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terça-feira, 21 de julho de 2015

Naufrágio dos Navios da Armada. Zurcher Margollé. «A Inglaterra teve tempo de se defender. Isabel percorreu o reino para encorajar o povo a resistir. A necessidade de animar os espíritos fez aparecer na Inglaterra o primeiro jornal, "English Mercury”»

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«(…) Não existe na história da Inglaterra nenhum acontecimento naval cuja importância possa ser comparada à destruição da frota espanhola enviada, em 1588, por Filipe II para conquistar o reino de Isabel I. Nunca os nossos vizinhos além-mar correram um tão grande perigo e demonstraram uma perseverança tão corajosa. Acrescentemos também que nunca foram tão favorecidos pela sorte. Uma rivalidade política agravada por desentendimentos religiosos preparava há muito tempo a guerra entre o rei de Espanha e a rainha de Inglaterra. Os comerciantes de ambos os países disputavam há cerca de cinquenta anos os mercados mundiais; os Espanhóis tinham do seu lado uma superioridade marítima há muito tempo adquirida; os Ingleses, uma actividade mais recente e uma ambição insaciável. Quanto aos responsáveis das duas nações, traziam para esta luta a obstinação de convicções absolutas. Se Filipe de Espanha representava o catolicismo menos tolerante, Isabel de Inglaterra personificava o protestantismo mais exclusivo. Enquanto o primeiro entregava os hereges às mãos da Inquisição (maldita), afirmando que ele próprio traria os feixes de lenha para queimar o seu filho se ele metesse um só pé na heresia, a outra condenava à prisão e a multas quem quer que fosse que assistisse uma única vez à missa, punia o mínimo esquecimento da prática protestante com uma multa de vinte libras por mês e, além disso, tinha constituído uma comissão eclesiástica anglicana incumbida de se pronunciar sobre todas as opiniões religiosas e autorizara a utilização da prisão e da tortura. Compreende-se a repulsa que deviam experimentar um em relação ao outro, dois soberanos tão antagónicos e tirânicos nas suas respectivas crenças.
Afrontas políticas vieram juntar-se a estes motivos de hostilidade. Desde 1578 que o almirante Drake devastava as costas do Peru e, um pouco mais tarde, Filipe custeou as tropas que o duque de Parma conduziu até aos rebeldes da Irlanda. Em 1585, esquadras inglesas atacaram, sem declaração de guerra São Domingo e Cartagena. Um ano mais tarde, Drake atacou Lisboa e destruiu em Cádis, uma frota completa de barcos de transporte. Tantas injúrias exigiam uma vingança, e Filipe quis responder-lhes com a conquista de Inglaterra. Apesar da perda dos Países Baixos, era o soberano mais poderoso do mundo. Não somente dominava toda a Península Ibérica, Nápoles, Sicília, o ducado de Milão e o Franco-Condado como também dominava Tunes, Orão, Cabo Verde, as Canárias e possuía mais de metade da América. Para a sua expedição contra a Inglaterra, equipou a armada mais formidável que alguma vez se vira nos oceanos: era constituída por vinte e dois mil homens, distribuídos por cento e cinquenta e dois barcos; na Flandres juntar-se-lhe-iam vinte e cinco mil soldados veteranos, comandados por Alexandre Farnèse, e, por fim, na Normandia doze mil soldados esperavam para se reunirem a eles. A frota havia sido baptizada com o ambicioso nome de Armada Invencível.
Infelizmente, este gigantesco armamento havia sofrido atrasos. A Inglaterra teve tempo de se defender. Isabel percorreu o reino para encorajar o povo a resistir. A necessidade de animar os espíritos fez aparecer na Inglaterra o primeiro jornal, English Mercury. Ainda se conserva no Museu Britânico um exemplar desta curiosa publicação, impressa em letras redondas. A rainha reuniu em Tilbury todos os soldados que ela conseguiu juntar e, quando passava revista às tropas a cavalo, declarou que ela própria marcharia conta o inimigo. Os quinze mil marinheiros que a Inglaterra possuía embarcaram em cento e catorze barcos, em que o mais potente não ultrapassava as trezentas toneladas. Um só, chamado Triumph, tinha quarenta canhões. Mas esta esquadra, à qual faltava força material possuía a força da inteligência que pode, sozinha, valer a outra e muitas vezes a ultrapassar. Era comandada pelos melhores marinheiros do tempo: Drake, Hawkins, Frobisher e Charles Howard. Os Holandeses, por seu lado, haviam equipado noventa e duas embarcações, que foram, para a frota inglesa, um auxilio muito útil. A Armada Invencível deveria ter tido por almirante o marquês de Santa Cruz, mas este morreu durante os preparativos e o comando foi dado ao duque de Medina Sidonia, marinheiro da corte, cuja presunção igualava a sua ignorância. Santa Cruz havia recomendado a necessidade de se assegurar um porto em caso de tempestade ou de insucesso e o duque de Parma propôs que se apoderassem de Flessingue, mas o novo almirante considerou esta precaução inútil e partiu de Espanha no dia 19 de Maio de
1588.
Filipe viu-o partir com o coração ufano das mais altas esperanças, ainda que as recordações do passado o devessem ter posto menos confiante. Desde sempre o mar fora seu inimigo. Além da expedição de Medina Celi contra Tripoli, cujo resultado fora tão funesto, Filipe assistira, quando voltava dos Países Baixos a uma tempestade, quase debaixo dos seus olhos, que despedaçara uma esquadra completa e onde uma preciosa colecção de quadros, reunidos por Carlos V na Flandres e na Itália desaparecera nas ondas. A Armada Invencível não foi mais feliz; apanhada por um tornado perto do cabo Finisterra, perdeu vários barcos nas costas da Galiza e de França. Um prisioneiro inglês, que fazia parte dos remadores, incitou os companheiros à revolta, obteve o comando da embarcação, atacou outros dois e conquistou um porto de França. A frota desamparada e já arrependida da sua orgulhosa segurança, refugiou-se numa enseada da Corunha onde passou três semanas a reparar os estragos. Este primeiro desastre foi anunciado a Isabel como a destruição completa dos inimigos e, assim, esta ordenou o desarmamento dos barcos ingleses. Por sorte, Charles Howard tardou em obedecer-lhe e foi informado da reaparição da esquadra espanhola». In Zurcher Margollé, Naufrágio da Frota de Xerxes, 1997, tradução de Sara Travassos, Editorial Inquérito, 2003, ISBN 972-670-398-0.

Cortesia de EInquérito/JDACT

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Naufrágio da Frota de Xerxes. Zurcher Margollé. «A armada persa, tendo acostado nas margens da Magnésia, situada entre a cidade de Castânia e a costa de Sépias, fez alinhar os primeiros navios em direcção a terra e os restantes lançaram a âncora…»

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«(…) O exército era composto por um total de cento e dezassete mil homens, organizados da seguinte forma: juntou-se, num mesmo espaço, dez mil fazendo-se com que se apertassem tanto quanto pudessem, traçou-se, depois, um círculo em redor. Fez-se, então, sair as tropas e rodeou-se este círculo de uma muralha até à altura da cintura. Finalizada a obra, fez-se entrar outras tropas no recinto e depois outras até que estavam todas contabilizadas. Terminada a contagem, foram agrupados por nação. O número de barcos era de 1207. Os Persas, os Medos e os Sardos combatiam todos nestes barcos, sendo os melhores veleiros fenícios, principalmente os de Sídon.
Enquanto os Gregos partiram com rapidez em auxílio dos lugares em perigo, os habitantes de Delfos, preocupados com eles e com os Gregos, consultaram os deuses. A Pítia disse-lhes para dirigirem as suas orações aos ventos, que seriam os poderosos defensores da Grécia. Mal receberam esta resposta, deram-na a conhecer a todos aqueles que, entre os Gregos, eram amantes zelosos da liberdade, e, dado que temiam bastante o rei Xerxes, obtiveram pelos seus feitos o reconhecimento imortal. Os habitantes de Delfos erigiram, em seguida, um altar em honra dos ventos, em Tuia, no local consagrado a Tuia, filha do deus-rio Cefiso, que deu o nome a esta província, e ofereceram-lhe sacrifícios.
A armada persa, tendo acostado nas margens da Magnésia, situada entre a cidade de Castânia e a costa de Sépias, fez alinhar os primeiros navios em direcção a terra e os restantes lançaram a âncora, perto destes. Como a margem não era, com efeito, suficientemente grande para uma frota tão numerosa, colocaram-se ao lado uns dos outros, com a proa voltada para o mar. E assim passaram a noite. No dia seguinte, mal o Sol nasceu, e depois de um tempo sereno e de grande calmaria, o mar agitou-se levantou-se uma violenta tempestade, com um vento de nordeste que os habitantes das costas vizinhas chamavam de Helospontia (vento de Helosponto). Aqueles que se aperceberam de que o vento aumentava de intensidade e cujos navios estavam ancorados previram a tempestade e salvaram-se, bem como o seus barcos, levando-os para terra. Quanto àqueles que o vento surpreendeu em alto mar foram atirados contra as encostas do monte Pindo, chamado de Ipnes (Fornos); outros contra as margens, alguns despedaçaram-se no promontório de Sépias, outros foram arrastados para a cidade de Melibeia, outros até Castânia, de tal forma a tempestade foi violenta.
Diz-se que um oráculo informara os atenienses para pedirem a ajuda do seu genro. Obedecendo a esta ordem, dirigiram as suas orações a Bóreas, que, segundo a tradição grega, casou com uma ateniense de nome Oritia filha do rei Erecteu. Foi esta aliança, diz-se, que levou os atenienses a concluírem que Bóreas era seu genro. Assim, enquanto estavam com os seus barcos a observar o inimigo em Eubeia, logo que se aperceberam de que a tempestade aumentaria, ou, mesmo antes disso, fizeram sacrifícios em honra de Bóreas e de Oritia e suplicaram-lhes com insistência a sua ajuda e a destruição dos barcos bárbaros, tal como já ocorrera antes perto do monte Atos. Se foi em atenção às suas súplicas que Bóreas atingiu com violência a frota dos bárbaros, isso não posso dizer mas os atenienses afirmavam que Bóreas, que já antes os havia socorrido, veio de novo em seu auxílio naquela ocasião. Assim, logo que chegaram ao seu país, ergueram em sua honra uma capela nas margens do Ilisso.
Afundaram-se nesta tempestade quatrocentos barcos, segundo a estimativa mais baixa. Perdeu-se, também, um número incontável de homens com riquezas imensas. Os comandantes da frota, temendo que os habitantes de Tessália se aproveitassem deste desastre para os atacarem, fortificaram-se dentro de uma alta paliçada feita com os restos dos barcos, já que a tempestade durou três dias. Por fim, os sacerdotes conseguiram apaziguá-la ao quarto dia, imolando vítimas ao vento, com cerimónias mágicas em sua honra, ou através de sacrifícios em honra de Tétis e das Nereidas, ou talvez ela se tenha acalmado a si própria». In Zurcher Margollé, Naufrágio da Frota de Xerxes, 1997, tradução de Sara Travassos, Editorial Inquérito, 2003, ISBN 972-670-398-0.

Cortesia de EInquérito/JDACT

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Naufrágio da Frota de Xerxes. Zurcher Margollé. «Enquanto viajava o Sol abandonou o seu lugar no céu e desapareceu, apesar de não haver qualquer nuvem, e, assim, a noite tomou o lugar do dia. Xerxes, preocupado com este prodígio, consultou os adivinhos…»

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«Enquanto Xerxes se preparava para partir para Abidos, trabalhava-se na construção das pontes sobre Helosponto (nome antigo atribuído ao actual estreito de Dardanelos, uma passagem entre o mar Egeu e o mar Negro, através do mar de Mármara, e que constitui, ainda hoje, uma posição estratégica; Xerxes conseguiu atravessá-lo em 480 a. C.), para que fosse possível a passagem da Ásia para a Europa. Os responsáveis pela sua construção iniciaram-nas do lado de Abidos e continuaram-nas até à encosta extremamente austera que, do outro lado, penetra no mar. Naquele tempo os Fenícios prendiam os barcos com cordas em linho e os Egípcios utilizavam, para o mesmo efeito, cordas de fibra de cortiça de Biblos (nome grego para a cidade fenícia de Gebal hoje Djebail, ao norte de Beirute). Ora, desde Abidos até à costa oposta, a distância corresponde a sete estádios. Assim que estas pontes foram dadas por terminadas, levantou-se uma terrível tempestade, que rebentou as cordas e despedaçou os barcos.
Quando soube da notícia, Xerxes, indignado e encolerizado, ordenou que, em Helosponto, fossem dadas trezentas chicotadas e que fossem derrubadas um par de videiras. Ouvi dizer que ele enviou, juntamente com os executores da ordem, pessoas para marcar com um ferro em brasa as águas. Castigou desta forma o mar e mandou cortar a cabeça daqueles que haviam presidido à construção das pontes. Assim que as suas bárbaras ordens foram executadas outros mestres-de-obras foram incumbidos da mesma construção. Eis como eles a levaram a cabo: ligaram, de um lado, trezentos e sessenta barcos de cinquenta remos e trirremes e, do outro trezentos e catorze. Os primeiros apresentavam-se pelo costado no Ponto Euxino (em grego Euxeinos Pontos, ou seja, mar hospitaleiro, antítese que, na Antiguidade, nomeava o mar Negro, devido à existência de nevoeiros que dificultavam extremamente a navegação) e os outros, do lado de Helosponto, colocaram-se ao sabor da corrente, para que as cordas se mantivessem ainda mais esticadas. Os navios assim dispostos, do lado do ponto Euxino, lançaram grossas âncoras, a fim de resistirem aos ventos que, vindos do Sul e do Sueste, sopravam neste mar a partir do Ocidente e do mar Egeu.
Deixaram também, em três locais diferentes, uma passagem livre entre os barcos de cinquenta remos, para as pequenas embarcações que quisessem entrar ou sair do Ponto Euxino. Terminado este trabalho, esticaram-se os cabos, em terra, com a ajuda de carros de bois. Não utilizaram cordas simples, como da primeira vez, mas entrelaçaram cordames de linho, dois a dois, com cortiça de Biblos, quatro a quatro. Terminada a ponte, serraram-se grandes toros de madeira, que foram colocados seguindo o comprimento da ponte, ao lado uns dos outros, sobre cabos bem esticados. Foram então unidos e, uma vez feito isto, colocaram-se por baixo tábuas, juntas umas às outras, que depois foram cobertas por terra, posteriormente aplanada. Após a conclusão deste trabalho, colocou-se uma barreira de cada lado, por se temer que os cavalos ou outros animais se assustassem ao verem o mar. Terminadas as pontes, bem como os diques construídos na foz do canal do monte Atos (este canal, aberto no istmo que liga o monte Atos ao continente, para favorecer a passagem da frota de Xerxes, havia sido escavado por destacamentos de todos os corpos da armada persa, forçados ao trabalho pelo chicote), a fim de impedir que a corrente tapasse a entrada, enviou-se a notícia a Sardes, e Xerxes iniciou a sua viagem. Enquanto viajava o Sol abandonou o seu lugar no céu e desapareceu, apesar de não haver qualquer nuvem, e, assim, a noite tomou o lugar do dia. Xerxes, preocupado com este prodígio, consultou os adivinhos sobre o seu significado. Estes disseram-lhe que Deus pressagiava a ruína das cidades gregas, pois o Sol anunciava o futuro a esta nação e a Lua à sua. Xerxes, seduzido por esta resposta, prosseguiu viagem.
No mesmo dia em que chegaram a Abido, os persas prepararam-se para atravessar a ponte. No dia seguinte, enquanto esperavam um pouco para ver o Sol nascer queimaram todo o tipo de perfumes sobre a ponte, e o caminho foi coberto de murta. Assim que apareceu, Xerxes fez libações no mar, com uma taça em ouro, e pediu ao Sol que afastasse todos os problemas que pudessem impedi-lo de subjugar a Europa antes de ele se pôr. Concluída a oração, lançou a taça no Helosponto com um vaso em ouro e um sabre, segundo o costume persa. Não me consegui decidir se, ao lançar estes objectos ao mar, ele fazia uma oferta ao Sol ou se, arrependido por ter mandado fustigar o Helosponto, procurava apaziguá-lo com estas ofertas». In Zurcher Margollé, Naufrágio da Frota de Xerxes, 1997, tradução de Sara Travassos, Editorial Inquérito, 2003, ISBN 972-670-398-0.


Cortesia de EInquérito/JDACT

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar. Luis Sepúlveda. «Kengah mergulhou a cabeça para agarrar o quarto arenque e por isso não ouviu o grasnido de alarme que estremeceu o ar: - Perigo a estibordo! Descolagem de emergência!»

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Mar do Norte
«Banco de arenques a bombordo! - anunciou a gaivota de vigia, e o bando do Farol da Areia Vermelha recebeu a notícia com grasnidos de alívio. Iam com seis horas de voo sem interrupções e, embora as gaivotas-piloto as tivessem conduzido por correntes de ares cálidos que lhes haviam tornado agradável aquele planar sobre o oceano, sentiam a necessidade de recobrar forças, e para isso não havia nada melhor que um bom fartote de arenques. Voavam sobre a foz do rio Elba, no Mar do Norte. Viam lá do alto os barcos alinhados uns atrás dos outros, como pacientes e disciplinados animais aquáticos à espera de vez para saírem para o mar largo e ali orientarem os seus rumos para todos os portos do planeta. Kengah, uma gaivota de penas cor de prata, gostava especialmente de observar as bandeiras dos barcos, pois sabia que cada uma delas representava uma forma de falar, de dar nome às mesmas coisas com palavras diferentes. - As dificuldades que os humanos têm! Nós, gaivotas, ao menos grasnamos o mesmo em todo o mundo, comentou uma vez Kengah para uma das suas companheiras de voo. - Pois é. E o mais notável é que às vezes até conseguem entender-se, grasnou a outra.
Mais para além da linha de costa, a paisagem tornava-se de um verde intenso. Era um enorme prado em que se destacavam os rebanhos de ovelhas pastando ao abrigo dos diques e das preguiçosas velas dos moinhos de vento. Seguindo as instruções das gaivotas-piloto, o bando do Farol da Areia Vermelha tomou uma corrente de ar frio e lançou-se em voo picado sobre o cardume de arenques. Cento e vinte corpos perfuraram a água como setas e, ao regressar à superfície, cada gaivota segurava um arenque no bico. Saborosos arenques. Saborosos e gordos. Era mesmo do que precisavam para recuperar energias antes de continuarem o voo para Den Helder, onde se lhes juntaria o bando das ilhas Frísias.
No plano de voo estava previsto que seguiriam depois até ao estreito de Calais e ao canal da Mancha, onde seriam recebidas pelos bandos da baia do Sena e de Saint-Malo, com os quais voariam juntas até chegarem aos céus da Biscaia. Seriam então umas mil gaivotas que, como uma rápida nuvem cor de prata, iriam aumentando com a incorporação dos bandos de Belle-Ïle e de Oléron, dos cabos de Machicaco, do Ajo e de Peñas. Quando todas as gaivotas autorizadas pela lei do mar e dos ventos voassem sobre a Biscaia, poderia começar a grande convenção das gaivotas dos mares Báltico, do Norte e Atlântico.
Seria um belo encontro. Era nisso que Kengah pensava enquanto dava conta do seu terceiro arenque. Como todos os anos, iriam escutar-se interessantes histórias, especialmente as contadas pelas gaivotas do cabo de Peñas, infatigáveis viajantes que voavam às vezes até às ilhas Canárias ou às de Cabo Verde. As fêmeas como ela iriam entregar-se a grandes festins de sardinhas e lulas enquanto os machos instalariam os ninhos à beira de uma escarpa. Neles poriam os ovos, neles os chocariam a salvo de qualquer ameaça e, quando tivessem crescido às gaivotinhas as primeiras penas resistentes, chegaria a parte mais bela da viagem: ensinar-lhes a voar nos céus da Biscaia. Kengah mergulhou a cabeça para agarrar o quarto arenque e por isso não ouviu o grasnido de alarme que estremeceu o ar: - Perigo a estibordo! Descolagem de emergência! Quando Kengah tirou a cabeça da água viu-se sozinha na imensidade do oceano». In Luis Sepúlveda, Historia de Una Gaivota y del Gato que le Enseño a Volar, 1996, História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, Asa Editores, Pequenos Prazeres, Porto, 2002, ISBN 972-41-1848-7.

Cortesia de ASA/JDACT

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

FCG. As Idades do Mar. VI. As Idades dos Mitos. «Os seus mares agitados são povoados por divindades de referência humana, como Vénus, deusa nascida da espuma das ondas, ou Neptuno e Anfitrite, casal que governava os mares»


Neptuno e Anfitrite. Belluno, c. 1691-1694. Óleo sobre tela. Sebastiano Ricci (1659-1734). 
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid
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Fundação Calouste Gulbenkian. Sala de Exposições Temporárias da Sede. Até ao pf dia 27 de Janeiro de 2013.

«Ilustram-se aqui algumas das narrativas matriciais do universo e da humanidade, fontes conservadas através de tradições transpostas para a escrita e suporte permanente do imaginário visual. A mitologia clássica divulgou o universo dos deuses e heróis eternizados nos textos gregos atribuídos a Homero e nos romanos de Virgílio e Ovídio - a Odisseia, a Eneida e as Metamorfoses. Os seus mares agitados são povoados por divindades de referência humana, como Vénus, deusa nascida da espuma das ondas, ou Neptuno e Anfitrite, casal que governava os mares. Aí também vivem fantásticos seres, como nereidas, tritões e sereias.

 


Referido na Bíblia em vários episódios, o mar também é cenário nos milagres de santos na Europa católica em mitos fomentados pela Contra-Reforma, como os episódios da vida de S. Francisco Xavier». In Teresa Pizarro, Molduras, As Artes na Antena 2, FCG.


Cortesia de Molduras/JDACT

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FCG. As Idades do Mar. V. A Idade do Poder. «… as Províncias Unidas protestantes desenvolverão uma pintura ostentatória, laica, que pretendia ilustrar e divulgar os seus sucessos no mar contra o domínio dos Habsburgos da Espanha católica»

“Batalha de Lepanto, 7 de Outubro de 1571”. c. 1573. Óleo sobre tela, Anónimo (Monogramista “H”). 
National Maritime Museum, Greenwich, Londres.
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Fundação Calouste Gulbenkian. Sala de Exposições Temporárias da Sede. Até ao pf dia 27 de Janeiro de 2013.

«O mar foi cenário de jogos de poder determinados por ambições económicas e políticas que obrigaram à formação de grandes esquadras confrontando-se para o seu domínio. Multiplica-se a representação de conjuntos poderosos de navios pertencentes às potências marítimas europeias, tanto em circulações comerciais como em batalhas. Tal figuração desenvolve-se sobretudo a partir da época das grandes navegações oceânicas, quando o conhecimento científico substitui as visões medievais geradas pela imaginação.


De princípio, concedia-se à representação de navios a função de cenário para temáticas religiosas. Mas as Províncias Unidas protestantes desenvolverão uma pintura ostentatória, laica, que pretendia ilustrar e divulgar os seus sucessos no mar contra o domínio dos Habsburgos da Espanha católica. Em meados do século XVII, os motivos preferenciais da afirmação de poder pela Holanda são os confrontos com a Inglaterra, a nova potência naval europeia». In Teresa Pizarro, Molduras, As Artes na Antena 2, FCG.

Cortesia de Molduras/JDACT

FCG. As Idades do Mar. IV. A Idade do Trabalho. «Os areais e os lodos junto ao mar também guardam meios de subsistência, que por vezes evidenciam a dureza da sobrevivência humana, em contraponto com a representação do negócio»


“Barco e Comboio Construtivistas”, 1940, Óleo sobre tela. Joaquín Torres García, 1874-1949.
Archivo fotográfico del Museo de Bellas Artes de Bilbao
jdact

Fundação Calouste Gulbenkian. Sala de Exposições Temporárias da Sede. Até ao pf dia 27 de Janeiro de 2013.

«Trabalhos relacionados com o mar apontam atividades continuadas de resposta a necessidades fundamentais, tanto as de sobrevivência material (a pesca como fonte de alimento) como as das comunicações com outras terras ( os comércios que implicam o movimento dos portos como lugares de abrigo e trânsito de pessoas, bens, serviços e culturas).
 



Os areais e os lodos junto ao mar também guardam meios de subsistência, que por vezes evidenciam a dureza da sobrevivência humana, em contraponto com a representação do negócio. A pesca prolonga-se no comércio, feito nas lotas ou nos centros urbanos, onde chegam às populações os alimentos do mar. Fecha-se assim o ciclo do trabalho». In Teresa Pizarro, Molduras, As Artes na Antena 2, FCG.


Cortesia de Molduras/JDACT

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

FCG. As Idades do Mar. III. A Idade das Tormentas. «… estas pinturas centram-se tanto no motivo das tormentas como no dos naufrágios que delas resultam, numa luta entre a força monumental da Natureza e a audácia humana para nela navegar»

“Quillebeuf, foz do Sena”. 1833. Óleo sobre tela, Joseph Turner (1775-1851).
 Foto de  catarinaFerreira
jdact

Fundação Calouste Gulbenkian. Sala de Exposições Temporárias da Sede. Até ao pf dia 27 de Janeiro de 2013.


«A morfologia dos mares agitados e dos acontecimentos meteorológicos a eles associados, matéria de assombro e pavor que os pintores foram registando, relativiza a dimensão humana perante a sua violência destruidora».

 

Num jogo entre objectivos documentais e representações cenicamente fantasiadas, estas pinturas centram-se tanto no motivo das tormentas como no dos naufrágios que delas resultam, numa luta entre a força monumental da Natureza e a audácia humana para nela navegar.
O sentimento trágico é acentuado na representação dos naufrágios, com o desaparecimento das embarcações e das pessoas e bens. O cenário do mar pode assim propiciar reflexões éticas e políticas sobre o drama social da perda do pescador enquanto sustento da família e suscita também meditações transcendentes sobre a vida dos homens como povo ou sobre a definitiva solidão existencial do indivíduo». In Teresa Pizarro, Molduras, As Artes na Antena 2, FCG.



Cortesia de Molduras/JDACT

domingo, 9 de dezembro de 2012

FCG. As Idades do Mar. II. A Idade Efémera. «A praia estabelece-se como lugar de passeio das gentes burguesas, cuja circulação o caminho-de-ferro facilita. A moda das grandes temporadas de veraneio massifica-se durante o século XX, por impulsos sociais e lógicas sanitárias que levam à vulgarização dos banhos de mar»

"Praia das Maçãs". 1918. Óleo sobre painel de madeira, 
José Mallhoa (1855-1933), foto de Carlos Monteiro.
jdact e cortesia de molduras

Fundação Calouste Gulbenkian. Sala de Exposições Temporárias da Sede. Até ao pf dia 27 de Janeiro de 2013.

«Desde finais do século XVII, as elites norte-europeias procuram, através do Grand Tour pela Europa, contactar tanto com a riqueza cultural e artística como com o pitoresco dos lugares. Também o olhar dos pintores vai ser influenciado pela procura destes valores, elegendo motivos curiosos em paisagens selvagens e registando o efémero.
A partir de finais do século XIX, o mar é pretexto para exploração pictórica autónoma, pelas matérias resultantes da pincelada que restituem realidades sensorialmente mais intensas. O mar como objecto preferencial de contemplação gera mimetismos entre os estados anímicos do espectador e o mar nos seus diferentes tempos, originando muitas vezes o impulso da partida e da viagem. A praia estabelece-se como lugar de passeio das gentes burguesas, cuja circulação o caminho-de-ferro facilita. A moda das grandes temporadas de veraneio massifica-se durante o século XX, por impulsos sociais e lógicas sanitárias que levam à vulgarização dos banhos de mar». In Teresa Pizarro, Molduras, As Artes na Antena 2, FCG.



Cortesia de Molduras/JDACT

FCG. As Idades do Mar. I. A Idade Infinita. «Procuram-se com melancolia as matrizes dos tempos primeiros e perfeitos, com regressos às referências das culturas clássicas mediterrânicas. Procuram-se também as dimensões simbólicas e místicas do mar, onde a presença humana parece não poder existir…»

 Natureza-Morta com Peixes, 1925. Óleo sobre tela. 
Giorgio de Chirico (1888-1978.Foto de Antonio Idini.
jdact

Fundação Calouste Gulbenkian. Sala de Exposições Temporárias da Sede. Até ao pf dia 27 de Janeiro de 2013.

«As imagens do mar servem desejos de evasão, tanto de constrangimentos concretos como de estruturas civilizacionais. Procuram-se com melancolia as matrizes dos tempos primeiros e perfeitos, com regressos às referências das culturas clássicas mediterrânicas. Procuram-se também as dimensões simbólicas e místicas do mar, onde a presença humana parece não poder existir, sendo território de criação divina. Como num regresso ao princípio, as imagens do mar esvaziam-se finalmente na ostentação pura das águas separadas dos céus, as próprias dimensões das pinturas desejando evocar a imensidão do mar. É um desejo paradoxal. Tanto apela à infinitude e transcendência, no seu esquematismo simbólico e grandeza física, tendente para uma serenidade que se imagina inicial e convoca o sentimento da eternidade, como nos convulsiona em visões turbulentas, feitas de emoção, sentimento e vertigem». In Teresa Pizarro, Molduras, As Artes na Antena 2.





Cortesia da FCG


JDACT

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Exposição. As Idades do Mar. Fundação Calouste Gulbenkian. «Com curadoria de João Castel-Branco Pereira, director do Museu Gulbenkian, As Idades do Mar reúne 108 obras vindas de meia centena de instituições nacionais e estrangeiras e conta com mais de uma dezena de peças da colecção do Museu d’Orsay»



Cortesia de FCG

De 26 de Outubro de 2012 ao pf dia 27 de Janeiro de 2013. Das 10h00 às 18h00. Sala de Exposições Temporárias da Sede.

«A partir de amanhã, dia 26 de Outubro, o Museu Gulbenkian apresenta uma exposição centrada nas representações físicas e simbólicas do Mar ao longo de quatro séculos da pintura ocidental (séculos XVI-XX), por artistas como Turner, Friedrich, Ingres, Guardi, Bocklin, Constable, Lorrain, Monet, Courbet, Klee, Dufy, De Chirico, Manet ou Van Goyen, entre muitos outros. A pintura portuguesa estará representada por nomes como Amadeo, Vieira da Silva, Sousa Lopes, Noronha da Costa, António Carneiro ou João Vaz. Com curadoria de João Castel-Branco Pereira, director do Museu Gulbenkian, As Idades do Mar reúne 108 obras vindas de meia centena de instituições nacionais e estrangeiras e conta com mais de uma dezena de peças da colecção do Museu d’Orsay.




A abrir a exposição estará A Largada do Bucentauro de Francesco Guardi, obra pertencente à colecção do Museu Gulbenkian e que sintetiza as linhas programáticas da mostra representando um ritual que se cumpria anualmente na cidade de Veneza que simbolizava o casamento entre a Terra e o Mar.

A exposição desenvolve-se, a partir daí, em seis núcleos distintos:
  • A Idade dos Mitos;
  • A Idade do Poder;
  • A Idade do Trabalho;
  • A Idade das Tormentas;
  • A Idade Efémera;
  • A Idade Infinita.
Em torno da exposição realizam-se três conferências sobre iconografia do mar na azulejaria, na tapeçaria e na pintura, nos dias 5, 12 e 26 de Novembro de 2012, às 18h00, no Auditório 3».
In Fundação Calouste Gulbenkian.



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