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domingo, 13 de abril de 2025

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «… às vezes dá a outra metade, prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam…»

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Mary

«(…) Vindo de Madrid, nos próximos dias chegaria a Lisboa um homem, de seu nome Nubar Gulbenkian, filho de um milionário arménio. Ficaria instalado no Aviz, o melhor hotel da cidade. O homem traria informações sobre dois pilotos ingleses da RAF, que estavam a atravessar clandestinamente a Espanha. Mary teria de os fazer entrar em Portugal, sem a PVDE notar, e de os fazer seguir para Londres. Não posso ser eu a falar com o Nubar, explicou Mary. Isso seria desmascará-lo. É um importante apoio nosso, mas tem de permanecer secreto. Se os nazis o descobrem é um desastre. Porquê? Mary olhou para mim, como se a calcular o quanto podia contar. O Nubar é um excêntrico. Passeia-se em Lisboa a pé, com uma bengala, seguido uns metros atrás pelo seu Rolls Royce, que guarda na garagem do Aviz. A sua excentricidade é um bom disfarce. Deu uma curta gargalhada, e acendeu outro cigarro: sabes o que contam dele? Sempre que se senta à mesa dos restaurantes dos hotéis, em Lisboa ou no Estoril, rasga uma nota ao meio e dá metade ao criado que o está a servir, prometendo-lhe a outra metade para o final da refeição, se considerar que foi bem servido.

Como é imprevisível, às vezes dá a outra metade, outras esquece-se, ou não dá a metade prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam uns para os outros, à procura da metade da nota que lhes falta, a ver se algum dos outros a tem! Rimo-nos. Naquela época, Lisboa era também um porto de abrigo de muitos milionários europeus, fugidos à guerra, e a cidade fascinava-se com as características de tão ilustres visitantes. Como é que ele sabe que pode confiar em mim?, perguntei. Mary enviaria a Nubar uma mensagem através de um criado do Hotel Aviz. Era outra característica de Lisboa: os criados dos hotéis eram verdadeiros pombos-correios, além de fontes preciosas de informação. O problema era que alguns também trabalhavam para os nazis.

É um dos nossos, murmurou. Uma certa excitação invadira-me. Sentia-me a ser posto à prova. Mary, contudo, tomou a emoção por receio. Não há perigo nenhum, Jack Gil. É só entrares no hotel, pedires para falar com o homem, e depois transmitires-me o que ele te disser. Não há pistolas fumegantes, nem nazis a espreitar nos corredores. Foi a minha vez de dar uma gargalhada: és muito persuasiva! Mirou-me através do seu copo de brandy, e a sua cara surgiu-me deformada pelo vidro e pelas pedras de gelo: confio em ti, Jack Gil. Não sei bem porquê. Ou talvez saiba... Talvez saibas? Desviou o copo, fazendo contacto visual comigo: sabes segurar muito bem nas saias de uma mulher. E isso é razão para confiares num homem? Mary levantou-se e caminhou pela sala na direcção da janela. Lá fora, o ciclone aumentara de intensidade. As portadas exteriores das janelas batiam com força contra a parede, produzindo um ruído desagradável.

Está feio, comentou Mary, observando a rua, e repetiu o que dissera horas antes no carro. Deve ser por isso que hoje não há ninguém a ver ninguém. Era como se o facto de não existir ninguém a observá-la a libertasse da opressão. Foi talvez nesse momento que percebi que era muito infeliz em Lisboa. A sua solidão comoveu-me. Com o passar dos meses viria a confirmar que, sem filhos e com um casamento moribundo, Mary estava à beira de um colapso. Achas que Salazar está a dormir?, perguntou ela, mudando de novo o rumo da conversa. Passava da meia-noite. Dizia-se que Salazar dormia pouco, mas era provável que àquela hora estivesse deitado. Acho que sim. Mary sorriu: um ditador nunca dorme. Pode ser neutral, mas não dorme»» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Espionagem,

sábado, 13 de janeiro de 2024

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Carminho apareceu a meio da tarde com o cabelo cortado curto, imitando o penteado à refugiada. (…) Estranhei a mudança. A sua cara bonita, os olhos castanhos tranquilos, a boca fina, o seu pequeno nariz, ganhavam uma nova luz. Recordo-me bem do alvoroço em que fiquei ao vê-la»

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Mary

«Michael revelou-se desapontado: É pouco. Depois descobriu um pequeno motivo de alegria: Olha, o Novidades! Vá lá, pelo menos temos o Cerejeira e a Igreja. Cristo está connosco. Para o animar, enumerei mais alguns títulos que me pareciam pro-ingleses: O Diário de Lisboa, o República, e os dois do Porto, o Primeiro de Janeiro e o Comércio do Porto. E as revistas... Sim, confirmou Michael. A Guerra Ilustrada e O Mundo Gráfico. São as únicas mesmo bem feitas! Na realidade, não eram revistas portuguesas: O Mundo Gráfico era americana e A Guerra Ilustrada uma tradução do original inglês. Ambas muito populares, tinham excelente qualidade gráfica. O meu amigo rematou: Metade são nossos, metade são dos nazis! Estranho país este. Mas a tua Carminho que cante obrigado, Portugal, ela que vá cantando...

Embora a censura do regime vigiasse a imprensa, a divisão de opiniões reflectia o estado do país. Em 1941, Portugal estava rachado ao meio nas suas simpatias. Famílias, povo, imprensa, círculos do poder, dividiam-se entre o partido anglófilo e o partido germanófilo, ambos em luta pela alma e pela simpatia dos portugueses. Continuámos a andar e passámos em frente do Hotel Avenida Palace. Michael não olhou para o edifício, mas encostou-se a mim, baixou a voz e disse, em tom conspirativo: Há um corredor secreto que liga o cais dos comboios do Rossio a um dos andares superiores do hotel. Assim, os alemães conseguem entrar sem terem de passar pelo controlo da polícia.

Não fazia ideia como ele sabia tais coisas, e absorvia as histórias, deslumbrado com os seus conhecimentos da vida secreta lisboeta. Vais agora ao Aviz?, perguntou. Olhei para o relógio. Eram seis e meia. Ficara de estar às sete no hotel, para me encontrar com Nubar. É melhor apanhares um táxi, sugeriu Michael. Olhei na direcção do Marquês de Pombal e observei a Avenida da Liberdade, barulhenta e tumultuosa. Dali até ao Aviz era um longo caminho. Se fosse a pé não chegaria a horas. E tu?, perguntei.

Não te preocupes. Tenho a minha faca nova. Apertámos as mãos, bem-dispostos. Ele perguntou: Já viste a nova secretária lá da Embaixada, a Rita? Não. Veio com o Ralph. Novo chefe, nova miúda. Sorri: É gira? Michael deu um sonoro assobio: Gira é pouco. Olho azul, cabelo loiro, bela poitrine! Bompernasse? Rimos. Do melhor que tenho visto nos últimos meses, afirmou. Melhor que a belga?

A belga era uma entidade mitológica para nós. Chamada Stephanie, tínhamo-la conhecido em Agosto de 1940, à porta da Pastelaria Suíça, atarantada com o calor, à procura de uma pensão. Passámos uma tarde na esplanada a conversar com ela, enfeitiçados, a olhar para aquela cara loira, para aquelas pernas enormes, para aqueles peitos volumosos. Mas, apesar de ambos a termos levado a uma pensão na Alexandre Herculano, nenhum a tinha conquistado. A belga adquirira assim um estatuto único: deusa inacessível, corpo divino, mulher belíssima, termo de comparação permanente, nostalgia de um romance nunca consumado.

Não, disse Michael, fingindo uma tristeza profunda. Melhor que a belga já não se fabrica. Rimos outra vez. Reanimado, o meu amigo rematou: Mas a Rita é uma truta! Tenho de a conhecer! Um dia destes passo por lá só para a ver! Michael aproveitou para me espetar uma bandarilha no cachaço: Vais tentar ser, uma vez na vida, o primeiro e não o último da lista?

Definitivamente, o meu caso com Mary tinha-o incomodado. Continuava a tentar desviar-me dela. Primeiro Carminho, agora Rita. Encolhi os ombros e dirigi-me para a paragem de táxis. Uns momentos depois, ouvi-o chamar: Jack! Virei-me. Deparou-se-me o seu olhar sério, a cara fechada, e uma voz preocupada, que me disse: Cuidado com o coronel…

O que se passou entre mim e Carminho? Depois de 54 anos, em frente ao Condes e à paragem onde naquela tarde de Março apanhei o táxi para o Hotel Aviz, continuo sem resposta para tal pergunta.

No dia do espectáculo por ela organizado, Carminho apareceu a meio da tarde com o cabelo cortado curto, imitando o penteado à refugiada. A moda trazida pelas estrangeiras, depois de vilipendiada pela alta sociedade lisboeta, era agora imitada pelas raparigas portuguesas.

Estranhei a mudança. A sua cara bonita, os olhos castanhos tranquilos, a boca fina, o seu pequeno nariz, ganhavam uma nova luz. Recordo-me bem do alvoroço em que fiquei ao vê-la. Quando, um ano antes, conhecera Carminho num jantar no Hotel Palácio, sentira-me atraído pela sua serenidade, a paz que a sua companhia me proporcionava. Carminho não era daquelas mulheres que enche uma sala. Pelo contrário: era discreta, tímida, escondia-se de qualquer tipo de protagonismo e falava pouco.

Ao mudar o penteado, parecia querer mudar de personalidade. Ficava mais bonita e desejável, mas perdia o recato e isso assustou-me. Lembro-me de que senti um forte desejo e que a tentei beijar. Naquele dia, ainda estava convencido de que sentia amor por ela. Não, aqui não, vem aí o meu pai. Carminho afastou-se, recusando o meu beijo, embora no olhar brilhante revelasse contentamento com a minha manifestação. O general na reserva Joaquim Silva entrou na sala. Os seus cabelos, completamente brancos, estavam penteados para trás, luzidios devido à brilhantina. A testa alta recuperava-lhe o porte imponente que se via nas fotografias dos seus tempos de juventude, espalhadas pela casa. Vinha vestido com a sua farda de gala, impecavelmente engomada. Era um homem vaidoso, sempre bem barbeado e perfumado». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Literatura, II Guerra Mundial, Conhecimento,

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Paz sim, mas sossego?, irritou-se Michael. Aos judeus, colocam-lhes um J no passaporte e, se puderem deixam-nos na fronteira! Aos refugiados, quando não os podem mandar imediatamente para o navio, a caminho do Brasil e da América, enviam-nos para as praias!»

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Mary

«A afirmação tinha um duplo sentido, pois ele andava a namoriscar uma secretária da Embaixada americana, Janice. É bonita, disse eu, enquanto passava um dedo sobre a lâmina. Cuidado, não te cortes, avisou. É tão afiada que a casca das maçãs fica fina como uma folha de papel.

Admirei a arma e depois devolvi-a ao meu amigo, que a recolocou no coldre com cuidado, guardando o conjunto no bolso interior do casaco. Deu novo gole na aguardente e pousou o copo. Baixou a voz:

Os alemães andam a queixar-se cada vez mais ao capitão Lourenço. A semana passada, um padre do Barreiro foi chamado à PVDE. Acusaram-no de fazer sermões contra a Alemanha. Reflecti. Se eles chegavam ao ponto de perseguir padres, fazer o mesmo ao coronel Bowles era fácil. Michael afastou-se do balcão e eu segui-o. Quando saímos para a rua, perguntou-me: E como vai a Carminho?

Michael nunca antes me perguntara por Carminho. Estaria a fazê-lo apenas porque se sentira enciumado com o meu caso com Mary? Ou estaria a tentar proteger-me, recordando-me a minha noiva oficial para me afastar de uma relação com Mary, que comportava riscos, devido às imprudências do coronel? Fomos ontem ao cinema, a Carminho, a irmã e eu. Fomos ver a estreia de Rebecca, do Alfred Hitchcock. Estavam lá o Lawrence Olivier e a mulher, a Vivien Leigh, que vieram de propósito cá para fazer publicidade ao filme. Michael não ficou impressionado. Era comum, naqueles tempos, virem a Lisboa muitos famosos de Hollywood. A mando da censura, os jornais davam enorme destaque às suas estadas, com o óbvio propósito de distrair a população. Ela tem andado bastante ocupada - continuei. Organizou uma festa para as vítimas do ciclone, e conseguiu que alguns estrangeiros participassem. Até a Josephine Baker cantou!

Os artistas estrangeiros não podiam actuar em Portugal, tal como os refugiados estavam impedidos de trabalhar. Porém, o general na reserva Joaquim Silva, pai de Carminho, era amigo de Salazar, e movera as suas influências. Assim, uma excepção foi concedida, e o público ouviu a voz de Josephine Baker, uma célebre cantora da Broadway, que fugira de Paris depois de ter sido acusada de espionagem pela Gestapo. E viva Salazar, ironizou Michael.

Como correu bem, continuei, a Carminho quer organizar mais espectáculos. Falou com umas pessoas do jornal O Século, e formaram uma comissão. Do Século? Esse é dos nossos, comentou Michael, entusiasmado. Sabes o que se passou lá? Contou-me que um dos jornalistas enchera as instalações de emblemas da RAF e bandeirinhas portuguesas e inglesas, com o ámen do director. Para o meu amigo, era uma pequena mas saborosa vitória. Acrescentei que a comissão já tinha uma canção pronta, um hino para os espectáculos:

O título é: Obrigado, Portugal! Michael estacou de repente: Obrigado, Portugal? Obrigado, Portugal, porquê? Abri os braços: Então não estamos a receber bem os refugiados? Michael abanou a cabeça, desagradado: Jack, não me insultes. Não repitas a propaganda de Salazar. Ripostei: Propaganda? Ora essa, então não somos o único país da Europa onde eles podem viver em paz e sossego? Paz sim, mas sossego?, irritou-se Michael. Aos judeus, colocam-lhes um J no passaporte e, se puderem deixam-nos na fronteira! Aos refugiados, quando não os podem mandar imediatamente para o navio, a caminho do Brasil e da América, enviam-nos para as praias! Para a Ericeira, para a Costa de Caparica, para a Figueira da Foz. Pelo menos apanham sol, e tomam banhos de mar!, exclamei.

Michael recomeçou a andar, indignado: E os que ficam por aqui são depenados! Até para irem à casa de banho nos cafés têm de pagar! Os donos das pensões cobram-lhes fortunas, e os senhorios pedem um dinheirão por um quartito! Já para não falar num apartamento mobilado! Infelizmente, era verdade. Muitos portugueses lucravam com a situação dos refugiados. Às vezes, mal chegavam às fronteiras, compravam-lhes a preços insultuosos as jóias, os casacos, até as roupas. Obrigado, Portugal, repetiu Michael, com desdém. E os vistos, e os bilhetes? Há imensos que são enganados pelas agências: pagam mais de 50 contos pelos bilhetes e pelos vistos e ficam a ver os navios partir sem eles!

Suspirou fundo. Estávamos a passar em frente de um quiosque, a caminho dos Restauradores. Michael parou e observou os jornais. Olha para isto! Vês como os nazis são fortes neste país? Repara nisto, e apontou com o dedo para as bancas. O Sinal, A Voz, A Acção é tudo deles! A Esfera também! O Diário de Notícias e o Diário da Manhã, a mesma coisa, tal como aqueles ali, e apontou para o Diário Popular e o Jornal de Notícias, resmungando: Tudo boche. E nós, o que é que temos? Apontei noutra direcção: Bem, temos o Anglo Portuguese News! E não disseste que O Século era dos nossos?» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Literatura, II Guerra Mundial, Conhecimento,

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Sabes onde hai água? O rapaz respondeu: Há uma fonte numa rua, ali por detrás daquelas casas... Fazendo uma careta assustadora, o salafrário ameaçou-o novamente: Se my mientes, te arranco el corazón com los dientes...»

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«Dos vários personagens que conheci naqueles estranhos dias, o rapaz foi curiosamente o primeiro que vi. Cruzámos os nossos destinos logo na primeira manhã, e quando falei com ele já sabia o que tinha feito, a coragem que revelara. Hoje, tenho pena de não o ter elogiado. Talvez as coisas tivessem sido diferentes, talvez tivesse olhado para mim com outros olhos. Mas não foi assim e não há nada que possa fazer para mudar a história. O rapaz estava ainda próximo da arruinada Igreja de São Vicente de Fora quando se deu o terceiro abalo. Embora determinado a procurar a irmã, não lhe fora fácil atravessar aquele descalabro. Não existiam ruas, nem casas, nem prédios onde antes tinham existido. Quando a nuvem de poeira levantou, viu no meio daquela irrespirável bruma o Castelo de São Jorge e mais em baixo a Sé, e foi assim que se orientou em direcção a sua casa, próxima da Igreja da Madalena.

Naquelas circunstâncias, andar era difícil: havia fendas inesperadas e fundos precipícios no terreno; as ruas apresentavam-se impedidas, atulhadas de pedras. Demorou a aproximar-se do Castelo e das suas muralhas. Os mortos atapetavam o chão, em posições complexas, semelhantes a estátuas esculpidas por desvairados. As pessoas corriam, atarantadas, como as crianças perdidas, aos berros.

O rapaz prosseguiu, determinado. Próximo da Graça, uma pequena multidão observava o Rossio, em baixo, e a colina oposta, do Bairro Alto. Nada era como tinha sido. A cidade abatera, como que deitando-se no chão, e nem os seus edifícios mais simbólicos haviam escapado. Na praça, o Hospital de Todos-os-Santos era o único que parecia intacto, mas ao seu lado tanto o Convento de São Domingos, como o Palácio da Inquisição, haviam sido fortemente atingidos.

Na encosta do Castelo de São Jorge e mesmo em Alfama, o rapaz também só via desolação, e perguntou a si próprio o que teriam feito para merecer tal castigo, mas não encontrou razão. Por isso, cessou de procurar motivos e continuou a descer para a Sé, e com ele desciam muitas pessoas que tinham subido para as festas em São Vicente de Fora e agora regressavam às suas casas. Eram já pessoas diferentes, mudadas para sempre, partidas por dentro, cheias de mágoa e desespero e medo do futuro. Tinham ido encontrar-se com Deus naquele feriado e haviam sido massacradas de uma forma inimaginável.

Ao passar perto da Sé ouviu tiros. Deviam ter fugido prisioneiros do Limoeiro e os soldados tentavam abatê-los, foi a sua conclusão, e decidiu ter precaução, receando ser apanhado no fogo cruzado dos confrontos. Algumas casas tinham ficado intactas, bem como a Sé, que, orgulhosa, apenas mostrava os flancos danificados.

Foi então que, mesmo à sua frente, viu três homens a saírem de uma casa. Arrastavam um desgraçado, provavelmente o proprietário. Atiraram-no ao chão e deram-lhe um tiro, abatendo-o. O rapaz escondeu-se atrás de um monte de pedras e ficou a observar. Um dos homens, mais alto do que os outros dois, parecia ser o chefe. O seu cabelo e as suas barbas eram negros e dos seus olhos e dos seus gestos emanava uma energia maligna. Vasculhou os bolsos do proprietário e retirou um relógio. Depois, os três bandidos reentraram dentro da casa e ouviram-se mais gritos, seguidos de um silêncio mais assustador do que o barulho.

O rapaz aproveitou o momento e recomeçou a andar, mas foi surpreendido pelo regresso abrupto do homem mais alto, que se dirigiu ao morto. O rapaz sentiu medo. O grandalhão observou-o, enquanto vasculhava as roupas do defunto. Sorriu quando encontrou uma chave e depois perguntou ao rapaz: Qué passa? O rapaz não respondeu, mas percebeu que o ladrão era espanhol. Um dos seus companheiros saiu também de casa, trazendo uma mulher pelos cabelos, que implorava: Não, não, por favor, não! O  homem enorme olhou para o rapaz e riu-se, e depois perguntou: Hay visto una mujer morrer? O rapaz respondeu: Sim. A minha mãe. O energúmeno soltou uma gargalhada e perguntou-lhe: Como hay morrido tu pobre madre? O rapaz contou-lhe: Morreu lá em cima, em São Vicente de Fora, na igreja. Executando uma mímica maldosa, o bisonte benzeu-se e murmurou: Paz à su alma... Pero, esta vai gozar mucho más que tu madre... Aproximou-se da mulher, agarrou-a pela nuca e depois ordenou ao seu subordinado: Leva-la!!!

O outro riu e acatou a ordem, mas antes aconselhou-o, apontando na direcção do rapaz: Matá-lo. Muertos no hablam con soldados... O homem mais alto deu nova gargalhada, aproximou-se do rapaz e perguntou: Chico, quieres morrer? O rapaz disse que não. O matodonte agarrou-o pelo cachaço, levou a mão ao cinto e empunhou uma faca, que depois lhe encostou à garganta. A mi me gustan los chicos... Apesar do medo, o rapaz disse: Eu só queria água... O cafageste, ao ouvir falar em água, pensou uns segundos.

Sabes onde hai água? O rapaz respondeu: Há uma fonte numa rua, ali por detrás daquelas casas... Fazendo uma careta assustadora, o salafrário ameaçou-o novamente: Se my mientes, te arranco el corazón com los dientes... Não, gemeu o rapaz, é verdade, há água ali. O Cão Negro libertou-o e ordenou: Vien. Entraram os dois dentro de casa. No meio da sala, em cima de um sofá, a mulher estava deitada de costas, com as saias levantadas, e um dos outros espanhóis, já com as calças a meio dos joelhos, preparava-se para penetrá-la.

Ei cabrón, gritou o Cão Negro. O companheiro voltou-se para trás, aflito, e riu nervosamente. Ei, Cã Niegro, también tenemos derecho... O chefe ergueu-lhe o punho à frente dos olhos e perguntou: Quien manda? Tu. Entonces, sou yo lo primero. O Cão Negro baixou as calças enquanto o outro se afastava um pouco. O rapaz assistiu aos seus actos. A mulher chorava; e depois do chefe veio o homem que ele afastara, e depois o terceiro homem praticou o mesmo acto, sempre com ela a chorar. O rapaz não podia fazer nada e quando aquilo acabou estava com medo que o quisessem a ele, mas nenhum dos três o quis. O Cão Negro proclamou que ela ainda aguentava outra rodada geral, e todos se riram muito e só depois se lembraram do rapaz, e o Cão Negro mandou-o procurar um jarro, ou uma panela grande, para ir buscar água à fonte, acompanhado por um dos espanhóis». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755, Conhecimento,

segunda-feira, 24 de abril de 2023

A Cruz de Esmeraldas. Cristina Torrão. «Enquanto sacudia a areia da túnica, Johann acrescentou: O próprio pai a vendeu à dona da espelunca, apenas a uma semana da nossa chegada ao Porto»

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«(…) Konrad levantou-se de um salto, pousando os olhos esbugalhados no irmão: Ainda és mais pacóvio do que o que eu pensei, pivete! Que queres dizer com isso?, replicou Johann, enquanto se levantava. Não era de esperar uma coisa dessas? Uma rameira sabe muito bem o que tem de fazer para... Não a chames assim!, gritou-lhe o mais novo. Há três meses que ela é a minha noiva. Não me digas! E a criança também é tua? Ignorando o ferimento do irmão, Johann lançou-se a ele, que, apanhado desprevenido, caiu ao chão. Os dois rolaram sobre a areia, mas, embora Konrad não estivesse nas melhores condições, depressa forçou o outro a deitar-se de costas. Sentou-se em cima dele, como se montasse, e segurou-lhe os braços. O moço tentava libertar-se, berrando: Larga-me! Só quando prometeres respeitar o teu irmão mais velho. Onde já se viu, abalroar-me assim, sem mais nem menos? Sem mais nem menos? Não perdes uma oportunidade de insultar a Ausenda. O que tens contra a rapariga? Toda a gente sabe que ela não se meteu com mais ninguém, desde que deixou o maldito bordel. Konrad caiu em si. Ainda há poucas horas ele confirmara esta afirmação. Largou o rapaz e levantou-se, sem uma palavra. Enquanto sacudia a areia da túnica, Johann acrescentou: O próprio pai a vendeu à dona da espelunca, apenas a uma semana da nossa chegada ao Porto. Pelo jeito dela, até pode ser verdade. Mas não te deixes levar pela pena que ela... Não se trata de ter pena dela. Mesmo que não estivesse prenhe, eu ficaria aqui e casaria com ela. Santo Deus, tu és de origem nobre! Quando é que vais meter nessa tua cabeça que não podes casar com uma moça qualquer? Só podes casar com uma fidalga. O que aliás não te impede de assumires a paternidade da criança da Ausenda e sustentá-la... nem tão-pouco de teres a rapariga sempre que te apetecer...

Acaba com isso! Estou cheio de te ouvir falar dos nossos antepassados com pergaminhos. Do que é que isso me adianta? Sou tão miserável quanto a Ausenda. Recuperaremos a nossa honra na Terra Santa! Para te ser sincero, deixei de acreditar nisso. Ora essa! Porquê? Pensas que lá vai ser muito diferente daqui? Continuaremos a batalhar em cercos destes, meros instrumentos nas mãos dos poderosos! E só com muita sorte sobreviveremos à trapalhada. A nossa própria vida é a nossa única e verdadeira riqueza! Konrad respirou fundo e replicou: Eu não desistirei! Regressarei a Colónia como cavaleiro honrado e rico e vingar-me-ei de todos aqueles que nos viraram as costas!

Alimentar desejos de vingança não está de acordo com a nossa religião. Jesus Cristo era avesso a ideias dessas. Disse que nos amássemos uns aos... Não me venhas com o teu latim de convento! Como queiras, suspirou Johann e acrescentou: Faz o que achas que tens de fazer. Mas sem mim». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

 

Cortesia de Ésquilo/JDACT

 

JDACT, Cristina Torrão, História, Cultura e Conhecimento, Lisboa,

domingo, 23 de abril de 2023

A Cruz de Esmeraldas. Cristina Torrão. «Diz lá, o que se passa? Eu sei que mal podes esperar para seguir viagem... Bem o podes dizer... conquanto sobrevivamos a esta história! Johann respirou fundo e anunciou: Não irei contigo!»

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«(…) Mas não terás febre? Com a fome que tenho?! Os outros riram-se aliviados. Muitas vezes, uma ferida aparentemente inofensiva poderia conduzir à morte, caso infectasse, alastrando o seu veneno a todo o corpo. Ausenda mexia com uma colher de pau o conteúdo de uma panela de ferro de três pernas pousada à beira do lume e Konrad perguntou: O Tomé tornou a mandar-nos sopa? Sim, respondeu a rapariga, com toucinho. Cheira tão bem! Já comiam, quando Konrad comentou: Mais uma mina que falhou. Quem haveria de dizer que os mouros resistiriam tanto tempo?, replicou Gunther. E hoje não deram só cabo do nosso túnel, acrescentou Nadwig. Também neutralizaram um ataque português à alcáçova. É mesmo?, admirou-se Konrad. Os portugueses tornaram a trepar às muralhas? Não, respondeu Johann. Desta vez atacaram a porta perto da torre da cisterna. E o que é que falhou? Ainda não sabemos, respondeu Hadwig. Mas, ou muito me engano, ou os nossos dois amigos nos virão informar, depois da ceia.

Assim aconteceu. Julião, e Tomé vinham agitados, clamando que naquele dia tinha morrido um herói! Contaram uma história curiosa sobre um grupo de portugueses que, ao notarem que os mouros tentavam fazer uma surtida pela porta da alcáçova, os atacaram. Ao verem-se descobertos, os muçulmanos logo regressaram ao seu refúgio. E preparavam-se para fechar a porta, quando um cavaleiro português, de nome Martim Moniz, não se conformando com o desfecho da refrega, se precipitou sozinho para o meio dos infiéis. Ao mesmo tempo que lutava com uma horda deles, assim contavam Julião e Tomé, atravessou-se na porta, impedindo que esta se fechasse e permitindo que alguns dos seus companheiros entrassem na alcáçova...

Acabou por morrer esmagado. E os portugueses que já haviam entrado não tiveram muito melhor sorte. O seu acto, porém, juravam Julião e Tomé, servia de exemplo a todos os guerreiros. Os dois estavam convencidos de que, durante todo o cerco, ainda não tinha havido um herói como Martim Moniz!

A Konrad, que naquele dia também enfrentara perigos, salvando vários companheiros da morte certa, não lhe apetecia continuar a ouvir os elogios com que os dois portugueses enchiam o tal cavaleiro. Sentindo-se com forças, depois de matar a fome, levantou-se, lançou a sua capa pelos ombros e, com o punhal enfiado no cinto, caminhou até à margem do rio. Preparava-se para se sentar na areia, quando olhou para a sua direita. Archotes iluminavam o cimo das muralhas, junto à Porta de al-hammã.

De novo atingido por aquela atracção estranha, foi-se aproximando da cidade. Apercebia-se dos movimentos das sentinelas mouras, mas a escuridão à sua volta impedia que o inimigo o descobrisse. Quando se encontrava a uns cinquenta passos de distância da Porta de al-hammã, sentou-se no chão.

Apesar de, ao contrário dos seus companheiros, não acreditar no tesouro subterrâneo, não se conseguia livrar do pressentimento de que esta cidade tinha algo de importante para lhe oferecer. Tinha quase a certeza de que um dia atravessaria uma das portas de Lusbuna, a fim de encontrar algo que lhe pertenceria! Mas o quê? Esta ideia era tão absurda, porquanto ele considerava este cerco uma perda de tempo que o impedia de alcançar a Terra Santa.

Nesta noite, sentado sozinho no meio da escuridão, estes pressentimentos iam ainda mais longe: algo lhe dizia que ele não mais deixaria Portugal! Os cabelos da nuca arrepiaram-se-lhe, pois só encontrava uma explicação para isso: acabaria no cemitério dos cruzados alemães e flamengos, na colina a leste de Lusbuna!

Ouviu passos atrás de si e pôs-se de pé num salto, enquanto desembainhava o punhal. Mas deparou apenas com Johann. Que estranho o rapaz vir ter com ele! À noite, não se separava nunca da sua amada Ausenda. Preciso de falar contigo, anunciou Johann, de olhos postos no chão. Desconfiado, Konrad tomou a sentar-se, no que foi seguido pelo irmão. Esperava pelas palavras do rapaz, mas este emudeceu, enquanto fazia desenhos na areia com um pauzito. Ausenda ter-se-ia queixado? Konrad amaldiçoou-se por aquele seu momento de fraqueza. A última coisa que pretendia, seria causar um desgosto ao Johann. Mas responderia pelo seu acto e, como o rapaz não se resolvia a falar, ele decidiu encorajá-lo:

Diz lá, o que se passa? Eu sei que mal podes esperar para seguir viagem... Bem o podes dizer... conquanto sobrevivamos a esta história! Johann respirou fundo e anunciou:  Não irei contigo! Que estás para aí a dizer? O rapaz pousou finalmente os olhos castanho-claros nos do irmão e insistiu: Ficarei aqui. Depois de uma curta hesitação, Konrad inquiriu: Mas porquê? Disse ou... fiz alguma coisa que te aborrecesse? Johann olhou-o cheio de espanto: Tu? Não, que ideia. Tem mais a ver com a Ausenda. Pensei em levá-la comigo, mas... A viagem seria perigosa demais para ela...

Perigosa? Ela é magrinha, mas rija. É das poucas pessoas em todo o acampamento que ainda não teve que se ver com uma diarreia das fortes. Não me deixaste acabar. Ela... está prenhe!» In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

 

Cortesia de Ésquilo/JDACT

 

JDACT, Cristina Torrão, História, Cultura e Conhecimento, Lisboa, 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Domingos Amaral. Quando Lisboa Tremeu. 1755. «Gritei, procurando saber se estava ali alguém vivo, mas ninguém me respondeu. Ainda tentei escavar um pouco, afastar o entulho, mas depressa concluí que só avançaria se tivesse uma pá»

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«(…) Esta conversa entre o rapaz e o vizinho deve ter ocorrido cerca de meia hora antes de eu o ver pela segunda vez. Muhammed e eu ficámos junto à fonte, a beber e a descansar, e depois, não vendo o Cão Negro nas redondezas, decidimos descer, a caminho do Terreiro do Paço e do rio. A encosta onde ficava a Sé apresentava enormes danos nos edifícios, a grande maioria deles tinham sofrido derrocadas ou estavam esventrados ao meio, com os interiores à mostra.Como se fossem bolos a quem alguém havia cortado uma grande fatia exibiam os interiores, partes de quartos, camas, cadeiras, até lavatórios, suspensos no ar, presos por traves periclitantes. Roupa, utensílios íntimos, penicos, sapatos, colchas, formavam uma estranha mistura de cores, pedaços de madeira e tijolos soltos. Fomos descendo, quase sempre em silêncio, como que fazendo uma homenagem muda às vítimas do cataclismo, até chegarmos à zona da Igreja da Madalena. De repente, vimos um cão, um animal bonito, preto, com o pêlo brilhante, bem escovado. Passou por nós a abanar o rabo e a correr. Subiu um monte de entulho e começou a ladrar, entusiasmado, na direcção de outro monte de entulho. Depois, desceu, colocando as suas patas com cuidado, para não se ferir nas pedras e nas pontiagudas madeiras que emergiam do chão. Um vulto saiu de um buraco na terra e abraçou o cão com contentamento.

Percebi que era o mesmo rapaz que vira na fonte. Muhammed e eu aproximámo-nos e, quando chegámos a poucos metros, o rapaz viu-nos e ficou tenso. Examinava as nossas roupas desconfiado. Quem são vocês?, perguntou. Muhammed tossiu e chamei o cão com um assobio. Veio ter comigo e passei-lhe a mão pela cabeça, fazendo-lhe festas. O cão parecia contente e abanava muito o rabo. O rapaz observou-me sem dizer nada. É bonito, o teu cão, afirmei. O rapaz assobiou e o cão correu para ele. Depois, deu umas passadas rápidas para o lado, e enfiou-se por um buraco. Ouvimo-lo ladrar, e era um ladrar persistente, como se estivesse a chamar por alguém. O rapaz, ao ouvi-lo, desinteressou-se de nós e correu para o buraco, enfiando-se lá dentro. Espreitei: era uma espécie de passagem, onde uns degraus nasciam, um metro abaixo do nível do solo. O rapaz e o cão reapareceram. Acho que a minha irmã está lá em baixo. E tenho a certeza de que está viva, disse o rapaz. Examinei aquele aglomerado de pedregulhos e cascalho, e perguntei: A tua casa era aqui? O rapaz contou que estava em São Vicente de Fora, com a mãe, na missa, quando o terramoto os atingiu. A igreja abatera em cima da mãe, que morrera. Salvara-se porque saíra da igreja um pouco antes, pois queria regressar a casa, à procura da irmã, que ficara para trás com o padrasto. E o teu padrasto, onde está? O rapaz baixou a cabeça, desanimado. Está morto, vi o corpo dele lá em baixo. Mas o cão está agitado, sente que ela está viva. Bufei: Não sei, isto está tudo destruído. Chamaste por ela? O rapaz chamara, mas não ouvira a voz da irmã a responder. Podem ajudar-me a procurá-la?, perguntou. Já pedi ajuda a vários homens, e ao meu vizinho, que estava aqui há pouco, mas ninguém me quis ajudar.

Olhei para Muhammed. O árabe roía as unhas, nervoso. Sabia que ele ficava assim na presença de rapazinhos, e sabia também que nós éramos prisioneiros em fuga, e que devíamos sair da cidade o mais depressa possível. O rapaz insistiu: Posso dar-vos comida, se quiserem. Descobri lá em baixo carne e pão, e uma panela com batatas cozidas. Devia ser o nosso almoço, quando voltássemos da missa.

Ao ouvi-lo falar em comida, Muhammed aproximou-se, sorridente. Santamaria, Muhammed ir ter fome. Muhammed ir comer, depois ir ajudar. Sorri e aceitei a oferta do rapaz. Então, ele desceu ao buraco e regressou com uma panela. Sentámo-nos os três a comer, saboreando o repasto. Quando acabámos, o rapaz olhou para mim: Tu és mais alto, podes chegar mais longe. Concordei e desci pelo buraco. O rapaz seguiu-me e o cão também. À minha frente, num espaço escuro e coberto de argamassa e caliça, existiam elevações irregulares de pedras e madeira. Uma trave grande impedia o avanço. O rapaz explicou: Isto é a entrada da cave. Se conseguires remover essa trave, podemos passar. Lutei com o toro até que o consegui rodar. Empurrei-o para a direita, deixando uma abertura maior por onde podia passar. Contudo, muita poeira e pedras caíram em cima de mim, do rapaz e do cão. É melhor irem lá para fora, disse eu. Isto é perigoso. O rapaz e o cão saíram. Avancei, passando pela trave, e vi-me numa espécie de corredor, mas as suas paredes estavam destruídas, e havia uma enorme quantidade de pedras no chão, que se confundiam com o tecto daquele local. Podia acontecer um desabamento a qualquer momento, mas fui avançando até onde podia. Uns metros à frente, o monte de entulho crescia, impedindo-me de continuar até ao fundo da cave. Gritei, procurando saber se estava ali alguém vivo, mas ninguém me respondeu. Ainda tentei escavar um pouco, afastar o entulho, mas depressa concluí que só avançaria se tivesse uma pá.

Dei meia volta e de repente vi um vulto deitado. Rastejei até lá. Era um homem e estava morto, mas o que me chamou a atenção foi o facto de a sua garganta ter sido cortada por uma facada. Saí e expliquei ao rapaz ser impossível ir mais longe. Convicto, ele afirmou: – Então, vou procurar uma pá e tu ajudas-me a remover a terra. Bufei de novo. Há um homem morto, lá em baixo. Foste tu que lhe cortaste a garganta? O rapaz ficou muito sério, mas disse que não, e repetiu o que já me contara: encontrara o padrasto morto, mas não sabia que ele estava com a garganta cortada. Não tenho nada a ver com isso, mas também não quero vir a ter, disse eu. O homem foi assassinado. Não vou ficar aqui para me acusarem depois. Muhammed concordou. O rapaz ficou indignado: Mas, eu ajudei-vos! Dei-vos de comer. Prometeste que me ajudavas a procurar a minha irmã! Dei dois passos na direcção dele e disse: E ajudei, fui lá abaixo. Chamei e não se ouve nada. Não vi a tua irmã e vi o teu padrasto degolado. Para mim, chega. Saímos dali e nas minhas costas só ouvia os protestos e os insultos do rapaz: Mentiroso! És um mentiroso! Vocês são uns bandidos, se vir os guardas denuncio-vos! Duas pedras aterraram próximo de mim, e virei-me para trás. Com receio, o rapaz mergulhou no buraco, seguido pelo cão. Depois, espreitou, colocando só a cabeça de fora e gritou mais uma vez: Mentiroso!» In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755, 

domingo, 2 de janeiro de 2022

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Após algum tempo, o rapaz parou, desanimado, e sentou-se no chão. Na verdade, estava tão espantado e confundido que nem sequer tinha a certeza de aquela ser a sua casa, pois nada parecia o que era dantes. Pessoas nuas ou vestidas apareciam e desapareciam…»

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«(…) Ao narrar-me este episódio, Hugh Gold agarrou-se à barriga, à gargalhada: Sim, I know! Divertidíssimo, virou-se para mim: Good lord, cos diabos, where was my cabeça, my head? Tell this ao marido da senhora Locke, to the husband? Hell, he could ask: Como senhor sabe? How do you know, capitão? O que lhe respondia, what, hell? I know porque folgar Fridays with your wife! And ela adormece, sleeps, and ressona, seu cornudo! O capitão Hugh Gold deliciava-se com o ascendente que tinha sobre o senhor Locke por cobrir a mulher dele. É sempre assim com os amantes das mulheres casadas: há aquele sentimento de superioridade sobre o outro macho que os inebria, e os faz sentirem-se mais fortes do que o enganado. Good lord, cornudo e avarento, the poor man, rematou Hugh Gold. More money than me! Mas, what the hell, cos diabos, me fu… his mulher, wife dele! O capitão Hugh Gold não conseguia parar de rir, talvez para me impressionar, ou ao meu amigo Muhammed, sem saber que, nessa noite, mais alguém o ouvia e reflectia seriamente sobre aquelas palavras.

Além de procurar a irmã, o rapaz andava também à procura do cão. Desde a noite anterior que não sabia dele, e estranhara aquela ausência. E agora, ao olhar para o que fora a sua casa, pensava no cão e no que lhe teria acontecido, e no quanto ele o poderia ajudar a procurar a irmã. O cão era muito inteligente e sabia perfeitamente o que fazer quando ele falava no nome da irmã. Por vezes, o rapaz perguntava ao cão: Onde está a Assunção? E o cão lá ia procurar a irmã e depois ladrava para avisar o rapaz de que a tinha encontrado. Portanto, se num dia normal ele era capaz disso, naquele dia tenebroso ainda seria capaz de mais. Só que o cão não estava em parte alguma, nem respondia aos chamamentos. Após algum tempo, o rapaz parou, desanimado, e sentou-se no chão. Na verdade, estava tão espantado e confundido que nem sequer tinha a certeza de aquela ser a sua casa, pois nada parecia o que era dantes. Pessoas nuas ou vestidas apareciam e desapareciam, almas perdidas a vaguearem por caminhos que julgavam que conheciam, mas agora desconheciam. Às vezes, quando passavam mulheres e crianças, o rapaz olhava os seus corpos nus e sujos e tinha vergonha por eles. Decidiu explorar os escombros, mas a enormidade do esforço que encontrou pela frente fê-lo pensar em pedir ajuda. Explicou aos caminhantes que a irmã estava dentro de casa, que poderia ainda estar viva, que precisava de a procurar. Mas ninguém sequer parava para o escutar. Algum tempo mais tarde, o rapaz encontrou um dos seus vizinhos, já de uma certa idade, que tinha o braço cheio de sangue e os olhos turvos de lágrimas, e lhe disse: Perdi a minha filha e o marido dela. Estão mortos, ali, apontou. Não sei da minha mulher. O rapaz contou-lhe a sua história e o homem benzeu-se e disse: Ninguém sobreviveu dentro destas casas... E depois acrescentou: Vem comigo, vamos para o Terreiro do Paço. Aqui ninguém nos vai ajudar. O rapaz não quis seguir o conselho do vizinho. Este insistiu: Isto está cheio de ladrões. Entram nas casas e roubam tudo e, se lhes fazemos frente, matam-nos. Não é lugar para um rapaz.

O rapaz sabia disso e contou-lhe o que se tinha passado próximo da Sé, com os espanhóis, e acrescentou: Não vou deixar que eles façam mal à minha irmã. O vizinho fez uma pausa e depois perguntou: Acreditas que ela está viva? O rapaz disse que acreditava. És um rapaz com muita fé, comentou o vizinho. Mas Deus castigou-nos, castigou os pecadores desta cidade. O rapaz garantiu que a irmã não era uma pecadora. O vizinho interrompeu-o: Ela não, mas o teu padrasto... O rapaz emudeceu. A fama do padrasto era conhecida da vizinhança. Ainda hoje de manhã, recordou o vizinho, depois de tu e a tua mãe terem saído para a missa, vi o teu padrasto a conversar com a tua irmã e pela cara dele percebia-se o que estava a dizer... Foi a vez de o rapaz o interromper: Ela nunca deixaria que ele lhe fizesse alguma coisa. Não é dessas. O vizinho confirmou com um aceno de cabeça, mas acrescentou: Mas ele é um homem forte... Não, gritou o rapaz. Ele não lhe fez mal! Se lhe fez, mato-o! O vizinho sentiu a sua raiva, baixou os olhos e disse: Lisboa está perdida... Deus castigou-nos... O rapaz, agora muito agitado, perguntou: Viu o meu padrasto depois do que aconteceu?

Não. A última vez que o vi foi aqui à porta, a falar com a tua irmã, a rir-se para ela, contou o vizinho. Depois, ela entrou em casa e fechou a porta, e ele... O rapaz interrompeu-o: Não fale do que não viu. O vizinho questionou-o: Estás a acusar-me de lançar falsos testemunhos? O rapaz respondeu: Não. Vá-se embora, se quiser, deixe-me sozinho, vou continuar à procura da minha irmã. Depois de dizer isto, o rapaz regressou ao local onde antes ficava a porta de sua casa e começou a afastar as pedras e as traves. O vizinho deu meia-volta e foi-se embora». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755,

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Se continuasse até ao Rossio, podia depois subir até Santa Marta, e o seu amigo certamente o acolheria. Sorriu, ao pensar que ainda na véspera…»

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«(…) O profetista revelou o seu acordo com a sugestão: queria dirigir-se depressa ao Terreiro do Paço, à procura de um lugar num barco. Bão bocês os dois, disse irmã Alice, e fujam prò Vrasil. Eu num cunsigo. É muito longe, a perna nã me dexa caminhar. Decidido a pôr-se a caminho, o profetista perguntou a irmã Margarida: Cê vem? Ela queria ir, mas não podia deixar irmã Alice ali, naquele estado. Abanou a cabeça: Não a deixo aqui sozinha. Vai andando, nós vamos mais devagar. Ficaram as duas a vê-lo afastar-se, a caminho da zona a que chamavam Baixa, onde antes havia tantos prédios e tantas ruas e agora só existiam ruínas e poeira. Sempre com o seu terror íntimo das chamas, irmã Margarida contou-me que já àquela hora se começavam a ver colunas de fumo negro, provenientes de pequenos incêndios. A freira mais velha comentou que o profetista não devia ter tomado aquela direcção, pois ia cruzar-se com os fogos. Um arrepio percorreu a espinha de irmã Margarida, ao lembrar-se do destino que lhe estava reservado, o de morrer numa fogueira. Benzeu-se. Tens medo do fuago?, perguntou irmã Alice, ao vê-la benzer-se. Sim.

A freira mais velha observou-a e depois tocou-lhe com um dedo no pescoço, nas marcas da corda com que ela tentara enforcar-se. Qué isto? A rapariga bonita baixou os olhos envergonhada. A outra esperou que ela falasse, mas como isso não aconteceu ofereceu voluntariamente uma história. Mê pai morreu tinha eu oito anos. Matou-se, tinha díbidas e vevia muito. Saves cumo ele se matou? Não, respondeu irmã Margarida. Atou uma corda a um carbalho grande que habia perto de nossa casa, e enforcou-se. Lemvro-me de ber o corpo dele, já morto, pendurado lá no alto, e lemvro-me de uns bizinhos nossos o terem vaixado, e lemvro-me da cara dele, e das marcas da corda no pescoço. Olhou para a rapariga: Cumo essas... Depois, sorriu e acrescentou: Tens mesmo de fugir... Determinada, fez um esforço para se levantar. Irmã Margarida deu-lhe o braço e as duas recomeçaram a caminhar. Num bamos por aquele lado, decidiu irmã Alice, apontando para os fumos dos incêndios. Num te quero mais assustada do que já tás. Irmã Margarida sorriu-lhe, com um sentimento de gratidão. Saíram do Rossio pelo canto esquerdo, como se fossem para a Sé ou para o Castelo, e a última vez que irmã Margarida olhou para trás viu ao longe as vestes brancas de dois guardas da Inquisição (maldita), que procuravam prisioneiros evadidos.

Irmã Alice era, sem dúvida, uma mulher inteligente. Conseguira afastar-se do palácio e do convento, fugindo aos guardas, e conseguira também afastar o profetista, fingindo-se incapaz de ir até ao Tejo. Depois, manipulara o medo do fogo que a rapariga sentia, um medo que ela associava à prisão, à solidão, à morte. Em pouco tempo, dominara-a, obrigando-a a acompanhá-la.

Quando recordamos uma história que se passou há um ano, tentamos colocar os acontecimentos por ordem cronológica, para que possamos olhar para o que aconteceu de uma forma lógica e compreensível. É evidente que não assisti a muitos dos factos aqui descritos, e só soube deles através dos próprios, quando me contaram, ou de terceiros. Não sei, por isso, se tudo o que conto é verdade, se aconteceu exactamente assim, mas não tenho outra forma de o fazer, pois não? Além disso, é evidente que as histórias que conto, e a forma como o faço, também transportam os meus sentimentos sobre as pessoas, sejam elas bons ou maus, e as minhas opiniões, sejam elas justas ou injustas. Mas como poderia ser de outra forma? Recorro à minha memória para ordenar as emoções e os factos, mas a minha memória não é independente de mim, das minhas ideias e dos meus sentimentos, pois não?

Quando Hugh Gold conseguiu finalmente raciocinar, pensou no que fazer a seguir, como reorganizar a sua vida. Talvez se devesse dirigir a casa do embaixador. Se continuasse até ao Rossio, podia depois subir até Santa Marta, e o seu amigo certamente o acolheria. Sorriu, ao pensar que ainda na véspera, antes de ir ter com a senhora Locke, estivera a jantar com o embaixador na casa do marquês de Marialva, no seu grande palácio, cujo pátio estava cheio de cavalariças e estrumes e onde os porcos passeavam alegremente, à solta. A fauna era vasta e colorida, criados e criaditas, frades e boticários, toureiros e brigadeiros, todos a escutarem, contentes, os fadinhos cantados no pátio e as anedotas contadas à varanda. O repasto fora suculento, numa sala aquecida pelos braseiros, e haviam saboreado os doces e os guisados com gosto. Fora um serão divertido e, no final, tanto ele como o embaixador seguiram para os encontros amorosos, com as respectivas amantes. A do embaixador era a condessa de Vila Meã, uma portuguesa cujo marido passava em Paris uma temporada, e que se sentia muito sozinha. Quanto ao capitão, fora visitar a senhora Locke, cujo marido se deitava sempre com as galinhas, pois era um comerciante avarento, que trabalhava de sol a sol. A pobre senhora há muito que não recebia mimos do marido, e ao ver o capitão pela primeira vez soltara os seus olhares, sedutores e desejosos. Apesar de, na sua actividade, se cruzar com o senhor Locke por diversas vezes, o capitão não desincentivara as investidas da senhora, bem pelo contrário. O facto de ela ser casada com o representante de uma casa concorrente era mesmo uma vantagem, pois podia dar-lhe acesso a informação útil, tanto para os seus negócios, como para partilhar com o embaixador, que gostava de saber as novidades na comunidade inglesa da cidade. Com uma natureza semelhante, o capitão e a senhora Locke caíram nos braços um do outro dois dias depois de se conhecerem. No último ano, encontravam-se, com regularidade semanal, às sextas-feiras à noite. Hugh Gold batia no postigo da janela da senhora, ela abria a porta das traseiras e conduzia-o até uma sala, que fechava à chave, não fosse o marido acordar subitamente». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755,

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Quem dera ser tão má cumo dizem que sou. Irmã Margarida não estava a gostar do rumo da conversa, mas não produziu qualquer comentário. Irmã Alice encolheu os ombros e perguntou: Tens família em Lisvoa?»

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«(…) Tenho de me sentar, avisou a freira mais velha. Estou cum munta sede. Sentaram-se no chão, lado a lado. Uma mulher do grupo viu-as naquele estado e ordenou a uma menina que lhes desse um gole de água. A menina aproximou-se, com um pequeno jarro, e ofereceu-o à freira mais velha, que bebeu por ele. Depois, a menina passou o jarro a irmã Margarida. Obrigado, disse ela, depois de beber. A menina sorriu e a seguir olhou para a freira mais velha, que não lhe sorriu. A mulher que enviara a menina olhou também para a freira mais velha e ficou subitamente séria, como que incomodada com o olhar que recebera de volta. Chamou a menina para perto dela, e depois comentou qualquer coisa com um homem. Este examinou as duas freiras, e irmã Margarida não gostou do olhar que ele lhes deitou. Ia levantar-se, mas nesse momento Lisboa foi vítima de um novo abalo de terra, o terceiro, o mais curto, e a vontade do homem foi imediatamente esquecida, pois todos gritaram na praça e o caos tomou conta do local. Quando a agitação terminou, as duas freiras já se tinham afastado e já ninguém se lembrava delas. Atravessaram a praça, a caminho da baixa da cidade, na direcção do rio, para ficarem cada vez mais longe do Palácio da Inquisição (maldita) e do Convento de São Domingos. Mas a freira mais velha tinha muita dificuldade de andar, e sentaram-se outra vez. Então, irmã Margarida reparou que a outra trazia um casaco na mão, mas não se dera conta a quem ela o roubara nem quando. Será que estou a ser injusto com irmã Alice, traçando dela um desenho desfavorável? Não tenho nada contra mulheres que gostam de outras mulheres, até me diverti bastante com elas, juntando várias em certas noites na minha cama, para folgar. Mas esta era uma situação diferente: irmã Margarida provocava-me um sentimento forte, e ao ouvir estas histórias dela, fossem os seus companheiros homens ou mulheres, sentia de imediato uma picada forte no coração, o ciúme a castigar-me, e não conseguia ser benévolo na minha opinião sobre essas pessoas, como era o caso do inglês, ou desta freira que tentou seduzir a rapariga.

Passados alguns minutos em silêncio, irmã Alice perguntou: Porque disse o cunfessor que merecias a liverdade? Como a rapariga não se dignou a responder, a outra insistiu: Dizem que tu lebaste o Demónio para o conbento, que se oubiam os gritos dele lá dentro... Irmã Margarida defendeu-se: O que dizem nem sempre é verdade. A freira mais velha ficou calada uns segundos e depois aprovou: Tens razão. De mim, tamvém dizem muita mentira... Quem dera ser tão má cumo dizem que sou. Irmã Margarida não estava a gostar do rumo da conversa, mas não produziu qualquer comentário. Irmã Alice encolheu os ombros e perguntou: Tens família em Lisvoa? Não. Os meus pais morreram. Foi por isso que fui para o convento... A rapariga bonita sentiu uma súbita vontade de chorar. Já ficara sozinha no mundo uma vez, e agora estava de novo na mesma situação. Mas isso, apesar de tudo, era melhor do que morrer queimada.

Bais fugir pra donde?, perguntou a freira mais velha. Não sei. Não tenho família, nem amigos. Saves que, se ficares em Lisvoa, és presa outra bez e matam-te? Sei. Debias fugir prò mar, apanhar um varco para o Vrasil. No meio desta cunfusão, ninguém bai reparar... Curiosa, irmã Margarida perguntou: E onde se apanham esses barcos para o Brasil? Lá em vaixo, no Terreiro do Paço... E tu, vens comigo?, perguntou irmã Margarida. A outra sorriu: Estou belha de mais para uma biagem tão longa. Então o que vais fazer? Se te apanharem, também te prendem outra vez. Ficaram as duas caladas, agora durante longos minutos. Correra mais de uma hora sobre o último abalo e o Rossio enchiase cada vez mais, as pessoas vinham de todos os lados, da Baixa, do Bairro Alto, do Castelo. Surpreendidas, as duas freiras viram reaparecer o profetista. Nervoso, avisou-as: Tá perigoso, tá muito perigoso. Andam à nossa procura. Já conseguiram pegá os outros... Havia outros como nós?, perguntou irmã Alice, curiosa. O profetista informou que mais prisioneiros se tinham evadido.

Das celas do outro lado do Palácio. Mais dji vintji, mas já os pegaram a todos. E já sabem dji nós. O padri os avisou, tá na cara... Irmã Margarida recordou as palavras do seu confessor: os guardas da Inquisição (maldita) iriam andar à procura do profetista e de irmã Alice, casos mais graves, mas ninguém se ia preocupar com ela. Não sabia se tais palavras eram sábias, mas, a dar-lhes validade, se permanecesse junto daqueles dois seria presa fácil. Se sairmos do Rossio, nunca nos vão encontrar, disse». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755,

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Ninguém reparou, e o profetista levantou-se, veloz, e afastou-se cerca de vinte metros, escondendo-se no meio de quem passava»

 

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«(…) Quando a terra começou a tremer, Bernardino assistiu, horrorizado, à queda daquelas enormes estruturas. A terra tremeu duas vezes no espaço de pouco tempo, e o improvisado parque animal nos jardins reais entrou em convulsão. Pássaros voaram, aos guinchos; macacos fugiam das árvores em queda; leões e pumas rugiam, provavelmente tão aterrados como os poucos humanos que por ali andavam; e até os elefantes e os rinocerontes pareciam siderados pela fúria dos tremores da terra. Uma nuvem de poeira castanha subiu da terra para o céu, e Bernardino afastou as folhas das árvores e os ramos que tinham caído por cima dele. Dois domadores de leões surgiram, preocupados, pois as jaulas tinham abatido e as feras começavam perceber que podiam abandonar os locais de cativeiro. Ouviam-se muitos gritos, vindos da igreja, e Bernardino alarmou-se. Teria o rei sido ferido pelo terramoto? Decidiu regressar à igreja, mas deu conta de movimento perto de si, e viu um pequeno puma, do tamanho de um gato, a correr na sua direcção, assustado. Seguiu-se um rosnar desagradável, vindo de trás de uma árvore, e nem parou para pensar. Desatou a correr, atravessando o jardim aos pulos, enquanto os pássaros cacarejavam nas suas costas. Só parou junto do portão do jardim, que caíra com os abalos. Viu alguns homens e gritou-lhes: Cuidado! Há leões e pumas à solta! Assustados, os guardas rapidamente tentaram recolocar o portão nos fechos. Bernardino seguiu, a correr, até à Igreja, e só se tranquilizou quando viu a figura do rei. O Monarca José I estava de pé. Combalido, mas vivo.

Pelos meus cálculos, mais ou menos ao mesmo tempo que o rapaz se cruzava connosco próximo da Sé de Lisboa, uma extraordinária visão se apresentava aos olhos de irmã Margarida. Ainda hoje me lembro da emoção com que ela me descreveu o Rossio. Ao ver a praça, irmã Margarida deduziu que a cidade inteira ali acorrera ao mesmo tempo. Havia milhares de pessoas a correrem de um lado para o outro, ou sentadas no chão a rezarem ou a chorar, e era como se naquele momento de infelicidade geral uma voz superior aos habitantes os tivesse mandado reunirem-se a ali, para partilhar a dor e tentar sobreviver em conjunto. Caminhava uns metros atrás do profetista e da freira mais velha quando reparou que, à sua esquerda, o Hospital de Todos-os-Santos não caíra, embora apresentasse fendas na fachada, que a rasgavam de alto a baixo. Às janelas, os doentes observavam o Rossio. Ao ver a freira mais velha estacar à sua frente, com cada vez mais dores na perna, irmã Margarida perguntou: Consegues continuar? A perna também lhe doía, mas não tanto que se visse forçada a parar. Se ficar p’ra trás, eles boltam a prender-me, protestou a mulher mais velha. E a ti tamvém. Num acredites no confessor, eles num bão deixar-te à solta. Estamos os três cundenados à morte pela Inquisição (maldita). Temos de fugir juntos. No entanto, o profetista não esperara por elas, e já ia muitos metros à frente, fundindo-se com a multidão. Pelo menos nós duas, sugeriu a freira mais velha.

Irmã Margarida sabia que o desejo da outra mulher em ficar junto dela não era inocente, mas o seu bom coração não lhe permitia deixá-la para trás. Vamos, disse. Irmã Alice passou o braço por cima dos ombros de irmã Margarida, e a rapariga carregou-a. Dias depois, confessou-me que sentira a mão da mulher mais velha a tocar-lhe levemente no peito, mas, como não sabia se era um gesto intencional ou fortuito, não a afastou. As duas foram caminhando, agora mais lentamente, observando a loucura geral que se apoderara dos habitantes de Lisboa. Havia quem puxasse corpos pelos pés, arrastando-os pela praça, sem se perceber qual o destino que lhes iriam dar. Havia mulheres coxas, que gritavam de dor ao andar, usando traves cheias de pregos como bengalas. Havia homens deitados no chão, a sangrarem e a gritarem, que pareciam loucos, fazendo gestos rápidos, como se estivessem a afastar as moscas no ar, mas que só combatiam as terríveis visões que lhes povoavam a mente. Havia crianças, sem pernas ou sem braços, e até sem cabeça.

Muitos estavam agrupados e rezavam, pedindo perdão pelos seus pecados. As pessoas não sabiam o que fazer a seguir, e não havia médicos, nem ninguém para minorar as dores. Meu Deus, murmurou irmã Margarida, aterrorizada. Num olhes, criança, ordenou-lhe a mulher mais velha. Bamos, bamos. Temos de nos afastar, para que os guardas num nos encontrem. Foram atravessando aquela miséria até que chegaram a meio da praça e viram o profetista, sentado no chão, junto a um grupo de pessoas, como se fizesse parte dele. Pareciam ser duas famílias amigas, com homens, mulheres e crianças, e alguns lamentavam-se, mas outros recordavam a sorte que tinham tido, e as coisas que tinham conseguido tirar de casa a tempo. Ao lado, estavam pousados alguns baús de madeira, em cima dos quais se viam peças de roupa soltas. Irmã Margarida compreendeu de imediato qual era a ideia do profetista, e segundos mais tarde viu-o, pelo canto do olho, a roubar um casaco. Ninguém reparou, e o profetista levantou-se, veloz, e afastou-se cerca de vinte metros, escondendo-se no meio de quem passava». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755,

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As circunstâncias particulares que envolveram a fase inicial da investigação levaram a que um outro monumento só fosse noticiado mais tarde. Trata-se de uma epígrafe depositada no Instituto Clássico da Universidade de Lisboa, divulgada apenas cerca de um quarto de século após o seu aparecimento. Por fim, como resultado do tratamento laboratorial de uma cinerária de chumbo depositada na mesma entidade museológica foi identificado um grafito, gravado na tampa desse recipiente. As escavações mais recentes revelaram um panorama idêntico e trouxeram à luz novos achados epigráficos cuja publicação se aguarda para breve. Todo este conjunto constitui sem dúvida o mais representativo núcleo de epígrafes de Olisipo encontradas numa mesma área, apresentando para além disso duas assinaláveis vantagens. Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente, quase sempre reduzidas a pequenos fragmentos. Para além disso, foi possível determinar, por vezes com bastante precisão, o seu contexto arqueológico, o que significa que, em certos casos, contamos com dados concretos sobre a natureza dos monumentos em que as lápides se inseriam. Esta conjugação de elementos confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam. Esta preocupação, que recentemente Luís Fernandes renovou a propósito da documentação epigráfica do teatro romano de Lisboa, tem neste caso uma idêntica justificação. Também na encosta da Sé, em geral, e no teatro romano e zona envolvente, em particular, se realizaram importantes pesquisas arqueológicas que levaram à identificação pontual de alguns achados epigráficos. De uma maneira geral, estas novas descobertas foram sendo esporadicamente assinaladas ao longo de um período muito dilatado, razão pela qual assume um especial interesse o estudo de todo o conjunto. A publicação ocasional e o estudo isolado, características que têm marcado a maioria destes achados, tornam mais clara esta carência, desde há muito sentida. Os restos materiais do teatro romano foram objecto de uma primeira intervenção em fase recente, iniciada com uma sondagem no edifício da R. de S. Mamede ao Caldas, n.os 2 e 4B, dirigida por Fernando Almeida, e continuada nos anos seguintes com uma campanha da responsabilidade de Irisalva Moita. Embora de dimensão muito mais reduzida que a da Praça da Figueira, a documentação epigráfica aí recolhida tem um especial significado, em particular a que respeita a este mesmo edifício público cuja importância na vida da cidade se manifesta precisamente em alguns documentos relevantes para compreender a vida pública ou, simplesmente, concernentes ao próprio edifício em si. Neste último caso se encontra a inscrição em caracteres gregos em que se regista o nome Μελπο[με´νη] por baixo de um relevo já fragmentado, descoberto na sequência destas intervenções. Mas estes trabalhos vieram igualmente contribuir igualmente para a redescoberta de alguns elementos da inscrição gravada no púlpito do edifício, já bem conhecida da investigação, em especial graças à documentação produzida por Francisco Xavier Fabri e à publicação de Luís António Azevedo (1815). O reaparecimento parcial deste importante documento (Moita, 1970) relançou a discussão em torno do seu texto, a respeito da qual se suscitou alguma literatura, sem que tal se tenha traduzido em modificações substanciais na interpretação tradicional, consagrada pela obra de Hübner. Mais recentemente, porém, Stylow (2001) propôs uma alteração que afecta o sentido geral do texto, preferindo atribuir uma natureza temporal à titulatura do imperador, que se iniciaria, segundo esta interpretação, com a forma Nerone. Esta sugestão parece aceitável no contexto da epigrafia monumental, mas debate-se com o óbice de não ser suportada por uma transcrição antiga e de pressupor que os editores deste documento epigráfico se equivocaram, malgrado este monumento apresentar, tendo em conta algumas partes subsistentes, uma extraordinária clareza. Talvez por esse facto Luís Fernandes (2005) tenha retomado a proposta tradicional, optando, no entanto, por não reconstituir o texto muito lacunar do segundo vão, precisamente o que coloca mais problemas. No âmbito destes trabalhos se identificaram igualmente algumas inscrições não relacionáveis com este edifício público, mas que correspondem a lápides funerárias, de proveniência muito distinta, mas reaproveitadas ao longo do tempo nas construções dessa área. Embora o seu estado frágil confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini (1982) conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo,