Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel de Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel de Oliveira. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Política. Páscoa da Morte. Manoel de Oliveira. «… porque lhes bradam em vão: “Sede honrados”, e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça»

jdact

Nós Estamos num Estado Comparável à Grécia
«Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa, citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte». In Eça de Queirós, in 'Farpas (1872)'

O Que Verdadeiramente Mata Portugal
«O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: Sede honrados, e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora. Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído. O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho. Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas. O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos». In Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'.


Política de Interesse
«Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações. A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse. A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva. À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade». In Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)

Cortesia de Citador/JDACT

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cinema. Poesia. Arte. Amizade. «Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério da verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica»

jdact e wikipedia

Conquista
«Livre não sou, que nem a própria vida
mo consente.
Mas a minha aguerrida
teimosia
é quebrar dia a dia
um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
que se afogou e flutua
entre nenúfares de serenidade
depois de ter a lua!»


Liberdade
«Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
a pedir-te, humildemente,
o pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
nem me ouvia.

Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
de emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
a fé que ressumava
da oração.

Até que um dia, corajosamente,
olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
saborear, enfim,
o pão da minha fome.
Liberdade, que estais em mim,
santificado seja o vosso nome».
Poemas de Miguel Torga, in 'Cântico do Homem' e 'Diário XII'

JDACT

terça-feira, 8 de junho de 2010

Isabel de Castro: Uma actriz que tinha a capacidade natural de expôr os enigmas das suas personagens

(1931-2005)
Lisboa
Cortesia de assumidamente
Isabel Maria Bastos Osório de Castro e Oliveira, conhecida Isabel de Castro foi uma actriz portuguesa. A sua estreia ocorreu no cinema com 14 anos, no filme Ladrão, Precisa-se! em 1946, de Jorge Brum de Canto. No início da sua carreira participou em vários filmes espanhóis. Participou em cerca de 50 filmes, tendo a sua carreira evoluído também no teatro e na televisão. Estas participações renderam-lhe vários prémios e galardões.
Depois de participar em «Barrio» (1947), um filme de Ladislao Vajda, conhecido no nosso país principalmente por «Marcelino Pão e Vinho» que teve duas versões, uma com actores portugueses e outra com espanhóis, encontrou abundante trabalho em Espanha nos anos 50. Contracenou com alguns dos maiores nomes do seu cinema, como Tony Leblanc, José Suárez e Francisco Rabal em vários filmes de sucesso, mas também com o português Virgílio Teixeira em «La Hija del Mar» (1953).
Cortesia de Paulo Borges
Isabel de Castro regressa a Portugal e faz «O Dinheiro dos Pobres» (1956), de Artur Semedo. Em simultâneo trabalha em peças de teatro, integrada em companhias como as do Teatro da Trindade, Teatro Experimental do Porto, Teatro Experimental de Cascais e Teatro da Cornucópia.
Para lá das inúmeras curtas-metragens experimentais, entre os cerca de 50 títulos em que participou em Portugal, para cineastas consagrados ou então a iniciar o seu percurso artístico, contam-se:
  •  «As Pupilas do Senhor Reitor» (1961, Perdigão Queiroga);
  •  «Fado Corrido» (1964, Jorge Brum do Canto);
  •  «Domingo à Tarde» (1965, António de Macedo, Prémio Plateia 1966 para Melhor Actriz);
  •  «O Destino Marca a Hora» (1970, Henrique Campos);
  •  «Brandos Costumes» (1975, Alberto Seixas Santos);
  •  «O Rei das Berlengas» (1978, Artur Semedo);
  •  «Francisca», Vale Abraão», «Viagem ao Princípio do Mundo» (1981, 1993, 1997, Manoel de Oliveira);
  •  «Sem Sombra de Pecado» (1983, José Fonseca e Costa);
  •  «O Desejado ou As Montanhas da Lua» (1987, Paulo Rocha);
  •  «Três Menos Eu» (1988, Fernando Vendrell, João Canijo);
  •  «Uma Pedra no Bolso» (1988, Joaquim Pinto);
  •  «O Sangue», «Casa de Lava» (1991, 1995, Pedro Costa);
  •  «Glória» (1999, Manuela Viegas);
  •  «O Fato Completo, ou à Procura de Alberto» (2001, Inês de Medeiros);
  •  «Quando Troveja», «Xavier» (1998, 1992, estreado em 2003, Manuel Mozos); 
  • «Conversa Acabada» (1982), «Um Adeus Português» (1985), «Tempos Difíceis» (1988), «Aqui na Terra» (1993), «Três Palmeiras» (1994) e «Tráfico» (1998), de João Botelho.
«Lembro-me do plano de Isabel de Castro, em «Brandos Costumes» (1975), de Alberto Seixas Santos, com um toalha branca na mão, falando para a câmara: a sua personagem disserta sobre a sua tentativa de suicídio e, de repente, a carga de naturalismo envolve-se com algo de sobrenatural, como se face à memória próxima da morte o ser se abrisse na harmonia reencontrada de todas as suas contradições — é um grande momento de uma actriz que tinha a capacidade simples, mas radical, de se expor, expondo os enigmas das suas personagens. A sua carreira, entre palco e filmes, e também televisão, possui as marcas inevitáveis de um contexto português em que quase ninguém que represente tem condições para, de facto, progredir num sentido de crescente exigência e depuração. Mas não cultivemos a utopia fácil: também neste caso, as caminhadas fazem-se, não apenas contra, mas também através dos sobressaltos que a profissão impõe. E Isabel de Castro deixou a marca de alguém que, mesmo no interior de uma ficção convencional, era capaz de gerar um súbito momento de vida, uma luz mais forte do que tudo aquilo que a circundava. E sempre com a humildade grave de uma grande senhora. Lembro-me também da sua imagem, misto de desamparo e força, contracenando com Ruy de Carvalho, na adaptação do romance de Fernando Namora, «Domingo à Tarde» (1965), dirigida por António de Macedo. São memórias que não vale a pena cultivar de forma meramente nostálgica. São, sobretudo, memórias que vão sendo aniquiladas pelo ensino que (não) temos e as televisões que vamos tendo. Na prática, chegámos ao ponto em que parece só ser possível celebrar o cinema português como «intocável» ou destruí-lo como «impróprio para consumo» — na prática, uma coisa ou outra jogam contra o trabalho de profissionais como Isabel de Castro». In Cinema 2000, João Lopes 
Cortesia de Cinema 2000/JDACT