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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Contos Proibidos. Rui Mateus. «É verdade que [o PC] foi um dos seus motores essenciais, mas não foi o único... De facto, a maior parte dos aderentes não tinha posição ideológica definida»

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Os anos da inocência, 1944-1974
«(…) Para ele, o modelo de verdadeiro socialismo democrático, que se propunha aplicar em Portugal, deveria ser muito diferente daquele conduzido pela família social-democrata, a que pediria adesão um mês depois, e passava por uma sociedade na qual os meios de produção [seriam] colectivizados ao serviço de todos, ao mesmo tempo que os poderes de decisão [seriam] democraticamente controlados pela base. Vivíamos numa época em que os primeiros fundadores do movimento socialista contemporâneo português, com relevo para Mário Soares, defendiam um papel subalterno em relação ao Partido Comunista. O que em grande parte só não acontecia por razões que, penso, se prendiam mais com a arrogância e miopia de Álvaro Cunhal e com a sua, já então, gerontocrática direcção política, do que com a oposição lúcida dos percursores do PS. Nas três décadas que separam a ditadura militar de 1926 da candidatura do general Humberto Delgado, em 1958, a oposição portuguesa seria exclusivamente dominada pelos comunistas, sobretudo após a reorganização do Partido Comunista Português liderada por Álvaro Cunhal, em 1941. O total afundamento dos socialistas portugueses após a implantação da República, e a ausência de outras alternativas democráticas credíveis, impediriam que a vitória dos Aliados na Segunda Grande Guerra jogasse a favor da implantação de um regime democrático em Portugal. Os grupos de oposição ao regime salazarista encontravam-se totalmente dispersos e destituídos de objectivos. As suas poucas iniciativas não encontrariam o menor eco junto dos portugueses e todos os contactos com forças democráticas internacionais permaneceriam interrompidos.
As organizações de oposição à ditadura, como Movimento de Unidade Nacional Anti Fascista (MUNAF) criado em 1943 e, depois, o Movimento de Unidade Democrática (MUD), eram impulsionados pelo Partido Comunista e não resistiriam à tentação de apressarem a queda da ditadura por métodos violentos ao mesmo tempo que, utilizando o nome de alguns democratas, aspiravam a uma vida legal que proclamava a mudança pela via eleitoral. Assim, o ex-ministro da 1ª República e prestigiado grão-mestre da maçonaria, general Norton de Matos, enquanto presidente do
MUNAF encabeçaria em Agosto de 1945 o falhado golpe de estado constituído por
oficiais fiéis ao Partido Comunista e reapareceria, em 1949, como candidato às eleições
presidenciais sob a bandeira da «Oposição Democrática Unificada». O MUD,
entretanto, tinha sido dissolvido no ano anterior, em 1948, após várias tentativas falhadas de golpes de estado e revoltas militares. O longo período de isolamento internacional dos socialistas e a impotência dos grupos da chamada oposição democrática para se autonomizarem em relação aos comunistas impediria os aliados de descortinarem no nosso país a existência de forças democráticas alternativas e o próprio MUD juvenil seria acusado alguns anos mais tarde de ser a emanação pura e simples do Partido Comunista.
A situação de marginalidade e de profundas contradições em que vivia a chamada oposição democrática seria exemplarmente tipificada por um dos seus dirigentes que garante poder afirmar, com conhecimento de causa, que [aquele movimento juvenil] não o foi, apesar de um número dos seus dirigentes estar ligado ao Partido Comunista. É verdade que [o PC] foi um dos seus motores essenciais, mas não foi o único... De facto, a maior parte dos aderentes não tinha posição ideológica definida e situava-se numa perspectiva unitária antifascista! É óbvio que, no limiar da guerra fria, entre o brilhante golpe estratégico de Salazar posicionando-se, aos olhos dos aliados vencedores, a Grã-Bretanha e os EUA, como um bastião da luta contra o comunismo e as afirmações do pequeno grupo de abencerragens, sem qualquer influência real no País de que a oposição a Salazar era constituída na sua maior parte por aderentes que não tinham posição ideológica definida e se situavam numa perspectiva unitária antifascista, era mais convincente a posição do matreiro ditador». In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Contos Proibidos. Rui Mateus. «Existiam então relações com a IS de pura camaradagem [sem] nenhum compromisso nem nenhuma ligação orgânica»

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Os anos da inocência, 1944-1974
«(…) Em Janeiro de 1970, Manuel Tito Morais esclarecia-me de que a ASP não é filiada na Internacional Socialista, havendo sérias reticências da parte de alguns companheiros nossos, e com razão, a filiarmo-nos numa organização que toma atitudes um pouco estranhas na política internacional. Contudo, apesar de não sermos filiados eles estão sempre dispostos a ajudar-nos e alguma coisa têm já feito para desmascaração do marcelismo, influindo até junto dos governos ocidentais. Evidentemente que isto que lhe digo é inteiramente confidencial e serve só para o informar da nossa posição... Mas para muitos outros, até 1969, a ASP tinha uma carga social democrata que não agradava a muitos sectores da esquerda [que] para ingressarem na organização de Mário Soares colocaram condições. Defendiam o marxismo como inspiração teórica predominante contra qualquer tentação social-democrata.
Em 1970 a Internacional Socialista examina as suas ligações à Acção Socialista Portuguesa, por pressão de alguns partidos com responsabilidades governamentais, entre os quais se conta o SPD, alarmados com a desproporção entre o discurso dos seus dirigentes e o exíguo apoio popular demonstrado pela CEUD. Por outro lado, Marcello Caetano, convencido das suas boas relações com a administração do Presidente Nixon, tenta convencer os outros parceiros europeus da NATO de que o seu regime irá evoluir progressivamente para uma democracia política. O relatório, de 8 de Março de 1971, da viagem que o então deputado à Assembleia Nacional, Manuel José Homem Mello, efectuara à RFA, a convite do governo alemão, enviado a Marcello Caetano, evidencia isso mesmo. Segundo este antigo caetanista, no encontro organizado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão com o director das relações internacionais do Partido Social-Democrata alemão, Hans Eberhard Dingels, este revelou imediatamente estar a par da situação portuguesa, referindo acreditar na honestidade de processos e no desejo de evoluir manifestado pelo presidente Marcello Caetano. Ainda segundo Homem Mello, Dingels aconselhara Mário Soares a moderar os ímpetos, afirmando-se partidário e admirador convicto da experiência política portuguesa em curso que, se viesse a falhar, só poderia ter como consequência a tragédia fascista ou a ditadura comunista.
Tudo indica que Caetano seria convencido pelos seus conselheiros de que os argumentos usados por Salazar em 1945 surtiriam efeito vinte e cinco anos depois entre os sociais-democratas do centro e norte da Europa, conhecidos como eram pelas suas fortes tradições anti-comunistas. Mas, acontece que apesar de ter encontrado alguma receptividade, como revela Homem Mello, a oposição à política colonial desenvolvida por fortíssimos lobbies norte-americanos e a posição dos governos sociais-democratas da Escandinávia, a juntar aos já mais do que evidentes avanços militares e diplomáticos dos movimentos de libertação em Moçambique e na Guiné, contribuiriam para impedir que a história se repetisse.
Nesse ano, após reunião realizada em Paris, no mês de Maio, para eleger a sua comissão directiva (seriam eleitos para a CD da ASP, Tito Morais, organização, Mário Soares, relações internacionais, Ramos Costa, tesouraria, Gil Martins, imprensa e Fernando Loureiro e Rui Mateus, juventude), a ASP decidiria fazer uma consulta aos seus parcos militantes sobre a clarificação exigida pela IS. Manuel Tito Morais, então o principal responsável pela organização, admite mesmo existir um problema com a Internacional Socialista. Existiam então relações com a IS de pura camaradagem [sem] nenhum compromisso nem nenhuma ligação orgânica. Mas, somos solicitados para esclarecer a nossa posição [não obstante as] muitas incógnitas no campo ideológico. Para Manuel Tito Morais a nossa adesão [implicaria] transformar a ASP em Partido, apesar de ele ter, então, as maiores dúvidas de que sejamos capazes de o fazer, considerando um partido a sério, que não seja uma mistificação. O então responsável pelas relações internacionais tinha uma posição semelhante, se bem que muito menos sincera, que a de Manuel Tito Morais. Era claramente influenciada pelos mitos anti-social-democratas do PCP e da esquerda francesa de então, camuflando as caraterísticas do burguês respeitável e do enfant gaté que era, não lhe satisfazendo nenhum dos modelos socialistas [então] em aplicação no mundo, uma vez que acusava as experiências para-socialistas dos sociais-democratas que, sozinhos ou através de coligações, conquistaram o poder em vários países da Europa Ocidental…, de falta de consequência e de vigor doutrinário que os conduziu quase sempre à situação de leais gestores do capitalismo». In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

Contos Proibidos. Rui Mateus. «Em 1964, com Ramos Costa e Tito Morais no exílio, e os grupos de Lisboa, do Porto e de Coimbra, animados por homens como José Magalhães Godinho…»

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Os anos da inocência, 1944-1974
«(…) A precursora do Partido Socialista não tinha qualquer passado histórico. Nascera na década de 60 um pouco com o quem regista uma patente por iniciativa de um grupo de conspiradores de operacionais na sua maioria ligados à Maçonaria, e de alguns teóricos influenciados pelo PCP, como foi o caso de Salgado Zenha e do próprio Vitorino Magalhães Godinho. A evolução teórica do movimento, mais de três décadas após a sua constituição, é assim essencialmente caracterizada mais por razões empíricas de conveniência dos seus operacionais do que pelas teses dos seus ideólogos ou pelos princípios doutrinários que emanam do socialismo democrático. Esta caracterização, que viria a ficar célebre quando o líder da oposição, Francisco Sá Carneiro, acusou o então primeiro-ministro Mário Soares de meter o socialismo na gaveta com a finalidade de se manter no poder através de uma coligação com o partido democrata-cristão, CDS, verifica-se frequentemente na prática seguida desde 1964. Seria mesmo motivo de algum desdém por parte dos sociais-democratas norte-europeus que consideravam verdadeiramente ridícula a constante necessidade de demarcação dos socialistas portugueses em relação à social-democracia, a cuja família queriam pertencer embora afirmassem ser socialistas democratas e não sociais-democratas. Era um maneirismo influenciado por François Mitterrand, que a Internacional Socialista considerava uma expressão de retórica e pura hipocrisia, com o objectivo de parecerem mais progressistas aos olhos do mundo. Era aliás um sintoma típico do Sul da Europa, que um proeminente político norte-americano, anos mais tarde,comentaria com ironia, em termos semelhantes aos de Sá Carneiro.
Mas não obstante a subtil distinção e a demarcação progressista dos seus principais dirigentes, a verdade é que a adesão dos socialistas portugueses à Internacional Socialista representa o ponto mais alto do movimento no período que antecedeu o 25 de Abril de 1974. Na história do PS, a sua filiação internacional sobressai destacadamente da manifesta pobreza do seu passado. O PS, sobrevivente apagado dos anos 30, que não resistiu, como organização autónoma, à repressão e clandestinidade, que no final da Segunda Grande Guerra era constituído apenas por um pequeno grupo de abencerragens, sem qualquer influência real no País.
Em 1964, com Ramos Costa e Tito Morais no exílio, e os grupos de Lisboa, do Porto e de Coimbra, animados por homens como José Magalhães Godinho, Gustavo Soromenho, Raul Rego, Salgado Zenha, José Ribeiro Santos, Catanho Menezes, António Macedo, Mário e Carlos Cal Brandão, Álvaro Monteiro, Costa Melo, Fernando Vale, António Arnaut, António Campos e mais uma escassa centena de esforçados militantes, espalhados pelo País, formou-se a Acção Socialista Portuguesa. Iniciaram-se então os primeiros contactos internacionais. Em 1969, na falsa primavera caetanista, a ASP dinamizou uma campanha eleitoral semilegal e completamente frustrante, a CEUD. Era apenas um embrião. Porém, em 1972, no Congresso de Viena, a ASP é admitida como partido membro na Internacional Socialista. De 1964 a 1972, e mesmo até 1974, só dois acontecimentos de relevo, ambos influenciados do exterior, teriam lugar na história do movimento: a entrada na Internacional Socialista em 1972 e a fundação do Partido Socialista em Bad Munstereifel, na República Federal da Alemanha, em 1973, sob os auspícios da Fundação Friedrich Ebert. Pelo meio só a frustrante dinamização da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática em 1969. No entanto, esta filiação, quer pela ausência de suporte popular de movimentos de cariz socialista quer pela sua evidente falta de credenciais ideológicas, seria vital para a sobrevivência do Partido Socialista. À sua volta iriam desenrolar-se as principais e quase únicas actividades do movimento socialista português. Manuel Tito Morais e Francisco Ramos Costa seriam os elementos chave para o lançamento internacional quer da ASP quer do PS e foi por seu intermédio que Mário Soares veio a estabelecer as suas primeiras relações internacionais pelo menos na área da esquerda. Apesar dessa realidade, subsistia um complexo de inferioridade dos dirigentes socialistas em relação ao PC, que os levava a fazer declarações mais para agradar à esquerda festiva pequeno-burguesa e sem qualquer noção dos acontecimentos históricos em que participavam (Tony Benn (The End of an Era - Diaries 1980-1990, p. 108, Arrow Books, Londres, 1994, diria, após um encontro com Mário Soares em Lisboa, tê-lo achado, ao contrário do que esperara, um pobre vaidoso sem uma verdadeira noção dos acontecimentos históricos em que participava)». In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Contos Proibidos. Rui Mateus. «A corajosa campanha de Humberto Delgado, no final dos anos 50, criara uma grande esperança no seio da maioria dos portugueses. O primeiro núcleo de Londres da Acção Socialista foi lançado no início de 1970 por mim, com Alberto Lagoa, Carlos Alves, Pedro Ferreira Almeida, …»

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Os anos da inocência, 1944-1974
«(…) Apesar do impacto da cultura americana na minha formação e das insistências da minha família americana, só não fiquei então nos Estados Unidos por me recusar a fazer serviço militar, que me obrigaria a um estágio na Guerra do Vietname. Após o meu regresso a Portugal em finais de 1963, senti que a obsessão com as guerras coloniais tinha mergulhado o nosso país num clima de indescritível isolacionismo e histeria. Senti enorme dificuldade em falar com as pessoas da minha geração, para quem falar das minhas experiências na América era o mesmo que falar de ficção científica. Anos mais tarde, viria a notar a curiosa coincidência de Humberto Delgado, cuja campanha eleitoral tanto marcara as minhas opções políticas, também ter compreendido pela primeira vez o significado da democracia durante a sua estada nos Estados Unidos. Após a inspecção militar consegui autorização para uma viagem a Inglaterra de onde decidi não regressar a Portugal. Tinha então vinte anos e aquele país vivia um excitante período de euforia libertária e de criatividade. O governo trabalhista de Harold Wilson, de que James Callaghan era então ministro do Interior, fechava os olhos aos que se recusavam a participar na Guerra do Vietname e, no caso português, nas guerras coloniais. Embora normalmente não oficializasse a concessão de asilo político aos refractários e desertores norte-americanos e portugueses que iam chegando à Grã-Bretanha, permitia o prolongamento dos seus vistos de estada, mesmo com passaportes caducados, até que ao fim de quatro anos pudessem ser considerados residentes naquele país. No seio dos portugueses, onde proliferavam minúsculos grupos de extrema-esquerda, a única actividade democrática de relevo organizava-se então, sem exigências de rigidez político-partidária, à volta do jornalista e escritor António Figueiredo, antigo companheiro de Humberto Delgado e mais conhecido pelas suas crónicas na BBC. Pessoa muito respeitada por ingleses e portugueses em geral, foi graças à amizade que estabeleci com ele e aos seus contactos com o Labour Party que foi possível criar, em Londres, o primeiro núcleo organizado da Acção Socialista Portuguesa no estrangeiro. Mas, apesar da sua desinteressada colaboração e de se considerar socialista, António Figueiredo nunca aderiria à Acção Socialista e só entraria para o Partido Socialista após o 25 de Abril. O primeiro núcleo de Londres da Acção Socialista foi lançado no início de 1970 por mim, com Alberto Lagoa, Carlos Alves, Pedro Ferreira Almeida, Eduardo Silva e, mais tarde, Aurea Rego, José Neves e Seruca Salgado.
Em Roma estavam Tito Morais e Gil Martins, em França Mário Soares, Ramos Costa, Coimbra Martins, Liberto Cruz e, mais tarde, Jorge Campinos e, na Bélgica, Bernardino Gomes. O Fernando Loureiro vivia na Suíça e na Alemanha estavam o Carlos Novo, o Desidério Lucas do Ó, o Carlos Queixinhas e o Gomes Pereira. Em 1971 fui viver para a Suécia onde lançaria um novo núcleo com metalúrgicos da construção naval dos estaleiros da Kockums, entre os quais Mário Nobre, Armindo Carrilho e o José Matos. Estes e mais ou menos meia centena de pessoas residentes em Portugal constituíam então a totalidade do movimento socialista português embora, anos mais tarde, num sintomático gesto da grande maleabilidade histórica que tem caracterizado o Partido Socialista, a lista de fundadores fosse refeita para não ferir susceptibilidades, passando a integrar cento e onze nomes. Foi-me então atribuído o número quarenta e três, embora à data da minha adesão não existissem na ASP, que precedeu o Partido Socialista, mais de vinte elementos.
A corajosa campanha de Humberto Delgado, no final dos anos 50, criara uma grande esperança no seio da maioria dos portugueses. Era a primeira vez, desde o fim da II Guerra Mundial, que simultaneamente o ditador Salazar, o Partido Comunista e a generalidade dos portugueses verificavam ser possível substituir a ditadura por um regime pluralista, semelhante ao dos outros países da Europa Ocidental. A humilhante expulsão de Portugal de Goa, Damão e Diu em 1961e o início das lutas armadas de libertação na Guiné, em Angola e Moçambique, em simultâneo com a ignorante teimosia de Salazar em não querer compreender os ventos de mudança da descolonização, conduziriam inevitavelmente ao êxodo de dezenas de milhares de jovens portugueses para uma oposição activa à ditadura, longe do alcance da polícia política (PIDE), e ao crescente isolamento internacional do país. Por outro lado, a crescente contestação maoista ao comunismo soviético viria a pôr fim ao monopólio que o PC detinha sobre a oposição portuguesa. Existiam, finalmente, condições para o aparecimento de um partido socialista em Portugal, apesar do clima político, então dominado pela histeria do terrorismo no Ultramar, não parecer favorável à criação de estruturas organizadas. O nascimento da Acção Socialista, em 1964, representa assim um acto de grande intuição política, que só a dedicação militante de Manuel Tito Morais, a generosidade e os contactos internacionais de Francisco Ramos Costa e o conhecido optimismo de Mário Soares possibilitariam. Os ataques de que foi alvo do PC, dos inúmeros grupos de extrema-esquerda e do próprio governo, indicavam a importância que tal passo representara». In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de DQuixote/JDACT

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Contos Proibidos. Rui Mateus. «Tinha aberto um colégio particular na cidade, o Colégio Moderno, onde eu então passaria a estudar. Acontece que o seu director e meu professor de Português, era ferozmente anti-salazarista e o ambiente no seio do colégio para a época…»

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Os anos da inocência, 1944-1974
«(…) Tinha vinte e três anos quando, em 1967, tive o meu primeiro contacto com a Acção Socialista Portuguesa, constituída na Suíça, três anos antes, por Francisco Ramos Costa, Manuel Tito Morais e Mário Soares. A minha actividade política até então não passara de uma espécie de aprendizagem juvenil, no final dos anos 50, com grupos de oposicionistas locais, sobretudo comunistas e republicanos da cidade da Covilhã, onde nasci em 1944 e vivi até aos 17 anos. Era esporadicamente convidado, um pouco como mascote, de tertúlias anti-salazaristas de um grupo de homens que tinham, pelo menos, o dobro da minha idade e, como único elo entre si, o gosto de boas jantaradas e o ódio ao regime. Contudo, não sei bem a origem exacta dos meus sentimentos anti-salazaristas, até porque no seio da minha família pouco se falava de política. O meu pai era um católico devoto e, na juventude, tinha pertencido à Legião Portuguesa. Não por razões ideológicas, conforme viria a apurar anos mais tarde, mas porque tal fazia parte das regras do seu círculo de amigos que, naquele tempo, constituíam a classe média dominante daquele que chegou a ser um dos mais importantes centros industriais do País. Imperava a força do dinheiro e das grandes fortunas rapidamente acumuladas durante a guerra. Enquanto fui crescendo, num ambiente imensamente feliz e despreocupado, nunca vi os meus pais participarem em qualquer tipo de actividades políticas. Eram um perfeito modelo da reduzida classe média que o regime salazarista produzira. A minha mãe, hoje [na altura…] com 82 anos, vivia mais preocupada com a educação dos seus quatro filhos e com o bem-estar da família embora, ao contrário do que acontecia com meu pai, não fosse muito dada às práticas da Igreja. Depois de ter sido comerciante, durante os primeiros anos da minha infância, o meu pai associar-se-ia a uma empresa de tecelagem que, em virtude da adesão de Portugal à EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre), viria a conhecer um período de grande prosperidade, exportando a quase totalidade da sua produção. À semelhança do que acontece em muitas famílias, eu idolatrava o meu irmão mais velho, mas a nossa relação seria interrompida quando, a partir dos doze anos, ele foi estudar para Lisboa. Naquele tempo só era possível estudar no liceu local até ao segundo ano. A minha irmã tinha menos cinco anos do que eu e o meu irmão mais novo menos dez. Eu desejava ardentemente seguir as pisadas do meu irmão mais velho e estudar em Lisboa, mas logo que iniciei o primeiro ciclo passou a ser possível estudar no liceu da Covilhã até ao quinto ano. Ainda pensei que teria uma oportunidade quando, no início do terceiro ano, me envolvi numa pequena briga como filho de um deputado da União Nacional. Numa situação de evidente injustiça só eu seria punido com quinze dias de suspensão tendo o meu pai decidido tirar-me do liceu. A minha esperança de ir para o Colégio Portugal, na Parede, onde estava internado o meu irmão não seria entretanto concretizada. Tinha aberto um colégio particular na cidade, o Colégio Moderno, onde eu então passaria a estudar. Acontece que o seu director e meu professor de Português, era ferozmente anti-salazarista e o ambiente no seio do colégio para a época agradavelmente progressista. Quando Humberto Delgado visitou a Covilhã em campanha eleitoral, tinha eu apenas catorze anos. A sua caravana eleitoral foi desviada pela polícia para evitar a sua entrada na cidade pelo local onde o aguardava a maior multidão que eu jamais vira concentrada. Na cidade sentia-se uma grande tensão mas também grande entusiasmo e esperançae, sem entender muito bem o que estava em jogo, vivi intensamente aquela curta campanha distribuindo panfletos e manifestos de porta em porta. Não me recordo dos discursos, mas creio que foi então que se iniciou a minha paixão pela política. Três anos depois, seguindo as pisadas de meu irmão mais velho, obtive uma bolsa do American Field Service para estudar e viver com uma família norte-americana na pequena cidade de Cedar Rapids, no midwest dos Estados Unidos. Com esta família, com o seu filho Jon, da minha idade, e a filha Toni, dois anos mais nova, e com os meus professores e colegas da Thomas Jefferson High School aprenderia o á-bê-cê da democracia e a felicidade de viver numa sociedade livre e descomplexada. As gentes com quem ali convivi e com quem, em muitos casos, trinta e cinco anos depois, ainda mantenho estreitas relações, tinham uma prática de vida na sua comunidade e convicções baseadas na liberdade, na igualdade de oportunidade se na defesa intransigente dos direitos humanos que, sem o afirmarem, tem mais que ver como socialismo democrático descomplexado em que acredito, do que as expressões panfletárias de muitos
dos nossos socialistas oficiais. Vivi, pela TV, a fascinante experiência do presidente John Kennedy, que viria a conhecer no Verão de 1962 nos jardins da Casa Branca em recepção por ele oferecida aos bolseiros finalistas do American Field Service. Seriam, aliás, John Kennedy, Olof Palme e Leopold Senghor as principais referências políticas da minha juventude. Embora em condições tão diferentes e condicionados por realidades tão distintas desenvolveram, cada um à sua maneira, experiências de progresso, justiça social e cultura que permanecem a esperança do socialismo democrático neste fim de século (XX). Tive a invulgar honra de conhecer os três, se bem que em épocas e de maneiras diferentes. O meu contacto com Kennedy, no meio de estudantes ávidos de o conhecer, foi meramente circunstancial, mas para mim a sua carismática liderança representava a juventude, o humor e o informalismo que tanto iria marcar o estilo dos novos dirigentes sociais-democratas europeus dos anos 70. Com a sua Aliança para o Progresso parecia querer quebrar com o estilo pesado da diplomacia dos anos 40, criando esperanças renovadas nos povos do Terceiro Mundo que lutavam pela sua autodeterminação. Também não disfarçava a sua simpatia pela social-democracia europeia e parecia disposto a repensar argumentos e posições tradicionais para pôr fim ao avanço comunista [tendo] muitos dos patriotas liberais que se sentiram intensamente atraídos pela mensagem de Kennedy pertencido à Central Intelligence Agency». In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de DQuixote/JDACT

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Contos Proibidos. Rui Mateus. «Liberdade, Justiça e Transparência são sinónimos de Democracia. E sem esses ingredientes essenciais o regime português não passará de uma democracia com pés de barro. … a máxima de Séneca: ‘quem, podendo, não manda que o delito se não faça, manda que se faça’»

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Do triunfo da política ao estado dos juízes. Memórias de um partido desconhecido
«(…) Nos Estados Unidos também sopram ventos de mudança e, quando o 25 de Abril acontece em Portugal, já a administração republicana de Richard Nixon está ferida de morte com o caso Watergate. Quando James Carter e Walter Mondale lançam a sua plataforma eleitoral de cooperação internacional e de defesa dos Direitos Humanos, em 1976, Willy Brandt prepara-se para ser eleito presidente da Internacional Socialista, com base num programa de actividades não muito diferente dos valores proclamados pelos democratas americanos e com a firme intenção de pôr fim ao eurocentrismo, dando início a uma nova fase de cooperação internacional entre socialistas democráticos, que alcançasse todos os continentes. A Revolução Portuguesa tomara-se um marco essencial para a compreensão dos grandes acontecimentos políticos mundiais da segunda metade do século XX, se bem que os políticos portugueses, que pouco tinham feito para que o 25 de Abril acontecesse, também não a soubessem promover, nem conseguissem dela tirar os louros que, por direito próprio, Portugal merecia. A transformação pacífica de Portugal num país livre e democrático foi um acontecimento não só inédito como exemplar, que viria a contribuir de forma absolutamente decisiva para a falência de inúmeros regimes totalitários em África, na América Latina e no próprio Leste Europeu e para um desanuviamento da tensão nas relações internacionais. A descolonização total do Continente Africano e os processos de democratização na Península Ibérica e na América Latina seriam o primeiro resultado da Revolução de Abril. O fim do apartheid e das ditaduras comunistas no Leste Europeu, pela via do diálogo e do pluripartidarismo, seriam também consequência da vitória das forças democráticas, primeiro em Portugal, depois, como reflexo dessa vitória, encontrariam força suficiente no seio da Internacional Socialista e no seio da NATO para rejeitar soluções de submissão unilateral nos chamados diálogos Leste Oeste e Norte Sul.
Na base da força moral das forças democráticas, perante os graves conflitos entre o Leste e o Oeste e na escolha da via para a libertação dos Povos, nos anos 80, estaria sempre presente o exemplo português a que André Malraux chamaria a primeira vitória dos mencheviques sobre os bolcheviques. Bastaria referir, a este propósito, a situação de ruptura a que quase se chegou no seio da NATO por causa do regime sandinista na Nicarágua, sobre as propostas conducentes a um processo de desarmamento unilateral na Europa Ocidental e sobre um eventual apoio europeu a formas de luta armada a conduzir por países da Linha da Frente na África Austral, como forma de pôr fim ao regime do apartheid na África do Sul. Seria o exemplo da moderação da vitória dos mencheviques em Portugal que, na maior parte dos casos, mesmo quando a revolução portuguesa já parecia esquecida, cimentaria as decisões de bom senso que acabariam por prevalecer e moderaria os ímpetos revanchistas dos republicanos norte-americanos e os ataques de pacifismo serôdio de alguns socialistas europeus. Portugal esteve no epicentro de uma grande ameaça à paz tendo a solidariedade internacional, que nos faltou durante tantos anos, finalmente funcionado. Entre as várias opções que se colocariam aos capitães de Abril e as várias receitas preconizadas para Portugal prevaleceria o bom senso. Mas os partidos políticos e seus principais dirigentes rapidamente desperdiçariam este enorme património, em lutas intestinas e com vaidades provincianas.
Hoje, visto de fora para dentro, Portugal regressou ao seu estatuto de país insignificante e receptor. Não foram conseguidos os grandes objectivos da Revolução de Abril e o país encontra-se entre a Europa e a mediocridade. Parece que o povo português não consegue libertar-se do fatalismo da I República. Este meu livro de memórias, assim o espero, é também uma contribuição contra esse fatalismo. O chamado caso do fax de Macau ou caso Emaudio dar-me-ia o último argumento de peso para escrever este livro. A propósito de um conflito, em nada diferente dos conflitos que devassam o interior dos partidos políticos portugueses e que se prendem com situações de poder; a propósito de um financiamento político relativamente insignificante e em nada, a não ser no montante, diferente dos que têm sido feitos ao longo dos últimos vinte anos a partidos políticos e organizações afins, confundiu-se a árvore com a floresta e iniciou-se a investigação à corrupção em Portugal de tal forma que, ao contrário do que tem acontecido noutros países europeus, se inviabilizaria o conhecimento da verdade e, como tal, o combate à corrupção. Em vez de se optar por um esclarecimento idóneo e completo, a que os portugueses têm direito, sobre o estado da Nação em matéria de tráfico de influências e de corrupção, cortando o mal pela raiz ou, caso se verificasse que a verdade poderia ser fatal, a Assembleia da República em acto público entendesse fazer um acto de contrição para bem da democracia, criando moratórias e regras novas, o Ministério Público parece ter assumido a responsabilidade de definir o interesse nacional. Produzindo uma acusação sem provas numa total inversão de valores e, mesmo admitindo a convicção do investigador em relação a um crime que não existiu, ignorando a máxima de Séneca: quem, podendo, não manda que o delito se não faça, manda que se faça.
Não há Democracia sem a participação dos cidadãos na vida do seu país. Escolheu-se definir, em Portugal, que o enfâse dessa participação se faça através de partidos políticos. Mas faltam ainda definir regras estritas sobre a democracia interna nos partidos que os impossibilite de se transformarem, como tem vindo a acontecer em Portugal, em aparelhos burocráticos fechados que impedem essa mesma participação. E para além da ausência de regras que permitam, pela via individual, o acesso do cidadão à actividade política, não existem regras idóneas de financiamento dos partidos, nem de transparência para os políticos. Um pouco à semelhança dos pilares morais do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus governantes e dos seus magistrados fosse algo suspeito, algo subversivo. Liberdade, Justiça e Transparência são sinónimos de Democracia. E sem esses ingredientes essenciais o regime português não passará de uma democracia com pés de barro. Acontecerá então, para mal de todos nós, a conversão do já em si negativo triunfo da política no temível estado dos juízes!» In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Educação e Emancipação. Theodor W. Adorno. «Adorno combate numa dupla frente: a um tempo contra a ‘falsa cultura’ e a favor da “cultura”. Intervém sem a empostação fria falsamente engessada, mas sem distanciar-se do rigor»

Cortesia de wikipedia

«Pessoas que se enquadram cegamente no colectivo fazem de si mesmas meros objectos materiais, anulando-se como sujeitos dotados de motivação própria. (...) Inclui-se ai a postura de tratar os outros como massa amorfa. Uma democracia não deve apenas funcionar, mas sobretudo trabalhar o seu conceito, e para isso exige pessoas emancipadas. Só é possível imaginar a verdadeira democracia como uma sociedade de emancipados. (...) A única concretização efectiva da emancipação consiste em que aquelas poucas pessoas interessadas nesta direcção orientem toda a sua energia para que a educação seja uma educação para a contestação e para a resistência. Estes são textos de intervenção viva, densos mas fluentes e brilhantes, contrariando a imagem de um pensador de difícil acesso. A influência de Adorno é crescente, como acontece em maior ou menor medida ao conjunto chamado escola de Frankfurt. Nem poderia ser diferente: um pensador comprometido com os problemas do trabalho social e da sociedade de classes (ao contrário de Habermas), que não se encontra praticamente tolhido por uma forma social concreta de sujeito histórico (partido etc.) não poderia ser mais actual em tempos de queda do muro. Ainda mais quando provem da cultura burguesa e argumenta de modo intelectualmente inconteste para os seus adversários, apologistas da inevitabilidade da formação social burguesa existente. Adorno ficou conhecido, ao lado de Horkheimer, como autor da Dialéctica do Esclarecimento, onde cunharia o conceito famoso de indústria cultural, e que, vinte anos apos a primeira e acanhada edição em 1947, circularia em grande número de cópias-pirata entre os estudantes e rebeldes de 68. Desde o fim da década de 50, Adorno valorizaria progressivamente as suas intervenções públicas, em debates com os estudantes radicais junto a Habermas, com os movimentos sociais e sindicatos, com Oskar Negt, influenciando o Cinema Novo Alemao, com Alexander Kluge etc. No seu pais assume grande notoriedade ainda antes de Marcuse, por artigos na imprensa, em revistas e em debates pelo rádio. Nos textos ora em pauta, a amizade com Hellmut Becker estimularia um conjunto de intervenções sobre a temática educacional e formativa. Os próprios textos já fazem as vezes de experiência formativa em uma de suas dimensões fundamentais, em que cabe ao leitor abrir-se a experiência do objecto focalizado, experimentá-lo para tornar-se por esta via experiente e, por isso, autónomo. Para isto impõe-se um contacto aberto. O que perturba, diria nosso autor, é a ruptura entre o que constitui objecto de elaboração e os sujeitos vivos. Alguns textos são ensaios arrebatadores no seu ofício de desencantamento: O que significa elaborar o passado Educação após Auschwitz são verdadeiras aulas de dialéctica. A filosofia e os professores e Tabus acerca do magistério são exemplos de reconstrução do sentido emancipatório da formação cultural, dosando rebeldia e indignação em termos cultivados. Adorno combate numa dupla frente: a um tempo contra a falsa cultura e a favor da cultura. Intervém sem a empostação fria falsamente engessada, mas sem distanciar-se do rigor, atentando minuciosamente a distinção das particularidades sem perder de vista o todo em seu estilo ensaístico». In prefácio de Wolfgang Leo Maar.

Adorno e a experiência formativa
A educação não é necessariamente um factor de emancipação. Numa época em que educação, ciência e tecnologia se apresentam, agora globalmente, conforme a moda em voga, como passaportes para um mundo moderno conforme os ideais de humanização, estas considerações de Adorno podem soar como um melancólico desânimo. Na verdade significam exactamente o contrário: a necessidade da crítica permanente. Após Auschwitz, é preciso elaborar o passado e criticar o presente prejudicado, evitando que este perdure e, assim, que aquele se repita. O filósofo alerta os educadores em relação ao deslumbramento geral, e em particular o relativo à educação, que ameaça o conteúdo ético do processo formativo em função de sua determinação social. Isto é, adverte contra os efeitos negativos de um processo educacional pautado meramente numa estratégia de esclarecimento da consciência, sem levar na devida conta a forma social em que a educação se concretiza como apropriação de conhecimentos técnicos. Parafraseando Adorno no último parágrafo da Minima Moralia, quanto mais a educação procura se fechar ao seu condicionamento social, tanto mais ela se converte em mera presa da situação social existente. É a situação do sonho de uma humanidade que torna o mundo humano, sonho que o próprio mundo sufoca com obstinação na humanidade! O desenvolvimento da sociedade a partir da Ilustração, em que cabe importante papel a educação e formação cultural, conduziu inexoravelmente à barbárie. Ou, para dizer o mesmo pelo reverso: o próprio processo que impõe a barbárie aos homens ao mesmo tempo constitui a base de sua sobrevivência. Eis aqui o nó a ser desatado. A função da teoria crítica seria justamente analisar a formação social em que isto se dá, revelando as raízes deste movimento, que não são acidentais, e descobrindo as condições para interferir no seu rumo. O essencial é pensar a sociedade e a educação em seu devir. Só assim seria possível fixar alternativas históricas tendo como base a emancipação de todos no sentido de se tornarem sujeitos reflectidos da história, aptos a interromper a barbárie e realizar o conteúdo positivo, emancipatório, do movimento de ilustração da razão. Esta, porém, seria uma tarefa que diz respeito a características do objecto, da formação social no seu movimento, que são travadas pelo seu encantamento, pelo seu feitiço. Por isto a educação, necessária para produzir a situação vigente, parece impotente para transformá-la». In Theodor W. Adorno, Educação e Emancipação, tradução de Wolfgang Leo Maar, Editora Paz e Terra, Debates na Rádio Hessen, Agosto de 1969, Escritos, 1975, 1976, 1978, Wipipédia, ISBN 978-857-753-117-2.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Contos Proibidos. Rui Mateus. «Em Abril de 1974, a social-democracia europeia entra na sua fase de apogeu. Partidos filiados na Internacional Socialista, a que o PS português também pertence, estão então no governo na Alemanha Federal, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Holanda, Israel, Luxemburgo, Noruega e Suécia»

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Do triunfo da política ao estado dos juízes. Memórias de um partido desconhecido
«(…) Tentar explicar esses fenómenos de um passado recente, para compreender o presente, é um dos objectivos deste livro. Mas, como não poderia deixar de ser, escrever sobre o PS durante este período sem falar dos seus principais protagonistas tomaria impossível alcançar essa meta. Entre eles destacam-se duas personalidades distintas e a relação de amor e ódio que, em grande parte, determinaria o actual PS: Mário Soares e Francisco Salgado Zenha. O primeiro deixaria marcas profundas que continuarão a caracterizar o PS por muito tempo. De Salgado Zenha este partido herdaria a consciência moral que ainda lhe resta. Mário Soares seria eleito Presidente da República e Salgado Zenha abandonaria o partido, incompatibilizado com o seu velho amigo. Durante algum tempo, o PS iria ser um barco à deriva. Recuperaria eleitoralmente, contudo, com o seu actual líder, António Guterres. Mas, curiosamente, essa recuperação só aconteceria quando este fiel discípulo de Zenha se converteu ao soarismo. Por isso mesmo, esta interessante simbiose das personalidades daqueles dois principais personagens será agora examinada à lupa no novo PS, para ver se ele segue o caminho da consciência moral do seu velho protector, ou o caminho do absolutismo monárquico e das facilidades do seu favorito ex-inimigo. Para já, é evidente que o actual secretário-geral do PS, já em 1976 responsável com Edmundo Pedro, Soares Louro e Santos Ferreira pela campanha eleitoral do PS, conhece bem as dependências internacionais do seu partido e até, à semelhança do seu antecessor, trata-se por tu com pelo menos seis primeiros-ministros europeus. Vamos ver para crer, como diz o ditado, mas, pelos primeiros indícios, temo que, do mesmo modo que Soares meteria o socialismo na gaveta, Guterres venha a meter a consciência moral do PS no congelador. O que é um mau sinal para a democracia. Que não terá futuro se o passado não estiver esclarecido e o futuro continuar a depender de bodes expiatórios. O meu livro, ajudará a compreender como o triunfo de alguns se faria à custa do sacrifício dê outros. O estado dos juízes está atento ao passado dos actuais políticos e não hesitará, no momento oportuno, em colaborar para a sua decomposição.
Eu entrei para a política quase por acaso. Aderi nos anos 60 à minúscula Acção Socialista Portuguesa por acreditar que, pela via do socialismo democrático e através de um sistema pluripartidário, Portugal viria a ser um país igual ou melhor que aquele onde vivia exilado, a Suécia, e que era então considerado, acertadamente, a sociedade mais justa e mais evoluída do planeta. Não o socialismo utópico, igualitário, de partido único que transforma os cidadãos em funcionários do estado. O socialismo onde os partidos se combatem no campo das ideias e onde os interesses e bem-estar dos cidadãos estão sempre em primeiro lugar. Onde os partidos políticos são a espinha dorsal do sistema e os instrumentos para a sua modificação democrática e não o instrumento de promoção pessoal dos seus dirigentes. Mas, infelizmente, e daí a outra razão de ser deste meu livro, Portugal parece estar a perder essa importante batalha da democracia. Isso atestam o crescente branqueamento da História e falta de transparência das instituições. A Europa, berço da amálgama de culturas e conflitos que deram origem ao que é hoje vulgarmente apelidado de civilização ocidental, nunca produziu um modelo perfeito de democracia que garanta aos seus cidadãos a igualdade de acesso à educação, ao trabalho, à saúde e à justiça. Entretanto, alguns países, sobretudo a norte, conseguiram ao longo dos anos conquistas importantes naquelas áreas, com base numa considerável evolução do conceito de respeito pelos direitos humanos, dos direitos dos animais e da natureza. A vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, o lançamento dos alicerces da União Europeia não viabilizariam, contudo, o acesso dos países do Sul ao fenómeno de desenvolvimento dos seus vizinhos mais a norte e, até meados dos anos 70, a Europa viveu num clima de completa desunião. Entre democracias mais ou menos formais no Norte e Centro, ditaduras medíocres e subservientes de inspiração cristã na Península Ibérica, uma ditadura militar com reminiscências pan-arábicas na Grécia e uma imensidão de regimes comunistas totalitários e despóticos, proclamados pela via revolucionária em nome da classe operária, a Leste.
O início da luta dos Movimentos de Libertação contra o colonialismo português na Guiné, em Moçambique e em Angola, empurrados pela miopia e desinteresse ocidental para os braços da União Soviética, dariam lugar ao chamado Movimento dos Capitães que a 25 de Abril derrubaria, para surpresa de todos, dentro e fora de Portugal, a ditadura iniciada com o Estado Novo, em 1933, por António Oliveira Salazar. Este levantamento pacífico e sem objectivos políticos claros, provocado quer por razões de natureza sindical, quer pela derrota psicológica dos militares portugueses nas guerras coloniais, viria a influenciar a evolução política mundial deste fim de século. Durante mais de uma década, até à entrada de Portugal como membro de pleno direito na Comunidade Europeia, em 1986, o nosso pequeno e subdesenvolvido país, até então quase esquecido do seu contexto europeu, mobilizaria de forma inédita todas as atenções mundiais com a sua Revolução dos Cravos e teria reflexos profundos na Europa e no Mundo. A nossa revolução seria quase instantaneamente adoptada por praticamente todas as forças democráticas internacionais, tendo-se democratas cristãos, liberais, socialistas e até comunistas em todas as suas imagináveis versões, em determinados momentos e por diferentes motivos, considerado próximos do nosso 25 de Abril. Para o PS, que protagonizaria de certo modo os aspectos positivos da Revolução e que imprimiria a sua marca ao sistema político constitucional vigente, esta seria também a sua década dourada. Em Abril de 1974, a social-democracia europeia entra na sua fase de apogeu. Partidos filiados na Internacional Socialista, a que o PS português também pertence, estão então no governo na Alemanha Federal, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Holanda, Israel, Luxemburgo, Noruega e Suécia. Na Escandinávia, os movimentos sociais-democratas de inspiração sindical começam a desprender-se do conservadorismo em que a sua dependência operária os lançara e a ansiar por um maior protagonismo internacional. Na Grã-Bretanha, a onda de revolução social da segunda metade dos anos 60 contra o chamado establishment reabre as portas ao Partido Trabalhista liderado por Harold Wilson, que se mostra impotente para travar a vaga que transformaria aquele partido, tradicionalmente moderado, num dos mais radicais da Internacional Socialista. Na Alemanha, a democracia controlada do pós-guerra deu lugar a um novo Partido Social-Democrata com forte liderança de Willy Brandt e Helmut Schmidt os quais, apesar das nuances entre si, tinham o objectivo comum de transformar novamente a Alemanha num país unificado e no motor da Europa. Na Áustria, com Bruno Kreisky, na Holanda, com Joop den Uyl, na Bélgica e até na Itália, graças à ameaça do PC de Enrico Berlinguer, emergem igualmente partidos sociais-democratas dispostos a dar nova cara ao socialismo. Socialismo até então caracterizado essencialmente pelo seu eurocentrismo». In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Contos Proibidos. Rui Mateus. «Quatro anos depois, desiludido com a hipocrisia e o tráfico de influências que caracterizavam a vida política, a todos surpreenderia abandonando-a para escrever “O Triunfo da Política”. Ê um livro surpreendente, que revela a falta de transparência da vida político-partidária»

Discussão à margem de uma reunião a 16/4/77
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Do triunfo da política ao estado dos juízes. Memórias de um partido desconhecido
«Há anos atrás, conheci em Washington um jovem economista de reconhecido talento que fazia parte da equipa do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Naquela época, o chamado fenómeno dos yuppies atravessava a sua fase dourada e David Stockman,com trinta e quatro anos de idade, era já apontado como um dos jovens políticos mais promissores do seu país. Com apenas vinte e oito anos, tinha sido pela primeira vez eleito congressista pelo estado de Michigan. O presidente nomeara-o director de Management and Budget, o equivalente a ministro do Planeamento. Tinha o futuro à sua frente. Quatro anos depois, desiludido com a hipocrisia e o tráfico de influências que caracterizavam a vida política, a todos surpreenderia abandonando-a para escrever O Triunfo da Política. Ê um livro surpreendente, que revela a falta de transparência da vida político-partidária e acusa o parasitismo daqueles que passam a vida a apregoar que estão na política por patriotismo e com sacrifício pessoal, pois poderiam estar muito melhor se se tivessem dedicado a actividades do sector privado, mesmo quando se sabe que, antes de entrarem na política, não tinham obra nem dinheiro. Num país em que as autoridades, os media e o público exercem um controlo rigoroso sobre o rendimento e financiamento dos políticos e sobre as suas actividades políticas e privadas, como é o caso dos Estados Unidos, que se regem por códigos de transparência acima de qualquer suspeita, David Stockman revelou a subtileza de meios que, mesmo assim, permitem o compadrio e o tráfico de influências no dia a dia da política americana.
Em Portugal, neste pequeno país periférico, diminuído pela indigência e obscurecido pela opacidade, ensaia-se um sistema político-partidário moldado pelo Partido Socialista, onde só duas décadas após o restabelecimento da democracia se começa a discutir o tráfico de influências, a transparência e, enfim, o cidadão. Discussão envolvida em tanta hipocrisia e por métodos tão falaciosos que poderemos considerar que o nosso país, neste capítulo, se encontra num espaço cultural de transição entre o fascismo e um estado de juízes, que não vislumbra um regime de verdadeiro controlo e legitimação democrática das instituições. O triunfo da política e dos seus principais protagonistas, exactamente pelo modo como foi construído o regime após o 25 de Abril, começa a revelar perigosos sintomas de erosão da credibilidade das instituições, evidenciados pela crescente descrença popular. A democracia portuguesa, no actual contexto ocidental, embora irreversível na sua aparência formal, resvala perigosamente para um corpo de funcionários sem legitimação democrática directa ou indirecta, como é, entre nós, o corpo de magistrados, que é dominado por certas correntes que professam uma concepção militante, radical e fundamentalista da magistratura, a qual, geralmente aliada ao protagonismo político de alguns, tem subjacente uma cultura de intervenção, quando não de contrapoder e confronto com os órgãos de soberania político-representativos. À semelhança do que acontece em Itália, berço do pensamento e acção fascistas que assolariam a Europa nos anos 30, também hoje é legítimo perguntar se o governo dos juízes que tem vindo a devastar aquele país, não estará a ser aproveitado para fins políticos também em Portugal, onde o protagonismo de alguns juízes, recentemente convertidos à democracia, tem feito impunemente os seus progressos perante uma cada vez mais amedrontada classe política. Não me tendo ocorrido escrever um livro antes, daria oportunidade, em 1990, a um semanário lisboeta que prometia desvendar mistérios através de um respeitável jornalismo de investigação, de se ocupar da difícil e ingrata tarefa de investigar o estado da Nação em matéria de compadrio e tráfico de influências. Lamentavelmente, o resultado não passaria de uma pusilâmine caça às bruxas e da reprodução de reles fugas de indisfarçável apologia fascista, bem inseri das numa estratégia, que, a vencer, conduzirá, inevitavelmente, ao estado dos juízes.
Tratou-se do chamado fax de Macau e da cegueira com que o processo, a todos os níveis, seria conduzido. Numa total inversão de papéis e segundo uma ética dificilmente digerível, a própria jornalista de investigação se revelaria jornalista-testemunha empenhada, através da mentira e do perjúrio, em cruxificar as suas fontes, ajudando a cruzada da magistratura. Hoje, para repor a verdade, decidi-me a escrever o livro. É um livro de memórias em redor do Partido Socialista, duma perspectiva das suas relações internacionais, que eu dirigiria durante mais de uma década. Não é, contudo, nem poderia ser, a história do Partido Socialista mas, essencialmente, uma contribuição para uma melhor compreensão de como foi forjado aquele que seria a espinha dorsal do regime democrático português actual. O PS acabaria por ser, acidentalmente, aquele que mais responsabilidades teria na construção das actuais estruturas económicas, sociais e políticas do País. Opôs-se à opressão salazarista e sairia desiludido da chamada primavera marcelista. Acabaria por resistir à aventura comunista e, depois, à tentação militarista, acabando por impor o seu modelo de sociedade, a partir de 1976. Nesse percurso e nos momentos decisivos, teria sempre o apoio internacional dos Estados Unidos e da Europa. Daí que a perspectiva internacional, em redor da qual têm girado o país e os principais partidos políticos, seja uma peça essencial para a análise dos actuais fenómenos da nossa sociedade. Sem esses apoios, que para o PS estariam como o oxigénio está para a vida, provavelmente o regime democrático teria sucumbido. Do mesmo modo que, em 1945, a sua ausência viabilizaria a continuação de Salazar. Mas, por outro lado, se sem eles tudo estaria em jogo, também a relação de dependência criada e a institucionalização do tráfico de influências iriam provocar algumas distorções e vícios que o País hoje sente». In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Método Montessori. Cadernos Culturais. Agostinho da Silva. «O seu interesse pelos anormais levara-a ao conhecimento dos trabalhos de Itard que, no tempo da Revolução Francesa, tivera de educar um idiota de oito anos conhecido pelo Selvagem de Aveyron»

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«Maria Montessori nasceu em 31 de Março de 1870, em Chiaravalle, de uma família conhecida pelo seu fervor religioso; feitos os estudos elementares, entrou na Universidade, matriculando-se na Faculdade de Medicina; a resolução causou estranheza porque até aí nenhuma mulher ousara cursar a Faculdade: considerava-se em toda a Itália que não eram trabalhos a que se pudessem dedicar as mulheres, sobretudo as que tinham amor de Deus e das coisas sagradas; Maria Montessori arrostou com todas as oposições, venceu uma a uma as resistências, impôs-se pelo seu gosto do estudo; respeitavam-na os mestres e os condiscípulos, todos que a conheciam foram louvando a sua inteligência e a sua coragem; havia nela um desejo -de ver claramente os problemas, uma ânsia de servir a humanidade, um poder de iniciativa que lhe preparavam uma carreira brilhante.
Em 1896, alcançou o diploma de doutoramento e começou a ver-se como uma curiosidade a primeira médica italiana; ela, no entanto, só pensava em preparar-se melhor, em entrar na sua vida profissional armada, como um bom cavaleiro, de boas armas; interessavam-lhe sobretudo as doenças do sistema nervoso e concorreu ao internato da clínica de psiquiatria; a pouco e pouco foi-se especializando: as crianças desequilibradas atraíram-lhe a atenção e a piedade; encontrava-as em grande número num hospital de doidos onde ia escolher os seus doentes; toda a sua alma se confrangia ante os pobres seres que um duro destino aniquilara e ante os quais a medicina pouco podia; uma imensa piedade a invadia e a cada passo lhe lembravam as palavras de Jesus sobre os pequeninos; também ela estava certa de que o reino de Deus se não poderia construir sem a ajuda da criança.
O seu interesse pelos anormais levara-a ao conhecimento dos trabalhos de Itard que, no tempo da Revolução Francesa, tivera de educar um idiota de oito anos conhecido pelo Selvagem de Aveyron, e que, pela primeira vez, praticara uma observação metódica do aluno, construindo depois sobre ela o seu método de educação; de Itard passou a Montessori a Edouard Séguin, professor e médico, que fizera durante dez anos experiências pedagógicas com pequenos internados numa Casa de Saúde e montara a primeira escola para anormais; leu atentamente o seu livro Hygiène et éducation des idiots et autres enfants arriérés, 1846, seguiu-lhe o trabalho feito na América para onde emigrara e onde tinha fundado escolas de atrasados e anormais; em Nova York publicara outro livro Idiocy and his treatment by the physiological method, 1866, em que dava o essencial do método.
Séguin insistia sobretudo na necessidade de uma observação cuidadosa do aluno; nada devia ser feito que pudesse representar urna violência às suas possibilidades psíquicas, o mestre não devia ser um modelador mas um espírito atento, pronto a aproveitar, fornecendo-lhe pontos de apoio para que se exercesse, todo o mais leve sintoma de um despertar psicológico; como o homem que ajuda o atleta no salto, tratava-se de amparar, não de forçar; o mestre devia, portanto, ter uma preparação científica cuidada e um perfeito domínio de si próprio; ao mesmo tempo, Séguin fornecia-lhe um material que construíra depois de anos de experiência e que lhe parecia ser o mais adaptado aos interesses espontâneos do anormal; o esperar aparecia no método de Séguin como a primeira grande qualidade do professor de- anormais; a segunda, era a de saber aproveitar as oportunidades, que são quási sempre únicas, de fixar e desenvolver as débeis iniciativas internas do aluno». In Agostinho da Silva, O Método Montessori, cadernos Inquérito, Pedagogia, Editorial Inquérito, Lisboa, 1939.

Cortesia de Inquérito/JDACT

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Sábio Imortal. Sócrates. Miguel Betanzos. «Ainda assim conseguiu retirar forças do seu próprio atordoamento. - Já chega! Já chega por favor! - Irrompeu quase engasgado pelas próprias palavras. - Calem-se, senhores, que agora sim é a vez de Aristófanes!»

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«Uma nova perturbação impediu Erixímaco de continuar com o seu discurso, mas desta vez não foi um guincho ou inalação, mas o profundo e atento silêncio com que todos observavam Aristófanes, o interesse com que seguiam os seus movimentos, com que espiavam quase enfeitiçados aquele jovem que parecia cada vez mais incomodado e irritado com o ataque de soluços. Pelo que se via, o rosto tinha começado a ruborizar-se, a tornar-se numa estranha cor púrpura, e dado que o remédio dos gargarejos fracassou, agora empenhava-se em achar alguma pluma, ou pau, algo que lhe provocasse cócegas no nariz para se livrar de uma vez por todas daquele fastidioso aborrecimento.
Erixímaco levantou a voz com visível exasperação. - Dizia que a medicina é harmonia - observou quase a gritar perante os amigos - e a harmonia não é mais do que a concordância entre os elementos opostos. Por conseguinte, o amor deve estar presente para animar a concórdia e conseguir que... Um profundo, sonoro e grotesco espirro veio mais uma vez interromper o discurso do médico, e durante alguns instantes emudeceu não só o orador como um flautista que ensaiava o seu instrumento e os escravos que cochichavam na sala ao lado. Todos emudeceram de repente, todos ficaram rígidos perante o estrondoso bramido, com as bocas abertas de admiração, os copos parados no ar da sala que também pareceu aquietar-se, e enquanto os olhares de todos se concentravam na figura de Aristófanes, agora por fim liberto dos soluços, podia pensar se que aquela cena imóvel, parada no tempo, duraria para sempre, para toda a eternidade, poderia pensar-se que toda a gente ficara petrificada com o escandaloso espirro do poeta, mas bastou a subtil insinuação de um sorriso para que de repente explodisse uma infinita sucessão de gargalhadas, de risos hilariantes, eufóricos, uma sucessão de risos desenfreados e ainda mais profundos, ainda mais sonoros, ainda mais burlescos do que o próprio espirro de Aristófanes, que não teve outro remédio senão juntar-se à algazarra com as suas próprias risotas. No meio da confusão, o jovem Fedro olhou para Erixímaco, e enquanto se agarrava à barriga do riso aconselhou-o: - É melhor interromperes o discurso, meu amigo. Está visto que os deuses não querem que fales.

Os calores aumentavam cada vez mais, acendendo o ânimo dos convidados, e aos ardores do corpo somavam-se os ardores do espírito. O dono da casa, entretanto, procurava acalmar toda a gente com trejeitos desesperados, mas ele próprio estava tão ébrio, tão visivelmente enjoado pela bebida, que falava aos tropeções e quase não conseguia fazer-se entender, e apesar de uma ou outra vez se esforçar por manter a serenidade, por conter o riso desenfreado, o seu riso pomposo e sonante, apesar de tentar esconder o rosto debaixo da mangada túnica, a impressionante figura daquele homem parecia a de um sátiro mergulhado na mais absoluta embriaguez.
Ainda assim conseguiu retirar forças do seu próprio atordoamento. - Já chega! Já chega por favor! - Irrompeu quase engasgado pelas próprias palavras. - Calem-se, senhores, que agora sim é a vez de Aristófanes! Mas de nada serviram os gritos no meio da confusão geral, porque nesse preciso momento entrou um escravo na sala com dois jarros de vinho cheios até à borda, entrou sem suspeitar que a sua presença avivaria o desvario, e bastou que alguém o descobrisse para que toda a gente se empenhasse em lhe estender o copo e alcançar aquelas fontes prodigiosas, aqueles rios de néctar que trazia debaixo do braço.
Imediatamente, um enxame de mãos suplicantes e luxuriosas atirou-se avidamente, desordenadamente, com indizível desespero para recolher mais e mais daquele vinho que transbordava dos jarros e caía em torrentes entre os convidados. E foi então que Pausânias, longe do escravo e desejoso de recolher um pouco daquela bebida, receoso de que o divino manancial se esgotasse à frente do seu nariz, se pôs de pé num tremendo e sufocante esforço e tentou aproximar-se do escravo, pesadamente, com um torpor de animal selvagem, tão obcecado pelo seu propósito, tão cego e surdo, tão apressado em alcançar o rapaz, que bastou um ligeiro tropeção na alcatifa para que toda a sua monstruosa humanidade desabasse por terra de forma estrondosa. De nada serviu o esforço de Ágaton, que esticou os braços e agarrou Pausânias por uma ponta da túnica: o tecido escapou-lhe das mãos e o obeso convidado caiu com um estrondo de pratos, copos e tigelas». In Miguel Betanzos, Sócrates, O Sábio Imortal, Editorial Sudamericana, 2005, Ésquilo, Lisboa, 2006, ISBN 972-8605-93-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O Sábio Imortal. Sócrates. Miguel Betanzos. «Alguns riram-se do desgraçado rapaz, cuja expressão grotesca parecia a de um louco alucinado, pois estava agora de joelhos e pedia aos deuses que afastassem os soluços de uma vez por todas. - Tenta gargarejar com água»

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«Enquanto o outro, o amor vulgar, que pertence a Afrodite Pandemos, eu... creio que... Pausânias interrompeu o seu discurso um instante. Notava-se que os seus esforços para falar o debilitavam. Houve um breve silêncio, uma leve rouquidão e depois, de maneira imprevista, quando todos aguardavam o remate daquela alocução, já o indisposto Pausânias começara a gesticular nervosamente com as mãos, agitando-as em frente ao rosto, assinalando a sua inchada garganta de boi, dando a entender com aquela desesperada pantomima que o seu ventre inflamado pelo generoso manjar o impedia de continuar afalar o impedia de inalar o ar necessário a emitir qualquer som que não fosse um estertor ou um afrontamento.
 - Sentes-te bem? - perguntou-lhe Fedro, ao mesmo tempo que lhe atirava ar para a cara com o leque. Não houve resposta para além de um leve gemido e um brevíssimo, tranquilizador gesto da cabeça com que Pausânias deu a entender que estava bem, apenas um pouco sufocado e não tardara a recuperar o fôlego. Rodou um pouco sobre si mesmo deixando cair a barriga nos confortáveis almofadões, afrouxando aquele enorme peso que oprimia a sua humanidade, e quando a sua respiração se conseguiu fazer de maneira mais calma e sossegada, quando se viu que já recuperara a calma, todos dirigiram o olhar para o poeta Aristófanes, que se encontrava ao lado de Pausânias e devia portanto ser o seguinte a ter a palavra.
Contudo, como o seu antecessor, o jovem poeta também se empanzinara com as delícias e manjares do banquete, comera exageradamente e agora, mercê da voracidade do seu apetite e do modo apressado com que tragou um bocado atrás do outro, teve um repentino ataque de soluços que o mortificava. O estômago retraía-se e crispava-se compassadamente a cada espasmo dos seus pulmões, os músculos do pescoço contraíam-se bruscamente, a respiração agitava-se cada vez mais e, por causa daquele aborrecido incómodo, apesar de ser a sua vez de falar preferiu cedê-la ao médico Erixímaco, não sem antes lhe pedir um método para acabar com os soluços.
 - Diz-me, por favor, o que posso fazer, pediu-lhe.
Erixímaco aproximou-se dele a gatinhar, observou-lhe os olhos, tomou-lhe o pulso e depois daquela breve auscultação observou:
  •  - Não tens nada querido amigo. E se queres parar os soluços, sustém apenas a respiração durante uns instantes. Se isso falhar, gargareja várias vezes com água, e se ainda assim não parar, então procuraremos alguma coisa para fazeres cócegas no nariz, talvez uma pena ou um raminho, e veremos se consegues espirrar.
O jovem poeta inspirou profundamente e, fiel ao conselho do médico, conteve o ar nos pulmões. Enquanto isso, obrigado pelas circunstâncias, Erixímaco pensou durante uns instantes e logo disse:
 - Cavalheiros, já que pela infausta situação do nosso amigo, me tocou a sorte de continuar com os nossos discursos, direi que será um prazer partilhar convosco a minha opinião sobre o Amor. Contudo, para começar, devo confessar uma pequena divergência em relação à opinião de Pausânias. Ele disse que apenas o amor espiritual é bom e virtuoso, mas eu digo que o amor ao corpo também o é, quando evoca o bom e o virtuoso que existe nele…
Um ruidoso silvo interrompeu as palavras do médico. Todos dirigiram os olhos para Aristófanes, que tinha estado a reter o fôlego e agora, no instante, quase pronto a rebentar, como que afogado pelo esforço titânico, largara violentamente o ar numa brutal exalação que alarmou os convidados. O jovem poeta ficou estirado no chão a ofegar, mais uma vez, com o fôlego cortado e a esforçar-se por recuperar o alento; por um momento viram-no a sorrir, feliz por ter conseguido acabar com a incómoda moléstia, mas logo de seguida um novo ataque de soluços obrigou-o a torcer-se como uma lombriga.
 - É inútil... - conseguiu murmurar. - Não consigo livrar-me deles.
Alguns riram-se do desgraçado rapaz, cuja expressão grotesca parecia a de um louco alucinado, pois estava agora de joelhos e pedia aos deuses que afastassem os soluços de uma vez por todas. - Tenta gargarejar com água - insistiu Erixímaco, que dividia a sua preocupação pelo sofrido Aristófanes ao mesmo tempo que tentava tecer o seu discurso. - Bebe dois ou três golos muito lentamente e verás que passa - e procurando retomar as suas palavras acrescentou:
  •  - Dizia, pois, queridos amigos, que o amor é bom quando agrada ao corpo, e opino que esse modo e não outro é o fito da medicina à qual tão gratamente dediquei a minha vida. A arte de Asclépio, cavalheiros, não consiste senão em descobrir as tendências favoráveis e desfavoráveis do corpo, aqueles elementos que são bons e aqueles que são nocivos, para logo favorecer os primeiros e rejeitar os segundos...
In Miguel Betanzos, Sócrates, O Sábio Imortal, Editorial Sudamericana, 2005, Ésquilo, Lisboa, 2006, ISBN 972-8605-93-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Sábio Imortal. Sócrates. Miguel Betanzos. «… mantenho que apenas essa espécie de amor, aquela que provém de Afrodite Urânia e a que podemos chamar amor espiritual, é a verdadeiramente bela e nobre, pois obriga tanto o amante como o amado a perseguir a virtude»

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«Oh sim! Desta vez não haveria lugar para os deleites amorosos, não haveria lugar para Eros, para Afrodite, para o tormentoso Príapo, não haveria lugar para acender as paixões carnais mas para animar os prazeres do espírito. Então, ao sinal do dedo do anfitrião, o obeso Erixímaco foi o primeiro a romper o silêncio. Deitado sobre uns almofadões, com a respiração agitada, algumas linhas de suor na testa, abriu a túnica para areja, a sua barriga enorme e disse: - Senhores, não vos chama a atenção que sendo o Amor uma divindade tão importante não hajam hinos e cânticos em sua honra? A pergunta ficou a pairar no ar e ergueu-se um ligeiro murmúrio entre os convidados. Era estranho, sim, era sem dúvida muito estranho o facto de os trágicos e poetas terem cantado aos heróis, às guerras e aos reis de todos os tempos, de terem celebrado cada uma das proezas imortais dos deuses, com belos poemas e hinos imortais, e no entanto o Amor, essa infinita e proverbial força que enredava homens e deuses, carecia de apologias e louvores e elogios.
Que imperdoável esquecimento teria levado os poetas a condenar o Amor à indiferença? - Por essa razão, meus amigos - continuou a dizer Erixímaco - sugiro que esta noite se fale do Amor, dar-lhe a honra que na verdade merece e que nunca teve; e para fazê-lo sugiro que cada um de nós pronuncie um discurso, o mais sábio e belo que possam soltar os seus lábios acerca do Amor. - Preferes celebrá-lo em vez de praticá-lo? - inquiriu Aristófanes com alguma picardia. Erixímaco riu de boa vontade e respondeu: - Não sou adivinho, querido amigo, e não posso saber o que nos reservam os deuses para o final desta noite. Mas agora, se a tua impaciência nos permitir, insisto que deixemos de lado os nossos desejos e discutamos acerca do Amor.
Aristófanes resmungou fingidamente entre risos, enquanto a proposta de Erixímaco era aceite e celebrada com uma nova rodada de vinho que circulou entre os convidados. Por se encontrar numa ponta da mesa, o jovem Fedro foi escolhido para iniciar o giro, para esgrimir o primeiro discurso em torno do Amor, o qual aceitou, erguendo o copo no ar e bebendo um generoso trago de vinho. Com a manga da túnica enxugou os lábios, e depois secou o suor da testa e disse: - Senhores, serei bastante breve. A meu ver, o Amor deve ser o mais antigo dos deuses, quem sabe o primeiro, tão embrionário como o próprio cosmos e feito da matéria do universo, pois segundo os mais venerados poetas da antiguidade, o Amor não tem pais e foi criado nos tempos remotos em que reinava o Caos. Era o mais antigo dos deuses, dissera Fedro, e talvez também o mais benéfico de todos, pois nada era melhor para um homem que possuir um amante virtuoso, nada, nem as riquezas nem as honras nem os títulos, nada era tão pródigo como esse indivíduo perante o qual todos os sentimentos humanos exigiam uma dimensão sublime, pois, que maior tormento para o amado do que defraudar o seu amante? Que maior vergonha do que ser surpreendido por este numa acção desonrosa?
 - Sem essa vergonha, sem esse pudor que se sente perante o ser amado - ressaltou Fedro - o homem é incapaz de obras grandes e belas. Por isso, cavalheiros, mantenho que o Amor inspira os maiores sacrifícios na criatura humana e, por conseguinte, é quem possui a força necessária para lhe conferir as mais refinadas virtudes. Com brevidade, com espantosa brevidade, o jovem explicara a sua noção do Amor, declarara os seus objectivos e propósitos, e a sua intervenção arrancou uma salva de elogios e aplausos. De repente, estalaram palmas entre os convidados, pesadamente deitados nas almofadas, que celebraram a fervente apologia do rapaz erguendo copos, rindo, assobiando, aplaudindo, bebendo até ao fundo e uma vez mais enchendo os copos até transbordarem, enchendo-os com aquele vinho forte e espesso, aquele vinho untuoso ao qual era necessário misturar água, pois bebendo-o em estado puro turvava os sentidos e provocava as fúrias dos deuses.
A seguir, foi a vez de Pausânias. Era o convidado que se seguia e, por isso, devia tomar a palavra depois de Fedro. Mas na verdade ninguém dava nada por ele, pois comera e bebera tanto que parecia estar prestes a rebentar. Os olhos orbitavam esgazeados e os lábios cobriram-se de um tom arroxeado por causa do vinho. Contudo, uma vez atenuado o burburinho, acomodou a sua obesa humanidade nos almofadões e com algum esforço disse: - Estou de acordo contigo, meu querido Fedro, e brindo à subtileza do teu discurso. Mas na minha opinião, nem toda a espécie de amor deve considerar-se bela e virtuosa. - O que queres dizer? - perguntou Fedro intrigado. - Oh, é muito simples. Como bem sabes, os nossos poetas ensinaram-nos que a deusa que incarna o amor tem dois nomes: Afrodite Pandemos e Afrodite Urânia. A primeira representa o Amor vulgar, ignorante, ignóbil, o amor daqueles que preferem o corpo em vez da alma. Inversamente, Afrodite Urania é o amor espiritual, o amor virtuoso que anima os homens justos.
A sua voz soava como um gemido rouco e entrecortado. Devido aos afrontamentos e ao calor, mas sobretudo à gulodice, Pausânias tinha de respirar a cada palavra e dava a sensação de sufocar a qualquer momento. - Por isso, meus amigos - acrescentou com enorme dificuldade - mantenho que apenas essa espécie de amor, aquela que provém de Afrodite Urânia e a que podemos chamar amor espiritual, é a verdadeiramente bela e nobre, pois obriga tanto o amante como o amado a perseguir a virtude. Enquanto o outro, o amor vulgar, que pertence a Afrodite Pandemos, eu... creio que... Pausânias interrompeu o seu discurso um instante». In Miguel Betanzos, Sócrates, O Sábio Imortal, Editorial Sudamericana, 2005, Ésquilo, Lisboa, 2006, ISBN 972-8605-93-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT