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domingo, 8 de junho de 2014

Uma História da Leitura. Alberto Manguel. «A mãe de “Borges” começou a ficar impaciente! … ‘não sei porque perdes o teu tempo com o anglo-saxão, em vez de estudares uma coisa útil, como latim ou grego!’ Por fim, ele voltou-se e pediu-me vários livros…»

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A Última Página
«(…) Eu queria viver entre os livros. Aos dezasseis anos, em 1964, encontrei emprego para o período depois das aulas na livraria Pygmalion, uma das três livrarias anglo-alemãs de Buenos Aires. A proprietária era Lily Lebach, uma judia alemã que tinha fugido aos nazis e se instalara em Buenos Aires no final da década de 30, e que me encarregava diariamente da tarefa de limpar o pó a cada um dos livros da livraria, método pelo qual ela julgava (acertadamente) que eu depressa ficaria a conhecer a existência e a sua localização nas prateleiras. Infelizmente, muitos dos livros aliciavam-me para além da mera limpeza; queriam que eu pegasse neles, os abrisse e inspeccionasse e, por vezes, nem mesmo isso bastava. Algumas vezes furtei um livro tentador; levava-o para casa comigo, escondido no bolso do casaco, pois não me bastava lê-lo; tinha de o possuir, de o chamar meu.
A romancista Jamaica Kincaid, ao confessar o mesmo crime de furtar livros da biblioteca na sua infância em Antígua, explicou que não era sua intenção cometer um furto; mas depois de ler um livro, não suportava a ideia de me separar dele. Também descobri em pouco tempo que não se lê apenas Crime e Castigo ou A Tree Grows in Brooklyn. Lê-se uma certa edição, um exemplar específico, reconhecível pelo grão do papel, rugoso ou suave, pelo seu odor, por um pedacinho rasgado na pâgïnaYY e uma mancha de café no canto direito da contracapa. A regra epistemológica para a leitura, estabelecida no século II, segundo a qual o texto mais recente substitui o anterior, visto que supostamente o contém, raramente tem sido aplicável no meu caso. No início da Idade Média, os escribas tinham o dever de corrigir os erros que detectassem no texto que copiavam, produzindo desta forma um texto melhor; para mim, no entanto, a edição na qual lia um livro pela primeira vez tornava-se a editio princeps, com a qual todas as outras tinham de ser comparadas. A imprensa deu-nos a ilusão de que todos os leitores de Dom Quixote lêem o mesmo livro. Para mim, mesmo hoje em dia, é como se a invenção da imprensa nunca tivesse acontecido, e cada exemplar de um livro permanece tão singular como a fénix.
No entanto, a verdade é, que determinados livros emprestam certas características a determinados leitores. Encontra-se implícita na posse de um livro a história das suas leituras prévias, ou seja, cada novo leitor é afectado por aquilo que imagina que o livro foi nas mãos dos seus predecessores. O meu exemplar em segunda mão da autobiografia de Kipling, Something of Myself, que comprei em Buenos Aires, tem um poema manuscrito na página de guarda, datado do dia da morte de Kipling. Será que o poeta repentista dono deste exemplar era um ardente imperialista? Um apreciador da prosa de Kipling que reconhecia o artista mesmo através da sua pátina jingoísta? O meu predecessor imaginário afecta a minha leitura, porque dou comigo a dialogar com ele, defendendo este ou aquele argumento. Um livro traz a sua própria história ao leitor.
A Sra. Lebach sabia decerto que os seus empregados surripiavam livros, mas suspeito que, enquanto ela achasse que não excedíamos certos limites tácitos, continuaria a permitir a prática desse crime. Uma ou duas vezes, quando me viu embrenhado nalgum livro recente, mandou-me meter mãos ao trabalho e guardar o livro para o ler em casa nos meus tempos livres. Passaram-me pelas mãos livros maravilhosos na sua livraria: José e os Seus Irmãos, de Thomas Mann, Herzog, de Saul Bellow, […] Confissões de Zeno, de Italo Svevo, os poemas de Rilke, de Dylan Thomas, de Emily Dickinson, de Gerard Manley Hopkins, os poemas de amor egípcios traduzidos por Ezra Pound, a epopeia de Gilgamesh.
Uma tarde, Jorge Luís Borges veio à livraria acompanhado pela mãe, uma velha senhora de oitenta e oito anos. Era famoso, mas eu lera apenas alguns dos seus poemas e histórias, e não me sentia avassalado pela sua literatura. Estava quase completamente cego, mas, mesmo assim, recusava-se a usar bengala, e passava a mão pelas estantes como se os seus dedos pudessem ler os títulos. Andava à procura de livros para estudar anglo-saxão, que era a sua paixão mais recente, e tínhamos encomendado para ele o dicionário de Skeat e uma versão anotada de Battle of Maldon. A mãe de Borges começou a ficar impaciente; Ó Jorginho, exclamou ela, não sei porque perdes o teu tempo com o anglo-saxão, em vez de estudares uma coisa útil, como latim ou grego! Por fim, ele voltou-se e pediu-me vários livros. Encontrei alguns deles, tomei nota dos títulos dos outros e então, quando já estava para se ir embora, perguntou-me se tinha os serões ocupados, porque (disse-o em tom de desculpa) precisava de alguém para lhe ler em voz alta, visto que a mãe se cansava muito depressa. Eu acedi». In Alberto Manguel, Uma História da Leitura, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-2339-3.

Cortesia Presença/JDACT

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Uma História da Leitura. Alberto Manguel. «Lembro-me de uma vez ter lido num livro qualquer que um homem chamado O. F., (será…) montando uma espécie de monstro alado, sobrevoava todos os países que queria e matava sem ajuda um elevado número de homens e gigantes»

jdact e cortesia de wikipedia

A Última Página
«(…) Penso que lia pelo menos de duas formas. Uma consistia em seguir, com a respiração suspensa, os acontecimentos e as personagens, sem pausas para reparar nos pormenores, com o ritmo acelerado da leitura muitas vezes a precipitar a história para além da última página quando li Rider Haggard, a Odisseia, Conan Doyle e o autor alemão de histórias do FarWest, Karl May. A outra consistia numa exploração cuidada, perscrutando o texto para compreender o seu sentido enredado, achando prazer nos meros sons das palavras ou nas pistas que as palavras não queriam revelar, ou no que eu suspeitava estar escondido no fundo da própria história, algo demasiado terrível ou maravilhoso para se poder olhar de frente. Este segundo tipo de leitura, que tinha algo a ver com a forma de ler romances policiais, descobri-o em Lewis Carroll, em Dante, em Kipling, em Borges. Também lia segundo o que julgava que o livro pretendia ser (classificado pelo autor, pelo editor, por outro leitor). Aos doze anos, li A Caça, de Chekhov, numa série policial e, tomando Chekhov por um escritor de policiais russo, li em seguida Senhora com Cãozinho, como se tivesse sido escrito por um rival de Conan Doyle, e gostei, embora achasse o enredo pouco elaborado. Samuel Butler conta uma história semelhante a respeito de um certo William Sefton Moorhouse, que julgou que estava a ser convertido ao cristianismo ao ler Anatomy of Melancholy, de Burton, que adquirira por engano, pensando tratar-se de Analogy, de Butler, livro que lhe fora recomendado por um amigo seu. Mas ficou bastante perplexo. Numa história publicada nos anos 40, Borges sugere que a leitura de A Imitação de Cristo, de Thomas à Kempis, como se tivesse sido escrito por James Joyce, seria uma renovação suficiente para aqueles ténues exercícios espirituais.
No seu Tractatus Theologico-Politicus de 1650 (denunciado pela Igreja Católica Romana como um livro forjado no inferno por um judeu renegado e pelo demónio), Espinosa tinha já observado: Acontece com frequência lermos em livros diferentes histórias em si mesmas semelhantes, mas que julgamos de forma muito diversa, de acordo com as opiniões que formámos dos autores. Lembro-me de uma vez ter lido num livro qualquer que um homem chamado Orlando Furioso, montando uma espécie de monstro alado, sobrevoava todos os países que queria e matava sem ajuda um elevado número de homens e gigantes, e outras fantasias como estas, que, do ponto de vista da razão, são obviamente absurdas. Li uma história muito semelhante em Ovídio, sobre Perseu, e também, na Bíblia, nos livros dos Juízes e Reis, sobre Sansão, que, sozinho e desarmado, matou milhares de homens, e sobre Elias, que voou pelos ares e, por fim, subiu ao céu num carro de fogo puxado por cavalos indómitos. Todas estas histórias são obviamente semelhantes, mas julgamo-las de formas muito diferentes. A primeira procurava apenas divertir, a segunda tinha um objectivo político, a terceira um objectivo religioso. Também eu, por muito tempo, continuei a atribuir objectivos aos livros que lia, imaginando, por exemplo, que Pilgrim's Progress, de Bunyan, me faria sermões, porque me tinham dito que se tratava de uma alegoria religiosa, como se eu tivesse a capacidade de escutar o que se passava na cabeça do autor no momento da criação e de obter provas de que ele estava mesmo a falar verdade. A experiência e algum senso comum ainda não me curaram completamente deste vício supersticioso.
Por vezes, os próprios livros eram talismãs: uma certa edição em dois volumes de Tristram Shandy, uma edição da Penguin de The Beast Must Die, de Nicholas Blake, um exemplar em mau estado de Annotated Alice, de Martin Gardner, que mandei encadernar (e me custou uma mesada inteira) numa livraria escusa. Lia estes livros com um cuidado especial e guardava-os para momentos especiais. Thomas à Kempis aconselhava os seus alunos a pegar num livro nas vossas mãos tal como Simeão, o Justo, pegou ao colo no Menino Jesus para o levar e o beijar. E quando tiverdes acabado de ler, fechai o livro e dai graças por cada uma das palavras saídas da boca de Deus; porque no campo do Senhor encontrastes um tesouro escondido. E São Bento, escrevendo numa altura em que os livros eram relativamente raros e dispendiosos, ordenou aos seus monges que segurassem se possível os livros que liam na mão esquerda, envolta na manga da túnica, e de joelhos; a mão direita deve estar descoberta para segurar as páginas e as voltar. As minhas leituras de adolescente não envolviam tal veneração profunda nem rituais tão meticulosos, mas estavam imbuídas de uma certa solenidade e importância secretas que não negarei agora». In Alberto Manguel, Uma História da Leitura, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-2339-3.

Cortesia Presença/JDACT

Uma História da Leitura. Alberto Manguel. «E certo que tudo o que sei deles hoje reside na presteza com que então me abri aos livros; porém, enquanto agora, conteúdo, tema e assunto são alheios ao livro, antes encontravam-se única e inteiramente dentro dele, não sendo mais externos ou autónomos do que são hoje em dia o número das suas páginas ou o papel»

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A Última Página
«(…) Nunca falava com ninguém sobre as minhas leituras; a necessidade de partilhar veio mais tarde. Na altura, eu era soberbamente egoísta e identificava-me completamente com os versos de Stevenson:

Este era o mundo e eu era rei;
para mim vinham as abelhas a zunir,
para mim voavam as andorinhas.

Cada livro era um mundo em si e nele eu procurava, refúgio. Embora me soubesse incapaz de inventar histórias como as que os meus autores preferidos escreviam, sentia que as minhas opiniões muitas vezes coincidiam com as deles e (usando a frase de Montaigne) comecei a andar muito atrás deles, murmurando: Apoiado, apoiado! Mais tarde, consegui dissociar-me da ficção contida nos livros; mas na infância e em grande parte da adolescência, o que o livro me dizia, por mais fantástico que fosse, era verdade na altura em que o lia e tão tangível como a matéria de que o próprio livro era feito. Walter Benjamin descreve uma experiência semelhante: O que os primeiros livros foram para mim - para recordá-lo teria primeiro de esquecer todo o restante conhecimento de livros. E certo que tudo o que sei deles hoje reside na presteza com que então me abri aos livros; porém, enquanto agora, conteúdo, tema e assunto são alheios ao livro, antes encontravam-se única e inteiramente dentro dele, não sendo mais externos ou autónomos do que são hoje em dia o número das suas páginas ou o papel. O mundo que se revelava no livro e o livro em si não eram nunca separáveis. Assim, em cada livro, também o seu conteúdo, o seu mundo, estavam palpavelmente lá, à mão. Mas, da mesma forma, este conteúdo e este mundo transfiguravam cada parte do livro. Ardiam dentro dele, resplandeciam dele; localizados não apenas na capa ou nas ilustrações, estavam encerrados nos títulos de capítulos e capitulares, parágrafos e colunas. Não se liam livros de ponta a ponta; vivia-se, residia-se entre as suas linhas e, ao voltar a abri-los após um intervalo, era-se apanhado de surpresa no lugar onde se tinha interrompido a leitura.
Mais tarde, adolescente na biblioteca pouco usada do meu pai em Buenos Aires (ele tinha mandado a sua secretária encher a biblioteca e ela comprara livros a metro e mandara-os encadernar à medida das prateleiras, de forma que os títulos no topo das páginas e, por vezes, até as primeiras linhas estavam cortados), fiz uma outra descoberta. Tinha começado a procurar na gigantesca enciclopédia espanhola Espasa-Calpe as entradas que eu julgava relacionadas com o sexo de uma forma ou de outra: Masturbação, Pénis, Vagina, Sífilis, Prostituição. Estava sempre sozinho na biblioteca, já que o meu pai apenas a utilizava nas raras ocasiões em que tinha um encontro marcado com alguém em casa e não no escritório. Eu teria doze, treze anos; estava todo enroscado numa das enormes poltronas, absorvido na leitura dos efeitos devastadores da gonorreia, quando o meu pai entrou e se instalou à secretária. Por momentos, fiquei aterrorizado com a ideia de que ele iria reparar no que eu estava a ler, mas apercebi-me então de que ninguém, nem sequer o meu pai, sentado a alguns passos de mim, podia penetrar no meu espaço de leitura, decifrar o que me estava a ser dito licenciosamente pelo livro que eu segurava nas mãos, e que nada, a não ser a minha própria vontade, poderia permitir a alguém sabê-lo. O pequeno milagre permaneceu silenciado, conhecido apenas por mim. Terminei o artigo sobre a gonorreia mais exultante do que chocado. Mais tarde ainda, na mesma biblioteca, para completar a minha educação sexual, li O Conformista, de Alberto Moravia, O Impuro, de Guy Des Cars, Peyton Place, de Grace Metalious, Main Street, de Sinclair Lewis, e Lolita, de Vladimir Nabokov.
Havia privacidade não apenas na leitura, mas também na decisão sobre o que ler, na escolha dos livros nas livrarias há muito desaparecidas de Telavive, de Chipre, de Garmisch-Partenkirchen, de Paris, de Buenos Aires. Muitas vezes escolhi livros pela capa. Houve momentos que recordo ainda agora: por exemplo, lembro-me de ver a sobrecapa de brilho mate dos Rainbow Classics (publicados pela World Publishing Company of Cleveland, de Ohio) e ficar encantado com as encadernações estampadas por baixo, saindo da livraria com Hans Brinker ou The Silver Skates (de que nunca gostei e que não cheguei a acabar), Mulherzinhas e Huckleberry Finn. Todos estes livros tinham introduções por May Lamberton Becker, intituladas … como surgiu este Livro, e o seu tom bisbilhoteiro ainda continua a parecer-me uma das formas mais excitantes de falar sobre livros. Assim, numa fria manhã de Setembro de 1880, com uma chuva escocesa a martelar nas janelas, Stevenson aproximou-se da lareira e começou a escrever, lia-se na introdução da Sra. Becker à Ilha do Tesouro. Aquela chuva e aquela lareira acompanharam-me durante todo o livro.
Recordo, numa livraria em Chipre, onde o navio em que viajávamos tinha atracado por alguns dias, uma montra cheia de histórias de Noddy, com as suas capas de cores berrantes, e o prazer de imaginar que ia construir a casa do Noddy com ele, usando uma caixa de blocos de construção de brincar representada na capa. (Mais tarde, sem vergonha nenhuma, deleitei-me com a série da The Wishing Chair, de Enid Blyton, que eu não sabia ter sido considerada sexista e snob pelos bibliotecários ingleses.) Em Buenos Aires descobri a série brochada do Robin dos Bosques, com o retrato de cada herói delineado a negro num fundo amarelo, e li as aventuras de piratas de Emilio Salgari, O Tigre da Malásia, os romances de Júlio Verne e The Mystery of Edwin Drood, de Dickens. Não me lembro de alguma vez ler os comentários às obras na contracapa para descobrir do que tratavam os livros; não sei se os livros da minha infância os tinham». In Alberto Manguel, Uma História da Leitura, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-2339-3.

Cortesia Presença/JDACT

sábado, 4 de janeiro de 2014

Uma História da Leitura. Alberto Manguel. «Anotar as impressões da leitura de Hamlet, ano após ano, escreveu Virginia Woolf, seria praticamente registar a nossa própria autobiografia, pois, à medida que ficamos a saber mais sobre a vida, Shakespeare vai comentando o que aprendemos»

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Ler para Viver. In Flaubert

A Última Página
«(…) A experiência das coisas tive-a em primeiro lugar através dos livros. Quando, mais tarde, me deparei com um acontecimento, circunstância ou personagem semelhantes àqueles sobre os quais tinha lido, o resultado era normalmente uma sensação algo perturbante mas desencantada de déjà vu, pois imaginava que o que se estava a passar nesse momento já me tinha acontecido em palavras, já tinha sido nomeado. O texto hebraico de pensamento sistemático e especulativo mais antigo que se conhece, o Sefer Yezirah, escrito no século VI, explica que Deus criou o mundo através de trinta e dois caminhos de sabedoria secretos, dez Sefirot, ou números, e vinte e duas letras. A partir dos Sefirot foram criadas todas as coisas abstractas; com as vinte e duas letras criaram-se todos os seres reais nos três estratos do cosmo, o mundo, o tempo e o corpo humano. O universo, na tradição judaico-cristã, é concebido como um Livro escrito, feito de números e letras; a chave para compreender o universo reside na nossa capacidade para ler estes números e letras adequadamente e conseguir o domínio das suas combinações, aprendendo assim a dar forma a alguma parte desse texto colossal, numa imitação do nosso Criador. (Segundo uma lenda do século IV, os eruditos talmúdicos Hanani e Hoshaiah estudavam o Sefer Yezirah uma vez por semana e, através da combinação acertada das letras, criavam um vitelo de três anos, que comiam ao jantar.) Os meus livros eram para mim transcrições ou glosas daquele outro Livro colossal. Num soneto, Miguel de Unamunos fala do Tempo, cuja fonte está no futuro; a minha vida de leitor dava-me essa mesma impressão de ir contra a corrente, de viver o que já tinha lido. A rua lá fora estava cheia de homens maus empenhados nos seus negócios escuros. O deserto, que não distava da nossa casa em Telavive, onde vivi até aos seis anos, era um prodígio, porque eu sabia que havia uma Cidade de Bronze enterrada debaixo da areia, do lado de lá da rua asfaltada. A gelatina era uma substância misteriosa que eu nunca tinha visto, mas que conhecia dos livros de Enid Blyton, e que nunca chegou a alcançar, quando finalmente a provei, a qualidade daquela ambrósia literária. Escrevi à minha avó, que vivia muito longe, a queixar-me de um problema sem importância, pensando que ela seria a fonte da mesma liberdade magnífica que os meus órfãos literários encontravam quando descobriam parentes há muito perdidos; em vez de me resgatar, ela enviou a carta aos meus pais, que acharam os meus queixumes vagamente divertidos. Eu acreditava em bruxaria e tinha a certeza de que um dia me seriam concedidos três desejos que inúmeras histórias me tinham ensinado a não desperdiçar. Preparei-me para encontros com fantasmas, com a morte, com animais falantes, com batalhas; fiz planos complicados para viajar para ilhas de aventura, nas quais Sinbad se tornaria meu amigo íntimo. Só quando, anos mais tarde, toquei pela primeira vez o corpo da pessoa amada é que me apercebi de que a literatura pode por vezes ficar aquém do acontecimento.
O ensaísta canadiano Stan Persky disse-me uma vez que para os leitores, deve haver um milhão de autobiografias, visto que se nos afigura encontrarmos, em cada livro, vestígios das nossas vidas. Anotar as impressões da leitura de Hamlet, ano após ano, escreveu Virginia Woolf, seria praticamente registar a nossa própria autobiografia, pois, à medida que ficamos a saber mais sobre a vida, Shakespeare vai comentando o que aprendemos. Para mim, era algo diferente. Se os livros eram autobiografias, eram-no antes do acontecimento, e eu reconhecia situações posteriores no que tinha lido em H. G. Wells, em Alice no País das Maravilhas, no lacrimoso Cuore de Edmondo De Amicis, nas aventuras de Bomba, o Menino da Selva. Sartre, nas suas memórias, confessa ter tido uma experiência semelhante. Comparando a flora e a fauna descobertas nas páginas da Enciclopédia Larousse com as suas correspondentes nos Jardins do Luxemburgo, descobriu que os macacos no jardim zoológico eram menos macacos, as pessoas nos Jardins do Luxemburgo menos pessoas. A semelhança de Platão, passei do conhecimento ao seu objecto. Encontrei mais realidade na ideia do que na coisa, porque aquela me tinha sido dada primeiro e como coisa. Foi em livros que encontrei o universo: resumido, classificado, rotulado, meditado, ainda cheio de força.
Ler forneceu-me uma desculpa para a privacidade ou talvez tenha dado um sentido à privacidade que me era imposta, visto que, durante toda a minha infância, depois de termos regressado à Argentina em 1955, vivi à parte do resto da minha família, a cargo da minha ama numa outra zona da casa. Nessa altura, o meu lugar de leitura preferido era o chão do meu quarto, deitado de bruços e com os pés enganchados numa cadeira. Mais tarde, a minha cama, pela noite dentro, tornou-se o lugar mais seguro e mais isolado para ler naquela região nebulosa entre a vigília e o sono. Não me recordo de alguma vez me ter sentido só; de facto, nas raras ocasiões em que me encontrava com outras crianças, achava as suas brincadeiras e conversas bem menos interessantes do que as aventuras e os diálogos que lia nos meus livros. O psicólogo James Hillman acredita que aqueles que leram histórias ou a quem foram lidas histórias na infância estão em melhor forma e têm um prognóstico mais favorável do que aqueles que têm ainda de ser familiarizados com a ficção [...] Chegando no início da vida, é já uma perspectiva sobre a vida. Para Hillman, estas primeiras leituras tornam-se algo vivido e experimentado, uma forma através da qual a alma se situa na vida. A estas leituras, e por esta razão, voltei repetidas vezes, e volto ainda.
Como o meu pai estava no serviço diplomático, viajávamos muito; os livros davam-me um lar permanente, um lar que habitava à minha vontade, em qualquer altura, por mais estranho que fosse o quarto onde tinha de dormir ou por mais ininteligíveis que fossem as vozes ouvidas do outro lado da minha porta. Muitas noites, acendia o candeeiro enquanto a minha ama trabalhava à sua máquina de tricotar eléctrica ou ressonava na cama em frente à minha e eu tentava chegar ao fim do livro que estava a ler e, simultaneamente, adiar o final tanto quanto possível, relendo algumas páginas, procurando uma parte que me agradara especialmente, verificando pormenores que suspeitava terem-me escapado». In Alberto Manguel, Uma História da Leitura, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-2339-3.

Cortesia Presença/JDACT

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Uma História da Leitura. Alberto Manguel. «… o tecelão a ler o desenho complicado de um tapete a ser tecido; o organista a ler várias pautas de música orquestradas na página; os pais a lerem no rosto do bebé sinais de alegria, medo ou surpresa; o adivinho chinês a ler as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga»

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Ler para Viver. In Flaubert

A Última Página
«(…) No entanto, estas revelações eram actos comuns de magia, menos interessantes porque alguém os tinha realizado por mim. Um outro leitor, talvez a minha ama, tinha-me explicado as formas e depois, de cada vez que as páginas se abriam para revelar a imagem deste exuberante menino, eu sabia o que as .formas debaixo dele queriam dizer. Havia nisto um certo prazer, mas depressa se esgotou. Faltava a surpresa. Então, um dia, da janela de um carro (o destino dessa viagem está esquecido), vi um cartaz ao lado da estrada. Não o devo ter visto durante muito tempo; talvez o carro tenha parado por um momento, talvez tenha abrandado o suficiente para eu poder ver, a pairarem em ponto grande, formas semelhantes às do meu livro, mas que eu nunca vira. No entanto, de repente, soube o que elas eram; ouvi-as na minha cabeça, o resultado de uma metamorfose de linhas pretas e espaços brancos numa realidade sólida, sonora é com sentido. Tinha feito tudo isto sozinho. Ninguém realizara a magia por mim. Eu e as formas estávamos sozinhos juntos, revelando-nos mutuamente, num diálogo em respeitoso silêncio. Ao conseguir transformar simples linhas em realidade viva, tornara-me todo-poderoso. Sabia ler.
Já não me lembro de qual era a palavra do cartaz desse passado distante (recordo vagamente uma palavra com vários ás), mas a impressão de subitamente ser capaz de compreender o que antes só podia ver permanece tão nítida hoje como naquela altura. Foi como adquirir um sentido inteiramente novo, de modo que a partir desse momento certas coisas não consistiam apenas no que os meus olhos viam, os meus ouvidos ouviam, a minha língua saboreava, o meu nariz cheirava, os meus dedos sentiam, mas também no que o meu corpo todo decifrava, traduzia, lia, em tudo aquilo a que dava voz. Os leitores de livros, em cuja família eu estava a entrar sem o saber (pensamos sempre que estamos sós em cada descoberta e que cada experiência, da morte ao nascimento, é aterradoramente singular), expandem ou condensam uma função que nos é comum a todos. Ler letras numa página é apenas uma das suas muitas manifestações. O astrónomo a ler um mapa de estrelas que já não existem; o arquitecto japonês a ler a terra onde uma casa vai ser construída para a proteger de forças malignas; o zoólogo a ler o rasto dos animais na floresta; o jogador de cartas a ler os gestos do seu parceiro antes de arriscar a carta decisiva; o dançarino a ler as notações do coreógrafo e o público a ler os movimentos do dançarino no palco; o tecelão a ler o desenho complicado de um tapete a ser tecido; o organista a ler várias pautas de música orquestradas na página; os pais a lerem no rosto do bebé sinais de alegria, medo ou surpresa; o adivinho chinês a ler as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante a ler às cegas o corpo da pessoa amada, à noite, entre os lençóis; o psiquiatra a ajudar os pacientes a lerem os seus próprios sonhos confusos; o pescador havaiano a ler as correntes do oceano, mergulhando a mão na água; o lavrador a ler no céu o tempo que vai fazer, todas estas pessoas partilham com o leitor de livros a capacidade de decifrar e traduzir signos.
Algumas destas leituras são influenciadas pelo conhecimento de que a coisa lida foi criada para este fim específico por outros seres humanos, notações musicais ou sinais de trânsito, por exemplo, ou pelos deuses, a carapaça da tartaruga, o céu nocturno. Outras são obra do acaso. Porém, em todos os casos, é o leitor que lê o sentido; é o leitor que reconhece a um objecto, lugar ou acontecimento uma possível legibilidade ou lha concede; é o leitor que tem de atribuir significação a um sistema de signos e em seguida decifrá-lo. Todos nos lemos a nós próprios e ao mundo à nossa volta para vislumbrarmos o que somos e onde estamos. Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase tanto como respirar, é uma das nossas funções vitais. Só aprendi a escrever muito mais tarde, quando tinha sete anos. Talvez pudesse viver sem escrever. Não acho que pudesse viver sem ler. Descobri que a leitura precede a escrita. Uma sociedade pode existir, e muitas o fazem, sem a escrita, mas nenhuma sociedade pode existir sem a leitura. Segundo o etnólogo Philippe Descola, as sociedades sem escrita têm um sentido linear do tempo, ao passo que nas sociedades letradas o sentido do tempo é cumulativo; ambos os tipos de sociedade se movimentam dentro destes tempos diferentes, mas igualmente complexos, através da leitura da multiplicidade de signos que o mundo tem para oferecer. Mesmo nas sociedades que registam a sua existência, a leitura precede a escrita; o escritor em potência tem de ser capaz de reconhecer e decifrar o sistema social de signos antes de os inscrever na página. Para a maior parte das sociedades letradas, para o Islão, para as sociedades judaicas e cristãs como a minha, para os antigos Maias, para as vastas culturas budistas, a leitura está na base do contrato social; aprender a ler foi o meu rito de passagem. Depois de ter aprendido a ler as letras, lia tudo: livros, mas também avisos, anúncios, as letras miudinhas nas costas dos bilhetes de eléctrico, cartas deitadas no lixo, jornais velhos apanhados debaixo do meu banco no jardim, grafitos, a contracapa de revistas nas mãos de outros leitores no autocarro. Quando descobri que Cervantes, na sua paixão pela leitura, lia até os pedaços de papel rasgado na rua, fui capaz de reconhecer exactamente o impulso que o dominava. Esta veneração do livro (em pergaminho, papel ou ecrã) é um dos fundamentos de uma sociedade letrada. O Islão leva esta ideia ainda mais longe: o Alcorão não é, apenas uma criação de Deus, mas também um dos Seus atributos, tal como a Sua omnipresença ou a Sua compaixão». In Alberto Manguel, Uma História da Leitura, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-2339-3.

Cortesia Presença/JDACT

Uma História da Leitura. Alberto Manguel. «O grande humanista Desidério Erasmo partilha com o amigo Gilbert Cousin uma piada do livro que está a ler, aberto no atril à sua frente. Ajoelhado por entre flores de aloendro, um poeta indiano do século XVII cofia a barba…»

Rapariga a ler, gustavadolphhenning / jdact

Ler para Viver. In Flaubert

A Última Página
«Com uma das mãos caída ao lado do corpo e a outra apoiando a cabeça, o jovem Aristóteles lê languidamente um pergaminho desenrolado no colo, sentado numa cadeira almofadada, com um pé por cima do outro. Exibindo umas lunetas encavalitadas no nariz aquilino, um Virgílio de turbante e barba volta as páginas de um volume rubricado, num retrato executado quinze séculos após a morte do poeta. Descansando num degrau largo, com o queixo apoiado ao de leve na mão direita, São Domingos está absorto no livro que tem aberto sobre os joelhos, alheado do mundo. Dois amantes, Paolo e Francesca, aconchegam-se debaixo de uma árvore enquanto lêem um verso que os conduzirá à perdição: Paolo, à semelhança de São Domingos, tem o queixo apoiado na mão; Francesca segura o livro aberto, marcando com dois dedos a página que jamais alcançarão. A caminho da escola de medicina, dois estudantes islâmicos do século XII param para consultar um dos livros que levam consigo. Apontando para a página da direita de um livro aberto no regaço, o Menino Jesus explica a sua leitura aos anciãos no Templo enquanto estes, atónitos e incrédulos, voltam em vão as páginas dos respectivos tomos em busca de uma refutação. Tão bela como em vida, observada por um atento cãozinho de regaço, a dama nobre milanesa Valentina Balbiani folheia as páginas do seu livro de mármore, na tampa de um túmulo que representa, em baixo-relevo, a imagem do seu corpo descarnado. Longe da cidade movimentada, por entre areia e penedos ressequidos, São Jerónimo, qual viajante idoso à espera do comboio diário, lê um manuscrito em formato de tablóide, sendo escutado por um leão que se encontra a um canto. O grande humanista Desidério Erasmo partilha com o amigo Gilbert Cousin uma piada do livro que está a ler, aberto no atril à sua frente. Ajoelhado por entre flores de aloendro, um poeta indiano do século XVII cofia a barba enquanto reflecte sobre os versos que acaba de ler em voz alta para melhor lhes captar o sabor, segurando o livro ricamente encadernado na mão esquerda. Junto a uma estante de prateleiras toscas, um monge coreano pega numa das oitenta mil placas de madeira da Tripitaka Koreanea, uma obra com sete séculos de existência, e segura-a na sua frente, lendo com atenção silenciosa. Estuda para atingir a quietude é o conselho dado pelo artista desconhecido do vitral que retrata o pescador e ensaísta Izaak Walton a ler um pequeno livro nas margens do rio Itchen, perto da Catedral de Winchester.
Uma Maria Madalena nua, bem penteada e aparentemente nada arrependida, deitada sobre um pedaço de tecido estendido sobre um penedo num ermo, lê um livro ilustrado de formato grande. Recorrendo ao seu talento de actor, Charles Dickens segura na mão um dos seus romances, de que se prepara para ler excertos a um público entusiástico. Apoiado num parapeito de pedra sobre o Sena, um jovem perde-se nas páginas de um livro (qual será?) que segura aberto à sua frente. Impaciente ou apenas aborrecida, a mãe segura um livro enquanto o filho, ruivo, tenta seguir as palavras com a mão direita na página. Jorge Luís Borges, cego, fecha os olhos para melhor ouvir as palavras de um leitor invisível. Numa floresta cheia de sombras, sentado num tronco coberto de musgo, um rapazinho segura com ambas as mãos um pequeno livro que está a ler em doce sossego, senhor do tempo e do espaço. Todos são leitores, e os seus gestos, a sua actividade, o prazer, responsabilidade e poder que obtêm na leitura partilho-os com eles. Não estou sozinho.
Descobri pela primeira vez que sabia ler aos quatro anos. Já tinha visto vezes sem conta as letras que sabia (porque mo tinham dito) serem os nomes das imagens debaixo das quais se encontravam. O menino desenhado em traços negros e grossos, com uns calções vermelhos e uma camisa verde (os mesmos tecidos vermelhos e verdes usados em todas as outras imagens do livro, cães e gatos e árvores e mães magras e altas), era também, de alguma forma, apercebi-me então, as formas negras e hirtas que se encontravam por baixo, como se o corpo do menino tivesse sido esquartejado em três figuras nítidas: um braço e o tronco, b; a cabeça separada, tão perfeitamente redonda, o; e as pernas, bambas e pendentes, y. Desenhei uns olhos no rosto redondo, e também um sorriso, e preenchi o círculo oco do tronco. Mas havia mais: eu sabia que aquelas formas não só reflectiam o menino que se encontrava por cima delas, mas que também me podiam dizer exactamente o que o menino estava a fazer, com os braços esticados e as pernas afastadas. O menino [boy] corre, diziam as formas. Não estava a saltar, como eu poderia ter julgado, ou a fingir que estava imobilizado ou a jogar um jogo cujas regras e objectivos me eram desconhecidos. O menino corre». In Alberto Manguel, Uma História da Leitura, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-2339-3.

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