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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Oliveira Martins: O Príncipe Perfeito. Prefácio, Parte IV. «As diligências para modificar uma situação tão desfavorável começaram por isso logo no seguinte ano de 1482 em que D. João II enviou a Castela D. João da Silveira, Barão de Alvito, como embaixador, levando Rui de Pina para secretário, no intuito de conseguir um dos dois termos desta alternativa, ou remover para Lisboa as Terçarias, ou desfazê-las de vez»

Cortesia de revelarlx

«O capítulo V teria como título «As Terçarias de Moura». Nas pazes entre Portugal e Castela, negociadas em 1479 pela infanta D. Beatriz, ainda em tempos de D. Afonso V, estipulara-se, a par de outras garantias, que de Castela viesse para Portugal em reféns a Infanta D. Isabel, filha dos Reis Católicos, e aqui permanecesse entregue aos cuidados e guarda da Infanta D. Beatriz, residente por esse tempo no seu castelo de Moura. Ali se acolheria também o príncipe D. Afonso, filho de D. João II, débil criança que teria mais tarde de desposar D. Isabel, e, até isso suceder, ficaria igualmente sob a guarda da Infanta, sua avó, mãe da Rainha D. Leonor. O Duque de Viseu, irmão desta, e filho de D. Beatriz, seguiria para Castela em reféns, e por troca com sua prima D. Isabel.
Cortesia de geopedrados
Nisto consistiam as chamadas Terçarias de Moura, e delas resultou ficar mais tarde, quando ateada a inimizade entre D. João II e os Duques de Viseu e Bragança, confiado o filho daquele soberano à guarda de seus inimigos, e isto por efeito das cláusulas de um tratado de paz, que por todos os títulos tinha de ser cumprido e acatado. A Infanta D. Isabel fora entregue em Terçaria no ano de 1481. Conduzira-a a Moura, onde já se achava D. Afonso, o mestre de S. Tiago com os bispos de Palência e de Ávila, o de Coria e o licenciado de Huesca. Achavam-se em Moura para receber a princesa espanhola, além da Infanta D. Beatriz, os Duques de Viseu (D. Diogo) e o de Bragança e Guimarães D. Fernando, o conde de Faro, D. Álvaro de Bragança e outros senhores, entre os quais D. João da Silveira (Alvito), na qualidade de procurador de el-rei D. João II.

Cortesia de mjfs
Como poderia, pois, este soberano resolver a questão capital levantada entre a coroa e a nobreza, entrando francamente na luta suscitada pelo abuso das jurisdições exercidas pelos nobres, enquanto o seu herdeiro único continuava entregue precisamente àqueles que, pela força da sua posição eminente, teriam de capitanear e dirigir a resistência oposta aos planos do Rei?
As diligências para modificar uma situação tão desfavorável começaram por isso logo no seguinte ano de 1482 em que D. João II enviou a Castela D. João da Silveira, Barão de Alvito, como embaixador, levando Rui de Pina para secretário, no intuito de conseguir um dos dois termos desta alternativa, ou remover para Lisboa as Terçarias, ou desfazê-las de vez. Esta primeira tentativa de reaver o filho malogrou-se, porém, por efeito de intrigas do Duque de Bragança, que bem compreendia ser a instituição e manutenção das Terçarias a garantia mais valiosa contra o Rei, de cujos projectos se arreceava, e com a antipatia do qual contava como segura.
D. João II, já mestre na arte de dissimular, disfarçou o desgosto, afagou o Duque, para melhor lhe iludir a vigilância, e prosseguir nas diligências intentadas, aguardando momento mais oportuno para lhes alcançar o êxito que a princípio não colhera». In O Príncipe Perfeito, Oliveira Martins, Guimarães e Cª Editores, 6ª edição 1984.

Cortesia de Guimarães e Cª Editores/JDACT

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte IV. «O eixo do Poema é evidentemente a viagem do Gama, mas Os Lusíadas não são a viagem do Gama. Os Lusíadas são todos os seus reis, todos os seus heróis, todos os seus gloriosos barões. Ora o Gama, na sua notícia ao rei de Melinde, só poderia dar conta dos que enobreceram a Nação até aquele momento em que fazia a sua exposição ao rei de Melinde...»

Cortesia de dightonrock 

«Mas, antes de tudo, Camões teve de possuir portentosa memória, porque lhe seria difícil ter à mão ao mesmo tempo tantas obras. No naufrágio salva o Poema; mas, o material bibliográfico de que se servia? E não se esqueça o costume dos escolares de então de reunir alfabèticamente sentenças e exemplos em cadernos escolares que lhes serviam pela vida fora. Muitos livros práticos desta feição foram publicados na Europa.
Escusado seria dizer-se que Camões conheceu todas as crónicas do Reino, além das ultramarinas de Castanheda, Barros e Gaspar Correia (esta em manuscrito). Conversou com Diogo do Couto. Conheceu opúsculos de André de Resende, mormente o seu poema Vincentius. As crónicas ultramarinas deram-lhe o fio da história:
  • a viagem do Gama;
  • as crónicas do Reino deram-lhe a história poetizada do Reino e sobretudo os episódios com que realça a narrativa.
Muito se discutiu a legitimidade da intervenção dos deuses do Olimpo, mas nunca se explicou como é que o Poeta havia de deificar os Lusitanos sem que os próprios deuses interviessem na acção. Os Portugueses – ainda antes de Camões – sentiam-se verdadeiramente ufanos da descoberta de tudo o que não era Europa (um mundo imenso de que a Europa não tinha notícia) e colocavam as façanhas dos descobridores e conquistadores acima de tudo o que fora feito pelo mundo greco-romano. Alexandre, César e Trajano aparecem em Os Lusíadas como grandes monarcas ofuscados pelos Portugueses. Este dado é fundamental para se entender o que o Poeta quis fazer.

Cortesia de icicomup
Não basta afirmar-se que quis exaltar os Portugueses. É pouco. Quis deificá-los; quis fazer deles uma nova raça de deuses. Baco – magnífica aceitação por Camões dos direitos de Baco sobre a Índia – será o grande vencido – e após porfiada luta. Os direitos de Baco sobre a Índia vinham de longe.
Arriano conta, a propósito da intenção de Alexandre de dominar os Árabes, que estes só adoravam dois deuses: o Céu e Baco. O Céu, porque, contendo os astros e o Sol, era causa dos maiores, mais visíveis e numerosos benefícios dos homens; Baco, por ter conquistado os Índios. (Baco submetera a Índia pela força das armas.) «Pois eu», afirmou Alexandre, «posso ser a sua terceira divindade, pois as minhas façanhas de modo algum são inferiores às do semideus». Camões escolheu como inimigo dos Portugueses aquele mesmo que os Árabes tinham adorado. E o ódio de Baco aos Portugueses vem de saber que há-de ser destronado por eles. Todos os ardis postos em execução por Baco não atingem o seu objectivo. O último – ter aparecido em sonhos a um sacerdote maometano para indispô-lo contra os Portugueses (VIII.47-50) – precede a apoteose dos heróis. Baco desaparece obscuramente antes, sem deixar qualquer rasto da sua insatisfeita vingança.
Pensamos hoje que Baco não merecia tais honras, mas no tempo de Camões Baco era uma entidade muito importante. Barros, no princípio da Ásia, ao falar dos feitos dos Portugueses, diz que estes, além do mais, foram «despregar aquella divina & real bãdeira da milicia de Christo (que elles fundaram para esta guerra aos infieis) nas partes Orientaes da Asia, em meyo das infernaes mesquitas da Arabea, & Persia, & de todolos pagòdes da gentilidade da India daquem, & dalem do Gange: partes onde (segundo escriptores Gregos & latinos) excepto a illustre Semirames, Bacho, & o grande Alexandre, ninguem ousou cometeras» (I, fol. 3).

Cortesia de lerparacrer  
Se Baco é o grande inimigo, Vénus é a grande e solícita companheira dos Lusitanos, seguida das suas Nereidas, não menos solícitas e prestantes. O oceano de Camões está coalhado de ninfas. São no Poema a encarnação da beleza pagã. Obedecem a Vénus e substituem-se no Poema às forças naturais, e com tão invisível traça que os Nautas só se darão conta da sua existência muito mais tarde, na Ilha dos Amores.
A presença de Vénus no sexto céu, queixando-se a Júpiter das insídias de Baco, a intervenção de Vénus e das suas Nereidas para impedir a entrada das naus em Mombaça, onde seriam destruídas, a sedução dos Ventos para os impedir de prosseguirem a tempestade são trechos de uma beleza formal insuperável, em que a pena do Poeta atinge a visualização de um verdadeiro pintor. Com que simplicidade o Poeta une a realidade e o mito nestes versos:

Destarte despedida a forte armada
As ondas de Anfitrite dividia,
Das filhas de Nereu acompanhadas,
Fiel, alegre e doce companhia ...
(I.96.1-4)

Um mundo familiar, a facilitar a empresa dos nautas!
Com a Ilha dos Amores Camões atinge o clímax da voluptuosidade pagã. Creio não ser preciso subtilizar a exegese para converter o deleite carnal em gozo filosófico. Vénus não é Platão! A Ilha é levada por Vénus ao encontro dos mareantes, os «segundos Argonautas», para que estes possam «refocilar a lassa anidade» (IX.20) porque a deusa quer:

... que haja no reino neptunino
(onde nasceu) progénie forte e bela
(IX.42.1-2)

Só é possível dar origem a novos seres pela geração. Uma raça valorosa vai nascer deste conúbio entre os fortes barões e as nereidas. Sou dos que pensam que o Poeta, no seu regresso à Pátria, foi convidado pela censura a dar um sentido espiritual (as «deleitosas honras») às delícias carnais da Ilha de Vénus. A verdade, porém, é que no Poema tudo toma um ar esponsalício:

As mãos alvas lhe davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia
Em vida e morte, de honra e alegria.
(IX-84.5-8)

Cortesia de xofortenet
Ainda não aparecera a alegoria.
O mito não se corrompe pelo facto de o Poeta ter sublimado a carnalidade do episódio, como não se corrompe o sentido da palavra «amante» pelo facto de se tratar de uma união sensível:

Quando as fermosas ninfas cos amantes
Pela mão, já conformes e contentes,
Subiam pera os paços radiantes ...
(X.2.1-3)

Ali em cadeiras ricas, cristalinas,
Se assentam dous e dous, amante e dama;
(X.3.1-2)

O mundo antigo continuava-se na gente lusitana!
E não esqueçamos que ao despedirem-se da Ilha de Vénus os nautas, entre eles os já nossos conhecidos Veloso e Leonardo

Levam a companhia desejada
Das ninfas, que hão de ter eternamente,
Por mais tempo que o sol o mundo aquente.
(X.143.64)
 
O eixo do Poema é evidentemente a viagem do Gama, mas Os Lusíadas não são a viagem do Gama. Os Lusíadas são todos os seus reis, todos os seus heróis, todos os seus gloriosos barões. Ora o Gama, na sua notícia ao rei de Melinde, só poderia dar conta dos que enobreceram a Nação até aquele momento em que fazia a sua exposição ao rei de Melinde, começando naturalmente pelos reis e pelos que estiveram mais próximos dos reis. Foi uma narrativa poetizada da história antiga de Portugal, a começar em Luso e a acabar em 1497, com D. Manuel! Ficariam esquecidos muitos «barões». Tal como Virgílio, Camões aproveitará os rogos de Vénus a Júpiter, a favor do seu Eneias, para que o pai dos deuses possa predizer alguns feitos heróicos (II.44-54); virá depois o Adamastor, também dotado de terrífico dom profético e que anunciará ao Gama e seus companheiros a morte de Bartolomeu Dias (1500), de D. Francisco de Almeida (1510) e o naufrágio de Manuel de Sousa Sepúlveda (1552). Em Calecute, o Catual ouvirá de Paulo da Gama as explicações acerca das figuras que estão pintadas nas bandeiras das naus.
Aqui não se trata de predições; e é curioso acentuar que, começando nos fabulosos Luso e Ulisses, como antepassados dos Portugueses, se estenderá até os condes D. Pedro e D. Duarte de Meneses, fronteiros de Ceuta, ficando incluídas na descrição uma série de figuras medievais. Mais tarde, uma ninfa vai vaticinar os feitos futuros dos Portugueses, particularmente dos heróis e governadores da Índia (até D. João de Castro e seus filhos). Com a descrição do orbe terrestre, especialmente as terras de África e da Ásia que os Portugueses virão a possuir, ficam nomeados todos os grandes ilustres e os lugares que foram teatro de seus feitos. São estes Os Lusíadas». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.
Cortesia de Instituto Camões/JDACT

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Oliveira Martins: O Príncipe Perfeito. Prefácio, Parte III. « ...Na mesma luta e seus episódios é que viria a concentrar-se o supremo interesse político do reinado, em quanto respeitava à constituição interna da Nação e seu modo de ser orgânico. A nobreza seria esmagada. Não lhe valeria sequer a intervenção de Ana de Mendonça, em que a princípio tanto se fiara»

Cortesia de arquivohistoricomadeira

«A narrativa desenvolvida da expedição de Diogo Azambuja, iniciada em 12 de Dezembro de 1481 e da qual resultou a construção do forte de S. Jorge da Mina, e bem assim, e a par dessa , a história das descobertas de Diogo Cão, que levaram até 26º 35 a África conhecida. A ideia das duas expedições de Azambuja e Diogo Cão, é o primeiro acto colonial de D. João II, consolidar o domínio na Mina e prolongar o reconhecimento da costa para o Sul.
Se continham em germe as consequências finais e transcendentes de toda a política ultramarina de D. João II. A consolidação do domínio ao longo da costa do Atlântico representava a vantagem imediata de ampliar, pela única forma possível, a área do reino, estreitamente apertado entre a espanha e o mar. O prosseguimento das descobertas visava mais longe. Significava a esperança de atingir o Extremo Oriente, as Índias, e o Catai e Cipango por uma nova derrota, importando como consequência suprema o substituir Portugal a Veneza, o deslocar o eixo comercial do mundo, o fazer Lisboa o grande empório das transacções mercantis, o centro da navegação, a cidade, enfim, da qual, mais tarde, Camões poderia escrever:

E tu, nobre Lisboa, que no mundo
Facilmente das outras és princesa, 
.....................................................
Tu a quem obedece o mar profundo...

Cortesia de nunopeb
... querendo coligir todos os elementos jurídicos da sua defesa D. Fernando enviou então a Vila Viçosa um seu confidente, e dessa diligência resultara a primeira prova de uma secreta inteligência com Castela, filha do insanável antagonismo com a pessoa e processos de governo de D. João II. Ouçamos Resende a tal respeito:
  • ... por ver se poderia remediar isto, que muito sentia, mandou logo o bacharel João Afonso, veador da sua fazenda a Vila Viçosa, e deu-lhe a chave de um cofre em que tinha suas doações, e escrituras, e todos os papéis de seu segredo, e mandou-lhe que o abrisse, e ante todos buscasse todas as que lhe parecessem, que para este caso lhe cumpriam. ... E andando assim em busca dos ditos papéis, topou com algumas cartas, e instruções de Castela, e para os Reis de Castela, delas próprias, e outras emendas corrigidas, e emendadas da letra do mesmo Duque. E vendo que eram contra o Estado, honra o serviço sel rei determinou logo lhe ir tudo mostrar, e sem detença alguma partiu de Vila Viçosa escondidinho, e veio a Évora, e secretamente falou com el-rei com mui resguardo, e com palavras de muito bom homem, e leal vassalo mostrou tudo a el-rei. ... E el-rei tomou os próprios ao dito Lopo de Figueiredo, para os tornar ao cofre donde os tirara. E porém dali por diante como prudente começou entender, e olhar por muitas coisas, e andar sobre aviso do Duque, e ter dele muitas suspeitas, e má vontade sem lhe nunca dar a entender.

Cortesia de estrolabio
Ficara desde então travada a luta. Os adversários defrontavam-se e a catástrofe de Évora já se descortinava ao longe como lúgubre epílogo da tragédia em que ia resumir-se essa luta entre a oligarquia aristocrática, e a monarquia despótica e absorvente, entre o rei aliado com o povo por um lado, e a  nobreza ligada a Castela pelo outro.
Na mesma luta e seus episódios é que viria a concentrar-se o supremo interesse político do reinado, em quanto respeitava à constituição interna da Nação e seu modo de ser orgânico. A nobreza seria esmagada. Não lhe valeria sequer a intervenção de Ana de Mendonça, em que a princípio tanto se fiara.
Por muito grande que fosse o amor tributado por D. João II à formosa aia de D. Joana, sempre imperou nele mais a razão de Estado e a consciência dos seus deveres para com a Nação, do que os impulsos de um ânimo apaixonado». In O Príncipe Perfeito, Oliveira Martins, Guimarães e Cª Editores, 6ª edição 1984.

Cortesia de Guimarães e Cª Editores/JDACT

sábado, 12 de março de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte III. «Camões recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finíssimas, fez o perímetro de Cartago, por indústria de Vénus. E de Ovídio não tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No início da Elegia III dá-nos um belo retrato moral de Ovídio desterrado...»

Cortesia de paulatravelho
No ano de 1572 foi feita a publicação dos Lusíadas 

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Prefácio
A Elaboração do Poema
A primeira vez que Eneias é invocado é o «Troiano». Compara-o ao Gama; em II.45.5 lembra que o «piadoso» Eneias «navegou / de Cila e de Caríbdis o mar bravo»; em III.106.1-8 compara a tímida Maria implorando o favor do rei de Portugal a Vénus quando implora a Júpiter o favor para seu filho Eneias, navegando. Camões recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finíssimas, fez o perímetro de Cartago, por indústria de Vénus. E de Ovídio não tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No início da Elegia III dá-nos um belo retrato moral de Ovídio desterrado, em confronto com o seu caso pessoal:

O Sulmonense Ovídio, desterrado
na aspereza do Ponto, imaginando
ver-se de seus parentes apartado;
sua cara mulher desamparando,
seus doces filhos, seu contentamento,
de sua pátria os olhos apartando;
não podendo encobrir o sentimento,
aos montes e às águas se queixava
de seu escuro e triste nacimento.
O curso das estrelas contemplava,
como por sua ordem discorria
o céu, o ar e a terra adonde estava.
Os pexes pelo mar nadando via,
as feras pelo monte, procedendo
com o seu natural lhes permitia.
De sua fonte via estar nacendo
os saüdosos rios de cristal,
a sua natureza obedecendo.
Assi só, de seu próprio natural
apartado, se via em terra estranha,
a cuja triste dor não acha igual.
Só sua doce Musa o acompanha,
nos versos saüdosos que escrevia
e lágrimas com que ali o campo banha.
...............................................................

Cortesia de omba
E que leu dos prosadores? Plutarco, com certeza. Em grego? Conheceu a Bíblia. Dos geógrafos e naturalistas algum conhecimento teria. Pelo menos, cita-os em fiada:

Eu sou aquele oculto e grande cabo
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram, fui notório.

Acerca de Plínio parece não haver dúvidas.
Da história geral também não estamos bem informados. Utilizou a Enneades ou Rhapsodiae historiarum, de Sabélico, volumoso tratado que foi parcialmente traduzido em português por D. Leonor de Noronha, «prima co-irmã do amigo e protector do poeta D. Francisco de Noronha,  2.º conde de Linhares». Da tradução só são conhecidos os dois primeiros volumes, impressos em Coimbra (1.º, 1550; 2.º, 1553). A obra geral de Sabélico foi continuada por Paulo Jove e outros.
É notável a prontidão e a frequência com que o Poeta invoca paralelos para pôr em evidência os feitos dos Lusitanos ou os seus defeitos em relação a outros:

Codro, por que o inimigo não vencesse,
Deixou antes vencer da morte a vida;
Régulo, por que a pátria não perdesse,
Quis mais a liberdade ver perdida.
Este, por que a Espanha não temesse,
A cativeiro eterno se convida! 
Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
Nem os Décios leais fizeram tanto.
(IV.53.1-8)
Não matou a quarta parte o forte Mário
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as águas co sangue do adversário
Fez beber ao exército sedento;
Nem o Peno, asperíssimo contrário
Do romano poder, de nascimento,
Que tantos matou da ilustre Roma,
Que alqueires três de anéis dos mortos toma;
E se tu tantas almas só pudeste
Mandar ao Reino escuro do Cocito,
Quando a santa cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito,
Permissão e vingança foi celeste
E não força de braço, ó nobre Tito,
Que assi dos vales foi profetizado,
E despois por JESU certificado.
(III.116 e 117)
Do pecado tiveram sempre a pena
Muitos que Deus o quis e permitiu:
Os que foram roubar a bela Helena,
E com Ápio também Tarquino o viu;
Pois por quem David santo se condena?
Ou quem o tribo ilustre destruiu
De Benjamim? Bem claro no-lo ensina
Por Sarra Faraó, Siquém por Dina.

E, pois, se os peitos enfraquece
Um inconcesso amor desatinado,
Bem no filho de Almena se parece
Quando em Ônfale andava transformado.
De Marco António a fama se escurece
Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado.
Tu, também, Peno próspero, o sentiste,
Despois que ũa moça vil na Apúlia viste.
(III.140 e 141)

Teve muita influência no Poeta o poema Argonautica de Valério Flacco e talvez o de Apolónio Ródio. A partida dos mercantes de Belém é associada à dos Mínias:

Foram de Emanuel remunerados,
Por que com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Pera quantos trabalhos sucedessem.
Assi foram os Mínias ajuntados,
Pera que o Véu dourado combatessem,
Na fatídica nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxínio, aventureira.
(IV.83)

Cortesia de purl 
Os Portugueses são os «segundos Argonautas» (IX.64). Não faltam as referências ao Veo (=Velo) dourado (III.72 e IV.83), nem à «rica pele de Colcos» (V.28) (10).
A partida das naus de Belém suscita ao Poeta este símile:

Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos
(IV.85)

E a constelação Argo figura, entre outras, nestes versos:

Este, por sua indústria e engenho raro,
Num madeiro ajuntando outro madeiro,
Descobrir pôde a parte que faz clara
De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.
(VIII.71)

Dos poetas estrangeiros não pode negar-se-lhe o conhecimento de Petrarca, Ariosto, Tasso, Sannazaro, Garcilaso, Boscán. Teve de munir-se de livros auxiliares de estudo, como as Genealogiae deorum, de Boccacio, o Dictionarium poeticum, de Tormentino, a Officina, de Ravisio Textor, os Lectionum antiquarum libri triginta, de Célio Rhodigino.

Cortesia de conversamoswordpress 
Conhecia bem as lendas mitológicas e a história geral da Antiguidade, mas não é fácil determinar as suas fontes. Para além de Sabélico, que conheceu da história romana? Para a história geral dos tempos posteriores à queda do império romano ocidental – lembra Epifânio (11) –, valeu-se Camões dos trabalhos de vulgarização que já no seu tempo existiam, tais como: a Historia rerum ubique gestarum, de Eneas Silvio, o Catalogus annorum et principum, de Valerio Ryd, que chega até 1540, o De vitis ac gestis summorum pontificum, de Plátina, os Commentariorum libri, de Raffael Maffei de Volaterra, as Historie del mondo, de Tarchagnota. Os conhecimentos cosmográficos podem ter sido hauridos na enciclopédia que tem por título Margarita philosophica. A descrição do sistema do mundo ptolemaico foi
extraída do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes (1537). Storck, referindo-se aos conhecimentos de Camões, escreve: «Os seus conhecimentos filosóficos derivam, quanto a pormenores, na aparência, da leitura de Diógenes Laércio, Plutarco, Cícero, Valério Máximo, Aulo Gélio, Plínio Sénior e das Antologias. Encontram-se a miúdo reminiscências destes escritores em passagens camonianas romanos que Camões manuseava frequentemente. As suas poesias são testemunho claro de como conhecia ditos e feitos de uma longa série de escritores ilustres: Homero, Aeliano, Xenofonte, Virgílio, Lucano, Ovídio, Horácio, Plauto, Lívio, Eutrópio, Justino, Ptolemeu e outros, ficando indecisa a questão se lia obras gregas no original». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.


Cortesia do Instituto Camões/JDACT

terça-feira, 1 de março de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte II. «Como é que Camões, errante, pôde ele arrumar no seu cérebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou? Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vão as serenas águas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade»

Cortesia de oslusiadas

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Prefácio
A Elaboração do Poema
«Dizer quando o Poeta pousou pela primeira vez a pena sobre o papel não parece muito difícil; mas a quando remonta o pensamento da epopeia? Para Storck o propósito de cantar os feitos heróicos do seu povo e da Pátria tomou, contudo, forma decisiva e amadureceu durante os seis meses de vida no oceano . É uma tese que podemos aceitar. E acrescenta o historiador alemão: «Se o gérmen da epopeia ainda não estendera até então raízes vivazes e tenazes, se na mente do Poeta ainda não se definira claramente o descobridor do caminho da Índia como figura principal, se a primeira e feliz navegação ao Oriente, a empresa do forte capitão, ainda não se revelara no seu esboço e na primeira traça como ponto culminante e foco de irradiação, no qual convergem as acções heróicas dos Portugueses, foi, sem dúvida alguma, durante a travessia que o génio criador do Poeta tomou o seu voo de águia».

Cortesia de poliscopio
Infelizmente, Storck terçou armas pela criação de dois poemas:
  • um, histórico, elaborado ainda em Portugal e em Lisboa e de que o Poeta teve quase prontos os Cantos III e IV,
  • e, depois, a epopeia marítima, em que vem entretecer-se a história do Reino.
Mas isto, a meu ver, é destruir a unidade dos Cantos III, IV e V, que constituem a narrativa dos feitos do Reino ao rei de Melinde e inserem-se na epopeia marítima. Tal narrativa tem muito pouco de histórica: foi sobretudo ideada pelo Poeta. Camões aproveitou muito bem o momento em que aparece pela primeira vez um rei amigo, o de Melinde, para iniciar a narrativa épica desde as origens até aquele momento em que chegou a Melinde. Não se vê como se podem separar estes três cantos e inserir os dois primeiros numa epopeia do Reino.

Prefiro ver a elaboração da epopeia segundo um plano preestabelecido, apenas modificado nesta ou naquela estância por acontecimento posterior à navegação e portanto tendo o seu lugar em qualquer profecia.
Não creio que o Poeta tenha levado longos anos a elaborar a sua epopeia intensamente, e há uma efeméride que mostra bem que em quatro ou cinco anos o Poeta avançara bastante. O trecho insere-se na descrição do orbe terrestre:

Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço os cantos que, molhados,
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados ...
(X.128.1-4)

Refere-se ao rio Mecom, que recolheu os náufragos do navio de Leonel de Sousa, que se afundou nos mares da China nos fins de 1558 (ou princípios de 1559). Entre eles contava-se Camões. O Poeta fala dos «seus cantos molhados», o que significa que se tratava já de um volume apreciável, cuja perda seria irreparável. O principal da obra estava feito. Mas o Poeta ainda a limou e é testemunha do facto o historiador Diogo do Couto, seu amigo, que em Moçambique o viu dedicado a essa tarefa (1568-1569).

Cortesia de palavrasquemetocam
De novo em Lisboa, em 1570, o Poeta deu-se pressa em arranjar forma de publicar o seu Poema e deve ter encontrado um interessado intercessor em D. Manuel de Portugal.
Em 23 de Setembro de 1571 a obra estava na impressão, conforme consta do alvará respectivo. No alvará que concede a Luís de Camões uma tença de 15$000 réis pela publicação de Os Lusíadas (datado de 28 de Julho de 1572) diz-se que a mercê será dada por três anos, a começar em doze de março deste ano presente de mil quinhentos setenta e dous em diante. Esta tença foi dada pelo conhecimento que o rei tem do «engenho e habilidade» do Poeta e pela «suficiência que mostrou no livro que fez das cousas da Índia». A data de 12 de Março de 1572 é uma data assinalável porque deve corresponder à do lançamento da obra.

Como é que Camões, errante por tantas partes do Mundo, dependente, como soldado, das ordens de marcha que lhe impunham e de que naturalmente descansava a bordo dos navios em que embarcava, como pôde ele arrumar no seu cérebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou?
Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vão as serenas águas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade.
Nem mesmo sabemos quando o Poeta saiu definitivamente de Coimbra. Mas se na 1.ª carta da Índia se queixa de, sem pecado que o obrigasse a três dias de Purgatório, ter passado (em Lisboa) três mil dias de más línguas, piores tenções, danadas vontades, nascidas de pura inveja de verem «su amada yedra de si arrancada, y en otro muro asida», podemos admitir que chegou a Lisboa por 1546.
Camões deve ter assistido a certos conflitos de jurisdição entre os cónegos regrantes de Santa Cruz e a Universidade, transferida de Lisboa para Coimbra. Impossível me é afirmar (porque a presença de Camões em Coimbra coincidiu com uma fase de transição) se Camões já foi ouvir o ensino «artístico» à Universidade ou se se manteve nos colégios de Santa Cruz, protegido por algum parente daquela congregação. É curioso que na narrativa ao rei de Melinde (III.97), falando das obras do rei D. Dinis, o Poeta escreveu:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva,
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

É Vasco da Gama quem informa, mas a verdade é que nesse momento (em 1497-1498) a Universidade estava em Lisboa. Vasco da Gama transmite ao rei de Melinde uma impressão de Camões, que aproveitara com o estudo de Coimbra e com a reforma do ensino ali operada.

Cortesia de purl
Os poetas lidos por Camões foram numerosos. Nem só Virgílio, nem só Homero, ainda que do primeiro teve um conhecimento profundo, que se revela no número de passos imitados, às vezes por forma bastante literal. Por exemplo:

Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia à Terra, por que tenha
Um pacífico porto e sossegado,
(II.56.1-3)

Haec ait et Maia genitum demittit ab alto,
Ut terrae utque novae pateant Karthaginis arces
hospitio Teucris...
(En., I.297-299)

Quando a mãe de Eneias interroga ansiosamente o Pai dos deuses sobre o futuro do filho, Júpiter «oscula libavit natae» e diz-lhe: «Parce metu, Cytherea, manent immota tuorum / fata tibi ...» (I.256-258). Em Os Lusíadas também Júpiter, ainda mais aceso de amor:

As lágrimas lhe alimpa, e acendido
Na face a beija e abraça o colo puro
(II.42.5-6)

para lhe dizer

... não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos
(II.44.1-2)

No entanto, se Camões reconhece a suserania destes dois (V.94.7 e V.98.2), não desconheceu nem deixou de aproveitar outros: Ovídio, Horácio, Valério Flacco, Lucano, Claudiano e quantos mais ...
Conhece-os por dentro e invoca-os com toda a precisão». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. «...Em minha opinião, e fossem quais fossem as meditações do Poeta sobre o assunto, o Poema, tal como o temos, começou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatória ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses «maravilha fatal» - e só o poderia ter sido não longe de 1554...»

Cortesia de oslusiadas

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro. 

Prefácio
A Elaboração do Poema
Manuel de Faria e Sousa, cuja «reabilitação» na Europa cis e transpirenaica parece iminente, escreveu, como é sabido, duas vidas de Camões: uma impressa à frente de Os Lusíadas e outra à frente das Rimas Várias, muito modificada. (Deve dizer-se que nem em todos os exemplares das Rimas aparece esta Vida.) A primeira das Vidas é notável por diversos títulos, e ainda pelos dislates que aquele comentador acumulou sobre o início da redacção do Poema, pois diz (col. 35) «que el creerse que la mayor parte deste Poema (la mayor parte, note-se) iva escrito de Portugal quãdo passó a la India, no es difficil; i menos el ver que desde sus primeros años le comẽçó». E mesmo que tivesse começado o seu Poema aos 20 (concede Faria e Sousa), trouxe-o entre mãos trinta anos, pois tendo nascido em 1517 (Faria e Sousa mudou depois de opinião) e imprimido o Poema em 1572 ficam 55, e deduzindo os tais 20 ficam 30 «e quando menos 20». E se alguém argumentar que o Poema só poderia ter sido começado (ou, pelo menos, concebido) depois da leitura das duas primeiras Décadas de Barros e do primeiro livro da História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, por Castanheda, poderá objectar-se com Faria e Sousa que Camões poderia ter conhecido aquelas obras em manuscrito. Mas ainda que não fosse assim, havendo a primeira Década de Barros sido impressa em 1552 e tendo o Poeta partido para a Índia em 1553 «aun queda en pie lo que diximos de q el primero bosquejo se hizo en Portugal en este tiempo que corriò desde la impression de las Decadas a sua partida; o tres años primero que le imprimiese el de 1572; e assi quando menos, son veinte los que truxo consigo este Poema». Uma tão penetrante conjectura devia por força ter o auxílio da Providência. E teve! «O buen Dios, como favoreces las honestas ocupaciones!» E vieram ter-lhe às mãos, ao começar a impressão dos seus Comentários, dois manuscritos, um deles de primacial importância para o seu ponto de vista: «es una copia de los primeros seis cantos, escrita antes que el Poeta passasse a la India: con que me hallo mas contento que un ignorante; mas loco que un enamorado, i mas sobervio que un rico» (na corte de Madrid, acrescente-se). Eis como termina a cópia manuscrita: «Estes seys cantos se furtaraõ a Luis de Camões da obra que tem começado sobre o descubrimento, e conquista da India por os Portugueses: Vam todos acabados, excepto o sexto, que posto que vay aqui o fim delle, faltalhe hũa historia de amores que Leonardo
contou estando vigiando, que ha de prosiguir sobre a Rima 46 onde logo se sente bem a falta della; porque fica fria, e curta a conversaçam dos vigiantes, e o propio canto mais breve que os outros» (col. 37). E assim se fundamentava uma redacção incompleta do Poema, antes de o Poeta ter partido para a Índia.

Cortesia de poliscopio
À história de cavalaria de Fernão Veloso faltava a história de amores de Leonardo, esquecendo que no fim dos Doze de Inglaterra a «companha» pedia a Veloso mais histórias de cavalaria! (VI.69.5-8).
Na segunda Vida, à frente das Rimas, dirá Faria e Sousa no n.º 28:
  • «En la vida del P. que escrivimos en los Comentarios a la Lusiada, desde el numero 16. hasta el 21. hemos procurado mostrar en que tiempos, y en que partes del mundo avia el P. escrito los más de sus Poemas; y despues hallamos que en mucho nos aviamos equivocado, porque tuvimos mejores noticias».
E mais não disse! Ora o n.º 16 referido é justamente aquele em que se ocupa das circunstâncias de tempo e de lugar em que redigiu Os Lusíadas!
Não há qualquer notícia de que o Poeta tenha tido a ideia de escrever um Poema sobre o descobrimento de Vasco da Gama antes de partir para a Índia. Pode supor-se, interpretando alguns versos líricos, que várias ideias heróicas lhe passaram pela mente quando estava ainda em Lisboa, mas não concretizou nenhuma. É certo que o primeiro livro de Castanheda estava à sua disposição desde 1551 e a primeira das Décadas da Ásia desde o ano seguinte. Mas a elaboração de um plano épico não dependia apenas de duas ou três leituras. Camões não ia escrever uma narrativa histórica; ia escrever uma obra de arte, servindo-se de um grande acontecimento histórico. Decidir-se a optar pela fábula pagã também não lhe teria sido fácil, mas, além do exemplo do Mantuano, havia em Camões uma verdadeira idolatria pela beleza do paganismo. Sobre esta matéria estava Camões bem informado ainda antes de partir para a Índia, mas faltava inseri-la num grande campo de acção, que só a experiência marítima lhe daria. E quando falo de experiência marítima não quero referir-me apenas à dura vida de bordo, nem aos grandes fenómenos presenciados, mas às imagens visuais e auditivas que a própria vida do mar pôs ao alcance da sua retina e do seu ouvido e que vieram a transformar-se em versos imortais, como o famoso:


Cortando o longo mar com larga vela

analisado por Tasso da Silveira. A est. 19 do Canto I, que marca o início da narração, só poderia ter sido escrita por um nauta que vê de bordo as outras naus recortando-se num poente solar:
Já no largo oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,

Nem a alusão mitológica vem empanar a beleza do quadro. À sua experiência marítima pertence a tormenta do cabo da Boa Esperança, que lhe daria a inspiração para a tormenta (irreal) sofrida por Vasco da Gama.
Inseriram-se na sua experiência marítima os ecos surdos do mar, que depois foram transformados em arte:

Bramindo o negro mar de longe brada
Como se desse em vão (= no vão) nalgum rochedo ...

... e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
 
Cortesia de palavrasquemetocam

Em minha opinião, e fossem quais fossem as meditações do Poeta sobre o assunto, o Poema, tal como o temos, começou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatória a D. Sebastião foi redigida na hora de iniciar o seu Poema, portanto, por fins de 1554, quando chegou à Índia a notícia do prodigioso nascimento do neto de D. João III, em 20 de Janeiro de 1554. Não só o Poeta se dirige em toda a Dedicatória ao tenro infante «Vos tenrro & novo ramo florecente» (I.7); «Que nesse tenrro gesto vos contemplo» (I.9); «Que afeiçoada ao gesto bello & tenro» (I.16), mas, circunstância para mim muito importante, não procurou alinhá-la na esfera temporal com o ano em que acabou o Poema. A Dedicatória ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses «maravilha fatal» - e só o poderia ter sido não longe de 1554. Os versos 
 
E vós, ó bem nascida segurança
Da lusitana antiga liberdade,
 
marcam uma «segurança» presente, que acaba de surgir. Muito mais tarde, em 1575, dirá a D. Sebastião

Assi vós, Rei, que fostes segurança
da nossa liberdade ...

Eram já outros os termos dessa segurança, que o próprio rei, aliás, se encarregaria de destruir.
Não me resta dúvida de que foi por 1554 que o Poeta tratou de elaborar o plano da epopeia (poderia escrever-se um poema sem plano?) e de delinear os principais episódios que, entressachados no Poema, mas fazendo corpo com ele, o encheriam de atractivos estéticos. In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT