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terça-feira, 25 de abril de 2017

No 1º Centenário de o Criacionismo. Pinharanda Gomes. «Assim o período de 1901 a 1911 foi calmo, a satisfação do Curso pela reforma tão intensa [...] e a criação da Faculdade de Letras»

Cortesia de wikipedia

Uma tese vencida, não refutada
«Leonardo Coimbra, após os estudos de Física e Matemática em Coimbra, depois das experiências na Escola Naval (1903-1905), e do curso de Matemática na Escola Politécnica do Porto (1906-1909), decidiu habilitar-se pelo Curso Superior de Letras (1909-1910), ano em que obteve a licenciatura para docente, sendo colocado no Liceu Central do Porto. Com residência na Rua do Monte Olivete, na encosta do antigo Sítio da Cotovia (Escola Politécnica) para S. Bento da Saúde, o percurso de casa para o edifício onde o Curso Superior de Letras estava instalado (antigo Convento de Jesus, actual Rua da Academia das Ciências) era de proximidade, o principal troço do percurso sendo o ocupado pelo Jardim do Príncipe Real. Os professores do Curso tinham-se envolvido em repetidas instâncias em vista de uma reforma dos estudos, os quais foram objecto de dois Decretos, em 1901 e 1902, que reorganizaram o currículo escolar. Assim o período de 1901 a 1911 foi calmo, a satisfação do Curso pela reforma tão intensa [...] e a criação da Faculdade de Letras, não preocuparam tanto os professores, que repousavam, depois duma luta tão árdua e persistente, só satisfeita pela República. Em frequentes lugares, Teófilo Braga aparece como Director do Curso nesta época. De facto, além de ter sido Secretário, só foi Director no biénio de 1877-1879, não mais sendo professor1. Em 5 de Outubro de 1910 assumiu as funções de Presidente da República, mas o Director do Curso era o seu apaniguado Consiglieri Pedroso, a quem logo sucedeu, no ano lectivo de 1910-1911, o erudito Queiroz Veloso, que, na nova Faculdade de Letras, foi Director até 1929, quase sempre eleito por unanimidade.
Num ambiente pelos vistos pacificado, Leonardo Coimbra, aluno da secção de Ciências, obteve notas brilhantes, tendo recebido elogios de pelo menos dois professores, Francisco Adolfo Coelho e Joaquim António Silva Cordeiro que, não obstante, veio a constituir-se como seu inimigo. Enquanto Leonardo exercia a docência liceal no Porto, o Governo da República prosseguiu a actividade legislativa de carácter reformista envolvendo o ensino, promulgando, pelo Decreto de 19.4.1911 as Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto e, criando, pelo Decreto de 9.5.1911, as Faculdades de Letras de Coimbra e Lisboa. No Outono deste ano, melhor, a 27 de Outubro de 1911, tomou posse do cargo de Director do Colégio dos Órfãos de Braga, substituindo o padre Francisco Cruz, que viria a encontrar-se no itinerário religioso de Leonardo, quer presidindo ao seu matrimónio católico, quer sendo padrinho de baptismo do filho Leonardo Augusto, na época natalícia de 1935.Pouco mais de um mês Leonardo serviu o Colégio, pois em 15 de Dezembro já concedia uma entrevista ao jornalista Oldemiro César, dando conta das razões que o levaram a abandonar a Directoria. Livre, decidiu-se a concorrer ao Concurso para professor assistente do 6.º Grupo de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa.
Pela reforma de 24 de Dezembro de 1901, os estudos filosóficos abrangiam as cadeiras de Psicologia e Lógica (1.º ano) e História da Filosofia (2.º ano). Pelo Decreto com força de lei de 19 de Agosto de 1911, o 6.º Grupo do currículo facultativo é o de Filosofia, com as cadeiras de Filosofia (Psicologia, Lógica e Moral), História da Filosofia Antiga, Medieval e Moderna, Psicologia Experimental e Estética e História da Arte, distribuídas por 4 anos. O painel com as efigies magistrais decerto se representava na imaginação de alunos e de candidatos. O Director era José Maria Queiroz Veloso (falecidoem 1952), de Barcelos, médico pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, adversário de uma educação eivada de puras e abstractas noções teóricas, professor de História da Civilização no C.S.L. desde 1901, que tinha como prioridade a formação de professores, bibliófilo sistemático, cujo lema foi sem documentos não há história. Era professor ordinário. Professores eram também: Francisco Adolfo Coelho (falecido 1919), desiludido do ensino oficial, seguiu uma carreira autodidáctica, aceitando influências de Comte, Spencer, e dos idealistas alemães. De carácter racionalista, preferiu as disciplinas de Filosofia, Etnografia e Educação, seguindo os modelos germânicos, sendo autor de obras eruditas e teorético-práticas, com teses que ordenou nos dois volumes de Questões Pedagógicas (Coimbra, 1911-1912). Por assimilação dos linguistas alemães, introduziu a filologia científica no país, sendo considerado personalidade menos dominada pelo dogmatismo positivista». In Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XX, nº 1120, 2º Semestre 2012, Leornardo Coimbra nos 100 anos do Criacionismo, Pinharanda Gomes.

Cortesia de RNÁguia/JDACT

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Organon. A Vida de Aristóteles (segundo Diógenes Laércio). Pinharanda Gomes. «Seria indecente se me calasse e deixasse falar Xenócrates. Exercitava os discípulos na discussão de uma proposta questão, e além disso também lhes ensinava retórica»

Cortesia de wikipedia

«Aristóteles, filho de Nicómaco e de Féstias, era oriundo de Estagira. Seu pai, Nicómaco, era filho de um outro Nicómaco, por sua vez filho de Macaon e descendente de Esculápio. Este Nicómaco era da estima de Amintas, rei da Macedónia, junto do qual viveu, por causa dos conhecimentos que possuía em medicina. Aristóteles foi o mais notável dos discípulos de Platão. Era um pouco tartamudo. De pernas muito delgadas, segundo consta, tinha os olhos pequenos, gostava de vestir com sumptuosidade e rapava a barba. Teve um filho. Nicómaco, de sua mulher Herpília. Abandonou Platão, sendo este ainda vivo, o que levou Platão a afirmar que Aristóteles o espezinhara como um potro, que dá uma parelha de coices na mãe. Quando Aristóteles se deslocou junto de Filipe na qualidade de embaixador de Atenas, Xenócrates assumiu a direcção da Academia. Ao regressar, Aristóteles, vendo o seu lugar ocupado procurou no Liceu um lugar para passear e para filosofar com os discípulos enquanto passeavam. De onde a sua escola haver recebido o nome de peripatética, enquanto outros pretendem ver a origem deste nome no facto de ele passear enquanto conversava com Alexandre, que convalescia de uma doença. Logo que começou a ter um maior número de ouvintes, passou a ensinar sentado, e dizia: Seria indecente se me calasse e deixasse falar Xenócrates. Exercitava os discípulos na discussão de uma proposta questão, e além disso também lhes ensinava retórica.
Mais tarde foi visitar o eunuco Hermias, tirano de Atarneia. Pretende-se que Hermias era seu favorito, mas há quem afirme que ele se tornou seu parente por ter desposado sua filha ou sua sobrinha. Demétrio também declara que este Hermias foi escravo de Eubulo, oriundo da Bitínia, e assassino do seu senhor. Por outro lado, Aristipo, no primeiro livro dos Prazeres dos Antigos, afirma que Aristóteles se enamorou da concubina de Hermias, e que com a permissão deste casou com ela, tornando-se tão feliz, que chegou a oferecer-lhe sacrifícios ao modo como faziam os Atenienses a Deméter de Elêusis, e que escreveu para Hermias um hino. A seguir, Aristóteles viajou para a Macedónia, para a corte de Filipe, que lhe entregou o preceptorado de seu filho Alexandre. Solicitou deste príncipe relevasse a sua pátria destruída por Filipe, e logrou a causa. Elaborou leis para os seus compatriotas. À imitação de Xenócrates, deu também um regulamento à sua escola, decidindo que um chefe escolar seria nomeado de dez em dez dias. Logo que achou já ter passado muito tempo junto de Alexandre, Aristóteles regressou a Atenas, depois de haver recomendado o seu familiar Calísteno de Olinto ao príncipe. Acerca desta personagem, diz-se que Aristóteles o censurou por usar perante o monarca de uma grande liberdade de linguagem, e que, em vista de Calísteno não aceitar o seu conselho, o repreendeu nos seguintes termos: Depressa morrerás, meu filho, se falares como falas.
O que deveras aconteceu. Foi acusado de participação na conjura de Hermolau contra Alexandre, encerrado .numa gaiola de ferro, abandonado aos bichos e, por fim, lançado aos leões que limparam os restos. Nessa altura Aristóteles voltou a Atenas, dirigiu a escola durante treze anos, e depois saiu em segredo para Calcis, dado ter sido acusado de impiedade pelo hierofante Eurimédon ou por Demófilo, por causa de um hino que Aristóteles compusera acerca de Hermias, e por causa de um epigrama que escrevera acerca de uma estátua de Delfos, e que dizia: Esse homem aí, com impiedade e violação da justiça divina, foi morto pelo rei dos Persas que trazem o arco; não foi vencido lealmente à lança num combate mortal, mas por um golpe pérfido e à má fé. Morreu nesta região, ao que consta, depois de haver bebido cicuta com a idade de setenta anos. O mesmo autor afirma que foi discípulo de Platão na idade de trinta anos, no que se engana, pois que de facto foi discípulo de Platão desde a idade de dezassete anos, tendo vivido sessenta e três anos. Quanto ao hino mencionado, ei-lo:

«Virtude de aquisição tão difícil,
a mais bela caça que um homem pode cobiçar,
tu és bela, ó jovem,
e é uma graça invejada na Grécia morrer por ti,
e sofrer sem ceder os males maiores,
tanto tu pões nas almas.
Um fruto imortal superior ao oiro,
aos pais e ao suave repouso.
Foi por ti que Hércules e o filho de Leda
suportaram tantos sofrimentos.
Foi por te desejar que Aquiles
e Ajax às moradas do Hades,
vieram, e foi ainda por amor.
Pela tua beleza que um ateniense perdeu a vida,
sendo por isso que é ilustre
e será imortalizado pelas Musas,
filhas de Mnémosina,
que exaltam a raça, a amizade, a glória do poderoso Zeus hospitaleiro».

Acerca de Aristóteles escrevi o seguinte poema:

«Aristóteles foi um dia acusado de impiedade
por Eurimédon, sacerdote de Deméter, deusa dos mistérios.
Bebendo a cicuta, escapou: foi o modo
de se livrar de injustas calúnias com uma exígua pena».

In Organon, A Vida de Aristóteles (segundo Diógenes Laércio), tradução de Pinharanda Gomes, Lisboa, Guimarães Editores, 1985.

Cortesia de GuimarãesE/JDACT

sexta-feira, 29 de março de 2013

A Teologia de Leonardo Coimbra. Pinharanda Gomes. «… sem força mas com simpatia, persiste a vaga romântica do amor da pequena pátria, das liberdades individuais, do respeito pelos bens próprios, na esperança de uma harmonia entre a dor que nos cumpre, e a alegria que ansiamos»

jdact

(continuação)

O Tempo e o Movimento
«O caso de 1910 é exemplar. O povo não mudou, continuou mono-árquico, à espera do Desejado. A minoria intelectual e militar que em Lisboa pôs termo à monarquia hereditária mostrou-se incapaz de achar melhor do que uma monarquia electiva, em que a força do partido substituiu a força da família, base do sistema monárquico. A República nasceu velha e ancilosada. Sampaio Bruno afastar-se-ia pouco depois, clamando que essa não fora a República sonhada. Basílio Telles remeteu-se a um laicismo ascético e reformador, desiludido de quanto sonhara. José Teixeira Rego não escondia que, abortado o golpe de 31 de Janeiro de 1891, data em que o Positivismo ainda não dominava inteiramente o meio intelectual, a proclamação republicana de 1910 surgia como um capricho fora de tempo. A ideia que movia a consciência portuguesa não era a questão do regime; era a questão da cidade humana, com regeneração da Família e da Pátria.
O processo requeria, mais do que uma estratégia política, uma educação filosófica, e uma prática religiosa. O primeiro decénio do século, XX é prolixo em ideologia. Engastando somente as pedras ideológicas substantes, a, sociedade portuguesa vê o Positivismo implantar-se nas mentes, sem que ache adequada física social para a tradição portuguesa. Teófilo Braga compensa o excessivo compromisso positivista na ordem metodológica e política com a arqueologia do património, popular, literário, legendarístico, artístico e sacral, mas sem descobrir, no acervo coligido, a linha de vida que aperfeiçoasse, ou substituísse, o abstraccionismo positivista. A mais importante instituição portuguesa, a Igreja, sobrevive sem dote material, com uma hierarquia onde só então começam a aparecer os pastores de intervenção social, Manuel Vieira de Matos, António Mendes Belo... e com dois problemas filosóficos: um Modernismo teológico que ascende, e quer a revisão dogmática, e um Neo-Tomismo que, em vez de filosofar, se limita a divulgar as ideias de santo Tomás e dos tomistas posteriores. Enquanto em França se afirma um Neo-Tomismo pensante, em Portugal, o Neo-Tomismo é sobretudo divulgante e historicista. A Igreja encara, dentro e fora, um laicismo acentuado, com recusa do ministério sacerdotal, recusa essa expressa no anticlericalismo que é, na verdade, um anticristismo, porque o sacerdote é teologicamente alter Christus.
Enfim, como ambiente social geral, sem força mas com simpatia, persiste a vaga romântica do amor da pequena pátria, das liberdades individuais, do respeito pelos bens próprios, na esperança de uma harmonia entre a dor que nos cumpre, e a alegria que ansiamos». In Pinharanda Gomes, A Teologia de Leonardo Coimbra, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1985.

Cortesia de Guimarães Edt./JDACT

domingo, 10 de março de 2013

A Teologia de Leonardo Coimbra. Pinharanda Gomes. «A revolução é interior. Ocorre como se estivesse fora do tempo, no coração e na mente do povo, que através da revolução, “melhora” o ser, e aperfeiçoa o pensar»

Pintura de Eduardo Malta
jdact

(continuação)

O Tempo e o Movimento
«Um só acordou do erro, um só saltou do leito onde conubiava adulterinamente com a ilusão. Chamava-se Ega de Queirós e arrependeu-se, escrevendo um testamento espiritual de opção, de retorno e de reinstauração da visão própria. O escrito veio titulado A Cidade e as Serras. Não era tarde, embora também já não fosse cedo.
A questão grave que depende de tal livro é esta:
  • para ser nação, um país carece de cidades? E se tudo for terra, terra onde os homens vivam produtivamente e suficientemente, comungando na riqueza dos grandes bens, que nunca se gastam, em vez de, sôfregos, se alhearem nos bens que se gastam?
A revolução industrial abrira um processo que se tornava impossível deter, por isso iria até ao fim. Empobrecimento das nações ricas, e destruição dos bens naturais: terras e mares, montes e fontes, prados e rios. A ecologia não surgiu como ciência; foi apenas o choro dos que, tendo partilhado do banquete de rapina, viram que, afinal, haviam destruído, comendo, o pouco que havia. Na catequese genesíaca, o Criador ensinou que o homem podia dominar, servir como Senhor as criaturas, mas nunca ensinou a abusar delas. É justa a salvação do homem, mas é por igual justa a salvação das espécies criadas.
Os movimentos intelectuais dos países da revolução industrial foram, na sua quase totalidade, citadinos e urbanistas. O único movimento que se identificou em Portugal com eles foi o de 1870, em Casino elaborado. Nascia de uma desfocagem, e de um trauma: o da incapacidade de assumir o próprio ser. O fim do século, como todos os fins de séculos, punha na frente dos homens a interrogação sobre o dobrar do tempo. Transitar de oitocentos para novecentos é como que atingir o milénio, porque se inicia a centúria. No fim dos séculos, e no princípio dos séculos, sempre se atende a mudança, o aperfeiçoamento; por isso, as revoluções, as renovadas esperanças.
O tempo que vai de 1910 a 1930 é um tempo de revoluções: República, Primeira Guerra, 28 de Maio, implantação social do Comunismo, do Fascismo e do Nazismo. Expansão do Pan-Arabismo e do Sionismo. Assunção ocidentalista da China, e o mais, que já pouco importa. As revoluções são feitas, porém, por homens desumanizados, em geral políticos, militares, e alguns intelectuais, mercenários de ambos. Ou seja, não são revoluções. A re-volução, assente no substantivo volução, significa:
  • retoma do movimento, movimento novo, marcha para o mundo novo.
Ora, o mundo novo não se projecta sem pensamento e sem imaginação e, como é óbvio, pensamento e imaginação, carismas que sejam, não se ajeitam, nem aos militares, nem aos políticos, seres manobradores, jamais seres pensadores. A República Portuguesa de 1910 nasceu desse conluio entre militares e políticos desfasados do país real e do país régio, aconselhados por intelectuais pobres, entre os quais havia alguns ricos, que logo se emanciparam, e foram pensar a verdadeira revolução para o exílio.
A sílaba Re- do substantivo República não tem valor análogo ao do prefixo re- de restaurar. Além, Re- (Res, Rei,) é coisa, de onde República, Respublica, ser a coisa pública. É um dado estático, sem consonância de movimento progressivo. É como ter um lameiro, ou uma quinta. O Estado possui a República, a cousa pública. Possui-a, isto é, usa-a, e abusa-a. De um modo geral, as chamadas revoluções portuguesas cifraram-se num abuso do património nacional.
A revolução é interior. Ocorre como se estivesse fora do tempo, no coração e na mente do povo, que através da revolução, melhora o ser, e aperfeiçoa o pensar. Esta revolução não ocorre em datas, mas ocorre no movimento do homem. Por isso, o povo, mais ciente do real, diz o 5 de Outubro, o 28 de Maio, o 25 de Abril, designando e apontando datas que alteraram uma situação política, mas que não foram revoluções, que não transformaram a comunidade». In Pinharanda Gomes, A Teologia de Leonardo Coimbra, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1985.

Cortesia de Guimarães Edt./JDACT

domingo, 1 de julho de 2012

Folclore. Guilherme Nuno. «Morrer é o fim de cada um de nós. Morrer desastradamente como o Guilherme Nuno é uma injustiça. Ele merecia muitos anos de vida. Nós todos precisávamos dele»



jdact

NOTA: Ao arrumar uns livros na minha biblioteca, encontrei na letra F uma revista solta. Era uma homenagem a Guilherme Nuno, após o brutal acidente de viação que o vitimou, juntamente com sua esposa. Foi em 19 de Julho de 1971.

Pinharanda Gomes. Perda dolorosa e irreparável.
«Constituiu para mim um terrível choque a leitura do jornal de hoje, quando, desprevenidamente, me encontrei a ler a notícia da inesperada morte do bom amigo e grande folclorista português Guilherme Nuno, cuja dedicação à cultura popular, e cuja capacidade de trabalho, aliadas a uma notável sensibilidade de artista, faziam dele uma das grandes esperanças portuguesas por um folclore verdadeiro em Portugal.
Devia-lhe muitas atenções, uma das quais e não a menor, terá sido a de me ter querido entre os colaboradores da ‘Revista’, e de como tal me ter considerado, muito embora, nem sempre, e agora o lamento, eu tenha correspondido com a mesma generosidade do Guilherme Nuno.
Morrer é o fim de cada um de nós. Morrer desastradamente como o Guilherme Nuno é uma injustiça. Ele merecia muitos anos de vida. Nós todos precisávamos dele.
Aceite,  as minhas sinceras mágoas por uma perda tão dolorosa e irreparável como esta. E faço votos para que a dedicação, o espírito e o exemplo do Guilherme Nuno sejam pontos cardiais de futura acção de “Folcore”. Que Deus o tenha na Sua mão direita». In Pinharanda Gomes, Revista Folclore, nº 20, Agosto/Outubro, Ano III, 1971.

Cortesia de Folclore/JDACT

domingo, 24 de junho de 2012

A Teologia de Leonardo Coimbra. Pinharanda Gomes. «Não há um sem dois, nem dois sem três. Um sem dois é nada, dois sem três é o deserto. Três é comunidade viva, e nenhum se quer só. Outro junto ao um é companhia, mas não comunidade, porque só no terceiro se revela a essência de dois seres…»


jdact

Os Sinais da ‘Renascença Portuguesa’
O Dom da Vida
«O verbo categórico de regresso é “gradior”, em português a usar na forma inusada ‘gredir’, mas que só somos capazes de utilizar de modo críptico em palavras compostas: ‘agredir, progredir, regredir’, como se nos fosse possível fazer composição sem todos os elementos da compostura. Ou talvez nos seja mais simpático esconder, sob um prefixo, mesmo que vivo, a essência da fórmula que alquimizamos. Em que, tudo junto e ordenado, é de livro primário saber que atacar a ideia de ‘regresso’ significa atacar a ideia de ‘progresso’. O pêndulo da mecânica não é o pêndulo do relógio. É o pêndulo homem em seu vaivém, na nomenclatura política cifrado em passo adiante e passo atrás, o que já supõe, na ciência política, um empobrecimento daquilo que, na sapiência religiosa, se designa com uma única palavra, aliás composta, mas significando isso mesmo, ingresso em progresso com regresso: ‘a-rre-pendimento’. O verbo que dá origem ao substantivo é ‘reflexo’, e como tal se deve conjugar sempre (‘arrepender-se’) não havendo propriamente o verbo arrepender, sem ‘-se’. Lança raízes em ‘re-pendo’, verbo que manda pesar de novo, retribuir com peso igual, verbo esse análogo ao adjectivo ‘repens’, origem de ‘repentino’: retribuir de repente, arrepender-se, tão breve como no afluxo e no impulso biótico do arco da vida.
A tensão existencial, o progresso e o regresso, o fazer e o refazer, o morrer e o ressuscitar, o nascer e o renascer. ‘Re-‘ é nada em si mesmo. Ligado a substância ou a movimento, é qual poldra no meio do vau da ribeira; por ela se saltita, atingindo a terra desejada, sem molhar os pés.

Parir e Nascer
A equação de Almada Negreiros 1+1=1 é uma teoria cristológica, afirma, o dogma monofisita, pelo qual, nem o Pai nem o Filho são dois em um, sem deixarem de ser dois, nem o Pai e o Filho dão processão ao Espírito, de forma que são três como se fossem um, sem deixarem de ser três. Monofisismo ainda, enquanto a equação afirma que a unidade divina não admite parimento, pelo que Deus nunca poderá encarnar em homem,
porque tem uma natureza imutável, sempre possessa do uno, sem hipótese de vir ao multo. A aclamação litúrgica “unus panis, unum corpus, multi sumus”, não tem lugar na aritmosofia de Almada. '
Não há um sem dois, nem dois sem três. Um sem dois é nada, dois sem três é o deserto. Três é comunidade viva, e nenhum se quer só. Outro junto ao um é companhia, mas não comunidade, porque só no terceiro se revela a essência de dois seres como um, pelo amor. E o amor é parinte, e o amor quer ver nascer, quer parir: um mais um igual a três, como se, em heterodoxa imagem, disséssemos que o Espírito é filho do Pai e do Filho, ainda que nem Pai nem Filho como uns, pudessem ser sem Espírito. Nascer, realização do acto do amor, como na génese criacional do primeiro instante, génese amassada entre águas e barros, como o homem que nasce entre urinas e fezes. Nascer é o efeito de parir. Aí mesmo temos o ‘redamo’: receber e dar. O homem dá o que recebe, a sua humanidade. É, assim, menos complexo entender o mistério da Incarnação; a divindade vem do Pai, mas a humanidade vem de Maria, mãe, “mater”, “myriam”, em que “y” é um sinal, como chama, descido da região celeste.
A simbologia do nascer é dada ao conhecimento imaginativo através das gloriosas imagens sacras. A sociedade dispõe de escolas onde, durante as respectivas aulas, e na frente de um mapa do corpo humano, os aprendizes do amor, sedentos de amor, recebem a iniciação na mecânica sexual, tal como são instruídos em contabilidade. Na mecânica sexual, chamada escolarmente educação, sexual, não há inteligência para entender a dignidade do amor». In Pinharanda Gomes, A Teologia de Leonardo Coimbra, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1985,

Pintura de Eduardo Malta
 Cortesia de Guimarães Edt./JDACT

sábado, 16 de junho de 2012

A Teologia de Leonardo Coimbra. Pinharanda Gomes. «Descemos à terra dos homens e das palavras, onde falecem o Amor e o Verbo. E, logo, o prefixo vivo ‘re-’, sem intrinsecamente perder o ‘quid’ ou ‘potestate’ que o afirma, assume a multiplicidade significante: movimento para trás (v. g. ‘recedo’), regresso, repetição e contrariação (v. g. ‘reacção’)»



Pintura de Eduardo Malta
jdact

Os Sinais da ‘Renascença Portuguesa’
O Dom da Vida
«O prefixo ‘re-‘ chama-se ‘prefixo vivo’. A sua primitiva forma foi ‘red-‘, que, na época clássica, aparece antes de palavra iniciada por vogal, como nessa belíssima e altíssima forma verbal transitiva ‘redamo’ (“as, are”) que significa retorno de um dom: pagar amor com amor. Amor com amor se paga. O verbo substantivo é ‘amo’ (“avi, atum”), que supõe uma relação de um para outro, sem recepção necessária do efeito da relação. Diversamente, ‘redamo’, valorizado pelo prefixo vivo, vem a constituir o que os latinos designavam por receber o que se dá, receber o dom gratuito ao outro cedido, a “retributio”, a qual se encontra figurativamente concebida pelos gregos no “bios”, o arco da vida. O arco retrai e assume a dinâmica, o arco distende-se e gera movimento, dando o que recebe, e recebendo o que dá.
Sendo amor um substantivo de categoria verbal, por isso que o designamos abstracto, o substantivo amor é de si mesmo verbo, movimento, acção e efeito. Na expressão “ter amor”, se é verdade que o substantivo ‘amor’ dá a dignidade qualificada ou predicada ao verbo auxiliar ‘ter’, é também verdade que o substantivo, já de si mesmo verbal, junto do ‘ter’, perde alguma força, como se ‘amor’ fosse inócuo, sem o ‘ter’. Ora, na genealogia, que é ontologia, do substantivo, todo o verbo é sem equívoco: amor é amar. O prefixo ‘re-‘'tornar-se-ia desnecessário, porque a ideia de movimento integral, com processo e regresso, torno e retorno, atribuição e retribuição, dom e recebimento, posse e partilha, já se encontra infusa no próprio verbo substantivo. A inserção do prefixo ‘re-‘, ‘red-‘ no verbo, ou substantivo qual este, serve para sintetizar em forma didáctica simples o que, na catequese do amor, teria de se explicar aos aprendizes, através de circunlóquio ou definição. ‘Redamo’ é uma forma enfática de ‘amo’, mas significa, de mente inteira, o mesmo que ‘amo’: o acto de receber no acto de dar, em que se recebe tanto mais quanto mais se dá, de onde o que verdadeiramente ama a si mesmo se dá, e não coisa por ele. O que de tal forma ama, que a si mesmo se oferta em sacrifício cruento, esse é o que ama. O presente, a lembrança, a oferta cousal, podem exprimir o amor, mas não podemos comparar a oferta de um ramo de flores à oferta da vida por amor. Ambos os gestos exprimem o amor, só que, num caso, o amor é expresso por algo que não lhe é necessário, e, noutro caso, o amor. exprime-se consigo mesmo, com isso sem o qual não é o próprio amor.
Descemos à terra dos homens e das palavras, onde falecem o Amor e o Verbo. E, logo, o prefixo vivo ‘re-’, sem intrinsecamente perder o ‘quid’ ou ‘potestate’ que o afirma, assume a multiplicidade significante: movimento para trás (v. g. ‘recedo’), regresso, repetição e contrariação (v. g. ‘reacção’). O prefixo vivo é pouco estimado por quem ignora que, na ordem natural, ele tem figura no gesto de colocar na terra a semente com esperança de a colher. A relação sementeira / colheita está toda em ‘re-‘: o regresso da semente. cem por uma, ao que, na esperança, a deu à terra». In Pinharanda Gomes, A Teologia de Leonardo Coimbra, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1985.

Cortesia de Guimarães Edt./JDACT