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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «Nós, primeiros monges de Cister, fundadores desta comunidade (o termo latino é ecclesia, por recuperação do sentido bíblico do mesmo…»

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«(…) O carácter documental e factual do texto tornava-o operativo para utilizações sucessivas: é o que acontece com o chamado Exordium Magnum, de Conrado Eberbach, no qual se podem reconhecer tendências polémicas. A análise do texto tem levado a identificar duas partes no documento:
a) I-XV, a fundação de Cister, que pode, por sua vez, repartir-se em I-IV; V-XIV (este, divisível ainda em V-VIII e IX-XIV);
b) XV-XVIII, o modo de vida. Elementos narrativos alternam com elementos documentais. A recolha destes torna manifesta uma intenção: afirmar a legitimidade jurídica e administrativa das acções empreendidas pelos fundadores de Cister. Reconhece-se, por outra parte, um esquema similar na base da organização dos elementos reunidos: pedido apresentado por um grupo de monges a uma autoridade eclesiástica; aceitação do pedido e emissão de um documento; aplicação prática; comentário sobre o carácter canónico dos dados referidos; integração eventual de documentos. Tal esquema favorece a hipótese de se considerar que os elementos não foram reunidos por aluvião, mas se subordinam a um plano. Na segunda parte, em que se descreve a vida dos inícios, juntamente com os elementos narrativos, algo dramatizados, há a sublinhar as reflexões de carácter sapiencial e teológico, onde um novo esquema se torna perceptível: explicitação dos critérios de referência presentes na reforma (a Regra de S. Bento é o dado mais em evidência), indicação das normas práticas. Resultado possivelmente de várias intervenções que se prolongam no tempo, reflecte preocupações e alegrias de uma comunidade monástica na pujança de vida.

Notícia da Fundação de Cister
Nós, primeiros monges de Cister, fundadores desta comunidade (o termo latino é ecclesia, por recuperação do sentido bíblico do mesmo; não é sem interesse reconhecer tal regresso à linguagem bíblica quando sabemos os esforços de Estêvão Harding por melhorar o texto bíblico corrente e eram patentes nas reformas monásticas do tempo as referências à comunidade primitiva de Jerusalém, considerada como ecclesia. Preferimos, à semelhança de outros, traduzir por comunidade que escapa à conotação hierarquizada e vinca o valor de congregação, termo, no entanto, que pelos usos tomados noutros contextos, também não serviria o valor de base, que é o de afirmar a vida apostólica na sua pureza de convocação eclesial), com o presente documento, notificamos quantos vierem depois de nós, dando-lhes a conhecer o carácter estritamente canónico da fundação e o apoio de autoridade que lhe foi concedido bem como o tempo e as pessoas graças às quais o nosso mosteiro e a forma de vida que aí levamos tiveram os seus inícios. Possam eles, assim, através do conhecimento autêntico destes factos, apreciar com maior solidez e perseverança tanto este lugar como a observância da Regra que nós, por mínimos que sejamos, e por graça de Deus, aí introduzimos. E assim rezai por nós que suportámos o peso de toda a jornada e do calor sem desfalece e, por vosso lado, até ao último suspiro, e ao longo do caminho estreito e escarpados que a Regra mostra, esforçai-vos por poderdes firmar-vos auspiciosamente no repouso eterno, uma vez deposto o fardo da carne». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «… plausivelmente atribuíveis a reformulações tardias, com a particularidade de relativamente ao último elemento se remeter para momento em que as abadias eram doze»

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«(…) Estaria em concordância com a data indicada a referência ao comportamento negativo do papa Pascoal II que se deixou cair nas mãos do imperador germânico a ponto de lhe conceder (por extorsão no cárcere) o privilégio das investiduras (pecado de funestas consequências e que os cistercienses procuraram combater juntamente com o episcopado francês e com a intelectualidade mais empenhada do tempo). No entanto, o teor da referência é, demasiado genérico, pelo que parece serem de postular alguns anos de intervalo, quando a própria actuação pontifícia assume a questão de forma mais radical. Esta situação pode ver-se reflectida na personalidade do papa Calisto II, com a vantagem de ela aparecer como referência explicitadora de outros elementos. De facto, enquanto bispo de Vienne, ele fora um dos mais virulentos opositores da actuação de Pascoal II. Por outra parte, é a ele que os fundadores, motivados certamente pela familiaridade mantida nas negociações para a fundação da abadia de Bonnevaux (entre 1117 e 1119), recorrem a fim de obterem a confirmação dos seus actos, dos Capítulos e Constituições, ou, noutra formulação, de alguns capítulos relativos à observância da Regra de S. Bento e a algumas outras aplicações ditadas pela natureza da Ordem e da fundação. A aprovação teve lugar a 23 de Dezembro de 1119.
Fosse para apoiar as suas pretensões, declarando que desde sempre os fundadores se tinham pautado por formas canónicas e em harmonia com as autoridades (pelo que se lembravam os actos do arcebispo de Lião, legado pontifício, e as aprovações do papa Pascoal II), fosse para enquadrar o acto pontifício que lhes chegava, o Exordium traçava as linhas da evolução da nova observância. Não servia menos para celebrar com regozijo a expansão da nova Ordem, colocando como demonstração da benevolência divina e aprovação das opções tomadas a entrada maciça de novos monges, que permitiam a difusão para longe das fronteiras primitivas. Aos que iam tomando as responsabilidades noutros lugares não era certamente molesto lembrar o percurso que fora feito e a necessidade de manter a coesão, a unanimidade, pois todos a queriam preservar nesses anos de fervor.
O artifício do discurso em primeira pessoa que encontramos no início do documento pode dever-se a uma transposição literária que o próprio abade do momento, Estêvão Harding, depois de ter visto partir Roberto (forçado a regressar a Molesme, no ano imediato ao da fixação em Cister) e de ter assistido à morte de Alberico, dificilmente reivindicaria para si em exclusivo. Mas, se alguém o endossava a todos, a comunidade inteira participava da rememoração. É provável, no entanto, que a forma actual do Exordium Paruum seja resultado de intervenções posteriores, onde se reflectem tensões que se tornam mais evidentes entre 1130 e 1150 entre cistercienses e clunicenses. Nessas condições, um Exórdio Primitivo que acompanharia os documentos apresentados ao papa e bem assim, posteriormente, a bula de aprovação, teria sofrido remodelações, mas elas são difíceis de determinar. Poderá imaginar-se também que a celebração dos primeiros capítulos gerais, em que tomavam assento os abades da primeira geração (todos eles saídos de Cister, mas com pouco tempo de permanência na casa-mãe, pois, pouco mais de um ano após a entrada e uma vez realizado o ano de provação haviam partido), tenha sido ocasião para constituir uma primeira redacção dos factos primitivos.
O carácter elaborado desse início do EP, com estrutura de epitáfio (em que se nota a identificação de um sujeito de relação, a mensagem de base, o apelo à rememoração do leitor) bem como a forma de organização, de todo o texto obrigam a atribuir-lhe, mais que uma data, uma intenção. É evidente um propósito didascálico e revalorizativo desses inícios, com afirmações tão características como o de acentuar a legitimidade canónica da fundação e a creditação do género de vida através de normas bem definidas. O final do documento, ao assinalar, por outro lado, o acontecimento da entrada de Bernardo e dos seus familiares, deixa em aberto a suspeita de alguma tentativa de valorização intensiva de um momento privilegiado, se é que não também alguma tensão momentânea entre duas gerações (representadas emblematicamente por Estêvão e Bernardo), tensão essa superada no reconhecimento das diferenças e na alegria de viver num mesmo projecto de perfeição.
Por outro lado, não é de excluir que a redacção tenha sido objecto de amplificações ou refundições e acrescentos motivados por circunstâncias várias, mormente as tensões entre monges negros (Cluni) e monges brancos (Cister), em tempos em que Molesme decaía do seu fervor primitivo e se tornava necessário reafirmar a pureza de intenções dos fundadores, em tom mais ou menos polémico, o que nos levaria para uma data entre 1140 e 1150 e permitiria explicar alguns dados, como a ruptura com o duque e a proibição de utilizações do mosteiro por parte dele ou a referência à confirmação da Carta Caritatis, dados esses mais plausivelmente atribuíveis a reformulações tardias, com a particularidade de relativamente ao último elemento se remeter para momento em que as abadias eram doze». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «A repristinação dos acontecimentos tem certamente uma intenção. Várias propostas têm sido aventadas para explicar essa primeira memória e a verosimilhança joga com a carga de significação atribuída aos dados do texto»

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«(…) A sensibilização para a integralidade do projecto cisterciense animará porventura alguns a indagar das suas razões, não apenas em atitude intelectiva de análise de fontes, mas em experiência de vida, quando descobrirem que a vida monástica é, a vida cristã que rompe todos os vínculos (...) que a impedem de ser integral. A leitura dos primitivos cistercienses impõe-se a todos quantos queiram reavaliar o sentido da preservação de uma memória que não se contente com um vago sentimento de nostalgia ou preservação de monumentos. É impossível ficar indiferente à experiência cisterciense, pois ela marcou a Europa ao longo de séculos e sobretudo nos alvores de um período particularmente fecundo da gestação do mundo ocidental em que vivemos. Os monges de Cister traçaram caminhos que são itinerários, deixaram edifícios que são monumentos, arrotearam terras que são definitivamente espaços humanos. As suas vozes são reconhecíveis no silêncio dos seus livros e dos seus documentos. Não basta recordá-los, é necessário ir-lhes ao encontro. Como escreveu Dom Maur Cocheril, monge cisterciense que longamente percorreu os caminhos portugueses dos seus irmãos de outros tempos:

Quando os monges, durante séculos e séculos,
impressionaram com a sua marca uma terra,
ainda que não ficasse da moradia dos monges
senão uma pedra que se desagrega,
senão um grão de areia que se esboroa,
a pedra, a areia falam dos monges.
Mesmo que a pedra e o grão de areia
por seu turno desaparecessem,
a terra, a velha e nobre terra,
a terra sobre a qual os monges se debruçavam,
o vale em que rezavam,
as árvores que plantaram
continuariam a falar deles.
Porque, durante séculos e séculos,
os monges impressionaram com a sua marca uma terra.

A tradução dos primitivos documentos cistercienses que aqui oferecemos deseja servir de apoio para a descoberta dessas marcas. In Aires A. Nascimento

Os inícios da Ordem Cisterciense: exordium paruum
A memória de Cister cedo procurou constituir testemunho dos acontecimentos em forma narrativa. Não há, porém, indicação explícita e directa de quem o faz e quando isso acontece ou quais as razões que estão subjacentes a um acto de memória apresentado como tal. Reconhece-se facilmente que isso dá lugar a uma encenação em que os fundadores de Cister tomam sobre si a responsabilidade de uma narrativa em que já são notórios desenvolvimentos que ocorreram ao longo de uns vinte anos, desenvolvimentos esses que não estavam de forma alguma contidos no primeiro plano ou propósito de reforma monástica que Roberto e seus companheiros pretendiam levar a cabo. A repristinação dos acontecimentos tem certamente uma intenção. Várias propostas têm sido aventadas para explicar essa primeira memória e a verosimilhança joga com a carga de significação atribuída aos dados do texto.
Um cenário possível para a sua elaboração é o da entrada de um contingente significativo de monges em torno de 1132, que desencadeia ou apressa (caso se aceite a hipótese de Estêvão Harding ter concebido antes tal projecto para obviar a dificuldades económicas da primitiva comunidade) a fundação de novas abadias. Qualquer dos dois factores, em si, e sem que a conjugação deles se revele essencial, pode ter gerado a necessidade de dar testemunho dos primitivos anos de implantação da nova observância monástica (tão nova se pretendia que o próprio mosteiro tinha sido designado por novo, Nouum Monasterium, e só posteriormente o nome alterna com o topónimo Cistelium, convertido do nome comum deduzido das características físicas do local, talvez por sobreposição de nova interpretação de um antigo nome derivado da existência de um marco miliário, cis-tertium). Dirigido a um novo grupo, que representava uma nova geração e se assumia com uma dinâmica que se vê retratada em Bernardo, monge saído da fidalguia borguinhona e que tem no terreno apoios que lhe permitem lançar Claraval e ganhar liderança, pode representar a reacção dos mais antigos que desejam afirmar as razões da sua iniciativa primeira e dar conta da sensatez das opções tomadas ao longo das primeiras duas décadas, ao mesmo tempo que se revêem na juventude que agora aparece disposta a assumir as responsabilidades de continuadores. Porém, o confronto que o texto revela entre esses dois grupos é por demais pacífico para exigir que lhes reconheçamos uma interpenetração de perspectivas e para pressupor a veneração dos primeiros tempos de uma história comum em nome dos fundadores». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «É certo que poderíamos ter recorrido às traduções medievais do Fundo Alcobacense. No entanto, haverá que confessar que, por mais venerandas que elas sejam…»

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«(…) As normas foram sendo estabelecidas nos documentos comuns saídos dos capítulos gerais e o próprio texto fundamental da Carta de caridade, aprovado em 1119 pelo papa Calisto II, sofre as consequências de reelaborações sucessivas, sendo as estratificações reconhecíveis, mas nem sempre determináveis por documentação. Ficam também pouco evidentes os acontecimentos que lhes possam estar na origem ou os responsáveis que redigiram os textos cujas redacções se foram sucedendo. A memória entremeia neles com as reflexões ou as mensagens que se desejam transmitir num momento determinado, sem que seja fácil recuperar as tensões reais ou desmontar os mecanismos mais significativos. No entanto, as diversas redacções têm de ser assumidas como reflexo de ambientes que, em repristinações do passado, vão lançando modelos que são tentativas de aperfeiçoamento. Esses textos primitivos constituem as referências cistercienses mais específicas. A sua história é confusa e complexa, até porque os testemunhos foram sendo substituídos à medida que novas situações levaram a reformulação textual. Há a reconhecer, aliás, que, tratando-se de textos em formação eram também instrumentos de formação, cujo conhecimento devia ser posto ao alcance dos noviços que se preparavam para entrar nas comunidades cistercienses, ficando, pois, a sua transmissão sujeita aos mecanismos da leitura feita pelo mestre do noviciado. De qualquer modo, quando Bernardo Fontaine dá entrada no mosteiro de Cister, não muito longe do seu lugar de nascimento, as decisões de base estavam já tomadas; mesmo que nesses documentos primitivos se possam detectar elementos que se identificam com passos das suas obras, as suas intervenções, directas ou por entreposto leitor dos seus textos, terão sido pontuais e fica-nos sobretudo a expressão comunitária de um grupo marcado desde a origem pela busca da unanimidade. Não é nosso propósito dirimir aqui problemas de acumulações ou de reformulação nem tão pouco indagar a autoria de cada intervenção ou mesmo identificar qualquer ramo de tradição mais autónomo. Apenas nos move apresentar uma tradução, fiel e fundamentada, desses textos, na forma mais aceite pela tradição cisterciense, a fim de que possa ser reconhecida.
É certo que poderíamos ter recorrido às traduções medievais do Fundo Alcobacense. No entanto, haverá que confessar que, por mais venerandas que elas sejam, a distância a que colocaríamos qualquer leitor não andaria muito longe da que supõe o próprio texto latino. De qualquer modo, porque a própria história do texto interessa para reconhecer os momentos originais da vivência cisterciense, na introdução a cada um dos textos, tentar-se-á apontar a problemática de base, sem presumir de qualquer solução, pois ela está longe de ser pacífica ou líquida. Na bibliografia de referência poderá encontrar-se o complemento necessário para aprofundamento das questões que continuam a pender sobre os primeiros tempos da reforma cisterciense. Tenha-se presente, neste aspecto, que a estrutura cisterciense assenta em dois pilares: a) o direito constitucional, formado pelos textos orgânicos que criam e organizam a Ordem de Cister; b) o direito não constitucional, isto é, das regras de âmbito diverso, administrativo, litúrgico, económico, disciplinar, que regem a vida de todas as abadias. E no Capítulo Geral da Ordem, que reúne anualmente todos os Abades, que se estipulam as regras de funcionamento.
Conhecem-se ainda mal as fases de evolução das codificações do século XII, pois a tradição sofre soluções de continuidade que nem sempre é possível colmatar, até porque a substituição levava à eliminação de instrumentos anteriores. De qualquer modo, parece possível resgatar alguns dos elementos mais antigos e perceber o seu valor. A tradição faz remontar aos anos 1120 - 1130 as primeiras tentativas de codificação das orientações fundamentais: para a liturgia, os Ecclesictstica officia; para os conversos, os Usus Conversorum; para a organização da vida monástica, os Instituta, na diversidade de regras, sem sistematização aparente. Na base, ficava a Carta caritatis et unanimitatis como referência fundamental que tudo enformava, mas, mesmo esta, não era texto
imutável. Por outro lado, a comunidade monástica não deixou já nos primeiros tempos de lançar por escrito os primeiros elementos de uma memória colectiva que já é engrandecedora para os primeiros momentos da Ordem; pertence-lhe o Exordium Paruum (assim designado para distingui-lo do Exordiurn Magnum, de maiores dimensões que escreveu mais tarde, entre 1190 – l210, Conrado de Eberbach, monge de Claraval, ainda que não seja inconcussa a relação estabelecida com o Exordium Cistercii». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 23 de outubro de 2016

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «Mas, em contraste com a orgânica monárquica de Cluni, a função do Abade é apoiada e corrigida pelo Capítulo Geral de realização anual»

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«(…) Estrutura feudálica na organização monástica em concordância com a mentalidade do tempo; apoio concedido pelos poderes constituídos, de papas e príncipes (que escolhem as abadias cistercienses para sua sepultura), mas também de bispos e clero secular (pois o mosteiro cisterciense não oferece concorrência quer no temporal quer no espiritual e permite captar apoios na própria rede de relações que estabelece pela Europa inteira, tanto no plano espiritual como no civil); aproveitamento racionalizador dos meios materiais (domínio da natureza, aproveitamento dos recursos hídricos, organização das granjas, exploração e transformação dos produtos, emprego de mão de obra minimamente habilitada e enquadrada, intervenção nos mercados através de entrepostos, investimentos calculados). Enfim, por muito que se multipliquem as explicações, ou justamente porque elas dependem da perspectiva escolhida, não se pode ter em menos conta a sinceridade interior dos monges e a clarividência dos orientadores, individualmente ou em grupo, para responderem a uma autêntica multidão de homens, que não eram os menos válidos do meio de onde procediam. Não bastava, o desejo de fidelidade estrita à Regra de S. Bento, era necessária a clarividência exercida nos momentos oportunos e através das instituições e dos mecanismos de relação oportunamente criados. Mas a clarividência assentava também na planificação de uma estrutura interna, a um tempo funcional e simples, em que se conjugava a organicidade hierárquica com a participação das diversas unidades monásticas na vigilância pela adequação de um projecto de base às situações concretas.
A comunidade cisterciense era composta de pessoas várias, segundo uma escala relativamente larga: monges professos clérigos, não necessariamente com ordens, mas conhecedores das letras e com cultura para assumirem as funções de orientação; monges leigos, que normalmente não sabem ler, ainda que não faltem excepções de relevo (por exemplo, Alano de Lille) e habitualmente se confundem com os conversos, pois entram nessa categoria; noviços, em formação durante um período inicial que não ultrapassa um ano; conversos, leigos particularmente afectos aos serviços braçais, que vivem habitualmente nas granjas e celebram domingos e festas no mosteiro; doentes, por doença passageira ou crónica; domésticos ou familiares, homens e mulheres ligados ao mosteiro e nele trabalham, beneficiando dos seus sufrágios, em vida e em morte. Ao mosteiro acudiam também de forma passageira, outras pessoas, cuja presença é regulamentada: abades de outras comunidades, nomeadamente o abade-pai; hóspedes; peregrinos; assalariados sazonais; autoridades eclesiásticas e seculares. A coordenar toda essa comunidade humana estava o Abade, com os seus auxiliares, o prior e os encarregados das diferentes funções comunitárias.
Mas, em contraste com a orgânica monárquica de Cluni, a função do Abade é apoiada e corrigida pelo Capítulo Geral de realização anual. Semelhante figura aparece em funcionamento quando se multiplicam as fundações cistercienses. Falta-nos saber se tal instância funcionou nos primeiros tempos da vida em Cister como modo de regulação da vida em caridade e unanimidade e se foi a partir dessa experiência que se abrangeu as fundações que foram sendo criadas por solidariedade entre todos ou se foi o alargamento que fez surgir semelhante modo de proceder. O facto é que o Capítulo Geral, juntamente com a Visita anual se converteram em instâncias fundamentais de legislação e controlo da acção cisterciense. A expansão cisterciense faz-se por diferentes modelos: enxameação, caso em que uma comunidade envia um grupo de monges fazer uma fundação num território oferecido por um senhor; substituição, quando o grupo cisterciense toma o lugar de outra comunidade que desaparece; filiação ou agregação, e integração de uma anterior comunidade, que permanece sob a nova obediência; tutela, relativamente aos mosteiros femininos, cuja primeira filiação data de 1125, e cuja assistência fica entregue à vigilância do abade do mosteiro mais próximo. Nestas condições (e a expansão mantém-se até, meados do século XIII, tempo em que o renovamento espiritual e a resposta a necessidades novas são tomados pelas Ordens Mendicantes), a salvaguarda da identidade primitiva só pôde manter-se graças a um espírito previdente e organizador, não obstante os momentos de tensão ou de crise». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Em Convívio com os Clássicos. Pina Martins. Aires A. Nascimento. «… guardava esse exemplar em grande honra e escreveu as razões do apreço que lhe devotava, quando elaborou as memórias da sua biblioteca em Histórias de Livros para a História do Livro»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Quem algum dia teve o privilégio de ser recebido na biblioteca pessoal de José Vitorino Pina Martins, na Rua Marquês da Fronteira, foi possivelmente surpreendido pela revelação de um pequeno livro, de encadernação oitocentista e cor vermelha, guardado em caixa forrada a veludo da mesma cor: nada menos que a edição de Horácio saída em 1501 dos prelos de Aldo Manúcio, adquirida em Paris a um antiquário, André James, grande erudito, especialmente atento às novidades do mercado livreiro e particularmente lúcido em reconhecer e identificar raridades de origem portuguesa. Foi este exemplar dispensado por ele a José Vitorino, a título de favor e amizade, por uma pequena fortuna, de nada menos que 80 000 francos franceses (em moeda antiga, cerca de 2 500 contos, ou sejam 12 500 euros). Trata-se de edição aldina, que se serve do elegante tipo cursivo inventado por Aldo e desenhado por André Grifo; é a segunda obra de autores clássicos em formato de bolso (manual) planeado por Aldo e por ele lançado a público em 1501: depois do seu mítico Virgílio, de Abril, Horácio é de Maio; segue-se Petrarca, em Julho; Juvenal e Pérsio, em Agosto; Marcial, em Dezembro. A edição é considerada uma das dez mais raras das aldinas: recentemente, um antiquário apresentava para venda um exemplar ao preço de 27 374,00 USD (19 000,00 EUR). O exemplar faz parte da Biblioteca Pina Martins, no Centro de História do ex-Banco Espírito Santo, em Lisboa, Praça do Comércio, para onde transitou a Biblioteca reunida pelo seu proprietário, por generosa e lúcida decisão do Presidente do Conselho de Administração do ex-BES, Ricardo Salgado, quando solicitado pelo Presidente da Academia das Ciências de Lisboa a realizar a aquisição daquela Biblioteca para evitar que ela entrasse em deriva de efeitos imprevisíveis quanto à sua conservação.
Pina Martins guardava esse exemplar em grande honra e teve oportunidade de escrever as razões do apreço que lhe devotava, quando elaborou as memórias da sua biblioteca em Histórias de Livros para a História do Livro. O enlevo consagrado a este exemplar do texto de Horácio tê-lo-ia ouvido o visitante da biblioteca da própria voz do seu proprietário, pois com ele costumava iniciar a visita. No livro, ficou uma interpelação que define uma vida; pergunta J. V. Pina Martins: … já algum dia experimentaste, caro leitor, como é diferente ler uma poesia de Horácio, ou de Virgílio, ou de Petrarca, por um livro mal encadernado e por um exemplar de edição raríssima encadernado por um grande artista? (Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2007) A resposta não vem enunciada no livro; compreende-se: há sensações e sentimentos intraduzíveis, para os quais as palavras são supérfluas ou correm o risco de (entre)cortar o enlevo; no modo interrogativo, porém, fica patente que há novidades que apenas cada um pode experimentar e que, relativamente a uma edição modelar, persistem afectos tanto mais profundamente acalentados quanto mais se percebe o significado cultural desse livro, depois de serem escrutinadas as razões das escolhas do editor e serem conhecidos os efeitos decorrentes do seu trabalho (na edição de Juvenal, também em 1501, Aldo explica a seu amigo Cipião Carteromaco: preparámos e agora damos a público as Sátiras de Juvenal e Pérsio num formato deveras pequeno de tal maneira que possa ser mais facilmente tomado na mão e aprendido de cor; para não falar em ser lido, por quem quer que seja; as fontes tipográficas de Aldo para os formatos in 8º haviam sido desenhadas pelos calígrafos Pompónio Leto e Bartolomeu Sanvito e foram moldados por Francesco Griffo, de Bolonha).
Havia afecto profundo àquela edição renascentista, que era uma das mais valiosas do de quantas se perfilavam nas estantes da sua biblioteca: esse afecto exprimia-o Pina Martins em modo de reciprocidade, pois (confidenciava) os grandes autores e as melhores edições procuram aqueles que os amam. Nesse universo cabiam sobretudo as edições aldinas que revisitava com frequência: entre elas o Iamblicus, impresso em 1497 e o In Calumniatorem Platonis, de Bessarion, publicado por Aldo em 1503; perseguira também o Plato de 1513, em que o mesmo editor se dirigia a Leão X e, por entre o louvor das letras (que só a paz permitia assegurar), comparava a novidade da imprensa com a gesta que os Portugueses estavam a realizar nas Índias». In Aires A. Nascimento, Pina Martins Em Convívio com os Clássicos, Comunicação apresentada à Classe de Letras, Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Letras, Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, 21 de Janeiro de 2010.

Cortesia de ACiênciasLisboa/JDACT