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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Penúria no 31. George Orwell. «A fome reduz uma pessoa a um estado sem cérebro, e sem coluna vertebral, que se parece mais com os efeitos tardios da gripe do que com qualquer outra coisa. É como se uma pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer…»

jdact

«A fome reduz uma pessoa a um estado sem cérebro, e sem coluna vertebral, que se parece mais com os efeitos tardios da gripe do que com qualquer outra coisa. É como se uma pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer, ou como se não se tivesse sangue, e o sangue tivesse sido substituído por água morna. A inércia completa é a minha principal recordação da fome; isso e ser forçado a esca… com frequência, à medida que o esca… ganha uma estranha cor branca de algodão, como se fosse saliva de cuco. Não sei a razão do fenómeno, mas todas as pessoas que conheci e que passaram fome durante alguns dias falam da mesma coisa».

«Ó ferida da injúria, condição da pobreza!»

«Sete da manhã, na rue du Coq d’Or, Paris. Sobe da rua uma enfiada de gritos estridentes e furiosos. Madame Monce, a dona do pequeno hotel que fica precisamente diante do meu, desceu para o passeio, e daí dirige as suas imprecações contra uma locatária do terceiro andar- Tem os pés sem meias enfiados em socos e o cabelo grisalho desgrenhado. Madame Monce: Salope! Salope! Quantas vezes te disse já para não esmagares os percevejos contra o papel da parede? Estás convencida que compraste o hotel, não? Não podes atirar os bichos pela janela como toda a gente? Putain! Salope! A mulher do terceiro andar: Vieille vache! Irrompe, entretanto, um coro discordante de uivos, e as janelas abrem-se de todos os lados, enquanto metade da rua se encontra já envolvida na zaragata. Mas tudo se cala de súbito, passados dez minutos, Porque um esquadrão de cavalaria atravessa a rua e toda a gente fica a vê-lo passar.
Este breve apontamento destina-se apenas a transmitir ao leitor um pouco do espírito da rue du Coq d'Or. Não é que lá as zaragatas fossem o único acontecimento observável, mas é verdade que raramente se passava uma manhã sem a ocorrência de pelo menos uma crise como a que acabo de descrever. Brigas e os gritos desolados dos vendedores ambulantes, os berros das crianças dedicadas à apanha de cascas de laranja no chão, e, com a noite, cantigas entoadas a plenos pulmões, de mistura com o cheiro azedo dos caixotes do lixo, tal era a atmosfera peculiar da rua. Era uma rua estreitíssima, um carreiro de casas esgalgadas e leprosas, imobilizadas umas sobre as outras, rígidas, como se tivessem sido bruscamente congeladas no instante anterior à derrocada. Todas as casas da rua eram hotéis, hotéis a abarrotar de gente, na sua maioria polacos, árabes e italianos. No rés-do-chão dos hotéis havia pequenos bistrots, onde uma pessoa podia embebedar-se por uma soma equivalente a um xelim. Nas noites de sábado, cerca de um terço da população masculina do quarteirão encontrava-se em estado de embriaguez. Havia zaragata por causa de histórias de mulheres, e os locatários árabes, que viviam nos hotéis mais baratos, entregavam-se habitualmente a misteriosas dissensões internas, batendo-se com cadeiras atiradas pelo ar e, por vezes, a tiro de revólver. Durante a noite, só dois a dois os polícias entravam na rua. Era um lugar razoavelmente ruidoso. E, no entanto, no meio de toda aquela barafunda e de todo aquele barulho, vivia uma pequena população bem instalada de lojistas franceses, padeiros, lavadeiras e outros negociantes, comunidade à parte que ia somando tranquilamente as suas pequenas fortunas. Tratava-se, de facto, de um bairro característico de certas zonas pobres de Paris. O meu hotel chamava-se Hôtel des Trois Moineaux. Era um emaranhado sóbrio de cinco andares, dividido por tabiques de madeira, em quarenta quartos. Os quartos eram pequenos e irremediavelmente sujos, porque não havia empregada de limpeza, e Madame F., a patronne, não tinha tempo para tratar disso. As paredes de madeira tinham a espessura de um fósforo e, para tapar as rachas, haviam sido cobertas por camadas e camadas de papel cor-de-rosa, que se despegavam aos pedaços e serviam de abrigo a um sem fim de percevejos. Junto ao tecto, longas filas de percevejos marchavam durante todo o dia como colunas de soldados, e à noite desciam até ao chão, ferozes e famintos, de tal modo que de tantas em tantas horas o inquilino tinha que se levantar e proceder a uma hecatombe. À vezes, quando os percevejos se tornavam mais ameaçadores, a solução consistia em queimar um pouco de enxofre, obrigando-os a retirar para o quarto do lado; então, o inquilino do lado podia ripostar, queimando enxofre no seu quarto e devolvendo os percevejos na direcção anterior. O hotel era um lugar sujo, mas acolhedor, porque Madame F. e o marido eram boas pessoas. A renda paga pelos quartos variava entre trinta e cinquenta francos por semana». In George Orwell, Na Penúria em Paris e em Londres, 1985, Antígona, Lisboa, 2003, ISBN 972-608-031-2.

Cortesia de Antígona/JDACT

terça-feira, 27 de maio de 2014

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «Não tardou para que Cluny espalhasse abadias filhas pelo restante da Europa, os mosteiros cluniacenses proliferaram. A sua organização fez com que prosperassem…»

Cortesia de wikipedia

«(…) A Europa apresentou nos séculos XII e XIII, aquilo que os manuais didácticos comumente chamam de As grandes mudanças. Estas mudanças atingiram todos os níveis da sociedade medieval através do crescimento demográfico que segundo Le Goff, duplicou entre o final do século X e o início do XIV. Outro factor que demonstra este progresso medieval foi à intensificação da cunhagem de moedas durante o século XIII: E, por fim, o renascimento monetário do século XIII deslumbrou os historiadores, principalmente, com o regresso à cunhagem de moedas de ouro. Estas mudanças comportam ainda outros elementos tais como o renascimento urbano, o desenvolvimento de técnicas agrícolas e o consequente aumento da produção com a formação de excedentes desta produção que voltou a estimular o comércio. É claro que estes eventos são muito mais complexos que o simples esquema aqui apresentado, porém é possível apresentar um panorama geral que nos instigue a buscar algumas motivações para este contexto favorável. Neste sentido, os especialistas divergem nas suas posições. Maurice Lombard busca a sua explicação no contacto entre o Ocidente e o mundo muçulmano, que gerou a necessidade de produzir matérias-primas para atender cidades como Córdova, Damasco e Bagdade. Para Lynn White, por outro lado, este desenvolvimento se deve aos progressos técnicos desenvolvidos pelos próprios europeus. Independente do motor deste processo económico, o ponto que nos interessa neste trabalho, é o impacto que este fenómeno causou no seio da cristandade e em seu corpo eclesiástico, que até meados do século XII, estava representado pelas ordens monásticas, que experimentaram grande desenvolvimento, em especial, a ordem de cluniasense.

As Ordens Monásticas
A organização da ordem de Cluny proporcionou uma rápida proliferação de abadias filhas da casa-mãe. Desta ordem saíram papas conhecidos como Papas Reformadores pela historiografia cristã, entre eles o próprio Gregório VII, que havia sido abade de Cluny. Segundo Tathyana Zimmermann: Não tardou para que Cluny espalhasse abadias filhas pelo restante da Europa, os mosteiros cluniacenses proliferaram. A sua organização fez com que prosperassem. As abadias cluniacenses tornaram-se grandes senhorios monásticos, seus camponeses cultivavam as terras, abriam bosques e matagais, drenavam pântanos e produziam o vinho. Essas abadias eram centros de povoamento, centros produtivos nos quais o excedente era comercializado. Enriqueceram e tornaram-se poderosos. Este enriquecimento levou a uma valorização da liturgia e ornamentação dos mosteiros e na práxis divergente do discurso de grande parte dos monges que levavam vidas de opulência e ociosidade, bastante distante dos princípios expostos pela Regra de São Bento, regra-base para praticamente todas as ordens regulares. Citamos Cluny por ser a abadia com maior e mais rápida ascensão no período, mas é possível ainda citar outras que se enquadrem neste processo como Brogne e Gorze.
Este elemento de ordem económica é o primeiro a ser analisado ao buscar o cerne das heresias do século XII, mas existe ainda outro ponto mais difícil de ser apreendido pelo seu carácter estar incutido na consciência da sociedade medieval. Brenda Bolton chama este fenómeno de Crise religiosa do Século XII. O contexto de efervescência em vários aspectos pelos quais passou a sociedade medieval em fins do século XI impactaram, inevitavelmente, o corpo eclesiástico que precisou actualizar, mesmo que a contragosto, seu discurso, na medida em que a própria concepção de ser cristão modifica-se para um sentimento cada vez mais individual. Segundo Bolton: Os cristãos se tornaram colectivamente cada vez mais conscientes do mundo que os rodeava e procuravam racionalizá-lo. Também do ponto de vista individual se verificava uma nova tomada de consciência do próprio homem, relacionada com a condenação que Cristo fizera do pecado no coração e que conduziu a um despertar da importância da consciência.
Esta mudança na consciência do homem medieval é analisada por Brenda Bolton na sua Reforma da Idade Média, onde sugere seis reacções desencadeadas por esta crise, dentre as quais, duas nos interessam mais de perto pela relação com nossa temática: O monasticismo, ou vita angelica e as heresias. A primeira delas, o monasticismo, foi uma reacção interna às deformações dos princípios da Igreja Primitiva, retomados pela Regra de São Bento durante as Reformas Gregorianas, que grosso modo, poderia ser resumido como a vida em comunidade e a pobreza voluntária. Das vozes que se levantaram para enfatizar esta postura em detrimento da ostentação e opulência que havia se infiltrado por entre as abadias, está Bernardo de Claraval que deixou diversos escritos conclamando seus congéneres a um retorno às origens do Cristianismo. Bernardo foi o representante por excelência da Ordem de Cister e também o abade de Claraval até sua morte em 1153. O diferencial desta ordem estava na ideia que norteava os pensadores, que era a de um retorno genuíno ao monacato beneditino. Cister tornara-se desta forma, uma oposição dogmática a Cluny, resultando em discussões acaloradas entre os líderes de ambas as Ordens». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «Na verdade, podemos ver na crítica herética, ou melhor dito, em parte desta crítica, uma tentativa de apontar os erros e os desvios da instituição eclesiástica, da sua intervenção no poder secular à custa da sua missão espiritual»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Foi necessário também buscar textos que auxiliassem na compreensão das relações entre senhor e vassalo, bastante presente na Crónica albigense. Para tanto, Sociedade Feudal de Marc Bloch e Senhorio e Feudalidade na Idade Média foram as obras escolhidas para suprir este vácuo. Por fim, a fonte utilizada na nossa pesquisa é a Historia Albigeoise, de Pierre desvaux-de-Cernay. Foi traduzida para o francês por Pascal Guébin e Henri Maisonneuve em 1951 do original contido na Patrologia Latina: História Albigensium et Sacribelli in eos anno 1209 suspect Duce et Príncipe Simone de Monforti, crónica de Petri monachi coenobii Valium Cernaii. Utilizamos esta tradução por ser a mais conhecida pela historiografia relacionada ao tema. O título original nos fornece uma pista da nossa proposta de trabalho, ao incluir o nome de Simon de Monfort, suprimida pela versão francesa. A fonte possui 621 capítulos divididos em três partes principais que possuem subdivisões internas. A primeira parte intitulada Os hereges, está contida entre os capítulos 5 e 19, trata das práticas consideradas heréticas e suas doutrinas, com ênfase na protecção dos senhores do sul francês aos hereges. A segunda parte, Os pregadores, contempla os capítulos 20 até 54. Mostra o envio de missionários até à região em conflito por parte do papa Inocêncio III e a ineficácia na conversão dos hereges. A terceira e última parte do documento, As Cruzadas é também a mais extensa: 557 capítulos subdivididos em 12 partes. Tem como objectivo descrever a Cruzada albigense em todos os seus pormenores, além de exaltar a figura do cavaleiro Simon de Monfort ao mesmo tempo em que deprecia o conde de Toulouse, personificação do verdadeiro perigo da heresia para a Igreja: uma nobreza que apoiasse os hereges e desse suporte a ela, diminuindo o poder eclesiástico nas áreas de sua influência, neste caso, o Midi Francês.

O argumento legitimador
O primeiro objecto norteador de nossa pesquisa foi o elemento desencadeado para a Cruzada albigense, qual seja, o catarismo. Em nosso entender, esta heresia representa o argumento legitimador de um projecto que suplanta o fenómeno ocorrido no Midi francês no início do século XIII. Apresentaremos argumentos que apontem para a génese do processo de unificação do território francês, na figura do rei Filipe Augusto, contando com o apoio do papado, através de Inocêncio III. Uma discussão acerca dos cátaros, porém, parece incompleta, caso não esteja relacionada ao contexto mais amplo do período juntamente com as demais heresias medievais.

As primeiras heresias
As heresias acompanham a história da Igreja Cristã desde sua génese. Segundo Monique Zerner, o problema da heresia nasce com o cristianismo. O período para a construção do corpo canónico do Novo Testamento foi de mais de um século. Este corpo foi constituído de maneira complexa, através de polémica e discussões entre os líderes da chamada igreja primitiva. O resultado deste projecto foi a exclusão daqueles que discordaram da ortodoxia recém-formada, a quem foi atribuído o título de herege. O próprio apóstolo Paulo, durante a primeira metade da década de 60 da Era Cristã, cita em duas ocasiões o termo em suas epístolas. Os primeiros estudos ou descrições acerca das heresias dos primeiros séculos da cristandade encontram-se nos escritos de Santo Agostinho e de Isidoro de Sevilha. O carácter destas heresias era filosófico, doutrinário, ou seja, as discussões envolviam as doutrinas da ortodoxia, como por exemplo, a natureza divina e humana de Cristo, sendo esta uma especulação racional em torno dos princípios ou dogmas cristãos.

As Heresias Medievais
O período compreendido entre os séculos XII e XIII recebe a nomenclatura de séculos heréticos por Nachman Falbel. A intensificação dos movimentos heréticos neste período leva-nos a buscar no contexto europeu, argumentos que justifiquem tal fenómeno. Segundo Falbel:

Na verdade, podemos ver na crítica herética, ou melhor dito, em parte desta crítica, uma tentativa de apontar os erros e os desvios da instituição eclesiástica, da sua intervenção no poder secular à custa da sua missão espiritual; enfim, uma tentativa de alertar a sociedade cristã de que os seus representantes desvirtuaram a verdadeira imagem da religião fundada por Cristo.

Este desvio moral, segundo Henri Daniel Rops, do corpo eclesiástico justifica-se quando verificamos as profundas transformações ocorridas no interior da sociedade medieval, no período imediatamente anterior ao abordado, que merece uma breve menção». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

sexta-feira, 21 de março de 2014

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «… criação de um Vassalo Perfeito, que servisse como um exempla tanto para a monarquia francesa em formação, como para a Igreja que precisava fortalecer o seu vínculo com o século…»

Cortesia de wikipedia

«(…) O terceiro capítulo é uma análise da figura do líder cruzado Simon de Montfort, numa tentativa de verificar se a hipótese da criação da figura de um Vassalo Perfeito seria pertinente ao contexto descrito por Pierre des Vaux de Cernay. Para tanto, consideramos como ponto de partida, o pressuposto de que para criar um modelo, devem ser adoptados parâmetros existentes no contexto ao qual o escritor está inserido. Na introdução crítica da fonte, os autores da tradução revelam um factor de suma importância para este raciocínio, qual seja, a leitura dos escritos de Bernardo de Claraval por Pierre des Vaux de Cernay. Nas obras completas de São Bernardo, foi encontrada uma apologia a uma casta de guerreiros superiores aos cavaleiros comuns, na medida em que os Templários possuíam, para Bernardo, o melhor de dois mundos: eram guerreiros temporais e espirituais. Partindo do cruzamento de minha fonte primária com a obra de Bernardo de Claraval, encontrei três categorias qualitativas ao redor da descrição de Simon: aspectos físicos, nobres e cristãos. As características físicas descritas apontam para um ideal de beleza, que no meu estudo está em conformidade com o conteúdo literário da Provença do século XII, onde a descrição do herói desprovido de falhas físicas era um sinal da Providência Divina favorável. Outro factor para a descrição física detalhada de Simon por Pierre está de acordo com a narrativa bíblica de heróis guerreiros como Absalão, David ou Sansão, todos retratados como homens perfeitos. Quanto às características nobres de Simon, Pierre retrata inúmeras situações onde a coragem do cavaleiro é provada, além de sua compaixão e senso de justiça. Este léxico moral estava inserido no imaginário de cavalaria, que incluía ainda o carácter do amor cortês. Esta característica estava descrita em Simon, na medida em que sua esposa, a condessa D. Alice de Montgomercy, é uma figura sempre presente nas conquistas do marido. Simon é descrito como esposo fiel, enquanto seus adversários, como por exemplo, o conde de Toulouse, é retratado como pervertido e poligâmico.
Nas características religiosas, percebem-se todas as qualidades de um cristão fiel, como fé, fidelidade à Igreja e seus líderes e respeito inexorável pela ortodoxia católica. Toda a descrição destas características converge para corroborar com a minha hipótese da criação de um Vassalo Perfeito, que servisse como um exempla tanto para a monarquia francesa em formação, como para a Igreja que precisava fortalecer o seu vínculo com o século, na medida em que o papado buscava aumentar a sua hegemonia no século através da Teocracia Papal. Para que estes pontos fossem aprofundados no meu trabalho, algumas obras foram de suma importância e merecem menção. Para uma melhor compreensão do conflito armado intitulado Cruzada albigense, duas obras foram fundamentais: A Heresia Perfeita – A vida e a morte revolucionária dos cátaros na Idade Média, de Stephen O’shea, e Atlas de los Cátaros, organizado por Jesus Mestre Campi. Em a Heresia Perfeita, O’shea descreve todos as nuances pertinentes à Cruzada, auxiliando na compreensão do contexto mais amplo sobre os eventos do Languedoc. A existência de dois projectos expansionistas dirigidos por Filipe Augusto de França de um lado, e Pedro II de Aragão de outro, está de acordo com a obra de O’shea. A segunda obra foi de grande valia para ambientar a pesquisa aos espaços territoriais envolvidos, como, por exemplo, verificar qual o território pertencente ao norte francês, qual a delimitação do Midi francês e a região de Aragão. Outros textos de relevância no amadurecimento de conceitos pertinentes à pesquisa merecem menção. A obra de José Rivair Macedo, Heresia, Cruzada e Inquisição na França Medieval, única obra encontrada sobre o tema na historiografia brasileira, auxiliou na percepção da construção da memória histórica sobre a heresia cátara. Na compreensão do conceito e dos preceitos de cavalaria de Pierre, foram utilizadas duas obras. O verbete cavalaria de Jean Flori, no já citado Dicionário Temático da Idade Média contraposto com o clássico sobre o tema de Leon Gautier, La chevalerie. Ambos foram importantes no sentido de compreender a noção de cavalaria no universo no qual o cronista Pierre estava inserido, para então, transpô-lo aos seus escritos. Foi necessário também buscar textos que auxiliassem na compreensão das relações entre senhor e vassalo, bastante presente na Crónica albigense». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «Os grandes feudos da região como Béziers, Carcassome e Toulouse eram regidos por vassalos do rei de Aragão, Pedro II. Filipe encontrou na Cruzada, a oportunidade de estabelecer a sua hegemonia sobre a região, através da criação de laços de matrimónio…»

Cortesia de wikipedia

«Feliz é o homem que acha a sabedoria, e o homem que adquire o conhecimento; porque melhor é o lucro que ela dá do que a prata, e melhor é a sua renda que o ouro mais fino».

«(…) Para o fortalecimento da heresia albigense no sul da França, é necessário analisar o contexto que norteia o Ocidente nos séculos XII e XIII, que diferem, por exemplo, das apreensões percebidas na virada do ano mil, bem como nos séculos XIV e XV. Na tentativa de buscar hipóteses para a peculiaridade do recorte escolhido, foi analisado o segundo autor proposto para nortear esta pesquisa teoricamente: Brenda Bolton e a sua obra, Reforma na Idade Média. A ideia de um período ímpar de mudança no Ocidente neste recorte temporal não surge com Brenda Bolton, aliás, é muito mais antigo. Marc Bloch no seu Ocidente Medieval mostra suas ressalvas na utilização do termo Renaissence, numa analogia directa ao movimento italiano do século XV. É neste sentido que consideramos o termo adoptado por Bolton, Reformatio, mais adequado em nossa opinião enquanto conceito balizado. Segundo a autora: [...] foi tão grande este fermento espiritual e alterou-se de tal modo a concepção dos homens quanto à vida cristã e a sua finalidade no mundo, que alguns historiadores da espiritualidade medieval consideram que esta representa uma mudança tão profunda e duradoura como a Reforma do século XVI.
A base para a Reformatio estaria na profunda crise da cristandade ocidental, onde a mudança no pensamento cristão resultou na mutação da espiritualidade, que por sua vez gerou outras crises que influenciaram todo o conjunto da vida religiosa que libertaram uma efervescência considerável de ideias. Esta efervescência une-se ao que Jacques Verger chama de contexto favorável. Este breve panorama constitui-se na base do surgimento do catarismo, na medida em que, [...] o movimento herético foi um dos aspectos do renascimento religioso da época e, em parte, um subproduto das mudanças culturais, sociais e económicas dos séculos XI e XII. Para Brenda Bolton, as reacções da Igreja a este contexto de mudança são tão importantes quanto às consequências representadas pela eclosão das heresias. Neste ponto, a figura do papa Inocêncio III é central. Segundo a autora, [...] ele não só estabeleceu a distinção ou distinctio, entre heréticos irredutíveis e aqueles que eram meramente desobedientes, como também assinalou a suprema insensatez que era excluir-se da Igreja tanto os últimos como os primeiros. Com grande perspicácia, habilidade e energia, Inocêncio conseguiu incorporar estes grupos desobedientes na hierarquia da Igreja.
O segundo tópico qual seja, Os personagens trata basicamente de duas figuras: Inocêncio III e Filipe Augusto. Foram escolhidos, pois de acordo com a minha hipótese de trabalho, a descrição de Simon de Montfort por Pierre, contém no seu âmago, o ideal de dois universos distintos, porém complementares: o guerreiro exemplar e o cristão fiel. Este era o modelo que ambos, Filipe e Lotário, buscavam para si. O papel da Sé Católica no conflito está personificado na pessoa do papa Inocêncio III que assumiu o trono de Pedro entre 1198-1216. Considerado pela historiografia católica como um dos maiores papas da Idade Média, foi hábil em unificar o poder de Roma, desgastado após um século de conflitos internos entre monarcas e os nobres de Roma.

NOTA: Lotário queria certificar-se que os próximos 100 anos seriam menos turbulentos que os precedentes. Os anos 1100 não tinham sido uma época feliz para os delegados de Cristo. Antes de Inocêncio, onze dos dezasseis pontífices do século XII viram os papas mantidos à força longe de Roma por amotinados, republicanos ou agentes de reinos distantes. A comuna romana, liderada por Arnold de Brescia na metade do século, foi um episódio particularmente vívido num pesadelo recorrente. Em 1145, o papa Lúcio II morreu por conta de ferimentos sofridos numa batalha pelo controle do Capitólio; trinta anos antes, um fraco e velho Gelásio II foi posto sentado numa mula e forçado a suportar as zombarias de seus inimigos. Antipapistas eram frequentemente eleitos pelos clãs romanos rivais e por homens da Igreja que serviam o imperador germânico, que representavam a única ameaça maior à independência do papado.

A região do Midi francês, centro da heresia cátara, requereu a atenção do papa devido à simpatia dos nobres locais ao credo herético. Porém, Lotário dei Conti de Segni preferiu a diplomacia onde ela fosse aceita, enviando diversos legados à região, com a missão de devolver os hereges à verdadeira fé. Entre os mais ilustres pregadores enviados por Inocêncio III, encontra-se Domingos de Gusmão, futuro São Domingos. O período de conversações termina com o assassinato do legado papal Pedro de Castelnau, supostamente a mando do conde de Tolouse Raimundo VI, em 14 de Janeiro de 1208, dando início à Cruzada albigense, legitimada pela carta papal endereçada à nobreza do norte da França. Para a análise de Inocêncio no meu trabalho utilizei o clássico francês. Innocent III la croisade des albigeois, de Achille Luchaire, escrito em 1911. Filipe Augusto é descrito pela historiografia apenas pela sua disputa com os reis plantagenetas, os quais derrotou em 1215. É importante salientar que o projecto expansionista de Filipe possuía outra frente de suma importância para o reino francês: uma saída para o Mediterrâneo. A dificuldade para alcançar este objectivo estava no território do Languedoc que se interpunha a Filipe. Os grandes feudos da região como Béziers, Carcassome e Toulouse eram regidos por vassalos do rei de Aragão, Pedro II. Filipe encontrou na Cruzada, a oportunidade de estabelecer a sua hegemonia sobre a região, através da criação de laços de matrimónio entre as nobres locais com senhores do norte, destruindo desta forma a unidade dos feudos, que fortaleciam a região. Conforme as cidades eram conquistadas pelos cruzados, estes casamentos foram estabelecidos. Após as guerras cátaras, a antiga identidade do sul praticamente desapareceu, sendo toda a região do Midi sujeita a Paris, concretizando assim, o projecto de Filipe Augusto. O projecto expansionista do rei francês está descrito na obra de Stephen O´Shea, intitulada, A heresia perfeita: A vida e a morte revolucionária dos cátaros na Idade Média, uma das referências no desenvolvimento do trabalho». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «A palavra heresia (do grego hairesis, hairen, que significa escolher) acompanhou a vida da Igreja desde os inícios e, para os escritores eclesiásticos o termo designava uma doutrina contrária aos princípios da fé oficialmente declarada»

Cortesia de wikipedia

«O estudo do fenómeno conhecido como Cruzadas, é uma tarefa muitas vezes difusa, devido a toda a mística que envolve o tema, devido à recente produção literária que aborda o assunto e a filmografia que tem valorizado os épicos históricos, debruçando-se sobre os conflitos medievais entre cristãos e muçulmanos, séculos antes dos entraves contemporâneos, mostrando que o assunto ainda gera interesse e fascínio entre o público leigo. Ao observarmos este fenómeno, a partir do momento em que ocorre dentro dos domínios da Cristandade, como no episódio da cruzada albigense, percebe-se a singularidade e complexidade em buscar apreender elementos que esclareçam ou ao menos auxiliem na clarificação das motivações e personagens envolvidos num conflito desta magnitude. Para tanto, a análise da cruzada será realizada através da trajectória do líder cruzado, o conde Simon de Montfort, na medida em que, através de sua singularidade, é possível verificar elementos que transpassem a própria cruzada. Entre estes elementos é possível citar, por exemplo, o desenvolvimento de dois projectos expansionistas antagónicos entre a região norte do território conhecido hoje como França, e o reino de Aragão, na Península Ibérica.

Proponho a análise de alguns elementos pertinentes ao contexto relativo ao tema, seguido de um olhar mais aproximado da fonte documental intitulada Histoire Albigeoise, escrita pelo monge cisterciense Pierre des Vaux de Cernay. Desenvolvida no formato de crónica, entre 1213 e 1218, é o documento considerado pela historiografia contemporânea como a matriz da visão oficial do conflito. Pierre era o sobrinho de Guy, abade do mosteiro de Vaux de Cernay, no sudoeste de Paris, fundado por Simon de Neauphle em 1118 ou 1128. A Histoire Albigeoise é uma fonte escrita por um clérigo em formato de crónica como uma elegia a um vassalo real. Entender estes elementos, ou seja, as razões para a escrita da obra e para a exaltação da figura de um personagem que estava à sombra do rei tendo como pano de fundo a cruzada albigense e o contexto europeu do século XIII. Para tanto, será necessário deslocar o foco da cruzada e dos hereges apenas, e analisar figuras como o papa Inocêncio III, o rei Felipe Augusto e o rei Pedro II, o católico, numa intrincada rede de acções políticas e projectos antagónicos que auxiliaram na formação da geografia política da Europa. A realização de uma leitura que busque uma visão da obra do monge Pierre de Cernay que não contemple apenas a cruzada albigense ou as doutrinas dos hereges, é a contribuição para a historiografia. A elevação de Simon de Montfort a um papel central dentro da crónica eclesiástica de Pierre levou-nos a conectá-la à formação da proposta de unificação do reino francês, tão díspar no seu território, como a cruzada e a heresia mostraram ser. A necessidade de um modelo de vassalagem, fé católica, fidelidade ao rei e coragem, faz da Historia Albigeoise uma obra em certa medida de cunho didáctico, tanto para os habitantes do norte, quanto para os habitantes do Languedoc, que em termos culturais e sociais estavam muito mais associados ao reino de Aragão, que aos domínios de Filipe Augusto.

De acordo com a pesquisa realizada, dividimos em três capítulos principais, os quais vão tratar respectivamente: O argumento legitimador, qual seja a heresia cátara; As personagens, onde discutimos a respeito dos papéis de Filipe Augusto e Inocêncio III no conflito e a existência de um projecto da monarquia francesa apoiado pela Igreja Romana que visava expandir os territórios do norte buscando uma saída para o mar Mediterrâneo; e uma análise da figura de Simon de Montfort. Esta análise acontece em quatro pontos específicos, a descrição de sua participação na cruzada albigense, suas características físicas, cristãs, nobres e como estas características, na obra de Pierre, corroboram para nossa hipótese de criação de um Vassalo Perfeito que serviria de exemplo tanto para a os servos de um pretenso reino francês unificado, como para a Igreja. Para o primeiro ponto, o desenvolvimento das heresias no contexto europeu dos séculos XII e XIII, optamos por dois trabalhos principais: Heresias Medievais de Nachman Falbel e Reforma na Idade Média, de Brenda Bolton. Na primeira obra, Falbel traça uma síntese das principais heresias que obtiveram repercussão frente à cristandade durante período medieval, como por exemplo, os cátaros, valdenses, beguinos e pseudo-apóstolos. O autor também apresenta clérigos saídos das ordens monásticas que questionavam dogmas da doutrina cristã, como por exemplo, Pedro de Bruys, que negava a santa missa, o baptismo de crianças, a cruz enquanto símbolo tradicional do cristianismo. Além de atentar apenas para a própria descrição dos acontecimentos, é importante perceber como o autor entende os conceito. A principal contribuição de Falbel está na sua explicação para o conceito de heresia: A palavra heresia (do grego hairesis, hairen, que significa escolher) acompanhou a vida da Igreja desde os inícios e, para os escritores eclesiásticos o termo designava uma doutrina contrária aos princípios da fé oficialmente declarada.

O autor distingue as heresias ocorridas entre os séculos XII e XIII daquelas ocorridas no início do cristianismo como religião oficial no Ocidente, dizendo que estas possuíam um carácter filosófico e teológico, onde os dogmas cristãos eram submetidos ao crivo racional, enquanto as heresias da Idade Média possuíam enquanto características, [...] um cunho popular assente sobre uma nova visão ética da instituição eclesiástica e do cristianismo como religião vigente na sociedade ocidental. Quando retratar o conceito heresia, estarei à visão do autor, de que as heresias medievais mobilizavam tanto clérigos quanto camponeses e até senhores, num contexto propício para mudanças, sejam elas intelectuais, económicas ou sociais. Esta percepção está de acordo com a historiografia mais recente sobre o tema». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.



Cortesia de wikipedia/JDACT

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Ouviu? Tenho medo. Ninguém responde, e eu deito-me de novo, vendo a luz amarela sobre o meu próprio corpo e escutando um ralo devasso a coaxar dentro deste terror»

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O Grito
«(…) por favor, dirijo-me a alguém por entre a música, diga que compreende. Diga-me agora, já. Mesmo que não compreenda. O inspector sorri. Como pode este sorrir tanto? O senhor decerto concorda em que somos necessários. Asseguramos uma ordem que permite a criação. Estabelecemos o clima próprio… Claro que nunca mais dormi. Espero os gritos. Espero-os todas as noites. Fico sentado na tarimba, tiritando. Estou vazio. O meu desespero é este vazio total, estranha forma de terror que nunca mais me abandonará. Ouço um ralo, e isso impacienta-me. Um ralo é uma coisa estúpida. Pode até fazer com que eu adormeça. Também ouço todas as noites os gritos que partem de algures na prisão, talvez do piso em cima, de qualquer cela semelhante a esta. São cada vez mais fracos e agora, na quinta noite, esforço-me por destacá-los do silêncio amarelo do corredor. Serei um colecionador de gritos? Não consigo senão ter medo, esta força desordenada e súbita que me arrasta para o pote. Chamo por alguém. Digo nomes ao acaso. Há-de haver algum preso nas celas próximas, alguém a quem dizer: Ouviu? Tenho medo. Ninguém responde, e eu deito-me de novo, vendo a luz amarela sobre o meu próprio corpo e escutando um ralo devasso a coaxar dentro deste terror.
O jacto de fogo sobe do fundo até às estrelas. Sou um bêbado. O poço estremece. É o último grito, a agonia do mundo. Uma coluna de pedra que se parte de repente. Nasceu num homem. Propagou-se. Está em mim. Caio então muito depressa no sono. Durmo. Durmo cada vez mais. Um dia já não não acordarei. Espero nunca mais acordar. Acendo um cigarro, e o espelho mostra que não tremo. Quem sabe se a morte desse homem… Como digo? Não é verdade que o seu sofrimento acabou para sempre? Sim, mas como posso libertar-me desses gritos, esse espantoso grito final, e adormecer, morrer? Bebemos. Digo: bela cerveja.
E meto as mãos pelas coxas de uma das raparigas. Somos três à mesa. As duas mulheres riem continuamente. Um soluço cresce pela cerveja acima, e então bebo dois grandes goles. Enterro-me na música violenta. Pensam acaso que não estive também a gerar esse grito? Que ele não foi do mesmo modo um sofrimento meu, um crime? A névoa afoga-me. Por dentro da névoa as raparigas riem como loucas. Dizem piadas obscenas. Vou cair com a cabeça sobre a mesa fria. Vou dormir mais uma vez. Um bêbado que dorme caído sobre o tampo de uma mesa ressona como um porco. É sempre assim. Ressonamos como porcos, e as mulheres a nosso lado riem loucamente nos seus vestidos de cor. 
 
Os comboios que vão para Antuérpia
Em Janeiro eu estava em Bruxelas, nos subúrbios, numa casa sobre a linha férrea. Os comboios faziam estremecer o meu quarto. Fora-se o Natal. Algo desaparecera, uma coisa ingénua em que se poderia ter confiado. Talvez a esperança. Eu não tinha dinheiro nem livros nem cigarros. Não tinha trabalho nem ócio, porque estava desesperado. Por isso passava o dia e a noite no quarto. Na linha em baixo rangiam e apitavam comboios que talvez fossem para Antuérpia. Eu pensava em Deus quando os comboios trepidavam nos carris e apitavam tão perto de mim. Quando iam possivelmente a caminho de Antuérpia. Pensava nos comboios como quem pensa em Deus: com uma falta de fé desesperada. Pensava também em Deus, um comboio: algo que sem dúvida existe, mas é absurdo, que parte com um destino indefinido: Antuérpia, que possivelmente (evidente) não era. Às vezes vinha à janela e, por detrás dos vidros, olhava para o caminho-de-ferro. Mas antes de lá chegar os meus olhos encontravam uma árvore esquisita, tímida mas tenazmente viva num quintal próximo». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.
 
Cortesia A Alvim/JDACT

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Biblioteca Histórica. O 31 de Janeiro de 1891. A Revolução Portuguesa. Jorge D’Abreu. «Nunca na igreja senti um calafrio assim. Perdi a cabeça então, como os outros todos. Todos a perdemos. Atirámos então as barretinas ao ar. Gritámos então todos: - Viva! Viva, viva a República!»


Cortesia de wikipedia

Palavras de um soldado
… Ao presidente do tribunal de guerra, no acto do julgamento: Eu, meu senhor, não sei o que é a República, mas não pode deixar de ser uma cousa santa. Nunca na igreja senti um calafrio assim. Perdi a cabeça então, como os outros todos. Todos a perdemos. Atirámos então as barretinas ao ar. Gritámos então todos: - Viva! Viva, viva a República! Do Manifesto dos Emigrados da Revolução do Porto de 31 de Janeiro de 1891.

O 31 de Janeiro (Porto, 1891)
«O movimento de 31 de Janeiro filia-se no ultimatum de 1890. A revolta militar de 31 de Janeiro de 1891 caracterizou-se pela precipitação com que foi decidida e a pouca ou nenhuma reserva com que foi organizada. Durante meses uma parte do país teve conhecimento quase minucioso de que se conspirava contra a monarquia e que na conspiração entravam elementos de importância recrutados na oficialidade dos regimentos que a guarneciam. No entanto a explosão patriótica, que na madrugada de 31 fez triunfar por algumas horas a bandeira verde e vermelha, surpreendeu muita gente porque apenas uma insignificante minoria não julgava extemporâneo o rebentar da bomba. A causa única do movimento podemo-la filiar no ultimatum de 1890. Por espaço de um ano, a agitação popular, que essa chicotada diplomática provocara nos primeiros instantes agitação que, no dizer de João Chagas, trouxera pela primeira vez para a rua, a manifestarem-se, homens graves e de chapéu alto, por espaço de um ano, repetimos, essa agitação minou profundamente diversas camadas sociais e fez aumentar por uma forma extraordinária o descontentamento da nação, a sua hostilidade contra o regime monárquico e o soberano. Viu-se claramente, nesse momento grave da vida portuguesa, que, ao substituir-se o ministério abatido pelo ultimatum, o novo governo procurara antes de mais nada deitar uma escora ao trono, desprezando em absoluto as reclamações do povo, a sua grita sedenta de justiça.
Calcara-se a pátria para sustentar no poder o monarca brigantino. A dignidade da nação, o seu anseio fervoroso de que o ultimatum obrigasse a politica governativa a mudar de processos, a trabalhar com seriedade, uma e outro foram espezinhados pelo empenho dos áulicos da monarquia em precavê-la da marcha progressiva das ideias democráticas. Dai o êxodo para o partido republicano de muitos dos homens que até então tinham tentado servir os partidos monárquicos com boa-fé e dedicação. Na medida do possível esse período da história contemporânea, cujos incidentes, voltamos a afirmá-lo, fizeram germinar o pensamento da revolta e contribuíram directamente para que ela rebentasse no Porto no dia 31 de janeiro de 1891. Por agora limitaremos o nosso papel de modesto e desataviado cronista da Revolução Portuguesa a descrever o que ocorreu em Lisboa mal se soube da momentânea vitória das armas republicanas. É interessante recordar as horas de mortífera espectativa que a capital sofreu, enquanto a várias léguas de distância um troço de valentes se fazia massacrar pela chamada guarda pretoriana.
Nas vésperas da revolta, os jornais de Lisboa ainda reflectiam quase toda a indignação e a celeuma causadas pelo ultimatum. A poucas horas de ser iniciado o movimento, os Pontos nos ii inseriam uma página faiscante de Bordallo Pinheiro, intitulada A maldita questão ingleza. As perseguições a diferentes oficiais do exército sucediam-se com uma pertinácia feroz. No dia 30 de Janeiro, um jornal, aludindo à que fora movida ao alferes de caçadores 9, aquartelado no Porto, Simões Trindade, salientava o facto curioso desse oficial ter sido, em 27 daquele mês, mandado apresentar imediatamente no quartel-general da respectiva divisão; depois, dai, mandado seguir, imediatamente, para o ministério da guerra; daqui apresentado imediatamente no quartel-general da 1.ª divisão, onde tinham acabado por lhe dar uma guia afim de se apresentar, imediatamente também, no regimento de infantaria 24, aquartelado em Pinhel. Os jornais do Porto, confirmando esse furor persecutório, acrescentavam que a violência das autoridades militares incidia especialmente sobre os oficiais inferiores. Surgiu a manhã de 31 e com ela principiaram a circular em Lisboa os boatos alarmantes. Um deles, talvez o primeiro e o que mais consistência adquiriu desde logo no espírito do público, dizia: - No Porto, às seis horas, os regimentos de caçadores 9 e infantaria 10 e parte de infantaria 18, saindo dos quartéis, dirigiram-se à praça da Regeneração, soltando vivas à Republica. O movimento tende a alastrar-se. A guarda municipal quis opôr-se-lhe; mas, depois duma descarga dada por caçadores 9, e da qual morreram 12 soldados daquela guarda, os outros aderiram aos revoltosos. A seguir, correu que a primeira autoridade militar do Porto pedira de madrugada reforço à guarda pretoriana, mas que ela se recusara peremptoriamente a combater as tropas sublevadas. Dizia-se também que toda a guarnição se solidarizara com os insurrectos». In Jorge D’Abreu, O 31 de Janeiro de 1891, Porto, Biblioteca Histórica, A Revolução Portuguesa, Edição da Casa Alfredo David (encadernador), Lisboa, 1912.


Cortesia de Casa Alfredo David/JDACT

terça-feira, 2 de julho de 2013

Indignai-vos! Stéphane Hessel. «A razão básica de ser da Resistência era a indignação. Apelamos às jovens gerações para manter viva a “indignação”, transmitir essa herança da Resistência e dos seus ideais. ‘Assegurem a continuidade, indignem-se!»

Cortesia de wikipedia

«(…) Uma verdadeira democracia tem necessidade de uma imprensa independente; a Resistência sabia disso, e assim o exigia, defendendo a liberdade de imprensa, sua honra e sua independência com relação ao Estado, aos poderes do dinheiro e às influências estrangeiras. Era isto o que repetiam os decretos sobre a imprensa, já em 1944.Ora, é isto que hoje está em perigo. A Resistência apelava para a possibilidade efetiva, para todas as crianças francesas, de se beneficiarem da educação mais desenvolvida, sem discriminação; ora, as reformas propostas em 2008 vão contra esse projecto. Jovens docentes, cuja acção eu apoio, chegaram a se recusar a aplicá-las, e viram seus salários reduzidos a título de punição. Eles se indignaram, desobedeceram, julgaram essas reformas muito afastadas do ideal da escola pública, muito a serviço de uma sociedade do dinheiro, e que não mais desenvolve suficientemente o espírito criativo e crítico.
É toda a base das conquistas sociais da Resistência que está sendo agora contestada.

O motivo da Resistência é a Indignação
Hoje em dia, ousam dizer-nos que o Estado não pode mais garantir o custo dessas medidas cidadãs. Mas, como é possível que falte dinheiro para manter e prolongar as conquistas quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente, desde a Libertação, períodos em que a Europa estava arruinada? Só se for porque o poder do dinheiro, combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente e egoísta para com os seus próprios servidores, até mesmo nas mais altas esferas do Estado. Os bancos, doravante privatizados, mostram-se antes de tudo preocupados com seus dividendos e com os altíssimos salários dos seus dirigentes, não com o interesse geral. A distância entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande, a competição nunca foi tão incentivada. A razão básica de ser da Resistência era a indignação. Nós, veteranos dos movimentos de resistência e das forças combatentes da França Livre, apelamos às jovens gerações para manter viva a indignação, transmitir essa herança da Resistência e dos seus ideais. Estamos dizendo: assegurem a continuidade, indignem-se! Os responsáveis políticos, económicos, intelectuais e a sociedade toda não devem se omitir nem se deixar impressionar pela actual ditadura internacional dos mercados financeiros, que ameaça a paz e a democracia. Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo nos transformamos em militantes; fortes e engajados, Nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós. Essa corrente vai em direcção de mais justiça, de mais liberdade, mas não da liberdade desencontrada da raposa no galinheiro. Esses direitos, cujo programa a Declaração Universal redigiu em 1948, são universais. Se encontrar alguém que não é beneficiado por eles, compadeça-se, ajude-o a conquistá-los.

Duas visões da História
Quando tento entender o que provocou o fascismo, o que fez com que nós franceses fôssemos invadidos por ele e por Vichy, digo a mim mesmo que as pessoas que tinham posses, em razão de seu egoísmo, sentiram um medo terrível da revolução bolchevique. Elas se deixaram guiar por seus temores. Mas, se hoje, como naquela época, uma minoria activa se levantar, isso será suficiente; teremos aí a levedura para que a massa cresça. Com certeza, a experiência de alguém muito idoso como eu, nascido em 1917, se diferencia da dos jovens de hoje. Muitas vezes peço a professores, do ensino fundamental, que me deem a possibilidade de intervir junto aos seus alunos, e lhes digo: Resistir, para nós, era não aceitar a ocupação alemã, não aceitar a derrota. Era relativamente simples. Simples como o que se seguiu, a descolonização. Em seguida, veio a guerra da Argélia. Era necessário que a Argélia se tornasse independente, isso era óbvio. Quanto a Stalin, todos aplaudimos a vitória do Exército Vermelho sobre os nazistas em 1943. Mas, já quando tivemos conhecimento dos grandes processos stalinistas de 1935, e mesmo se achássemos que era preciso manter o ouvido aberto às mensagens do comunismo, ao menos para contrabalançar a influência do capitalismo norte-americano, a necessidade de nos opormos a essa forma insuportável de totalitarismo se impôs como uma evidência».

In Stéphane Hessel, Indignai-vos!, tradução de Marly Peres, Mensanapress, Artesanato gráfico e editorial, 2011.

Cortesia de Mensanapress/JDACT

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Indignai-vos! Stéphane Hessel. «A justa divisão das riquezas criadas pelo mundo do trabalho deve primar sobre o poder do dinheiro. A Resistência propunha “uma organização racional da economia, assegurando a subordinação dos interesses particulares ao interesse geral…”»

Cortesia de wikipedia

«(…) Adverte Hessel, ao contrário: o inimigo pode estar invisível, dissolvido na grande borra da realidade tecnológica, rede mundial de computadores, redes de TV dedicadas à informação instantânea, nas quais o inimigo, como um diabo traiçoeiro, a cada minuto muda de face, quotidiano, veloz e sem pausas. Não lidamos mais com uma pequena elite cujas acções entendemos claramente. Nem por isso, Hessel argumenta, os motivos para a indignação desapareceram. O século XXI tem uma aparência sombria e disforme, a globalização reduziu o planeta a uma sala, mas, diz Hessel, em nosso mundo continuam a existir coisas insuportáveis. Alerta: Para vê-las, é preciso olhar bastante, procurar. Digo aos jovens: procurem um pouco, vocês vão encontrar. A pior das atitudes é a indiferença.
Infelizmente, ele lamenta, muitos jovens, cada vez mais, preferem drogar-se, entregar-se ao tédio, não pensar. A vida individual, com suas inevitáveis exigências, lhes serve de bom argumento. Os jovens dizem: Não posso fazer nada, estou me virando. Diante disso, em vez de enfurecer-se, em vez de exasperar-se, Stéphane Hessel, dorme em sua vida de nonagenário, prefere esperar. Esperar não por indolência ou por preguiça, mas para pensar, procurar e chegar a ver. Numa palavra: para indignar-se. In José Castello, Crónica publicada pelo jornal Valor Económico, em 2011.

Indignai-vos!
Noventa e três anos. Pode-se falar em etapa final. O fim não está longe. Que sorte poder aproveitar para lembrar o que serviu de base ao meu engajamento político: os anos de resistência e o programa elaborado há 66 anos pelo Conselho Nacional da Resistência! Devemos a Jean Moulin, no âmbito desse Conselho, a reunião de todos os componentes da França ocupada, os movimentos, os partidos, os sindicatos, para proclamarem sua adesão à França combatente e ao único chefe que ela reconhecia: o general De Gaulle. De Londres, onde me juntara a De Gaulle em Março de 1941, soube que esse Conselho havia organizado um programa e que o tinha adoptado em 15 de Março de 1944, propondo para a França libertada um conjunto de princípios e de valores sobre os quais se apoiaria a moderna democracia de nosso país. Mais do que nunca, hoje temos necessidade desses princípios e valores. Precisamos nos manter vigilantes, todos juntos, para que esta continue sendo uma sociedade da qual nos orgulhemos; não a sociedade dos imigrantes sem documento, das expulsões, das suspeitas aos imigrantes; não a sociedade na qual sejam questionadas as aposentadorias, os direitos adquiridos da Previdência Social; não a sociedade na qual a imprensa está nas mãos dos ricos, todas essas coisas que teríamos recusado avalizar se fôssemos os verdadeiros herdeiros do Conselho Nacional da Resistência. Após um drama cruel, em 1945 houve uma ressurreição ambiciosa a que se dedicaram as forças presentes no seio do Conselho da Resistência.


Vale lembrar que naquela ocasião foi criada a Seguridade Social, como queria a Resistência, que estipulara expressamente em seu programa: Um plano completo de Seguridade Social, visando a assegurar meios de existência a todos os cidadãos, em todos os casos em que eles não tenham capacidade de consegui-las pelo trabalho; uma aposentadoria que permita aos trabalhadores idosos encerrarem dignamente seus dias. As fontes de energia, a eletricidade e o gás, as minas de carvão, os grandes bancos foram nacionalizados. Era o que esse programa também preconizava, o retorno à nação dos meios de produção monopolizados, fruto do trabalho comum, das fontes de energia, das riquezas do subsolo, das companhias de seguro e dos grandes bancos; a instauração de uma verdadeira democracia económica e social, implicando a evicção dos grandes feudos económicos e financeiros que comandam a economia. O interesse geral deve sobrepujar o particular, a justa divisão das riquezas criadas pelo mundo do trabalho deve primar sobre o poder do dinheiro. A Resistência propunha uma organização racional da economia, assegurando a subordinação dos interesses particulares ao interesse geral, liberto da ditadura profissional instaurada à imagem dos Estados fascistas, e o Governo provisório da República assegurava a continuidade».

In Stéphane Hessel, Indignai-vos!, tradução de Marly Peres, Mensanapress, Artesanato gráfico e editorial, 2011.

Cortesia de Mensanapress/JDACT

sábado, 15 de junho de 2013

Alberto Raposo Pidwell Tavares. Pseudónimo Al Berto. Poeta. «Os dedos cintilam no húmus da terra e eu indiferente à sonolência da língua ouço o eco do amor há muito soterrado encosto a cabeça na luz e tudo esqueço no interior desta ânfora alucinada»

Cortesia de wikipedia

Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor
 foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração


Mais Nada se Move em Cima do Papel
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração


Ofício de Amar
já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras
galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Poemas de Al Berto, in “O Medo”. 
Teria 67 anos de idade. Morreu num dia 13 de Junho.

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Os Passos em Volta. Leituras. Herberto Helder. «Está com um pouco de vergonha de si mesmo, porque pensou durante cinco minutos que nem toda a gente tem o direito de estar presa. Dorme num poço situado sob as mais belas estrelas…»

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Polícia
«(…) Sou uma criatura sã, digo. Sou um bêbado. Vou dormir vestido vermelho, vou morrer. Mas não está ninguém a meu lado. A máquina bate as nossas estúpidas palavras. O inspector estende as mãos exangues e parece cada vez mais inteligente. – Claro, diz. - Nunca pretendi chamar-lhe comunista. Imagino apenas que, por ingenuidade, por exactamente não ser comunista, o senhor tenha colaborado com eles. Por ingenuidade. Por nada saber. Vê onde quero chegar? Só desejamos que diga os nomes. Os nomes? Que nomes? Três horas à volta desta porcaria. Depois mandam-me embora. A cela fica no segundo piso, a meio de um corredor frio, alumiado por algumas lâmpadas amareladas. De um lado e outro existem celas, quase todas vazias agora, pois fizeram há pouco tempo transferência de presos para outras cadeias. São celas pequenas e escuras, de cimento. Encostada à parede, a tarimba com um cobertor. Ao canto, o pote onde se urina e defeca. O silêncio é completo através do canal do corredor. Nada disto me faz grande mal. Talvez o silêncio me impressione, mas depois deixo de senti-lo. Começo a pensar e já não tenho consciência desse frio silêncio amarelo em que tudo se consome. Vejo-me no espelho a brincar com um cálice vazio na ponta dos dedos. Mas o olhar apaga-se de súbito, e as pálpebras batem. - Tenho medo, digo.

Uma cara olha-me atonitamente. É agora o vestido vermelho com uma idiota flor branca por cima: a cabeça. - O quê? - Não, não é de ser preso outra vez que tenho medo. Peço-lhe que aceite mais um copo de cerveja, minha senhora. Gostaria de sentir-me solidário com alguém. - Ouvem?! - exclama ela para as outras. - Este gajo tem uma bêbeda porreira. Peço-lhe que aceite mais um copo de cerveja, minha senhora. Pois não, meu caro senhor. Amanda-me aí uma imperial bem tirada, ó Juca! Vejo dois copos de cerveja sobre o balcão e agarro num deles. O frio sobe-me pelos dedos. Daqui a pouco não sentirei as mãos: estarão adormecidas. Suponho que rio baixinho. Foi isto que me fizeram. Estou cheio de frio. Durmo. Nunca mais acordarei. – Ouça, digo para ninguém. - Não me bateram. Foram amáveis durante os interrogatórios. Ele tinha mesmo uma cara honesta. Às vezes pergunto: quem sabe se não seria uma pessoa honesta?

Alguém senta-se no banco ao lado e pede qualquer coisa. - Sou um homem honesto, digo ao meu novo vizinho. - Procuro sê-lo. - O vizinho sorri, condescendente. Pisca o olho ao empregado, que também sorri. - Agora não sei bem se isto é honestidade. Mas de qualquer modo eu nunca pertenceria à polícia. O outro pertencia, e pareceu-me honesto. Que sentido há nisto? - É que ele não era um homem honesto. - E o vizinho dá uma gargalhada. - Não? - Julgo que sonho. - Claro, era um assassino. Um assassino honesto. E de novo a música louca enche tudo. Bebo depressa. Sinto-me no fundo de uma turbulenta e exasperada corrupção. Calo-me para lembrar melhor. Na terceira noite de cadeia estive a pensar que não era um revoltado, mas um simples empregado de escritório pouco imaginativo. Não merecia estar preso. Talvez fosse bom merecê-lo. Um momento mais, e estaria perto da fraternidade. Mas eu era um pequeno homem honesto. Da espécie de honestidade que não ligava com a do inspector só talvez por ser inerme. Uma vil honestidade passiva. Anuidora, silenciosa. Que não desejava incómodos. Apenas por não ter um temperamento activo é que eu nunca seria da polícia? Bem sei, é absurdo. Estou doente. Não devo pensar nisto. - Bebemos mais uma cerveja?

Não está ninguém para beber. Continuo a beber só. E rio baixinho, um pequeno riso mortificado e cruel por trás do copo enevoado da cerveja. Por trás ainda da minha vida de burguês destruída pela peste. Sempre dormi bem. Hoje imagino que, durante todos os tranquilos sonos da minha vida, se preparavam e realizavam os crimes. Dormi como um justo. Não é assim que se diz? Como se fosse um justo. Mas um estremecimento qualquer entrara no meu sono, um rato entrara no sono. Conseguem imaginar o que se passou? Um empregado de escritório está metido numa cela por suspeitas políticas. É tudo infundado, e ele acredita que o caso se há-de esclarecer. Por isso dorme tranquilamente como durante a liberdade. Está com um pouco de vergonha de si mesmo, porque pensou durante cinco minutos que nem toda a gente tem o direito de estar presa. Dorme num poço situado sob as mais belas estrelas (imagem esta de agora, quero dizer: poesia irresponsável de bêbado). Serenidade por toda a parte. Serenidade cósmica, prisional, pessoal.

Fora o rato que trabalhava no escuro da serenidade. E então acordo. Não acordo como se o rato estivesse a roer. Acordo por explosão. É um grito. Depois, vários ruídos. Um rumor espalhado e, no centro, esse grito, alto, material como ume agulha de gelo. Uma coisa impossivelmente terrífica Um grito humano. E só distingo a penumbra amarela que vem do corredor. O silêncio contamina tudo, o frio cerra-me. E a luz amarela estende-se pelo chão e atinge o pote de urina, que fede. Então sinto uma dor na barriga e corro pare o pote». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT