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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Ao ter conhecimento disto, o rei Alfonso II de Nápoles, que subira ao trono apenas no ano anterior, decidiu abdicar e entrar para um mosteiro»

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«(…) Guicciardini descreveu de modo sucinto o desprezo dos italianos pelo rei francês: não só lhe faltava conhecimento das artes, como também mal sabia ler e escrever. Sentia ganância pela governação, mas ela bastante incapaz na sua prática, porque se deixava influenciar continuamente. Um homem assim mostrou ser seduzido com facilidade por toda a ostentação ancestral sofisticada exibida por Alexandre VI. Quando Carlos VIII se ajoelhou com a intenção de beijar os pés do papa, Alexandre VI ajudou-o graciosamente a levantar-se. Ainda assim, o papa foi obrigado a fazer algumas cedências. Quando Carlos VIII partiu para Nápoles com o seu exército, a 28 de Janeiro de 1495, insistiu em que o cardeal César Bórgia cavalgasse a seu lado, como companheiro amigável (e refém), junto com uma coluna de 19 mulas que transportavam tesouros e ricas tapeçarias. Dois dias depois, o exército francês chegou a Velletri, onde o rei e o seu companheiro de viagem deveriam ser os convidados do bispo local, que não era outro senão o cardeal Giuliano della Rovere. Esta teria sido de facto uma humilhação para o jovem e orgulhoso cardeal Bórgia, que não suportava o mais pequeno insulto pessoal. No entanto, este não chegaria a sê-lo. De acordo com o mestre de cerimónias de Alexandre VI, Johannes Burchard, no dia 30 de Janeiro soube-se que o cardeal César Bórgia tinha iludido o controlo do rei francês e fugira de Velletri disfarçado de palafreneiro das cavalariças reais, e que viajara tão veloz que nessa noite já dormiu em Roma. No dia seguinte, esgueirou-se discretamente da cidade ao nascer do dia. Para cúmulo, Bórgia conseguiu também que metade da coluna de mulas que carregava o tesouro fosse roubada, enquanto as caixas transportadas pelas restantes mulas foram encontradas vazias.
Quando Carlos VIII compreendeu que fora enganado, teve uma fúria e gritou: estes italianos são todos uns canalhas nojentos e o pior deles é o seu Santo Padre! O cardeal Bórgia manteve-se escondido na fortaleza da família em Spoleto durante dois meses, antes de se arriscar a voltar a Roma. No entanto, dias depois de regressar, daria a conhecer a sua presença de maneira bem característica. Um destacamento de soldados suíços que ocupavam Roma em nome de Carlos VIII foi atacado com violência na Praça de São Pedro por várias centenas de espanhóis fortemente armados; no decurso da peleja que se seguiu, foram assassinados 24 suíços e muitos mais conseguiram escapar com ferimentos graves. César Bórgia não era homem para esquecer um insulto: tinham sido soldados suíços os que saquearam a casa da sua mãe e lhe roubaram o dinheiro.
Entretanto, após saírem de Velletri, Carlos VIII e o seu exército continuaram em direcção a Nápoles. Ao ter conhecimento disto, o rei Alfonso II de Nápoles, que subira ao trono apenas no ano anterior, decidiu abdicar e entrar para um mosteiro; pouco depois, o novo rei, o seu filho Ferrante II, fugiu por mar para a Sicília. No dia 22 de Fevereiro, Carlos VIII e o exército francês entraram triunfantemente em Nápoles e logo se instalaram como em casa própria. Várias fontes referem o grande apetite sexual de Carlos VIII e o seu entusiasmo pelas mulheres de Nápoles. Diz-se que teria um livro com esboços dos retratos das preferidas, que ele folheava, salivando ao imaginar os seus favores. Outras confirmam a sua obsessão com as relações sexuais, mas alegam que insistia na novidade e nunca estava com a mesma mulher duas vezes». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

Da Vinci. Maquiavel. Bórgia. Paul Strathern. «As suas aptidões de pintor sempre inovadoras atingiram o seu auge e, na sua busca incansável da originalidade, escolheu uma abordagem inteiramente nova para a pintura de frescos»

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O Mundo que eles Criaram. Uma Constelação Única
«(…) Igualmente espantosos eram alguns dos engenhos militares que Leonardo continuava a esboçar nos seus cadernos de apontamentos: tais como um grande morteiro móvel que dispara pedras como se fosse uma saraivada e um veículo blindado semelhante a um tanque com a forma de um cone achatado, acompanhado por um desenho da sua parte inferior demonstrando como funcionava a sua roda dentada. Estes desenhos estavam bastante à frente do seu tempo: só três séculos mais tarde é que um veículo militar blindado com semelhanças assinaláveis seria experimentado na Guerra Civil Americana. É pouco provável que estes desenhos tenham passado efectivamente à prática, mas experiências recentes demonstraram que a maioria deles funcionaria. Uma excepção assinalável era o carro blindado, cujo motor de rodas dentadas fora concebido de tal maneira que impulsionaria as rodas da frente e as de trás em sentidos opostos. É um erro tão elementar que pode muito bem ter sido cometido de propósito, para que qualquer ladrão inexperiente que tentasse construir sozinho um destes veículos não o conseguisse fazer. Por outro lado, este erro pode muito bem ter ficado a dever-se às desconfianças iniciais de Leonardo acerca deste tipo de trabalho. Apesar da sua crescente mestria na concepção de armas de guerra, ao longo de toda a sua vida manteve-se sigilosamente (isto é, nos seus cadernos de apontamentos) contrário à crueldade dos homens (...) que estarão sempre a lutar uns com os outros, infligindo as maiores perdas e morte frequente a ambos os lados.
Numa linha semelhante, Leonardo desenhou diques para controlar os canais que irrigavam as planícies férteis dos arredores de Milão, mas concebeu também um método para deixar uma inundação de água solta sobre um exército e pontes e muralhas de cidades. Estes planos podem muito bem ter sido inspirados pela inundação do Arno que testemunhou na juventude. Ao mesmo tempo, talvez para conter qualquer futura inundação do Arno, esboçou um mapa com um plano destinado a desviar o rio das proximidades de Florença para um canal que levaria directamente à costa, dando à cidade uma via navegável para o mar. Dadas todas estas preocupações, não é de surpreender que Leonardo tivesse pouco tempo para a pintura. De facto, durante os 17 anos que viveu em Milão, apenas completou seis obras, embora entre elas se contassem algumas das melhores que saíram do seu pincel, a mais notável seria A Última Ceia. Este mural, pintado no refeitório do mosteiro dominicano de Santa Maria delle Grazie, em Milão, revela Leonardo no seu melhor.
As suas aptidões de pintor sempre inovadoras atingiram o seu auge e, na sua busca incansável da originalidade, escolheu uma abordagem inteiramente nova para a pintura de frescos. Uma descrição em primeira mão feita pelo jovem Matteo Bandello, à altura noviço no mosteiro, mostra o sofrimento imenso por que Leonardo passou para concluir esta obra: chegava bem cedo, subia para o andaime e começava a trabalhar. Por vezes, ficava ali desde o nascer do dia até ao pôr do Sol, sem pousar uma única vez o pincel, esquecendo-se de comer e beber, pintando sem cessar. Noutras ocasiões, passava dois, três ou quatro dias sem pegar no pincel, mas ficando uma ou duas horas por dia de pé frente à obra, de braços cruzados, analisando e avaliando as figuras mentalmente. Também o vi, levado por algum ímpeto súbito, sair da Corte Vecchia ao meio-dia, quando o calor do Sol estava no seu máximo, sem procurar as sombras (...) e vir direito a Santa Maria delle Grazie, subir para o andaime, pegar no pincel, dar uma ou duas pinceladas, e ir-se embora de novo.
Cada rosto, cada feição, cada posição e gesto dos 12 apóstolos sentados à mesa com Cristo foram o resultado de uma profunda meditação artística. Cada figura é individual, inspirada em alguém que lhe chamara a atenção e que, de forma disfarçada, esboçara no caderno de apontamentos que trazia pendurado no cinto. Ainda assim, cada figura é reconhecível tanto psicológica como simbolicamente, desde o céptico Tomás com o seu dedo predestinado erguido, até ao afetacdo intelectual Lucas, todos fechados dentro das rígidas formas geométricas do cenáculo, cuja perspectiva conduz permanentemente os olhos para a figura central de Cristo, e depois permite que eles percorrem cada fila de discípulos que gesticulam, criando uma cena teatral repleta de presciência». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

Da Vinci. Maquiavel. Bórgia. Paul Strathern. «Ludovico escolheu como amante uma jovem de 14 anos, inteligente e atraente, Cecilia Gallerani, e uma das primeiras encomendas importantes feitas por Ludovico…»

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O Mundo que eles Criaram. Uma Constelação Única
«(…) Leonardo passaria 17 anos em Milão, e este seria o período mais feliz e produtivo da sua vida. Embora tivesse demorado algum tempo até ser levado à presença de Ludovico Sforza, ficou de boa vontade na cidade, aceitando inicialmente encomendas em conjunto com os artistas florentinos irmãos De Predis. Leonardo apreciava a atmosfera comercial mais descarada e mais vibrante da Milão setentrional e enublada, depois daquela estufa do snobismo e da alta cultura de Florença. E foi aqui que ele arranjou um ajudante de dez anos, a quem deu a alcunha de Salai (traquina), cujos modos irreprimíveis e beleza de adolescente a desabrochar acabariam por cativar o coração do seu mestre. Leonardo comprava belas roupas para Salai, que lhe retribuía roubando-lhe o dinheiro da bolsa. Os cadernos de apontamentos de Leonardo ficaram cheios de referências a este pequeno demónio, a este mafarrico; a dada altura, exasperado, descreve-o mesmo como ladrão, mentiroso, obstinado, ganancioso, mas no entanto, ao mesmo tempo, os desenhos afectuosos que faz de Salai retratam um jovem cativante de uma beleza excepcional.
De maneira muito diferente, Leonardo sentiu-se também atraído pelo poderoso Ludovico Sforza, mais velho do que ele apenas um ano. Ludovico, conhecido como Il Moro (o Mouro) devido à sua pele escura, foi descrito pelo grande historiador suíço do Renascimento Jacob Burckhardt como o tipo perfeito de tirano, aludindo à mão firme com que governava Milão e ao seu desejo de transformar a capital do ducado numa cidade do Renascimento. Retratos de Ludovico mostram-no como uma figura bastante rechonchuda, quase sonolenta, mas esta interpretação é desmentida pelos seus actos, que revelam um homem complexo, enigmático. Quando o seu irmão mais velho, o duque Galeazzo Maria, foi assassinado em 1494, o ducado passaria para as mãos do filho do duque, Gian Galeazzo, então com oito anos, mas Il Moro usurpou o lugar do jovem sobrinho e assumiu o poder como regente, governando de forma secreta a partir do extenso e muralhado Castello Sforzesco, cuja silhueta sombria dominava a linha do horizonte do norte da cidade.
Ludovico escolheu como amante uma jovem de 14 anos, inteligente e atraente, Cecilia Gallerani, e uma das primeiras encomendas importantes feitas por Ludovico a Leonardo foi um retrato da jovem. Nele, Cecilia aparece senhora de si e casta na sua beleza, segurando ao colo um arminho branco, símbolo da pureza. No entanto, a maneira como os seus dedos compridos assentam na pele do animal, acariciando-o, provoca um frémito de sugestão erótica. Depois de estar sexualmente fascinado por Cecilia, Ludovico amou-a, e este retrato reflecte com subtileza a nova posição da jovem na sua vida, como Ludovico teria sem dúvida desejado. Leonardo estabeleceu como é evidente uma relação com Ludovico, mas não tinha quaisquer ilusões acerca do seu senhor, comentando no seu caderno de apontamentos, de maneira invulgarmente direta: a justiça do Mouro é tão negra como a sua pele. Quando Leonardo começou a trabalhar para Ludovico, mudou-se para um apartamento na Corte Vecchia (Corte Velha). Foi aí que o jovem herdeiro legítimo, Gian Galeazzo, esteve de início sob prisão domiciliária, mas naquele momento já havia sido transferido para uma residência fora de Milão, e o palácio estava vazio a maior parte do tempo. O apartamento de Leonardo dava para um dos grandes pátios interiores orlados de pórticos e ele tinha também à sua disposição, como atelier, o vasto antigo salão de baile.
Leonardo começou por ser contratado para produzir entretenimentos para Ludovico e a sua corte. Tocava para eles no seu alaúde de prata, dava recitais de canto, escrevia adivinhas e contava histórias. Para os grandes cortejos, fornecia artefactos engenhosos destinados a surpreender e deliciar Ludovico e os seus convidados, tais como estátuas de gelo, uma complexa mascarada com planetas em movimento e espetaculares exibições de fogo de artifício». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «A vida havia-os separado. Vettori vive uma vida prestigiada, cortesã, despreocupada, lamentando apenas a ociosidade e o ter de autoconter-se na sua postura que, não fossem as conveniências»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Para que os de Medici saibam que, nada o ligando aos conjurados, a execução destes não lhe afecta sequer a consciência, faz-lhes chegar às mãos aquele verso cínico: vadin in buona ora. Sofrido o cárcere, eis uma natureza que a privação da liberdade moldara e que se vai refinar agora, lançado ao desprezo, o ócio dando-lhe oportunidade, os áureos tempos antigos apontando-lhe o horizonte, o imaginário de grandeza passada tornando-o paradigma do cinismo na acção, a mofa uma forma de mentir com a verdade, de confundir o mal que aconselha com a maldade de que parece mero observador. Tudo surge a seu tempo. De homem de acção transforma-se em pensador, sendo a maioria dos seus escritos anteriores relatórios das actividades diplomáticas. Publicara, é certo, o que poderia passar por poesia pura, as suas primeiras Decenais, sob o título de Nicolai Maclavelli florentini compendium rerum decennio in Italia gestarum, 183 tercetos escritos em quinze dias, obra que era uma narrativa laudatória dos acontecimentos vividos entre 1494 e 1504, estando o autor ao serviço do governo de Soderini e do seu projecto de Ordinanza fiorentina.
O mundo mudara. A política que servira não o quer. A pena é a sua companhia, a necessidade a sua única virtude. Ante a tragédia, o sorriso. Há que escrever, mas, a anteceder qualquer outra escrita. a que permita viver. É pela necessidade que, logo no dia 13, escreve ao seu amigo Francesco Vettori (nasceu em 1474 e faleceu em 1139, sendo mais novo do que Maquiavel. Conheceram-se no quadro da actividade diplomática de ambos e tornaram-se amigos; trocaram uma longa série de epísto1as, sobretudo a partir do momento em que o secretário caiu em desgraça; A leitura deste epistolário permite reconstruir o perfil psicológico e o ambiente histórico em que o nosso autor viveu; cartas de aparência severa e grave, elas escondem, como diria Maquiavel numa delas, escrita a 31 de Janeiro de 1515, duas criaturas que, tal como a natureza, são variadas na essência do seu ser), designado, desde 30 de Dezembro de 1512, embaixador (oratore) da República junto da Cúria, em Roma, rogando-lhe que interceda por si e pelo irmão Totto.
A vida havia-os separado. Vettori vive uma vida prestigiada, cortesã, despreocupada, lamentando apenas a ociosidade e o ter de autoconter-se na sua postura que, não fossem as conveniências, seria libertina e irresponsável; Machiavelli conhece agora a penúria, o confinamento, a luta pelo pão, a ausência dos círculos onde se morrera e de meios para gozar a boa vida, em breve estará retirado para a pobreza rural, local onde tenta, escondendo a sua diminuída pessoa, salvar-se do desdém com que outros o possam olhar. A carta é um acto de contrição, um lamento, uma forma submissa de pedir. Maquiavel promete ser mais cauteloso e espera que os tempos novos sejam mais liberais e menos suspeitosos. Roga que o irmão seja colocado entre os familiares do papa de Medici e com isso beneficiado. Para si próprio suplica que o sumo pontífice, ou os seus, o possam aproveitar em qualche cose. A humildade no estender da mão mostra a que ponto a necessidade já enfraquece o orgulho. Escreve de novo, cinco dias volvidos, ao seu amigo Magnifice Orator, respondendo à missiva que, entretanto, recebera daquele a quem rogara ajuda e que, cauteloso, se mostra parco em prometer (a carta de Francesco é um exemplo acabado de refinada subtileza ante o infortúnio que não pode socorrer. Por um lado anima-o, por outro distancia-se; Maquiavel, inteligente e habituado ao género, deve ter compreendido a indisponibilidade do amigo e a hostilidade do meio em que este se movia, mas responde, considerando a carta gratíssima, e amorosa, e, num assomo de dignidade, deixa claro que viverá como puder, com os poucos meios de que dispõe).
Sem possibilidade de subsistir na cidade, jogando na prudência de não espicaçar a sorte, Maquiavel retira-se para a sua modesta propriedade em Sant’Andrea, localidade de La Strada, na Percussina, junto a San Casciano in Val di Pesa, na Toscana, enfrentando a paz agreste do exílio. Dali escreve, a 9 de Abril, uma nova carta a Francesco, a qual assina, contristado, como Niccolò Machiavelli, quondam Secret, (outrora secretário). É um Maquiavel desalentado, que se conformou com não desejar coisa alguma com paixão, mas que tenta, com afectuosa cortesia, não se mostrar excessivamente decaído na sua desgraçada fortuna». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

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sábado, 23 de julho de 2016

Da Vinci. Maquiavel. Bórgia. Paul Strathern. «Dois anos mais tarde, Lourenço, o Magnífico, concebeu uma reaproximação difícil com o poderoso papa e, para cimentar essa reaproximação, enviou a Roma alguns destacados artistas florentinos para decorarem a capela»

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Uma Constelação Única
«(…) Por esta altura, a relação entre Leonardo e Lourenço, o Magnífico, e o seu círculo tinha-se esfriado um pouco. Muito simplesmente, Leonardo não se enquadrava no brilhante e privilegiado grupo de intelectuais que se reunia no Palazzo Medici. A erudição humanista de todos eles, a sua capacidade de falar latim (e até grego), o seu comportamento sofisticado, tudo isto excluía do seu meio o rapaz de Vinci, pouco instruído, que falava com sotaque do campo e que se mostrava mais interessado em desenhar máquinas estranhas e animais, enquanto eles compunham poemas espirituosos para as festas extravagantes que Lourenço organizava para manter a populaça feliz e acalmar qualquer ressentimento anti-Medici. No entanto, este método de cortejar a popularidade não foi inteiramente bem-sucedido, e, em 1478, Florença foi palco de um tumultuoso acontecimento: Lourenço, o Magnífico, escapou por pouco a uma tentativa de assassínio apoiada pela poderosa família Pazzi, que contou com o apoio encoberto do papa Sisto IV em Roma. Quando a conspiração fracassou, Florença mergulhou na agitação, com a populaça a entregar-se a actos de violência para encontrar os conspiradores. Maquiavel, que na altura era um rapaz de nove anos, recordou mais tarde estes acontecimentos nas suas Histórias Florentinas, descrevendo o destino dos conspiradores: fugiram aterrorizados e procuraram esconder-se; mas, quando foram encontrados, foram mortos e os seus corpos arrastados pelas ruas, em desonra. Outros conspiradores, apanhados no primeiro andar do Palazzo della Signoria, a residência oficial do conselho governativo, foram abatidos de imediato ou atirados vivos pelas altas janelas do palácio. Leonardo testemunhou também estes acontecimentos e, quando um dos conspiradores, que conseguira fugir, foi trazido de volta a Florença um ano depois e enforcado publicamente, Leonardo desenharia um esboço dele suspenso na extremidade da corda. Estes acontecimentos tiveram com certeza algum efeito em Leonardo, mas, ao seu estilo característico, os seus cadernos de apontamentos não lhes fazem qualquer menção além desta referência indirecta.
Dois anos mais tarde, Lourenço, o Magnífico, concebeu uma reaproximação difícil com o poderoso papa e, para cimentar essa reaproximação, enviou a Roma alguns destacados artistas florentinos para decorarem a capela recém-construída por Sisto IV e que se tornaria conhecida como Capela Sistina. Significativamente, Leonardo não estava entre os pintores escolhidos para esta missão diplomática. Tinha começado a desenvolver uma característica inquietante: apesar do brilhantismo inquestionável da sua pintura, sentia cada vez mais dificuldade em terminar as obras que lhe eram encomendadas. Isso devia-se em parte ao facto de os seus interesses terem começado a desviar-se para outras áreas: para os estudos científicos da natureza, desenhos de projectos cada vez mais engenhosos, planos de máquinas militares, e assim por diante. Esta incapacidade de terminar os quadros também tem sido atribuída às suas ideias artísticas sempre em evolução, que muitas vezes o impediam de alcançar uma visão uniforme numa única obra. Ao mesmo tempo, tem também todas as marcas de algum bloqueio psicológico pouco claro. Provavelmente como resultado das encomendas inacabadas de Leonardo (e patronos cada vez mais irritados), Lourenço mandou-o em 1482 numa missão a Milão: entregar, e fazer uma demonstração ao seu governante Ludovico Sforza, uma magnífica lira de prata que Leonardo tinha produzido com a forma de cabeça de cavalo.
Como é evidente, Leonardo viu aqui uma oportunidade para deixar Florença com carácter mais permanente, e escreveu a Ludovico Sfotza enunciando-lhe as suas competências como engenheiro civil e militar. Foi mesmo ao ponto de sugerir que lhe fosse confiada a tarefa de fundir a enorme estátua equestre de bronze que Ludovico desejava erguer em honra de seu pai, o grande condottiere (caudilho) Francesco Sforza, que tinha conquistado Milão e fundado a dinastia que governava naquele momento a cidade». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

domingo, 3 de abril de 2016

Da Vinci. O Mundo que eles Criaram. Paul Strathern. «Atrás dela, um rio profundo, tranquilo, afasta-se em direção a colinas distantes e enevoadas. O mais impressionante de tudo é a pele transparente do rosto da mulher»

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Uma Constelação Única
«(…) Em Abril de 1476, Leonardo foi denunciado, com mais três homens, numa nota anónima enviada às autoridades alegando que ele praticara actos de sodomia com um jovem de nome Jacopo Saltarelli. Em consequência, Leonardo foi formalmente acusado, e quase de certeza passou algum tempo na cadeia, antes de ser libertado para ser julgado daí a dois meses. As acusações acabaram por ser retiradas, depois de uma palavra de Lourenço, o Magnífico, às autoridades. A acusação contra Leonardo parece ter sido congeminada por alguma das famílias poderosas que se opunham ao governo de Medici, numa tentativa para desacreditar Lourenço e o seu círculo. Foi um episódio profundamente humilhante, no entanto, o único indício que temos dos sentimentos de Leonardo é enviesado e engenhoso, no seu estilo bem característico. Entre os seus desenhos deste período, conta-se o esboço de uma das suas primeiras invenções, o desenho de um dispositivo para tirar dos gonzos pelo lado de dentro uma porta da prisão, um desenho poderoso e elaborado de forma meticulosa.
Só podemos imaginá-lo na sua roupa elegante mas toda suja, sentado na escuridão da sua cela e no meio da palha malcheirosa e infestada de bicharada, a montar penosamente na sua mente uma máquina que lhe teria permitido fugir. Florença pode ter sido o epicentro inicial do Renascimento, mas as pequenas ondas dos seus efeitos começavam já a espalhar-se para bem longe, além do mundo da arte, da literatura e da filosofia, e à invadir a geometria, a astronomia, a exploração e até a tecnologia. Porém, também aqui se mantinha o elemento poético que caracteriza muito do empreendimento do Renascimento. Algum tempo depois de 1480, Leonardo conheceu e começou a estudar com o astrónomo e geógrafo Paolo Toscanelli, sobre quem Poliziano escreveu num Poema em latim: Paulus cruza a terra com os pés e o céu estrelado com a mente, ambos mortais e imortais em simultâneo. Anteriormente, em 1474, Toscanelli desenhara um mapa-múndi em forma de globo, indicando que um navio que navegasse em direcção a ocidente acabaria por chegar à Índia. O mapa de Toscanelli inspiraria Colombo a tentar esta viagem. Leonardo adquiriria também um destes mapas e, anos mais tarde, inclui-lo-ia nos seus pertences mais estimados, referindo-se-lhe no seu caderno de apontamentos como o meu mapa-múndi que está em poder de Giovanni Benci.
Em 1477, Leonardo, então com 24 anos, tinha deixado o atelier de Verrocchio para criar o seu. A influência de Lourenço, o Magnífico, permitiu certamente ao jovem artista receber algumas encomendas importantes, particularmente o seu Retrato de Ginevra de Benci, a primeira obra em que ele começa a demonstrar uma visão original. Este quadro inclui umas quantas novidades impressionantes: a pessoa que está sentada olha, impassível, para fora do retrato, e a paisagem que lhe serve de fundo é ao mesmo tempo realista e psicologicamente metafórica. A cabeça está encerrada na folhagem escura e espinhosa de um zimbro, árvore que, no italiano da época, se designava como ginépro ou genévre, um trocadilho à volta do nome da mulher, assim como uma insinuação subtil quanto ao seu carácter. Atrás dela, um rio profundo, tranquilo, afasta-se em direção a colinas distantes e enevoadas. O mais impressionante de tudo é a pele transparente do rosto da mulher e a sua expressão enigmática de pálpebras semicerradas, sugerindo uma personalidade melancólica, obstinada. É muito mais do que o retrato de uma mulher jovem e bela: é uma análise profunda do seu carácter». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

quarta-feira, 16 de março de 2016

Interpretações. O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «… a demonstração do que sente quando pensa, é o modo como se refere ao momento em que o carrasco leva para a morte os seus companheiros de infortúnio»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Preso por ter traído os de Medici, Maquiavel vai ver os seus tormentos terem fim, paradoxalmente, ironia do destino, por causa do aumento de poder da poderosa família dos Palleschi, nome que lhes adveio por causa das bolas que ornam a sua cota de armas, símbolo heráldico dos seus: com a aproximação da Primavera, a 12 de Março do ano de 1513, a cidade comemora a eleição de mais um papa, mais um de Medici, Giovanni, segundo filho de Lorenzo, o Magnífico, que ascende com o nome de Leão X, substituindo Júlio II no trono de São Pedro.
A cidade entra em festa para celebrar o evento, um autêntico carnaval vive-se por cinco dias nas ruas, nas casas e nos palácios, muitos no sonho delirante da paz perpétua, outros pelo simples gozo venal do contentamento pagão. Os Florentinos imaginam já as benesses que podem cair-lhes do céu com um papa a que podem chamar seu. As prisões abrem entretanto as portas, a velha superstição de que dar liberdade liberta. Maquiavel é solto. Salvo da má fortuna, este homem sabe que os corredores do poder, de que fora funcionário, estão para trás. Expulso da cena palaciana, resta-lhe, por cautela, retirar-se. Mas não desiste. Servir os grandes, tornando-se-lhes útil, é, afinal, a sua biografia. Usa, para tanto, a única força que tem ao seu dispor, escrever, e a única forma como o sabe fazer, a ironia.
Ainda na cadeia, Maquiavel não baixara o nível da esperança. Estudiosos da sua controversa vida situam dois sonetos, uma canção (Se avessi arco) e um Capítulo Pastoral, como tendo sido escritos naquelas adversas condições carcetárias, na ânsia de obter a graça do Magnífico Giuliano, irmão do papa. Textos inesperados, eles são a melhor demonstração de uma ambígua personalidade em que, naquele ambiente de incerteza, diminuído pelo medo, minado pelo sofrimento, não o abandona o riso de altivez que o aproxima, aos olhos de tantos, do velhaco calculista e do lisonjeador interesseiro. A poesia, com a sua capacidade de concentrar em imagens conceitos extensos, é, por ventura, o melhor autorretrato da sua pessoa. E o que escreveu sobre a sua condição de preso, o que deixou sobre a execução de Boscoli e Capponi, é a demonstração do que sente quando pensa, é o modo como se refere ao momento em que o carrasco leva para a morte os seus companheiros de infortúnio». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Interpretações. O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «Ausente de casa, as autoridades tinham lançado editais ameaçando com pena de confisco e por rebelião os que, sabendo onde ele estivesse, não o denunciassem em uma hora e conseguiram assim…»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Maquiavel conhece o terreno que pisa e tenta seguir os seus próprios conselhos, serve-se da lisonja, essa perfídia dos fracos. É por isso que, astuto, mesmo já apeado e com a desgraça a bater-lhe à porta, tenta manifestar o seu obsequioso respeito pelos novos senhores, manifestar a esperança abonatória em que a quietíssima cidade pudesse continuar a viver tão honrada agora que era governada por estes magníficos de Medici, como sucedera quando fora governada pelo antecessor dos novos senhores, o excelente Lorenzo, falecido em 1492. Só que é tempo de perseguição e nem a adulação lhe vale como escudo ou como espada. No dia 10, o secretário fica a saber que lhe é proibido ausentar-se do domínio florentino e que fora condenado a uma multa de mil florins; uma semana depois, a17, é vedada durante um ano a sua entrada no Palazzo Vecchio, onde servira; até 10 de Dezembro sofre ainda uma ignominiosa investigação ao modo como administrara o dinheiro destinado ao pagamento da milícia florentina. A justiça sempre gostou de se mostrar forte com os fortes enfraquecidos.
Inicia-se assim um tempo de exílio, que virá a agravar-se no ano seguinte: as ideias deste homem irão castigá-lo através da penitência física, pela dor e pela privação. Aquilo que havia sido a hipocrisia ao serviço da vida diplomática e da manutenção da sua carreira, como servidor dos interesses de Sua Senhoria, tornar-se-á razão e sistema, a vida sofrida, mestra. Uma conjura, em que são dados como envolvidos Agostino di Luca Capponi, Pietro Paolo Boscoli, Niccolò Valori e Giovanni Folchi, move-se contra os de Medici, o assassínio do cardeal Giovanne pensado pelo bando como um meio cristão de livrar a cidade do que consideram ser um dos fundamentos da tirania.
As autoridades descobrem-na e o nome de Maquiavel é encontrado numa lista que um dos presos supostamente teria perdido. À demissão, à fixação de residência, à condenação em multa, segue-se agora a prisão.
Ausente de casa, as autoridades tinham lançado editais ameaçando com pena de confisco e por rebelião os que, sabendo  onde ele estivesse, não o denunciassem em uma hora e conseguiram assim, pelo medo, que não pela recompensa, deitar-lhe a mão. Tudo se lhe muda do dia para a noite. Perdido o conforto das antecâmaras do poder, segue-se agora o sofrimento da cadeia e, com ela, vinte e dois dias de cárcere e de tortura, dias horrendos, de ferros e correntes, passado pelas cordas várias vezes, temendo pela própria vida, como escreveu a 26 de Junho, numa carta ao sobrinho, o mercador Giovanni Vernacci, filho de sua irmã Primavera, na altura comerciante em Istambul. Pietro Boscoli e Agostino Capponi são condenados, pelos Otto (di Guardia), à morte por decapitação, sofrida a 23 de Fevereiro. Da sua cela, as pernas atadas, Maquiavel segue-lhes os últimos momentos, os cânticos fúnebres, intui o golpe de machado que arrancou a cabeça a Pietro, as duas machadadas que foram necessárias para a separar do corpo do infeliz Agostino, como se a vida quisesse demonstrar, simbolicamente, aos seus ineptos carrascos, quanto essa incapacidade de o matarem era sintoma de uma inocência que até ao fim proclamara.
Incerta a sua responsabilidade, Maquiavel continua preso e é sujeito a tortura para que confesse. Sofre o suplício de seis tratos de corda, o polé, içado e solto em queda livre, quase a pontos de se desmembrar, as costelas se lhe rasgarem, a dor o fazer vergar, dizendo assim a verdade ou a mentira, qualquer coisa que satisfizesse, enfim, os juízes, sossegando-lhes a consciência punitiva pré-formada. Porém, resiste, ironizando com a miserável condição em que se encontra, loca infecta, a que ele por ironia chama, num verso entretanto escrito, a poesia como companheira, o sì delicato ostello». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Interpretações no 31. O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «… que foi, e é, um dos maiores escritores da literatura italiana, e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra ‘é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos’…»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Envolto num ambiente de contenda, Maquiavel acabou por ficar atado ao pelourinho da infâmia, as suas ideias, tanto no linguajar popular como na conceitualização erudita, associadas a uma acepção pecaminosa, simbolizando a palavra maquiavélico a urdidura do enredo enganador, a vileza da traição aleivosa, a perfídia desapiedada, em suma, o principado da amoralidade, em resumo, o(a) diabólico(a). Papini, que tem o condão de resumir grandes reflexões em pequenas frases, sintetizou: … Maquiavel ficou com fama de porco por causa de La Mandragola e de canalha por causa de O Príncipe. E, no entanto, poder-se-á dizer, como escreveu Sena, que ...ele foi, antes de mais, um patriota italiano e um estadista angustiado por ver a sua Itália dividida em principados, repúblicas, estados papais, e territórios de potências estrangeiras? Poder-se-á dizer, acompanhando de novo Jorge de Sena, um engenheiro a quem a literatura tanto deve, que foi, e é, um dos maiores escritores da literatura italiana, e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos de todas as épocas? Talvez, ou nem tanto. Eis do que se trata: de amar, odiar ou compreender este livro. Lê-lo não basta. Ele pode ser um produto do riso irónico sobre os poderosos ou o fruto de uma raiva contida sobre as suas vítimas. Manual de política ou novela alegórica? Vejamos pois, começando pelo seu autor, aproximando-nos do momento em que o escreveu.

Escrever para parecer vivo
Estamos no dia 7 de Novembro de 1512, em Florença. O secretário da Segunda Chancelaria, cumulativamente secretário dos Dieci di Libertà, organismo incumbido da defesa da cidade, Niccolò Machiavegli, como assinava então, é informado pela Senhoria de que perdeu os seus lugares, estando deles exonerado, sendo substituído por um também Niccolò, mas Michelozzi, de quem não reza hoje a História. Mudara o regime que governava a cidade, os de Medici haviam regressado em força, depois de dezoito anos de exílio. Piero Soderini, o gonfaloniere vitalício, (o governo de Florença era então confiado bimestralmente a nove cidadãos eleitos com o título de gonfaloniere, gonfaloneiro em português; Piero Soderini (1452-1522) sê-lo-ia por designação vitalícia, mas o seu mandato acabou por durar apenas oito anos) cabeça da ordem política agora caída, vira ser-lhe retirado, num primeiro momento, essa perenidade do cargo, para ser depois substituído por Giovan Battista Ridolfi. A sua tibieza, a incapacidade de lidar com os graves problemas do seu tempo, o facto de ter consentido a realização do concílio cismático de Pisa, evento animado pelo rei Luís XII de França e que levou à queda do papa Júlio II, foram a causa da sua desgraça. Niccolò, considerado um mannerino do deposto, um instrumento da sua política, teria de seguir-lhe os passos.
A estrutura do mando é profundamente alterada. Tanto Maquiavel como o seu dilecto coadjuctor, Biagio Buonaccorsi, sabem que a sua posição está em causa. Aqueles que haviam servido estão apeados. Para o autor de O Príncipe nasce aqui a grande lição de vida, a confirmação do essencial da sua filosofia, o que faz dele, séculos volvidos, o mestre observador da arte da política: a bondade, a generosidade, a tibieza, o escrúpulo moral são, na política, instrumentos inúteis. Comentando, em um dos seus Discorsi, o comportamento daquele seu senhor agora caído, censura-lhe a paciência e a bondade de alma e, sobretudo, o ter seguido os humores da multidão, preterindo os conselhos dos homens sábios, franqueando as portas aos seus adversários; ao não ter tomado as medidas extraordinárias que a situação exigia, perdera a pátria, o Estado e a sua própria reputação. O regime que servira caíra ante a sua incapacidade de fazer mal: eis, nesta apologia do mal instrumental, neste desprezo pela inocência do bem absoluto, nesta ênfase do conselho da aristocracia dos sábios, neste relegar dos humores da multidão, a estrutura resumida do que pensava Maquiavel sobre o modo como deve agir o político, para que possa conseguir sucesso, no meio hostil em que tem de sobreviver». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Da Vinci. Maquiavel. Bórgia. O Mundo que eles Criaram. Paul Strathern. «… em tradução italiana, o autor romano do século I a.C. Lucrécio, cujo poema épico “De Rerum Natura” (Sobre a natureza das coisas) procurava explicar o mundo em termos científicos»

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Uma Constelação Única
«(…) O pai de Leonardo, Ser Piero, terá quase de certeza visitado o pai, Antonio Vinci, e o seu irmão Francesco na propriedade dos Da Vinci em encontros familiares nos dias festivos e durante as férias do verão. E terá certamente levado consigo a sua jovem esposa, Albiera, com quem se casara em Florença, tal como terá levado a sua segunda esposa, Francesca, com quem se casou depois da morte de Albiera. Nenhuma destas mulheres teve filhos. Leonardo pode ter sido uma criança solitária sem mãe, mas parece que o seu bom aspecto e a sua habilidade precoce para o desenho terão encantado as duas madrastas. Desde o início, ele ostentou a autoconfiança de quem está habituado a ser o centro das atenções, de um rapaz que cresceu a sentir o amor feminino cheio de adoração e que nada questiona. O facto de estas duas madrastas extremosas terem morrido quando Leonardo era ainda jovem causou-lhe sem dúvida mágoa e pode ter contribuído para o autodomínio retraído que ele começava a evidenciar.
Por volta de meados de 1460, no início da adolescência, Leonardo foi viver para Florença, onde o seu excepcional talento para o desenho lhe valeu ser aceite como aprendiz no atelier do eminente artista Andrea del Verrocchio. Aí, Leonardo aprenderia a desenhar, a pintar, anatomia, escultura e desenho arquitectónico. Isto conduziu-o a novos campos, alargando ainda mais a sua capacidade intelectual. O desenho levá-lo-ia ao estudo da perspectiva, o que o fez interessar-se pela geometria; e a anatomia a estudar cuidadosamente o funcionamento dos engenhos mecânicos; a arquitetura levá-lo-ia ao estudo das proporções aritméticas, o que, por sua vez, o incentivaria a aprender a harmonia na música. A sua curiosidade intelectual associada à falta de uma instrução formal impeliu-o para uma busca incessante de um novo conhecimento. Este era um conhecimento que ele fazia questão de adquirir à sua própria maneira: não a partir dos livros (a maioria dos quais estava escrita em latim, língua que ele não compreendia), mas sim a partir da experiência; não de maneira sistemática, mas como e quando surgia a oportunidade adequada. Começou a anotar as coisas em cadernos de apontamentos, sem uma ordem geral nem de importância, tal como faria ao longo de toda a vida. Não havia um plano abrangente que fosse além do puro impulso inicial, que Leonardo seguia com força e deslumbramento infantis na direcção que ele lhe impunha. No entanto, esta aquisição de conhecimento não se fazia sem uma aprendizagem livresca. Foi por volta desta época que ele começou a ler, em tradução italiana, o autor romano do século I a.C. Lucrécio, cujo poema épico De Rerum Natura (Sobre a natureza das coisas) procurava explicar o mundo em termos científicos. Embora as investigações de Leonardo possam ter parecido casuais, elas foram cada vez mais orientadas por uma visão global, uma consistente visão empírica do mundo, e isso provavelmente ele foi buscar a Lucrécio.
Muitos dos melhores artistas de Florença reuniam-se no atelier de Verrocchio, incluindo Botticelli, o pintor preferido de Lourenço, o Magnífico, chefe da poderosa família Medici, que governava Florença. A magnificência, de Lourenço estendia-se a muitas áreas. Como governante, fez de Florença uma grande cidade; a sua valentia nos torneios era lendária; era um dos mais talentosos poetas do seu tempo, e o círculo social que ele reunia no Palazzo Medici, na Via Larga, incluía os melhores poetas, artistas, filósofos e eruditos. Entre eles contavam-se o poeta Angelo Poliziano, o filósofo Giovanni Pico della Mirandola e o erudito em Platão Marsilio Ficino, todos eles figuras excepcionais do Renascimento a que se assistia em Florença.
De modo inevitável, não passou muito tempo sem que o belo e talentoso Leonardo da Vinci chamasse a atenção de Lourenço, o Magnífico. Era mais um jovem poderoso por quem Leonardo se sentiu atraído, e em breve este era considerado parte do círculo de artistas, filósofos e poetas de Lourenço. No decorrer dos seus estudos musicais, Leonardo tinha aprendido a tocar lira e desenvolvido uma voz excepcionalmente harmoniosa para o canto, com a qual entretinha agora Lourenço e os seus amigos. Esta ligação pessoal com o governante da cidade traria graves consequências para Leonardo. Em parte numa afirmação deliberada das suas aptidões excepcionais, e em parte numa compensação exibicionista para a sua condição de filho ilegítimo, Leonardo tornara-se uma espécie de dandy. Alto e belo, impunha a sua figura caminhando pelas ruas de Florença nas suas botas de macia pele de Córdova que lhe chegavam ao meio da coxa, o cabelo comprido caindo em caracóis por sobre os ombros da túnica curta cor-de-rosa, exalando ao passar um aroma a água de rosas». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

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sábado, 6 de junho de 2015

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «Ainda em 1913, ao enfrentar o pensamento positivista que ameaçava agora fazer escola nas cátedras e na prática judiciária, apelando em seu socorro para o valor ético do direito natural, um modesto estudo»

jdact

Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Mas mais: é que há quem esqueça, ou por sistema pareça não querer lembrar, que se Maquiavel não escreveu O Príncipe exactamente ao mesmo tempo (a questão da cronologia nas obras de Maquiavel é controversa e a da articulação destas duas obras ainda o é mais; a tese tradicional, segundo a qual a partir de 1513 Maquiavel se teria desdobrado na escrita de ambas, terminando os Discorsi em 1519, encontra hoje cada vez menor apoio, apesar de Gilbert, em 1953, ter sustentado que pudesse ter existido um tratado sobre as repúblicas escrito por Maquiavel anteriormente à redacção de O Príncipe, pois no início do segundo capítulo desta obra refere que sobre as repúblicas não falará aqui pois que já discorri demoradamente numa outra vez; mais recentemente, uma outra teoria tentou, acentuando o caráter incompleto e fragmentário dos Discorsi, demonstrar que a sua preexistência relativamente a O Príncipe não exclui que Maquiavel, após a sua redacção, não tivesse continuado a trabalhar naqueles, uma vez que não parece curial que a menção com que se inaugura o referido capítulo II fosse ao texto dos Discorsi tal como o conhecemos actualmente; mais, as condições de penúria em que Maquiavel escreveu O Príncipe e o carácter instrumental da obra como tentativa de obter apoio dos de Medici são pouco compatíveis com a ideia de que ele se afadigasse, com ou sem Lívio, com um belo tratado sobre as repúblicas) em que foi redigindo os seus Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, obra dedicada ao estudo da República romana, parecendo inseguro que tenha interrompido um livro para continuar o outro, a verdade é que é o pai dos dois tomos, nos quais discorre respectivamente sobre principados e sobre repúblicas: claro que o antimaquiavelismo tosco só sobrevive pelo eclipse desta dualidade e pela crucificação de Niccolò Machiavelli à sua obra politicamente incorreta, como agora passou a ser moda dizer-se, e, assim, quase obnubila os Discorsi para focar, como se do seu cérebro perverso só tivesse saído ruindade, O Príncipe.
Além disso, Maquiavel entrou no panorama editorial português pela porta errada. Logo no princípio tudo lhe correu mal. Livro proibido desde o final do século em que surgiu, antes de ser conhecida a sua obra foram conhecidas as dos seus críticos: a censura dá liberdade aos detractores, garantindo-lhes a impunidade de não permitir que outros aquilatem directamente o que eles vituperam. O antimaquiavelismo teve, assim, o beneplácito do imprimatur que a Maquiavel foi negado. Quando finalmente O Príncipe foi dado à estampa, traduzido por Francisco Morais e editado em Coimbra, pela Atlântida, em 1935,viria antecedido com um comprometedor artigo de Mussolini a servir de introdução, precisamente Benito Mussolini, o Ducce da Itália fascista. Não haveria pior chaga a marcá-lo, para a posteridade, de gafa intelectual.
A obra seria recolhida das bibliografias oficiais e lançadas as hostes do pensamento de raiz católica no seu encalço. O estudo de Vergílio Taborda, difundido em 1939, com a II Guerra Mundial no seu alvor e as sombras nazi-fascistas a ocuparem o seu espaço vital na cultura europeia, é disso concludente exemplo. Mas não ficaria por aí a forte corrente contra as suas ideias. Também no campus do jurídico se travaria estrénua pugna, que passou dos corredores das elites do pensamento para o combate de rua, ao nível mesmo das insignificantes publicações. Ainda em 1913, ao enfrentar o pensamento positivista que ameaçava agora fazer escola nas cátedras e na prática judiciária, apelando em seu socorro para o valor ético do direito natural, um modesto estudo, oferecido pelo autor aos alunos do Colégio de João de Deus, no Porto, ante os dias sombrios que vivemos, lembrava que Maquiavel fez aquilo que nos nossos dias estava reservado ao positivismo jurídico: interessou-se apenas pelo direito positivo, pelo direito observável e apreensível em certo momento e em determinado lugar, relegando para o campo da moral tudo o mais que existe no mundo normativo. Ignorou portanto o verdadeiro sentido ontológico do direito que visa a realização da Justiça. Escreveu-o Manuel José Carvalho Martins Almeida». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Tradução de Maria Jorge Figueiredo. «… a ‘baixeza moral’ dos que traduziram em falta de dignidade o pensamento daquele que teve “a coragem de colocar a política no plano de uma filosofia de acção, independentemente dos ditames e da autoridade de qualquer poder constituído…»

jdact e wikipedia

Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Ciente da impossibilidade de abarcar esta labiríntica literatura, em que já florescem estudos sobre os estudos maquiavelistas, coube-me, por gentileza do editor, o pesado encargo de escrever umas linhas de apresentação de O Príncipe. Ao fazê-lo, tive de convencer-me de duas coisas. Primeira, eue Niccolò Machiavelli não é coutada privativa de historiadores ou de cientistas políticos, que são a grande multidão que dele se ocupa, pois a multiplicidade do seu ser e o polimorfismo do seu pensamento tornam-no um espelho da própria vida. Há uma frase de Giovanni Papini que resume tudo: acusar Maquiavel é acusar o próprio espelho, o mesmo é dizer, nele está a totalidade de todos nós e cada um em alguma particularidade do seu ser. Segunda, que, tendo sido dito tanto e, sobretudo, tanto contra Maquiavel, era tempo de lê-lo e ousar dizer, como se pela primeira vez: a cada um o seu Maquiavel, pois todo o homem é livre de se rever no Maquiavel que haja em si e nos outros que o cercam, sendo a vida o combate com o demónio que possui o irrequietismo de cada criatura. Devo ao acaso da leirura de um pequeno texto, de Henrique Barrilaro Ruas (cito o seu pequeno artigo sobre maquiavelismo publicado na Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, volume 18, 1999; nele, Ruas resume o seu pensamento quanto à distinção que julga dever ser feita também em relação a Karl Marx entre o teorético e o doutrinário; Maquiavel foi vítima de uma cilada que ele próprio montou; já Veríssimo Serrão anotara, ao prefaciar a obra de Martim Albuquerque, Foi voga desde o século XVI citar Nicolau Maquiavel e abusar do seu nome e mensagem para explicar situações que nada têm de maquiavelismo. As correntes ideológicas levaram à deficiente aplicação desse conceito, criando uma perigosa vizinhança com interpretações que não promanam da fonte autêntica de Maquiavel), ter-me sido possível levar os olhos um pouco mais alto do que a vulgaridade com que entendia a obra que agora apresento e ter sido capaz de compreender a necessidade ou conveniência científica de distinguir e destacar o maquiavelista [...] do maquiavélico. Foi por aí que comecei o meu estudo.
Sem isso seria mais um que faria à obra a injustiça de tomar partido. Como Maquiavel põe na boca de Calímaco, na sua notável peça de teatro La Mandragola: uma coisa gera outra e o tempo gera todas. No momento em que escrevo sinto o conforto de saber que muito se evoluiu na percepção e na avaliação deste controverso autor e haver assim espaço para outras visões pessoais que não tenham de se inserir nas trincheiras onde se tem travado o combate ideológico em torno da interpretação e aplicação de O Príncipe. O aprofundado conhecimento da integralidade da sua obra, não apenas dos escritos políticos, mas os do comediógrafo, do poeta, do simples escritor de cartas, a contextualização da mesma na época do Renascimento que a ditou, e tudo quanto tal significa de ruptura com a visão teocêntrica da vida e do homem, a ponderação da situação política que lhe foi dado viver, a ânsia da unificação de uma Itália pulverizada, traumatizada por sonhos de glória passada, enfim, um levantamento biográfico exaustivo sobre a triste misantropia e a gaia ironia da sua conturbada vida, tudo isso permite uma nova visão, mais abrangente e, sobretudo, mais enriquecedora porque mais realista. Há hoje, no fluir contínuo do pensamento e do sentir, que são a fonte da inteligibilidade de todas as coisas, ao lado de um revisionismo salvador do pior que se retirou de maquiavélico do maquiavelismo, parte do processo histórico de branqueamento dos horrores da História e da malignidade filosófica, um esforço bravo de libertar a filosofia da ideologia, o pensamento dos preconceitos, compreender sobretudo o que ditou a perenidade multissecular deste pequeno livro.
Como disse, vibrante, Jorge de Sena, num estudo vindo a público em 1963, do que se trata ao estudar Maquiavel é da condenação das hipocrisias dos moralismos e dos legalismos, simultaneamente com o amoralismo total, as grandezas e misérias do poder político, em suma, a baixeza moral dos que traduziram em falta de dignidade o pensamento daquele que teve a coragem de colocar a política no plano de uma filosofia de acção, independentemente dos ditames e da autoridade de qualquer poder constituído, religioso ou não». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução a partir do original de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 18 de janeiro de 2015

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Tradução de Maria Jorge Figueiredo. «… amado ou odiado, ele teve o condão de, ‘secula seculorum’, não deixar ninguém indiferente e muitos tomaram partido em seu favor. Croce considera-o um homem de uma austera e dolorosa consciência moral, Ridolfi acha-o um cristão especial»

Cortesia de wikipedia

Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Mas foi no campo da política que a obra sofreu as mais diversas interpretações e serviu para legitimar as mais distintas ideologias: caucionou tiranias e foi tida como expoente de democracia, apontada como exemplo de realismo político e como manifesto de resistência amarga de uma vítima do poder. O marxista Antonio Gramsci (1891- 1937) leu apreciativamente o livro na frieza do cárcere, o fascista Benito Amilcare Andrea Mussolini (1383-1945) citou-o, como exemplo, nos seus histriónicos discursos. O Príncipe é, pois, uma excelente demonstração de que no devir da História cada coisa contém em si própria o ridículo do seu contrário. Antonio Gramsci, Note sul Machiavelli sulla Politica e sullo Stato Moderno, 1971. A visão apreciativa de O Príncipe havia sido considerada criminosa na União Soviética; Lev Kamenev (1883-1936) traduziu em 1934 o livro para russo, citando-o como um precursor das análises de Marx, Engels, Lenine e Estaline. Tal ousadia e outras afins custar-lhe-iam a vida, acusado em 22 de Agosto de 1936 por Andrei Vyshinsky, o procurador soviético, aquando do seu julgamento no quadro das grandes purgas estalinistas. … que os cães enraivecidos sejam mortos a tiro!, pediu Vyshinsky nas suas alegações finais! E foram. Livro herético, ele moveu, logo desde o século XVI, uma cruzada antimaquiavelista, que levantou pendão nos campos de batalha do pensamento filosófico, histórico, político e ético, mobilizando forças para o enfrentar, como se contra o próprio Demónio se travasse esse combate. Curiosamente, parte substancial dessa peleja passou por Portugal como uma decorrência do mandato ingente da propagação do império através da fé.
Espanha e Portugal colocam-se desde a primeira hora em oposição política a O Príncipe, escreveu, em 1939, Vergílio Taborda, professor da Faculdade de Letras de Coimbra (… falecido com pouco mais de trinta anos, Vergílio Taborda escreveu, ainda como estudante, um estudo intitulado Maquiavel e Antimaquiavel, que a editora Atlântida editaria em 1939 e que mereceria uma nota prévia de Francisco Morais, Manuel Lopes d'Almeida e Paulo Quintela. Citando como seu mestre Gonçalves Cerejeira, cardeal-patriarca desde 1929, e que é um dos mais lídimos pensadores da doutrina católica, Taborda regista que desde a segunda parte do século XVI e por todo o século XVII os contraditores de Maquiavel são aqui legião, da rosa dos ventos do saber: teólogos, canonistas, filósofos, políticos, juristas, diplomatas, clérigos, laicos, nobres e plebeus), quatro anos depois de ter surgido, pela mesma editora, a primeira versão do livro em língua portuguesa. E porquê? Porque, escreve Taborda, defendendo a cidadela da fé em todos os campos, a Península não deixaria de fazê-Lo também no da política. O maquiavelismo era a expressão máxima da política nova, realista e pagã: combatendo-a, as nações peninsulares não se afastavam do caminho que se haviam proposto percorrer. Eis, encontrada no espírito do seu tempo, a bandeira intemporal de um exército que ainda hoje se não desbaratou e cuja linha da frente é encabeçada pela defesa da moral religiosa enquanto conceito ético do poder justo, contra a visão pessimista da realidade humana, contra a política de força, a política de dissimulação e de perfídia.
No ano passado (2007), Martim Albuquerque, um historiador de pensamento filosófico conservador e de inspiração religiosa, dedicado à história das ideias políticas, publicou um livro em que defende a tese segundo a qual o pensamento maquiavélico, eis como o trata, é incompatível com o que chama a ética tradicional portuguesa, a mesma que, segundo ele, criou a figura do fidalgo, seu antagonista e da sua moral prática. O livro amplia um outro, escrito em 1973 e publicado em 1974 pelo Instituto Histórico Infante Dom Henrique, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que se inspirara num trabalho sobre o mesmo tema e, curiosamente, com o mesmo título escrito por Mário Albuquerque, em 1954. Trata-se de uma obra de fôlego, profundamente documentada, que permite ao autor concluir que o pensamento tradicional português é antimaquiavélico (?) e que o maquiavelismo é incompatível com a necessidade da expansão e com a psicologia de um povo sonhador de quinto-impérios e criador do tipo ideal do fidalgo. O Príncipe é, pois, um pequeno livro que ainda hoje suscita grandes paixões na delimitação da fronteira entre a virtude e o pecado no campo da política e da própria filosofia do comum viver. Sucedeu assim porque o autor e a obra, uma vida e um livro, uma narrativa e uma doutrina, se confundiram numa mistura sincrética, pela qual se condenou à maldição eterna este opúsculo que, numa fórmula de Bertrand Russell, é um livro para gangsters. Mas não pense o leitor que tem em mãos páginas que apenas suscitaram censura e concitaram contra si detractores e maldizentes. Fazendo contemporânea recensão do muito que se escreveu sobre Maquiavel, Isaiah Berlin, um espírito lúcido e erudito, acumularia um tão vasto acervo de epítetos, tão pitorescos quanto entre si contraditórios, a propósito do secretário, tudo a mostrar que, amado ou odiado, ele teve o condão de, secula seculorum, não deixar ninguém indiferente e muitos tomaram mesmo partido em seu favor. Benedetto Croce considera-o um homem de uma austera e dolorosa consciência moral, Ridolfi  acha-o um cristão especial». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução a partir do original de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Tradução de Maria Jorge Figueiredo. «Estamos no reino da complexidade. Sente-se isso vendo, por exemplo, o modo como a Cúria romana recebeu a obra, com a naturalidade, primeiro, de quem observa coisa sua, para depois a condenar ao catálogo dos livros proibidos»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Filho de advogado literato e por isso pobre, Nicolau Maquiavel, cultor das letras, pobre morreu também. Legou-nos, inédita, uma obra que é um sonho fantasioso de grandeza, tal como o estranho sonho que terá tido, segundo consta, antes de morrer. Circula, entre a lenda e o possível, a narrativa do sonho blasfemo de Maquiavel que, no leito de morte, teria, em onírica fantasia, visto um mundo em que a turba dos pobres e dos simples caminhava para o Céu, os filósofos antigos, Platão, Plutarco, Tácito, e outras graves figuras da cidadania condenadas ao Inferno, porque estava escrito: Sapitentia huius saeculi inimica est Dei. Posta em dúvida a sua autenticidade, o sonho tem servido como instrumento de cristianização do ímpio Maquiavel, que ante o momento de prestar contas ante um Deus que, com a sua obra, ofendera, blasfemando-o pelas conveniências da política, terminara a vida mandando os políticos, de que fora conselheiro, arder nas fogueiras infernais. Trata-se de um sonho análogo, embora de sinal diverso, ao sonho de Cipião, que Cícero relata no seu tratado sobre as repúblicas: para todos os que conservaram, ajudaram e engrandeceram a pátria, está guardado no céu um lugar especial. Mas não basta conhecer o homem e a sua circunstância, importa também ter a percepção dos variados contextos pelos quais a obra passou ao longo do tempo e as mais antagónicas leituras que proporcionou, sempre sem esquecer em que estado se encontrava a península itálica onde foi escrita e encontrada a crueza do poder e a malícia interesseira generalizada, afinal o cenário desta encenação, O Grande Teatro do Mundo.
Estamos no reino da complexidade. Sente-se isso vendo, por exemplo, o modo como a Cúria romana recebeu a obra, com a naturalidade, primeiro, de quem observa coisa sua, para depois a condenar ao catálogo dos livros proibidos. O livro foi aceite primeiro com indiferente contemporização por um papado corrompido e em promíscua relação com o poder temporal, destinatário natural de muitos destes pensamentos; no capítulo XI, dedicado aos principados eclesiásticos, o papa Leão X vê o seu pontificado retratado como potentíssimo e Maquiavel a augurar que, erigido com armas pelos seus santíssimos antecessores, seja agora grandíssimo e venerando através da sua bondade e infinitas outras virtudes. Não poderia haver maior lisonja. O modelo monárquico do papado, com a transformação do chamado património de São Pedro num principado, tendo à cabeça um sumo pontífice, foi levado a cabo a partir da segunda metade do século XV quando o papa Eugénio IV se estabelece definitivamente em Roma, em 1443,vitorioso sobre quantos pretendiam a supremacia da autoridade dos concílios sobre o papa. A queda de Constantinopla em 29 de Maio de 1453, às mãos do turco Maomé II, veio abrir a porta para a supremacia da IgrejaCatólica Apostólica Romana. Dotado de exército próprio, de cerca de dez mil homens, a que acresciam mercenários, o Estado Pontifício em pouco se distinguia das outras potências temporais. Pouco mais de quarenta anos volvidos, em 1519, por decreto do papa Paulo IV (nascido Gian Pietro Caraffa), O Príncipe entrava, porém, na lista dos livros amaldiçoados pela doutrina católica e, a partir daí, ler Maquiavel passou a significar estar em pecado de heresia, o autor queimado em efígie, os teólogos a clamarem pela fogueira como argumento final contra o seu pensar. Paulo IV procedeu à reorganização do Tribunal do Santo Ofício (maldito), incumbido da polícia da fé e do combate às heresias, criando a Congregação da Sacra Romana e Universal Inquisição (maldita), e lançou o Index dos livros proibidos, por decreto de 30 de Dezembro de 1518, publicado no ano seguinte. Nele todas as obras de Maquiavel, de Rabelais e de Erasmo de Roterdão eram referidas como de leitura vedada. Com o Concílio de Trento, em 1564, foi elaborado um segundo catálogo de livros proibidos (Index librorum probibitmum a Summo Pontifice) e mantida a interdição sobre a obra de Maquiavel». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução a partir do original de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

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