenho de respirar fundo toda a vez que penso nisso. Agora entendo por que os fantasmas não param de fungar como bobos. Não é para assustar as pessoas que vieram depois deles. É porque acham dificílimo respirar noutra época tão diferente. Não é só um lugar na existência que nós temos. Temos um tempo limitado que nos foi atribuído. É assim, e só posso tomar como ponto de partida as coisas que agora me rodeiam. Escrevo em Agosto de 1990. Hoje, ou seja, no dia em que me ler, por certo já terá esquecido a maior parte do que nós dois vivemos nos meses quentes daquele verão em que tinha três anos e meio. Mas esses dias continuam pertencendo-nos, e nós ainda podemos passar muitas horas agradáveis juntos.
Vou contar uma coisa que actualmente não consigo tirar da cabeça: a cada dia que passa e a cada coisinha à toa que nós dois fazemos, aumenta a possibilidade de se lembrar de mim. Agora eu conto as semanas e os dias. Na terça-feira, nós estivemos no alto da torre de Tryvann, de onde se pode ver a metade do reino, dava para ver até a Suécia. A mãe também foi, fomos os três. Mas será que se lembra disso? Não pode ao menos tentar recordar, Georg? Tente, faça um esforço, pois isso tudo está aí, em algum lugar dentro de… Lembra daquele seu comboio enorme de madeira? Todo o dia passa horas brincando com ele. Eu estou-o vendo agora. Os trilhos, vagões e balsas espalhados no chão, exactamente como os deixou há pouco. No fim, eu precisei fazê-lo largar tudo porque estava na hora de ir ao jardim-de-infância, mas ainda tenho a impressão de que as suas mãozinhas continuam tocando no brinquedo. Não tive coragem de tirar um só trilho do lugar». In Jostein Gaarder, A Garota das Laranjas, tradução de Luis Araújo, Companhia das Letras, 2008, ISBN 978-853-590-712-4.

Cortesia Cletras/JDACT

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A Garota das Laranjas. Jostein Gaarder. «No meu quarto há um álbum cheio de fotografias do meu pai. Acho meio sinistro guardar tantos retratos de uma pessoa que já deixou de viver. Também temos o meu pai em vídeo. Fico todo arrepiado quando o ouço falar…»

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«Meu pai morreu há onze anos. Na época, eu nem havia completado quatro. Não esperava voltar a ter notícia dele, no entanto agora nós estamos escrevendo um livro juntos. Estas são as primeiras linhas do livro e, embora eu as esteja escrevendo, meu pai também vai participar. Afinal, é ele quem mais tem o que contar. Não sei dizer se me lembro do meu pai. Às vezes acho que só acredito que me lembro dele por ter visto muitas e muitas vezes as suas fotografias. Só de uma recordação eu tenho certeza absoluta; quer dizer, certeza de que é autêntica. Foi algo que aconteceu quando nós estávamos lá fora, na varanda, contemplando as estrelas. Numa fotografia, o pai e eu aparecemos no velho sofá de couro da sala. Ele parece estar contando uma coisa engraçada. O sofá, nós ainda o temos, mas meu pai já não se senta nele. Noutra fotografia, nós dois estamos muito bem instalados na cadeira de balanço verde do jardim-de-inverno. O retrato continua pendurado no mesmo lugar desde a morte do meu pai. Agora eu acabo de me sentar na cadeira de balanço verde. Procuro não balançá-la, pois quero escrever o que penso num caderno grosso. E depois passar tudo para o velho computador do meu pai. Também tenho o que contar sobre esse computador, mas prefiro deixar para mais tarde. Sempre achei esquisito coleccionar fotografias antigas. Elas pertencem a outro tempo.
No meu quarto há um álbum cheio de fotografias do meu pai. Acho meio sinistro guardar tantos retratos de uma pessoa que já deixou de viver. Também temos o meu pai em vídeo. Fico todo arrepiado quando o ouço falar. Ele tinha um vozeirão grosso, de trovoada. Penso que deviam proibir os vídeos de gente que não existe mais, ou que já não está entre nós, como prefere dizer a minha avó. Não acho certo ficar espreitando os mortos. Em alguns vídeos, eu também ouço a minha própria voz. É muito fina e aguda. Lembra um filhote de passarinho. Naquele tempo era assim: meu pai fazia o baixo; eu, o falsete. Num dos vídeos, estou montado nos ombros dele, tentando pegar a estrela no alto da árvore de Natal. Embora só tivesse um ano naquele tempo, faltou pouco para que eu conseguisse. Às vezes, quando assisto aos vídeos do meu pai comigo, a mãe afunda na poltrona e cai na gargalhada, muito embora fosse ela própria quem estava atrás da câmara, gravando tudo. Não gosto que riam dos vídeos do meu pai. Aposto que ele também não gostaria disso. Talvez dissesse que é contra o regulamento.
Noutra fita, o pai e eu estamos em frente à nossa casa de campo em Fjellstolen, os dois curtindo o sol da Páscoa, cada um com meia laranja na mão. Eu tento chupar a minha sem descascar. Meu pai deve estar pensando em outras laranjas, isso sou capaz de apostar. Pouco depois dessa viagem de Semana Santa, ele começou a notar que não estava bem de saúde. Passou mais de meio ano doente, com medo de morrer. Acho que sabia que isso não ia demorar a acontecer. A mãe já me disse várias vezes que o que mais o entristecia era morrer sem ter-me conhecido para valer. A minha avó também diz isso, só que de um jeito um tanto místico. A avó sempre fica esquisita quando fala no pai. Não é de admirar. Meus avós perderam um filho adulto. O que eles sentiram eu não sei. Sorte, que ainda têm um filho vivo. Mas a avó nunca ri quando olha para os velhos retratos do meu pai. Fica muito compenetrada. Isso é ela mesma quem diz. Na época, meu pai decidiu que era impossível conversar para valer com um garotinho de três anos e meio. Hoje eu entendo isso, e você também vai entender quando tiver lido este livro.
Tenho uma fotografia do meu pai numa cama de hospital, com o rosto muito magro. Eu estou no seu colo, e ele segura as minhas mãos com força para que eu não caia. Tenta sorrir para mim. A fotografia foi tirada poucas semanas antes da sua morte. Preferia não ter esse retrato, mas, já que o tenho, não posso jogá-lo fora. Nem posso deixar de olhar muitas vezes para ele. Hoje eu tenho quinze anos, ou, para ser mais exacto, quinze anos e três semanas. Chamo-me Georg Roed e moro no Humlevei, em Oslo, com minha mãe, Jorgen e Miriam. Jorgen é o meu novo pai, mas eu chamo-o assim mesmo, pelo nome. Miriam é a minha irmãzinha. Tem só um ano e meio, portanto é pequena demais para que se possa conversar com ela. Obviamente, não há fotografias nem vídeos antigos em que Miriam apareça com o meu pai. O pai dela é Jorgen. Eu era o único filho do meu». In Jostein Gaarder, A Garota das Laranjas, tradução de Luis Araújo, Companhia das Letras, 2008, ISBN 978-853-590-712-4.

Cortesia CLetras/JDACT