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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Elena. Marina Carvalho. «As palavras me fogem. O amor que aperta meu peito parece que quer me sufocar de tão intenso. Ainda não passam de dois pontinhos minúsculos…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Elena

«(…) Ela está recostada na cabeceira da cama, cochilando. A aparência é a mesma: esguia, charmosa, iluminada, embora pareça mais pálida. Meus olhos se enchem de lágrimas ao vê-la. Tento não acordá-la, mas o barulho da porta rangendo ao ser aberta é o suficiente para fazê-la despertar. Elena! A mãe suspira, abrindo os braços, para onde corro sem pensar duas vezes. Ficamos abraçadas por um longo tempo, sem falar nada, apenas sentindo o toque uma da outra. Sempre fui o carinho do pai. No entanto, minha ligação com minha mãe ultrapassa o senso comum. Nem acredito que esteja aqui!, comenta ela, assim que nos afastamos. A mãe analisa as minhas feições com cuidado, sem conseguir esconder a admiração por eu ter-me mantido de pé diante dos perrengues que passei na Nigéria. Enxergo o orgulho nos seus olhos. Fez-me muita falta, bonequinha. O apelido carinhoso que ela me deu há anos não me envergonha. Não mais. Houve uma época em que tentei eliminá-lo a qualquer custo. Ai, mãe. Também estava com saudade. Foi duro ficar esse tempo todo longe de vós. Ela concorda, acariciando meus cabelos. Como está se sentindo? Eu preciso ouvir a resposta dela e testar a sua sinceridade. Estou bem. Estamos, na verdade. Com carinho, a princesa Ana pousa as mãos sobre o ventre. Eu coloco as minhas sobre as dela. Sinto uma energia inexplicável. Inacreditável, não é? Nossa... As palavras me fogem. O amor que aperta meu peito parece que quer me sufocar de tão intenso. Ainda não passam de dois pontinhos minúsculos, mas, mesmo assim, já amo demais esses dois.

Faço que sim com a cabeça. Ela tem razão. Esses lances de vínculo familiar são mesmo meio difíceis de explicar. Eles existem e pronto. Mas preferia não ter que ficar de molho. Foi só a médica mencionar isso para o seu pai levar as palavras dela ao pé da letra, reclama a mãe, de nariz torcido. Por ele, vou passar os próximos meses deitada nesta cama, sendo alimentada a cada três horas, como um recém-nascido. Solto um risinho de solidariedade. Coitada. Não deve ser fácil lidar com as preocupações excessivas do meu pai. E eu sei muito bem como ele costuma agir em relação às mulheres na sua vida, afinal, represento 50 por cento desse grupo. Seu avô também não tem facilitado. E Irina, obviamente. Então aproveite. Porque depois, com o nascimento dos gêmeos, nós não teremos muita folga, não é mesmo? Nós, é? É claro! A mãe sorri e me abraça outra vez. Querida, é impressão minha ou dá para sentir os ossos da sua costela por baixo da jaqueta? Bom..., sabe..., eu não passei uma temporada num resort da Bahia, respondo, e dou de ombros.

Minha mãe franze a testa e deixa que o seu instinto maternal fale por ela. Pelos minutos seguintes, ela deixa bem claro que vai me fazer recuperar cada nutriente perdido durante os últimos meses longe de casa. Nem adianta eu argumentar que não tenho a intenção de devolver ao meu corpo os quilinhos ausentes. Só eu sei como luto contra eles. Infelizmente não nasci fininha como a mãe. Tenho a constituição física mais parecida com a da avó Olívia, ou seja, sou cheia de curvas, algumas sinuosas demais para o meu gosto. Vamos saltar essa parte, mãe, e me conte como andam as coisas por aqui, peço, ansiosa para ter notícias de todos.

Enquanto eu estava na Nigéria, minhas ligações para casa eram tão raras, não apenas pelo trabalho que exigia muito de mim, mas, sobretudo, pela precariedade do serviço de telefonia que atendia o povoado, que eu não conseguia ser colocada a par de tudo o que andava ocorrendo na Krósvia. Então, por causa da minha total falta de informação, a mãe passa horas relatando os últimos acontecimentos. Fico sabendo, por ela, que a grande novidade da família é o casamento de Luce. A cerimónia está marcada para ser realizada no castelo mesmo, daqui a sete dias». In Marina Carvalho, Elena, a filha da princesa, Galera Record, 2015, ISBN 978-850-110-492-2.

Cortesia de GaleriaR/JDACT

JDACT, Marina Carvalho, Literatura,

Elena. Marina Carvalho. «… finalmente meus castanhos e finos cabelos decidiram dar-me uma trégua. Sorrio e deixo a sala sem cerimónia. Preciso desesperadamente ver minha mãe, sentir meus irmãos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Elena

«(…) Olho pela janela do carro. É impossível evitar as comparações: lado a lado com o povoado da Nigéria, Perla é a visão do paraíso na Terra. Quero dizer, ela sempre foi linda, charmosa, agradável. Mas, depois de passar seis meses num lugar que parece ter sido abandonado por Deus, a capital da Krósvia, minha cidade natal, meu lar, parece ser ainda mais incrível. Pena que meu poder de deslumbramento tenha minguado um pouco desde que conheci a outra face da realidade, chocante, miserável, terrível. A vida jamais será a mesma depois de morar por seis meses naquele povoado nigeriano. Viro-me para meu pai e sorrio. É bom estar em casa. Sabe que sua mãe vai exigir que se alimente como se o mundo estivesse prestes a acabar, não é?, comenta meu pai, em tom de brincadeira. Ele nunca resiste a uma piadinha. A mãe diz que o seu Alex é o rei das tiradas de efeito. Rio antes de responder, mas não tenho nenhuma chance, porque ele logo emenda: está muito magra. Dá até para enxergar os ossos da costela. Exagero dele. Sei que emagreci. Tenho plena consciência disso. Na África, não conseguia alimentar-me muito bem. Mas uns quilos a menos não chegaram a fazer grande diferença para mim. Na verdade, estou até gostando. Pelo menos, meu quadril avantajado deu uma reduzida. Reviro os olhos e volto a observar a paisagem. Meu pai dirige pelas ruas de Perla em direcção ao Palácio Sorvinski. Nós temos a nossa casa. Fica na periferia da cidade. Foi construída quando eu ainda era pequena. Meu pai fez o projecto, claro, do jeito que minha mãe sonhava, ou seja, nada de ângulos rectos e de aparência clean. A nossa casa reproduz o estilo colonial das cidades históricas brasileiras, inspirada nas construções de Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina. No entanto, assim que foi diagnosticada a gravidez de risco da mãe, meu avô, o todo-poderoso (e fofo) rei Andrej Markov, insistiu que ela e, consequentemente, todos nós, ficássemos no castelo, onde haveria alguém para cuidar dela 24 horas por dia. Claro que, primeiro, a princesa Ana bateu o pé. Mas acabou vencida por muitas vozes contrárias. Eu, da minha parte, se querem saber, estou achando óptimo. Adoro o palácio, a praia particular, os jardins, as pessoas, a comida de Karenina..., tudo!

Sigo devaneando sobre os bons tempos que passarei com minha família. Porém, minha euforia se desvanece um pouco ao me lembrar de que, como meu período como voluntária na Nigéria ainda não acabou, estou impossibilitada de voltar para a faculdade. Isso significa que logo, logo meu quadril retornará ao tamanho original. Ócio mais a comida de Karenina se encarregarão de cuidar dele. Ao avistar as torres do Palácio Sorvinski, uma emoção familiar invade meu corpo. Prepare-se. Estão esperando com as honras e pompas dispensadas à neta do rei, avisa o pai, com uma expressão divertida. Não me importo nem um pouco de ser paparicada. Então, animada, deixo meu pai envolver meus ombros com o braço e seguimos até a entrada do castelo, sentindo o estômago revirar por antecipação. Nada como a saudade para nos fazer reafirmar nossos sentimentos pelas pessoas que amamos. Mal me vejo dentro dos limites do palácio, e várias vozes e braços queridos me assaltam. Elena! Florzinha, que bom que chegou!, exclama Irina, como sempre no ápice da animação. Ela não é minha avó de verdade nem a considero assim, apesar de ser a esposa do meu avô Andrej e actual rainha da Krósvia. Irina é uma amiga das mais queridas, alguém com quem posso contar em todas as ocasiões, mesmo depois de ter-se tornado mãe e se envolvido com todos os problemas da função. E por falar em tio... Já pedi ao Petrov para deixar a lancha a postos. Vamos marcar amanhã? Quem disse isso foi Hugo, meu tio, filho de Andrej e irmão da minha mãe. Ele  tem 12 anos! Um pirralho, desses bem hiperactivos. Mas, mesmo assim, ele é um amor. Eu o adoro e a gente costumava ser bem inseparável tempos atrás. Quero dizer, ele não se desgrudava de mim, até que as minhas hormonas adolescentes e as obrigações da juventude alteraram a nossa rota.

Hugo, dê um tempo à Elena, certo? Irina dá uma sacudida no filho enquanto me enlaça num abraço de urso. Sou recebida por todos como se tivesse ficado seis anos, e não seis meses, fora de casa. Porém, dou falta, naquele meio, daquela que me fez voltar para casa prematuramente. Onde está a mãe?, indago; o olhar perscrutando tudo ao redor. Lá em cima. Meu pai aponta na direcção das escadas. Ela..., está se sentindo bem? Preocupo-me. Apenas um pouco enjoada, assegura Irina, enrolando meus cabelos com os dedos, gesto que ela faz desde que eu era uma menininha bastante cabeluda. Meu cabelo dava trabalho para todos, e eu teimava em deixá-la solta, mesmo com as ameaças de castigo feitas por minha mãe. Por outro lado, o pai achava minha cabeleira a coisa mais linda deste mundo. Devido ao formato dela em torno do meu rosto, costumava-me chamar carinhosamente de sol, slinko em krósvi. Ainda bem que cresci. Depois de uma adolescência pouco à vontade, finalmente meus castanhos e finos cabelos decidiram dar-me uma trégua. Sorrio e deixo a sala sem cerimónia. Preciso desesperadamente ver minha mãe, sentir meus irmãos». In Marina Carvalho, Elena, a filha da princesa, Galera Record, 2015, ISBN 978-850-110-492-2.

Cortesia de GaleriaR/JDACT

JDACT, Marina Carvalho, Literatura, 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Elena. Marina Carvalho. «Tenho plena consciência disso. Na África, não conseguia alimentar-me muito bem. Mas uns quilos a menos não chegaram a fazer grande diferença para mim»

Cortesia de wikipedia e jdact

Elena. A filha da princesa
«(…) Olho pela janela do carro. É impossível evitar as comparações: lado a lado com o povoado da Nigéria, Perla é a visão do paraíso na Terra. Quero dizer, ela sempre foi linda, charmosa, agradável. Mas, depois de passar seis meses num lugar que parece ter sido abandonado por Deus, a capital da Krósvia, minha cidade natal, meu lar, parece ser ainda mais incrível. Pena que meu poder de deslumbramento tenha minguado um pouco desde que conheci a outra face da realidade, chocante, miserável, terrível. A vida jamais será a mesma depois de morar por seis meses naquele povoado nigeriano. Viro-me para meu pai e sorrio. É bom estar em casa. Sabe que a sua mãe vai exigir que se alimente como se o mundo estivesse prestes a acabar, não é?, comenta o pai, em tom de brincadeira. Ele nunca resiste a uma piadinha. Mãe diz que o seu Alex é o rei das tiradas de efeito. Rio-me antes de responder, mas não tenho nenhuma chance, porque ele logo emenda: você está muito magra. Dá até para enxergar os ossos da costela. Exagero dele. Sei que emagreci. Tenho plena consciência disso. Na África, não conseguia alimentar-me muito bem. Mas uns quilos a menos não chegaram a fazer grande diferença para mim. Na verdade, estou até gostando. Pelo menos, o meu quadril avantajado deu uma reduzida. Reviro os olhos e volto a observar a paisagem. Meu pai dirige pelas ruas de Perla em direcção ao Palácio Sorvinski. Nós temos a nossa casa. Fica na periferia da cidade. Foi construída quando eu ainda era pequena. Meu pai fez o projecto, claro, do jeito que minha mãe sonhava, ou seja, nada de ângulos rectos e de aparência clean. A nossa casa reproduz o estilo colonial das cidades históricas brasileiras, inspirada nas construções de Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina. No entanto, assim que foi diagnosticada a gravidez de risco da mãe, meu avô, o todo-poderoso (e fofo) rei Andrej Markov, insistiu que ela e, consequentemente, todos nós, ficássemos no castelo, onde haveria alguém para cuidar dela 24 horas por dia.
Claro que, primeiro, a princesa Ana bateu o pé. Mas acabou vencida por muitas vozes contrárias. Eu, da minha parte, se querem saber, estou achando óptimo. Adoro o palácio, a praia particular, os jardins, as pessoas, a comida de Karenina..., tudo! Sigo devaneando sobre os bons tempos que passarei com minha família. Porém, a minha euforia se desvanece um pouco ao lembrar-me de que, como meu período como voluntária na Nigéria ainda não acabou, estou impossibilitada de voltar para a faculdade. Isso significa que logo, logo meu quadril retornará ao tamanho original. Ócio + a comida de Karenina se encarregarão de cuidar dele. Ao avistar as torres do Palácio Sorvinski, uma emoção familiar invade o meu corpo. Prepare-se. Estão esperando por você com as honras e pompas dispensadas à neta do rei, avisa o pai, com uma expressão divertida. Não me importo nem um pouco de ser apaparicada. Então, animada, deixo meu pai envolver os meus ombros com o braço e seguimos até a entrada do castelo, sentindo o estômago revirar por antecipação. Nada como a saudade para nos fazer reafirmar os nossos sentimentos pelas pessoas que amamos. Mal me vejo dentro dos limites do palácio, e várias vozes e braços queridos me assaltam. Elena! Florzinha, que bom que chegou!, exclama Irina, como sempre no ápice da animação.
Ela não é minha avó de verdade nem a considero assim, apesar de ser a esposa do meu avô Andrej e actual rainha da Krósvia. Irina é uma amiga das mais queridas, alguém com quem posso contar em todas as ocasiões, mesmo depois de ter se tornado mãe e se envolvido com todos os problemas da função. E por falar em tio... Já pedi ao Petrov para deixar a lancha a postos. Vamos marcar amanhã? Quem disse isso foi Hugo, meu tio, filho de Andrej e irmão da minha mãe». In Marina Carvalho, Elena, A filha da princesa, 2015, Editora Record, 2015, ISBN 978-850-110-436-6.

Cortesia de ERecord/JDACT

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Elena. Marina Carvalho. «Amigos, vou ter irmãos! Esse pensamento não sai da minha cabeça. E logo, logo estarei em casa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Elena
«(…)  Porque a mãe não me contou, não me ligou?, questiono, um pouco magoada, sentindo-me meio deixada de lado. Estou contando agora, Elena. Acabamos de confirmar. Meu pai faz uma pausa, antes de completar: e a Ana não sabe que liguei. Ela quer fazer isso, mas está esperando a sua hora de folga com as crianças aí. Nova pausa, agora um pouco mais longa. Além do mais, a sua mãe não vai pedir para voltar. Enrugo a testa. Não sou capaz de compreender a intenção do meu pai ao expor essa opinião tão descontextualizada. Bom, pelo menos eu acho que ela está fora da pauta principal. E porque ela faria isso, de qualquer modo?, indago, confusa. Além do facto de temerem pela minha saúde e integridade física, quero dizer. Filha, estamos contentes com a chegada dos bebés. Muito mesmo. Mas a alegria seria maior se a gravidez não fosse de risco. De risco?, repito, começando a visualizar a situação, o que faz meu peito disparar. Sim. Bastante. A médica quer que a sua mãe tenha cuidado, cumpra uma série de orientações e fique em repouso. Total. Então meu pai pára, puxa o ar com força e desfere o golpe final: Elena, ela precisa de si por perto, mesmo que seja duro demais para admitir. Portanto, por favor, volte para casa. Fique em Perla pelo menos até que tudo tenha dado certo.
Fecho os olhos enquanto ouço o apelo feito por meu pai. Evidente que largar o trabalho na Nigéria vai ser difícil. Eu me sinto útil tendo uma causa nobre para defender. Porém, ficar ao lado da minha mãe, da família inteira, aliás, nesse momento tem um quê mais importante, essencial. Sou capaz de qualquer coisa por ela. Jamais me negaria a ser um porto seguro para Ana. Conte comigo, pai. Estarei aí em breve, informo, motivada por saber que os reencontrarei em breve. Além disso, vou ter irmãos! Óptimo! É uma filha maravilhosa. Meu pai me elogia, como eu previa que ele faria. Sempre fui a filhinha do pai. Ah! Só mais uma coisa: a sua mãe vai ligar mais tarde. Não conte a ela a nossa conversa, certo? Senão dona Ana fica zangada comigo. Concordo, achando graça. Sei que muitos casais enfrentam atritos para manter os seus casamentos. Nesse caso, posso-me considerar uma tremenda sortuda. Meus pais adoram-se. Não. Muito mais até. O que vejo entre eles é um amor tão grande que desconfio ser único, impossível de haver outro igual, mesmo para mim. Desligo o telefone, tranquila e animada. Amigos, vou ter irmãos! Esse pensamento não sai da minha cabeça. E logo, logo estarei em casa.

Luka
Não tenho muitas questões a resolver em Perla. Prefiro manter-me distante. Confundo as pessoas com as minhas atitudes e os meus pensamentos, mas é assim que eu sou. Gosto da liberdade, mas a família não é capaz de compreender isso. Então, fingem que me aceitam e eu finjo que não percebo. Nunca fui um sujeito muito sociável, excepto na infância, embora o meu temperamento explosivo vivesse manifestando mesmo naquela época. Com o passar do tempo, ele só ficou pior.
Em vez de me corrigir com uns bons tabefes, ela assustou-se. Desse dia em diante, foi ficando fácil agir com rebeldia. Aliás, rebelde passou a ser o meu nome do meio. Tentaram abrir os meus olhos. Várias pessoas. Mas um adolescente cheio de hormónios não estava a fim de escutar. Eu queria chocar, mostrar a todos que estava lixando-me para os conceitos e as obrigações. Fui-me tornando um ser intratável. Até perceber que não dava para viver assim a vida inteira. O facto é que tive que aprender a virar homem. Aos 20 anos, não poderia depender do dinheiro da família e usá-lo como meio de realizar as loucuras nas quais eu me envolvia. O acidente foi o marco, o sinal de que eu tinha de mudar antes que perdesse com tudo, de vez. Consegui entrar na faculdade, ainda que atrasado, e fiz administração, apesar de, intimamente, preferir ter cursado música. Mas não dá para viver das gorjetas conquistadas nas apresentações em barzinhos. Isso hoje se tornou um hobby, e não meu ganha-pão. No entanto, ter curso superior, um trabalho que me sustenta não fazem de mim um pessoa sociável e familiar, desses que telefonam todas as semanas e fazem questão de estar presente nos almoços de domingo. Não tenho paciência com a minha família. Falo com aminha mãe uma vez por mês, e olhe lá! Com as minhas irmãs, sou um pouco mais atencioso. Mas, quando vou a Perla, faço questão de não ver ninguém. Só que não desta vez. Amo as minhas irmãs e sou capaz de tudo por elas, ainda mais depois..., daquilo. Portanto, aqui estou eu: a caminho do inferno chamado reunião de família». In Marina Carvalho, Elena, a filha da princesa, Galera Record, 2015, ISBN 978-850-110-492-2.

Cortesia de GaleriaR/JDACT

Elena. Marina Carvalho. «Eu? Um irmão?! Como assim? Quero dizer, é de conhecimento, público até, que a minha mãe tentou, ao longo de anos, engravidar de novo, sem sucesso, infelizmente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Foi impossível não notar o duplo sentido da frase. Nos últimos tempos, os nossos olhares andam mais constantes e explícitos. Porém, por prudência, neste momento é melhor ignorá-los. Ah, Dimitri. Sabe. Quem não se apaixona pela leitura depois de ser devidamente apresentado a ela? Sorrimos um para o outro. Eh... Ele hesita. Não consigo interpretar o motivo. Precisa de dar um saltinho há sede do acampamento. A Ekaterina disse que o seu pai telefonou e vai voltar a telefonar daqui a alguns minutos. Franzo a testa. Nós sempre nos falávamos, digo, meus pais e eu. Mas não é comum eles me ligarem no meio do dia. Ele adiantou o assunto? Dimitri balança a cabeça, negando, claro. Pergunta mais tonta a minha! Vai lá. Eu fico aqui na sala enquanto conversa com o seu pai. Passo por ele, mas paro antes de sair para lhe dar umas palmadinhas nas costas. Não se deixe dominar pelas crianças. Elas podem ser bem persuasivas, quando cismam. De olhos arregalados, Dimitri exibe um sorriso frouxo. Coitado..., o forte dele são as construções, não pessoas com pouco mais de um metro de altura.

Pai! Aconteceu alguma coisa? Eu mal havia atendido o telefone e já queria entender logo o porquê dessa ligação fora do horário de costume. Olá, filha, responde ele, sempre com aquela voz que minha mãe vive chamando de sensual. Mesmo com seus quase 50 anos, Alexander Jankowski, meu amado pai, continua um gato, para alegria e deleite da princesa Ana, da Krósvia. Em primeiro lugar, preciso dizer que estamos com saudade. Eu também. E é verdade. A cada dia, fica mais difícil suportar a distância. Sinto falta de tudo, das pessoas queridas e do clima agradável de Perla. Por outro lado, temos muito orgulho da minha princesa. Meu pai revela, meio emocionado, mas lutando para não demonstrar o seu lado manteiga derretida. O pai sabe ser durão. E é esse orgulho, junto à certeza de que escolheu um caminho muito louvável, que até agora me impediu de apanhar o primeiro avião e trazê-la de volta à força. Rimos juntos. Conhecendo, sei que é bem capaz de fazer isso mesmo. Quantas vezes já tentou o herói protector por cima da mãe, hein? Por um instante, o meu pai fica mudo. Em seguida, informa: é por causa dela que estou ligando a essa hora, Elena. Sinto um frio na barriga. O que houve com a minha mãe? Ela... Ela..., Está bem. Na verdade, filha, a notícia é boa. Bom..., em termos. Ai, pelo amor de Deus! Porque o meu pai resolveu ser tão reticente? De repente, descobrimos que vai ter um irmão. Eu? Um irmão?! Como assim? Quero dizer, é de conhecimento, público até, que a minha mãe tentou, ao longo de anos, engravidar de novo, sem sucesso, infelizmente. Ou uma irmã. Mas... Eu não entendo. Os médicos não disseram que a probabilidade de uma nova gestação era quase nula? Pensei que..., pensei que..., tinham desistido.
O meu pai solta um suspiro longo e profundo. Eu, do outro lado da linha, sou só confusão. A ligação não caiu ainda. Desistimos mesmo. E paramos de nos preocupar. Faz tempo que não usamos nenhum método contraceptivo. Que constrangedor ter esse tipo de conversa com o próprio pai. Eu preferia ser poupada dessa informação. Quero dizer, claro que eles mantinham activa a chama da paixão, para não usar termos mais explícitos. Óbvio que a opção mais tranquila para mim é ignorar esse detalhe solenemente. Então, a sua mãe começou a sentir mal-estar todos os dias pela manhã. Chegamos a pensar que fosse um problema estomacal ou coisa parecida. Desde quando? Faz um mês mais ou menos. Uau! Que coisa! Meu pai continua: ela foi ao médico e, bom, descobrimos a existência do bebé. Dos bebés, melhor dizendo. Esqueci de dizer que são dois. Seus irmãos. Ou suas irmãs. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Que impressionante! Aos 43 anos, a minha mãe, finalmente, realiza um de seus maiores sonhos, e eu, por tabela, estou sendo presenteada também». In Marina Carvalho, Elena, a filha da princesa, Galera Record, 2015, ISBN 978-850-110-492-2.

Cortesia de GaleriaR/JDACT

Elena. Marina Carvalho. «Trabalhamos muito. Olá, diz ele, exibindo as covinhas na bochecha quando sorri. Parece que essas crianças não sabem mais viver sem os seus livros. Diga-me qual é o seu feitiço»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Uma gota de suor descia lentamente pelas minhas costas enquanto eu tentava prestar atenção na pergunta feita por Dafina. Mantive o meu olhar na menina sentada bem à minha frente, muito embora o calor e a humidade estivessem roubando a minha concentração, que deveria estar totalmente voltada à aula. Querida, pode, por favor, repetir a pergunta?, pedi, com um sorriso encorajador no rosto suado. O ventilador do tecto não cumpria o seu papel de fazer vento. E, mesmo que fizesse isso, se limitaria a espalhar ar quente para os lados. Mais nada. Posso ler em voz alta? Todos os alunos da classe aguardavam ansiosos pela resposta, com os seus livros abertos na mesma página. Onde a minha cabeça andava, afinal? Claro que sim. Então a pequena nigeriana, há algum tempo arrebatada pela magia da leitura, pôs-se a narrar as estripulias de dom Quixote em companhia de seu fiel amigo e companheiro, Sancho Pança. Olhei para as cabecinhas inclinadas e suspirei profundamente. Eu conhecia cada uma daquelas crianças o suficiente para saber que o pouco que conseguia doar a elas significava muito. O que elas não sabiam: a recompensa maior era o da minha.
Fazia seis meses que eu tinha partido da Krósvia para a Nigéria, movida pela necessidade de fazer algo importante para o próximo. Não sei se por influência da minha mãe ou por causa da genética mesmo, minha tia-avó é uma humanitária de carteira, a vida inteira senti que não poderia contentar-me com a sorte que tive ao nascer em berço de ouro e fechar os meus olhos para a realidade ao meu redor. Quis estudar Línguas na faculdade não porque os professores, na Krósvia, fossem valorizados e muito bem pagos, mas sim pela possibilidade de ajudar alguém no futuro, de mostrar o caminho mágico proporcionado pela linguagem. Por isso, ainda no segundo ano de curso, surgiu a oportunidade que eu tanto esperava. Descobri um grupo de voluntários dentro da universidade. A cada ano, estudantes de medicina, odontologia, serviço social, psicologia, entre outros, partem mundo afora, em missão nas regiões de pobreza extrema. Conhecê-los foi como escutar os gritos da minha vocação. Eu também queria fazer aquilo, ser um deles, envolver-me. Claro que, assim que anunciei a minha intenção, houve resistência. Afinal: para os membros do grupo Universitários sem Fronteiras, eu era apenas a filha da princesa, ou seja, uma garota mimada e sem propósito.
Os meus pais não queriam que eu me arriscasse. Portanto, me apresentaram inúmeras alternativas de trabalhos voluntários nos limites do meu próprio país. Porém, ao acabar de completar 19 anos, eu já sabia exactamente definir o que era bom ou não para mim. Tive de ser muito persuasiva com os meus colegas de faculdade. Em contrapartida, com Ana e Alex, fui obrigada a usar todo o acervo de argumentos que eu tinha. No final, sei que o que os convenceu de verdade foi a garantia de que eu permaneceria viva e com saúde, não importa onde eu estivesse. Obstáculos vencidos, o passo seguinte era definir o meu destino. Entre algumas opções, acabaram mandando-me para um vilarejo ao norte da Nigéria. Minha missão: ensinar inglês às crianças e apresentá-las, isso mesmo, apresentá-las ao mundo da leitura. Achei que seria fácil. Mas não. Na comunidade, os pais preferiam colocar os filhos para trabalhar desde pequenos a garantir a sua educação. Sendo assim, eu e meu grupo passámos semanas e mais semanas apenas tentando alterar essa realidade. Aos poucos, fomos obtendo sucesso, embora não completamente. Ainda falta muito até que possamos dizer: Vitória!
Deixo as recordações de lado ao avistar um bracinho fino apontado para cima. Fale, Dara. Tia, eu também quero ler. A Dafina já acabou a parte dela. Sorrio para a linda menina de pele cor de ébano, prestes a atender o seu pedido, quando Dimitri, o coordenador do nosso grupo, aparece na porta da sala. Elena, podemos falar num minuto? Caminho até ele, depois de autorizar Dara a fazer a leitura em voz alta. Para ser bem sincera, Dimitri é mais que um coordenador para mim. Ele tem 23 anos, cursa engenharia civil e a sua aparência chamou a minha atenção desde a primeira vez que o vi. Porém, o que mais me encanta nele são a sua bondade e a forma humana como ele encara o próximo. Resumindo: a gente tem uma certa química, uma afinidade clara, apesar de mantermos o nosso relacionamento no nível da amizade. Aqui, na Nigéria, fica difícil investir em causas pessoais. Trabalhamos muito. Olá, diz ele, exibindo as covinhas na bochecha quando sorri. Parece que essas crianças não sabem mais viver sem os seus livros. Diga-me qual é o seu feitiço». In Marina Carvalho, Elena, a filha da princesa, Galera Record, 2015, ISBN 978-850-110-492-2.
                      
Cortesia de GaleriaR/JDACT