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sábado, 6 de maio de 2017

Na Península de Setúbal, em finais da Idade Média: organização do espaço, aproveitamento dos recursos e exercício do poder. José Augusto Oliveira. «… alguma irregularidade orográfica, se conjugaram com uma forte dispersão, “no país de Azeitão” as diversas quintas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Um simples olhar, sobre um qualquer mapa que represente a península de Setúbal, facilmente fixa a fractura definida pelo traçado do esteiro que conduz a ribeira de Coina até ao Tejo. Com efeito, ficam assim compartimentados distintos territórios, ainda que sejam tradicionalmente integrados na mesma província. É na porção ocidental da península de Setúbal que descortinamos, de forma mais evidente, os factores naturais comuns à Estremadura: contrastes orográficos, mais amenos no caso de Almada, onde prevalecem terras baixas, atravessadas por colinas suaves; contrastes mais tensos e violentos, na faixa meridional, marcados por uma irrupção montanhosa excepcional, a Arrábida, que sucede à depressão da zona central da península; depois, largas manchas arenosas preenchidas por pinhais a perder de vista; finalmente, um clima atlântico matizado por influências mediterrâneas.
À componente geográfica sobrevinha o critério histórico: o espaço em causa coincidia, sensivelmente com os medievos concelhos de Almada, que então englobava o território hoje afecto ao município do Seixal, Sesimbra, que compreendia o chamado país de Azeitão e, confrontando com estes, o enclave de Coina, que contornava a confluência da ribeira homónima com um profundo esteiro do Tejo. A definição destas unidades administrativas estruturou-se, como ocorreu na generalidade do território português, no contexto da conquista cristã. Embora não disponhamos de testemunhos escritos, alguns vestígios arqueológicos, reforçados por uma toponímia relativamente profusa, sugerem uma efectiva presença muçulmana em Sesimbra, em Azeitão, na encosta meridional da serra da Arrábida, junto aos esteiros do Tejo e, mais intensamente, nos arredores de Almada, com prolongamento até à Trafaria.
O processo de colonização do território, na sequência da conquista cristã, permanece nebuloso. A entrega de Almada a ingleses, como recompensa da sua participação na tomada de Lisboa, em 1147, não passará de uma fantasia e a doação de Sesimbra a flamengos não teve qualquer eficácia prática. O laconismo das fontes escritas terá a sua explicação. Depressa este eixo de avanço cristão, outro articulava Santarém e Évora, se orientou em direcção a Palmela e a Alcácer do Sal, marginalizando a face ocidental da Península de Setúbal. Escassos indícios apontam para uma apropriação do espaço por parte de membros das elites urbanas lisboetas: magistrados municipais, membros do cabido, mercadores abastados, oficiais régios. Contudo, uma parte significativa da terra terá permanecido ou caído nas mãos de elementos populares menos prestigiados, conforme se infere do peso da propriedade alodial.
As gentes procuraram, naturalmente, as terras mais produtivas e acessíveis, mas com diversas condicionantes e particularismos. Contudo, enquanto nos arredores de Almada a fragmentação da propriedade e, até, alguma irregularidade orográfica, se conjugaram com uma forte dispersão, no país de Azeitão as diversas quintas remeteram os camponeses para pequenas aldeias que se distribuíram pela estrada que percorria o sopé da Pré-Arrábida. Já nos terrenos arenosos, que se estendiam da Azóia até Alfarim, então aproveitados preferencialmente para o cereal, dominava um povoamento intercalar, com pequenos núcleos, quase sempre coincidentes com as cabeças dos casais que preenchiam a zona. Como centros urbanos, pese a sua modesta dimensão, podemos classificar as vilas de Almada, Coina e Sesimbra, esta com uma dupla existência. Na sua origem confinada ao recinto amuralhado do castelo, foi literalmente substituída pelo povoado ribeirinho, em finais do século XV». In José Augusto Oliveira, Na Península de Setúbal, em finais da Idade Média: organização do espaço, aproveitamento dos recursos e exercício do poder, Dissertação de Doutoramento em História Medieval, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Centro de Estudos Históricos, FCSH-UNL, 2008, Revista Medievalista, Ano 5, Nº 6, Julho de 2009, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um Estudo sobre a Inquisição de Lisboa. O Santo Ofício na Vila de Setúbal, 1536-1650. Raquel Patriarca. «O primeiro auto-da-fé tem lugar em Lisboa, a 20 de Setembro de 1540. Em 1541, é elaborado um primeiro regimento que procura regular o funcionamento deste tribunal»

jdact

O Contexto
A instalação do Tribunal do Santo Ofício
«(…) O primeiro sinal de ruptura entre a Inquisição (maldita) medieval e este novo modelo reflecte-se desde logo na nomeação dos inquisidores. Pela primeira vez, assistia-se ao estabelecimento de uma ligação formal entre a jurisdição eclesiástica e a jurisdição civil, pois a intervenção do príncipe na nomeação dos inquisidores alterava as relações de fidelidade desses agentes. São três os tribunais que então se instalam em Portugal: Lisboa, Coimbra e Évora, só mais tarde surgindo os de Tomar, Porto e Lamego, logo extintos. Durante os primeiros anos, até o tribunal do Santo Ofício se encontrar plenamente em exercício e até instituir amplamente o seu modus operandi, segue o modelo processual das fórmulas civis em vigência. Em 1537 e ligado aos processos julgados em Évora, é criado um Conselho Geral, ainda não permanente, nomeado pelo inquisidor-geral, cujas funções passam pelo tratamento e despacho dos apelos apresentados ao tribunal e pelo controlo do funcionamento do tribunal em si. Os inquisidores tinham o poder de combater e julgar todos os crimes de heresia ou superstição herética, nomear funcionários do tribunal e, se necessário, delegar poderes em pessoas com a formação e a capacidade necessárias. Podiam ainda requerer, sempre que preciso, a colaboração dos poderes seculares. É em Évora, ainda em 1536, que é publicada a bula e o primeiro edital estabelecendo o primeiro tempo de graça de um mês. Durante este período aqueles que se achassem culpados de delitos contra a fé, deveriam confessar-se obtendo assim o perdão para as suas culpas. Uma vez terminado o tempo de graça, terminava o tempo do perdão e os culpados seriam presos e processados. No fim do ano, o inquisidor-geral, frei Diogo Silva, faz saber que pertencem ao foro da Inquisição (maldita) os crimes de bigamia e feitiçaria, apresentando ainda um rol pormenorizado dos sintomas de judaísmo, luteranismo e maometismo.
Ao longo destes primeiros anos, a acção do tribunal inquisitorial foi alvo das determinações do monarca (é ele quem nomeia o inquisidor-geral, os bispos, etc.). Contudo, em 1539, ocupa a cadeira de inquisidor-geral o cardeal Henrique, irmão do rei, cargo que viria a ocupar até 1578, tendo a oportunidade de formar duas gerações de inquisidores e de reorganizar a hierarquia eclesiástica. Ele vai ser o homem forte da Inquisição (maldita) em Portugal, assumindo para a história a sua paternidade.
O primeiro auto-da-fé tem lugar em Lisboa, a 20 de Setembro de 1540. Em 1541, é elaborado um primeiro regimento que procura regular o funcionamento deste tribunal, mas este início de actividade é ainda marcado pelos avanços e recuos das negociações. À vontade decidida de João III, opunham-se as reticências do papa Paulo III, que alega numa das suas missivas: pera que nam peça Deus de nossas mãos o sangue de tantos mortos, nem demande a Vossa Alteza conta de tantas vidas. As negociações vão-se prolongando, com permanentes entradas e saídas de cena de novos intervenientes. Em 1544 é suspensa a execução de sentenças em Portugal por ordem do papa, só voltando a Inquisição (maldita) a entrar em funções em 1547, através da bula Meditatio cordis, onde o papa recomenda sempre o uso da clemência, a suspensão por um ano da entrega dos réus à justiça secular (pena de morte), a suspensão por dez anos do confisco dos bens aos réus, e a permissão, por um ano, de saída do país para os cristãos-novos». In Raquel Patriarca, Um Estudo sobre a Inquisição de Lisboa. O Santo Ofício na Vila de Setúbal, 1536-1650 Dissertação de Mestrado em História Moderna, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2002.

Cortesia da UPorto/JDACT

Um Estudo sobre a Inquisição de Lisboa. O Santo Ofício na Vila de Setúbal, 1536-1650. Raquel Patriarca. «… em que o diálogo vai agonizando até fracassar definitivamente em 1541, durante a Conferencia de Ratisbona, e em 1545-1563…»

jdact

O Contexto
A instalação do Tribunal do Santo Ofício
«(…) É verdade que já existe uma Inquisição Romana, dependente dos papas, que funciona ao longo de toda a Idade Média. Os bispos, detentores da autoridade eclesiástica, agem como guardiões da fé nas suas dioceses, procedem a Inquirições e dão julgamento aos delitos contra a religião. Mas o projecto de Manuel I é de outra natureza e tem outro alcance. O monarca Manuel I, ao pedir que o papa delegue em si competências que até então tinham sido do exclusivo foro eclesiástico e ao pedir para intervir em domínios que lhe eram teoricamente alheios, visava reforçar o seu poder em detrimento do poder papal, só assim se explicando que o papa resista o mais que pode. Em 1525, durante as Cortes de Torres Novas, reemergem as queixas e os protestos contra os cristãos-novos, apontando-os como responsáveis pela escassez de cereais e pela carestia e especulação daí resultantes. Volta também a já antiga acusação segundo a qual médicos e farmacêuticos cristãos-novos matavam deliberadamente os seus doentes cristãos-velhos, pelo que é pedido que lhes seja vedado o acesso a essas profissões e requerida a indagação da pureza de sangue. Pela mesma altura, dá-se o recrudescimento do Messianismo entre os conversos. A figura de David Rubeni, visionário que anuncia a chegada do tão esperado Messias, inflama os corações nas comunidades cristãs-novas, fazendo-lhes estalar por vezes o verniz de cristão fresco ao preludiar a vinda próxima do Messias e a renovação do reino de Judá. Em 1525, João III formula novo pedido de instalação da Inquisição (maldita) em Portugal, encetando-se assim um longo processo de negociações diplomáticas, entre Portugal e a Santa Sé. O desenrolar deste processo constitui uma morosa e complexa dança, na qual o monarca português e o papa vão valsando, mas não sozinhos. A cada compasso, temos por certo que delegações das comunidades cristãs-novas se movem junto da Santa Sé, com o intuito de lograr os objectivos da Coroa portuguesa.
O resultado deste processo, diz Bethencourt, não pode ser compreendido apenas através da análise da relação de forças estabelecidas entre os agentes régios e agentes dos cristãos-novos em Roma. Acerca das razões do monarca, Francisco Bethencourt afirma: a motivação mais profunda do rei dizia respeito à extensão da sua jurisdição numa área sensível, tradicionalmente controlada pelo papa. (…) Sem menosprezar as causas específicas, religiosas, sociais, do pedido de estabelecimento da Inquisição (maldita), decorrentes de pulsões arcaicas de tipo étnico, não podemos deixar de sublinhar que o pedido se insere numa estratégia de naturalização e estatização da Igreja, caracterizada pela intervenção crescente do poder régio na organização da hierarquia eclesiástica. Fazendo a análise na óptica da Igreja católica, Bethencourt aponta o contexto internacional como factor determinante. De um lado, no campo religioso, assiste-se ao movimento da Reforma protestante e à contra-reacção adoptada pela Igreja católica. Bethencourt fala-nos de um debate religioso que se estende pela Europa, em que o diálogo vai agonizando até fracassar definitivamente em 1541, durante a Conferencia de Ratisbona, e em 1545-1563, perante as determinações intransigentes de Roma resultantes do Concílio de Trento.
De outro lado, no campo geopolítico, (estando este aspecto intimamente associado ao anterior), assiste-se a uma alteração no que toca às relações de forças estabelecidas de longa data entre os estados europeus e a cúria romana. A própria Reforma, intensificada entre 1520 e 1540, vai minar o ascendente que a Igreja detinha diante do poder político. A afirmação da autonomia espiritual, desenvolvimento da política territorial e autoridade legitimadora dos soberanos, constituem prerrogativas que progressivamente perdem força. É perante a precariedade da posição do papa em relação à ruptura política e religiosa de uma parte da Europa Central e do Norte, que surgem as exigências do monarca português. Este, filho dilecto da cúria romana desde longa data, é um aliado constante e sólido e lidera um movimento expansionista que abre desde cedo grandes expectativas de missionação em novos continentes, alargando, por essa via, a influência da Igreja. A resposta chega sob a forma de três diplomas da cúria papal: em 1531, a bula Cum ad nihil magis; em 1536, o texto em que o papa estabelece em Portugal o tribunal do Santo Ofício da Inquisição (maldito), nomeia como primeiros inquisidores os Bispos de Coimbra, Lamego e Ceuta, a quem se juntaria um quarto inquisidor nomeado pelo monarca; e, em 1547, o documento que conclui o edifício jurídico iniciado anteriormente. Estava por fim em exercício, sem restrições, a fábrica destinada a depurar de heresias a nação contaminada». In Raquel Patriarca, Um Estudo sobre a Inquisição de Lisboa. O Santo Ofício na Vila de Setúbal, 1536-1650 Dissertação de Mestrado em História Moderna, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2002.

Cortesia da UPorto/JDACT

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Mataram Mariana. Álvaro Arranja. «… dirigida aos sectores mais desfavorecidos da sociedade, com promessas de melhoria das condições sociais. Foi a fase do bacalhau a pataco…»

jdact

«(…) Vivia-se o momento alto dessa aliança entre a plebe urbana de Lisboa e a elite do Partido Republicano que tornou possível a revolução. Usando a definição de Fernando Rosas, o bloco social e político do 5 de Outubro a esteio da Primeira República, estava no seu auge. O Governo Provisório da República tinha consciência das expectativas geradas no seio do operariado, por anos de propaganda anti-monárquica dirigida aos sectores mais desfavorecidos da sociedade, com promessas de melhoria das condições sociais. Foi a fase do bacalhau a pataco… Após o 5 de Outubro, os republicanos defrontam-se com a questão social, levantada sobretudo pelas inúmeras greves que eclodem. Logo a 24 de Outubro, declaram-se em greve os carroceiros de Lisboa e Setúbal (a carroça era ainda o principal meio de transporte de mercadorias). Segundo A Capital, os efeitos da greve fazem-se sentir com o comércio e a construção civil paralisados. Ainda segundo o mesmo jornal, estão 8000 carroceiros em greve. Poucos dias depois, mesmo nos últimos dias de Outubro, os fragateiros tomam idêntica iniciativa. Em 5 de Novembro são os ferroviários da linha da Póvoa. Outras greves surgem, como a dos eléctricos, as dos corticeiros, a dos estampadores, a do calçado, serração, operários da União Fabril, os marítimos e os gazomistas de Setúbal.
No dia 15, inicia-se uma greve na Carris. O Século, ao alto da primeira página, sob o título Operários que se Agitam, Lisboa Sem Carros Eléctricos, informa que os operários da fábrica geradora abandonam o trabalho e todo o pessoal da Companhia se declara em greve. Ainda na mesma notícia, é afirmado que em toda a cidade os eléctricos estacaram por falta de corrente. Os chauffeurs da Empresa de Automóveis de Aluguer de Lisboa (hoje taxistas) declaram-se em greve, no dia 24 de Novembro, tendo os proprietários sido convocados ao Governo Civil, para uma tentativa de mediação que não resultou. A 25 de Novembro são os ferroviários do Minho e do Douro, depois os caixeiros e os cortadores. Cerca de sessenta greves são declaradas entre o 5 de Outubro e o final do ano de 1910. Neste ano de 1910, segundo um inquérito oficial, havia em Portugal 119 sindicatos em actividade, com 23 237 membros. Lisboa tinha 33 sindicatos, com 7570 membros; o Porto 39 sindicatos, com 7645 membros, e o resto do País 47 sindicatos, com 8022 membros.
Tinha-se chegado a esta situação depois de uma década de lento declínio. Sobretudo desde 1906, quando o Governo de João Franco atiçou a oposição republicana, que a maior parte dos sindicatos tinha vindo a perder apoio, à medida que os trabalhadores se deixavam absorver pela perspectiva próxima da revolução. Em 1910, dos 4 sindicatos com mais de 100 membros (a Associação de Classe da Construção Civil do Porto, as A. C. dos Marítimos e dos Soldadores de Setúbal e a A. C. dos Operários Têxteis de Lisboa) só um tinha sede em Lisboa. Porém, a proclamação da República transformou esta situação. Na Primavera de 1911 já existiam 356 sindicatos em Portugal, a maioria dos quais haviam sido fundados ou reanimados depois de Outubro de 1910. A sua distribuição geográfica também se alterara claramente. A área mais forte era agora o Sul, isto é, os concelhos de Lisboa e Setúbal, o Alentejo e o Algarve, onde o PRP (Partido Republicano Português) fora mais popular durante a Monarquia. O Porto ficava com menos de metade dos sindicatos de Lisboa e os concelhos limítrofes com muito menos do que Almada, o Barreiro e o Seixal ou até Setúbal por si só». In Álvaro Arranja, Mataram Mariana, Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, Centro de Estudos Bocageanos, nº 14, Setúbal, 2011, ISBN 978-989-8361-05-9.

Cortesia CEB/JDACT

sábado, 31 de janeiro de 2015

No 31. Setúbal. Sebastião da Gama. «Também aqui a leitura me deixou uma impressão profunda, em sobriedade e despojamento. David Mourão-Ferreira proporcionou um momento mágico aos seus alunos ao comunicar, o corpo sonoro e a medida de cada palavra…»

telmamaodeferro
jdact

Elegia para uma gaivota
«Morreu no mar a gaivota mais esbelta,
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com os olhos.

Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas.
Agua salgada, benta de tantas mortes angustiosas' aspergiu-a.
E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.

Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado.
É finalmente sonho puro,
sonho que sonha finalmente, asa que dorme voos.

Cantos de pescadores, embalai-a!
Versos dos poetas, embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor das velas, embalaia!

Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,
tão misteriosamente, tão insistentemente,
sua presença morta em tudo se anuncia.

Ela vai, sereninha e muito branca.
E a sua morte simples e suavíssima
é a ordem-do-dia na praia e no mar alto».
Poema de Sebastião da Gama, in ‘Os Poemas da Minha Vida, VN Azeitão, 1924-1952’


JDACT

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Poesia. Samuel Dimas. Jazz. «Acontece os rios nascerem da terra! Acontece haver terras que nascem de rios e que a eles ficam ligadas, para sempre! Aconteceu a esta terra, enraizar-se nas margens do seu rio…»

Cortesia de wikipedia

Razão mistérica
a Leonardo Coimbra, filósofo do Mistério

«Os poemas dão a forma exacta
da alegria criadora da Origem
e os argumentos dão a presença vaga
da dor redentora da existência,
só na exuberância inventiva e imaculada
da graça
se reúnem em excelsa comunhão
o mundo espiritual e o mundo material
dessa babel de palavras.
Poesia e filosofia encontram-se
na tarefa sublime
de procurar o coração da realidade
e do alto da montanha
que o esforço reflexivo permitiu escalar
um rasto de luz espiritual
inunda a vida.
Calam-se as vozes intolerantes
da crítica e da ambição
e as almas
encantadas pela presença do Mistério
apontam para o destino glorioso do Paraíso.
Trata-se da audaciosa e humilde
preparação para o voo abismal da Morte
em que o brilho das flores é mais vivo e forte
e o cheiro do bosque mais intenso.
Na poesia
damos o salto imprudente
da alteridade imanente
das relações precárias e dolorosas
para a alteridade transcendente
das relações eternas e felizes.
A harmonia do Universo
conquista-se na liberdade criativa
da águia e do condor
e não na necessidade cronológica
da vida biológica e do movimento astral,
Porque as flores silvestres
que nascem dessa ordem natural
nunca sabem de que terra são
e de que cor se faz o festim
com os pássaros».
Poema de Samuel Dimas, in ‘Nova Águia’


JDACT

sábado, 6 de dezembro de 2014

Poesia. Sebastião da Gama. «Depois de mais aquela confissão, impuros nos achamos; nos descobrimos frutos do mesmo chão. Pecado, Amor? Pecado fora apenas não fazer do pecado a força que nos ligue e nos obrigue a lutar lado a lado»

jdact e wikipedia

Pelo sonho é que vamos
«Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos, não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos».

Os que vinham da dor
«Os que vinham da Dor tinham nos olhos
estampadas verdades crudelíssimas.
Tudo que era difícil era fácil
aos que vinham da Dor diretamente.

A flor só era bela na raiz,
o Mar só era belo nos naufrágios,
as mãos só eram belas se enrugadas,
aos olhos sabedores e vividos
dos que vinham da Dor diretamente.

Os que vinham da Dor diretamente
eram nobres de mais pra desprezar-vos,
Mar azul!, mãos de lírio!, lírios puros!
Mas nos seus olhos graves só cabiam
as verdades humanas crudelíssimas
que traziam da Dor diretamente».



Somos de barro
«Somos de barro. Iguais aos mais.
Ó alegria de sabê-lo!
(Correi, felizes lágrimas,
por sobre o seu cabelo!)

Depois de mais aquela confissão,
impuros nos achamos;
nos descobrimos
frutos do mesmo chão.

Pecado, Amor? Pecado fôra apenas
não fazer do pecado
a força que nos ligue e nos obrigue
a lutar lado a lado.

O meu orgulho assim é que nos quer.
Há de ser sempre nosso o pão, ser nossa a água.
Mas vencidas os ganham, vencedores,
nossa vergonha e nossa mágoa.

O nosso Amor, que história sem beleza,
se não fôra ascensão e queda e teimosia,
conquista... (E novamente queda e novamente
luta, ascensão... ) Ó meu amor, tão fria,

se nascêramos puros, nossa história!

Chora sobre o meu ombro. Confessamos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficamos».
Poemas de Sebastião da Gama, in ‘Antologia’

JDACT

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Bocage. Retratos. Fantasmas. Desencantos. Teresa Duarte Carvalho. «… como as Cantatas, as Epístolas, as Odes ou os Idílios, revelará, desde logo, uma tensão dialéctica entre a memória e o esquecimento, a traduzir o receio de ficar aquém do limiar da eternidade que tanto o atraía»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Não tremo de que os séculos me ultrajem:
lá (mercê do pincel, mercê do canto)
meu nome viverá, e a minha imagem».
In Bocage

«A erosão do Tempo conduz à morte. O retrato realiza, pelo seu poder mágico, uma luta contra a morte: ele traz, na ilusão dos volumes, nas sombras do rosto, nos contrastes da alma, na luz pessoal e nos seus sinais, dispersos pelos contornos, um tempo que sobrevive ao Tempo. A morte pode transformar-se, assim, numa cortina para além da qual os vivos do passado continuam a viver no presente. Manuel Maria Barbosa du Bocage parece ter acreditado, como poucos, na possibilidade de atravessar essa cortina. Os versos, dirigidos pelo poeta a um membro da maçonaria que havia composto um soneto na presença do retrato do Senhor Bocage, que muito [o] enterneceu, são disso um óbvio sinal. Com menor clareza, mas, ainda assim, suficiente para o leitor atento, se apresentam algumas composições em que a confiança no talento próprio e na imortalidade poética é notória. Refiro-me, concretamente, quer às composições em que, de forma directa, se dirige ao leitor vindouro (Incultas produções da mocidade / exponho a vossos olhos, ó leitores, soneto 5), quer àquelas que o pressupõem (Quer tristes, quer ditosos amadores, / hão-de falar de mim com dor e espanto). E muitas foram as vezes em que se lhe dirigiu: para fazer coincidir alguma produção poética com a voz da dependência, a que o obrigara a vida instável; para fundamentar certa falta de melodia, pois, em princípio, não pode cantar com melodia / um peito, de gemer cansado e rouco, (soneto 6). A verdade é que, muito embora Bocage parecesse acreditar que a sua imagem literária reunia atributos suficientes para viver depois da morte, e estava certo, uma leitura de superfície, quer da parcela mais conhecida da sua obra poética, os Sonetos, modalidade em que se revela dos mais perfeitos cultores, quer de outros pelouros menos conhecidos da sua escrita, como as Cantatas, as Epístolas, as Odes ou os Idílios, revelará, desde logo, uma tensão dialéctica entre a memória e o esquecimento, a traduzir o receio de ficar aquém do limiar da eternidade que tanto o atraía. Com efeito, de um lado, surge-nos um profuso leque de expressões que aponta claramente no sentido da imortalidade, a que aspira toda a grande criação literária: perpétua fama, grau sublime, nome permanente, padrões e estátuas, véu da eternidade, posteridade, imortal memória e até um Letes preguiçoso; do outro, as formas do apagamento e da morte: o esquecimento, negro e mudo; o Tempo, que gastará, que tudo gasta, como faz questão de sublinhar num idílio; os próprios letreiros da Morte! Oh lei do Fado! / É verdade, é verdade: acaba tudo (soneto 368).
A complexa personalidade poética de Bocage permitiu que, ao longo do tempo, dele se tivessem traçado múltiplos retratos. Começo justamente por aquele que, sendo falso, nunca é demais apresentar, para pôr de lado ou destruir, retrato pintado com tintas malévolas de gosto plebeu, que lhe mancharam a imagem e que sucessivas gerações se habituaram a fixar na parede lisa da comodidade. Nele sobressaem, mais que os olhos azuis ou o nariz alto no meio e não pequeno (soneto 1), uns lábios finos, pelo riso nunca unidos, donde brota um anedotário sem fim que não deixa fissura para a grandeza do seu amplo universo poético, tão marcado pelo lirismo. Sobre este retrato (que, decerto, poria rubras as magras maçãs do rosto do poeta sadino) não luz qualquer talento, traço de que se serviu, com acerto, para a si mesmo se retratar. Perante o perfil desenhado, Bocage repetiria talvez, pudesse ele, a pergunta que, num soneto, a si próprio fizera, ao ver-se envolvido nos braços de uma dama venal: Céus! Quem me reduziu a tal baixeza? (soneto 117). Dir-se-ia que foi a sua própria fama, mais difundida que a obra, excessiva fama que, de clima em clima, nas suas próprias palavras, bebidas em Ovídio, por cem bocas, alígera, semeia.
Houve quem, optando pela linha satírica, preferisse retratá-lo de corpo inteiro, com um pé mergulhado nos botequins das horas tardias da improvisação repentista e maldizente, outro no lodo, a que conduziu a baixa boémia. Na mesma linha, outros, mais fixados no rosto (que no retrato anterior, entretanto, se afundava), desalinharam-lhe irremediavelmente a cabeleira, carregaram demais no azul revolto dos olhos, para os fazer sair das órbitas, esquecidos dos sombreados, das horas de solidão amargamente vividas na residência fixa que a Inquisição (maldita) por duas vezes lhe impôs (das poucas que teve), da entrega ao trabalho disciplinado. Há perfis cujo desenho não se coaduna com suposições apressadas e que exigem o domínio do claro-escuro: Bocage não foi apenas o boémio improvisador, foi também o burilador dos seus versos, o estudioso da tradição clássica, o homem de vasta cultura humanística, tão presente na sua obra, o tradutor elogiado, até por Garrett. Com fundada razão, afirmou Hernâni Cidade que ele soube erguer do lodo os pés jamais nele presos, posto que, mais de uma vez, fundamente mergulhados». In Teresa Duarte Carvalho, Bocage, Retratos, Fantasmas, Desencantos, Revista Humanitas nº LXII, Universidade de Coimbra, 2010, ISSN 0871-1569.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

domingo, 23 de novembro de 2014

Mataram Mariana. Álvaro Arranja. «Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi, quando lutavam pela sua dignidade como operárias e como mulheres…»

jdact e arquivoamericoribeiro

«Quase nada sabemos sobre Mariana Torres e António Mendes, os dois operários mortos em 13 de Março de 1911, em Setúbal, pelas balas da recém-criada Guarda Republicana. Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi, quando lutavam pela sua dignidade como operárias e como mulheres, foram um acontecimento marcante para a relação entre a República e o operariado e a própria evolução histórica da 1ª República. Passados os momentos iniciais da natural euforia revolucionária, imediatamente posterior ao 5 de Outubro de 1910, o novo regime tem de encarar os problemas do país. O ano de 1911, vai ser preenchido por esse choque com a realidade de um país alheio aos grandes ventos da industrialização que sopram no centro e norte da Europa.
Dos vários problemas que se colocam ao novo regime, a situação social é o de mais difícil resolução. A República herda uma sociedade baseada numa desigualdade social profunda, com uma oligarquia económica pouco habituada a ver contestados os seus privilégios. As várias crises políticas e económicas do regime monárquico constitucional, não puseram em causa essa dominação. Do outro lado, nos sectores populares, o novo regime defensor dos princípios da liberdade e igualdade, era encarado como a possibilidade da melhoria das condições de vida extremamente penosas da maioria do povo. Uma esperança, quase messiânica, nas virtualidades da República, estava nas mentes de vastos sectores do operariado (sobretudo de Lisboa, margem sul do Tejo [margem esquerda do Tejo], Setúbal e Alentejo).
Afinal tinham sido eles a combater na Rotunda (mesmo quando muitos militares tinham batido em retirada), ou nas ruas de Setúbal, Almada, Moita ou Loures, no dia 4 de Outubro. Tinham sido eles a guardar os bancos, onde certamente não tinham nenhuma conta aberta. A República pertencia-lhes porque tinha sido conquistada com o seu sangue. Esse idílio entre o operariado e o novo regime republicano vai ser posto em causa, logo nos finais de 1910, com a questão da legislação referente ao direito de greve dos trabalhadores a ao lock-out patronal. Para o movimento operário organizado nas associações de classe, já então maioritariamente de tendência anarco-sindicalista, a legislação aprovada pelo Governo Provisório da República impõe limitações inaceitáveis aos direitos dos trabalhadores. Essa legislação passará à história com a qualificação de decreto-burla.
1911 verá o desencadear de vastos movimentos grevistas, amplamente secundados por esses mesmos operários que se tinham batido (por vezes de arma na mão) pela implantação do novo regime. A greve das conserveiras setubalenses é um momento decisivo dessa relação operariado-República, sobretudo após os fuzilamentos de Setúbal (como os designaram na imprensa da época) em Março de 1911. Seguiu-se uma paralisação geral do trabalho, convocada em Lisboa, de solidariedade com os operários setubalenses, momento em que se fala pela primeira vez em Portugal de uma Greve Geral. Desses momentos de viva conflitualidade social prestaremos particular atenção, para além da greve de Setúbal, à greve da União Fabril (a futura CUF) e à relação triangular Alfredo da Silva, República e operariado. Abordaremos igualmente o desenrolar do Congresso Sindicalista de 1911 e o debate sobre o direito à greve, travado na Assembleia Constituinte.

As greves após o 5 de Outubro
Em 5 de Outubro de 1910, a proclamação da República só foi possível mercê da contribuição activa que uma grande parte do operariado deu, não só à preparação do movimento, mas também à luta armada desencadeada contra as forças monárquicas. Se não se tivesse registado a intervenção do elemento popular, a República não haveria triunfado. A revolução republicana de 5 de Outubro viu burgueses a encomendar bombas e proletários a manejá-las. Nos dias seguintes à implantação da República assistiu-se em Lisboa a um acontecimento pouco habitual noutras revoluções, com dezenas de populares armados a fazer sentinela a bancos, rotos e famintos a guardarem os cofres abarrotados de libras». In Álvaro Arranja, Mataram Mariana, Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, Centro de Estudos Bocageanos, nº 14, Setúbal, 2011, ISBN 978-989-8361-05-9.

Cortesia CEB/JDACT

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Museu das Palavras. António Galrinho. «Era muito novo, mas o contacto regular que há alguns anos tinha com a livraria, e a aprendizagem feita com o meu tio, sobretudo nos períodos de férias escolares, facilitaram-me o começo»

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Tempo de Apresentar. Uma herança peculiar
«(…) E continuou: - Em tempos pensei fazer disto um pequeno museu de trabalhos de ferreiro, quando abandonasse o oficio, mas desisti da ideia. Mas olha que ficava aqui bem uma livraria!, que é uma espécie de museu das palavras, não é? Espantado com o discurso do velho ferreiro, logo nesse momento o meu tio decidiu qual seria o nome da livraria. Naqueles tempos, os imóveis antigos tinham pouco valor, mesmo os situados no centro da cidade, pois não havia a dinâmica comercial nem a procura que viria a surgir anos mais tarde, que muito os valorizaria. Sem recorrer a empréstimo nem a qualquer documento escrito, o meu avô pagou a loja em cinco anos, tal como combinado com o ferreiro. Para reforçar a ideia de um museu de palavras, o meu tio expôs uma máquina de escrever antiga sobre uma secretária, ao lado de pequenas pilhas de livros ainda mais antigos. Coisa curiosa era o facto de, regularmente, ele procurar nos dicionários uma palavra e escrevê-la com aquela máquina numa pequena cartolina. A palavra era escrita com maiúsculas vermelhas e sob ela o significado, a preto. Colocava uma dezena desses papelinhos na livraria, em pequenos expositores de madeira, inclinados. Cada dia substituía um. Os clientes olhavam-nos curiosos, olhavam e olham, pois eu continuo a fazer rodar as centenas de cartolinas que ele deixou guardadas na gaveta da secretaria, onde continuam. Agora já estão amarelas e começam a ter o cheiro próprio do papel antigo e muito mexido. Tornaram-se também peças de museu, e talvez também por isso suscitem a curiosidade dos clientes.
A planta da livraria tem a forma de um L, gordo, virado para baixo do lado de quem entra. A ponta do braço mais curto é um recanto à direita, por trás do volume ocupado pela escada que dá acesso ao andar de cima. Debaixo da escada está uma retrete minúscula, também a arrecadação dos apetrechos de limpeza. O tecto é atravessado por fortes e toscos barrotes, onde assenta o soalho que serve de chão ao andar de cima. No barrote do meio, mais volumoso do que os outros, permanece um gancho de ferro, com cerca de um palmo, a que o ferreiro dava uso no seu trabalho. Essas madeiras, escurecidas pelo tempo, jogam bem com as grandes pedras centenárias do chão, toscas, irregulares e polidas pelo uso, que o meu tio fez questão de preservar. A secretária com a máquina de escrever está encostada ao fundo, com a frente virada para quem entra. Ao seu lado, uma cadeira, também antiga, convida os clientes a nela se sentarem. Um balcão, com apenas cinco palmos de comprimento e um e meio de largura, está junto à entrada, com um topo formado no pequeno espaço de parede que existe entre a porta e a pequena janela-montra. Por trás está uma cadeira alta, onde me sento quando tenho necessidade de descansar as pernas ou para tratar de assuntos mais demorados que envolvam papeladas. Tudo o mais são estantes cheias, ao ponto de quase não deixarem ver as paredes por trás.
O meu tio mexia nos livros como quem faz festas a um gato: com jeito e carinho. Assim que retirava um da prateleira, soprava-o, para expulsar o pó acumulado sobre as folhas apertadas umas nas outras. Fazia isso mesmo que não houvesse pó. Passava com a mão na capa, olhava-a e só depois abria o livro, devagar. Livros de capa fina e com muitas páginas abria-os com os polegares fazendo pressão com os restantes dedos junto da lombada, para não lhe criar vincos. Outros, com capa dura e grandes páginas, abria-os completamente, passando com as mãos por elas como quem alisa um pequeno lençol. Não teve filhos. Casou com uma mulher que sofreu durante muitos anos de uma doença rara, que a foi secando até à morte, antes dos quarenta. E não voltou a casar. Morreu com sessenta e dois anos, num dia igual a tantos outros, caindo inanimado ao virar a primeira esquina depois de ter saído da livraria. Estava eu no último ano do curso, precisamente o mesmo que o meu tio tirara, quando ele morreu. Mal o terminei peguei no negócio. Era muito novo, mas o contacto regular que há alguns anos tinha com a livraria, e a aprendizagem feita com o meu tio, sobretudo nos períodos de férias escolares, facilitaram-me o começo. Apaixonei-me por livros muito cedo, e da paixão fiz profissão». In António Galrinho, O Museu das Palavras, Temas Originais, Setúbal, Livraria Uni-Verso, 2014, ISBN 978-989-688-216-7.

Cortesia de TOriginais/JDACT

sábado, 23 de agosto de 2014

Em Ferros d’El-Rei. Paulino Oliveira. «A sua obra é multímoda, espraiando-se por diversas áreas: o jornalismo, a poesia, a ênfase na recuperação de algumas personalidades de inequívoco mérito das letras nacionais, a pedagogia, a valorização dos 'ex-líbris' de Setúbal…»

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Prefácio
«(…) Em Setúbal, o seu quotidiano foi preenchido com o exercício da profissão, guarda-livros, o jornalismo e a divulgação dos princípios do republicanismo. Em 1893, por motivos políticos, conheceu as agruras do despedimento. Em Janeiro do ano seguinte, partiu para o Ambriz, Angola, em busca de um futuro mais risonho. O sonho africano foi obliterado, ao fim de alguns meses, pela doença. De regresso à sua terra natal, como recorda João Francisco Envia, foi industrial de colchoaria. Teve ainda oficina de mobiliário, instalada na Rua de Santo António, e estabelecimento de vendas, na Praça de Bocage, empregando numerosos operários. Mais tarde, fez parte dos quadros da fábrica de conservas Aurora, que pertencia a José Joaquim Fragoso.
No início da década de 90 do século XIX, o juiz João Baptista Castro veio exercer para Setúbal. Ficou nos anais da república portuguesa porque lhe coube assinar, em 1911, a directiva que estipulava a inclusão de Carolina Beatriz Ângelo nas listas de cidadãos que podiam exercer o seu voto para a eleição da Assembleia Constituinte. Esta tarefa ingente impunha-se porquanto era necessário erigir um regime estruturado e alternativo ao da monarquia, pouco antes derrubada. De acordo com a legislação promulgada pelo governo provisório, coordenado por Teófilo Braga, apenas os chefes de família podiam expressar nas urnas as suas opções políticas. Por ter enviuvado, aquela médica reivindicou essa prerrogativa, tornando-se a primeira mulher portuguesa a votar. Abra-se um parêntesis para recordar que, como é do domínio público, só em 1931, foi contemplado o direito de voto para as mulheres, desde que tivessem, no mínimo, o curso secundário completo.
O mencionado magistrado teve pelo menos dois filhos: o poeta e jurista Alberto Osório Castro, cuja obra está injustamente esquecida, e Ana de Castro Osório. A esta escritora muito deve a literatura, designadamente a infantil e a tradicional, a pedagogia, o movimento em prol do divórcio, a edição de obras de vulto e a propaganda republicana. A 10 de Março de 1898, casou-se, na freguesia da Anunciada, com Paulino Oliveira. A respectiva prole chegou pouco depois: João Osório Castro e José Osório Oliveira, nascidos em 1899 e em 1900. Ambos trilharam também a senda das letras, legando-nos uma extensa obra, nomeadamente o último.
Em 1908, Paulino Oliveira, vítima de perseguição política, foi forçado a demandar o exílio em terras brasileiras. O 5 de Outubro de 1910 constituiu um imperativo categórico para regressar ao país. Depois de uma experiência fugaz pelo jornalismo, foi nomeado, em Maio de 1911, cônsul em S. Paulo. A tuberculose, a doença da época, foi inexorável, tendo ali falecido a 13 de Março de 1914. Os seus restos mortais foram trasladados, em 1922, para um jazigo de família que se encontra no cemitério de Setúbal. A obra de Paulo Oliveira é multímoda, espraiando-se por diversas áreas: o jornalismo, a poesia, a ênfase na recuperação de algumas personalidades de inequívoco mérito das letras nacionais, a pedagogia, a valorização dos ex-líbris de Setúbal, bem como a afirmação e a divulgação dos princípios que enformavam o P.R.P., ou seja, o Partido Republicano Português.

O jornalismo
A actividade jornalística constituiu uma das paixões de Paulino Oliveira: estava em sincronia com a sua personalidade e o seu ideário. Dava-lhe, com efeito, a possibilidade de ensaiar os seus voos poéticos, de partilhar as suas crónicas, de manifestar as suas opções literárias, de intervir socialmente e de expressar os princípios do republicanismo, causa que abraçou com entusiasmo.
Na verdade, Paulino é um caso sui generis do jornalismo português. Foram da sua responsabilidade a fundação, edição ou redacção de sete periódicos:
  • A Estreia Literária, quinzenário literário e noticioso (1886), que, ao fim de 12 números, deu lugar à Semana Setubalense, folha independente, política, literária e noticiosa (1886-1887); 
  • A Opinião (9 Junho 1889-31 Agosto 1890); 
  • O Eco de Setúbal: semanário republicano (1893); 
  • O Mês: crónica da vida setubalense (Novembro 1894), que redigiu integralmente quando regressou de África; 
  • O Pregoeiro (1903); 
  • O Radical, na sequência do 5 de Outubro, em 1911, com o intuito de desmascarar os republicanos convertidos à última hora.
Tal como aconteceu com Ana de Castro Osório, a sua colaboração esporádica em jornais e revistas é extensa, sendo consequentemente árdua a respectiva inventariação integral. Recordemos alguns: Branco e Negro, O Perfume, Ave Azul, O Distrito, Gazeta Setubalense, O Elmano, Arrábida, Boémios, Comércio do Vez, Ilustração Portuguesa, Novo Aurora, A Crónica, A Pátria a Garrett, Sociedade Futuro, Garcia de Resende, Limiana e, postumamente, A Voz da Mocidade, Ideia Nova e Descobrimento».
In Paulino de Oliveira, Em Ferros d’El-Rei, Considerações acerca da minha prisão, Typ. Da Companhia Nacional Editora, Lisboa, 1893, Prefácio de Daniel Pires, Centro de Estudos Bocageanos, Setúbal, 2012, ISBN 978-972-8361-45-7.

Cortesia de CEBocageanos/JDACT

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O Museu das Palavras. António Galrinho. «Quando o meu tio terminou o curso fez uma proposta, por brincadeira, a um velho ferreiro. Ofereceu pela sua oficina uma quantia baixa, que não tinha, dizendo-lhe que queria fazer dali uma livraria. O velho respondeu: - Olha que esta pocilga até te ficaria bem entregue!»

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Tempo de Apresentar. Uma herança peculiar
«Sou proprietário de uma livraria situada na baixa de uma cidade com cerca de cem mil habitantes. A baixa é o centro histórico, antigo bairro medieval. Não me posso queixar da localização, pois a essa zona aflui ainda muita gente, por aí se concentrar uma parte significativa do comércio da cidade. Quase todas as ruas são pedonais, o que propicia um ambiente agradável a quem por lá se desloca. A concorrência também é pouca, já que apenas seis livrarias existem na cidade. Metade delas são uns cochichos, como a minha.
O surgimento de grandes superfícies comerciais nos arredores veio constranger muito do comércio tradicional. Várias lojas faliram, outras estão perto de falir. Em poucos anos a baixa deixou de ser aquilo que era. Cem mil pessoas são muita gente, mas poucas compram livros e menos ainda os leem. Resumindo: não é fácil sobreviver com esta actividade. Herdei a livraria do meu tio paterno. A memória mais antiga que tenho é um acontecimento passado nela, num dia em que lá fui com a minha mãe, que procurava um livro para oferecer. A certa altura, enquanto ela passava, atenta, os olhos pelas lombadas dos livros, o meu tio ajoelhou-se à minha frente, agarrou-me nos ombros e, com os olhos bem firmados nos meus, disse: - Ouve bem, Carolino! Quando aprenderes a ler, vê se ganhas gosto pelos livros! Fez uma pausa, que eu não interrompi, e continuou: - Quando cresceres, esta livraria fica para ti.
Ouvi isto sem mostrar espanto mas, lá no fundo, estranhava o facto de ele querer dar-me todos aqueles livros. Olhei para uma parede coberta por estantes com prateleiras cheias e pensei que nunca os conseguiria contar, quanto mais encontrar um livro que me pedissem. Já não consegui olhar para as outras paredes porque o meu tio pegou na minha mão e levou-me para o meio da rua. Virou-me para a fachada da livraria, que na altura me parecia enorme, e disse: - Olha aquelas letras! Fui eu que as mandei fazer a um ferreiro, assim mesmo, com aquele tamanho e aquele feitio. É o nome da livraria. Sem conhecer uma sequer, olhei atentamente as letras colocadas acima da porta e da janela, a toda a largura da fachada. Não tinha reparado nelas antes.
 - Vou-te contar a história do nome da livraria, E contou, só que, na altura, achei-a comprida e complicada e esqueci-a. Mas, o ano após ano, ouvi-o contá-la várias vezes. O meu tio, quinze anos mais velho do que o meu pai, foi a primeira pessoa da família a estudar numa universidade. Desde muito cedo mostrou uma inteligência e uma vontade de aprender muito além das comuns. Podia ter tirado qualquer curso em qualquer área, mas a paixão pelos livros levou-o a optar por Literatura.
O meu pai teve uma inclinação bem diferente, cursando engenharia eletroctécnica. Fez o curso contrariado, apenas para agradar ao meu avô, mas mal o terminou começou a trabalhar como electricista, aquilo que sempre quis ser. Sempre preferiu actividades em que pudesse usar mais as mãos. O meu avô, pescador com um modesto barco por sua conta, conseguiu fazer com que ambos os filhos estudassem, para não se sujeitarem à vida dura do mar.
Quando o meu tio terminou o curso fez uma proposta, por brincadeira, a um velho ferreiro. Ofereceu pela sua oficina uma quantia baixa, que não tinha, dizendo-lhe que queria fazer dali uma livraria. O velho respondeu: - Olha que esta pocilga até te ficaria bem entregue! Coisa que sempre me deu que pensar foi isso das letras em carreirinho a fazer palavras onde fica escrito o que a gente diz e pensa! Não as compreendo porque não as aprendi. Nunca pus os pés numa escola». In António Galrinho, O Museu das Palavras, Temas Originais, Setúbal, Livraria Uni-Verso, 2014, ISBN 978-989-688-216-7.

Cortesia de TOriginais/JDACT

domingo, 13 de julho de 2014

Sebastião da Gama. Sobre a Lenda da Arrábida. João Reis Ribeiro. «… uma pequena casa, em que permaneceu o resto da sua vida em hábito de ermitão, servindo a Senhora com todo o desvelo e tratando da dita ermida com sumo esmero e asseio. A Ermida da Memória localiza-se no designado Convento Velho»

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Sobre a lenda da Arrábida
«(…) Quando, cerca de meio século mais tarde, em 1638, frei António da Purificação relatou a história, dando a conhecer o mais antigo documento que refere Hildebrando, apresentou assim a personagem: tendo a embarcação de um mercador inglês que vinha para Lisboa sido acometida por tempestade, entre a tripulação … vinha um religioso da nossa Ordem Eremítica chamado Haildebran, que devia vir por capelão da nau ou de um fidalgo que ali vinha por nome D.Bartolomeu. Trazia este religioso consigo uma devota imagem da Mãe de Deus para socorro das suas necessidades. Depois, o cronista acompanha a história já contada por Gonzaga: quando o religioso foi orar junto da imagem, esta tinha desaparecido e o barco orientou-se para porto seguro por uma luz que, no dia seguinte, Hildebrando localizou como originária do sítio onde encontrou a sua imagem e onde, posteriormente, foi erigida uma ermida.
Por 1721, mais duas versões surgiram: uma, apresentada por frei Agostinho de Santa Maria (1642-1728), no seu Santuário Mariano, réplica do que narrou frei António da Purificação, seu antecessor na ordem agostinha; outra, do franciscano frei António da Piedade, na Crónica da Província da Arrábida, que refere que o navio em apuros foi transportado a um sítio chamado Alportuche, próximo da barra de Setúbal. Segundo este último cronista, depois do encontro da tripulação com a imagem, foi reconhecido que a Mãe de Deus tinha escolhido aquele lugar para sua habitação. Por este motivo, Haildebrant distribuiu pela sua tripulação todas as mercadorias que trazia para seu negócio, reservando para si algum dinheiro com o qual e no mesmo sítio onde foi encontrada a imagem, mandou edificar tanto uma ermida chamada da Memória, onde colocou a dita imagem, como junto à mesma ermida, uma pequena casa, em que permaneceu o resto da sua vida em hábito de ermitão, guardando suma pobreza e oração, servindo a Senhora com todo o desvelo e tratando da dita ermida com sumo esmero e asseio. A Ermida da Memória localiza-se no designado Convento Velho.

A Lenda Romanceada
A pedido dos festeiros do Círio de Setúbal, em 1896, Joaquim Rasteiro redigiu a Lenda da Arrábida, não se distanciando do essencial do que a tradição tinha prolongado, mas pincelando a tempestade com cores românticas e tumultuosas. Posteriormente, foi a vez de Arronches Junqueiro utilizar o pretexto da lenda da Arrábida para um dos seus poemas, em cerca de duas dezenas de estrofes, respeitando a tradição popular, mas também com o recurso a uma visão romântica da tempestade. Em 1988, o azeitonense Carlos Alberto Ferreira Júnior publicou o livro Lenda da Arrábida, em versão romanceada, aproveitando para ligar os nomes de algumas das personagens a alguns locais da Arrábida. Nesta leitura, aconteceu o naufrágio e o primeiro sobrevivente a pôr pé em terra foi o gajeiro, que se viu sobre as areias agarrado à imagem da Virgem. Cansado e acreditando que todos os companheiros tinham morrido, subiu a serra e depositou a imagem em lugar propício. Sentindo a solidão, desalentado, embrenhou-se na mata e, num lugar solitário, ficou para sempre guardada a história fantástica deste homem. O sítio passou a ser a Mata do Solitário. No entanto, houve outros sobreviventes, entre os quais Hildebrando e Abraão, estando mesmo a imaginar-se que este último, ao ter construído uma cruz que ergueu no monte, deu origem à designação de Monte Abraão. Apesar de Carlos Alberto registar, na introdução ao livro, que jamais podia esquecer a alta figura do velho couteiro da Arrábida a contar com voz pousada aos peregrinos a trágica odisseia de Hildebrando, o certo é que este, tal como os outros autores, deram à lenda as cores de que mais gostaram. Ou, como deixou registado o pároco azeitonense Manuel Frango Sousa, puseram na lenda os seus sentimentos e o que gostariam que tivesse acontecido se tivessem sido actores desse acontecimento.

O Poema de Sebastião da Gama
O poema Lenda de Nossa Senhora da Arrábida, de Sebastião da Gama, que agora se publica, constitui uma das peças do seu espólio até aqui inédita. Manuscrito datado de 9 de Janeiro de 1942, tem o número 183 no conjunto de poemas sob o título de Saudosas Recordações que o poeta coligiu. Contém dedicatória a Eugénia Rodrigues, cunhada, e é assinado por Tarro, o pseudónimo que utilizou em poemas para amigos, mas que nunca divulgou em publicação. O texto conta a história do naufrágio de Hildebrando e do aparecimento da imagem de Nossa Senhora pela voz de um narrador que promete relatar o sucedido, sem um ponto lhe aumentar, o que parece ser contraditório quando se trata de uma lenda... Mas o poeta e narrador sente-se desde início fascinado pela beleza da história e vai avançando na acção, ao mesmo tempo que se deixa inundar pelo quadro do temporal, com chamadas de atenção para o leitor, num quase diálogo, para os momentos mais mágicos ou mais trágicos que tecem a narrativa. O ritmo do poema acelera quando passa pelos momentos alusivos à Natureza da mesma maneira que surpreende quando evoca o espanto, o pasmo, dos marujos, que o leitor é convocado a sentir. Poema de fé é este que Sebastião da Gama compôs. No final, o homem surge repleto de uma paz interior, só possível porque nunca lhe faltou a confiança num Deus próximo». In João Reis Ribeiro

In Sebastião da Gama, Lenda de Nª. Srª. da Arrábida, Associação Cultural Sebastião da Arrábida, nos 90 anos de Sebastião da Gama, 2014.

Cortesia da ACSdaGama/JDACT