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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões»

Cortesia de purl

«[…]
Este arbítrio talvez não seja o mais conforme com os princípios; talvez seja porem o mais prudente; e há casos em que a prudência dispensa certos princípios de uma natureza não inteiramente obrigatória. Lembram também estas corporações a vantagem de permittir a transferência dos coupons em inscripções de assentamento como meio de tranquilisar alguns mais escrupulosos. A questão principal, porém, neste momento é a de saber se se devem ou não devem pagar os coupons falsos, e bom será resolvê-la quanto antes. Perdoe esta massada dada a quem ainda está doente; e eu aqui quasi estou ensinando o Padre Nosso ao vigário.

Este caso, depois de algumas soluções pouco aceitáveis que a Junta lhe deu, como a de obrigar os portadores a apresentarem os títulos com os próprios coupons, na ocasião do pagamento deles, veio a ficar resolvido pelo decreto de 30 de Janeiro de 1856, que mandou trocar por outros títulos as inscrições ao portador e encerrado finalmente pela lei que mandou pagar aos credores do estado prejudicados. Não valeria a pena de falar nesta ocorrência, se não fosse a carta escrita pelo Rei a Rodrigo Fonseca. Alem da perfeita observação que este documento revela, há a notar a claresa com que ele expõe o assunto e o interesse que lhe despertava qualquer incidente de administração. O que trazia absorvido o espírito público e o que dava cuidados ao Rei era, naquele momento, a questão das subsistências e também a da cólera mórbus que, entre outros factos a que deu origem, ocasionou o encerramento da Universidade e o ficar o Rei pouco bem visto pelos estudantes, em consequência da oposição que fez à concessão do perdão de acto.
Em 21 de Dezembro foi reaberta a Universidade, mandando-se começar os trabalhos no dia 7 de Janeiro. Deste modo o ano lectivo de 1855-1856 ficou encurtado em relação ao ano normal, não obstante as aulas de direito, teologia e medicina funcionarem até 20 de Junho e as de filosofia e matemática até 10 de Julho. Lembraram-se os estudantes de pedir perdão d’acto; o Rei, porem, não se mostrava inclinado a conceder-lho. E, para que o seu governo não pudesse alegar ignorância, escrevia a Rodrigo:

Não sei qual será a opinião do Governo a semelhante respeito; a minha, quási que escusaria de dizê-lo, é contrária ao que considero um grande mal não só para a instrução como também para os interesses da fazenda. Se em tempos ordinários é tão grande a produção de bacharéis, e tão escassos os meios de dar vasão a esse produto; que será se facilitarmos ainda mais essa produção! Alem disso tendo-me eu constantemente ocupado da instrução pública e lamentando os males que provêem da facilidade com que entre nós se alcança a instrução superior, seria, creio eu, uma singular contradição eu não opor-me a pedidos absurdos, que nem sei se efectivamente existem. No entretanto julguei dever referir isto que acabo de dizer, porque entendo que é sempre melhor prevenir do que remediar.

O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões. Também lhe submeteram à assinatura um decreto sobre o ensino veterinário, mas esse ficou dependente de mais acurado exame:

Quanto ao decreto reformando o ensino veterinário ainda me reservo examiná-lo mais miudamente, e para isso pedi ao duque que viesse cá. Concordo com muitas das disposições, quanto a outras careço de conhecer os motivos que lhes deram razão de existência. A demora que daí possa provir não há-de ser grande, e certamente não se estenderá como em certos papéis urgentes, por exemplo, de Julho de 1853 a 1855. No projecto não se pode negar que existem alguma poesia, e algumas ilusões.

E em outra carta (21 de Dezembro) indica o que supõe mais conveniente fazer.

Quanto ás coudelarias militares ou antes potrís eu lembraria que, estabelecendo-se em princípio, se estabeleçam na realidade como ensaios em ponto limitado e só naquellas localidades que para isso apresentarem melhores condições. Igual reflexão farei relativamente ao estabelecimento do ensino veterinário em todas as escolas regionais. Eu julgaria a propósito começarmos pelo ensaio no Instituto de Lisboa ou num dos dois do reino. O sistema de ensaios, sobretudo nestas cousas que variam segundo as necessidades dos paises, parece-me sempre o melhor. Recebe-se assim a confirmação ou desengano das ideas, sem correr o perigo de gastar grossas somas com a sua generalisação.

No tocante à questão das subsistências, o Rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «… a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para ver se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros…»

Cortesia de purl

«(…) Além do exame de latinidade, D. Pedro fez, com brilhante êxito, o de retórica e história, de inglês, ficando satisfeito o seu professor Graveley, aquele mesmo que acreditava todos os boatos que lhe encaixavam nos cascos e que os espalhava no Paço quando foi a revolta do marechal Saldanha. Durante o ano de 1851 estudou o príncipe a matemática com o dr. Filipe Folque, sem abandonar os outros estudos, fazendo os exames do costume em 22 de Dezembro. Assim se procedeu também no ano seguinte, dando o príncipe conta dos seus trabalhos no exame de 23 de Dezembro, que foi o último a que o sujeitaram. A mãe falecia-lhe em 15 de Novembro de 1853, e desde então D. Pedro, entregue a si próprio, numa quási libertação do poder paternal, entregara-se ao estudo de todos os assuntos com um afinco verdadeiramente sobrenatural. A mãe fora uma grande educadora. A consideração e favor que dedicava aos mestres; a atenção que dispensava à maneira como corriam os estudos; a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para ver se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros; todo o conjunto de cuidados, que sempre lhe pareciam poucos, com que se desvelava para que tivessem uma educação exemplar sob todos os aspectos, conferiam justamente a esta grande mulher o título da melhor das mães.
A lenda levava até o último recanto do país as repreensões que ela lhes dava em público, quando praticavam algum acto que o rigor da mãe julgava repreensível. Agora obrigava a creança a beijar o filho do povo que ela afastara de si, logo aplicava-lhe o vulgar puxão de orelhas para que o povo visse bem como ela o sabia corrigir. E assim, a Rainha, a figura mais nobre que teve o país constitucional, a vítima dos ódios recíprocos dos estadistas do seu tempo, ensinava às senhoras portuguesas com os exemplos vindos do trono, como o amor das mães se compadece com a austeridade empregada na educação dos filhos. Ainda obedecendo ao plano que a Rainha traçara para a educação do presuntivo herdeiro, percorrera D. Pedro, em duas viagens, quási todas as nações da Europa, estudando, apreciando e criticando sucessivamente tudo quanto vira, em dois Diários que, sem embargo dos descuidos de redacção em alguns pontos, devidos à pressa com que lançava no papel os seus apontamentos, revelam bem o alto critério e a grande ilustração do príncipe. Com esta preparação, e sendo certamente o talento mais precoce do seu tempo, e em todos os tempos raríssimo, compreende-se que pretendesse conhecer todos os negócios e quizesse impôr-se a toda a gente.
Era este temperamento, em parte natural e em parte proveniente da educação recebida, compatível com o sistema constitucional, em que os ministros nunca podem ser meros instrumentos em mãos alheias, por mais competentes que sejam, visto que são os únicos responsáveis pelos actos do governo? Certamente, não. E daí promanaram todos os desgostos do' Rei e, consequentemente, todos os ódios e rancores que o açulavam contra os homens que, conscientes do seu valor e dos seus direitos, resistiam às ordens do soberano, por vezes impertinentes.
Nos primeiros meses do reinado nenhum acontecimento extraordinário ocorreu. O novo Rei herdara três questões internacionais de extrema gravidade e delas faremos a história na ocasião oportuna e quando estiverem apuradas em todos os seus incidentes. Estas questões eram a da concordata com a Santa-Sé, a do Ambriz e ainda a da convenção com a Holanda a respeito de Timor e Solor. Todas preocuparam grandemente o ânimo do Rei. Entretanto, os factos corriam com certa aparência de serenidade. D. Pedro abria cuidadosamente as duas Caixas, e nenhum dos requerentes deixava de ter a desejada resposta no fim da semana.
Em 18 de Outubro assinou D. Pedro um decreto, demitindo do lugar de amanuense da Junta de Crédito Público Eduardo Mesquita Cabral Almeida, em vista da consulta da mesma Junta de 16, que participava haver conhecido que este empregado com inteiro esquecimento dos seus deveres duplicara uma porção de coupons que negociara e fora apresentada a pagamento. O decreto mandava também que a Junta remetesse à secretaria de estado todos os documentos comprovativos de tão desagradável ocorrência para se formar o competente processo afim de o delinquente ser punido com todo o rigor da lei. Chegados os documentos, pareceu que era caso para ouvir o conselho de Estado. O Rei estuda a questão e escreve a Rodrigo Fonseca (24 de Novembro):

Hoje tivemos o Conselho de Estado, e do que nele se passou lhe terão certamente já dado parte os seus colegas. Aconteceu o que acontece quando se juntam mais de duas pessoas, quer dizer foram tantas as opiniões quantas as pessoas. No entretanto de cada um se aproveita o que for bom, e o Governo fará aquilo que em consciência entender. A questão divide-se em três pontos: o primeiro constitue a acusação á Junta pela sua pouca vigilância, e desleixo em proceder contra o delinquente; o segundo: devem ou não pagar-se os coupons falsos ou para falar com mais propriedade, duplicados; 3.° quais os meios a empregar para evitar a repetição de um caso semelhante? Sobre todos estes pontos discorreu-se largamente.
A opinião de duas corporações muito respeitáveis, o banco e a associação comercial é, como sabe, que se paguem as obrigações dos coupons sem distinção de qualidade, para evitar o abalo do crédito que em tal caso, apesar das asserções em contrário, não pode deixar de se produzir.
[…]
In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

domingo, 19 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por El-rei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida»

Cortesia de purl

«(…) Mal podia sonhar o mestre que o discípulo se ria das suas lucubraçoes alfarrábicas e tabacais. E verdade que para o consolar, o discípulo o presenteara com um capote finíssimo de pano azul ferrete, gola de veludo, e forrado de orleans, com seus cordões mui compridos, e borlas de retrós preto e tudo na maior perfeição. Também lhe adoçara a boca com uma condeça de doces muito finos e primorosos, uma pouca de anona muricata, duas excelentes maçãs e seis penas de escrever. E assim fazendo progressos na língua latina, chegou D. Pedro ao fim de 1847. Emquanto estudava o latim, dedicava-se também à música, à pintura e à história natural, colecionando conchas e insectos afim de organisar um museu. Esta tendência para a coleccionação acompanha-o ainda nos anos seguintes. Em 4 de Junho de 1851 escreve de Sintra a Sarmento:

Consagrei a tarde a uma excursão conchiliológica com o visconde, a qual me deu oito espécies que o mano Luiz lhe mostrará.

E em 1855, já depois de Rei, pede a Rodrigo da Fonseca que tenham cuidado com uns pássaros que vem do Chile para ele a bordo do patacho Indústria. Foi chamado para organisar o museu Francisco Tomás Silveira Franco, lente de medicina no Hospital de S. José. No dia 3 de Abril de 1848 dava D. Pedro a primeira prova pública do seu adiantamento nos estudos. Fazia exame de latim perante a corte. Mas antes quiz ir à capela, onde naquele dia havia lausperenne, para implorar o auxílio do Senhor, esclarecendo-lhe o entendimento afim de fazer bom exame. E fê-lo bom na verdade, porque traduziu, com desembaraço, um capítulo de Eutropio e uma fábula de Phedro. Tinha então onze anos de idade e apenas seis meses de tradução latina. O resultado do exame foi sujeito à votação dos presentes. Todos votaram, muito bem, ou muitíssimo bem, só a mãe, sempre grave e austera, lhe concedeu simplesmente um Bem. Esta nota, que a muitos parecerá indiferente, revela, contudo, fielmente o carácter da Rainha. Altamente satisfeita com o exame do filho, gosta de que todos o elogiem, mas para não o lisongear excitando-lhe a vaidade, e para se não mostrar parcial, é quem lhe dá o voto menos laudatório. Bem; e nada mais. O professor extasia-se perante os conhecimentos do discípulo e não se cança de lhe festejar o talento e a aplicação:

A tal ponto chegava o amor que Sua Magestade tinha aos livros latinos que achando-se doente de uma angina na primavera de 1848, queria que lhe trouxessem os seus livros para a cama, e até os guardava debaixo do travesseiro, onde eu mesmo os encontrava, e pedia a Sua Magestade que tomasse descanço, porque não faltava tempo em que pudesse estudar. Que hei de fazer?, disse Sua Magestade, hei de perder os meus estudos, deixando-me atrasar? Esta mesma resposta dava a todos.

O velho professor tinha às vezes adoráveis ingenuidades. Quando a Rainha, em 1848, deu à luz o príncipe Leopoldo, Martins Bastos escrevia nas suas Memórias:

Sua Magestade El-rei, pela sua edade e mais ainda pela sua inocência, nada disto empreendia, e somente pensava que um menino, seu primo, estava chegando ou havia chegado da Alemanha.

Neste tempo, quando o primo chegava da Alemanha, já D. Pedro se ocupava das aventesmas que povoavam o Paço. No princípio de 1849 D. Pedro traduzia as epístolas de Cícero, e escrevia cartas em latim ao seu mestre, datadas de Sintra, uma do segundo dia antes das Calendas de Agosto, de 1849, outra do quarto dia antes dos idos de Julho, de 1850. Já conhecia Salustio, Tito Livio e Virgílio, e era preciso dar-lhe mestre de grego, retórica, filosofia racional e moral e princípios de direito natural. Veio continuar a educação do príncipe António José Viale, conhecido humanista e perito nos estudos clássicos. No domingo antes do Natal de 1849, fez o príncipe novo exame público de latim, de grego, de inglês, de música, e de desenho. Manuel Inocêncio ensinara-lhe a música; a pintura o insigne artista António Manuel Fonseca. Em 1850 D. Pedro já conhecia, além dos autores citados, Ovídio, Horácio e Tácito, e em 23 de Dezembro fez o terceiro exame, assim descrito por Martins Bastos:

Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por El-rei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida; e uma ode inteira de Horácio, aberto tudo à sorte por El-rei, como fica dito. Não é possível traduzir com mais propriedade e elegância, do que o fez Sua Magestade, no que me enchi da maior glória, por ser aquele o último exame daquela disciplina que Sua Magestade fez».

In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «… afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta…»

Cortesia de purl

«(…) No governo, confirmado pelo novo Monarca, achavam-se o duque de Saldanha na Presidência do conselho e na pasta da Guerra; no Reino Rodrigo da Fonseca Magalhães; na Justiça Frederico Guilherme; na Fazenda Fontes Pereira de Melo; na Marinha visconde de Athoguia. Fontes tinha também a pasta das Obras Públicas, e Athoguia a dos Estrangeiros. Eram ainda os representantes da revolução, ou antes da revolta de 1851. E era com eles que o Rei tinha de governar, emquanto os factos não lhe aconselhassem ou impuzessem uma mudança de ministério. O primeiro acto, praticado por D. Pedro, foi a instituição da Caixa Verde. Dois dias depois da aclamação, aparecia na folha oficial este anúncio na última página do periódico:

O Camarista de Semana previne o Público que do dia 20 do corrente mês em diante, Sua Magestade El-Rei não receberá requerimentos, nem papéis alguns na rua, e que para este fim se mandarão no Real Paço das Necessidades, junto á portaria do antigo convento, colocar duas caixas para os receber; uma, pintada de azul, destinada aos requerimentos que tendam a obter socorros ou esmolas; outra, pintada de verde, para as súplicas dirigidas a outros fins. Igualmente se previne que todos os sábados as pessoas interessadas ali poderão ir receber o despacho das suas súplicas do meio dia ás duas horas da tarde. Paço das Necessidades, 18 de Setembro de 1855, conde de Linhares, Camarista de Semana.

Estava aqui a origem dos maiores dissabores que o Rei havia de ter por muito tempo, emquanto a Caixa não fosse retirada, e das desavenças constantes entre ele e os seus ministros. O Rei não despachava sem ler primeiro os decretos, demorando, por vezes, alguns para os estudar, pedindo informações que o habilitassem a dar uma referenda concienciosa. Dez dias depois de ter principiado o seu governo escrevia D. Pedro a Rodrigo da Fonseca:

Como ontem ao despacho não houvesse o tempo para lê-lo (um regulamento) e como eu não quero poder acusar-me de ter assinado um papel sem o ter lido, fiquei com ele até esta manhã; que só agora achei o tempo para lê-lo.

E a Saldanha dizia:

Eu não desejo autorisar medida alguma que eu não tenha estudado. Desejo sempre estar seguro e em plena consciência do que faço.

A Caixa Verde funcionava sem novidade. Em 25 de Setembro dizia D. Pedro a Rodrigo:

Entre os papéis que hoje recebi da Caixa achei uma representação sobre a gerência administrativa da Santa Casa da Nazaré. Se os factos são verdadeiros merecem algum remédio, sobretudo o corte de pinhais de que nela é acusada a Administração.

Faria Rodrigo obra pelas denúncias anónimas lançadas na Caixa Verde? Não é de crer. A maior parte dos decretos vinham glosados pelo Rei. Os dois de 28 de Novembro, um aprovando os novos estatutos dos sócios do Montepio das Secretarias do Estado e outro a Caixa de Socorros Mútuos voltavam acompanhados de comentários feitos por seu punho. Esta interferência activa do Rei nos negócios públicos, o desejo de os estudar, provinham principalmente da educação que recebera. O Rei, era na sua principal feição, um escolar, trabalhando no seu gabinete e tendo prazer no esforço da sua inteligência. Aos dezoito anos sabia tudo, porque muito lhe tinham ensinado e muito também tinha aprendido nos livros, nas viagens e no trato com os homens eminentes do seu país.
Deixando a mestra dona Maria Carolina Mishisch, fora em 5 de Agosto de 1847, aos 10 anos, entregue aos cuidados de Martins Bastos que lhe ensinou latinidade. Dirigiu-lhe toda a educação o visconde da Carreira, como seu aio, e cujos serviços D. Pedro retribuiu com a maior dedicação. Entregue ao compêndio de gramática latina do padre António Pereira, deu logo a primeira lição, sabida na ponta da língua, no dia 11 de Agosto. Já no meiado de Outubro, decorridos apenas dois meses de gramática, D. Pedro estava a braços com o Eutropio e com o Phedro. O professor extasia-se perante a inteligência do aluno e escreve:

… afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta, uma índole tão dócil, uma gravidade e modéstia que se lhe possa assemelhar, de modo que mais parecia um homem de edade madura do que um menino de nove anos e dez meses».

In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

domingo, 22 de setembro de 2013

Cristóvão Colombo na Madeira. Rebecca Katz. «Todavia existe a romântica lenda que diz que em noites de lua cheia a sombra de Colombo vagueia pelas praias de Madeira e desliza sobre as ondas, curvando-se para colher e examinar despojos que lhe traz o mar»

Cortesia de pcampos/greenwoodpress/wikipedia

«Cristóvão Colombo entra na tradição e história do arquipélago da Madeira por uma hipotética residência que se tornou lendária, defendida sem base histórica por cronistas e demais escritores, portugueses e estrangeiros, como Bartolome de las Casas na sua Historia das Índias, e corroborada presumivelmente por Diogo Colombo, o filho do descobridor. Hoje, muitos visitantes deliciam-se ao ver na Madeira a rua ou o sítio da chamada casa do Esmeraldo onde Colombo supostamente residiu. E a coisa mais venerada de tudo é o marco de uma janela que foi originalmente a janela principal daquela casa quatrocentista, que foi cuidadosamente apartada e conservada antes que a casa fosse demolida no século passado, devido as exigências da viação urbana moderna. Talvez esses mesmos visitantes ou turistas tenham a boa ou má sorte, depende do ponto de vista, de ver a igreja na ilha de Porto Santo onde se diz que o filho mais velho de Colombo foi baptizado, ou quem sabe que outras coisas inventadas através dos anos. Houve também propostas para construir um museu colombino, mas não posso imaginar qual será o conteúdo de um tal museu, aparte a chamada janela de Colombo que é talvez o único padrão que fica a atestar a suposta permanência de Cristóvão Colombo na Ilha da Madeira.
Antes de mais nada, cumpre-me esclarecer que nada de novo ou sensacional se vai revelar aqui. Trata-se somente de estabelecer que nunca se encontrou nenhuma documentação no arquipélago da Madeira que prove que Colombo alguma vez residisse lá, só, ou com a sua esposa e filho. Isso não quer dizer que Colombo nunca tivesse estado na Madeira ou que nunca tivesse tido contacto com o arquipélago. Ao contrário, quero constatar enfaticamente que Colombo sim esteve na Madeira e que sim teve contactos com as ilhas, mas que a documentação sobre a qual nos baseamos, provem de fontes estrangeiras, e que a sua estada na Madeira foi só de passagem. A pouca documentação referente ao período de 1451 a 1492 quer dizer, os anos de sua vida que antecedem o descobrimento da América, abriu as portas à imaginação criadora de todos os que se dedicaram ao estudo da temática colombina, sendo as lacunas documentais preenchidas pela pena e imaginação criadora dos eruditos portugueses. Todavia existe a romântica lenda que diz que em noites de lua cheia a sombra de Colombo vagueia pelas praias de Madeira e desliza sobre as ondas, curvando-se para colher e examinar despojos que lhe traz o mar.
Como síntese das minhas investigações, entendo poder resumir a três as épocas em que Colombo esteve em contacto com a Madeira. A primeira vez, em 1478 ou 79, quando foi à Madeira, incumbido pela Casa Centurione de Génova de comprar um carregamento de 2400 arrobas de açúcar. A segunda, desde 1480 ou 81 foi quando casou, talvez a fins de 1479, com a aristocrática D. Felipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, o primeiro capitão e donatário da ilha de Porto Santo; e a terceira e a mais curta é aquela em que Cristóvão Colombo é elevado à categoria de Almirante e vice-rei, e mais uma vez e pela última, transita pela ilha em 1498.
Quanto aos demais anos que passou em Portugal, não existe documentação credível em Portugal que possa dizer-nos algo sobre a vida do navegador antes da sua saída para Espanha em 1485. Colombo não deixou rasto de si durante os oito ou nove anos que viveu em Portugal. Talvez o mistério dos seus movimentos durante esses anos em Portugal nunca seja esclarecido, talvez por causa do grande terramoto de Lisboa de 1755 que destruísse os documentos notariais ou reais onde se pudesse encontrar algum vestígio de suas actividades em Portugal antes da sua saída do país. O que sim e bem documentado é que Colombo se acha ligado à Madeira por primeira vez, em 1478-79, por comércio de açúcar. Estes anos são referidos essencialmente como o seu período comercial. Em 1478, Paolo di Negro, um genovês domiciliado em Lisboa, incumbe o futuro descobridor de ir a Madeira adquirir para um tal Ludovico Centurione, de Génova, 2400 arrobas de açúcar, como disse antes. Ludovido Centurione de Génova, expediu a Paolo di Negro, residente em Lisboa, 1290 ducados com ordem de comprar por sua conta, as 2400 arrobas de açúcar e remetê-las para Génova. Paolo di Negro encarregou esta operação mercantil a Cristóvão Colombo, domiciliado também em Lisboa. Este fretou uma embarcação portuguesa e saiu a barra, em Julho de 1478, com rumo à Madeira, mas sem levar consigo o dinheiro necessário que Paolo di Negro prometera remeter-lhe para ali. Uma vez na Madeira, adquiriu Colombo uma partida de açúcar a um certo Erogio Catalao, esperando receber de Lisboa com que paga-la. Mas sucedeu só ter recebido de di Negro 103 ducados, em várias remessas, o que deu lugar a não poder carregar a nau senão com uma pequena porção do açúcar por ele negociada, e que Ludovico Centurione ansiosamente esperava em Génova. Chegando Colombo àquela cidade com este mísero e insignificante carregamento, era natural que surgissem protestos; protestos do capitão do navio que pretendia o preço inteiro do frete como se tivesse carregado toda a mercadoria estipulada, e protesto vigoroso do nobre Centurione, por ter Colombo trazido diminuta fracção da mercadoria por ele encomendada e previamente paga». In Rebecca Katz, Christopher Columbus and the Portuguese, 1476-1498, Greenwood Press, USA, 1993, ISBN 0313288674, Cristóvão Colombo na Madeira, Paulo Campos, Arquivo Histórico, Madeira, 2009.

Cortesia de PCampos/JDACT

sábado, 21 de setembro de 2013

Fernando Pessoa. Poeta da Hora Absurda. Mário Sacramento. «Ora em Fernando Pessoa o que logo (e sempre) nos punge é aquela solução tão por demais levianamente ‘fácil’ da heteronímia. ‘Fácil’, está claro, não porque destituída de talento, pois, ao invés, só foi possível mediante um talento que diremos ‘excessivo’»

Cortesia de wikipedia

O homem e a hora são um só. In Mensagem

Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro. E a minha bondade inversa não é nem boa nem má. In Hora Absurda

Genialidade Absurda
«Na introdução que antepôs às Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues, Joel Serrão escreveu as seguintes palavras que, se bem que o coloquem no polo oposto do que visamos, têm contudo o mérito de chamarem a questão ao terreno que reputamos o mais próprio: Afigura-se-me que o problema dos heterónimos de Pessoa tem a mesma explicação que a dualidade irredutível de Antero: a complexidade da alma humana, acentuada nos temperamentos poéticos geniais, complexidade que não invalida a unidade psíquica das irredutibilidades expressas esteticamente... Se Antero tivesse atribuído ao poeta nocturno e ao apolíneo, que ele foi, nomes diferentes, com uma genealogia, profissão, características somáticas, como Pessoa fez aos seus heterónimos, aí teríamos um complexo problema, de raiz semelhante ao que agora nos preocupa....
Há com efeito em Antero o quer que seja (que não importa agora investigar, mas que distinguimos da tal dualidade, tão convencional em sua abstracta sistematização) que não só confere uma certa legitimidade à hipótese de Serrão, como ainda, num sentido muito mais geral (de que, para nós, tal hipótese não passaria dum aspecto particular) justificou que Pessoa visse nele um precursor da modernidade. Seria fácil, aliás, estabelecer um nexo entre o poeta da razão-em-crise, que ele foi, e os do irracional que se lhe seguiram, reservando a Pessoa, entre uns e outros, a posição intermédia de jongleur dos fragmentos do racional. Do ponto que agora nos importa convém acentuar, contudo, que o que tornou Antero um caso ainda à parte não foi senão a circunstância exacta de ter lutado, em vão embora, contra a corrupção dos tempos, e ter assumido uma posição que em última instância o levaria a acompanhar o seu navio no naufrágio.
Assim, longe de nos quadrar que Antero justifique Pessoa, preferimos que no-lo ajude a compreender à contra-luz. Para o que nos limitaremos a perguntar: Que teria sucedido a Antero se, cativo dum pendor literário sem dúvida aberrante, tivesse permitido que se sentassem à mesa redonda da sua intimidade todas as tendências espirituais de que os Sonetos dão fé, acarinhando-as, impulsionando-as, glosando-as em obras de acomodada e parcimoniosa heteronímia divergente? Formulada a pergunta como foi, torna-se ocioso responder, pois todos reconhecemos que só o fundo de verdade em que a problemática de Antero visou, sem qualquer dúvida, uma resolução pode conferir à sua obra aquela humanidade sem a qual ela não seria. Levado entre combates sempre renovados [a] disputar dia a dia n mão dos Fados / Uma parcela do saber augusto (Espectros), ele mesmo referiu ter essa preocupação influído os poemas de mais aparente evasão, como se depreende do seguinte passo duma carta particular: esse estado de espírito [o carácter desolado de certos poemas], no meio da sua violência, representa um contínuo impulso para a verdade e para o bem, e isso deve ser levado em conta ao poeta. É o que resume, hiperbolizando em- bora, este outro passo da sua correspondência: eu ainda não desisti de abrir, ainda que seja roendo com os dentes e ?t boca em sangue, o muro de bronze do destino.
Quer dizer: ninguém afinal melhor do que Antero permite aperceber o que há de implícito no conceito de personalidade como teor de vida, convergência de tendências, estruturação ideológica, fidelidade a um móbil, e o que por aí mesmo tem sempre de implicar-se numa candidatura ao génio como realização superiormente ímpar de tais condições. Tal como em todos os grandes artistas, a arte de Antero corresponde directamente à problemática do homem servindo-a, só não tendo Antero chegado à fase a que chegam os maiores de por seu turno a servir em virtude de, impossibilitado de atingir a visão unívoca que perseguia, lhe estar vedado esse grau de  identidade da arte com a vida.
Ora em Fernando Pessoa o que logo (e sempre) nos punge é aquela solução tão por demais levianamente fácil da heteronímia. Fácil, está claro, não porque destituída de talento, pois, ao invés, só foi possível mediante um talento que diremos excessivo, mas porque tão comprazida em trilhar um caminho da mais descarnada artificialidade. Isso nos leva a compreender por que teve Fernando Pessoa necessidade de cultivar, tão insistentemente, o mito duma inspiração heterónima premente, misteriosa, imprevisível, de que ele próprio, ao fim e ao cabo, se terá tornado, quem sabe, a própria vítima. É já hoje, de resto, suficientemente conhecida a quota-parte de engenho e humor que entrou nesse mito. E pode facilmente aperceber-se um nexo de necessidade entre essas pretensões e a obra que, denunciando a sua interdependência, dispensa inteiramente, do estricto ponto de vista literário, quaisquer outras conjecturas». In Mário Sacramento, Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda. Contraponto, University of Toronto, Lisboa, 1960.

Cortesia de PCampos/JDACT

terça-feira, 12 de junho de 2012

Alfacinhas. Alfredo Mesquita. «Olhem bem para ele: nem pestaneja. Se jovial entrou, jovial se fica. Está o vinho e a sardinha mais caro? Melhor, que se bebe menos. E em vez de meio litro, dois decilitros o contentam»



Cortesia de wikipedia

«Dada uma tão grande escassez de recursos, como se nos dicionários da língua não existissem outras palavras, nem no cérebro desses escritores outras ideias, pergunta-se hoje como puderam eles entreter com os produtos da sua literatura umas poucas de gerações, emocionando-as a seu bel-prazer, seduzindo-as e dominando-lhes os espíritos?
É que eles eram os escritores do seu tempo; e seria preciso que à gente de hoje fosse possível fazer viver de algum modo a mesma vida daquele tempo, para que ela os amasse deveras.
Não era um segredo deles, dos que escreviam: era um segredo que estava com quem os lia. As ambições não eram tantas como são hoje, e esta de toda a gente, ou quase toda, querer que a tomem por «espírito superior» não se manifestava senão em casos de excepção, que logo cabiam no ridículo, e passavam a ser pratinho de muito apreço para os que tinham o juízo no seu lugar.
A mediania não era coisa que envergonhasse ninguém. Quem devia estar alto, lá estava; quem devia ficar em baixo, não ia para cima ; e aqueles que, não podendo chegar muito acima, conseguiam não ficar ao rés da terra, contentavam-se risonhamente com a sua sorte, e parecia não haver quem lhes passasse o pé adiante em ventura comedida.
Agora não há nada disso. Todos querem ser, em tudo, mais que os outros. Todos querem poder mais do que podem, e parecer mais do que são. Ser ambicioso nem sempre é mau; mas a ambição assim é desvario. A literatura desvairou também, como não podia deixar de ser, para estar com o seu tempo; e aquela que, num dado momento, foi espelho da vida simples e razoável de então, passou de moda.

A sobriedade do português é uma coisa que não sofre discussão. É indiscutível. Outros povos têm sido, ou são, ou hão-de vir a ser vítimas dos seus exageros: o espanhol arruína o estômago com o colorau; a bambochata, ao francês, amolece a espinha; o gin estropia o anglo-saxão; e quem ao china tire da boca a boquilha do ópio, tira-lhe tudo.
Experimentem, porém, o português na provação de todas as mínguas. Deixem-no ficar uma noite inteira ao relento, acocorado contra uma esquina, em Dezembro, sem manta nem capote em que se embrulhe, e ele passará aí, e assim, a noite, tão bem como a teria passado num quarto do Bragança, com as janelas sem trinchas, edredons de penas, e entre bons lençóis. Toda a noite levará a sonhar que se está no fim do Verão, e ele a passa-lo em Sintra, à sombra de árvores, ouvindo o murmúrio de cascatas. E o que ele em sonhos, julgar ser o murmúrio de cascatas, será o beiral do telhado a pingar-lhe em cima...
Aguardem o ano que vai mau para as vinhas, deixem passar a vindima, a faina do lagar, a pisa, a trasfega, e vejam a cara que ele faz quando, entrando jovialíssimo na taberna que primeiro pôs o ramo de videira à porta em sinal de vinho novo, e ao mandar saltar meio litro, lhe observa o taberneiro que está a quatro vinténs o litro. Olhem bem para ele: nem pestaneja. Se jovial entrou, jovial se fica. Está o vinho mais caro? Melhor, que se bebe menos. E em vez de meio litro, dois decilitros o contentam.
Façam monopólio da carne, consintam ao cortador que em cada quilo do acém, da alcatra ou do pojadouro, impinja ao magro freguês trezentas gramas de osso, e pelo peso lhe leve dezasseis vinténs ou dezoito. Ele nem pegará num peso de dois quilos de cima do balcão para o pespegar na testa ao cortador, nem sequer ao cortador chamará ladrão.
Apenas delibera não comer mais carne, e se outra vez tem de tornar a fazer caminho por ali, passa de largo, receando sempre que o homem do talho lhe saia de lá armado de choupa com que o abata, para depois o cortar em pedaços, pendurá-lo nas fateixas e vendê-lo por vaca!
Não se pode comer carne? Come-se peixe. E se ao peixe, em muitos dias, só os ricos chegam, come-se hortaliça, feijão, batatas. Levem as coisas a ponto de o porem a pão e laranja, que é a expressão da última miséria de boca ainda mesmo estando o pão caro como está e só nos deixarem os exportadores da fruta o rebotalho da laranja. Ele se deixará por a pão e laranja, não direi já sem um certo esmorecimento, ou falha de alegria, o que é dado a barriga vazia, mas sem por isso rememorar a revolta do Vinagre». In Alfredo de Mesquita, Alfacinhas, Parceria de António Maria Pereira, Livraria Editora, Lisboa, 1910, Library University of Toronto, 1968, PQ 9261 M47A4.

Cortesia de University of Toronto/JDACT

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Alfacinhas. Alfredo Mesquita. «Pelo menos, os autores conseguiam isto, que á primeira vista se nos afigurava muito simples: uma pessoa lia-os, e ia logo entendendo o que eles queriam dizer, o que não acontece já com os de agora, porque uma pessoa lê-os, relê-os, e treslê, sem que haja meio de lhes meter dente»



Cortesia de wikipedia

«Vai quase desaparecendo um género de literatura que teve em Portugal bastantes amadores e bem se coadunava com o nosso feitio e o nosso gosto. Quase desaparecendo, digo bem, pois que dos vivos e velhos que o cultivaram com mais entusiasmo, raros são já os que ainda dão sinais de vida.
Os tempos eram muito outros, e muito outra a gente desses tempos. Havia mais alegria do que hoje, havia incomparavelmente muito mais alegria; basta mesmo dizer que havia alegria, e está dito tudo, porque a verdade é que hoje já não a há. Havia também muita despreocupação, outra coisa que também acabou. A literatura, portanto, era o reflexo duma tal ventura de ânimos.
Claro que a alegria não era tanta que não deixasse haver gente de testa franzida; mas gostava-se do devaneio, da fantasia ingénua e da facécia, e tudo isso entretinha e divertia muito mais a gente do que as teses, as psicologias, e os simbolismos da literatura moderníssima. Pelo menos, os autores conseguiam isto, que á primeira vista se nos afigurava muito simples: uma pessoa lia-os, e ia logo entendendo o que eles queriam dizer, o que não acontece já com os de agora, porque uma pessoa lê-os, relê-os, e treslê, sem que haja meio de lhes meter dente.
Os efeitos de enternecimento, de comoção, ou apenas de risota, obtinham-se por meios simplicíssimos.
A escola da justa moderação na forma de escrever e descrever tinham então mestres como Júlio Diniz e Júlio César Machado, e a popularidade não bafejava quem lhes não seguisse as pisadas. Se o propósito do escritor num dado momento era o de fazer chorar, a lágrima borbulhava e corria por si ao canto do olho, sem ser preciso, como hoje, estar a puxar por ela como quem puxa por um cordão de campainha. Se o escritor queria fazer rir, o riso vinha como vinha a lágrima, sem também ser preciso descalçar ao leitor a chinela e fazer-lhe cócegas na sola do pé.


O descritivo da paisagem, da cena caseira, do episódio de todos os dias, era quando muito meia pagina de livro pequeno, em letra grada, e tudo ficava dito. O uso do adjectivo era quanto possível parcimonioso, e entrava na descrição como o sal na comida. Um clarão de luar erainvariavelmente prateado; uma manhã de Abril havia de ser sempre clara e uma noite de Novembro sempre tenebroso. E as searas sempre louras, o arvoredo sempre frondoso, o murmúrio das águas sempre brando, o vento sempre sibilino.
Se o autor entrava em casa do herói ou heroína da sua história e dava fé do que lá havia de mobiliário e roupas, era escusado ficar à espera de que ele nos contasse quantas cadeiras vira na sala, quantos quadros nas paredes, quantos frangos na capoeira. Dizia-nos somente se se tratava de habitação pobre ou rica, modesta ou luxuosa, e a tal respeito nem mais meia palavra.
As fisionomias das criaturas, como o aspecto das coisas, não lhes tomavam muito tempo a pintá-las. Os tipos de formosura eram dois ou três, dados em simples variantes:
  • da cor de olhos: azuis, pretos ou castanhos;
  • de cor da pele: pálida, rosada, clara, morena;
  • de medidas da estatura: alta, baixa, regular;
  • e um ou outro de alguns sinais particulares.
 As qualidades, como os defeitos morais, não davam margem a largas apreciações. As personagens eram ou boas pessoas ou malvados. Para facilitar a narração, não se admitia o meio-termo. Um bombeiro era sempre um benemérito, um professor de instrução primaria sempre uma vítima, uma sogra sempre uma fera». In Alfredo de Mesquita, Alfacinhas, Parceria de António Maria Pereira, Livraria Editora, Lisboa, 1910, Library University of Toronto, 1968, PQ 9261 M47A4.




Cortesia de University of Toronto/JDACT

quinta-feira, 10 de maio de 2012

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. Parte 2. «Não se esquecia de si nem mesmo naquele momento, pondo em relevo que fora ele quem contribuirá principalmente para a época de paz que assinalara a sua Regência. Nem Saldanha que tinha feito a obra de 1851, nem Rodrigo que pacificara os ânimos rebeldes protestaram contra as afirmações do Regente»


Cortesia de purl

«Fernando II foi o primeiro a falar. E com a sua voz nasalada disse no meio do geral silêncio:
  • «Mas o que posso declarar, à face dos Representantes desta ilustre Nação, é que jamais perdi de vista o que reputei o primeiro dos meus deveres: fazer amar o sistema representativo que nos rege; manter os direitos e as garantias dos cidadãos portugueses; apagar até os últimos vestígios de nossas passadas dissensões; e por este meio conservar sempre viçosas as esperanças de um Reinado feliz, caro ao povo português, e durante o qual se consolidem as nossas instituições livres; se arreigue profundamente a confiança na sua duração e no carácter leal e generoso do nosso Monarca. Da índole com que a Divina Providência dotou este Príncipe, e dos esforços empregados por Sua Augusta Mãe, de Saudosa Memória, e por mim, devo esperar que o Senhor Dom Pedro Quinto merecerá sempre o amor e o respeito dos seus súbditos; que Sua Majestade Será o primeiro mantenedor dos seus foros e liberdades; que dentro da esfera das Suas prerrogativas constitucionais concorrerá poderosamente para sustentar os direitos da Nação, a sua glória e dignidade, promovendo o maior desenvolvimento da riqueza e fortuna pública, de que essencialmente depende o esplendor do Trono».
Não se esquecia de si nem mesmo naquele momento, pondo em relevo que fora ele quem contribuirá principalmente para a época de paz que assinalara a sua Regência.
Nem Saldanha que tinha feito a obra de 1851, nem Rodrigo que pacificara os ânimos rebeldes protestaram contra as afirmações do Regente. Era certo que Fernando II, se não apagara os últimos vestígios das passadas dissensões, tinha para isso contribuído grandemente, à uma porque esquecera os próprios ressentimentos das ofensas recebidas, que muitas eram e graves a ponto de lhe bulirem na honra doméstica, à outra porque desinteressando-se das coisas públicas e presando sobretudo as suas comodidades, o que se conformava com o seu temperamento abúlico, entregara a Rodrigo da Fonseca, o mais inteligente, o mais hábil, o mais simpático e o mais útil de todos os desmoralizados políticos, a vida inteira da Nação. E este afagando uns, corrompendo outros com dádivas e promessas, pregando o perdão recíproco das antigas ofensas consolidava a obra que o Regente agora atribuía imodestamente ao seu labor.
Pedro V, tomando em seguida a palavra, começou por declarar que se reputava feliz de ser Rei deste povo, que tão heroicos feitos praticou e tantos sacrifícios fez pela restauração e defensa da Monarquia Constitucional e das liberdades pátrias. Depois agradeceu ao Regente, cujos extremosos desvelos de amor e benevolência paternal tanto suavizaram a perda de sua saudosa e respeitável mãe, e cuja sabedoria e ilustração encheu o país de extraordinários benefícios. Por fim, depois de ter prestado o juramento, ajoelhado e comovido, faz o seu programa de governo:
  • «Cumprindo o juramento que Dei, o Meu maior empenho consistirá em Promover o bem da Nação, cujo sólio Ocupo. Fiel aos princípios do Governo Representativo, e Respeitando os sagrados preceitos da Lei Fundamental do Estado, Velarei pela sua sincera execução. Farei manter, quanto em Mim caiba, os Direitos, as Garantias, e a Liberdade dos cidadãos portugueses. Empenhar-Me Hei, dentro da esfera das prerrogativas Reais, em promover todos os meios da pública prosperidade. Espero que as Cortes da Nação continuem a cooperar com o Meu Governo, e a prestar-lhe o auxílio necessário, para realizar os benefícios de que o povo carece, afim de gozar das vantagens da civilização, e de colher o fruto dos trabalhos úteis de que provêm a sua felicidade e a glória do Trono. Oxalá que o Reinado que hoje começa obtenha as bênçãos do Todo-Poderoso; que os povos desta Monarquia, que ainda hoje se estende a diversas partes do mundo, possam bem dizer o seu Monarca e o seu Governo; que a Justiça e a Liberdade reinem comigo, que só Posso Considerar-me feliz pela felicidade de todos».
Eram sinceras as palavras do novo Rei: fazer a felicidade de todos, trazer contente e muito ligado a si o seu povo, de modo que gozasse e sentisse a sua afeição, foi sempre essa a norma do seu procedimento. Terminou a solenidade o Cardial Patriarca, aceitando em nome das Cortes o juramento prestado, e não lhe esquecendo, como chefe da igreja lusitana e interpretando o sentir da população católica, de invocar em favor do Rei o auxílio da Divina Providência e o patrocínio da imaculada Virgem, mãe de Deus, especial protectora do Reino e da augusta casa de Bragança. Era a unção religiosa ministrada ao Rei pelo verbo do mais graduado chefe da igreja nacional. E erguendo a voz e o gesto bradou, pedindo que todos bradassem com ele:
  • «Viva e Reine por muitos  e ditosíssimos anos o muito Alto, muito Poderoso e Fidelíssimo Rei de Portugal e Senhor Dom Pedro Quinto: Viva e Reine por muitos e ditosíssimos anos o muito Alto, muito Poderoso e Fidelíssimo Rei de Portugal o Senhor Dom Pedro Quinto: Viva e Reine por muitos e ditosíssimos anos o muito Alto, muito Poderoso e Fidelíssimo Rei de Portugal o Senhor Dom Pedro Quinto».
Cortesia de imprensauniversidadedecoimbra

Das Cortes, e sempre no meio das maiores ovações, o Rei dirigiu-se à Patriarcal, onde assistiu a um solene Te-Deum, e voltando deste acto religioso veio ao Terreiro do Paço, onde o presidente e vereadores da Câmara Municipal lhe fizeram entrega das chaves da cidade.
Era meio-dia; o céu estava encoberto, corria alguma aragem; o tempo sombrio. A uma e meia chuviscava. Às três nublado e bafagem. O Rei, visivelmente incomodado, recolheu ao Paço, ficando a recepção oficial para o dia seguinte. A alegria em toda a cidade, e pode dizer-se que em todo o país, era ruidosa e sincera. Tudo queria festejar a aclamação.
Na véspera o Regente elogiara os Caixas gerais do contracto do sabão e tabaco por passarem cartas de perdão a todos os réus, presos nas diferentes cadeias do Reino e Ilhas por crime de contrabando. Também ofereceram 4 000$000 réis para esmolas aos pobres e desvalidos do concelho de Lisboa.
O Rei concede diferentes mercês aos seus melhores servidores. Em 16 o duque da Terceira é nomeado primeiro ajudante de campo e José Jorge Loureiro, ministro de estado honorário e marechal de campo, é também nomeado ajudante. O barão de Sarmento, que havia sido elevado a visconde ainda pelo Regente, e era dele ajudante de campo, foi nomeado gentil homem da real câmara. O Rei não se esquecia do amigo e confidente da sua infância.
Dias depois concedia-se ao visconde de Carreira o mesmo título, em mais uma vida, na pessoa de seu sobrinho, Luís Bravo de Abreu e Lima. A subscrição, aberta em Lisboa para celebrar a aclamação, entre alguns comerciantes nacionais e estrangeiros na importância de 5 095$000 réis, foi assim distribuída: 4 000$000 destinaram-se à edificação de uma casa de asilo para a infância desvalida no lugar do Campo Grande, e o resto e o mais que se pudesse alcançar, em partes iguais para o Hospício das Irmãs da Caridade e para a nova casa de asilo que se projectava criar no sítio do Barreiro.
Em 20 de Outubro foi decretada a amnistia geral.
Assim se inaugurou o reinado de Pedro V (9).» In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.


Cortesia da AC de Lisboa/JDACT