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domingo, 19 de dezembro de 2021

Simon Sebag Montefiore. Jerusalém. «Penso que é a melhor maneira de trazer a cidade à vida e mostrar como as suas complexas e inesperadas verdades são o resultado da sua história. É apenas mediante a narrativa cronológica…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A concorrência para possuir a contagiante santidade de outros levou alguns locais de culto a se tornarem sagrados para todas as três religiões, primeiro sucessivamente e depois simultaneamente; reis decretaram e homens morreram por esses lugares, e agora, no entanto, estão quase esquecidos. O monte Sião foi o local de frenética reverência judaica, muçulmana e cristã, mas hoje em dia há poucos peregrinos muçulmanos ou judeus, e ele é basicamente cristão outra vez. A verdade muitas vezes é menos importante que o mito. Em Jerusalém, não me pergunte a história dos factos, diz o eminente historiador palestino, dr. Nazmi al-Jubeh. Tire aficção e não sobra nada. A história aqui é tão pungentemente poderosa que é repetidamente distorcida. A própria arqueologia é uma força histórica, e os arqueólogos às vezes têm possuído tanto poder quanto os soldados, recrutados para adequar o passado ao presente. Uma disciplina que almeja ser objectiva e científica pode ser usada para racionalizar preconceitos étnico-religiosos e justificar ambições imperiais. Israelenses, palestinos e imperialistas evangélicos do século XIX foram todos culpados de recrutar os mesmos acontecimentos e atribuir-lhes significados e factos contraditórios. Logo, uma história de Jerusalém precisa ser uma história tanto da verdade como lenda. Mas existem factos, e este livro busca narrá-los, por menos palatáveis que sejam para um lado ou para outro.

Meu objectivo aqui é escrever a história de Jerusalém no seu sentido mais amplo para leitores em geral, sejam eles ateus ou crentes, cristãos, muçulmanos ou judeus, sem uma agenda política, mesmo nas contendas actuais. Conto a história cronologicamente, por meio das vidas de homens e mulheres, soldados e profetas, poetas e reis, camponeses e músicos, e das famílias que fizeram Jerusalém. Penso que é a melhor maneira de trazer a cidade à vida e mostrar como as suas complexas e inesperadas verdades são o resultado da sua história. É apenas mediante a narrativa cronológica que se evita a tentação de ver o passado através das obsessões do presente. Tentei evitar a teleologia, escrever a história como se ela fosse inevitável. Considerando que cada mutação é uma reacção àquela que a precedeu, a cronologia é o melhor caminho para dar sentido a essa evolução, de responder à pergunta, porquê Jerusalém?, e mostrar porque as pessoas agiram como agiram.

Espero que também seja uma forma agradável de contar. Quem sou eu para arruinar uma história que, para usar um clichê de Hollywood, neste caso merecido, é a maior história já contada? Entre milhares de livros sobre Jerusalém, há muito poucas narrativas históricas. Quatro épocas, David, Jesus, as Cruzadas e o conflito árabe-israelense, nos são familiares graças à Bíblia, aos filmes, aos romances e aos noticiários, mas muitas vezes são mal compreendidas. Quanto ao resto, desejo sinceramente trazer aos leitores muito da história esquecida. Esta é uma história de Jerusalém como centro da história do mundo, mas não pretende ser uma enciclopédia de cada aspecto, nem um guia para cada nicho, portal ou arco em cada edifício. Não é uma história minuciosa dos ortodoxos, latinos ou arménios, nem das escolas de direito islâmico Hanafi ou Shafii, nem dos judeus hassídicos ou caraítas, e tampouco é narrada de algum ponto de vista específico. A vida da cidade muçulmana desde os mamelucos até o Mandato tem sido negligenciada. As famílias de Jerusalém têm sido estudadas por académicos de vivência palestina, porém raramente cobertas por historiadores populares.

Suas histórias têm sido e continuam sendo extremamente importantes: algumas fontes principais ainda não são acessíveis em inglês, no entanto eu as fiz traduzir e entrevistei os membros das famílias de todos esses clãs visando aprender suas narrativas. Mas elas são apenas parte do mosaico. Esta não é uma história do judaísmo, cristianismo ou Islão, e muito menos um estudo da natureza de Deus em Jerusalém: tudo isso tem sido feito com extrema competência por outros, como no excelente Jerusalem: One City, Three Faiths [Jerusalém: Uma cidade, três religiões. Companhia das Letras, 2000], de Karen Armstrong. E também não é uma história detalhada do conflito Israel-Palestina: não há outro tema da actualidade mais estudado. Mas meu desafio intimidador é cobrir todas essas coisas, e espero que na proporção adequada. Minha tarefa é buscar factos, não adjudicar entre os mistérios de diferentes religiões. Com certeza não reivindico o direito de julgar se as maravilhas divinas e os textos sagrados das três grandes religiões são verdade. Qualquer um que estude a Bíblia ou Jerusalém tem que reconhecer que há muitos níveis da verdade. As crenças de outras religiões e outras épocas nos soam estranhas, enquanto os costumes familiares do nosso próprio tempo e lugar sempre parecem eminentemente razoáveis. Mesmo o século XXI, que muitos dão a impressão de enxergar como o próprio apogeu da razão secular e do bom senso, possui suas próprias sabedorias convencionais e ortodoxias quase religiosas que parecerão incompreensivelmente absurdas para nossos bisnetos. Mas o efeito da religião e seu milagre na história de Jerusalém são sem dúvida reais, e é impossível conhecer Jerusalém sem algum respeito pela religião». In Simon Sebag Montefiore, Jerusalém, 2021, Editora Crítica, 2021, ISBN 978-989-532-275-6.

Cortesia de ECrítica/JDACT

JDACT, Simon Sebag Montefiore, Literatura, Cultura e Conhecimento, Jerusalém, Religião, 

sábado, 18 de dezembro de 2021

Simon Sebag Montefiore. Jerusalém. «… igreja do Santo Sepulcro não apresentam camadas distintas de história; são mais como palimpsestos, trabalhos de bordados nos quais os fios de seda estão tão entretecidos que é impossível separá-los»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A santidade de Jerusalém brotou a partir da situação excepcional dos judeus como Povo Eleito. Jerusalém tornou-se a Cidade Eleita; a Palestina, a Terra Eleita; e esse carácter excepcional foi herdado e abraçado por cristãos e muçulmanos. A suprema santidade de Jerusalém e da terra de Israel reflectiu-se na crescente obsessão religiosa com o retorno dos judeus a Israel e o entusiasmo ocidental pelo sionismo, seu equivalente secular, entre a Reforma do século XVI na Europa e os anos 1970. Desde então, a narrativa trágica dos palestinos, com Jerusalém como sua Cidade Santa perdida, alterou a percepção em relação a Israel. Assim, a fixação ocidental, esse senso universal de propriedade, pode funcionar em ambos os sentidos, uma bênção mesclada ou uma faca de dois gumes. Hoje ela se reflecte no escrutínio de Jerusalém e no conflito Israel-Palestina, mais intenso e mais emocional que qualquer outro na Terra. Todavia, nada é tão simples quanto parece. A história frequentemente é apresentada como uma série de mudanças brutais e reversões violentas, mas quero mostrar que Jerusalém foi uma cidade de continuidade e coexistência, uma metrópole híbrida de edifícios híbridos e um povo híbrido que desafia as categorizações estreitas que pertencem às lendas religiosas separadas e às narrativas nacionalistas de tempos recentes. É por isso que, sempre que possível, acompanho a história pelas famílias, a família de David, os macabeus e herodianos, os omíadas e as casas de Balduíno e Saladino, até os Husseini, os Khalidi, os Spafford, os Rothschild e os Montefiore, que revelam os padrões de vida orgânicos que desafiam os incidentes abruptos e as narrativas sectárias da história convencional. Não há somente dois lados em Jerusalém, mas sim muitas culturas interligadas e sobrepostas, bem como crenças em camadas, um caleidoscópio multifacetado e mutante de ortodoxos árabes, muçulmanos árabes, judeus sefarditas, judeus asquenazitas, judeus ultraortodoxos de diversas cortes, judeus seculares, ortodoxos armênios, georgianos, sérvios, russos, coptas, protestantes, etíopes, latinos e assim por diante. Um só indivíduo muitas vezes tinha diversas lealdades a diferentes identidades, o equivalente humano das camadas de pedra e poeira de Jerusalém.

Na verdade, a relevância da cidade tem-se esvaziado e transbordado, nunca estática, sempre em estado de transformação, como uma planta que muda de forma, tamanho, até mesmo de cor, mas que sempre permanece enraizada no mesmo lugar. A última e loquaz manifestação, Jerusalém, a Cidade Santa de três religiões, como espectáculo de mídia e de noticiários nas 24 horas do dia, é relativamente recente. Houve séculos em que Jerusalém pareceu perder sua importância religiosa e política. Em muitos casos, foi a necessidade política, e não a revelação divina, que voltou a estimular e inspirar a devoção religiosa. Sempre que Jerusalém parecia totalmente esquecida e irrelevante, em geral era a bibliolatria, o estudo dedicado da verdade bíblica por gente de terras distantes, fosse em Meca, Moscovo, Massachusetts, que projectava sua fé de volta em Jerusalém.

Todas as cidades são janelas para mentalidades estrangeiras, mas esta aqui é também um espelho de duas faces revelando a vida interior e, ao mesmo tempo, reflectindo o mundo exterior. Quer fosse a época de fé absoluta, de construção de um império detentor da verdade, de revelação evangélica ou de nacionalismo secular, Jerusalém tornou-se seu símbolo e seu prémio. Porém, tal como os espelhos num parque de diversões, os reflexos são sempre distorcidos, e muitas vezes bizarros. Jerusalém tem uma maneira de desapontar e atormentar tanto conquistadores como visitantes. O contraste entre a cidade real e a celestial é tão excruciante que uma centena de pacientes é internada por ano no asilo da cidade, sofrendo da síndrome de Jerusalém, uma antecipação de loucura, desapontamento e delírio. Mas a síndrome também é política: Jerusalém desafia o bom senso, a estratégia prática e política, existindo no reino de paixões vorazes e emoções invencíveis, impermeáveis à razão. Mesmo a vitória nessa batalha pela dominação e pela verdade apenas intensifica a santidade do lugar para outros. Quanto mais ávido o possuidor, mais feroz a competição, mais visceral a reacção. Aqui reina a lei das consequências não pretendidas.

Nenhum outro lugar invoca tamanho desejo de posse exclusiva. No entanto, esse zelo ciumento é irónico, pois a maioria dos santuários de Jerusalém, assim como as histórias que os acompanham, é emprestada ou roubada, pertencendo antes a outra religião. O passado da cidade é muitas vezes imaginário. Virtualmente, cada pedra esteve algum dia assente no templo há muito esquecido de outra fé, no arco do triunfo de outro império. A maioria, mas não todas, das conquistas foi acompanhada pelo instinto de expugnar a mácula de outros credos, ao mesmo tempo recrutando suas histórias, tradições e locais. Tem havido muita destruição; porém, com mais frequência os conquistadores não acabaram com o que veio antes, mas o reutilizaram e fizeram acréscimos. Os locais importantes como o monte do Templo, a Cidadela, a Cidade de David, o monte Sião e a igreja do Santo Sepulcro não apresentam camadas distintas de história; são mais como palimpsestos, trabalhos de bordados nos quais os fios de seda estão tão entretecidos que é impossível separá-los». In Simon Sebag Montefiore, Jerusalém, 2021, Editora Crítica, 2021, ISBN 978-989-532-275-6.

Cortesia de ECrítica/JDACT

JDACT, Simon Sebag Montefiore, Literatura, Cultura e Conhecimento, Jerusalém, Religião,

Jerusalém. Simon Sebag Montefiore. «A Bíblia tomou o lugar do Estado judeu e do Templo, e tornou-se, segundo Heinrich Heine, a pátria portátil dos judeus, a Jerusalém portátil. Nenhuma outra cidade tem seu próprio livro e nenhum outro livro guiou de tal maneira o destino de uma cidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Precisamos também responder à pergunta: de todos os lugares do mundo, porquê Jerusalém? Era um local remoto, afastado das rotas de comércio da costa do Mediterrâneo; carecia de água; era um forno sob o sol do Verão, gelado nos ventos de Inverno, e suas pedras denteadas eram incómodas e inóspitas. Mas a escolha de Jerusalém como cidade do Templo era em parte decisiva e pessoal, em parte orgânica e evolucionária: a santidade ia-se tornando mais e mais intensa por ter sido santa por tanto tempo. Santidade requer não só fé e espiritualidade, mas também legitimidade e tradição. Um profeta radical que apresente uma visão nova precisa explicar os séculos que se passaram antes e justificar sua própria revelação na linguagem e na geografia da santidade aceitas, as profecias de revelações anteriores e os locais há muito reverenciados. Nada torna um local mais santo do que a concorrência de outra religião. Muitos visitantes ateus são repelidos por essa santidade, vendo-a como superstição contagiosa numa cidade que sofre uma pandemia de intolerância religiosa. Mas isso é negar a profunda necessidade humana da religião, sem a qual é impossível compreender Jerusalém. Religiões devem explicar as frágeis alegrias e perpétuas ansiedades que mistificam e assustam a humanidade: precisamos sentir uma força maior que nós mesmos. Respeitamos a morte e ansiamos por encontrar nela um significado. Como local de encontro entre Deus e o homem, é em Jerusalém que essas questões são resolvidas no Apocalipse, o Fim dos Dias, quando haverá uma guerra, uma batalha entre Cristo e o anticristo, quando a Caaba virá de Meca para Jerusalém, quando será o julgamento, a ressurreição dos mortos e o reinado do Messias e o Reino do Céu, a Nova Jerusalém. Todas as três religiões oriundas de Abraão acreditam no Apocalipse, porém os detalhes variam conforme o credo e a seita. Os secularistas podem encarar tudo isso como baboseira, mas, ao contrário, tais ideias são correntes demais. Nesta época de fundamentalismos judaico, cristão e muçulmano, o Apocalipse é uma força dinâmica na febril política mundial. A morte é a nossa companheira constante: peregrinos há muito vêm a Jerusalém para morrer e ser enterrados ao redor do monte do Templo, de modo a estar prontos para se erguer novamente no Apocalipse. E continuam vindo. A cidade é cercada por cemitérios e se assenta sobre eles; as encarquilhadas partes de corpos de santos antigos são reverenciadas, a mão direita ressecada e enegrecida de Maria Madalena ainda é exibida na Sala Superior Ortodoxa Grega na igreja do Santo Sepulcro. Muitos santuários, até mesmo muitas casas privadas, são construídos em volta de tumbas. As trevas dessa cidade dos mortos brotam não só de uma espécie de necrofilia, mas também da necromancia: os mortos aqui estão quase vivos, ainda que esperando pela ressurreição. O interminável combate por Jerusalém, massacres, mutilações, guerras, terrorismo, cercos e catástrofes, transformou o lugar num campo de batalha: nas palavras de Aldous Huxley, o matadouro das religiões; nas de Flaubert, uma casa de carnificina. Melville chamou a cidade de caveira cercada por exércitos de mortos, enquanto Edward Said recordava-se de que seu pai odiava Jerusalém porque lembrava a morte.

Esse santuário de céu e terra nem sempre evoluiu conforme a Providência. As religiões começam com uma centelha revelada a um profeta carismático, Moisés, Jesus, Maomé. Impérios são fundados e cidades são conquistadas pela energia e sorte de um senhor da guerra. As decisões de indivíduos, a começar pelo rei David, fizeram Jerusalém ser Jerusalém. Sem dúvida, havia escassa perspectiva de que a reduzida cidadela de David, capital de um pequeno reino, viesse a se tornar o centro de atracção do mundo. Ironicamente, foi a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor que criou a aura de santidade, porque a catástrofe levou os judeus a registar e aclamar as glórias de Sião. Tais cataclismos costumavam levar ao desaparecimento de povos. No entanto, a exuberante sobrevivência dos judeus, sua obstinada devoção ao seu Deus e, acima de tudo, o registo da sua versão da história na Bíblia assentaram os alicerces para a fama e a santidade de Jerusalém. A Bíblia tomou o lugar do Estado judeu e do Templo, e tornou-se, segundo Heinrich Heine, a pátria portátil dos judeus, a Jerusalém portátil. Nenhuma outra cidade tem seu próprio livro e nenhum outro livro guiou de tal maneira o destino de uma cidade». In Simon Sebag Montefiore, Jerusalém, 2021, Editora Crítica, 2021, ISBN 978-989-532-275-6.

Cortesia de ECrítica/JDACT

JDACT, Simon Sebag Montefiore, Literatura, Cultura e Conhecimento, Jerusalém, Religião,

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Jerusalém. Simon Sebag Montefiore. «Quando a Bíblia foi traduzida para o grego, depois para o latim e o inglês, ela se tornou o livro universal e fez de Jerusalém a cidade universal»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A história de Jerusalém é a história do mundo, mas é também a crónica de uma cidade provinciana no meio das colinas da Judeia que frequentemente vivia na penúria. Jerusalém chegou a ser vista como o centro do mundo, e hoje isto é mais verdade que nunca: a cidade é o foco da luta entre as religiões oriundas de Abraão; santuário do crescente fundamentalismo cristão, judaico e islâmico; campo de batalha de civilizações em choque; linha de frente entre ateísmo e fé; centro de atracção de fascínio secular; objecto de vertiginosas teorias conspiratórias e criação de mitos via internet; palco iluminado para as câmeras do mundo na era dos noticiários 24 horas. Interesses religiosos, políticos e midiáticos alimentam-se mutuamente para torná-la intensamente escrutinada hoje mais do que em qualquer época. Jerusalém é a Cidade Santa, ainda que tenha sido sempre um antro de superstição, charlatanismo e intolerância; desejo e prémio de impérios, sem possuir, no entanto, qualquer valor estratégico; lar cosmopolita de muitas seitas, cada qual acreditando que a cidade lhe pertence com exclusividade; cidade de muitos nomes, embora cada tradição seja tão sectária que exclui todos os outros. É um lugar de tamanha delicadeza que é descrito na literatura sacra judaica no feminino, sempre uma mulher sensual e vívida, sempre uma beleza, mas às vezes uma meretriz desavergonhada, às vezes uma princesa ferida cujos amantes a abandonaram. Jerusalém é a casa do Deus único, a capital de dois povos, o templo de três religiões, e é a única cidade a existir duas vezes, no céu e na terra: a incomparável graça da Jerusalém terrena é nada se comparada às glórias da Jerusalém celeste.

O simples facto de Jerusalém ser ao mesmo tempo terrena e celestial significa que a cidade pode existir em qualquer lugar: novas Jerusaléns têm sido fundadas por todo o mundo e todos têm sua própria visão de Jerusalém. Profetas e patriarcas, Abraão, David, Jesus e Maomé, diz-se que todos eles trilharam por essas pedras. As religiões que se originaram com Abraão nasceram ali e o mundo também irá acabar ali no Dia do Juízo. Jerusalém, sagrada para os Povos do Livro, é a cidade do Livro: a Bíblia é, sob muitos aspectos, a própria crónica de Jerusalém e seus leitores, desde os judeus e primeiros cristãos, passando pelos conquistadores muçulmanos e os cruzados, até os evangélicos americanos de hoje; todos eles alteraram repetidamente sua história para realizar a profecia bíblica.

Quando a Bíblia foi traduzida para o grego, depois para o latim e o inglês, ela se tornou o livro universal e fez de Jerusalém a cidade universal. Todo o grande rei tornou-se David; todo povo especial via-se como os novos israelitas; toda nobre civilização era uma nova Jerusalém, a cidade que não pertence a ninguém e existe para todo mundo em sua imaginação. E esta é a tragédia da cidade, bem como sua magia: cada sonhador de Jerusalém, cada visitante em todas as épocas, dos Apóstolos de Jesus aos soldados de Saladino, dos peregrinos vitorianos aos turistas e jornalistas de hoje, chega com uma visão da Jerusalém autêntica, e então se decepciona amargamente com o que encontra, uma cidade sempre mutante que prosperou e minguou, que foi destruída e reconstruída muitas vezes. Mas uma vez que assim é Jerusalém, propriedade de todos, apenas a imagem que cada um tem é a correcta; a realidade maculada, sintética, deve ser mudada; todos têm o direito de impor a sua Jerusalém a Jerusalém, e com frequência isso foi feito, pela espada e pelo fogo.

Ibn Khaldun, o historiador do século XIV que é ao mesmo tempo participante e fonte de alguns dos acontecimentos relatados neste livro, observou que a história é avidamente buscada. Os homens na rua aspiram a conhecê-la. Reis e líderes competem por ela. Isso é especialmente verdade no caso de Jerusalém. É impossível escrever uma história dessa cidade sem reconhecer que Jerusalém é também um tema, um fulcro, até mesmo uma espinha dorsal, da história mundial. Numa época em que o poder da mitologia da internet significa que o mouse hi-tech e a cimitarra podem ser ambos armas do mesmo arsenal fundamentalista, a busca por factos históricos é ainda mais importante agora do que foi para Ibn Khaldun. Uma história de Jerusalém precisa ser um estudo da natureza da santidade. A expressão Cidade Santa é quase sempre usada para descrever a reverência de seus locais de culto, mas o que realmente significa é que Jerusalém tornou-se o lugar essencial na terra para a comunicação entre Deus e o homem». In Simon Sebag Montefiore, Jerusalém, 2021, Editora Crítica, 2021, ISBN 978-989-532-275-6.

Cortesia de ECrítica/JDACT

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «Nove dias antes, a Fortaleza Antónia havia tombado; seis dias depois de os pátios externos e as colunatas do Templo terem sido muradas»

jdact e Cortesia de wikipedia

Templo Sagrado. Jerusalém
Agosto de 70 d. C.
«Cabeças cruzavam o muro do Templo, sibilantes; diversas delas, como um bando de pássaros desajeitados, com os olhos esbugalhados, boquiabertas, pedaços de carne humana rolando de onde haviam sido cruelmente arrancadas do pescoço. Algumas caíam no Pátio das Mulheres, sobre a pavimentação enegrecida pela fuligem, como um desencontrado ruído de tambores levando as crianças e os anciãos a fugirem horrorizados. Outras eram lançadas mais à frente, atravessando o Portão de Nicanor, no Pátio dos Israelitas, onde caíam em volta do grande Altar dos Holocaustos, como granizos gigantes. Poucas chegavam a alcançar distâncias ainda maiores, batendo contra os muros e telhados do próprio Mishkan, o Santuário, bem no coração do Templo, que parecia gemer e ressoar sob o ataque como se estivesse sofrendo dor física. Miseráveis!, balbuciou o garoto com a voz embargada; lágrimas de desespero queimando-lhe os olhos azul-safira. Romanos miseráveis e desprezíveis! De sua vista privilegiada, nas fortificações do Templo, ele fitava logo abaixo a movimentação da multidão de soldados romanos; suas armas e armaduras resplandecendo numa ira inflamada. Seus brados preenchiam a noite, misturando-se com a sibilante catapulta, com as batidas dos tambores, os gritos dos que estavam para morrer e, envolvendo tudo mais, o gigantesco e surdo golpe de demolição. Assim, o mundo parecia estar se partindo lentamente aos olhos do garoto. Tem compaixão de mim, ó Senhor,  ele sussurrava, citando os Salmos.  Porque estou angustiado; consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma e o meu corpo. Por seis meses o cerco se fechara sobre a cidade como uma coleira de ferro pronta a estrangulá-la, roubando-lhe a vida. Da sua base inicial, no Monte Scopus e no Monte das Oliveiras, as legiões romanas, quatro delas formadas por milhares de soldados auxiliares, moveram-se inexoravelmente para o interior da cidade, destruindo toda e qualquer linha de defesa, obrigando os judeus a retrocederem, amontoando-os no centro da cidade. Inúmeros foram assassinados, trespassados enquanto tentavam rechaçar seus oponentes, crucificados ao longo dos muros da cidade e por todo o Vale do Quidron, onde a quantidade de urubus era tão numerosa, que ofuscava o sol. O odor da morte difundia-se por toda parte, um corrosivo e dominante mau cheiro que dilacerava as narinas como chamas.
Nove dias antes, a Fortaleza Antónia havia tombado; seis dias depois de os pátios externos e as colunatas do Templo terem sido muradas. Agora tudo o que restava era o Templo Interior, fortificado, onde o que ainda subsistia do antigo orgulho da população da cidade estava esmagado, seres humanos como peixes num tonel imundos, famintos, obrigados a se alimentar de ratos e roer tiras de couro, e a beber a sua própria urina, tamanha era a sua sede. Apesar disso, lutavam furiosa e esperançosamente, lançando pedras e feixes em chamas sobre os invasores, de vez em quando investindo com impetuosidade contra os romanos numa tentativa de fazê-los retroceder para fora dos pátios, tudo isso para, enfim, regressar com ferimentos ainda mais graves. Os dois irmãos mais velhos do garoto morreram na última empreitada, golpeados enquanto tentavam derrubar uma máquina de guerra do cerco romano. Pelo que lhe era sabido, suas cabeças mutiladas estavam entre aquelas arremessadas de volta ao interior dos muros do Templo. Vivat Titus! Vincet Roma! Viva! Titus! As vozes dos romanos se espalhavam num urro estrondoso, declarando o nome do seu general, Tito, filho do imperador Vespasiano. Pela muralha, os defensores ensaiavam um brado em resposta, evocando os nomes de seus próprios líderes: João de Giscala e Simão Bar-Giora. Mas o clamor era fraco, pois as suas bocas estavam ressecadas, e o fôlego, enfraquecido; e, de qualquer maneira, era difícil dar o sangue por homens que, conforme os rumores, já haviam firmado um acordo com os romanos para salvar suas próprias vidas. Eles mantiveram o brado por quase um minuto, e então suas vozes foram diminuindo gradualmente. O garoto retirou um seixo do bolso de sua túnica e começou a chupá-lo, esforçando-se para esquecer a sede que sentia. Ele se chamava David e era filho de Judá, o vinicultor. Antes da grande revolta, a sua família havia cultivado uma vinha nas colinas fora de Belém: uvas vermelho-rubi que produziam o vinho mais puro e doce que alguém pudesse provar, como a luz do sol nas manhãs de Primavera, como a brisa suave na sombra de tamarindeiros. No Verão, o garoto ajudara a colher e a espremer as uvas, pisando-as, sorrindo com a sensação dos polpudos frutos sob os seus pés e a maneira como o suco manchava as suas pernas de vermelho-sangue. Agora prensas de lagar estavam quebradas, os vinhos estragados, e sua família assassinada, toda ela. Encontrava-se sozinho no mundo. Aos doze anos de idade já carregava a dor de um homem cinco vezes mais velho. Eles estão voltando! Preparem-se! Preparem-se!» In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quarta-feira, 18 de março de 2020

