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domingo, 2 de outubro de 2011

O Pensamento e as Interpretações: Parte XXXII. Florbela Espanca e Manuel Bernardes. «... Daqui se infere, que quanto maior é a grandeza de estado de uma pessoa, tanto maior é o seu cativeiro (excepto aqueles poucos, que só no exterior são grandes, e no seu interior pequenos); porque necessita de inumeráveis coisas para o adquirir»

Cortesia de vitorfaria

Dotado de Verdadeira Virtude
«O que é dotado de verdadeira virtude tem os seus males por fora, os seus bens por dentro. Pelo contrário o amigo de glória vã, o hipócrita, o mundano, os seus males estão por dentro, porque são verdadeiros; e os seus bens por fora, porque são imaginados, e aparentes.
Entre todas as virtudes somente a humildade se ignora a si mesma: como traz os olhos baixos, e fitos no abismo do seu nada, não reflecte sobre o seu conhecimento, porque o verdadeiro humilde não presume que o seja». 
Estado de Grandeza Dependente
«A pura, perfeita, e absoluta liberdade consiste em não necessitar de coisa alguma: e esta é própria dos bem-aventurados. Outra mais inferior consiste em necessitar de poucas coisas: e quanto estas forem menos, tanto a liberdade será de mais alto grau. E esta é a que na presente vida podemos, e devemos procurar (...).
Daqui se infere, que quanto maior é a grandeza de estado de uma pessoa, tanto maior é o seu cativeiro (excepto aqueles poucos, que só no exterior são grandes, e no seu interior pequenos): porque necessita de inumeráveis coisas para o adquirir, e conservar: antes nessas mesmas coisas consiste o tal estado». In Manuel Bernardes, «Luz e Calor»

Cortesia de arvoredeperola

Amar Intensamente
«De que vale no mundo ser-se inteligente, ser-se artista, ser-se alguém, quando a felicidade é tão simples! Ela existe mais nos seres claros, simples, compreensíveis e por isso a tua noiva de dantes, vale talvez bem mais que a tua noiva de agora, apesar dos versos e de tudo o mais. Ela não seria exigente, eu sou-o muitíssimo. Preciso de toda a vida, de toda a alma, de todos os pensamentos do homem que me tiver. Preciso que ele viva mais da minha vida que da vida dele. Preciso que ele me compreenda, que me adivinhe. A não ser assim, sou criatura para esquecer com a maior das friezas, das crueldades. Eu tenho já feito sofrer tanto! Tenho sido tão má! Tenho feito mal sem me importar porque quando não gosto, sou como as estátuas que são de mármore e não sentem». 

Amar não é Ser Egoísta
«Tenho a certeza que tu és o meu maior amigo, o mais dedicado, o melhor de todos. Como eu o vi hoje bem! Como tu és leal e bom! Tão diferente de todos os outros homens que para te pagar o que no futuro hei-de dever-te, será pequena a minha vida inteira, mesmo que ela seja imensa. Os outros, amando as mulheres, são como os gatos que quando acariciam, é a eles que acariciam. Amar não é ser egoísta, é tantas, tantas vezes o sacrifício de nós próprios! A dedicação de todos os instantes, um interesse sem cálculo, uns cuidados que em pequeninas coisas se revelam e o pensamento constante de fazer a felicidade de quem se ama». In Florbela Espanca, «Correspondência, 1920»

Cortesia do Citador/JDACT

domingo, 22 de maio de 2011

Augusto Reis Machado: A escrita biográfica de Frei Luís de Sousa. «Tiveram especial valor os Anais de D. João III, sobretudo pelo importante material de investigação de que se serviu o autor. Utilizou ele e citou bastantes documentos, alguns dos quais Alexandre Herculano veio a aproveitar. Dentre eles são de especial interesse as Memórias de António Carneiro, secretário dos reis D. João II e D. Manuel»

Cortesia de lfawebfolio

( … )
«Dois clássicos portugueses podem disputar a primazia da limpidez e correcção de linguagem: um é frei Luís de Sousa, outro Manuel Bernardes; mais simples ainda e mais desafectado que o autor da «Nova Floresta», com menos preocupações de artista, embora de quando em quando se perceba, pelo tom da prosa, que vai, conscientemente, escrever um trecho de antologia, frei Luís de Sousa encanta pela brandura do estilo, pela serena esfera em que consegue mantê-lo, ainda na descrição de acontecimentos que exigiriam porventura a linguagem nervosa e enérgica de Vieira; de uma delicadeza sem par, ingenuamente gracioso, perfumado das rosas e violetas do convento de Benfica, todo ele no ritmo da água que docemente vai correndo de fonte a fonte, nos jardins da casa, o estilo de frei Luís de Sousa reflecte a atitude essencial de uma alma que toda se votou a uma vida tranquila e que olha o espectáculo do mundo com a indulgência e o íntimo sossego do santo.

Cortesia de pauloborges

Completamente afastado de tentações retóricas, nem uma única vez se inclina ante a moda gongórica que mancha os melhores escritores do século; as acrobacias de pensamento e de linguagem não atraem quem escreve por obediência e dá o melhor da sua atenção ao desenho do biografado ou ao maravilhoso dos milagres.
Quer mostre o arcebispo nas serras do Barroso ou na discussão de Trento, quer passeie o leitor pela igreja da Batalha ou lhe descreva o cerco de Ormuz e a destruição de Vila Franca, jamais se turva a clareza do seu dizer, jamais se entretém o bom frade naqueles arrebiques e sábios equilíbrios de períodos a que por vezes, embora raramente, Bernardes se entregou.
Senhor da língua, sentindo-lhe perfeitamente o génio e as tendências, soube utilizar com propriedade, locuções tradicionais e dar cunho tão firme às que inventou, que não é hoje fácil tarefa destrinçá-las das outras. Nas imagens trabalhou como poeta e soube adaptá-las ao ritmo e às exigências da prosa com o tacto e a segurança dos verdadeiros escritores; nem por excesso de metáforas ficaram as páginas empoladas e artificiais, nem por defeito, pobres e sem vida.

Cortesia de cantosdaleitura

Cheio de pureza, de graça, de religiosa gravidade, de compassado movimento, sensível à ironia branda do moralista, exacto na expressão das ideias, animado de uma bondade que o embebe de finura e de modéstia, o estilo de frei Luís de Sousa aparece-nos como um dos que mais apuraram a nossa língua e contribuíram para a fazer abandonar de todo, as asperezas e incertezas de 500, tornando-a um instrumento maleável e sólido nas mãos dos futuros escritores.
Sob o aspecto histórico a obra de frei Luís de Sousa reflecte, em geral, a deficiência documental e crítica que caracteriza as «Crónicas e Anais» com que os antigos (especialmente os autores do século XVI relatavam os acontecimentos e retratavam os homens.
Tiveram especial valor os Anais de D. João III, sobretudo pelo importante material de investigação de que se serviu o autor. Utilizou ele e citou bastantes documentos, alguns dos quais Alexandre Herculano veio a aproveitar. Dentre eles são de especial interesse as Memórias de António Carneiro, secretário dos reis D. João II e D. Manuel. Nota-se nos Anais um especial interesse do autor por tudo quanto se refere à história ultramarina de Portugal, interesse que explica o longo relato que faz na Vida de frei Bartolomeu dos Mártires do cerco e defesa de Mazagão». In Augusto Reis Machado, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia da Fundação Gulbenkian/JDACT

domingo, 24 de abril de 2011

Manuel Bernardes. Luz e Calor. Parte I: «Ele não é o escritor sempre igual, calmo, muito equilibrado, gozando a paz da sua cela, limando na perfeição linguística e serenidade espiritual, as suas páginas. Pelo contrário, é mesmo o ele oscilar constantemente entre polos muito contrários, como o raciocínio mais lógico e a crença mais angelical e ridiculamente supersticiosa»

Cortesia de pesporrente

Com a devida vénia a João David Pinto Correia.
Capítulo II
«A obra Luz e Calor ocupa lugar muito representativo no conjunto bibliográfico de Manuel Bernardes. Podemos mesmo afirmar que, nela, se encontram resumidas e sintetizadas as suas personalidades humana, literária e espiritual.
Quanto à primeira, a humana, a um rápido contacto, deparamos com um temperamento calmo e, muitas vezes, amaneirado, adocicado, por outras palavras, «beato» no seu pior sentido. Tal impressão, se muito conserva de exacto, tem, no entanto, prejudicado que se descubra a personalidade completa do nosso oratoriano.
No aspecto literário, múltiplos são os aspectos do escritor, todos bem patentes numa simples obra como esta: em primeiro lugar, o escritor doutrinário, que, embora pretenda ser mais prático do que especulativo, nunca deixa de expor a matéria religiosa ou moral de forma metódica, obediente às regras da lógica, bem consciente dos princípios da argumentação e da melhor forma de persuadir o leitor.

Cortesia de portaldaliteratura
Igualmente, encontramos o tom confessional e lírico de algumas passagens de carácter mais acentuadamente místico:
  • a par de um tom sentencioso e zelosamente apostrófico de moralista, há a doce ingenuidade do admirador das belas coisas humanas e o ardente entusiasmo perante as maravilhas e mistérios de Deus, ou, então, a solenidade, o barroquismo, constrastando tão intensamente com o tom coloquial de muitos outros passos.
Por toda a obra, encontramos o Bernardes dos grandes contrastes. Ele não é o escritor sempre igual, calmo, muito equilibrado, gozando a paz da sua cela, limando na perfeição linguística e serenidade espiritual, as suas páginas. Pelo contrário, julgamos que uma das principais características de Bernardes-escritor, é mesmo o ele oscilar constantemente entre polos muito contrários, como o raciocínio mais lógico e a crença mais angelical e ridiculamente supersticiosa.

Cortesia de luzecalor 
Reflecte-se talvez assim no oratoriano uma das características do seu tempo:
  • o «gosto de contraste violento», que Jacinto do Prado Coelho aponta como nota dominante para outro vulto do mesmo século.
Poderia dar importância aos exemplos edificantes que estiveram de acordo com os seus «afectos pios» mas, como observa Ebion de Lima, os seus «exemplos são fortes»...
Como reflexo da sua personalidade espiritual, a Luz e Calor mostra-nos em Bernardes que é, ao mesmo tempo, o interessado nas questões teológicas e filosóficas, o moralista, o doutrinador da ascese, o doutrinador quanto à mística, mas também o poeta espiritual. Luz e Calor aparece-nos assim como obra muito variada». In João David Pinto Correia, Luz e Calor no conjunto da Obra do Padre Manuel Bernardes, Fundação Calouste Gulbenkian 2005.

Cortesia da Fundação Calouste Gulbenkian/JDACT

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Pensamento e as Interpretações: Parte XVI. «Não há modo de mandar, ou ensinar mais forte, e suave, do que o exemplo: persuade sem retórica, impele sem violência, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as dúvidas desata, e corta caladamente todas as desculpas»

Cortesia de pensamentosproverbios

Mandar e Ensinar Através do Exemplo
«Não há modo de mandar, ou ensinar mais forte, e suave, do que o exemplo: persuade sem retórica, impele sem violência, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as dúvidas desata, e corta caladamente todas as desculpas. Pelo contrário, fazer uma coisa, e mandar, ou aconselhar outra, é querer endireitar a sombra da vara torcida». In Manuel Bernardes.

Cortesia de pedraformosa

Estado de Grandeza Dependente

«A pura, perfeita, e absoluta liberdade consiste em não necessitar de coisa alguma: e esta é própria dos bem-aventurados. Outra mais inferior consiste em necessitar de poucas coisas: e quanto estas forem menos, tanto a liberdade será de mais alto grau. E esta é a que na presente vida podemos, e devemos procurar (...).
Daqui se infere, que quanto maior é a grandeza de estado de uma pessoa, tanto maior é o seu cativeiro (excepto aqueles poucos, que só no exterior são grandes, e no seu interior pequenos): porque necessita de inumeráveis coisas para o adquirir, e conservar: antes nessas mesmas coisas consiste o tal estado». In Manuel Bernardes.

JDACT

segunda-feira, 12 de julho de 2010

P. Manuel Bernardes: «Não há modo de mandar, ou ensinar mais forte do que o exemplo. Persuade sem retórica, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as dúvidas desata, e corta caladamente as desculpas»

(1644-1710)
Lisboa
Cortesia dealfarrabiodiuminho
O Padre Manuel Bernardes professou em 1674 na Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri. Escreveu diversos tratados de espiritualidade e vários guias morais, como Exercícios Espirituais (1686), Luz e Calor (1696) e Pão Partido em Pequeninos (1696). Dois volumes de Sermões e Práticas (1711) e a Nova Floresta ou Silva de Vários Apotegmas em cinco volumes publicados entre 1706 e 1728.
Esta última obra é uma colecção de «ditos bons e sentenciosos de varões ilustres» que apresenta por ordem alfabética o comentário a um pecado ou virtude. O autor não chegou a ir além da letra J e da virtude «Justiça».

Mendes dos Remédios escreveu as palavras seguintes: «Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na prédica como na vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por mais de um laço à história política de Portugal, Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida, 36 anos, entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre cela da Congregação do Oratório». Lendo-os com atenção, escreve António Feliciano de Castilho, sente-se que «Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes. Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte, para o mundo. Bernardes, para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo. Bernardes era como estas formosas de seu natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem, que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo».

Manuel BERNARDES, C.O., 1644-1710
Discurso sobre a educação 
Almeida e Machado, 1908. - 132 p. ; 21 cm. - 2 ex.
CDU 821.134.3-97
Cortesia da Biblioteca Nacional Digital
A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreende dezenove volumes, entre os quais se contam:
  • Os Sermões e Práticas;
  • Os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa;
  • Os Últimos Dias do Homem;
  • Os Tratados Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos, alguns opúsculos;
  • Luz e Calor;
  • A Nova Floresta.

Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre Bernardes não cessou de trabalhar, até perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.
As Jaculatórias encontram-se no fim da Segunda Parte de Luz e Calor.
Cortesia de editorapinus
Opúsculo V
Orações Jaculatórias, ou setas espirituais para atirar ao Céu e Ferir o Coração de Deus.
 «Não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória do que como parto afectuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as fazer, e adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias do Espírito, Purgativa, Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística). e assim podemos dizer que as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas ferirão mais altamente o coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa caridade. Se o Leitor achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso reparo, porque estas coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança Teológica». In Orações Jaculatórias 


Cortesia de Projecto Vercial

Nova Floresta ou Silva de Vários Apotegmas.
Três Pátrias
«Qualquer homem tem três pátrias: uma da origem, outra da natureza e outra do direito. A pátria da origem é aquela em que os nossos maiores foram e viveram; a da natureza é a terra ou lugar onde cada um nasce; a do direito é onde cada um é naturalizado pelas leis ou príncipes, e onde serve, e merece, e costuma habitar: neste sentido disse Túlio de Catão que tivera a Túsculo por pátria da natureza, mas a Roma por pátria do direito. Quanto à pátria da origem, todos os homens somos do Céu, porque ali está, vive e reina o nosso pai celestial, que vai criando as almas e unindo-as a nossos corpos. Quanto à segunda pátria, falando geralmente, todos homens somos da Terra; por isso dela falamos tão frequentemente. Neste sentido todos os filhos de Adão somos compatriotas, sem diferença do rei ao rústico. Neste sentido, também, os que desejavam negar as imperfeições do amor a tal ou a tal terra em particular, ou por arrogância e fasto filosófico ou por mortificação religiosa e santa, disseram que todo o mundo era pátria sua».
Do primeiro temos exemplo em Sócrates, que, perguntado donde era, respondeu:
  • Do mundo: porque de todo o mundo sou cidadão e habitador.

E em Séneca, que disse:
  • Não encerramos a grandeza do ânimo nos muros de uma cidade, antes o deixamos livre para o comércio de todo o mundo, porque esta é a pátria que professamos, para darmos campo mais largo à virtude.

Do segundo temos exemplo em S. Basílio, que, ameaçado com desterro pelo prefeito do imperador Valente, respondeu que não conhecia desterro quem não estava adicto a certos lugares.
Semelhante resposta foi a do frei António das Chagas, que, avisado por certa pessoa não falasse tão acremente nos sermões da morte, porque se arriscava a ser desterrado, disse mui seguramente:
  • Desterrar-me? Para onde? Quem não tem aqui pátria não pode ter daqui desterro.

Mas, além desta pátria do lugar comum, há outra do particular, que é a terra onde cada um nasceu. Quanto esta é mais pequena, tanto une mais os seus filhos, de sorte que parece o mesmo ser compatriotas que parentes, especialmente quando se acham fora dela. E parece-se este amor com a virtude da erva tápsia, da qual escreve Teofrasto que, metida na panela com a carne a cozer, de tal modo conglutina os pedaços dela que, para os tirar, é necessário quebrá-la. Quanto, porém, a pátria é terra mais populosa, rica e ilustre, tanto costuma ser matéria de vaidade aos que põem a sua glória fora de si. Assim se esvaneciam os Arianos da sua Constantinopla, lançando em rosto a S. Gregório Nazianzeno a sua terrinha, que nem muros a cingiam. Porém o santo doutor lhes respondeu que, se isso era culpa nele, também o seria no golfinho não haver nascido na terra, e no boi não haver nascido mo mar. E, pelo contrário, se neles era glória, também o seria para os jumentos da cidade assoberbarem os do campo.

Quanto à terceira pátria, é esta o lugar onde estamos naturalizados, por mercê da república, ou rescrito dos príncipes, ou habitação continua, de modo que Sto. António se chama de Pádua, não sendo senão de Lisboa, e S. Nicolau de Tolentino, sendo de Saint-Angel. Tomando, porém, isto espiritualmente, onde cada um habita com o espírito e desejo, daí é natural. Por isso, Cristo disse a seus adversários que eles eram cá de baixo: Vos deorsum estis... vos de mundo hoc estis. E, pelo contrário, a seus discípulos, que eles não eram deste mundo: De mundo non estis.

Pleito entre Frades e Formigas
Foi o caso (conforme narrou um sacerdote da mesma religião e província) que naquela capitania as formigas, que são muitas, e mui grandes e daninhas, para estenderem o seu reino subterrâneo e ensancharem os seus celeiros, de tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína. E, acrescentando delito a delito, furtavam a farinha de pau, que ali estava guardada para quotidiano abasto da comunidade. Como as turmas do inimigo eram tão bastas e incansáveis a toda a hora do dia e da noite, vieram os religiosos a padecer falta e a buscar-lhe o remédio: e, não aproveitando alguns do que fizeram experiência, porque, enfim, a concórdia na multidão a torna insuperável, ultimamente, por instinto superior (ao que se pode crer), saiu um religioso com este arbítrio: que eles, revezando-se daquele espírito de humildade e simplicidade com que seu seráfico patriarca a todas as criaturas chamava irmãs (irmão sol, irmão lobo, irmã andorinha, etc.), pusessem demanda àquelas irmãs formigas, perante o tribunal da Divina Providência, e sinalassem procuradores, assim por parte deles, autores, como delas, rés; e o seu prelado fosse o juiz, que, em nome da Suprema Equidade, ouvisse o processado e determinasse a presente causa.

Agradou a traça, e isto assim disposto, deu o procurador dos padres piedosos libelo contra as formigas; contestada por parte delas a demanda, veio articulando que eles, autores, conformando-se com seu instituto mendicante, viviam de esmolas, ajuntando-as com grande trabalho seu pelas roças daquele país, e que as formigas, animal de espírito totalmente oposto ao Evangelho, e por isso aborrecido de seu padre S. Francisco, não faziam mais que roubá-los, e não somente procediam como ladrões formigueiros, senão que com manifesta violência os pretendiam expelir de casa, arruinando-a. E, portanto, dessem razão de si, ou, quando não, fossem todas mortas com algum ar pestilente ou afogadas com alguma inundação ou, pelo menos, exterminadas para sempre daquele distrito.

A isto veio contrariando o procurador daquele negro e miúdo povo, e alegou, por sua parte, fielmente:

  • «Em primeiro lugar: que elas, uma vez recebido o benefício da vida por seu Criador, tinham direito natural a conservá-la por aqueles meios que o mesmo Senhor lhes ensinara;

  • Item: que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos de virtudes que lhes mandara, a saber: de prudência, acautelando os futuros e guardando para o tempo da necessidade; de diligência, ajuntando nesta vida merecimentos para a vida eterna; de caridade ajudando umas às outras, quando a carga é maior que as forças; e também de religião e piedade, dando sepultura aos mortos da sua espécie...;

  • Item: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o deles, autores, em ajuntar as esmolas, porque a carga muitas vezes era maior que o corpo, e o ânimo que as forças;

  • Item: que, suposto que eles eram irmãos mais nobres e dignos, todavia diante de Deus também eram umas formigas, e que a vantagem do seu grau racional harto se descontava e batia com haverem ofendido ao Criador, não observando as regras da razão, como elas observavam as da natureza, pelo que se faziam indignos de que criatura alguma os servisse e acomodasse, pois maior infidelidade era neles defraudarem a glória de Deus por tantas vias, do que nelas furtarem sua farinha;

  • Item: que elas estavam de posse daquele sítio antes deles, autores, fundarem, e, portanto, não deviam ser dele esbulhadas, e da força que se lhes fizesse apelariam para a Coroa da regalia do Criador, que tanto fez os pequenos como os grandes e a cada espécie deputou seu anjo conservador. E, ultimamente, concluíram que defendessem eles a sua casa e farinha, pelos modos humanos que soubessem, porque isto lhes não tolhiam, porém que elas, sem embargo, haviam de continuar as suas diligências, pois do Senhor, e não deles, era a terra e quanto ela cria (Domini est terra et plenitudo eius)».
Sobre esta contrariedade houve réplicas e contra-réplicas, de sorte que o procurador dos autores se viu apertado, porque, uma vez deduzida a contenda ao simples foro de criaturas, e abstraindo razões contemplativas com espírito de humanidade, não estavam as formigas destituídas de direito, pelo que o juiz, vistos os autos, e pondo-se com ânimo sincero na equidade que lhe pareceu mais racionável, deu sentença que os frades fossem obrigados a sinalar dentro da sua cerca sítio competente para vivenda das formigas, e que elas, sob pena de excomunhão, mudassem logo habitação, visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo, maiormente porque eles, religiosos, tinham vindo ali, por obediência, a semear o grão evangélico e era digno o operário do seu sustento, e o das formigas podia consignar-se em outra parte, por meio da sua indústria, a menos custo.

Lançada esta sentença, foi outro religioso, de mandado do juiz, intimá-la em nome do Criador àquele povo, em voz sensível, nas bocas dos formigueiros.

Caso maravilhoso e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor de quem está escrito que brinca com as suas criaturas (Ludens in orbe terrarum!). Imediatamente saíram, a toda a pressa, milhares de milhares daqueles animalejos, que, formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo, deixando as antigas moradas, e livres de sua molestíssima opressão aqueles santos religiosos, que renderam a Deus as graças por tão admirável manifestação de seu poder e providência!

Dá Duas vezes quem Dá Logo
Passando el-rei D. Sebastião do Paço de Xabregas para o mosteiro, chegou uma mulher a apresentar-lhe um memorial. Recebeu-o e entregou-o a um fidalgo dos que o acompanhavam.

Ela, afligida, disse:
– Senhor, corre minha honra perigo na tardança.

Pôs nela os olhos el-rei, com aquele afecto de pai que foi tão próprio de seus antepassados para com seus vassalos; pediu recado de escrever e ali mesmo despachou o memorial, dizendo:
– Os negócios desta qualidade em toda a parte devem ter despacho pronto.

Semelhante presteza em despachar se escreve de Viroldo, duque de Lituânia, o qual, até estando à mesa, ouvia os requerimentos, assinava os papéis, recebia as embaixadas. De João Corvino, governador do reino de Hungria, dizem que em qualquer parte, em pé, e sentado, e andando, e a cavalo, sempre ia administrando as obrigações de seu ofício.
O imperador Trajano, de alcunha O Erva Parietária (porque em todos os edifícios que fez mandou pôr o seu nome na parede), estando de partida contra os Dacos, ao passar de Roma lhe saiu uma viúva clamando justiça contra os homicidas de seu filho. E o César, desmontando do cavalo, a ouviu benignamente e satisfez a seus desejos.
Há negócios e ocorrências que se lhe deve acudir, como se tangeram a fogo. Que ridículo seria o que, chamado para apagar um incêndio, respondesse mui repousado:
– Em almoçando, eu vou logo!

Gabeliano foi réu de morte por deter três dias o aviso de uma conjuração que lhe foi delatada. e fundou-se a sentença em que em ordem a cautelar o próprio dano, podia cada um ser incrédulo ou animoso, mas, em ordem a salvar o alheio, quem mais teme, melhor satisfaz à sua obrigação.

Importa que o espírito do príncipe e do magistrado tenha alguma porção ígnea que o incline a fazer o seu ofício, não frouxamente, mas com prontidão e viveza, porque a caridade, que, pelo que toca ao bem próprio, há-de ser paciente, pelo que toca ao bem do próximo, há-de participar, às vezes, algum tanto de impaciência. E esta é a índole boa, que Séneca descobria até naquilo que em outras ocasiões podia ser repreensível (Saepe tibi indolem bonam in malis quoque tuis ostendam). E esta é a que mostrou aquele rei, cujo coração aprovou Deus, dizendo que era conforme ao seu, quando respondeu logo à mulher Tecuitis, que lhe pedia um seguro tal para lhe não matarem a seu filho:
– Quem ousar a tocar-te, traz-mo aqui. Vive Deus, que nem um só cabelo há-de cair da cabeça de teu filho.

Veja-se como prendeu depressa neste espírito a chama do zelo, tanto que caiu sobre ele a faísca da injustiça, ainda só fingida, como aquela era.

Tanto que o agente se aproxima ao Paço – diz o filósofo – logo resulta acção; e tanto que o miserável se chega ao poderoso, logo há-de haver amparo; tanto que o injuriado recorre ao juiz, logo há-de haver satisfação. Aquele leproso que pediu saúde a Cristo, apenas explicou o seu desejo sem petição expressa e formal. Domine, si vis, potes me mundare (Senhor, se quereis, podereis alimpar-me). Quando logo o Senhor lhe respondeu: «Quero; fica limpo» (Volo; Mundare), e, estendendo a mão, o tocou e sarou. De sorte que, por este caso, podíamos com mais razão dizer o que lá o outro da velocidade dos notários, que tomavam por pena as palavras mais depressa do que outrem lhas pronunciava. Assim parece que ainda a língua do leproso não tinha bem declarado a sua petição, quando a mão do Senhor a tinha já remediado.

Assim como quem dá logo dá duas vezes (Bis dat qui cito dat), assim parece que despacha duas vezes quem despacha bem e logo. Despacha uma vez, concedendo a mercê, e despacha outra, atalhando passos, cuidados e despesas.
Ao rei D. João II de Portugal chegou um pretendente, pedindo certo ofício.
- Já está dado – disse o rei.
E o pretendente lhe rendeu as graças, beijou a mão e despediu-se.
Suspeitou o rei que não percebera a repulsa, e disse:
– Vinde cá: De que me destes as graças?
– Pela mercê – respondeu – que V. A. me acaba de fazer.
Tornou o rei:
– Que mercê vos fiz eu?
– Senhor – disse ultimamente o homem -, a de desenganar-me sem me remeter a ministros, porque nisso me poupou muitos passos, e enfado; e dinheiro, que havia de desembolsar sem proveito.

Nestes danos não reparam os ministros e seus oficiais, retendo as causas e derretendo as partes tanto tempo, que na sua mão parecem estar os papéis não só presos, mas já mortos e sepultados, porque lhes põem uma pedra em cima, que é mais do que dizia o adágio antigo De paxillo suspendere (pendurá-los de um torno ou cabide), para significar a negligência e descuido nos negócios.
Há causas (se não são das que morreram desesperadas) que podem competir com João dos Tempos, de que dizem que viveu 361 anos. Se não param de cansadas, pelo menos andam tão devagar que tudo se vai em Manda, remanda; manda, remanda; expecta, reexpecta; expecta, reexpecta, e, com este manda e remanda, se faz eterna a demanda, e, com este espera e reespera, o pobre, enfim, desespera.

Dizem que Hábis, filha do rei Górgon, por haver sido criada nos bosques com leite de uma cerva, saiu ligeiríssima no correr. Estou considerando que leite mamaria uma destas causas ou requerimentos na mão dos ministros e seus oficiais, que não há remédio a fazê-la correr. Se beberia o leite da preguiça do Brasil (a quem os Castelhanos chamam por ironia perrillo ligero), que gasta dois dias em subir a uma árvore e outros dois em descer?
Mas não é adequado o símil. Porque a preguiça do Brasil anda devagar, mas anda, e a preguiça do Reino e seus ministros, a cada passo pára e dorme. Dois meses para entrar um papel, e parou; outros dois para subir a consulta, e tornou a parar; outros dois para descer abaixo, e temo-la outra vez parada. Mais tantos meses para se verem os autos, mais outros tantos para se formar a tenção, mais tantos anos para embargos, apelações, suspensões, dilações, visitas, revistas, réplicas, tréplicas... Oh! preguiça do Brasil, já eu digo, não por ironia, senão por boa verdade, que tu, em comparação da preguiça do Reino, és perrillo ligero.

Diz Plínio que o lavrador que se não encurva sobre o arado prevarica, isto é, faz os sulcos da terra torcidos (Arator, nisi incurvus, praevaricatur), e, sendo torcidos, claro está que hão-de sair mais compridos do que podiam ser, pois a linha recta sempre é a mais breve. Parece-me que daqui procede (pelo não atribuirmos a piores causas) serem tão compridos e prolongados os sulcos ou caminhos que faz uma causa nas mãos de um ministro. São compridos porque não são rectos, e não são rectos, porque ele não se encurva sobre a banca, não se inclina sobre os livros, não se aplica ao seu ofício – e isto é o mesmo que prevaricar.

Embaixada de D. Manuel ao Papa Leão X
O nosso ínclito rei D. Manuel, de feliz recordação, quando se viu dominador dos reinos do Oriente (de sorte que podíamos dizer que as asas do Sol se mediam com o seu Império, e que aqueles povos infiéis se não confederavam contra a potência das suas armas mais que para ser delas triunfo e ouvir os anúncios da palavra evangélica), então folgou de submeter toda esta grandeza aos pés do Sumo Pontífice Leão X, por seus embaixadores particulares tributando-lhe juntamente as primícias das riquezas do Oriente.
O principal delas era Tristão da Cunha, a quem faziam lados outros dois, a saber: Diogo Pacheco e João de Faria, desembargadores, e outros cinquenta cavaleiros. E era em todos tanta a riqueza e lustre, que havia selas, freios, peitorais e estribos de ouro de martelo, com pedraria fina e pérolas a montes.

Todos os embaixadores dos príncipes cristãos, que se achavam em Roma, e o governador da mesma cidade, e muitos bispos, e famílias dos cardeais, e outra inumerável nobreza, deram nobres aumentos a esta pompa, e o mesmo papa quis lograr o vistoso desta entrada, desde o Castelo de Sto. Ângelo.
Levavam-lhe um presente com um grande e preciosíssimo cofre, coberto com pano de ouro e nele debuxadas as reais quinas posto sobre um elefante, o qual tanto que avistou ao Sumo Pontífice, ajoelhou três vezes, ensinado pelo naire que de cima o governava, e logo, metendo a tromba em um grande vaso de água que ali estava prevenido, borrifou os cardeais e outras pessoas que estavam pelas janelas, e o mesmo sinal de festa usou com o mais povo que estava apinhado pelas ruas.
Em outro dia foi recebida a embaixada, orando elegantemente o Pacheco em consistório. E, no fim da oração, o papa exaltou com excessivos louvores as prendas d'el-rei D. Manuel, e o católico zelo com que naquele Novo Mundo solicitava propagar o Império de Cristo e a glória de sua santa igreja.

Os pontos principais da embaixada eram três: o primeiro, que Sua Santidade empreendesse guerra contra o Turco; segundo, que se tratasse mui de veras da reforma da Igreja; terceiro, que a este fim se prosseguisse e concluísse o sagrado ecuménico concílio de Trento.
Em outro dia se abriu o cofre, tornando a ajoelhar o elefante diante de Sua Santidade. Encerrava um ornamento pontifical inteiro, não só para a pessoa do papa, mas para todos os seus ministros: Era todo de chaparia e figuras de ouro e pedraria preciosa, e a trechos umas romãs de rubis escachadas e, sendo a matéria tal, ainda dos primores da arte era vencida. Iam juntamente outras riquíssimas jóias e ducatões de 500 escudos de ouro, como para entulho.
Avaliaram alguns o presente em um milhão, o qual veio a ser dos que saquearam Roma. Finalmente, Alberto de Carpe, escrevendo ao imperador Maximiliano, como seu embaixador que então era, diz, na sua carta, este capítulo:
«Todo o povo universal de Roma concorreu por ver esta novidade; e não é maravilha, porque poucas vezes, ou nunca, sucedeu enviarem príncipes cristãos a Roma tão magnífico aparato».
Este sinal de rendimento deu à pessoa do vigário de Cristo o nosso católico monarca, visto que a distância de terras e a ocasião lhe não concediam venerá-lo com outras demonstrações pessoais da sua humildade.
Quem desejar fazer-se presente àquele memorável espectáculo, referido aqui tosca e sumariamente, recorra ao elegante aparo das penas do bispo Osório e de Manuel de Faria e Sousa. In Projecto Vercial.

Cortesia de sucessaoaapostolica
«É hipócrita o mercador que dê esmolas em público e leva usuras em oculto; é hipócrita a viúva que sai mui sisuda no gesto e no hábito, e dentro em casa vive como ela quer e Deus não quer; é hipócrita o sacerdote que, sendo pontual e miúdo nos ritos e cerimônias, é devasso nos costumes; é hipócrita o julgador que onde falta a esperança do interesse é rígido observador do direito; é hipócrita o prelado que diz que faz o seu ofício por zelo da honra e glória de Deus, não sendo senão pela honra e glória própria. Hipócrita é o que não emenda em si o que repreende nos outros; o que cala como humilde, não calando senão como ignorante;o que dá como liberal, não dando senão como avarento solicitador das suas pretensões; o que jejua como abstinente, não se abstendo senão como miserável. Assim é. Porém não cuide alguém que, à conta deste desengano, lhe é lícito contrair a doutrina a pessoas ou ações determinadas, dizendo ou julgando que fulano é hipócrita ou esta esmola deu por vanglória. Estes juízos são reservados a quem vê os corações que é só Deus, onde podemos chegar sem pecado e com prudência. É não nos fiar levemente do que aparece e onde podemos assentar com singeleza e sem prejuízo; é entender que todos são bons, conforme a graça de Deus se lhes comunicar». In Padre Manuel Bernardes

Cortesia de Projecto Vercial/Biblioteca Nacional Digital/JDACT