Mostrar mensagens com a etiqueta Mayra Montero. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mayra Montero. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A Última Noite que Passei Contigo. Mayra Montero. « Desde então tinham passado muitos anos, Celia nunca se ausentava, e portanto arrebatamentos do reencontro cessaram. Começou a viver um pouco através da lente da vida da sua filha»

jdact

Bolhas de Amor
«(…) Sobretudo naquele dia em que lhe descobri uma marca no peito, muito próxima da axila. Era o vestígio clássico de um chupão, algo desvanecido porque já tinha evidentemente muitos dias. Ela olhou-me sem preocupação, disse que se tratava seguramente do sutiã, que lhe estava cada vez mais apertado. Evitei pensar novamente no assunto, mas soube que um primo do seu pai ficara também algumas noites pelo hospital, revezando-se com Celia. Assim, quando davam alta ao velho, o primo voltava com os dois a casa e continuavam a revezar-se durante a noite, sempre naquele quarto marcado pela morte, asfixiando-se juntos, ignorando os odores. Há odores que unem mais as pessoas do que as desgraças. Imaginei os dois, velando aos pés da cama, tropeçando deliberadamente nos corredores. Surgiu-se-me nítida a imagem de Celia oferecendo um comprimido ao moribundo, enquanto aquele homem se aproximava, por trás, Marianito, o primo do papá, detinha-se calmamente nas suas costas e dava-lhe um pequeno beliscão, um toque mínimo, um mero acidente do destino, agachando-se para apanhar uma revista que o pobre velho tinha deixado cair. Celia punha-se em sentido, rejeitando a ideia de imediato. O primo aproveitava-se da sua preocupação, e até certo ponto da sua inocência, e voltava, pouco a pouco, a pecar, roçando a barriga contra as nádegas maciças da minha mulher. Celia sentia-o e envergonhava-se. Afinal era o primo do seu pai, um primo cada vez mais solícito que só esperava que ela se curvasse (costumava curvar-se para limpar os lábios do velho), para se encostar sem compaixão nem disfarce, impondo as suas armas ainda por debaixo da tela, arfando levemente enquanto desejava a ambos, ao pai e à filha, muito boas-noites, pois quanto a ele, ia-se deitar. A história, evidentemente, não acabava ali. Na realidade, Marianito ficava à coca, à espera que também ela desejasse as boas-noites ao pai para se ir deitar, só que não na cama dela, mas na minha, Celia, sussurrando-lhe ao ouvido que o tinha posto louco, que você é culpada, rasgando-lhe a blusa (Celia perdia, em cada uma das suas viagens, um par de blusas boas), mordendo-a e empurrando-a contra o vão da porta, onde ela ainda resistia, debatendo-se entre a decência e o furor, declarando claramente que não e não, até que Marianito, cansado de tanto alarde, lhe agarrava na mão, levava-a à púbis e sussurrava-lhe ao ouvido: Olha como me pões. A nossa pequena Elena, que sempre viajava com a sua mãe, andaria por esta altura no quinto sono, mas Celia não podia permitir que a menina acordasse e não a visse ao seu lado. De maneira que de madrugada saía do quarto de Marianito em direcção ao seu, tremendo dos pés à cabeça, não tanto pela frescura da manhã, mas porque a sensação de gozo clandestino sempre a excitava. Ele perguntava-lhe se iriam ver-se na noite seguinte, ela respondia com um silêncio, e claro, não regressava. Mas passados dois ou três dias, ele encontrava-a em território neutro, por exemplo, na cozinha, e a minha mulher, fazendo-se de vítima, deixava-se conquistar, deixava-se ir completamente, toda derretida. O homem arrastava-a finalmente em direcção ao celeiro, levantava-lhe a bata, puxava-lhe a roupa interior, sente-se aqui, minha rainha, e ela, por sua vez, ainda punha uma cara como se enlouquecesse. Uma vez perguntei-lhe a idade de Marianito, se era muito mais velho, disse-lhe, e se estaria ainda em condições de cuidar do pai. Ela fez uma careta e olhou-me de soslaio: Quem é que me tinha dito que o Marianito era mais velho? Era apenas cinco ou seis anos mais velho do que ela, não muito mais. Tinha perdido a mulher há bastante tempo e sentia-se muito útil, ajudando o primo. Está reformado, concluiu Celia. O primo do papá reformou-se muito cedo. Pensei que toda a energia, todo o empenho, toda a ânsia desse maldito viúvo visassem a obtenção de um sórdido troféu: o amor condicional de Celia, que ao fim e ao cabo se esfumou quando o meu sogro lá morreu. Desde então tinham passado muitos anos, Celia nunca se ausentava, e portanto arrebatamentos do reencontro cessaram. Começou a viver um pouco através da lente da vida da sua filha. Sempre fora uma excelente mãe. Acordámos que quando Elena se casasse faríamos coincidir a lua-de-mel da menina com a nossa própria viagem. Assim, as extravagâncias seriam menos e quando regressássemos das ilhas seria muito mais fácil digerir o trago da ausência». In Mayra Montero, La última noche que pasé contigo, Barcelona, 1991, A Última Noite que Passei Contigo, colecção Pena de Galo, Editora Bico de Pena, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-621-054-0.

Cortesia de Bico de Pena/JDACT

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A Última Noite que Passei Contigo. Mayra Montero. «Não eram raras as vezes em que Célia regressava trazendo Elena pela mão, divagando por cada esquina da casa como se esperasse encontrar alguma pista. E era na presença da menina que eu ficava doente de remorsos»

jdact

Bolhas de Amor
«(…) Depois fazia-o ele, com menos cautela, desapertando as calças antes mesmo de entrar novamente no carro. Meia hora depois, apareciam os dois, cada um para o seu lado, ela pálida, ajeitando a saia, e ele mais sereno, vestindo a camisa, apertando o cinto e bocejando. Na manhã seguinte, eu comentava-o com Célia, que imediatamente defendia a filha. No carro falavam mais tranquilos, dizia ela. E, aliás, dentro de pouco tempo, iriam casar-se. O resultado foi que na mesma noite do seu casamento sonhei que estava dentro do carro de Alberto. Alberto é o nome do meu genro, massacrando uma rapariga que não era a minha filha, mas sim a sua melhor amiga. Contei-o a Bermúdez, como quem conta uma piada, introduzindo um riso sarcástico, ainda que por dentro me contorcesse de receio, omitindo o mais elementar. E era jeitosa?, perguntou Bermúdez. Olhei-o alarmado e ele acreditou que não tinha entendido. Esfregou as mãos antes de insistir. Perguntava eu se era jeitosa, a amiga da tua filha. No sonho, sim. Na vida real, juro que não reparei. Nunca gostei de miúdas, nem sequer quando tinha idade para gostar delas. Célia, por exemplo, era três anos mais velha do que eu, e era das mulheres mais jovens que eu tinha tido na vida. Aos dezoito anos envolvi-me com uma senhora que tinha nascido no mesmo ano que a minha mãe. E aos vinte e cinco, poucos meses antes de me casar, estive prestes a cancelar o casamento por causa de uma mulata, cantora de rancheras, com a qual celebrei, além da minha despedida de solteiro, o seu aniversário número cinquenta e dois. Estabilizei com Célia, e em todos estes anos não me lembro de lhe ter sido infiel mais do que em duas ou três ocasiões: quando se foi embora para visitar o pai doente, que é o pretexto mais comum que as mulheres costumam arranjar para terem de se ausentar. Aquelas infidelidades deixavam-me insatisfeito. No dia seguinte acordava com uma espécie de ressaca da alma, de mau humor e não conseguia lembrar-me da cara da minha companheira casual sem que me viesse à boca uma náusea traiçoeira. Não eram raras as vezes em que Célia regressava trazendo Elena pela mão, divagando por cada esquina da casa como se esperasse encontrar alguma pista. E era na presença da menina que eu ficava doente de remorsos. Abraçava-a com algo parecido a desespero, e abraçava a mãe, que entretanto me observava com uma expressão fixa, fixa e gélida, com um olhar insustentável. Nunca soube se Célia suspeitava daquelas minhas escapadelas miseráveis. Quanto a si, regressava radiante. O estado grave do pai tinha um efeito rejuvenescedor não só no seu rosto, como também nos seus hábitos. Deixávamos a filha a brincar na sala e ela arrastava-me em direcção à cama, excitada como uma gata vadia, deitava-me de costas, primeiro de costas, e sentava-se sobre a minha nuca, com uma perna de cada lado. Agora, vira-te. Obedecia-lhe, é claro, ficava totalmente exposto ao universo vermelho e preto da sua carne, e então aplicava aquela carícia de medusa que ia desde os meus lábios até à minha testa, detendo-se por um momento no meu nariz, só por um instante, para depois voltar atrás, desde a minha testa até à minha língua. Assim continuava incansável. Balançando-se com as duas mãos, que se contorciam à beira da cabeceira, remando absorta sobre a calma do meu rosto durante um quarto de hora, talvez mais, até que eu a detinha, imobilizando-a pela cintura, e afastava com dificuldade o meu rosto encharcado. Rogava--lhe que descesse, uma súplica que ela tratava de ignorar até que eu com mais firmeza a empurrava para trás, obrigava-a a ceder, beliscava-a furiosamente no seu verdadeiro trono e me dedicava, em primeiro lugar, a desabotoar-lhe a camisa (ela própria nunca tinha tempo de a tirar), para logo a puxar para a frente, apertar os seus peitos contra a minha boca e recompensar-me contra aqueles dois peitos que, ao cabo de tantos dias, sempre me pareciam um pouco mais escuros. Uma vez perguntei-me que tipo de ilusão, encontrada junto ao pai, a faria regressar daquela maneira». In Mayra Montero, La última noche que pasé contigo, Barcelona, Tusquets Editores, 1991, A Última Noite que Passei Contigo, colecção Pena de Galo, Editora Bico de Pena, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-621-054-0.

Cortesia de Bico de Pena/JDACT

sábado, 2 de agosto de 2014

A Última Noite que Passei Contigo. Mayra Montero. «Elena casou-se em Março. O noivo escolheu a data do seu próprio aniversário para se casar. E ela cedeu, satisfeita. A sua mãe também, e eu também, destroçado por vê-la arrasar a sua vida ao juntar-se para sempre a esse crápula…»

jdact

Bolhas de Amor
«Não morreu. Fez uma pausa. Casou-se, o que ainda é pior. Célia desatou a rir, os seus peitos nus estremeceram e teve um último gesto maternal. Pôs a mão entre as minhas pernas, procurou-me com os dedos e fez-me uma carícia circular, desprovida já de qualquer desejo, uma carícia agradecida e suave, como a lambidela fiel de um animal. Aninhou-se depois no meu corpo, como era habitual, e ali ficou, adormecida. Há muitos anos que não dormíamos nus. Primeiro intimidou-me o contacto com o seu sexo, aberto e plácido, que se colou com um dulcíssimo ruído seco sobre a minha nádega esquerda. Minutos antes, tínhamos feito amor tal como se faz depois de vinte e cinco anos de casamento, ou seja, como se faz uma mala. Célia estava um pouco bêbeda. Era a nossa primeira noite no barco, dançámos um bolero e até chegou a sussurrar uma frase que me doeu mais do que alguma outra: Por fim, sós. Pensei então em Elena, pensei no sonho que tinha tido na mesma noite do seu casamento, e fechei os olhos. Apertei Célia e ela empurrou a sua barriga contra a minha, encorajada pela penumbra e pela atitude dos outros casais, mais ou menos da mesma idade, que por sua vez se sentiam encorajados, observando-nos a nós. Lambeu-me depois a orelha e repetiu novamente a frase. Por fim, estávamos sós, era certo. Depois de vinte e três anos durante os quais Elena tinha sido o eixo das nossas vidas, em Invernos e férias, Primaveras e aniversários. Elena a crescer, tornando-se bonita, mais alta do que Célia, muito mais fina, infinitamente mais coquete. A nossa filha Elena. Já por outras vezes tínhamos preferido viajar de barco. A nossa menina acompanhou-nos quando navegámos pelo Golfo do México, um trajecto curto: Tampa, Nova Orleães, a doce Campeche e, quando esteve prestes a celebrar o seu décimo quinto aniversário, também esteve presente durante a travessia em que subimos ao longo da costa da Califórnia, uma viagem fantástica que nos aproximou rapidamente dos mares do Alasca. Mas desta feita tratava-se de um cruzeiro muito mais ambicioso, o périplo das Caraíbas com que tínhamos sonhado durante metade da nossa vida, alcançando ilhas distintas que ninguém tinha alcançado, porque, afinal de contas... Quem, de todos os amigos, mesmo dos mais aventureiros, tinha tomado banho nas baías de Marie Calante? Isto sem contar com a breve escala em Antígua e o final feliz da travessia, o momento culminante da viagem que teria lugar assim que atracássemos em Martinica. Tentei libertar a minha nádega da carícia molhada que era a vag… cálida de Célia. Agitou-se durante o sono e temi o pior. Mas não acordou. Cobri-a com os lençóis e procurei o maço de cigarros às apalpadelas. Bermúdez, que percebe tanto destas coisas, e que não é por acaso que já se casou três vezes, advertiu-me antes de partir: as mulheres, nos barcos, parecem perder a vergonha. É algo que não tem que ver com a idade nem com os anos de convivência, não tem que ver com o excesso de peso nem com os netos. Tem que ver, sim, com aquela claustrofobia irreparável que lhes sobe à cabeça assim que o barco desatraca. Foi o próprio Bermúdez que me conseguiu os mapas e me sugeriu as datas, uma vez que não era bom expor-se em tempo de vulcões, pois de Junho a Novembro, disse, as Caraíbas são o diabo. O homem tem a capacidade de se entusiasmar com as aventuras alheias, tem a delicadeza de relaxar e, sobretudo, a grande vantagem de as viver. Talvez por isso seja tão bom amigo. Um dia em que Célia me veio visitar ao escritório, falou-lhe ironicamente do efeito vertiginoso que o mar provocava nos casais. O mar aberto, claro, sem contacto visual com terra firme. Célia sorriu, estava demasiado atarefada com os preparativos do casamento da nossa filha. Celita, disse-lhe ele, saciando a sua mania pelos diminutivos, assim que sentires o aroma do marisco, ficarás uma leoa. Era outra das teorias de Bermúdez os mares quentes, o mar das Antilhas sobretudo, cheiravam a marisco estragado. E o marisco estragado, já sabes, é cheiro de mulher. Elena casou-se em Março. O noivo escolheu a data do seu próprio aniversário para se casar. E ela cedeu, satisfeita. A sua mãe também, e eu também, destroçado por vê-la arrasar a sua vida ao juntar-se para sempre a esse crápula que durante mais de dois anos esteve a massacrá-la, impunemente, no banco traseiro do carro. Costumava espiá-los de madrugada, escondido por detrás das persianas, quando ele a trazia de volta a casa. Primeiro saía Elena, olhava para todos os lados, e num instante metia-se de novo pela porta de trás». In Mayra Montero, La última noche que pasé contigo, Barcelona, Tusquets Editora, 1991, A Última Noite que Passei Contigo, colecção Pena de Galo, Editora Bico de Pena, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-621-054-0.

Cortesia de Bico de Pena/JDACT