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domingo, 23 de setembro de 2012

A Infanta D. Beatriz. Mãe de Manuel I. João Oliveira e Costa. «Viveu os últimos anos da sua vida, em regra retirada em Beja, embora saibamos que, por exemplo, no Natal de 1500 estava em Lisboa, tendo participado nos festejos organizados por seu filho Manuel I. A Infanta D. Beatriz foi o poder em Portugal no século XV, início do século XVI»


(1429 ou 1430-1506)
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«Filha do infante João, filho de João I, e de D. Isabel, sua sobrinha, filha Afonso, 1º duque de Bragança, e neta de Nuno Álvares Pereira, nasceu em 1429 e morreu em Beja, a 30 de Setembro de 1506. Em 1445, sua mãe e seus tios decidiram o seu casamento com o infante Fernando, seu primo co-irmão, filho segundo do rei Duarte I. A existência de D. Beatriz pautou-se pela discrição até ao mês de Setembro de 1470, aquando da morte de seu marido. Registe-se apenas que deu à luz oito filhos entre 1458 e 1469, o último dos quais, o futuro rei Manuel de Portugal. Quando o infante Fernando faleceu, todos os filhos do casal sobreviventes eram menores. As duas raparigas estavam prometidas para casamentos distintos: D. Leonor fora destinada para ser rainha de Portugal, pelo enlace com o herdeiro do trono, o futuro João II, enquanto D. Isabel foi encaminhada para Fernando, duque de Guimarães e herdeiro da Casa de Bragança. À morte do infante Fernando, Afonso V concedeu ao filho primogénito de seu irmão o património da Casa de Viseu-Beja: os ducados, o senhorio da Covilhã, o senhorio das ilhas atlânticas e o monopólio das saboarias do reino. No entanto, evitou a excessiva concentração de poder que havia ocorrido em seu irmão, pois o cargo de condestável passou para João, filho segundo do duque de Bragança, o governo da Ordem de Santiago recaiu no príncipe João e o governo da Ordem de Cristo transitou para Diogo, o filho segundo do infante Fernando e D. Beatriz.
O rei assumiu a tutoria deste sobrinho, procurando assim ganhar o controlo da Ordem de Cristo, enquanto D. Beatriz ficou com a tutoria do seu primogénito e, consequentemente, com a governação do ducado e das ilhas. No início de 1472, faleceu João, o 3º duque de Viseu, pelo que lhe sucedeu no título seu irmão Diogo e o ducado de Viseu voltou a ser acumulado na mesma pessoa com o governo da Ordem de Cristo. D. Beatriz continuou a gerir o património do ducado, agora em nome do filho Diogo.


Não terá sido fácil conduzir os negócios da Casa de Viseu. Uma acta da vereação do Funchal de 31 de Janeiro de 1472, refere que após ter sido lida uma carta da duquesa em que esta pedia que os homens bons da vila que não se escusassem ao serviço camarário, “logo Rui Lopes, escudeiro, disse que a carta susodita era carta de mulher”. A mulher, porém, impôs-se a esse mundo dos homens e governou com autoridade os vastos domínios que pertenciam ao duque Diogo. Durante o governo das ilhas por Fernando (1461-1470), a atenção da Casa de Viseu concentrara-se sobretudo no desenvolvimento económico da ilha da Madeira e no início do povoamento da ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde.
D. Beatriz, distinguiu-se pela atenção especial que prestou às ilhas dos Açores, tendo promovido a troca do capitão de São Miguel e tendo dividido a ilha Terceira em duas capitanias. A partir de 1475 passou também a ser a tutora de Diogo para a governação da Ordem de Cristo, quando Afonso V se envolveu na guerra com Castela em defesa da candidatura de sua sobrinha, D. Joana, ao trono castelhano.
A guerra luso-castelhana de 1475-1479 foi decisiva para a recomposição do mapa político peninsular, pois a vitória de Isabel possibilitou o estreitamento dos laços e a futura união das coroas de Castela e de Aragão, pois a princesa castelhana era casada com Fernando, o herdeiro do trono aragonês. Embora o conflito se relacionasse com a obtenção do ceptro castelhano, os combates não se circunscreveram ao território peninsular, pois alastraram para o Oceano. Era a primeira guerra luso-castelhana depois do início dos ‘Descobrimentos’ e logo as novas áreas sob influência portuguesa foram envolvidas no conflito. Isabel pretendia retomar a política de seu pai, o rei João II de Castela, que sempre se opusera ao avanço das caravelas portuguesas ao longo da costa da Guiné, ao contrário de seu irmão Henrique IV que nunca se interessara pelo assunto. Por isso, várias esquadras castelhanas foram enviadas à Guiné, sobretudo na tentativa de controlar a região da Mina. Foi nessa ocasião que se procedeu à construção da primeira fortificação em Angra, e navios castelhanos atacaram pelo menos as ilhas de Porto Santo e de Santiago. Os territórios continentais da Casa de Viseu-Beja, estavam, em regra, suficientemente longe da fronteira para que as destruições causadas pela guerra não fossem significativas, mas os domínios insulares da Casa estavam expostos aos ataques castelhanos e as riquezas auferidas pela exportação do açúcar madeirense ou os rendimentos que a Ordem de Cristo obtinha pela vintena do comércio da Guiné foram afectados nestes anos. Além disso, o interesse de Isabel pelo Atlântico colocava os domínios da Casa de Viseu no campo das moedas de troca quando a diplomacia fosse chamada a sarar as feridas da guerra. Quando o conflito caiu num impasse, foi precisamente D. Beatriz quem representou Portugal no encontro que veio a decidir os termos da paz entre os dois reinos. 


Isabel, a princesa que venceu a guerra na sua dimensão ibérica, era filha do segundo casamento do rei João II; sua mãe, era D. Isabel, irmã de D. Beatriz. A duquesa de Viseu era, assim, tia da castelhana o que a colocou numa posição de maior proximidade pessoal para tentar resolver o conflito. Em meados de Março de 1479, D. Beatriz, seguida por um pequeníssimo séquito, cruzou a fronteira luso-castelhana em Segura e dirigiu-se para Alcântara, onde era esperada pela sobrinha. Ambas as mulheres corriam riscos e confiavam uma na outra:
  • a duquesa entrava em território inimigo indefesa e a rainha de Castela colocava-se num castelo próximo da fronteira portuguesa sem ter um exército a protegê-la. As conversações duraram cerca de uma semana, e no final saiu um acordo, que é conhecido nos seus termos gerais: Portugal reconhecia a realeza de Isabel e comprometia-se a impedir que Joana, a rival, continuasse a ser uma pretendente ao trono castelhano; Castela ficava com o direito de conquistar o arquipélago das Canárias, mas reconhecia o direito de Portugal sobre o Oceano.
D. Beatriz era a artífice da paz e conseguia assegurar a integridade dos domínios e rendimentos atlânticos da Casa de Viseu-Beja. Depois, foi D. Beatriz quem reuniu em Moura, nas célebres “Terçarias” os reféns que ambos os reinos entregaram como penhores da paz, ao mesmo tempo que entregava um dos seus filhos (alternadamente Diogo e Manuel) que permaneceram como reféns em Castela.
D. Beatriz assistiu depois à execução de seu genro, o duque de Bragança, em 1483, e ao assassinato de seu filho Diogo, em 1484, mas soube permanecer discreta, apoiando seu último filho, Manuel na governação do ducado de Beja. Quando o seu neto, o príncipe Afonso, morreu de acidente, em 1491, D. Beatriz congregou as forças da sua Casa para defender os direitos de Manuel à sucessão de D. João II. Viveu os últimos anos da sua vida, em regra retirada em Beja, embora saibamos que, por exemplo, no Natal de 1500 estava em Lisboa, tendo participado nos festejos organizados por seu filho Manuel I. A Infanta D. Beatriz foi o poder em Portugal no século XV, início do século XVI». In João Paulo Oliveira e Costa, The Carnegie Institution of Washington/DAVENPORT, Frances Gardiner/Biblioteca de Barcelona/CESÁREO FERNÁNDEZ DURO / Biblioteca Nacional / Biblioteca de Sevilha.

(DOS ANÁLISIS HISTÓRICO-JURÍDICOS EN TORNO AL DESCUBRIMIENTO DE LAS INDIAS: LA ACCESIÓN Y LA OCUPACIÓN);
(Enxoval da Infanta);
(Versão do Tratado).

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Império dos Pardais. Jogos de Poder da corte de D. Manuel. João Oliveira Costa. «Ao longo de seu reinado, Manuel I sempre evocara com grande ênfase a figura de Afonso Henriques, e procurara relacionar o Santo Conquistador que tivera a graça de ver Jesus Cristo antes da batalha de Ourique, com sua auspiciosa subida ao trono e com os feitos extraordinários que seus súbditos alcançavam contra a mourama»



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«No dia 25 de Outubro de 1520, Coimbra engalanou-se pare uma festa retumbante. Havia já um bom par de anos que el-rei Manuel não visitava a cidade, mas sua presença fizera-se sentir pelas obras que se realizavam em várias partes da urbe, muitas delas sob o patrocínio régio. O monarca podia apreciar agora a renovação do Paço Real e a construção da nova capela anexa, dedicada a São Miguel, cujas obras ainda não tinham terminado, Estava também à vista a renovação do Mosteiro de Santa Cruz, cujos trabalhos também não tinham sido ainda concluídos, mas já permitiam a realização de uma grande cerimónia de Estado, programada para aquele dia preciso.
A cidade transformara-se nos últimos vinte anos, com novos edifícios que seguiam o gosto arquitectónico das construções régias, a que se juntava uma renovação das artes decorativas, imprescindíveis para o embelezamento das novas construções. O novo retábulo da Sé, realizado entre I500 e 1502 por encomenda do bispo Jorge de Almeida era um dos melhores exemplos desse movimento modernizador, que tocava com a mesma intensidade muitas outras localidades do reino. Oficinas de pintura e de escultura estavam cheias de encomendas nestes dias de prosperidade.
No meio de grande solenidade, Manuel I iria presidir à trasladação dos corpos dos primeiros reis de Portugal para seus novos túmulos, que ele próprio mandara preparar e que davam uma nova dignidade aos fundadores da nação. O Mosteiro de Santa Cruz havia sido um dos principais suportes da política do Fundador, e em 1502, quando passara por ali em jornada a Santiago de Compostela. O rei Manuel entendera que o edifício precisava de um grande restauro, em que se incluía a colocação dos corpos de seus antecessores em novos monumentos fúnebres, mais ajustados ao papel crucial que haviam desempenhado no nascimento e afirmação de Portugal como reino independente.
Ao longo de seu reinado, Manuel I sempre evocara com grande ênfase a figura de Afonso Henriques, e procurara relacionar o Santo Conquistador que tivera a graça de ver Jesus Cristo antes da batalha de Ourique, com sua auspiciosa subida ao trono e com os feitos extraordinários que seus súbditos alcançavam contra a mourama. Duarte Galvão, um de seus principais conselheiros, que falecera entretanto no mar Roxo, compusera uma crónica de Afonso Henriques, e no prefácio estabelecera uma relação directa entre os dois monarcas. Na propaganda manuelina o Fundador era o Alfa e o Emanuel era o Ómega, Afonso Henriques fora o responsável pelo princípio de um pequeno reino que ele mesmo agigantara ao vocacioná-lo para a destruição do Islão; Manuel I iria concretizar definitivamente essa vocação através da cruzada libertadora da cidade santa de Jerusalém, que ele esperava poder organizar brevemente.

A escolha da data para a cerimónia tinha um significado profundo. O dia 25 de Outubro assinalava mais um aniversário da conquista de Lisboa, o maior troféu que Afonso Henriques arrancara definitivamente das mãos dos mouros; além disso, porém, aquele dia 25 de Outubro do ano de 1520 assinalava igualmente o vigésimo quinto aniversário da subida ao trono de Manuel I. Por isso, embora as obras ainda não estivessem concluídas, o monarca arrastara a corre até à beira do Mondego para lhes mostrar, lado a lado, nesse dia comemorativo, o corpo santo do rei fundador e o da pessoa que cingia a coroa havia precisamente vinte e cinco anos.
O primeiro fizera do pequeno condado portucalense um reino independente e ambicioso, o segundo, tendo sido miraculosamente escolhido por Deus para completar o legado de seus antecessores, fizera do reino um império universal». In João Oliveira e Costa, O Império dos Pardais, Editora Temas e Debates, 2008, pág. 93-95, ISBN 978-972-759-993-6.

Cortesia Tema e Debates/JDACT

sexta-feira, 24 de junho de 2011

João Oliveira e Costa. O Império dos Pardais: «No entanto, D. Manuel acabara por agregar um grupo de companheiros, rapazes que pela sua condição não aspiravam a ser favoritos de um rei ou que, simplesmente, se haviam apegado àquele jovem mais discreto. Os romances de cavalaria seduziam-nos e as lendas do rei Artur eram suas favoritas»

Cortesia de temasedebates

A Irmandade de Moura
«D. Beatriz juntara outras crianças no castelo de Moura para entretenimento dos príncipes e de seu filho mais novo. Alguns deles brincavam preferencialmente com D. Manuel. Afável, o jovem olhava de longe a prima D. Isabel, prometida a D. Afonso, seu sobrinho, e divertia-se como podia, no intervalo das lições. A rapaziada olhava para o futuro como um livro aberto onde todos esperavam vir a inscrever seus nomes em letras de ouro.
Outros rapazes de maior qualidade acompanhavam normalmente o príncipe D. Afonso, o futuro rei. Caber-lhe-ia o trono quando seu pai, o rei D. João II, falecesse. Empertigados, mesmo petulantes, preferiam juntar-se ao pequeno Afonso, que ia em seus sete anos, e não ligavam ao jovem Manuel, que já ia nos treze. Este, ao contrário do príncipe, era um aristocrata com um futuro incerto. Beneficiava de uma tença anual de quinhentos mil reais, quantia avultadíssima para a maioria, mas uma ninharia para quem era bisneto d'el-rei D. João I, o da batalha real, e neto do eloquente rei D. Duarte. Deles descendia por linha legítima e varonil, ao contrário dos todo-poderosos Braganças, que tinham ducados, marquesados e condados. Era verdade que, por enquanto, D. Manuel era também o herdeiro do ducado de Viseu, cujo titular era seu irmão, D. Diogo, mas essa situação terminaria no dia em que D. Diogo casasse e gerasse seus próprios herdeiros. Por isso, enquanto tutelava os reféns das terçarias, D. Beatriz pedia insistentemente ao rei que concedesse o governo do mestrado de Avis a seu filho mais novo, mas el-rei D. João evitava dar uma resposta definitiva, apesar de sua esposa, a rainha D. Leonor, também interceder pelo pequeno, que era seu irmão. Assim, os fidalgotes comentavam que talvez D. Manuel um dia viesse a ter um senhorio e um título, mas nada que se comparasse à glória e ao poder que estavam prometidos a D. Afonso.

Cortesia de pedroalmeidavieira

No entanto, D. Manuel acabara por agregar um grupo de companheiros, rapazes que pela sua condição não aspiravam a ser favoritos de um rei ou que, simplesmente, se haviam apegado àquele jovem mais discreto. Os romances de cavalaria seduziam-nos e as lendas do rei Artur eram suas favoritas.
Um dia, quando o frio começava a apertar nos finais de Novembro, após uma correria atrás de uma bola, estavam todos deitados sobre a erva olhando pachorrentemente para a extensa paisagem dos montados, agitada nalguns pontos pelo enxame de gente que se dedicava à apanha da azeitona. Os cabeços para as bandas de Alqueva escondiam o Guadiana, que corria bravio nesse tempo, depois de duas semanas de fortes chuvadas. Da fortaleza via-se, contudo, o Ardila na sua caminhada para a confluência com o grande curso de água que se preparava para cair com estrondo no «Pulo do Lobo», antes de escorrer até ao oceano depois de refrescar as vilas de Mértola, Alcoutim e Castro Marim. No ar ecoava o som das pancadas certeiras do ferreiro e o mugido das vacas que regressavam lentamente ao estábulo.

Cortesia de temasedebates

A certa altura Rui de Sá assobiara estridentemente e todos começaram a imitar o grunhido dos porcos, ao mesmo tempo que agitavam o nariz fieneticamente. Vasco de Melo olhara para os outros, meio aborrecido, meio divertido, e atirara uma pedra certeira à testa do primeiro provocador. Rui de Sá passara do grunhido ao gemido e depois à perseguição ao Melo, que corria, qual perdigueiro, atrás da caça. Mas na verdade era Vasco a presa e acabara por ser agarrado e levado aos ombros pelo amigo. Depois de uma luta própria da idade tudo terminara com novas gargalhadas. Havia uma semana que o nariz de Vasco de Melo começara a tremer. Não conseguia explicar a razão, mas tinha sempre tiques». In João Oliveira e Costa, O Império dos Pardais, Editora Temas e Debates, 2008, pág. 93-95, ISBN 978-972-759-993-6.

Cortesia Tema e Debates/JDACT

sexta-feira, 20 de maio de 2011

João Oliveira e Costa. O Império dos Pardais: «Era um encontro fraternal. Naquele grupo nunca houvera cerimónias, por mais que o destino tivesse elevado a condição de D. Manuel. Com qualquer um daqueles doze, desde que estivessem em privado, logo desaparecia a formalidade com que tinha de se tratar um neto de rei, um duque, ou o próprio rei. Eram ocasiões de desabafo para quem levava uma vida quase sempre controlada pela etiqueta...»

Cortesia de temasedebates 

A Irmandade de Moura
«Depois da refeição, o rei junrou_se aos companheiros que tinham ficado na vila, numa das salas do paço Ducal. Era uma reunião de velhos amigos, que havia muito tinham cruzado seus destinos com o membro mais novo da família real, um jovem que apenas aspirava a obter o governo de uma ordem militar secundátra, mas que a roda da fortuna guindara ao trono e à cabeça de um novo império ultramarino. Ali estavam D. Nuno Manuel, colaço de D. Manuel, Gaspar de Lemos, Jorge de Brito, D. Miguel de Castro, Luís de Vasconcelos, Álvaro de Sousa e Vasco de Melo. A irmandade era maior quanclo fora constituída, havia trinta e quatro anos, mas o tempo encarregara-se de fazer desaparecer os ourros cinco: António de Brito, irmão de Jorge, morrera de doença, em 1499; Ambrósio de Serpa, fora assassinado em Bristol, no ano de 1502, quando tentava infiltrar-se numa expedição de descobrimento a ocidente, financiada por el-rei Henrique VII de Inglaterra; Lourenço de Brito, outro irmão de Jorge, partira para a Índia, em 1505, com o vice-rei D. Francisco de Almeida, e perecera com ele em 1510, quando regressava ao reino, numa escaramuça escusada com indígenes nas proximidades do cabo da Boa Esperança; Rui de Sá morrera havia três anos, com a amante, trespassadoss pela espada de um marido enganado; Lopo de Góis tombara no ano enterior, combatendo os mouros na batalha dos Alcaides, que se ferira não muico longe de Azamor, em dia de Sexta-Feira Santa.

Cortesia de temasedebates 

Assim que chegou, D. Manuel pediu a Vasco que lhe desse notícias sobre as obras que decorriam no Casrelo de Moura, bem como as da edificação da nova igreja matriz, fora da cinta de muralhas. Depois saudou uma vez mais os amigos.
Era um encontro fraternal. Naquele grupo nunca houvera cerimónias, por mais que o destino tivesse elevado a condição de D. Manuel. Com qualquer um daqueles doze, desde que estivessem em privado, logo desaparecia a formalidade com que tinha de se tratar um neto de rei, um duque, ou o próprio rei. Eram ocasiões de desabafo para quem levava uma vida quase sempre controlada pela etiqueta, a que só escapavam os momentos em que D. Manuel se fechava na intimidade com a rainha. Mas D. Maria, nascida princesa numa corte severa como a dos reis Fernando e Isabel, nunca pudera subir às árvores, correr à frente dos touros ou atrás de uma bola, como D. Manuel fizera nos primeiros anos tranquilos da sua existência. Mesmo na intimidade do leiro conjugal, Maria, embora delicada, aprazível e sempre disponível para seu marido, não deixava de ser uma Trastâmara modelada pela etiqueta. Os encontros com seus amigos da irmandade eram momentos raros de absoluta liberdade para o rei, que vivia preso ao seu poder.

Cortesia de pedroalmeidavieira 

Eram todos jovens nos começos da puberdade quando se haviam reunido na vila de Moura, na última fase das terçarias. Nessa ocasião, no Outono de 1482, D. Manuel não regressara a Castela como  refém, em substituição de seu irmão, D. Diogo. O entendimento entre as duas monarquias adivinhava-se, e esperava-se para breve a libertação do príncipe D. Afonso de Portugal e da infanta D. Isabel de Castela, que por então estavam à guarda da infanta D. Beatriz, mãe de D. Manuel, no Cascelo de Moura, como garantes da paz alcançada em 1479. Por isso, a rainha Isabel de Castela aceitara que o representante da Casa de Viseu nesta complexa trama política ficasse também enclausurado no castelo alentejano. Depois da confusão que o duque D. Diogo provocara na corte castelhana, engendrando um filho à esposa do duque de Villahermosa, que era nem mais nem menos que o meio-irmão do rei Fernando, a rainha decidira evitar mais barafunda, embora D. Manuel fosse muito mais tranquilo e discreto que o altivo irmão». In João Oliveira e Costa, O Império dos Pardais, Editora Temas e Debates, 2008, pág. 93-95, ISBN 978-972-759-993-6.

Cortesia Tema e Debates/JDACT

quarta-feira, 7 de julho de 2010

D. Manuel I: «Império dos Pardais» conta uma história empolgante, de poder da corte de D. Manuel num momento sensível da sua história em que se decidem os destinos do Império

Cortesia de Temas e Debates
Com a devida vénia a João Oliveira e Costa, publico algumas palavras do seu livro «O Império dos Pardais».

« ... A roda da fortuna dera voltas e mais voltas, alterando-lhes os planos assim que os arquitectavam. Como poderiam :adivinhar, no final de 1482, as tragédias por que passaria a corte portuguesa durante todo o reinado de D. João II. Primeiro a prisão e decapitação de D. Fernando, duque de Bragança, com a fuga do reino de d: João, marquês de Montemor. D. Afonso, conde de Faro, e D. Álvaro, chanceler-mor do reino, todos irmãos do duque executado. D. João e D. Afonso haviam falecido pouco depois no exílio castelhano.
Quem adivinharia também que a rainha D. Leonor não voltaria a dar à luz, a não ser um nado-morto. D. Manuel acompanhava os reis numa peregrinação a Lamego, mas não houvera santo que intercedesse com sucesso junto do Altíssimo, e a descendência legítima de D. João II ficara reduzida ao príncipe D. Afonso.
Entretanto, e rn 1484, seguira-se o assassínio do duque de Viseu pelo próprio rei, sob o pretexto que D. Diogo planeara o regicídio. O altivo D. Diogo acabara sem g1ória, apunhalado pelo cunhado que ele desdenhara e subestimara. D. Manuel fora chamado à câmara onde jazia, inerte, seu irmão, e, ali mesmo, defronte do cadáver, lhe fora prometido o ducado de Viseu, mas com sede em Beja, mais o governo da Ordem de Cristo, o senhorio das ilhas atlânticas e o título de condestável. De repente, o último neto d’el-rei D. Duarte, a quem D. João II continuara a negar o governo da Ordem de Avis, transformava-se no fidalgo mais poderoso do reino.
Passado um mês, ainda atordoado, D. Manuel chamara os amigos da Irmandade de Moura. Continuavam a ser uns rapazes, mas os laços de amizade estavam firmados. Juntos haviam renovado os votos de uma união total e nos meses seguintes todos acabaram por ser incorporados na Casa de Beja. A sua relação informal permanecera secreta, e nem Miguel de Castro a revelara no seu diário.
Insatisfeita com tamanha revolução, a roda da fortuna levara D. Manuel a Elvas para receber D. Isabel de Castela, aquela menina que outrora espreitara por entre as ameias do Castelo de Moura, que agora chegava, mulher, para desposar o príncipe D. Afonso.
O duque de Beja conduzira a prima para o enlace com seu sobrinho, e ao revê-la voltara a não ficar indiferente, mas quem era capaz de escapar às desconfianças do rei sabia dissimular o interesse por uma mulher. A Irmandade de Moura acompanhara D. Manuel nos festejos grandiosos com que D. João II celebrara o casamento de seu único filho.
Passados oito meses, a princesa continuava por engravidar e o príncipe caíra do cavalo desastradamente. Numa tarde de Julho do ano de 1491, o trono escancarava-se ao afortunado, mas discreto duque de Beja, que de Tomar acorrera a Santarém, onde encontrara o príncipe já cadáver. Para que a tragédia d'el-rei João fosse completa faltava sua própria morte, que também não tardara. Mas esta não surgira subitamente, como no dia em que levara o príncipe; ao rei a morte anunciara-se com larga antecedência. A doença fora-lhe corroendo o corpo enquanto o espírito vivo do monarca continuava a montar as bases que haviam de sustentar o império marítimo dos portugueses, mas que ele já não veria. D. João tentara, ao mesmo tempo, fazer de D. Jorge, seu filho bastardo, o herdeiro do trono, mas as forças vivas da Casa de Beja, mantendo sempre o duque resguardado da sanha joanina, tinham defendido a realeza de D. Manuel, de novo herdeiro, mas agora da Coroa. A Irmandade de Moura tivera parte activa nesse processo. Vasco de Melo, que se especializara em acções secretas, andara por Itália durante dois anos a coordenar todas as acções para neutralizar as embaixadas de D. João II ao papa.
D. Manuel tornara-se rei de Portugal, a 25 de Outubro de 1495, num ambiente tenso, tendo recusado uma derradeira visita ao rei moribundo por receio de sofrer um atentado. Os amigos de infância acompanhavam-no em Alcácer do Sal quando chegara a nova que lhe dava o ceptro. Todos se maravilharam com tal destino, que elevara à realeza o jovem nascido longe do trono, mas que fora baptizado como Emanuel - «o Deus connosco», sinal de que era um predestinado.
Pouco depois chegara a embaixada castelhano-aragonesa propondo-lhe. o casamento com a infanta D' Maria, fi1ha dos Reis Católicos. D. Manuel desejava tornar-se genro de Fernando e Isabel, mas a noiva pretendida era a velha conhecida D. Ìsabel, que continuava viúva. O desejo fora satisfeito, mas o preço elevado, pois D. Isabel impusera a saída de judeus e mouros para que ela regressasse a terras de Portugal. D. Manuel, com manhas, transformara os seguidores de Moisés em cristãos-novos e, nesses tempos em que a intolerância para com os judeus ganha contornos mais acentuados, limitara-se a evitar um problema criando outro bem mais complexo. Viera D. Isabel e passado um mês já estava prenhe enquanto seu irmão mais velho morria em Castela e o filho que ele engendrara em Margarida de Áustria morria, pouco depois, à nascença.
Desta forma, a Isabel que D. Manuel cobiçara em Moura, valia-1he, passados quinze anos, a herança de Castela e Aragão. Depois, porém, a roda da fortuna mudara de sentido e matara Isabel no parto e o pequeno rebento, o príncipe D. Miguel da Paz, passados dois anos. Embora tivesse de abandonar por então o sonho hispânico, D. Manuel ganhara um império e uma nova esposa, D. Maria, que ele amava e que o cumulalava de filhos.
Em muitos momentos decisivos de sua vida, enquanto duque ou já corno rei, seus amigos da irmandade tinham-lhe valido, fosse na praça pública, fosse em acções discretas, matéria em que alguns deles se haviam tornado especialistas». In João Oliveira e Costa, O Império dos Pardais, editora Temas e Debates, 1ª edição, janeiro de 2008, pág. 103-105, ISBN 978-972-759-993-6.
Cortesia de Temas e Debates

Cortesia de João Oliveira e Costa/Nuno Senos/JDACT