A Verdadeira História. Margaret George. «Então, podemos falar à vontade. Antes que pudesse continuar, alguém bateu à porta. Depois de um susto, todas começaram a rir»

jdact

A Mulher que Amou Jesus
«(…) Por volta de meio-dia, as mulheres começaram a chegar à casa de Zebida, com as cabeças cobertas devido à poeira e ao sol quente. Logo se sentaram, tomando iogurte com hortelã e conversando sobre Maria. Esta sentia-se como se fora um daqueles cordeiros, no mercado, que as pessoas ficavam inspeccionando. Débora, que chegara com sua mãe depois das outras, afinal era muito parecida com Joel, o que Maria achou reconfortante. Quando terminaram de se cumprimentar umas às outras e de pôr em dia os mexericos mais recentes, a mãe de Maria ergueu as mãos e pediu silêncio. Olhando em volta, com um certo exagero, disse: podemos ter a certeza de que não há homens aqui? A senhora olhou nos quartos, lá atrás?, perguntou uma das primas de Maria. Eles gostam de se esconder lá! Dando risada, correram lá atrás para ver e voltaram, abanando a cabeça. Estamos sozinhas! Bom!, disse Zebida. Então, podemos falar à vontade. Antes que pudesse continuar, alguém bateu à porta. Depois de um susto, todas começaram a rir.
Até parece que estamos com medo que entre um soldado romano aqui dentro, disse Ana, tia de Maria. Zebida abriu a porta e viu o vulto curvado de Ester, a viúva que morava do outro lado da rua. Os olhos negros de Ester perceberam o grupo de mulheres e disse: desculpem-me, eu só vinha perguntar se teria um pouco de farinha de cevada, mas acho que... Não, por favor, entre!, disse Zebida, quase puxando Ester para dentro. Precisamos dos seus conhecimentos. Conhecimentos? Sobre o que significa o passar dos anos para um homem e uma mulher, disse Zebida. Como sabe, minha filha Maria vai casar-se em breve. Então, juntamo-nos, todas as mulheres da família, para ajudá-la e transmitir-lhe o que sabemos. Mas não temos pessoas mais idosas, pois minha mãe e a mãe de Natã morreram há muito tempo, assim como nossas tias. Então, poderia ajudar-nos!
A velha senhora olhou em torno de si, atentamente. Não sei que tipo de conhecimentos eu poderia ter. Só sei que vivi por muitos anos, só isso. Vivi mais tempo sozinha do que o tempo que passei casada. Já sou viúva há mais de 40 anos. As mulheres na sala tentaram não olhar para ela com piedade, mas todas sabiam o que significava ser viúva, principalmente sem filhos. Venha sentar-se, disse Zebida. Ester não deu atenção e dirigiu-se a Maria. Conheço-a desde que nasceu, disse. E desejo-lhe muita felicidade. E deu-lhe uma pancadinha suave no braço. Maria tentou disfarçar: os machucados e os arranhões doíam-lhe muito, hoje, e ela só orou para que ninguém lhe pedisse para pôr o vestido de noiva e mostrar os braços. Agora, faltava pouco para deixar esta casa assombrada, esta casa onde pairava algum espírito maligno, que a atormentava. Faltava pouco... Joel poderia não ser o marido ideal para ela, mas podia salvá-la das angústias que existiam dentro das paredes da sua própria casa. Obrigada, disse Maria, puxando o braço para si. Mas devo dizer-lhe, continuou Ester, que boa parte dessa felicidade depende da sua própria força. O homem tem pouco a ver com isso.
A mãe de Joel olhou para ela, indignada. O que a senhora quer dizer com isso?, perguntou. É claro que meu filho tem tudo a ver com isso! Se seu filho for um bom homem, ele terá, disse Ester. Mas caso Maria fosse escolhida por alguém não tão bom, ainda assim poderia depender da sua própria felicidade. E se algo trágico acontecesse que Javé não o permita!, e ela se tornasse viúva, como eu, sua felicidade estaria exclusivamente em suas mãos. Eu acho que a senhora está velha e não compreende que esta é uma ocasião de alegria, disse Judite. Se não fosse conhecida de Zebida, eu suspeitaria que tivesse alguma ligação com o Mal. Peço-lhe, no entanto, que retire o que disse do meu filho! Eu não quis dizer nada de mal, mas fingir que o mal não existe só significa fortalecê-lo, insistiu Ester, teimosamente. Tudo o que desejo é uma vida longa e saudável para seu filho e para Maria. Zebida enfiou uma xícara na mão de Ester e afastou-a do grupo, dirigindo-se com ela para um canto da sala». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «O preço, porém, era absurdo. Maria não poderia permitir-se pagar tão caro. Veja só!, disse Quezia, erguendo um cálice. Não dá para imaginar…»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Como somos desleixados!, disse Sara, levantando-se. Não demos parabéns a Maria, nem lhe demos a nossa bênção. Em breve estará casada! Ficaram todos de pé e Benjamim estendeu a sua mão sobre a cabeça de Maria. Querida amiga de minha filha, que é como filha minha, que a bênção do casamento traga felicidade à sua casa. Maria nunca o tinha visto tão solene. Quezia apertou sua mão enquanto o pai pronunciava as palavras, e sua pele se arrepiou. Depois do Sabá seguinte, Quezia levou Maria para conhecer os comerciantes que tinham lojas perto da de seu pai, apresentando-a a eles. Quando dizia minha amiga Maria, que se irá casar em breve com Joel, de Naim, a felicidade que transparecia na sua voz era inconfundível. Ser noiva era resolver um dos mistérios da vida. Aquela era uma parte da cidade em que somente os ricos faziam compras. Um mero colar podia custar o equivalente ao salário pago a um pescador por toda uma estação de pescaria; uma tigela de cerâmica bem torneada podia corresponder à pensão de uma viúva. Era um bairro frequentado pelos outros saduceus da cidade, que não se importavam de caminhar ombro a ombro com romanos e gregos. Minha família jamais permitiria que eu fizesse compras aqui, pensou Maria. Mas sorria, educadamente, e acenava com a cabeça para os comerciantes. Desde a sua primeira visita à casa de Quezia, há tanto tempo, Maria havia compreendido que a sua família também poderia ser rica, porém eles escondiam as suas riquezas. Só algumas coisas valiam a pena; as outras eram vaidade. Eram generosos com os pobres, davam contribuições consideráveis para a caixa de caridade da sinagoga, mas não comprariam louça na cidade alta. Imagine!, uma tigela de cerâmica por um preço daqueles? Jamais!
Em consequência disso, embora Maria gostasse de olhar as coisas que Quezia tinha, também se censurava, em parte, por essa tolerância. Sentia-se dividida entre o seu bom senso, as normas de sua família, e seus próprios desejos. Aquela tigela era tão linda, tão delicada e fina que se podia ver o contorno da mão do outro lado, contra a luz. Um trabalho desses merecia respeito. O preço, porém, era absurdo. Maria não poderia permitir-se pagar tão caro. Veja só!, disse Quezia, erguendo um cálice. Não dá para imaginar você enchendo este cálice e dizendo: e aqui, eis o nosso melhor vinho?
O cálice era de ouro. Não, disse Maria. Um cálice de ouro é o tipo de coisa que nunca terei. Pegou-o na sua mão, examinou-o atentamente, reparando na superfície lisa e bem trabalhada e, com uma certa resistência, colocou-o de volta no seu lugar. Sem nunca lhe ter perguntado, sabia que Joel jamais compraria uma coisa daquelas. O mundo de cálices de ouro não era o seu. Bom, eu espero que ele deixe você escolher alguma coisa bonita, uma coisa que lembre você do seu casamento, disse Quezia. Acho que nunca esquecerei o dia do meu casamento, mesmo que não receba um presente especial, disse Maria. Lembrarei de tudo aquilo em que tocar nesse dia. O próprio dia tornará as coisas sagradas. À medida que o dia do casamento se aproximava, os preparativos iam tomando cada vez mais tempo da família. A mãe de Maria, que cuidava com tanto zelo da casa, deixava agora algumas coisas de lado para se entregar aos projetos de casamento de sua única filha. Ela até cantava enquanto arrumava a casa, coisa que Maria não se lembrava de ter visto.
Certa noite, anunciou que o dia seguinte seria inteiramente por conta dos preparativos pelas mulheres da família. Suas primas, suas tias e a irmã de Joel estão vindo!, disse, orgulhosa. É verdade, a irmã dele, Débora, está vindo de Naim! Jeol falava de Débora com muito carinho, mas Maria nunca a havia encontrado. Conhecera a mãe dele, Judite, e o pai, Ezequiel, que tinham vindo a Magdala pouco após o pedido de casamento. Maria constatara, com surpresa, que Joel não se parecia muito com qualquer deles: ambos eram baixinhos e atarracados, enquanto Joel era alto e magro. Ficara imaginando como seria Débora». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A Verdadeira História. Margaret George. «Quando conhecera Quezia e os seus pais, percebera que eram diferentes da sua família, mas não compreendera que as duas famílias eram originárias de tradições religiosas distintas: fariseus e saduceus»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Descreveu Joel da forma mais simpática que podia, mas enquanto o fazia pensava que ele ainda ficava bem longe do soldado. Quando terminou, Quezia disse, amavelmente: parece que V. fez uma boa escolha. Teremos de aposentar o Soldado e o Diplomata. Construiremos nossas vidas com um tratador de peixe e... Meu pai recebeu recentemente uma oferta da parte de um homem chamado Reuben ben-Asher, que fabrica espadas. Não espadas comuns, apressou-se a explicar. São espadas muito elegantes, finas como um véu e afiadas como uma navalha. Mas você não tomou uma decisão?, perguntou Maria. Meu pai não decidiu, respondeu Quezia. Só irei encontrá-lo depois que ele disser sim ou não. Naquele instante, Maria sentiu-se grata à sua família. Embora muito rigorosos e tradicionalistas, pelo menos não haviam tomado a decisão por ela. Apesar de uma liberdade aparente, Quezia estava em pior situação que ela. Talvez estivesse consciente disso e isso tivesse servido para alimentar as suas fantasias.
Se seu pai disser que sim, espero que esse homem seja uma pessoa agradável, foi tudo o que conseguiu dizer. A ideia de ser apresentada a um estranho e receber ordens de viver com ele até um dos dois morrer era bastante grave. Quezia deu de ombros, tentando aliviar o ambiente. Nós somos mulheres, disse. No final, nunca temos escolha. Quezia insistiu que Maria deveria ficar para falar com a sua mãe e o seu pai. Satisfeita, Maria ficou; não só porque gostava deles, mas também porque estava curiosa de ver o que diriam. Sara, a mãe de Quezia, ficou encantada. Parece uma excelente proposta, disse. Ele junta-se à sua família, mas V. não tem de se unir à dele. E ele é atraente? É..., acho que sim, disse Maria. Aquele passeio à beira do lago parecia insuficiente para servir de base a uma vida conjunta, mas ela achava que descobrira uma certa afinidade espiritual com ele. É religioso?, perguntou Sara. Pergunto porque sei que é importante para a sua família. Não..., não sei, respondeu Maria, dando-se conta de que não haviam discutido o assunto.
Quando conhecera Quezia e os seus pais, percebera que eram diferentes da sua família, mas não compreendera que as duas famílias eram originárias de tradições religiosas distintas: fariseus e saduceus. Os fariseus eram rigorosos na interpretação da Lei e não faziam quaisquer concessões; os saduceus, embora mantendo a tradição sagrada, adaptavam-se, no dia a dia, às circunstâncias materiais de menor importância. Em consequência disso, os fariseus não faziam amizade com romanos ou gentios, temendo serem contaminados, enquanto os saduceus acreditavam que era preferível conhecer o inimigo de perto. Ambos se acusavam mutuamente de trair os interesses do judaísmo. Mas é uma questão importante, você não acha?, perguntou Sara. Ele não parece uma pessoa intolerante, respondeu Maria. Fora essa a sua primeira impressão. Mas ele pode imaginar que todos os canecos devem ser quebrados, se forem tocados por uma impureza, disse Benjamim, o pai de Quezia. E pode querer que V. se vista com aquelas roupas austeras. Maria estremeceu. Mas ele não as usa. Sério, Benjamim disse: e o que pensa ele do Messias? Nós não..., não falamos sobre o Messias, disse, finalmente. Bom, isso é um bom sinal, disse Benjamim. Se ele fosse do tipo daqueles que andam procurando o Messias, não iria deixar de falar nisso.
Não conseguem evitá-lo. Você fica um instante com eles, fala sobre a safra ou sobre o imperador, e imediatamente eles fazem aquele olhar distante e dizem: quando o Messias vier... É bom ficar longe dessa gente! Agora é tarde, pensou Maria. Como poderei ficar longe? Será que Joel está esperando pelo Messias? Parece muito sensível. As pessoas que se interessam pelo Messias são mais apaixonadas. Eu acho que Maria devia sentir-se satisfeita por não ter sido procurada por aqueles pescadores, disse Quezia. Aqueles que entregam peixe no armazém, você sabe, não é? Balançou a cabeça, sacudindo o cabelo brilhante, que na privacidade de casa podia ficar descoberto. Eles fedem. Você mesma disse isso!, disse, apontando para Maria. Encontramos com eles quando íamos chegando ao cais, contou Maria. Os filhos de Jonas, Simão e André. Ah, eu sei, disse Benjamim. Conheço Jonas. E, voltando-se para sua filha, disse, com ar sério: você não estaria sendo tão arrogante se soubesse que Zebedeu me procurou para falar sobre você. E quem é Zebedeu?, perguntou Quezia, assustada. Um pescador famoso de Cafarnaum. Tem uma casa em Jerusalém e relaciona-se com pessoas da casa real. E tem vários filhos?, perguntou Quezia. Tem dois, disse Benjamim. Tiago, o mais velho, é um jovem muito ambicioso. Pelo menos é que o diz Zebedeu: que ele está ansioso para que seu pai se aposente. E o filho mais novo é João. Como quase todos os segundos filhos, João fica na sombra do irmão mais velho. E o senhor..., o incentivou? Na verdade, não. Eu conheci Tiago e o achei muito arrogante. E João é muito sonhador para o meu gosto. Nunca irá se dar bem, nem mesmo se herdar os negócios de seu pai. Há algo de suave em João e as pessoas logo irão se aproveitar dele. Não, você não precisa se preocupar, não terá de se unir à família de Zebedeu». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A Verdadeira História. Margaret George. «O seu diplomata rico, de Jerusalém, e o meu soldado... A sua voz sumiu. Mas também sabíamos que isso não era o mundo real»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Maria precipitou-se para a rua que levava à casa de Quezia, louca para lhe contar sobre Joel. Durante todos aqueles anos, conseguira manter em segredo a amizade com ela, embora Silvanus soubesse, e aprovasse. As moças, que há muito tinham deixado de brincar com os pratinhos de miniatura, haviam transferido as suas atenções para a vida real, planeando as suas futuras casas e especulando sobre os seus companheiros, uma brincadeira sem fim, pois nenhuma delas tinha em vista um noivo. Quezia estava encantada com um homem rico, de Jerusalém, que morava na zona alta da cidade e recebia muitos visitantes estrangeiros. Às vezes passava um tempo no exterior, ocupando um posto de diplomata ou em missão comercial. Tinha também uma casa à beira-mar. Maria, por seu lado, imaginava um soldado, de um poderoso exército judeu, que também era um estudioso. Era corajoso, poético e paciente.
Paciente porque ficava muito tempo fora, cumprindo missões militares, e não podia acompanhar de perto a vida quotidiana na sua casa. Ela não lhe era infiel, mas era maravilhoso poder comprar o que quisesse sem que ele o percebesse. Como sua mãe sempre percebia e, em geral, criticava. Aos 16 anos, Quezia já recebera várias ofertas de casamento e recusara todas. Seu pai tinha ambições maiores do que os pescadores e aprendizes que se tinham apresentado. Maria bateu à porta e foi rapidamente atendida por um grito de Oba!, da própria Quezia. Era encantadora; dava sempre a impressão de que havia esperado o dia inteiro por uma visita e que não havia nada tão importante quanto isso. O que aconteceu?, perguntou. Está muito corada! Aconteceu, disse Maria, entrando. O quê? Quezia... Fui pedida em casamento. A bela carinha de Quezia ficou perplexa. Quem? Chama-se Joel, disse Maria. Trabalha com meu pai. Oh, não! Quezia pôs a mão sobre a boca. Nós sempre dissemos... Que não nos conformaríamos com isso, disse Maria. Eu sei. E os nossos homens imaginários eram fabulosos. O seu diplomata rico, de Jerusalém, e o meu soldado... A sua voz sumiu. Mas também sabíamos que isso não era o mundo real. Sabíamos que não iria acontecer.
Claro. E Quezia acenou com a cabeça, devagar. Foi sempre de mentirinha. Sorriu e pôs o braço em torno dos ombros de Maria, levando-a para dentro de casa. Agora terá de me contar sobre esse homem de verdade. Maria queria não ter vindo. As fantasias de ambas poderiam ter durado um pouco mais, se não tivesse vindo. Mas que diferença tinha um dia? Porque se não tivesse vindo hoje para contar a Quezia, viria amanhã. Não se guardam de uma amiga segredos como um pedido de casamento. Ao chegar ao vestíbulo de entrada da casa de Quezia, Maria já se sentia tão familiar quanto na sua própria casa. Dirigiram-se ao velho quarto, de que ela tanto gostava, agora mobiliado de acordo com gostos adultos. Quezia jogou-se numa banqueta enquanto, apontando para uma jarra numa bandeja, perguntava, gentilmente: quer suco de tamarindo? Maria disse que não. Quezia inclinou-se para a frente, com os olhos brilhando. E aí? Conte-me, conte-me! Bom, este rapaz, Joel, é de Naim...» In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
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domingo, 3 de novembro de 2019

A Verdadeira História. Margaret George. «O rosto de Simão iluminou-se com um sorriso enorme. Você é um homem abençoado! Os meus parabéns! Piscou o olho, brincando: quer dizer que é você que eu terei de procurar no futuro?»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Na realidade, parecia bastante contente e a sua atitude mudou de desconfiança para alegria, à medida que continuavam a caminhada à beira do lago. Vários barcos de pesca dirigiam-se para um pequeno cais de águas quentes, que era chamado de Sete Fontes. Os pescadores das cidades de Cafarnaum e Betsaida gostavam dali, pois a água quente atraía certos tipos de peixe; devido a isso, o cais ficava repleto de pequenos barcos, todos querendo descarregar o peixe ao mesmo tempo. O cais estava alvoraçado, numa atmosfera de alegria. Os pescadores são pessoas interessantes, disse Joel. Têm características tão contraditórias, uma reputação de devoção, embora lidem com coisas bem materiais. Trabalham de noite, remendam as redes... As suas vidas são exactamente o contrário da vida dos escribas religiosos. Talvez por isso é que a sua religiosidade seja suspeita, disse Maria, pelo menos para os rabinos de Jerusalém. Afinal, como poderia um pescador manter a sua pureza ritual? Tem de lidar com peixe sujo todos os dias, quando descarrega as redes. Entretanto, num caso de necessidade, você preferiria poder contar com um pescador ou com um escriba de Jerusalém? Joel ria. Veja o caso de Zebedeu, acenou para um homem forte, de rosto vermelho, que acenou de volta, embora provavelmente nem tivesse reconhecido Joel àquela distância. Sozinho no barco, ainda assim trouxe uma boa pescaria no meio de um temporal. Tem vários barcos, um autêntico empreendimento. Seus filhos trabalham com ele e também contratou pescadores. Aproximaram-se do cais, onde reinava a confusão com a chegada do peixe.
Atenção!, berrou uma voz forte. Fique longe dessa cesta! Passavam ao lado de uma cesta enorme, de onde escorria uma água suja. Os peixes faziam a cesta tremer. Desculpe, Simão, disse Joel, dando um passo para trás. Trabalhei três horas para separar esse peixe, disse Simão, um gigante que estava de pé, junto à cesta, de braços cruzados. Parecia ameaçador. Depois deu uma gargalhada. Eu seria o último a prejudicar o seu trabalho, disse Joel. Por um instante, hesitou. Maria sentia que estava pensando. Simão, você conhece os filhos de Natã, Samuel e Eli. Esta é a irmã deles, Maria. Simão olhou-a atentamente. Tinha olhos enormes, que pareciam perfurá-la. Sim, já a vi no armazém. Acenou com a cabeça, energicamente. Maria concordou em ser minha mulher, disse Joel. E olhou para ela, orgulhoso.
O rosto de Simão iluminou-se com um sorriso enorme. Você é um homem abençoado! Os meus parabéns! Piscou o olho, brincando: quer dizer que é você que eu terei de procurar no futuro? Joel ficou sem jeito. Não, claro que não. Quem continua mandando é Natã. Ele não é velho. Isso é o que meu pai diz dele mesmo, disse Simão. Mas o André e eu percebemos que ele está querendo passar o trabalho pesado para nós. Apontou com o dedo outro rapaz, sozinho, no cais. Tinha cabelo encaracolado, escuro, mas não se parecia em nada com a exuberância de seu irmão. Era mais magro e mais baixo. E desde que casei, continuou Simão, sinto-me cada vez mais respeitável. Você casou?, disse Joel. Não sabia. Então você também merece parabéns. Simão sorriu. É, levou algum tempo para me acostumar. Agora, tenho uma sogra, o que é bastante diferente de uma mãe, é bom que lhe diga. Coçou a cabeça. Certa vez, uma pessoa disse-me: se você quiser saber como vai ser uma moça em 20 anos, olhe para a mãe dela. Bom, não é verdade. Ou, se for, Deus que me ajude! Aproximava-se o barco de Zebedeu, seguido por outro, com dois rapazes, um de rosto largo e cabelo claro e o outro mais magro, alourado. Ei, você aí!, gritou Zebedeu para ninguém especificamente. Jogue a corda! Um garoto meio assustado, que estava no cais, apressou-se em obedecer. Atrás de Zebedeu, o outro barco atracou. Antes que desembarcassem e pudessem começar uma conversa, Joel olhou para o céu. Já passa de meio-dia, disse. É hora de voltar. Acenou para os pescadores e dirigiu-se à cidade.
Maria também queria voltar para casa. Queria ficar sozinha e meditar sobre o que se passara. Tinha concordado em casar com aquele homem. Tinham discutido o assunto, e concordado. Parecia tão estranho, tão irreal. Queria ficar a sós e reflectir. Mas sentia-se bem, caminhando ao lado dele, ouvindo as suas opiniões sobre os pescadores e os seus desejos de viajar e de ajudar as pessoas. Eram coisas agradáveis, que a reconfortavam. Deve ser a coisa certa, pensou. Tem de ser. Cresceremos juntos, ao longo dos anos, pois já parecemos pensar da mesma maneira sobre o que queremos». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
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A Verdadeira História. Margaret George. «… quando você vier a compreender, serei eu que estarei no círculo de sua escolha. Por ora, basta-me que você tenha dito que sim. Sou um homem de sorte»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) E Jacob amava Raquel. Porquê? Havia acabado de a conhecer. Ela só tinha dado água às suas ovelhas. Isso foi há muito tempo e não passa de uma lenda. Teria de se esforçar um pouco mais. E por amor a Raquel, serviu Jacob sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava. É uma história verdadeira, Maria. Acontece o tempo todo. Aconteceu comigo. Fez uma pausa, encabulado, tentando recuperar a dignidade. Trabalho no armazém há quase três anos! Quase a metade do tempo que Jacob serviu a Raquel. Agora era a vez de ela ficar encabulada. Espero que não tenha sido por isso que trabalha lá. Não, me senti atraído pelo ofício. Gosto da ideia de alimentar as pessoas, trabalhar com uma coisa que é necessária, assim como ter a oportunidade de viajar e conhecer novos fregueses. O mundo é muito grande, Maria. Grande demais para me contentar em nunca sair da Galileia, por mais bonita que seja esta terra. Ele desejava conhecer o mundo, aventurar-se além dos limites do negócio do peixe. Já saíra de Naim e escolhera um ofício que não era o de seu pai. Também era assim que ela se sentia, atraída por alguma coisa bem distante. Eles eram iguais: inquietos, procurando espíritos. Compreendo. Agora, teria de dar a sua resposta. Sinto-me honrada com o facto de ter pensado em mim como Raquel. E, como Raquel, consinto em me casar com você. Mas não confio nesse tipo de decisões que você descreveu. Ah, Maria, então eu espero..., que um dia..., quando você vier a compreender, serei eu que estarei no círculo de sua escolha. Por ora, basta-me que você tenha dito que sim. Sou um homem de sorte.
Ela não o considerava um homem de sorte, e sim iludido. E se ele soubesse de um dos motivos pelos quais ela se dispusera a sair da casa dos pais, não ficaria contente. Mas sentia-se aliviada. Tudo iria dar certo. As dores de cabeça, as insónias, as confusões iriam sumir, podia senti-lo aqui mesmo, na luz do dia. Ficaria livre de tudo aquilo. Joel a levaria embora da casa que a assombrava. Ao invés de se sentirem menos encabulados, as palavras solenes que haviam acabado de pronunciar faziam que se sentissem, agora, ainda menos à vontade um com o outro. Mas continuaram caminhando, resolutos, tentando parecer tranquilos. O sol brilhante fora encoberto pela passagem de umas nuvens, o que fazia o lago parecer um mosaico de cores distintas. Um vento suave fazia balançarem os juncos e as urtigas que cresciam junto ao caminho. Uma pedra de culto!, disse Joel, de repente, apontando para um objecto preto, arredondado, quase escondido atrás de uns arbustos. Tinha um buraco na parte de cima e parecia uma âncora de pedra, mas maior. Olhe! Nunca vi um num lugar como este! Aproximou-se, com cuidado, como se esperasse que o objecto se movesse. O que quer dizer com isso? Não é uma âncora velha? Maria já vira coisas parecidas, mas não se lembrava onde. Não dera muita atenção. Não. Joel abaixou-se, afastando o mato que crescera à sua volta. Realmente parece, mas está vendo como é grande? É uma relíquia dos cananeus. Um dos seus deuses. Ou então, uma oferenda aos deuses. Talvez ao deus do mar, que imaginavam que morasse aqui no lago. A terra está cheia de ídolos, disse Maria, sem perceber. Debaixo do chão, à beira de um caminho...
É bom que ainda existam, aqui e ali, disse Joel. Para nos lembrar de que poderão voltar um dia. Não temos certeza de nada. Maria sentiu um arrepio de frio, mas conseguiu ocultá-lo. É verdade, concordou. Não temos certeza de nada. De repente, uma rajada de vento arrancou a mantilha da cabeça de Maria e, instintivamente, ela cruzou os braços. Ao fazê-lo, Joel viu os arranhões que ela tentava encobrir. O que é isso?, perguntou, olhando para eles. Não é nada..., estava pegando um pouco de lenha, perto da praia, e... E aí? Você lutou com a lenha? Joel sorriu. Nunca se deve catar lenha sem uma protecção nos braços. E deixou o assunto para lá». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
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domingo, 13 de outubro de 2019

A Caminho de Jerusalém. Jan Guillou. «Vamos andar devagar, na direcção das brincadeiras, para não ficarmos aqui quietos, como se déssemos a entender que estamos zangados um com o outro. Eu vou explicar tudo…»

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As Cruzadas
«(…) Tal como havia previsto, ele parou de repente e olhou primeiro para o rosto dela, inquiridor, procurando por aquele sorriso que ela exibia ao falar brincando, à sua maneira toda especial. Mas ele entendeu logo que ela falava sério e, então, a raiva se apossou dele com tal intensidade que por pouco não lhe deu uma bofetada, que seria a primeira, se eles não estivessem entre amigos e inimigos e todo aquele povão. Você está fora de si, mulher! Se não fosse pelo facto de ter herdado Varnhem, ainda hoje estaria apodrecendo no mosteiro. E foi por causa de Varnhem que nos casámos. Foi no último momento que ele se conteve e acabou falando baixo, mas entre dentes, os lábios fortemente contraídos. Sim, isso é verdade, meu querido marido, respondeu ela, com o olhar virtuosamente baixo. Se eu não tivesse herdado Varnhem, os seus pais teriam escolhido outra pretendente. Nesse caso, é verdade, eu seria agora uma freira, mas é verdade também que nem Eskil nem essa nova vida que carrego abaixo do meu coração existiriam se não fosse por Varnhem. Magnus não respondeu. Parecia estar pensando na escolha das palavras certas para expressar a sua raiva. E, nesse momento, chegou Sot, trazendo pela mão Eskil, que imediatamente correu na frente e pegou a mão da sua mãe e começou a falar rápido e alto de tudo o que tinha visto lá dentro na catedral. Depois de ter sido obrigado a ficar calado e quieto por tanto tempo, ele falava agora como se as palavras jorrassem como a água de uma represa quando é aberta na Primavera, impossível de conter. Magnus pegou o seu filho nos braços, acariciou os seus cabelos com amor, ao mesmo tempo que encarava a esposa com hostilidade. Mas, de repente, ele largou o menino no chão e ordenou a Sot, quase que de maneira desagradável, que levasse Eskil para ver as brincadeiras e que logo em seguida se veriam de novo. Sot, surpresa, pegou o menino pela mão e puxou-o para longe, enquanto este, contrariado, choramingava e resistia. Mas, como você sabe, meu caro marido, continuou Sigrid, rápido, para que fosse ela a conduzir a conversa e não deixando que ele prosseguisse, encolerizado, antes voltasse ao bom senso e à calma. Sempre desejei receber Varnhem de presente de casamento, embora tenha sido eu que herdei a propriedade, e que consegui que a herança ficasse registada com o sigilo real, e ainda que, para mim, bastem o manto que trago sobre os meus ombros agora e apenas um pouco de ouro para me enfeitar. É, isso também é verdade, respondeu Magnus, ainda mal- humorado. Mas, ao mesmo tempo, Varnhem representa um terço do nosso património em comum, um terço que agora você acaba de tirar de Eskil. O que não consigo entender é como você foi capaz de fazer uma coisa dessas, mesmo que tivesse direito a fazê-lo.
Vamos andar devagar, na direcção das brincadeiras, para não ficarmos aqui quietos, como se déssemos a entender que estamos zangados um com o outro. Eu vou explicar tudo, disse ela, oferecendo o braço para ele. Magnus olhou em volta preocupado, reconheceu que ela tinha razão, sorriu com esforço e pegou-a pelo braço. Bem, disse ela, hesitante, após uns segundos. Vamos começar pelas coisas terrenas, as que mais enchem a sua cabeça neste momento. Evidentemente, vou levar para Arnäs todos os animais e os servos. Varnhem tem, sem dúvida, as melhores construções, mas Arnäs, por isso mesmo, vai possibilitar que a gente construa a partir do terreno, especialmente agora, quando vamos receber tantas mãos para trabalhar mais. Dessa maneira, vamos ter um lugar melhor para morar, em especial durante o Inverno. Mais animais significam mais barricas de carne salgada e mais peles, que agora já podemos mandar para Lõdõse de barco. Você sempre quis muito negociar com Lõdõse, e isso poderá fazer a partir de Arnäs, com muito mais facilidade, tanto no Inverno quanto no Verão. Isso seria mais difícil de fazer a partir de Varnhem. Magnus andava ao seu lado, silencioso e inclinado para a frente, mas ela viu que ele se tinha acalmado e começava a escutar com interesse, e então concluiu que não era mais uma questão de guerra com palavras. Viu tudo bem claro diante de si, como se tivesse levado muito tempo para planear as coisas, quando, na verdade, a ideia toda não tinha mais do que uma hora de vida. Mais peles e mais barricas com carne salgada para Lõdõse significavam mais moedas de prata, e mais moedas de prata significavam mais sementes. Mais sementes significavam que mais servos poderiam conquistar a sua liberdade através da preparação de novos campos para sementeira, de empréstimos em sementes pagas pelo dobro em centeio que, mandadas para Lõdõse, seriam trocadas por mais moedas de prata. E, então, seria possível encomendar as muralhas que Magnus sempre havia pensado em erguer, já que Arnäs era difícil de defender, em especial durante o Inverno, quando o gelo facilitava a passagem. Através da unificação de todos os esforços em Arnäs, em vez de os partilhar por dois lugares, seria possível para eles dois ficarem mais ricos, com todos os terrenos novos compondo uma propriedade maior, edificar um lar mais quente e seguro e deixar para Eskil uma herança maior do que se poderia imaginar antes. Quando chegaram bem na frente da multidão, tiveram que forçar a passagem, é claro, e, sem dar quaisquer sinais, Magnus se manteve silencioso e pensativo. Sot chegou aos pulos, trazendo Eskil nos braços, e levantou-o diante de si para que o povo pudesse ver as roupas dele e que, com ele nos braços, também ela, uma escrava, tinha direito a forçar a passagem, e aí o garoto pulou para o chão e colocou-se em frente da mãe que suavemente colocou as suas mãos nos seus ombros, acariciou a sua face e corrigiu a posição do gorro cheio de penas. Os artistas diante deles estavam vestidos com roupas engraçadas, de cores fortes e com pequenas campainhas penduradas nas pernas e nos punhos, de modo que todos os seus movimentos se misturavam com o som das campainhas». In Jan Guillou, A Caminho de Jerusalém, As Cruzadas, Editora Bertrand Brasil, Grupo Editorial Record, 2002, ISBN 978-852-860-896-0.

Cortesia de EBertrandB/GERecord/JDACT

sábado, 12 de outubro de 2019

A Caminho de Jerusalém. Jan Guillou. «Quando chegou à sua frente, ele fez uma vénia e pediu a ela para pegar o seu manto enquanto ele envolvia o próprio corpo com o seu grande manto azul-celeste…»

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As Cruzadas
«(…) O jovem refreou o seu cavalo bem junto dela e falou com ela, e ela ouviu todas as palavras, entendeu tudo, mas ao mesmo tempo não entendeu nada. Mas Sigrid sabia que o que ele disse significava que ela teria de dar a Deus um presente, que, no momento, era a atitude mais necessária, neste condado, onde o rei Sverker reinava, isto é, dar um bom lugar para os monges de Lurõ. Mais tarde, ela observou bem os monges, à medida que saíam lentamente, após a sua longa apresentação. Não pareciam nem um pouco perturbados pelo milagre que tinham acabado de provocar. Parecia mais como se eles tivessem terminado um turno de trabalho, de quebrar pedra, um entre tantos outros turnos na Götaland Ocidental, como se eles, agora, estivessem pensando mais na ceia do que em qualquer outra coisa. Tinham conversado por um momento, coçado por um momento as manchas vermelhas que muitos deles exibiam nas carecas grosseiramente raspadas. Em muitos a pele era enrugada no rosto e no pescoço. Para eles, as coisas não eram muito fáceis em Lurõ, qualquer um podia ver isso, e o Inverno, certamente, não lhes fora muito benigno. Portanto, a vontade de Deus não era difícil de entender, aqueles que conseguiam cantar milagres precisavam receber um lugar melhor para viver e para trabalhar. E Varnhem era um lugar muito bom. Quando saiu pela escada da catedral, a sua mente clareou por efeito do vento fresco que soprava, e ela entendeu, num golpe repentino de inspiração, quase como se estivesse ainda possuída pelo Espírito Santo, o que e como devia dizer para o marido que vinha na sua direcção naquela confusão toda, com os mantos no braço. Ela examinou-o, com um sorriso meio discreto, mas totalmente seguro. Ela mantinha essa relação porque ele era um marido tranquilo e um pai extremoso, embora não fosse o tipo de homem para ser venerado ou admirado. Era difícil acreditar que ele, de facto, fosse neto de um homem totalmente diferente, o fortíssimo Folke, o Gordo. Magnus era um homem magro e, se não fossem as roupas estrangeiras que no momento ele vestia, as pessoas poderiam dizer que se tratava de um qualquer no meio da multidão.
Quando chegou à sua frente, ele fez uma vénia e pediu a ela para pegar o seu manto enquanto ele envolvia o próprio corpo com o seu grande manto azul-celeste, forrado com pele de marta, prendendo-o ao pescoço com uma fivela norueguesa de prata. Depois, ajudou-a, ensaiando uma carícia com suas mãos delicadas, que não eram as mãos de um guerreiro, e perguntou como é que tinha podido aguentar por tanto tempo as louvações ao Senhor no seu bem-aventurado estado. Ela respondeu que não tinha passado por nenhuma dificuldade, já que, em parte, tinha trazido Sot para ampará-la e, por outro lado, o Espírito Santo dignou-se aparecer para ela. Disse isso de uma maneira que costumava usar quando dava a entender que não falava a sério. Ele sorriu da sua esposa, acreditando que se tratava de mais uma das habituais brincadeiras, e procurou em seguida pelo escudeiro que vinha na sua direcção com a espada trazida da sala de armas. Quando meteu a espada por baixo do manto e começou a colocá-la no cinturão, os seus cotovelos ficaram por baixo do manto, o que fez com que o seu corpo parecesse largo e forte, coisa que ele não era. Então, ofereceu à mulher o seu braço e perguntou se ela queria dar uma voltinha pela praça diante deles e ver o espectáculo ou queria ir imediatamente descansar.
Sigrid respondeu logo que gostaria de esticar um pouco as pernas, sem precisar cair de joelhos a toda a hora, e ele sorriu timidamente de mais essa piada atrevida dela e comentou que seria até divertido ver todos esses jogos para os quais o rei os convidou. No centro da praça actuavam acrobatas franceses e um homem que vomitava fogo, tocavam-se flautas e gaitas e, mais além, de uma das grandes barracas de cerveja escutava-se o som surdo de tambores. Os dois avançaram cuidadosamente entre a multidão onde os mais conceituados visitantes da igreja agora se misturavam com o povo e os servos. Depois de um curto momento, ela inspirou profundamente e disse tudo de uma vez, sem desvios: Magnus, meu querido marido, espero que você se possa manter superiormente calmo e digno, ao escutar agora aquilo que acabo de fazer, começou ela e, fazendo nova inspiração, continuou rápido, antes que ele tivesse tempo de responder: Dei a minha palavra ao rei Sverker de que ofereceria de presente aos monges cistercienses de Lurõ a nossa propriedade de Varnhem. Jamais poderei retirar a minha palavra dada ao rei, é irrevogável. Vamos-nos encontrar com ele amanhã no castelo, para que isso seja escrito e ractificado com o sigilo real». In Jan Guillou, A Caminho de Jerusalém, As Cruzadas, Editora Bertrand Brasil, Grupo Editorial Record, 2002, ISBN 978-852-860-896-0.

Cortesia de EBertrandB/GERecord/JDACT

sábado, 21 de setembro de 2019

A Verdadeira História. Margaret George. «De qualquer maneira, é uma história interessante. Naftali é uma gazela solta, disse Joel. Não foi isso que disse Jacob na sua oração quando morria?»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Saíram do prédio escuro e ficaram em frente a um grande casebre, coberto e com pisos de mosaico. Era ali que os barcos de pesca descarregavam o peixe, o que tornava o chão escorregadio. Os peixes, prateados, listrados, coloridos, eram separados em pilhas. À altura do nível da água, havia uma vasilha de pedra onde peixes ainda vivos ficavam por algum tempo. Foram caminhando pelo passeio de pedra que beirava o lago, na direcção norte, para longe de olhares curiosos. Era um caminho largo, muito usado, fazendo uma curva que acompanhava o lago oval. Você não é de uma família do lago, nem de pescadores, disse Maria, finalmente, como se fosse uma pergunta. Não, disse ele, olhando em frente enquanto falava. Minha família mora na Galileia há muitas gerações. Há, inclusive, quem diga que ficamos nessas terras durante todas as guerras. Os assírios alegam ter evacuado toda a população da região. Mas, obviamente, não o fizeram; se o tivessem feito, haveria tantos israelitas quanto assírios na terra deles. Não creio que quisessem repetir a experiência do faraó e ter sua população superada pela nossa! Sua voz era agradável, pensou Maria, e reflectia sobre suas palavras. O seu rosto era simpático e agradável para se olhar. Talvez..., talvez..., eu até venha a amar esta pessoa. Talvez ele seja como eu. Também há uma lenda sobre isso na minha família, disse Maria. Que pertencemos, ou pertencíamos, pois supõe-se que já tenham desaparecido, à tribo de Naftali, desta região. Logo ali, na curva, é onde fica a antiga cidade deles. De qualquer maneira, é uma história interessante. Naftali é uma gazela solta, disse Joel. Não foi isso que disse Jacob na sua oração quando morria?
Maria riu. É, e ninguém compreendeu o que ele quis dizer! Jacob também disse que trazia palavras bondosas. Joel diminuiu a passada. Espero pelas suas palavras, Maria. E espero que sejam bondosas para nós dois. Deixe o seu coração falar. Era tão directo! Será que não podiam caminhar um pouco mais, conversar um pouco mais? E como se podia ter essa conversa de uma maneira natural? Ajustou o lenço de sua cabeça, para ganhar tempo. Eu... Eu disse a meu pai que..., que aceitaria a sua oferta de se juntar à nossa família. Não foi exactamente isso que ofereci, disse ele. Você não pode dizer as palavras concretamente?
Não, não podia. As palavras não saíam de sua garganta. Palavras como casar, esposa e casamento estavam para além da sua força. Balançou a cabeça. Então, se você não consegue pronunciá-las, você não deve assumi-las. Parecia frustrado, mas resignado. Você também não pronunciou as palavras. Como ela, também ele as evitara. Pareceu desconcertado. Mas para seu pai, eu... Mas, para mim, tudo que você disse foi espero por suas palavras. Palavras sobre o quê? Ele sorriu. Você tem razão. Mas você não vai escapar, pois não tenho medo de dizer: quero que seja minha mulher. Quero ser seu marido e quero que sejamos uma família. Pronto. Falei. Um bando de crianças barulhentas surgira na curva do lago, correndo atrás uns dos outros e gritando. Por quê?, foi tudo que Maria conseguiu dizer. Porque, desde criança, sabia que não queria ser agricultor, como meu pai. Queria procurar o meu ofício, ter minha casa e minha família. Quando vi você, tive a certeza de que era a pessoa com quem queria partilhar a minha vida. Mas porquê? Ele praticamente nunca falara com ela. Como podia ter a certeza?» In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT