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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Naturalmente, a sua proverbial beleza afectava os alunos e os professores da Sorbonne, só que, apesar de ser muito cortejada, Sara mantinha um permanente distanciamento…»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Parece um operário!, trauteou a senhora em pleno hall, as cordas vocais sempre à procura do registo certo, que nunca encontrariam. Sara!, gritou, enchendo o peito de ar como uma cantora de ópera em frente à plateia. Carol est là! Do primeiro andar escutou-se uma frase ininteligível, que a governanta interpretou como aprovação, apontando o dedo indicador gorducho para cima, sem sentir a necessidade de fornecer uma explicação adicional. Enquanto Carol subia as escadas, avisou-a de que contava com ela ao jantar, ia mandar pôr mais um lugar à table, cantarolou ao afastar-se, abafando o agradecimento da minha prima com o ressoar dos seus tacões no chão de madeira do corredor. Já no patamar do primeiro andar, Carol estacou ao deparar-se-lhe François, de joelho pousado no chão, olho esquerdo fechado, fisga apontada e uma pedra pronta para ser atirada. Prudente, ela sorriu. Meses de permanentes visitas à casa da amiga tinham-na levado à conclusão de que só neutralizava as hostilidades de François com um sorriso, a senha certa para um subtil armistício. Viste a Gestapo?, com ar de entendido, o rapaz explicou que as bandeirinhas nazis e o Mercedes negro não deixavam dúvidas. E a pistola é uma Mauser Luger P08, só a Gestapo as usa, garantiu, acrescentando uma certeza preocupante: Procuram o meu pai. Porquê?, perguntou a minha prima. François manteve o ar solene, enquanto colocava a pedra no bolso. Escapaste de boa. A esta distância, rachava-te a cabeça, como farei ao nazi, se entrar cá em casa. Numa tentativa clara para imitar a voz rouca de Churchill, gritou We shall never surrender! e a seguir atirou-se pelas escadas a baixo aos saltos, três degraus de cada vez, impulsionando-se com a mão direita no corrimão, que agarrava e largava com a destreza de um símio dominador daquela selva doméstica. Está cada vez mais nervoso, comentou Sara.

A amiga estava à porta do quarto e Carol sentiu-a aflita. Com vinte e dois anos, a mesma idade da minha prima, era lindíssima e dona de uns longos cabelos loiros realçados pelo contraste não só com os olhos castanhos, mas também com o manto de pequenas sardas que lhe cobria a pele rosada. O rosto de Sara, de tão perfeito, parecia desenhado por um pintor com a ambição clara de impressionar as gerações vindouras. A testa e as sobrancelhas, as bochechas e o queixo, a boca e os lábios, tudo tinha a proporcionalidade e a dimensão certas. Apenas o nariz destoava, pois apresentava no final um ligeiro levantamento que o arrebitava (Sara chamava-lhe um salto de ski), criando um resultado inesperado, magnificamente humano, como se aquela fosse a imperfeição necessária para garantir que ela não era uma deusa do Olimpo, mas sim uma mulher real.

Naturalmente, a sua proverbial beleza afectava os alunos e os professores da Sorbonne, só que, apesar de ser muito cortejada, Sara mantinha um permanente distanciamento que muitos interpretavam como arrogância, mas que não era mais do que um escudo protector. A amiga temia magoar-se, sofrer de mal d´amour, dizia sempre que era cedo para se apaixonar, pois ainda tinha muito para viver. Havia nela uma permanente recusa do romantismo, como se namorar fosse apenas uma desconfortável tolice. Tu é que gostas disso, justificava-se a Carol, deixando para trás uma mão cheia de pretendentes rejeitados. Tratava-se de um desligamento forçado, pois, se em sociedade Sara se mostrava alheada e muito racional, sofria uma clara metamorfose perto do irmão, ou mesmo do pai e da mãe. Tinha iras intempestivas e, após esses momentos em que mostrava o seu lado avassalador, corava e alegava que François lhe fazia estalar o verniz! Carol já a vira atirar um sapato, uma moldura, até um vaso de flores, sempre contra o irrequieto irmão. A bela esfinge que obrigava os pescoços masculinos a rodarem, a notável figura geradora de silêncios aduladores quando passava, transformava-se numa fera de dentes e punhos cerrados, cujos cabelos ficavam despenteados, como que vítimas de um tornado, mal François ultrapassava o denominado limite do aceitável, uma linha imaginária que ninguém sabia onde ficava, mas que avançava a olhos vistos, sobretudo depois da invasão da França pelos nazis. Tem medo de que prendam o meu pai, acrescentou Sara. Mas o que quer a Gestapo?, inquietou-se Carol.

Paris. 4 de Junho de 1940

A tensão na sala de jantar teimava em não se desvanecer, como se nem a ementa, uns linguados au meunier bem temperados, acompanhados por batatas cozidas e legumes salteados, nem a decoração elegante, lírios, girassóis, cravos e miosótis coloridos misturavam-se num centro de mesa, fossem capazes de diluir a preocupação dos comensais. Um peso no peito oprimia Carol. Fora um dia demasiado longo, carregado de surpresas desagradáveis. As bombas durante a noite, a decisão de madre Mary de encerrar o convento e a residencial, a suspensão inesperada das aulas na universidade, os parisienses em fuga atabalhoada, a partida sem aviso de Jean-Luc, as tentativas de roubo da Hirondelle e, por fim, a presença da Gestapo à porta de casa da amiga. A minha prima sabia que Marcel e Anne tinham ido de carro a Estrasburgo há vários dias, com a intenção de trazer de lá a mãe de Marcel, uma senhora de oitenta anos chamada Raquel, que vivia sozinha na velha casa da família». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris, 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «A minha prima estremeceu com a frieza do olhar do nazi, mas o seu apurado sentido de observação captou alguns relevantes pormenores: a testa alta, o cabelo ralo e claro…»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Um homem alto, coberto por um casaco longo e preto, tocou à campainha da bonita mansão parisiense, de dois andares e águas-furtadas, onde ela muitas vezes estudava para os exames. Curiosa, Carol travou a Hirondelle. O Mercedes exibia duas bandeirinhas nazis junto aos retrovisores, era certamente pessoal da Embaixada germânica, mas andarem à vontade por ali, apenas horas depois de terem bombardeado a capital de França? Que descaramento arrogante! A minha prima matutou sobre a possível razão daquela inesperada visita. Marcel, o pai de Sara, era um judeu francês, que, embora nascido em Estrasburgo, trabalhara décadas em Colónia, nas prósperas fábricas do seu já falecido progenitor, nacionalizadas uns anos antes, quando o ambiente hostil aos judeus, na Alemanha, se tornou irrespirável. Contudo, em Paris, onde sempre tivera casa, apesar de influente na comunidade judaica, Marcel raramente visitava a sinagoga, até porque Anne, sua mulher, era católica e obrigara Sara e o filho mais novo, François, a uma educação cristã. Subitamente, a porta da moradia abriu-se e surgiu mademoiselle Laffitte, uma senhora gorducha que apresentava sempre as bochechas coradas e uns óculos redondos e minúsculos pousados a meio da cana de um largo nariz. Fazendo deslizar a bicicleta no asfalto, Carol aproximou-se, para escutar as perguntas do alemão, que estava acompanhado por dois ajudantes, um já na rua, encostado ao Mercedes, outro sentado ao volante.

Monsieur Marcel n´est pas là!, indignou-se mademoiselle Laffitte, agudizando o tom de voz. A governanta da casa, perante qualquer incómodo, entrava em imediato descontrolo sonoro. Sem aviso, iniciava um irregular cântico, onde se misturavam gritinhos de intenção melodiosa com claras fífias. Estas curtas árias eram acompanhadas por um acelerado bater de pestanas, sobretudo na presença de François, um rapaz de catorze anos, impertinente e de mau feitio, dado a partidas de mau gosto e a palavreado grosseiro. Porém, quando viu a temível Mauser do alemão da Gestapo, que levantara a aba do casaco para exibir o coldre aberto, a voz estridente de mademoiselle Laffitte sumiu-se e uma palidez súbita tingiu de branco o seu rosto, como se tivesse vislumbrado não apenas uma pistola, mas a sua própria morte. O decidido nazi anunciou que regressaria em breve, para falar com monsieur Marcel, uma preocupante promessa que obviamente não extinguiu o terror primitivo da governanta. Os dois alemães reentraram no Mercedes e, antes de fechar a porta, o que falara fitou Carol, ainda montada na Hirondelle.

A minha prima estremeceu com a frieza do olhar do nazi, mas o seu apurado sentido de observação captou alguns relevantes pormenores: a testa alta, o cabelo ralo e claro, as pupilas azuis, as sobrancelhas simétricas e finas, a pele bem barbeada e um nariz esfíngico. Recordou-se das palavras de Polly sobre os alemães giros que podiam aparecer em Paris. Contudo, mesmo parecendo um actor americano, aquele homem assustava ao mesmo tempo que encantava, talvez devido ao fosso que separava o aspecto físico, sofisticado e até belo, da voz agreste, da determinação autoritária dos gestos e da crueza gélida do olhar. Foi essa dualidade chocante a responsável pelo constrangimento de Carol, que permaneceu rígida enquanto o Mercedes arrancava sem pressas. Só quando o viu a cem metros, próximo dos Jardins do Luxemburgo, é que observou novamente mademoiselle Laffitte, que se mantinha também imóvel, qual estátua de museu, com o olhar ainda fixo no preciso local onde tinham estado o alemão e a sua arma, como se esta continuasse lá, pronta a disparar.

A minha prima desmontou da Hirondelle e aproximou-se. Bonsoir, mademoiselle Laffitte, a Sara está? A governanta demorou quatro segundos a responder. Os seus olhos vaguearam pela rua, um minúsculo tique agitou-lhe as bochechas, as mãos juntaram-se e pousaram na proeminente barriga, como as dos mortos, até que por fim as pestanas bateram aceleradas e exclamou: Oui, elle est là!

Lembrando-se das duas tentativas de roubo da Hirondelle só nesse dia, Carol pediu permissão para entrar com ela, obtida antes da notificação musical de que Sara acabara de tomar banho. Numa curta cantata, mademoiselle Laffitte denunciou mais uma tentativa de perturbação da mana pelo temível François. O petit sauvage invadira a salle de bain com descaramento, obrigando-a a manter-se à porta, qual guardiã do templo, perante a rajada de insultos do rapazola, cujos péssimos colegas de colégio eram obviamente os responsáveis por aqueles ditos diabòliques!» In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris,

sábado, 13 de novembro de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «Àquela altura, Paris devia ter suas próprias medidas padronizadas, que ficavam à mostra na região do cais, junto à margem direita do Sena. Paris já era uma cidade comercial, provavelmente a maior da Europa…»

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2019

«(…) Supõe-se que tenha havido longos debates entre o bispo Maurício e seu mestre de obras, nos quais o bispo explicava seu desejo, uma igreja moderna e bem iluminada, e o mestre buscava formas de concretizar esse sonho. Mesmo assim, ambos estavam cientes de que, ao longo dos anos, à medida que a obra avançasse, o projecto seria modificado pelo surgimento de novas ideias e pela participação de novas pessoas. A altura projectada para a construção pode ter sido um tema importante dessas reuniões. Segundo o historiador Jean Gimpel, no livro Les Bâtisseurs de cathédrales (Os construtores de catedrais), toda a cidade queria que a sua fosse a igreja mais alta:

A jovem sociedade medieval representada pela burguesia, no seu entusiasmo, foi tomada pela moda do recorde mundial e fez as naves descolarem em direção aos céus.

A nave da Notre-Dame foi projectada com 33 metros de altura, a mais alta do mundo (embora não por muito tempo: seria ultrapassada pela de Chartres alguns anos depois). Enquanto isso, a antiga catedral vinha abaixo. Mas os materiais não foram descartados. As pedras em melhor condição foram empilhadas para formar as fundações da nova igreja. Até mesmo os escombros foram aproveitados, porque a parede de uma catedral medieval é uma sanduíche de duas camadas de pedra lapidada, com um recheio de entulho. Foi preciso encomendar mais pedra. Não o famoso calcaire lutécien de tom cinza-creme usado no Louvre, no Hotel des Invalides, nas casas dos milionários da indústria cinematográfica em Hollywood e nas lojas Giorgio Armani ao redor do mundo. Ele só seria descoberto no século XVII e vem de pedreiras situadas 40 quilómetros ao norte de Paris, em Oise. Na Idade Média, o custo do transporte de pedras podia ser proibitivo. Na Notre-Dame foi utilizado calcário de diversas pedreiras mais próximas, não muito além dos limites da cidade. O mestre organizava as pedras de acordo com suas características: as mais duras eram usadas para os suportes estruturais, que precisavam sustentar um peso enorme; as macias, que podiam ser esculpidas com mais facilidade, eram reservadas para os detalhes decorativos, que não suportavam carga. Uma vez finalizado o projecto, os operários precisavam de um sistema de medidas afinado. Uma jarda, uma libra e um galão não tinham os mesmos valores em todos os lugares. Cada canteiro de obras tinha a sua própria régua, uma barra de ferro que determinava para todos os operários a medida exacta de uma determinada unidade.

Àquela altura, Paris devia ter suas próprias medidas padronizadas, que ficavam à mostra na região do cais, junto à margem direita do Sena. Paris já era uma cidade comercial, provavelmente a maior da Europa, e era essencial que uma jarda de tecido, uma libra de prata ou um galão de vinho representassem a mesma medida em todas as lojas da cidade, para que os clientes soubessem o que estavam comprando. (Sem dúvida também havia comerciantes que se queixavam do excesso de regulamentação governamental!) Portanto, é provável que o mestre de obras da Notre-Dame tenha estabelecido sua régua de acordo com as medidas utilizadas pelos comerciantes parisienses. Com um projecto desenhado no piso e uma régua na mão, o mestre de obras traçou as linhas da catedral no chão onde ficava a antiga igreja e a construção pôde ter início. De repente, Paris precisava de mais artesãos e operários, principalmente pedreiros, carpinteiros e fabricantes de argamassa. Havia alguns na cidade, mas não eram suficientes para aquele ambicioso novo projecto. No entanto, os trabalhadores que actuavam na construção de catedrais eram nómadas, viajando de cidade em cidade por toda a Europa em busca de trabalho e, dessa forma, propagando inovações técnicas e estéticas». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Ken Follett, Literatura, Paris, JDACT, 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «A Igreja construía catedrais. O bispo Maurício tinha recursos para executar seu projecto, ou, pelo menos, para dar início a ele. Ele contratou um mestre de obras, alguém cujo nome não sabemos…»

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2019

«(…) Tudo isso parece muito simples, mas na verdade é assombroso. A Catedral de Notre-Dame de Paris, assim como a maioria das grandes igrejas góticas que se mantêm como as mais belas construções de inúmeras cidades europeias, foi erguida na Idade Média, uma época marcada por violência, fome e peste. A construção de uma catedral era uma empreitada gigantesca, que se estendia por décadas. A Catedral de Chartres levou 26 anos para ser erguida, e a de Salisbury, 38 anos, mas ambos os projectos foram extraordinariamente rápidos. A Notre-Dame de Paris levou quase cem anos, e melhorias continuaram sendo feitas depois disso. Foram necessárias centenas de trabalhadores, e custou uma fortuna. Seria um feito equivalente, em tempos actuais, à viagem do homem à Lua.

Aquela enorme igreja foi erigida por pessoas que viviam em cabanas de madeira com telhado de palha, pessoas que dormiam no chão porque apenas os ricos tinham camas. As torres têm quase 70 metros de altura, mas os mestres de obras não dispunham de fórmulas matemáticas para calcular a tensão nesse tipo de estrutura. Eles se guiavam por tentativa e erro, que de facto eram cometidos. Às vezes, o trabalho desmoronava: a Catedral de Beauvais veio abaixo duas vezes. Hoje em dia podemos ir até uma loja de ferragens e comprar um martelo perfeitamente funcional, com uma cabeça de aço, por um preço muito baixo, mas as ferramentas dos operários que construíram essas catedrais eram rústicas e o aço custava tão caro que era usado com bastante moderação, em geral apenas na ponta de uma lâmina. A Notre-Dame e todas as catedrais são ricamente ornamentadas, mas os trabalhadores usavam túnicas simples costuradas em casa. A catedral possuía travessas, cálices, crucifixos e castiçais de ouro e prata, enquanto a congregação bebia em xícaras de madeira e usava pedaços secos de junco como velas.

Como isso foi possível? Como uma beleza tão majestosa emergiu em meio à brutalidade e à imundície da Idade Média? A primeira parte da resposta é algo quase sempre deixado de fora de qualquer narrativa sobre as catedrais: o clima. O período compreendido aproximadamente entre os anos 950 e 1250 é chamado pelos climatologistas de Anomalia Climática Medieval. Ao longo de trezentos anos, o clima na região do Atlântico Norte foi melhor que o normal. As evidências vêm de anéis de troncos de árvores, núcleos de gelo e depósitos de lagos, que nos fornecem informações sobre mudanças climáticas de longo prazo no passado. Ocasionalmente havia anos de colheitas ruins e fome, mas em média a temperatura era mais alta. O tempo quente era sinónimo de safras abundantes e de pessoas mais ricas. Foi dessa forma que a Europa escapou da longa depressão conhecida como a Idade das Trevas.

Todas as  vezes que seres humanos conseguem produzir mais do que precisam para sobreviver, aparece alguém para se apossar do excedente. Na Europa medieval, havia dois grupos que faziam isso: a aristocracia e a Igreja. Os nobres lutavam nas guerras e, entre uma batalha e outra, praticavam a caça para exercitar suas habilidades de montaria e conservar o espírito sanguinário. A Igreja construía catedrais. O bispo Maurício tinha recursos para executar seu projecto, ou, pelo menos, para dar início a ele. Ele contratou um mestre de obras, alguém cujo nome não sabemos, que elaborou um projecto. Mas o projecto não foi desenhado em papel. A arte de fabricar papel era novidade na Europa do século XII, e o produto era um luxo custoso. Livros como a Bíblia eram escritos em pergaminho, um couro bem fino, e também caro. Os pedreiros desenhavam seus projectos no piso. Eles espalhavam argamassa no chão e esperavam até que endurecesse. Em seguida, traçavam o esboço usando um instrumento pontiagudo de ferro, como um prego. As linhas traçadas eram brancas a princípio, mas desapareciam conforme o tempo passava, o que permitia que novos projectos fossem desenhados sobre os antigos. Alguns desses projectos desenhados no piso sobreviveram até os dias de hoje, e eu tive a oportunidade de estudar os das catedrais de York e de Wells». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Ken Follett, Literatura, Paris, JDACT,

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «A Catedral de Notre-Dame era pequena demais em 1163. A população de Paris estava em crescimento. Na margem direita do rio, o comércio crescia a níveis desconhecidos no resto da Europa medieval…»

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2019

«(…) Eu temia que o sol se levantasse sobre uma pilha fumegante de escombros na Île de la Cité, onde a Notre-Dame se erguia repleta de orgulho. Fiquei extremamente emocionado ao ver que a maior parte das paredes ainda estava de pé, assim como o magnífico par de torres quadradas da fachada ocidental. Não havia sido tão ruim quanto o mundo temia, e eu me dirigi ao estúdio de televisão com uma mensagem de esperança. Passei a terça-feira toda dando entrevistas e, na quarta, viajei para Paris a fim de participar de um debate no programa de TV La Grande Librairie sobre o simbolismo das catedrais na literatura e na vida. Para mim, não fazia nenhum sentido ficar em casa. Eu admirava demais a Notre-Dame. Não sou religioso, mas frequento a igreja mesmo assim. Amo a arquitectura, a música, os ensinamentos da Bíblia e a sensação de compartilhar algo profundo com outras pessoas. Já há muito tempo encontro uma enorme paz espiritual nas grandes catedrais, assim como outros milhões de pessoas, sejam crentes ou não. E tenho outro motivo para ser grato às catedrais: meu amor por elas inspirou o romance que é sem dúvida o meu livro mais popular, e talvez o melhor deles.

O presidente Macron disse que a Notre-Dame seria reconstruída em cinco anos. Um jornal francês respondeu com a manchete Macron acredita em milagres. Mas a ligação dos franceses com a catedral é muito intensa. Ela foi palco de alguns dos principais eventos da história francesa. Toda a informação de estrada que diz a que distância se encontra de Paris informa a distância até o Ponto Zero, uma estrela de bronze incrustada no pavimento em frente à Notre-Dame. O grande sino chamado Emmanuel, na torre sul, pode ser ouvido por toda a cidade quando toca o seu profundo fá para anunciar alegria ou tristeza, o fim de uma guerra ou uma tragédia como o 11 de Setembro. Além disso, não é sábio subestimar os franceses. Se existe alguém capaz de empreender essa tarefa, são eles. Antes que eu fosse embora de Paris, minha editora francesa me perguntou se eu cogitava escrever algo inédito sobre o meu amor pela Notre-Dame, à luz do terrível acontecimento de 15 de Abril. Os lucros do livro iriam para o fundo de reconstrução, assim como meus direitos autorais. Sim, respondi. Começo amanhã. Isto é o que escrevi.

1163

A Catedral de Notre-Dame era pequena demais em 1163. A população de Paris estava em crescimento. Na margem direita do rio, o comércio crescia a níveis desconhecidos no resto da Europa medieval, e, na margem esquerda, a universidade atraía estudantes de diversos países. Entre as duas, numa ilha no Sena, ficava a catedral, e o bispo Maurício Sully achava que ela deveria ser maior. E havia algo mais. A construção existente seguia o chamado estilo românico, de arcos redondos, mas havia um novo movimento arquitectónico bastante interessante que usava arcos pontiagudos, permitindo maior entrada de luz, compondo o visual que hoje conhecemos como gótico. Esse estilo tinha sido inaugurado a apenas 10 quilómetros de distância da Notre-Dame, na abadia de Saint-Denis, onde eram sepultados os reis franceses, que combinara de forma brilhante dezenas de inovações técnicas e visuais: além do arco pontiagudo, as colunas eram formadas por um aglomerado de pilastras, das quais brotavam nervuras que seguiam até ao alto tecto abobadado, agora mais leve; uma passarela semicircular na fachada oriental, para fazer com que os peregrinos passassem diante das relíquias de Saint-Denis; e, do lado de fora, graciosos arcobotantes que permitiam a existência de janelas maiores e faziam com que a enorme igreja parecesse prestes a decolar. Maurício devia ter visto a nova igreja de Saint-Denis e se apaixonado por ela. Sem dúvida, ela fazia a Notre-Dame parecer antiquada. Talvez ele estivesse com um pouco de inveja do abade Suger, de Saint-Denis, que havia encorajado sucessivamente dois mestres de obras a fazer experimentações ousadas, com resultados incrivelmente bem-sucedidos. Assim, Maurício ordenou que sua catedral fosse demolida e substituída por uma igreja gótica. Permita-me fazer uma pausa». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Ken Follett, Literatura, Paris, JDACT,

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «A Notre-Dame sempre pareceu eterna, e os responsáveis por sua construção na Idade Média sem dúvida acreditavam que ela duraria até ao Juízo Final»


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2019

«(…) Eis como se deu a destruição da Catedral de Kingsbridge em Os Pilares da Terra, do ponto de vista do prior Philip:

O estrondo de algo quebrando o fez levantar a cabeça. Imediatamente acima dele, uma imensa viga emborcava lentamente. Ia cair em cima de Philip. Ele correu de volta até o transepto sul, onde Cuthbert estava parado com uma expressão assustada. Um pedaço inteiro do telhado, três triângulos de vigas e empenas mais as placas de chumbo presas a eles, estava desabando. Philip e Cuthbert ficaram olhando, petrificados, sem ligar para a própria segurança. O telhado desabou por cima de um dos grandes arcos arredondados do coro. O peso descomunal da madeira e do chumbo fez as pedras do arco racharem, provocando uma explosão longa parecida com um trovão. Tudo aconteceu bem lentamente: as tábuas caíram devagar, o arco rachou devagar e as pedras soltas despencaram no ar devagar. Outras vigas do telhado se soltaram, e então, com um barulho semelhante a um longo e lento rufar de trovão, uma parte inteira da parede norte da chancela estremeceu e tombou para dentro do transepto norte. Philip estava arrasado. A visão de um edifício daquela imponência sendo destruído era estranhamente chocante. Era como ver uma montanha ruir ou um rio secar: ele nunca chegara a pensar que aquilo pudesse acontecer. Mal podia acreditar nos próprios olhos.

Em 15 de Abril de 2019, enquanto a noite caía, a população de Paris foi para as ruas, e as emissoras de televisão exibiram milhares de rostos enlutados iluminados pelas chamas, alguns entoando hinos, outros apenas em lágrimas enquanto observavam sua amada catedral arder. O tutie que provocou as reacções mais autênticas dos meus seguidores naquela noite dizia: français, françaises, nous partagons votre tristesse. Franceses, francesas, nós compartilhamos de sua tristeza. O correcto seria nous partageons, com e, mas ninguém se importou.

Há pessoas que entendem mais de catedrais medievais do que eu, mas os jornalistas não sabiam o nome delas. Eles sabiam o meu por causa dos meus livros, e sabiam que Os pilares da Terra é sobre uma catedral, de modo que, em questão de minutos, comecei a receber mensagens das redacções. Passei aquela noite inteira dando entrevistas para canais de televisão, para rádios e jornais, explicando, em inglês e em francês, o que estava acontecendo na Île de la Cité. Ao mesmo tempo que dava as entrevistas, eu acompanhava a cobertura. O pináculo central, esguio como uma ponta de flecha e com quase 100 metros de altura, era um provável ponto de origem do incêndio, e agora ardia como o inferno. Era feito de 500 toneladas de vigas de carvalho, com um tecto de chumbo de 250 toneladas, e a madeira em chamas logo se tornou fraca demais para suportar todo o peso do metal. O momento mais tocante da noite, para a multidão de luto nas ruas e para os milhões de espectadores horrorizados diante da TV, foi quando o pináculo tombou para o lado, partiu-se ao meio como se fosse um palito de fósforo e desabou sobre o telhado em chamas da nave.

A Notre-Dame sempre pareceu eterna, e os responsáveis por sua construção na Idade Média sem dúvida acreditavam que ela duraria até ao Juízo Final. Mas, de repente, vimos que ela poderia ser destruída. Na vida de toda criança existe o momento doloroso em que ela percebe que o pai não é todo-poderoso nem infalível. Ele tem fraquezas, está sujeito a doenças e um dia irá morrer. O desabamento do pináculo me fez pensar nesse momento. Parecia que a nave já estava arruinada. Acreditei ter visto chamas numa das duas torres e sabia que, se elas caíssem, a igreja inteira seria destruída. O presidente Emmanuel Macron, um líder modernizador radical que estava no meio de uma batalha amarga e violenta com a parcela da população que não aprovava as suas reformas, se pronunciou diante das câmeras e se tornou, pelo menos por algum tempo, o legítimo líder de uma nação francesa unida. Ele impressionou o mundo e trouxe lágrimas aos olhos deste galês quando disse, com firme convicção: Nous rebâtirons. Nós vamos reconstruir. Fui dormir à meia-noite e ajustei o despertador para as quatro e meia, pois o último telefonema que tinha recebido fora um convite para participar de um programa matinal no dia seguinte». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Ken Follett, Literatura, Paris, JDACT,

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «Aquela visão nos deixou estupefactos e profundamente perturbados. Fiquei à beira das lágrimas. Algo inestimável estava morrendo diante dos nossos olhos»


jdact

2019

«A voz ao telefone falava em tom de urgência: estou em Paris. Ligue a televisão! Eu estava em casa, na cozinha, com Bárbara, minha esposa. Havíamos acabado de jantar. Eu não tinha bebido nem uma gota de vinho, o que acabou sendo bom. Não sabia ainda, mas aquela seria uma longa noite. A voz ao telefone era de uma velha amiga. Por ter ocupado os cargos de deputada e ministra, ela tinha atravessado diversas crises, sendo completamente imperturbável, mas naquele momento parecia em choque. Você sabe o que vimos na tela: a magnífica Catedral de Notre-Dame de Paris, uma das maiores realizações da civilização europeia, em chamas.

Aquela visão nos deixou estupefactos e profundamente perturbados. Fiquei à beira das lágrimas. Algo inestimável estava morrendo diante dos nossos olhos. Era uma sensação desconcertante, como se a terra estivesse tremendo. Eu conhecia bem a catedral. Uma vez, no Natal, Bárbara e eu fomos lá assistir à missa da meia-noite. Milhares de pessoas lotavam a igreja. Uma luz fraca projectava sombras enormes nos corredores, as canções natalinas ecoavam pela nave e a abóbada sobre nossa cabeça estava tomada pela escuridão. A parte mais emocionante era saber que nossos ancestrais celebravam o Natal daquela mesma forma, naquela mesma igreja, havia mais de oitocentos anos. Eu tinha visitado a catedral muitas outras vezes. Minha visão mais antiga dela era de 1966, primeira vez que passei férias fora do Reino Unido, embora eu acredite que aos 17 anos estava interessado demais nas meninas do nosso grupo para realmente prestar atenção numa catedral. A visita mais recente tinha sido apenas quatro semanas antes, passando de carro pela Rive Gauche, como sempre, fiquei inebriado pela magnífica vista das torres gêmeas e dos arcobotantes. Assim que comecei a pensar racionalmente sobre o que estava vendo na televisão, entendi o que estava em chamas e de que forma o fogo ganhava força, enquanto os jornalistas que faziam a cobertura, não, e porque deveriam? Eles não tinham estudado a arquitectura das catedrais góticas, mas eu sim, durante a pesquisa para escrever Os pilares da Terra, meu romance sobre a construção de uma catedral medieval fictícia. Uma cena fundamental no Capítulo Quatro descreve a antiga Catedral de Kingsbridge em chamas, e eu havia me perguntado: de que forma, exactamente, uma enorme igreja de pedra pega fogo?

Subi até ao espaço empoeirado sob o telhado de catedrais como a da Cantuária e a de Florença. Fiquei de pé sobre as poderosas vigas que cortam a nave e observei os caibros que sustentam o telhado de chumbo. Reparei no tipo de entulho ressecado que geralmente se acumula nesses locais: pedaços velhos de madeira e de corda, embalagens de sanduíche deixadas por funcionários da manutenção, gravetos entrelaçados de ninhos de pássaros e colmeias de vespas. Eu tinha certeza de que o incêndio na Notre-Dame havia começado em algum ponto do telhado, provavelmente quando uma ponta de cigarro ou uma faísca gerada por um curto-circuito fez com que algum desses detritos pegasse fogo, o que por sua vez incendiou a estrutura de madeira. E os danos resultantes provocavam risco de desabamento. decidi compartilhar aquele palpite com outras pessoas, então tutiei:

Os caibros são formados por centenas de toneladas de madeira velha e bastante ressecada. Quando eles pegam fogo, o telhado desaba e, ao cair, os destroços arrasam o tecto abobadado, que também desaba, destruindo os enormes pilares de pedra que mantêm a estrutura toda de pé.

Isso acabou por se mostrar quase inteiramente correcto, excepto pelo facto de que eu subestimei a força dos pilares e das abóbadas, que ficaram danificados, mas por sorte não foram totalmente destruídos». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Ken Follett, Literatura, Paris, JDACT, 

sábado, 5 de junho de 2021

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Tal como de manhã o rapaz, o funcionário público largou a Hirondelle e seguiu caminho sem se desculpar. Ainda com o sangue a latejar nas têmporas»


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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Mais calma, deu por si com fome, a tarde já ia a meio e nada comera desde manhã. Tinha uns francos no porta-moedas e olhou em volta, para se situar. Lembrava-se vagamente de que passara uma das pontes do Sena, antes de se sentar mais uma vez, supinamente chateada. Estava nos jardins da Nôtre-Dame e viu, do lado de lá do rio, na direcção do Saint-Germain, um bistrô numa esquina, para onde se dirigiu. Encostou a bicicleta à parede do Chez Pierre, onde nunca entrara, apesar de se recordar de que, um dia, Sara comentara que ali se serviam uns bons ovos mexidos. Pediu-os, juntamente com uma torrada e um café com leite, mal se sentou a uma das mesas e o proprietário a veio atender, contrariado e arrastando os pés. Ao balcão viu apenas três clientes, debruçados sobre um rádio, um Telefunken, ironicamente alemão. Pelo vestuário, deviam ser funcionários públicos, pois usavam mangas de alpaca e pareciam ansiosos, embora por vezes lançassem comentários jocosos, como se o locutor da rádio não os convencesse. Enquanto comia, a minha prima escutou a voz rouca e poderosa que provinha do aparelho, que lhe soou vagamente conhecida e cujas frases em inglês eram ditas com firmeza e convicção. Fosse quem fosse, tinha jeito à frente do microfone e foi esse talento que a obrigou a tomar atenção às palavras.

...Tenho plena confiança de que, se todos cumprirem os seus deveres, se nada for negligenciado e se as melhores providências forem tomadas, como está sendo feito, deveremos provar ser capazes mais uma vez de defender a nossa ilha natal, de superar a tempestade da guerra e de sobreviver à ameaça de tirania, se necessário por anos, se necessário, sozinhos. Um dos funcionários públicos soltou uma gargalhada, macerada de desprezo, apelidando quem falava de velho bêbado. Foi nesse momento que Carol identificou finalmente a voz de Winston Churchill, o recém-nomeado primeiro-ministro da Inglaterra, enquanto este fazia uma referência à República Francesa, gerando alguma indignação nos ouvintes, que logo negaram aos ingleses o estatuto de fiéis aliados. Balelas!, protestou um dos mangas de alpaca. A Maginot é que nos vai salvar, não é este careca gordo! Carol ignorou-os, como que atraída por um íman sonoro. Churchill usava impressionantes adjectivos e falava agora em grandes extensões da Europa e antigos e famosos Estados, caídos nos punhos da Gestapo e do odioso aparato do domínio nazi.

De repente, um conjunto de frases épicas emergiu do Telefunken e, como que por magia, o garfo da minha prima ficou suspenso no ar.

Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos! Finalmente, havia alguém que prometia uma resistência férrea contra os nazis. A coragem mostra-se, na esperança de que se multiplique, e a de Churchill emitia um brilho tão eficaz que teria certamente a capacidade de parar a fuga dos parisienses, de lhes tirar o medo e de os convencer a lutarem pelo que era seu, por uma Paris que a minha prima adorava. Eu vou ficar, prometeu a si própria. Não vou deixar a cidade e vou lutar, tal como Churchill disse. Eu não me rendo! Decidida, procurou o olhar dos franceses, mas estes, apesar de temporariamente emudecidos pela vibrante peroração do primeiro-ministro inglês, estavam já para além da salvação. Como se aquele notável discurso tivesse exposto ainda mais as suas fraquezas, os três ouvintes abandonaram o bistrô cabisbaixos e envergonhados. E, para enorme espanto de Carol, enquanto dois seguiram pela rua para a direita, um dos manga de alpaca dirigiu-se à Hirondelle e preparou-se para a montar. Com um pulo, a minha prima levantou-se, ouvindo nas suas costas um grito do proprietário, convencido de que ela ia escapar sem pagar, enquanto saía para a rua, insultando o homem com palavrões! Tal como de manhã o rapaz, o funcionário público largou a Hirondelle e seguiu caminho sem se desculpar. Ainda com o sangue a latejar nas têmporas, Carol levantou a bicicleta do chão e estacou, siderada, vigiada pelo dono do estabelecimento. Mais calma, encostou de novo a Hirondelle à parede e reentrou no bistrô, seguida de perto pelo homem, cujo comentário seguinte não se destinou à tentativa de furto, mas ao discurso de Churchill. É fácil falar do lado de lá da Mancha, resmungou ele, antes de exigir que Carol pagasse, pois tinha de fechar portas. Desiludida, a minha prima retirou uma conclusão óbvia: Paris não queria saber de lutas.

Paris, 4 de Junho de 1940

No Boulevard Saint-Germain, pelas seis da tarde, alguns carros eram ainda carregados com malas, mas o frenesim matinal desaparecera. A cidade voltava à normalidade, deduziu Carol, pedalando lentamente, enquanto era ultrapassada por um grande automóvel preto que, cem metros à frente, virou à esquerda. Um Mercedes... Não que fosse raro, mesmo os franceses compravam carros alemães, porém pareceu-lhe um mau presságio. Virou também e via já os contornos do Convento de Saint-Sulpice quando reparou que o veículo estacionara à porta de casa da sua amiga Sara». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris,

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Domingos Amaral. A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. «Os nazis eram uma máquina poderosa de medo e destruição, o povo de Paris estava a fazer a coisa certa, fugir deles. Também me vou embora»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Quase todos os dias, ao regressar das aulas, Carol passava em frente à montra repleta de instrumentos, e o professor Katzenberg acenava-lhe com a batuta. Certa vez, ouvira pacientemente a triste história dele, a mulher morrera cinco anos antes, de uma pneumonia, sorrindo sempre que o solitário homem lhe dizia estar à procura de noiva em Paris, que, segundo Katzenberg, era a cidade certa para a encontrar. Caroline, onde vai?, perguntou o professor. Ela hesitou, como se não soubesse a direcção a tomar depois daquela frustrante espera. A universidade estava vazia, não conseguira entregar o trabalho e em Paris nascia um caos. É a palavra certa, concordou Katzenberg. Pesaroso, recordou os massacres a que assistira na Alemanha, durante a tenebrosa Noite de Cristal. Os nazis eram uma máquina poderosa de medo e destruição, o povo de Paris estava a fazer a coisa certa, fugir deles. Também me vou embora. Vão perseguir as pessoas como eu. Comprara um bilhete de comboio para Bordéus e partiria ao final da tarde, até já fizera a sua pequena mala, não tinha muito para levar. Quando lá chegasse, pensava no futuro, talvez pudesse ser professor numa escola. Só tenho pena de uma coisa…, afirmou tristemente. Já não será em Paris que vou encontrar noiva!

Quando a minha prima lhe disse que iria com as freiras do Saint-Sulpice para Clermont-Ferrand, onde esperaria o fim da guerra, ele avisou, coçando a barba: não será assim tão rápido, depois, esboçou um sorriso. Noutra vida, a Caroline seria a minha noiva! Ela despediu-se, constrangida, acelerando o passo até à porta do colégio. Mal a atravessou, o seu coração pulou. Um rapaz montava a Hirondelle, como se fosse o proprietário. Carol desatou a correr, gritando que a bicicleta era dela, não a podia roubar. Fê-lo de forma tão agressiva que o ousado estudante desmontou e deixou-a cair, afastando-se assustado, como se um animal perigoso e de grande porte se aproximasse. Estúpido! gritou-lhe Carol, agarrando com firmeza a Hirondelle. Em dois anos, ninguém lhe havia tocado, quanto mais tentado roubá-la! O que estava a acontecer às pessoas naquela cidade? Irritada, deu aos pedais, acalmando-se ao ouvir os pneus pisarem o saibro, como se o triturassem.

Se aquela surpresa desagradável não teve consequências, a que se seguiu abalou-a profundamente. Meia hora depois, estava à porta do prédio onde vivia Jean-Luc, perto da Place des Vosges, do lado de lá do Sena. Subiu as escadas até ao segundo andar e tocou à campainha várias vezes, mas ninguém lhe abriu a porta. O namorado dormia até tarde, teria ido almoçar? Mademoiselle Caroline! Quem a chamava era a porteira, madame Félix, que atirava olhares de reprovação às suas visitas namoradeiras. A minha prima desceu, recebendo das mãos dela um envelope. Surpreendida, abriu-o e desdobrou uma única folha. Jean-Luc desculpava-se por partir sem se despedir, mas fora para Lyon no comboio da uma da tarde. Uma súbita raiva subiu-lhe pela alma. O idiota! O cobarde! Fugir assim, sem falar com ela? Que miserável! Cerrando os dentes, ignorou o cínico sorriso de madame Félix e saiu». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

 Cortesia CdasLetras/JDACT

 JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris, 

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Seres em mudanças, atravessando o passeio, agitados até pararem junto a um veículo, onde arrumavam os pertences enquanto davam instruções apressadas aos familiares»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Nessa manhã, enquanto tomava o pequeno-almoço, na cozinha, Carol notou a enorme agitação das noviças, que cochichavam pelos cantos e lançavam olhares alarmados aos armários. Como madre Mary já lhe explicara a causa do alarido, bebeu o leite, agarrou numa baguete, barrou o interior com manteiga e saiu a trote, a caminho da porta da residencial. No pátio, montou na Hirondelle, depois de envolver os livros numa cinta protectora e de os pousar no cesto, à frente do guiador. Começou a pedalar e avançou para o Boulevard Saint-Germain, onde virou à direita, na direcção da universidade, constatando rapidamente que algo de anormal se passava em Paris. Parecia Julho, mês em que a maioria da população rumava às províncias para passar o verão. Num dia habitual, a cidade tinha muito movimento. Carros, motos, bicicletas, carroças puxadas por cavalos, pequenos e grandes autocarros circulavam nas principais ruas e avenidas, enquanto nos passeios centenas de pessoas entravam e saíam das lojas, dos bistrôs, das boulangeries ou das pharmacies.

No entanto, hoje o que via era gente a carregar os carros com malas, baús, sacos e caixotes. Seres em mudanças, atravessando o passeio, agitados até pararem junto a um veículo, onde arrumavam os pertences enquanto davam instruções apressadas aos familiares. Homens e mulheres, rapazinhos de calções ou meninas de saiotes, idosos cautelosos e muitas empregadas corriam de volta até à porta de casa, como se tivessem esquecido de algo essencial, observados pelas espantadas porteiras dos prédios, de mãos enfiadas nos bolsos das batas.  Carol começou a pedalar mais depressa na Hirondelle, com uma certeza incómoda a assentar no seu espírito: Paris ia debandar em manada. Os habitantes tinham escutado o cair das bombas nocturnas e já conheciam o desfecho lamentável da batalha de Dunquerque. Uma desconfiança visceral atingira-os, o terror dos panzers tornara-se insuportável e a cidade entrara em pânico. Horas depois de madre Mary, milhões já sabiam que a força militar francesa desmoronara-se e que o seu pouco respeitado Governo era um tigre de papel. A França ia ajoelhar em breve, talvez a Linha Maginot ainda resistisse uns dias, mas o desfecho da guerra estava traçado. Quando Carol chegou à Sorbonne, não viu as habituais centenas de estudantes em grupos, à roda dos bancos, trocando piadas. Só um ou outro rapaz de cabeça baixa se afastava, com um ar ensimesmado. Parecia domingo de manhã, quando os universitários curavam a ressaca.

Mas ela tinha de entregar um ensaio sobre a Odisseia. Homero, o autor clássico que mais admirava, fora a sua escolha. Fascinara-a a longa viagem de Ulisses e a paciente sabedoria de Penélope, bem como a mitologia fantástica que percorria a narrativa. Como lhe saíra bem o texto, estava confiante, embora o seu francês escrito não possuísse ainda a precisão e a riqueza a que aspirava. Depois de encostar a Hirondelle à parede, entrou pela porta principal do colégio, dirigindo-se aos gabinetes dos professores, no primeiro andar, onde contava encontrar não só alguns colegas de turma, pois todos tinham de apresentar os trabalhos, mas sobretudo o seu professor de literatura grega, monsieur Sautierre, uma autoridade indisputada naquela área de estudos. Com sessenta e tal anos, o lente francês escrevia grego desde os sete e garantia conhecer todos os filósofos na intimidade. Sócrates, Platão, Aristóteles, Xenofonte, durmo na cama com eles há sessenta anos!, dizia, encantando os alunos com a sua retórica enleante e elegante. Porém, não estava no seu gabinete, nem havia à sua porta qualquer estudante ansioso. Eram onze da manhã, o que se passaria? Durante a hora seguinte, a minha prima esperou a chegada do eminente especialista na Grécia Antiga, mas este não deu sinal de vida. Apenas por lá passou um colega cuja cara lhe era vagamente familiar, mas que rapidamente lhe virou costas. Então, pouco depois do meio-dia, desistiu e caminhou para a saída com lentidão desmotivada. A sua Paris, onde era tão feliz, desmoronava-se. Uma noite de bombas nos arredores e uma saraivada matinal de más notícias tornaram possível o impensável.

Ainda no hall, cruzou-se finalmente com alguém que estimava, Max Katzenberg, um senhor barbudo e de nariz curvo, dos seus sessenta anos e sempre enfiado nuns fatos coçados, exibia um olhar entristecido, que só se iluminava ao falar de música, especialmente de compositores cujo nome começava com a letra B, como Bach, Beethoven ou Brahms. Contudo, em Paris não era professor de música, mas sim de literatura germânica, uma matéria que não dominava e que lhe fora entregue por favor, pois era judeu. Chegado à pressa dois anos antes, vindo da Alemanha e em fuga às perseguições nazis, a universidade sugerira-lhe aquela cadeira para leccionar pagando-lhe uns raquíticos cobres. Para compor os rendimentos, trabalhava à tarde numa loja de música perto da Residencial de Saint-Sulpice, onde tentava vender violinos, pianos ou flautas». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris,

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Ainda abalada pelas novidades, Carol, quando entrou na copa, encontrou uma mulher sentada a uma mesa onde repousava uma também solitária garrafa de whisky»

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Paris, 3 de Junho de 1940
«(…) A maioria das freiras e das noviças vai para o convento de Clermont-Ferrand, informou a Madre. Não fica ninguém em Paris?, angustiou-se Carol. O Saint-Sulpice será encerrado. Tens de regressar a Portugal. Não quero!, protestou a minha prima. Madre Mary pegou-lhe na mão com a ternura do costume. Conhecia os factos: a morte da mãe, a zanga com o pai, o curso que ia a meio, as amizades parisienses. Porém, repetiu, não poderia permanecer em Paris. Querida Carrô, em Clermont-Ferrand o convento não é grande. Mas arranjo-te um quarto na cidade. Embora com enorme relutância, Carol lá prometeu partir. Já de saída, lembrou-se da Hirondelle. Como irão para lá?
Nas Caraíbas, Madre Mary tirara a carta de condução e em Paris guiava uma pequena camioneta, propriedade do Saint-Sulpice, que levaria as últimas freiras, enquanto as outras partiriam de comboio, algumas já no dia seguinte. E a minha bicicleta?, perguntou Carol. Não admitia deixar a Hirondelle. Embora comprada em segunda mão, era um modelo de topo e fora cara. Com um selim Terry, aros e para-lamas de alumínio, um travão dianteiro u-Brake e um travão traseiro Cantlever, a super Hirondelle exibia uma característica única que a celebrizava: o sistema Retro-Directe. A originalidade permitia que se pedalasse para a frente quando o terreno era plano, invertendo-se a situação nas subidas, onde se pedalava para trás, o que desmultiplicava a força nos pedais. A tudo isso, havia a juntar uma pintura negra sem um risco e dois resistentes pneus Michelin 650, que venciam qualquer piso! O orgulho da minha prima. Conhecedora daquela forte estima, madre Mary sugeriu-lhe que levasse a Hirondelle no comboio, podia ir à estação saber quanto custaria o transporte. De caminho, informava-se sobre o preço do bilhete para Portugal. Mais vale teres essa possibilidade preparada, isto pode ser pior do que imaginamos, rematou ela, fazendo com que a dor de barriga de Carol se agravasse.

Paris, 3 de Junho de 1940
Ainda abalada pelas novidades, Carol, quando entrou na copa, encontrou uma mulher sentada a uma mesa onde repousava uma também solitária garrafa de whisky. Polly, uma americana de braços polpudos, conduzia uma ambulância ao serviço da Cruz Vermelha. Meses antes, embarcara uma carrinha Ford num barco, em Boston, e rumara à Europa, para ser útil na guerra. Numa oficina de Antuérpia, mandara pintar o veículo de branco, com uma cruz vermelha em cada porta lateral. Depois, partira em missão, transportando feridos entre os hospitais e uma frente de batalha sempre em recuo. Estivera algumas semanas na Holanda e na Bélgica, mas acabara no Norte de França, empurrada pelo rápido avanço dos alemães. Dez dias antes, rumara a Paris com cinco soldados ingleses na ambulância. Dois tinham morrido durante a viagem e entregara os outros num hospital parisiense, perto do Parque Monceau, mas desde essa altura vivia entediada por não poder regressar a Dunquerque, cidade agora totalmente cercada pelos alemães. Sem alento ou distracção, de dia cirandava sem destino pelos boulevards de Paris e à noite visitava os night-clubs mais na moda, o L´Etoile de Kléber ou o Le Gerny´s, em busca de companhia masculina.
Vai um copo?, perguntou. O desafio era subversivo, a garrafa fora trazida às escondidas, madre Mary não levantara a proibição do álcool na residencial. À saúde deles, concluiu a americana. Certamente devido à sua nacionalidade, os Estados Unidos tinham ainda uma postura neutral em 1940, nunca usava a palavra nazis para descrever os alemães, como se não os quisesse ofender. Achas que vão invadir Paris? Sim, Cárol, respondeu Polly, num tom condescendente. Tanto os ingleses como os americanos chamavam Cárol, com acento no a, à minha prima. Quanto aos franceses, uns acentuavam o o tratando-a por Caról, outros usavam o Caroline, mas só madre Mary aplicava o simpático Carrô». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

domingo, 29 de setembro de 2019

Paris é uma Festa. Ernest Hemingway. «Andava a aprender muito com ele, mas não possuía ainda nessa altura meios de exposição que me permitissem explicar este facto a ninguém. Além disso, tratava-se de um segredo»

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(…) Se eu, descendo à tarde, tomasse por diversas ruas, a caminho dos jardins do Luxemburgo, acabava por me entreter a passear neles e depois deitava até ao Musée du Luxembourg, onde se encontravam os grandes quadros que mais tarde foram, na sua maioria, transferidos para o Louvre e para o Jeu de Paume. Ia lá quase diariamente por causa dos Cézannes e para ver os Manets, os Monets e os outros impressionistas que eu vira pela primeira vez no Instituto de Arte de Chicago. Andava a aprender, na pintura de Cézanne, qualquer coisa que convertia o escrever em simples afirmações verdadeiras, num processo incapaz de lhes facilitar as dimensões que eu me esforçava por lhes conferir. Andava a aprender muito com ele, mas não possuía ainda nessa altura meios de exposição que me permitissem explicar este facto a ninguém. Além disso, tratava-se de um segredo. Quando já não havia luz no Luxemburgo, tornava a subir até aos jardins, acabando por ir ao apartamento da Rue Fleurus. 27, que era onde Gertrude Stein tinha o seu estúdio.
Eu e minha mulher havíamos visitado miss Stein e tanto ela como a amiga com quem vivia se haviam mostrado extremamente cordiais e afectuosas. Apreciáramos devidamente o grande estúdio povoado de grandes quadros. Aquilo era como estar numa das melhores salas de um dos mais belos museus, com a seguinte diferença porém: é que ali, além de desfrutarmos de uma vasta lareira que irradiava calor, proporcionando conforto, ofereciam-nos boas coisas de comer, chá e licores de destilação natural, feitos de ameixas escuras, de ameixas amarelas e de amoras silvestres. Essas bebidas, perfumadas e incolores, guardadas em garrafas de vidro lapidado, eram-nos servidas em cálices e, quer fossem de quetsche, de ameixazinhas amarelas ou de framboesas, todas elas sabiam aos frutos de que provinham, e, convertendo-se em fogo concentrado na nossa língua, aqueciam-nos e tornavam-nos comunicativos.
Miss Stein era vasta mas não alta e possuía a construção pesada das camponesas. Senhora de belos olhos, tinha um rosto forte de judia alemã, o qual poderia igualmente pertencer a uma mulher de Friulano. Com a sua maneira de vestir, o rosto cheio de mobilidade e o belo cabelo forte e espesso, que usava puxado para cima, talvez já desde os tempos do colégio, fazia-me lembrar uma camponesa do Norte da Itália. Falava constantemente e, a princípio, a sua conversa incidia sobre pessoas e locais. A sua companheira, dona de uma voz muito agradável, era baixa, muito morena e usava o cabelo cortado à maneira de Joana d’Arc. segundo as ilustrações de Boutet de Monvel, e tinha um nariz fortemente arqueado. Quando a conhecemos, andava a trabalhar num bordado, e o facto de ir trabalhando não a impedia de fazer as honras da casa e de conversar com minha mulher.
Conquanto fosse mantendo a sua conversa pessoal, ia ouvindo também a outra, que a cada passo tratava de interromper. Mais tarde, explicou-me que era ela quem se encarregava de conversar com as esposas. Eu e minha mulher sentíamos que as esposas eram simplesmente toleradas. Mas gostávamos de miss Stein e da sua amiga, embora esta última fosse assustadora. Os quadros, os bolos e a eau-de-vie eram verdadeiramente maravilhosos. Elas pareciam igualmente gostar de nós e tratavam-nos como se fôssemos duas crianças muito bem comportadas, muito boas e prometedoras, e eu sentia que nos perdoavam o facto de gostarmos um do outro e de sermos casados, o tempo se encarregaria de resolver esse assunto, e quando a minha mulher as convidou a tomar chá, elas aceitaram». In Ernest Hemingway, Paris é uma Festa, 1960, Edição Livros do Brasil, Lisboa, Colecção Dois Mundos, 2000, ISBN 978-145-165-540-7.

Cortesia de ELdoBrasil/CDMundos/JDACT

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Paris é uma Festa. Ernest Hemingway. «… o vento do Inverno soprava sobre a superfície dos lagos, fazendo saltar a água das fontes à claridade luminosa do dia. Depois da estada nas montanhas, todas as distâncias nos pareciam curtas»

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(…) Acho que vai ser maravilhoso, Tatie, disse minha mulher. Ela possuía um rosto suavemente modelado e tanto os olhos como a boca se lhe riam ante qualquer decisão como se se tratasse de ricos presentes que eu lhe oferecesse. Quando é que partimos? Quando quiseres. Ai, quero ir já! Não sabes isso? Talvez, quando regressarmos, o tempo já esteja bonito e límpido. Desde que esteja límpido, embora faça frio, o tempo pode ser óptimo. Com certeza, respondeu ela. Que boa lembrança, essa que tiveste, de irmos viajar!

Quando regressámos, o tempo ia lindo e luminoso, embora frio. A cidade já se adaptara ao Inverno. Havia boa madeira à venda na floresta: o carvão vendia-se mesmo em frente da nossa casa e havia braseiras à porta de muitos dos bons cafés, de maneira que até nas esplanadas se estava quente. Também o nosso apartamento se mantinha quente e alegre. Queimávamos boulets, que eram blocos de pó de carvão moldados em forma de ovo, na fogueira de lenha, e, nas ruas, a luz do Inverno enchia-se de beleza. Nessa altura, já estávamos habituados a ver as árvores nuas perfilarem-se contra o céu. Passeávamos então, com um vento cortante e fino, pelas ruelas de saibro dos jardins do Luxemburgo, que a chuva acabava de lavar. As árvores, desde que nos havíamos habituado a vê-las despidas de folhas, assemelhavam-se a esculturas; o vento do Inverno soprava sobre a superfície dos lagos, fazendo saltar a água das fontes à claridade luminosa do dia. Depois da estada nas montanhas, todas as distâncias nos pareciam curtas.
Devido à mudança de altitude, nem reparava na altura das colinas, a não ser com satisfação, e o subir até ao último andar do hotel onde trabalhava, num quarto que deitava para todos os telhados e chaminés do quarteirão, constituía um prazer. A lareira funcionava com boa tiragem no meu quarto, onde, depois de este bem aquecido, dava gosto trabalhar. Levava para o quarto, em cartuchos de papel, tangerinas e castanhas assadas; descascava e comia as laranjas pequenas que se assemelhavam a tangerinas e cujas cascas e sementes atirava ao lume; comia igualmente as castanhas assadas quando tinha fome. E a verdade é que o passear ao frio e o trabalho me faziam sempre fome. Tinha no quarto uma garrafa de kirsch que havíamos trazido das montanhas e do qual bebia sempre que estava a chegar ao fim de um conto ou quando o meu dia de trabalho se encontrava prestes a terminar. Quando me parecia ter já trabalhado o suficiente, guardava o caderno ou o papel na gaveta da mesa e metia na algibeira as tangerinas que tivessem sobrado. Se assim não fizesse, elas gelariam no quarto durante a noite.
Era maravilhoso descer os compridos lanços da minha escada com a consciência de que o trabalho me correra bem. Tinha por hábito trabalhar sempre até apurar alguma coisa de válido e parava logo que sabia o que a seguir viria a acontecer. Assim, tinha a certeza de poder continuar no dia seguinte. Mas, às vezes, quando começava um novo conto e não conseguia dar-lhe andamento, tinha por hábito sentar-me diante do lume, a espremer a casca das laranjitas na direcção das chamas e a admirar o esguicho azul que elas provocavam Outras vezes, punha-me de pé e, enquanto olhava os telhados de Paris, ia pensando: não te apoquentes. Sempre conseguiste escrever e agora há-de acontecer o mesmo. Tudo o que tens a fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreve a frase mais verdadeira que souberes. Então, escrevia uma frase verdadeira e, a partir dela, lá arrancava. Aquilo era fácil afinal, porque havia sempre uma frase verdadeira que eu conhecia ou lera ou ouvira a alguém. Se eu começasse a burilar frases, ou a escrever como alguém que estivesse a apresentar um tema ou a fazer uma introdução a qualquer assunto, já sabia que teria de eliminar todos esses floreados, de rejeitar tudo para recomeçar com a primeira afirmação simples e directa que escrevera. Foi lá no alto, nesse quarto, que decidi escrever um conto acerca de cada caso que eu conhecesse. Era o que eu tentava fazer sempre que escrevia, processo esse que constituía uma excelente e severa disciplina.
Foi também nesse quarto que aprendi a não pensar em coisa alguma que andasse a escrever, desde o momento em que largasse o trabalho, até ao dia seguinte. Dessa forma, o meu subconsciente continuaria a trabalhar nele e, ao mesmo tempo, eu ia escutando o que as outras pessoas diziam, ia observando tudo, e assim esperava ir continuando a minha aprendizagem. Punha-me a ler para não pensar no meu trabalho; se não, seria incapaz de prosseguir com ele. Descer as escadas após um trabalho bem feito, e isso requeria tanta sorte como disciplina, provocava-me uma sensação maravilhosa e deixava-me livre para passear por Paris à minha vontade». In Ernest Hemingway, Paris é uma Festa, 1960, Edição Livros do Brasil, Lisboa, Colecção Dois Mundos, 2000, ISBN 978-145-165-540-7.

Cortesia de ELdoBrasil/CDMundos/JDACT