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sábado, 20 de outubro de 2012

Tratado dos Descobrimentos. António Galvão. «Não foi desprovida de incidentes a navegação de regresso, em que Galvão e os seus homens passaram assaz de trabalhos, fome e sede, e pelejaram, em grande desproporção numérica, com os íncolas de uma povoação das cercanias…»

Rosto da 2ª edição, de 1731
Retrato de António Galvão
jdact

Estudo biobibliográfico
«No decurso da invernada da Nazaré em Moçambique, acedendo Pedro de Castro à solicitação instante dos enviados de Zanzibar e Pemba, resolveu trazer de novo à obediência daqueles régulos as ilhas de Querima, ao tempo submetidas ao rei de Mombaça.
Para tanto, embarcou no batel da sua nau, no esquife de Cristóvão de Sousa e em vários paraus indígenas, cerca de cem homens, entre eles António Galvão, que muito se distinguiu nas escaramuças travadas com as gentes de Querima e Mombaça, pondo em debandada, com poucos companheiros, poderosas formações inimigas que acometiam grupos isolados de portugueses, Libertando Cristóvão de Sousa do aperto em que os mouros o tinham e impedindo a chegada de reforços ao adversário.
Conseguido o objectivo de sujeitar as ilhas à soberania de Zanzibar, e perdido, pelo afundamento das embarcações que deviam transportá-lo, o rico despojo de duzentos mil cruzados, resolveu Pedro de Castro tornar a Moçambique e conceder a António Galvão o comando do esquife, que os ferimentos impediam Cristóvão de Sousa de reassumir.
Não foi desprovida de incidentes a navegação de regresso, em que Galvão e os seus homens passaram assaz de trabalhos, fome e sede, e pelejaram, em grande desproporção numérica, com os íncolas de uma povoação das cercanias, aos quais venceram e compraram os mantimentos de que careciam, tendo Galvão o ensejo de exercer ali, pelo perdão concedido a quem premeditara hostilizá-lo, a política conciliatória que tanto o celebrizou depois.
Em Agosto de 1523, após o desembarque de passageiros e tripulantes, foi a Nazaré ao tempo em que ainda permanecia fora da barra de Goa, batida por formidável tormenta, que o pôs em perigo iminente de soçobrar, tornando audaciosa loucura qualquer tentativo de auxílio.
Com a decisão e desprezo do perigo que o caracterizavam, saltou Galvão para o primeiro batel que topou, acompanhado de alguns amigos e criados e de seis ou sete que o haviam sido de seu pai, e aproou resolutamente à nau, a despeito da fúria dos ventos e mares encapelados, surdo às vozes apavoradas que lhe requeriam o desembarque sob pena de perdição inevitável.
Retorquiu o herói que o não movia a salvação de fazenda sua mas sim da de el-rei e da própria nau, propósito de que o não andariam homens amedrontados nem elementos enfurecidos.
Constatando logo que o timoneiro caminhava para terra, compeliu-o, sob ameaça de morte imediata, a pôr a proa ao mar que sulcou em perigo constante de vida.
Entrada a nau, a despeito da ressaca violenta, e patente a impossibilidade de salvamento, assentaram Galvão e Pedro de Castro em dar à vela e entrar pela terra dentro, valendo-se da maré cheia. Assim se fez e assim acabou a Nazaré , sem perder de todo a carga e sem da cidade ousar ninguém acudir-lhe, com medo do mar.
A amizade guardada por António Galvão a Pedro de Castro salvou este de provável morte, pouco depois, quando ambos se encontravam de passagem em Calecute, o bordo da frota que o governador da Índia, Duarte de Lemos, levava a Cochim, em viagem de inspecção das fortalezas costeiras.
Foi o caso que indo Pedro de visita à cidade, na companhia de uns quantos portugueses, os provocaram os mouros, levando a ousadia ao ponto de ferirem alguns, que procuraram alcançar a fortaleza em precipitada fuga. António Galvão, que, receoso, acudia, com quatro criados, em busca do amigo, vendo a fúria dos mouros armados que rodeavam aquele, fez-lhes frente e tentou demonstrar com razões o despropósito que os movia, protegendo simultaneamente a retirada de Pedro para a fortaleza, por uma rua estreita, não sem que o adversário redobrasse de insolência, batendo nos escudos e brandindo as agomias.
Perante o temeridade de um hércules mouro que pretendia à força ferir Pedro, trovaram os portugueses das espadas, não resistindo António Galvão ao desejo de desafiar o atrevido, e a outro que o igualava em petulância, puro combate singular, e isto com tanta decisão que o adversário acuou e os portugueses retiraram livremente.
Terminada a viagem do governador a Cochim, tornou António Galvão ao reino em uma das naus que zarparam da Índia no começo de 1524». In António Galvão, Tratado dos Descobrimentos, Livraria Civilização Editora, Biblioteca Histórica de Portugal e Brasil, Porto, 1987.

Cortesia de Livraria Civilização Editora/JDACT

domingo, 2 de setembro de 2012

Tratado dos Descobrimentos. António Galvão. «Não é este o lugar para preencher as lacunas que caracterizam as tentativas, algumas excelentes, de biografar o homem o quem o culto da equidade e da justiça, mais do que notáveis feitos bélicos, granjeou o título de ‘Apóstolo das Molucas’»



Rosto da 2ª edição, de 1731
 
Retrato de António Galvão
jdact

Estudo biobibliográfico
«Dois empreendimentos avultam entre os que revolucionaram, pelas consequências político-económicas, a Europa e o próprio Mundo. O primeiro sobressai do caminho marítimo da Índia e da sua influência no comércio das especiarias; o segundo representa-o o domínio português nos arquipélagos de Banda e Maluco, ou seja a extensão directa do trato mercantil às origens dos produtos demandados.
Os sucessos que levaram os portugueses à Índia e à fundação ali de um império imenso já foram objecto de análise metódica e criteriosa, senão de propaganda adequado; outro tanto não podendo dizer-se dos que os conduziram às ilhas famosas do cravo, do maça e da noz, cujo estudo condigno e divulgação continuam por realizar.
São do domínio de quantos se interessam pela história de Portugal os nomes dos obreiros da rota marítima e do império da Índia, bem como alguns pormenores capitais de suas virtudes, constâncias, triunfos e reveses.
Que sabe, porém, o português medianamente culto da extensão do império aos arquipélagos das especiarias, dos cuidados e dificuldades de que ela foi objecto?
Na obra ‘Grandes e Humildes na Epopeia Portuguesa do Oriente’ expomos as peripécias da navegação Malaca-Banda, traçado por António de Abreu e aperfeiçoada por pertinaz observação dos agentes físicos da superfície dos mares, de que não temos notícia concreta, mas que atesta a viagem empreendida por Simão de Abreu, em Maio de 1523, de Ternate a Malaca, pelo Norte das Celebes, estreitos de Basilan e Balabac, costa de Bornéu até à altura do Cabo Datu e estreito de Singapura. Confirma aquela navegação o estudo dedicado pelos portugueses aos mares, rotas e regiões que entravam a explorar, com o objectivo económico de libertar o tráfico entre Malaca e as Molucas do inconveniente de longas estadas em Bonda, aguardando monção favorável.
Na mesma obra e nas biografias de quantos governaram aqueles arquipélagos fertilíssimos e neles militaram com bravura, expomos as peripécias da sua ocupação e sujeição, empresa gigantesca em que prima o esforço do navegador, guerreiro, administrador e colonialista que foi António Galvão.
Não é este o lugar para preencher as lacunas que caracterizam as tentativas, algumas excelentes, de biografar o homem o quem o culto da equidade e da justiça, mais do que notáveis feitos bélicos, granjeou o título de ‘Apóstolo das Molucas’.


António Galvão nasceu do ‘convívio sexual de certa dama’, cujo nome desconhecemos, com Duarte Galvão, secretário de Afonso V e João II, que o fez do seu conselho e o mandou por embaixador a Maximiliano, rei dos romanos, qualidade em que também serviu ao rei Manuel I, cujo cronista-mor foi, que nele delegou as negociações com o pontífice Júlio II de uma liga contra o Grão Turco e o Soldão do Egipto, e várias embaixadas às cortes de França, Áustria e Abissínia.
Pelo lado paterno, era António Galvão neto de Rui Galvão, escrivão da câmara de Afonso V e notário geral do reino, e de sua mulher D. Branca Gonçalves, havida em D. Catarina Anes pelo pe Pedro Gonçalves, cónego da Sé de Lisboa e prior de Santa Maria de Óbidos.
O autor da ‘Biblioteca Lusitana’ atribui à Índia a naturalidade de António Galvão, informe que alguns investigadores modernos repudiam por indocumentado, sem consideração de ser também falha de prova a presunção, com que argumentam, de coincidir a primeira viagem de Duarte Galvão ao oriente com a sua embaixada ao Preste João.
A probidade de Diogo Barbosa Machado acredita-lhe os dizeres e justifica o patrocínio que persistimos em dispensar à naturalidade indiana de António Galvão até prova documentada da impossibilidade de o pai ir à Índia antes da embaixada à Abissínia ou de a mãe dar ali à luz um filho concebido em Portugal.
António Galvão embarcou para o reino em frota que não logramos identificar, a fim de receber educação adequada à sua nobre estirpe e à prosápia de que justificadamente podia blasonar.
Não encontrámos vestígio das datas do seu nascimento e primeira vinda a Portugal, onde, aos 23 de Janeiro de 1522, iniciou na nau Nazaré, da capitania de seu primo Pedro de Castro, a carreira marítima e militar que havia de guindá-lo à glória». In António Galvão, Tratado dos Descobrimentos, Livraria Civilização Editora, Biblioteca Histórica de Portugal e Brasil, Porto, 1987.

Cortesia de Livraria Civilização Editora/JDACT