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sexta-feira, 30 de julho de 2021

Rosa Lobato Faria. As Esquinas do Tempo. «A casa de banho não era mais casa de banho mas sim um quarto de vestir com um grande guarda-fatos cheio de vestidos antigos. A um canto imperava um lavatório de cerâmica…»

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«(…) Apalpou-se sem olhar e sentiu um tecido finíssimo, idêntico aos lençóis. Pôde perceber as rosinhas bordadas na gola, as nervuras do peitilho. Sentiu também que o tecido se lhe enredava nas pernas, como se de uma camisa de noite se tratasse. Tinha a certeza de ter vestido um pijama azul: casaco e calças. Mas quando ousou abrir os olhos e levantar a roupa e espreitar para dentro da cama, viu a longa saia cor-de-rosa cheia de babados. Foi ele, pensou. Está a fazer troça de mim. Mas quando olhou para a parede, resolvida a perder o medo e a pedir-lhe satisfações, o quadro não estava lá. Então, saltou da cama num pulo e dirigiu-se à casa de banho no intuito de tomar um duche frio que lhe devolvesse a sanidade. Mas aquilo que viu só piorou a situação. Em vez da retrete que instintivamente procurou, havia um penico alto, de esmalte, com pássaros pintados. A casa de banho não era mais casa de banho mas sim um quarto de vestir com um grande guarda-fatos cheio de vestidos antigos. A um canto imperava um lavatório de cerâmica na sua armação de ferro e paisagem cor de sangue, com árvores e passarinhos. O jarro igual estava pousado no chão, cheio de água. Na prateleira da armação havia escovas com cabo, um grande sabonete ovóide, uma luva turca. Dos lados pendiam duas toalhas de linho. Havia ainda um semicúpio de zinco com a respectiva toalha. As toalhas tinham uma linda barra bordada e eram debruadas a renda de um dos lados. Lavou-se como pôde e, ao inclinar-se para a bacia, verificou que em vez do seu habitual cabelinho curto, pintado de ruivo, tinha agora uma farta cabeleira castanha, levemente ondulada, que lhe chegava ao meio das costas.

Alucinada, abriu o armário do quarto onde, na véspera, tinha pendurado a roupa. Mas em vez do tailleur e blusa de seda que vestira para a palestra e dos jeans, t-shirt e blaser que reservara para viajar naquele dia, estavam dois vestidos compridos, um de seda azul e outro branco, de cassa. Sentiu-se agoniada. Pensou em vomitar para o balde por baixo do lavatório, fosse qual fosse o fantasma que viesse despejá-lo. A sua roupa interior desaparecera. Por baixo da camisa de noite cor-de-rosa tinha uma calçola pelo joelho, com um folho, do mesmo tecido e da mesma cor. Na cadeira, uma camisa de dia, de alças, e um corpete que não chegava a ser espartilho. Vestiu-se, isto é, na sua ideia mascarou-se, com o vestido de caça. Olhou-se bem no espelho. Só o rosto era o mesmo. Não tinha verniz nas unhas, agora cortadas rentes. As sobrancelhas não estavam arranjadas e algumas rugas, que já espreitavam ao canto dos olhos, tinham desaparecido. Mas eram os mesmos olhos azuis, sim, a mesma boca cheia, as mesmas maçãs do rosto um pouco salientes. O que faço agora?, pensou, já disposta, por não ter alternativa, a entrar no jogo. Confirmou o que já suspeitava: a mala de rodinhas com o resto das suas coisas, não estava lá. O candeeiro da mesinha-de-cabeceira também não. Era, no seu conjunto, uma partida muitíssimo bem pregada. Mas não lhe parecia que aquelas senhoras amáveis que a tinham recebido fossem capazes de uma loucura destas. Foi à janela e viu o mesmo muro de pedra que lhe parecera ver na véspera e, para além dele, árvores de fruto e vinha a perder de vista. Ninguém a tinha teletransportado para um castelo na Escócia.

Foi quando bateram à porta. Uma voz grave de mulher com forte pronúncia do norte, insistiu: menina Margarida, abra a porta! Que novidade é esta de se trancar? É a Lucinda, trago-lhe o pequeno-almoço. Vá lá, está a arrefecer! Abriu. A Lucinda entrou, fardada de cinzento até aos pés, crista, punhos e avental branco, cujo laço engomado deixava cair duas pontas aladas até aos calcanhares. Bom-dia, menina. Pensei que estivesse doente. E faça favor de não se trancar, porque se lhe dá o ataque a gente não lhe pode acudir. Pousou a bandeja de prata na mesinha ali posta, certamente para esse fim, e de onde o tabuleiro da véspera, o chá, os bolinhos caseiros haviam desaparecido. Agora tinha uma almoçadeira de porcelana com chocolate quente, pãezinhos onde a manteiga se derretia, duas taças com compotas diferentes, e uma grande fatia do que parecia ser pão-de-ló. Vá, toca a comer. A menina hoje não me parece lá muito boa. E é bom que esteja, porque vem o tal amigo do paizinho que quer escolher noiva. As manas já estão prontas. A menina Mariana já anda aos pulos e a menina Madalena está a ajudar a fazer um bolo para o chá. Despache-se Margaridinha, pela sua saúde, antes que a mãezinha venha cá ralhar. Já mando a Rosa arrumar o quarto. Quer que a penteie? Ou vai andar com essa gaforina a receber as visitas? Quero, disse Margarida, convencida de que aquilo era um filme onde teria de inventar as suas próprias deixas. Faz-me uma trança. Qual trança, qual carapuça. Vou pôr-lhe um laço de cetim amarelo que fica bem com os cabelos castanhos, tão lindos, que a menina tem. Puxo estes aqui para a frente, bem alisadinhos com o pente e prendo-os cá atrás com a fita. Amarelo, com o branco do vestido, fica bonito. Lucinda, que dia é hoje? Perguntou, enquanto a criada procurava numa gaveta cheia de fitas, ganchos e plumas. Que dia é hoje? Ora então a menina não sabe? É o quinze de Setembro. E está um calor que parece Agosto. Quem diria que daqui a nada é Outono. De que ano, Lucinda? Está a fazer pouco de mim? Só para ver se sabes. É o..., pois..., deixe cá ver, 1908. É isso. Não ando sempre a pensar que ano é, mas sei, pois. É isso. É o 1908. Foi este ano que mataram o Rei. Então Margarida percebeu que, como nos contos de fadas, tinha dormido cem anos, e viajado, durante o sono, no sentido inverso do tempo». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, 2008, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-181-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Rosa Lobato Faria, Literatura, O Saber,

As Esquinas do Tempo. Rosa Lobato Faria. «Um belíssimo homem, por sinal, que, ao contrário das fotografias da cómoda, parecia bem vivo e a olhava com olhos trocistas»

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«Margarida é uma jovem professora de Matemática. Um dia vai a Vila Real proferir uma palestra e fica hospedada num turismo de habitação, casa antiga muitíssimo bem conservada e onde, no seu quarto, está dependurado o retrato a óleo de um homem que se parece muito com Miguel, a sua recente paixão. Por um inexplicável mistério, na manhã seguinte Margarida acorda cem anos atrás, no seio da sua antiga família. Sem perder consciência de quem é, ela odeia esta partida do tempo. Mas aos poucos vai-se adaptando. Conhece o homem do quadro e apaixona-se por ele. Quando ele morre num acidente, Margarida regressa ao presente».

«Quando Margarida chegou à Casa da Azenha teve aquela sensação, não desconhecida mas sempre inquietante, de já ter estado ali. Não era verdade. Vinha pela primeira vez a Vila Real, com o intuito de fazer uma palestra sobre novas técnicas do ensino da Matemática e os organizadores, cujo convite a lisonjeara, tinham-na instalado num belo turismo de habitação em vez de no rotineiro hotel. Foi recebida por três senhoras de meia-idade que se disseram irmãs e que, por corredores que a Margarida pareceram labirínticos, a conduziram ao quarto. Durante o trajecto, afigurou-se-lhe que as senhoras mudavam constantemente de rosto e de imagem, isto é, a que lhe parecera gorda era agora magra, a que lhe parecera alta agora era baixa e a que fixou melhor, pois fora a que falara e tinha uma bata azul forte com flores brancas, estava agora de escuro, com um casaco de malha com aplicações.

Margarida pensou que estas alucinações se deviam ao vinho do Porto que a fizeram beber na pequena ceia que se seguira à palestra, e achou que uma boa noite de sono e a luz do dia a fariam rir desta maluqueira que lhe atravessava a mente. A baixinha, de novo alta, surgiu inesperadamente com bolos caseiros e chá de camomila, todas três em coro lhe desejaram boa-noite, esperando que tudo estivesse a seu gosto. Confusa, Margarida agradeceu e jurou que nada lhe faltava. Depois, fechou a porta à chave e preparou-se para dormir. Foi aí que sentiu o cheiro. Um cheiro talvez a remédio, talvez a malmequeres, talvez a creolina. Deu uma volta pelo quarto à procura da origem do cheiro e não encontrou nada que o justificasse. Reparou então que a cómoda, na parede fronteira à janela, estava coberta de fotografias que se pôs a analisar. Eram fotografias antigas, a preto e branco, amarelecidas mesmo, e representavam senhores e senhoras solenes e alguns meninos de canudos, com folhos a sair das mangas de veludo, calções abotoados abaixo do joelho, a perninha traçada mostrando a botina reluzente de graxa. Não havia crianças coloridas na praia, nem noivas de véus flutuantes, nem grupos risonhos de adolescentes. Ali não havia lugar a sorrisos. Todos sérios, todos austeros, provavelmente todos mortos. Margarida sentiu um arrepio ao pensar nisto. Apalpou o colchão e encantou-se com o minucioso bordado dos lençóis de cambraia. Verificou a luz da mesa-de-cabeceira e foi à casa de banho fazer a sua toilette nocturna. Tomou um duche delicioso, enxugou-se com uma toalha de óptima felpa. Voltou para o quarto nua, pendurou uns jeans e uma t-shirt que tirou da mala para vestir no dia seguinte. De repente sentiu-se incomodada, como se alguém a observasse. E percebeu. Na parede fronteira à cama estava um quadro a óleo representando um homem moreno. Um belíssimo homem, por sinal, que, ao contrário das fotografias da cómoda, parecia bem vivo e a olhava com olhos trocistas.

Ela conhecia o truque dos pintores que fazem com que as figuras dos quadros mirem os observadores para onde quer que estes se dirijam. Mas aquilo era de mais. Não se tratava dos olhos vazios e inexpressivos que já vira tantas vezes, mas de um olhar bem vivo, irónico, crítico, apreciador, o olhar de um homem que conhece e ama as mulheres, e instintivamente Margarida foi à mala buscar um pijama e vestiu-o. O que é que queres?, perguntou, desafiadora. E ouviu nitidamente uma voz masculina, grave, doce, responder: tudo. Ficou aterrada. Era muito estranho o que se passava ali. Meteu-se na cama, mas não conseguia despregar os olhos do quadro. Foi com mãos trémulas que tirou os brincos das orelhas e os pousou na mesinha-de-cabeceira, ao lado do castiçal. Castiçal? Claro, para quando faltasse a luz. Que pelos vistos nunca faltava, porque a vela era nova. E o homem a olhar para ela. Tudo, continuava a dizer, agora em silêncio. Tinha-a visto nua, o que poderia esconder-lhe? A não ser o desejo que de repente a assaltou, e acreditou que, durante o sono, ele desceria do quadro e viria violá-la, amá-la com todas as forças, aventura de uma noite com um desconhecido, um feiticeiro, um fantasma. Decidiu beber o chá de camomila para a ajudar a conciliar o sono. Saiu cautelosamente da cama, esforçando-se por não olhar para o quadro. Mas sentia os olhos dele como duas brasas. Queimando-lhe o corpo, os seios, o ventre, as coxas, queimando-lhe a alma como um sortilégio. O seu instinto feminino avisava-a de que não poderia contar aquilo a ninguém, nem a Mariana, sua irmã e melhor amiga, que iria chamar-lhe doida, muito menos ao Pedro, seu namorado de cada vez menos dias.

A verdade é que o homem do quadro parecia ter uma inquietante semelhança com a pessoa por quem estava apaixonada, mas, quando se está louco de amor por alguém, parece-nos ver esse alguém em toda a parte. O chá acabou por fazer efeito e dormiu até de manhã. Os lençóis de cambraia não guardavam qualquer sinal de violação ou de lutas amorosas, tão lisinhos e arrumados como se ninguém ali tivesse dormido. Margarida abriu os olhos e sentiu que qualquer coisa de muito estranho se passava consigo. Deixou-se ficar de olhos fechados, buscando a certeza de que não estava a enlouquecer. Para começar, não tinha o pijama vestido». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, 2008, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-181-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Rosa Lobato Faria, Literatura, O Saber, 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «Mas eu não quero responder, não me quero tratar, só quero os teus olhos atlânticos, verdes, transparentes, senhores de todos os segredos, de todos os feitiços, de todas as paixões…»

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«Estou deitado sobre o lado esquerdo, de olhos fechados, imóvel, mas não estou adormecido nem sequer sonolento. É a minha posição de invocar-te, de poder esvaziar o espírito para receber a tua presença imaginária. Nesta imobilidade tomo muita consciência do meu corpo. O joelho direito pesa-me sobre o esquerdo. Osso com osso faz doer. Questão de dois centímetros, procuro uma almofadinha de músculo e fico bem. As mãos estão unidas, dedos juntos, palma contra palma, como um suplicante do século catorze. Unidas e entaladas entre a face esquerda e o colchão. Mas os dedos mindinho e anelar da mão direita começam a ficar ligeiramente dormentes. Não quero mexer-me mas tem de ser. Levanto a mão no ar, abro e fecho abro e fecho abro e fecho, pensar-se-ia que te digo adeus. Mas não. Nunca te direi adeus meu amor, e a mão volta para o seu lugar.

Agora podes vir. Quero que desmanches a tua trança, que espalhes os cabelos louros, frisados, imensos, sobre o meu rosto, que roces os teus seios nas minhas costas, que deslizes por cima de mim, que me inundes do teu singularíssimo perfume. Ele está a espreitar-me. Sei que está. Não preciso de abrir os olhos para sentir uma alteração na luz. Isto acontece quando ele cola a testa ao postigo de vidro fingido da minha cela para saber o que se passa aqui. Sei que ele está lá porque intercepta a luminosidade da manhã tentando certificar-se de que estou a dormir. Ele gosta que eu esteja a dormir para ter o prazer de me acordar com dois berros. Hesita. Tão quieto assim só bem desperto ou morto. Os adormecidos movem-se no sono, mastigam o cuspo, murmuram.

Enquanto o meu guarda-enfermeiro-carrasco espera que eu adormeça para me chamar em seguida, tu desvaneces-te, não queres testemunhas do nosso sagrado momento de amor. Voltarás mais tarde, talvez na primeira alvorada, para me embalares na tua nudez, na tua paixão, na tua piedade. Agora finjo que durmo. Volto-me com um resmungo, deixo cair um fio de baba pelo canto da boca. Ele entra. O doutorzinho está à tua espera, lazarento. Já ouvi falar deste novo médico que pergunta o mesmo a todos, foste violado pelo pai, abandonado pela mãe, sentes culpa na morte de um amigo. Não, não, não, respondem todos e ele fica num beco sem saída, não pode consubstanciar as suas teorias, não pode provar nada, não pode curar ninguém. Interroga-me num gabinete demasiado pequeno com o ar condicionado no máximo e tenho frio, não consigo pensar, dar respostas coerentes, quero estar nos teus braços, beijar a tua boca de ameixa doce e sumarenta como no tempo em que, e o doutorzinho, que idade tinha quando morreram os seus pais, como é que reagiu, sente-se culpado, e eu, ninguém morreu, nunca ninguém morre, só quem nós matamos na memória, no pensamento e no coração claro, mas não é isso, o que perguntamos é se, tenho frio, viu o seu pai morto, a sua mãe, algum irmão, diga-nos o que sentiu senhor Pedro Santa Clara. Não senti nada, fui eu que os matei no coração no pensamento e na memória, porque tenho a memória o pensamento e o coração ocupados com outras coisas tente lembrar-se, não me lixem os cor…, queríamos perceber a sua infância, estou cansado, alguém abusou, vá para o cara…, doutor, com o seu Freud desenterrado, o seu plural majestático e a sua psiquiatria de compêndio, tenho a certeza de que você é que levou no … aos seis anos, pra cima de mim não o senhor Santa Clara não precisa de me ofender, acalme-o, senhor enfermeiro, eu cala-te, cab…, se não queres ir para a cela à prova de som metido numa camisa-de-forças, o senhor doutor só te quer ajudar minha besta tenho frio, quero o colete-de-forças, este doutorzinho saído dos cueiros não percebe nada, não sabe quem eu sou pois, já sabemos que és o dom Pedro, maluco de mer…, responde ao senhor doutor, responde, responde, responde, responde.

Mas eu não quero responder, não me quero tratar, só quero os teus olhos atlânticos, verdes, transparentes, senhores de todos os segredos, de todos os feitiços, de todas as paixões, tira-me daqui, leva-me, embala-me, adormece-me, deixa-me pousar a cabeça no teu colo de garça, nas tuas coxas perfumadas, começo a gritar Inês, Inês, Inês, Inês, Inês, espetam-me uma injecção ao acaso no corpo que se debate e suavemente surges do nevoeiro com a tua trança luminosa, os teus seios de nácar, as tuas ancas de deusa e ao som de cantos gregorianos que enfeitam a penumbra, deixas que me apoie na seda dos teus ombros para atravessar, mísero, estropiado e chorando, as ogivas da minha solidão» In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, 2006, Edições ASA, 2018, ISBN 978-989-234-187-3.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Rosa Lobato Faria, Literatura, A Arte, 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A Alma Trocada. Rosa Lobato Faria. «Porque se a Raquel não fosse feia não se agarrava a mim como uma lapa. Não se acomodava de boa vontade àquele arranjinho contranatura…»



Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A dona Generosa deve ter achado que a Raquel era um presente dos deuses que lhe caiu no colo bem a propósito. Providencial. E rica, ainda por cima. Única herdeira de uma bela fortuna. Lá pelos dezoito anos dela achou-se conveniente fazer obras na casa dos pais que estava fechada desde a morte deles, e a Raquel mudou-se para lá, porque não ficava bem morar em casa do noivo. O desvelo com que a minha mãe se envolveu naquelas obras! Era lógico, na cabeça dela, que eu iria morar para aquele palacete e cuidou de tudo para que não me faltasse nenhum dos requintes de conforto que ela entendia que me eram necessários. Foi quando vi a casa pronta, isto é, quando lá entrei pela primeira vez, porque nunca me tinha interessado minimamente pelas ditas obras, já que a casa não me pertencia, que tive uma tomada de consciência e percebi que jamais iria viver com a Raquel e muito menos em casa dela. Fiz-me de sonso. Deixei-a instalar-se e comecei a procurar um apartamento para mim. O ordenado do colégio onde precisamente tinha começado a dar aulas chegava para um andarzinho modesto.
Só tive o meu pai a apoiar-me. Deve ter achado que era de homem não ficar atido à casa da noiva, rica, ainda por cima. Sim, eu era cobarde. Reconheço que era, que sou cobarde. Desenhava miniaturas, com vergonha de me expôr. Parecia que a timidez de um desenho pequenino escondia o essencial do desenho. Uma forma subjectiva de prolongar a adolescência. Tudo em ponto pequeno. Só um desenhozinho. Uma brincadeira. E dizem que desenho bem. Já me convidaram para expor mas nunca aceitei porque todos iam perceber quem eu sou, um homem à procura de palavras jamais encontradas hidranja, plátano, arrabil, phisalis, um homem escondido atrás de si próprio, da mãe autoritária, da noiva feia.
Porque se a Raquel não fosse feia não se agarrava a mim como uma lapa. Não se acomodava de boa vontade àquele arranjinho contranatura, tomando logo de entrada as rédeas de um casamento infeliz. E eu, cobarde, a sujeitar-me tacitamente para dar uma satisfação à minha mãe, às amigas da minha mãe, que história de amor tão engraçada, Generosa, desde miúdos, há coisas que parece que estão escritas, e eu, mas quem é a Raquel? Uma máscara para sair à rua e dar satisfação à sociedade? E aqueles anos todos da adolescência à procura de mim, na angústia de perceber quem sou, a olhar os rapazes mais velhos às escondidas, a sentir-me diferente, a ter sonhos eróticos com as mãos do Tinito, a fingir conversas machas com os colegas, em busca da minha alma trocada. Cobarde.
A evitar a todo o custo os que me pareciam semelhantes a mim. Com um desejo doido de trocar sentimentos, descobertas, mágoas, desesperos. Mas o silêncio. Sempre. A comer-me por dentro. E a agonia de pensar na Raquel como um castigo, o caminho, quem sabe, do suicídio. Entretanto a vida de todos os dias. Os anos lectivos a passarem. As boas notas. Os prémios. O curso. O colégio. As aulas já como professor. Considerado. Estimado. O professor Teófilo de Francês. Tão simpático. Competente. Pontual. Incapaz de grandes camaradagens, mas acessível quando é preciso. Tentando, contudo, evitar proximidade com aqueles em quem julga pressentir problemas idênticos ao seu. É isso que será sempre até à reforma. O professor Teófilo de Francês. Qualquer dia casado. Casa colégio, colégio casa. Os pontos para corrigir. Uma boa gabardina, botas de sola de borracha, porque se desloca para o trabalho a pé. Tudo previsto, organizado. Algumas miniaturas. Pastas e pastas delas, para dizer a verdade. Um romance inacabado que ninguém pode ler. Não tem filhos, é claro. Não quer ter filhos. Não consegue abordar a Raquel. Ela não se queixa.
Terminada a licenciatura irá trabalhar até à reforma sabe-se lá aonde. Terá a sua vida, quem sabe um amante. Tudo como manda o figurino da hipocrisia social. Fica muitas vezes na própria casa, no palacete. É rica. Ainda bem. Não precisa dele para nada. Para nada mesmo. A não ser para a fachada de dizer o meu marido. Soa-lhe bem, o meu marido. O meu marido precisa de ficar a sós no apartamento para se concentrar no trabalho dele. É romancista. E está também a preparar uma exposição de miniaturas. É um artista. Não conta às amigas que eu nunca dormi no palacete. Que nunca me deitei com ela. Que nunca tomámos o pequeno-almoço juntos. Que nunca comemos croissants quentinhos no café da esquina da rua, com compota deliciosa de maçã. Que coisa aterradora esta antevisão da minha vida possível!» In Rosa Lobato Faria, A Alma Trocada, Edições ASA, Autores Contemporâneos de Língua Portuguesa, Porto, 1a edição, 2007, ISBN 978-972-415-283-7.

Cortesia de ASA/JDACT

A Alma Trocada. Rosa Lobato Faria. «Ele é um homem, não é um bebé. E saíram e deixaram-me sozinho na penumbra, no espanto, no deslumbramento. Ele é um homem. Sim, um homem»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Foi o bolo, disse a avó. Ele comeu bastante e depois foi nadar. Quantas vezes lhe disse, para não se meter na água sem ter a digestão feita. Vá, meu filho, insistiu a Maria. Está aqui um chazinho de poejo que é calmante para o estômago. Vá lá, meu querido. Meta-se na caminha que amanhã está bom. Durma que lhe faz bem. Logo passo, a trazer-lhe uma aguasinha de arroz. Não exageres, Maria. Foi só uma paragem de digestão. Ele é um homem, não é um bebé. E saíram e deixaram-me sozinho na penumbra, no espanto, no deslumbramento. Ele é um homem. Sim, um homem. Por mais confuso, desorientado, desencontrado de mim, um homem. Por mais desprevenido para me receber, um homem. Mas, mesmo para um homem, a mistura fora forte de mais: o bolo de chocolate, o sol, o banho, as mãos morenas do Tinito. Um rasgão no peito, uma saudade de mim. Voo, oxálida, miligrã.
Vem-me aquela cena à memória, agora, nesta hora difícil de voltar para casa com o pecado escrito na testa. Com o apartamento em obras por causa do casamento cada vez mais próximo, estou a viver, malgré moi, em casa dos meus pais. Não, irá faltar a minha mãe, estás com uma cara esquisita, o que é que aconteceu? Porque é que não vieste dormir? Porque é que não avisaste? Com a Raquel sei que não estiveste porque ela já ligou duas vezes, diz que tinham combinado ir ao Museu de Arte Antiga por causa daquele trabalho dela para a tese de licenciatura, está em pânico, nestes tempos que correm nunca se sabe quando uma pessoa é assaltada, ou tem um acidente ou é presa, sim, presa, por engano, ou droga, ou álcool, ou rusga, sabe-se lá o que é que tu andas a fazer. Mãe, importa-se de não se meter na minha vida? Tenho vinte e seis anos, mãe. Mas estás cá em casa, não estás? Se te dou cama, mesa e roupa lavada tenho o direito de fazer perguntas. E agora vais onde? É sábado, não tens aulas. E não inventes que eu não aturo mentiras. E liga à Raquel.
Fecho-me no quarto, os automóveis miniatura nas prateleiras, o póster do Ayrton Sena, dos U2, os vídeos da vida animal, o computador avariado, o roupão da adolescência pendurado atrás da porta, curto nas mangas, o ursinho da infância escondido por cima do monopólio. O meu quarto de rapaz, o meu quarto de não saber quem era, o meu quarto cheio de dúvidas, de perguntas sem resposta, de solidão. Não é o sítio ideal para pôr as ideias em ordem, mas mesmo assim consigo algum silêncio no meu ruído interior. Duas certezas avultam e martelam-me a cabeça. A primeira é que não posso casar com a Raquel. A segunda é que tenho que me agarrar à minha tentativa de romance como única terapia para as minhas dores. O livro mais que o casamento. Como se o casamento fosse um assunto arrumado. Mas não é. Parece fácil dizer à Raquel que é melhor não casarmos. Presume-se que um casamento deverá ter à partida um mínimo de condições para a felicidade: cumplicidade, amor, gostos semelhantes, sonhos comuns, atracção sexual, por esta ou por outra ordem, é-me indiferente, visto que entre nós não existe nenhuma delas. Como foi então que chegámos aqui? Quem é a Raquel? O que faz ela na minha vida? Até a nossa amizade é deficiente. Mentimos constantemente um ao outro, gostamos de nos apanhar mutuamente em falta, embirramos com pequenas coisas, a forma de pronunciar uma palavra, a maneira de usar um cachecol, os respectivos tipos de leitura.
Depois, outras que não confessamos: a mim irrita-me o trejeito com que mastiga, por exemplo, uma noz, com os dentinhos da frente, como os esquilos, ou o jeito dominador com que pega na faca, com o polegar e o indicador quase a chegarem à lâmina. Não gosto de a ver comer as maçãs, à mesa, com a casca, isto não é uma questão de boas maneiras, se eu estivesse apaixonado por ela havia de considerar um gesto são, bucólico, orgânico, mas é que lhe sai sumo pelos cantos da boca e ela limpa-se ao guardanapo, sem ter o bom senso de pegar num guardanapo de papel, põe nódoas indiscriminadamente em guardanapos de pano, se eu digo alguma coisa a minha mãe defende-a logo, deixa-te de mariquices, para isso é que se inventaram os detergentes. Há quanto tempo dura a Raquel em casa dos meus pais? Primeiro como hóspede permanente quando os pais dela morreram num acidente de automóveis em cadeia e se concluiu que a Raquel, filha única, não tinha mais ninguém no mundo senão aqueles amigos dos pais, isto é, os meus pais, que também só tinham um filho único com apenas mais dois anos do que ela. Viveu connosco mas não era sequer uma boa irmã. E um dia descobri que éramos noivos sem termos sequer sido namorados. A minha mãe cozinhou este noivado em lume brando. Eu sei porquê, claro que eu sei porquê. Porque era preciso casar-me. Antes que eu, antes que alguém percebesse, antes que houvesse a mais pequena suspeita... Eu nunca tinha namoradas, só amigos e mesmo assim poucos amigos. E as mães, que fingem sempre que não percebem, são as primeiras a saber». In Rosa Lobato Faria, A Alma Trocada, Edições ASA, Autores Contemporâneos de Língua Portuguesa, Porto, 1a edição, 2007, ISBN 978-972-415-283-7.

Cortesia de ASA/JDACT

domingo, 13 de agosto de 2017

Os Três Casamentos de Camila S.. Rosa Lobato Faria. «Mas a Paca considera que por baixo de uma senhora tem que haver uma mulher. Por isso, com uma cumplicidade só nossa, ensina-me a vida»

Cortesia de wikipedia e jdact

4 de Janeiro de 1902
«(…) Perdoai-me, padre, porque pequei. E que pecados tens? Guardo-me bem de dizer que não tenho nenhuns, já sei que é soberba presumirmos perfeição. Àfalta de melhor, repito o mesmo de todas as sextas-feiras desde o anúncio do meu noivado: pecado de desobediência em pensamento. A penitência não tem resultado? Não. Continuo a não querer casar com aquele velho de barbas, a Paca disse... O que é que disse a Paca? Não posso entregá-la, iriam despedi-la, o que para mim seria pior que a morte. Não posso dizer que a Paca tem vindo a avisar-me cuidadosamente que o Seabra se deitará na minha cama em ceroulas com uma racha na frente e atilhos nos tornozelos e, a cheirar a elixir, quererá beijar-me, quem sabe na boca. A Paca disse que eu devo obedecer aos meus tios, fazer o que me mandam, casar de boa vontade, mas eu só quero brincar, tocar piano e aprender o meu catecismo.
Sinto-me miserável com esta mentira mesquinha, mas o padre Rocha mostra-se agradado com a aplicação da sua aluna. É natural, minha filha. Tens apenas doze anos. Contudo, deves estar consciente dos teus deveres. E olha que o teu noivo não é tão velho, mas um rapaz na força da vida, mal passou os quarenta anos. Sinto-me morrer. Quarenta anos! E não é velho? Mais algum pecado, minha filha? Bom, às vezes digo mentiras, murmuro eu atrás dos buraquinhos do confessionário, tentando repor alguma decência perante Deus, que tudo sabe. Mentir é grave. Muito grave. A mentira é fonte de muitos males. E dá-me a absolvição em latim e manda-me rezar dez Padre-Nossos, dez Avé-Marias e dez Glórias. Penitência pesada, que me leva a concluir que não querer o Seabra na minha cama é um terrível pecado. Tão terrível como o pecado da carne, contra o qual venho sendo alertada desde os sete anos? Mesmo sem saber bem o que isto é, compreendo confusamente que há uma relação e uma contradição.
Saio da capela totalmente baralhada. Estou distraída na aula da dona Virgínia. Ela bate com a varinha no piano, não quero mãos, quero asas, mas hoje eu tenho pedras, coitado do Beethoven, que sorte ele ser surdo, não poderá ouvir o que lhe estou a fazer à sonata. Tem que saber, ao menos, duas sonatas completas. Uma senhora casada deverá entreter as suas visitas e já que a menina não tem voz para cantar, por amor de Deus, Camilla!, ao menos toque aceitavelmente duas sonatas do mestre e todas as valsas de Chopin. É o mínimo que se exige a uma senhora bem educada. Alguma vez saberei ser uma senhora, saberei ser bem educada? Sinto-me um fracasso. Quero a Paca. Só ela consegue dizer-me as palavras certas, fazer-me sentir uma rainha, uma fada, uma deusa, só ela penetra e enfeita o mundo maravilhoso da minha adolescência nascente, só ela me entende, só ela me ama.
O senhor Rudolfo ensina-me a matemática, a gramática, história e a geografia. O padre Rocha as ciências e o catecismo. A tia Joséphine, o francês e a etiqueta. Agora estou a receber à pressa umas noções de prendas domésticas e com isto se completa a minha educação. A tia Joséphine já me avisou que depois de casada irei frequentar, só de manhã, o colégio das irmãs Doroteias, que funciona em Lisboa no Convento das Inglesinhas, ao Quelhas. Aí aprenderei coisas novas, como a pintura, os lavores femininos, prometem-me até um pouco de literatura com que possa fazer conversa espirituosa num salão. Pensam meus bons tios e provavelmente o meu douto marido que isto é tudo o que uma senhora deve saber. Mas a Paca considera que por baixo de uma senhora tem que haver uma mulher. Por isso, com uma cumplicidade só nossa, ensina-me a vida». In Rosa Lobato Faria, Os Três Casamentos de Camila S., Edições Asa, Porto, 3ª Edição, 1997/1999, ISBN 972-41-1904-1.

Cortesia ASA/JDACT

Os Pássaros de Seda. Rosa Lobato de Faria. «Conte-lhe ou não conte, mais dia menos dia ela terá que saber, enrolou as meias pretas uma na outra, deu-lhes a volta…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Acho que não, Joana. Se calhar quero o meu filho, Deus tem-me dado tão pouca coisa, se calhar ia levar a mal que eu desprezasse este presente, porque um filho é uma bênção e parece que o meu corpo está a gostar desta novidade, sinto-me alegre no intervalo dos enjoos, não sei, tenho de pensar melhor. Quando a Tiana voltou já a Margarida tinha resolvido ter o filho, andava a esconder a barriga para a dona Joaninha não dar por nada, o doutor Bento já se tinha fartado, era como se não conhecesse a rapariga nem das escadas, a Tiana ainda tentou falar com ele, mas o senhor doutor riu-se-lhe na cara, desde que o mundo é mundo que os patrões fazem filhos às criadas, a culpa é delas que se põem de gatas a limpar o chão, ou se debruçam a servir o café e mostram o rego dos peitos pelo decote, vê lá se ela fez queixa à dona Joaninha, era o que mais faltava eu ter que dar satisfações dos meus actos a uma serviçal.
Uma noite em que houve jantar de cerimónia, dona Joana reparou que a farda de cetim preto não servia à Margarida, não abotoava atrás o segundo botão, um peito que era uma vergonha, Não estás a pensar servir à mesa nesse propósito, ou estás? Estou mais gorda, a senhora desculpe, é do bom passadio cá de casa, eu em casa pouco ou nada comia, já cá estás há três anos e agora é que o passadio te faz efeito, eu acho é que o jardineiro te emprenhou, mas eu ponho os dois no olho da rua. Credo, minha senhora, coitado do rapaz, não tem nada a ver comigo, eu juro por tudo, estou mais gorda e pronto, se a senhora me quer despedir por eu estar mais gorda, despeça-me, paciência, mas deixe em paz o Agostinho que não é para aqui tido nem achado. Bom, vai lá pedir à Augusta que te mude os botões que as visitas estão a chegar e depois agente fala.
Tiana, senta aí um bocadichinho enquanto eu passajo estas meias pretas do senhor doutor, que já as levas para a gaveta, meteu a Augusta o ovo no calcanhar da meia. Aquilo ontem com as visitas foi até às tantas, não? Sim, deu para tarde, dobrou a Tiana dois panos da loiça recém-remendados, pô-los no cesto, procurou e encontrou uma toalha velha de mãos. Andava a ver desta toalhinha, não sabia que estava aqui. Já não merece conserto, passou a linha de lado a lado do buraco a Augusta. Com tanto dinheiro para que é que querem as coisas remendadas, começou a cruzar a linha pelas outras já estendidas paralelamente no ovo a Augusta. No poupar é que está o ganho, pegou numa agulha, procurou linha azul, lambeu-a e apertou a ponta entre os dentes a Tiana, dá-me aí a caixa dos botões. Toma lá, mexeu-se na cadeirinha baixa a Augusta, não escolhas os de madrepérola, para as nossas batas são os de massa. Já sei, enfiou a linha lambida no buraco da agulha, esticou-a pela ponta, rolou um pequeno nó, procurou um dedal com o médio da mão direita a Tiana. Ando aqui com este botão partido no punho, pregou a Tiana a agulha no peito do avental, cortou com a tesourinha a linha já encerada de sabão e ferro do resto do botão velho.
Tu já viste a barriga da Margarida?, desencontrou a linha preta perpendicularmente entre os fios, um sim um não, agora ao contrário, um não um sim a Augusta. Barriga? Está gordinha, isso sim, prendeu a linha azul na cicatriz do botão anterior a Tiana. Pois, como se a gente não soubesse o patrão que tem, cortou com os dentes a linha preta a Augusta. Vê lá se seguras essa língua, enfiou no buraco do botão a agulha, para baixo, agora para cima, agora em cruz a Tiana. Ela ontem veio aqui para eu lhe mudar os botões à bata preta de servir à mesa, tem duas mamas que parecem dois melões e a barriga empina-lhe a saia, tive de lhe baixar a bainha na frente, bateu com o dedal na passagem terminada, deliciou-se com o ruidinho do metal na madeira do ovo a Augusta. Está prenha, que te digo eu. Não te esqueças de ir contar à dona Joana, rematou, cortou a linha azul com a tesourinha, experimentou a resistência do botão a Tiana. Conte-lhe ou não conte, mais dia menos dia ela terá que saber, enrolou as meias pretas uma na outra, deu-lhes a volta, fê-las numa bola, entregou-as à Tiana a Augusta. Morres se não lhe deres a novidade, levantou-se, pegou nas meias enroladas, bateu-lhes com a palma da mão para as achatar a Tiana. Valha-te Deus, Augusta, meteu as meias no bolso do avental e foi-se da salinha da costura a Tiana.
Lanchei tanto, Tiana, que não vou querer jantar. Vou para o meu quarto ler o livro do Mário, não imaginas as coisas que ele aqui conta. O doutor Marinho, nunca houve homem tão bom, que Deus o guarde na Sua santa glória. Lá para as nove, tenha paciência, menina, mando-lhe a Júlia com um copinho de leite. Na sua estratégia de dizer mal dos patrões às criadas e mal das criadas aos patrões, a Augusta foi uma quinta-feira de empréstimo costurar aventais à dona Teresinha, coscuvilhou tudo o que pôde, aquela rapariga dos quartos, veja lá a senhora, a Margarida, está cheia como uma vaca. E o pai quem é? Vá lá a gente saber, são umas malucas, mas consta, que eu, Deus me a mim livre apontar o dedo a alguém, ninguém sabe o dia de amanhã. Consta o quê? Bom, dizem lá pela cozinha, não é, que o doutor Bentinho pôs olhos na rapariga assim que ela para lá entrou. Meu Deus! E a dona Joaninha sabe disso? Saber, o que se diz, saber, não sabe, mas se calhar desconfia. É que já se nota muito, aquilo aparenta uns quatro ou cinco meses, mais dia menos dia a mocinha vai ter que se explicar». In Rosa Lobato de Faria, Os Pássaros de Seda, licença editorial por cortesia de Asa Editores, Círculo de Leitores, 2002, ISBN 972-422-650-6.

Cortesia de ASAE/CLeitores/JDACT

sábado, 12 de agosto de 2017

As Esquinas do Tempo. Rosa Lobato Faria. «Estranhavam-lhe os silêncios e chegaram a pensar que estava amuada por, na sua qualidade de primogénita, ter sido preterida pela irmã»


Cortesia de wikipedia


«(…) O sobrinho já é adulto. Penso que nem vive com ele. E não precisam de saber mais nada. Onde anda a Madalena? Está na cozinha, disse a mãe. A ajudar a Lucinda a fazer bolos para o chá. A cozinheira Felícia está ocupadíssima com a ceia. Depois do almoço vou ajudá-la. Quero dar o meu toque pessoal ao caril de lulas e ao molho do borrego. Aquele de que tu gostas, Firmino. O pai sorriu. E passou ali uma ternura que, por qualquer razão, sossegou a inquietação de Margarida. O senhor juiz desembargador Diogo António José Leite Pereira Castelo Novais Souza chegou à Casa da Azenha pelas quatro horas da tarde, mesmo a tempo de apreciar o chá. Era um senhor bem apessoado, estatura média, cabelos brancos, olhos azuis, que passou toda a merenda, enquanto trincava com os dentes da frente (provavelmente não tinha os de trás) os bolinhos da Madalena, a observar as três meninas.
Quando demorava mais a olhar uma delas sorria muito a seguir, como que a amenizar aquela mirada avaliadora. Margarida pensava que, se fosse escolhida, teria de invocar cem anos de direitos adquiridos pelas mulheres e explicar que não se considerava uma couve-flor exposta no supermercado (bom, na praça) para que a freguesa, neste caso o freguês, a levasse na alcofa. Imaginava a reacção daquele pai recém-adquirido que faria o que era costume fazer naquela época a qualquer mulher que saísse da norma e estrita obediência ao poder paternal: fechá-la a sete chaves no chamado asilo, onde amarrada à cama ou com banhos gelados e outras torturas haviam de fazê-la voltar à razão. Percebeu que a ideia era o juiz voltar mais vezes até tomar uma decisão. Com muita honestidade, a mãe Maria da Glória ia explicando as características de cada uma delas: Madalena a dona de casa, Mariana a maria-rapaz, Margarida a intelectual. Ficou, pois, a saber que costumava fechar-se na biblioteca a ler livros autorizados pelo pai e até os levava para o jardim ou para o quarto para ler na cama. Margarida ficou convencida de que foi isto que a salvou do casamento com o juiz desembargador, que escolheu Madalena, pois que marido iria querer uma sabichona, tendo à disposição uma dona de casa de dezoito anos, linda e receptiva?
Descobriu também que tinha vinte e dois anos, praticamente, para a época, uma velha solteirona, e alegrou-se com a ideia de que talvez não casasse por ter passado da idade e já não ser vendável a qualquer outro bom partido, se o houvesse, pois àquele fim-de-mundo não chegavam facilmente candidatos.
O juiz desembargador Diogo António José Leite Pereira Castelo Novais Souza ficou alguns dias hospedado na Casa da Azenha, para conhecer melhor a noiva, que parecia satisfeita por ter sido a escolhida e começou a ter ares superiores para as irmãs, um tom de soberba nas ordens às criadas e uma atitude servil perante o noivo, e que Margarida considerou deplorável mas, como não a conhecia não se atreveu a dizer-lhe nada. E, de súbito, foi assaltada por um pensamento terrível, devastador, e que era onde estaria a verdadeira Margarida, a que viera substituir, a que fazia dela uma impostora, e desejou que não estivesse em Lisboa a namoriscar o Pedro, a morrer de prazer nos braços do Miguel e a preparar-se para dar aulas de Matemática. Encheu-se de ciúmes e preferiu pensar que ela estaria no século dezoito, fechada num convento, a namorar pela grade os irmãos das outras freiras. Mas não sabia. Não lhe cabia escolher. E este desvio pelas esquinas do tempo, que escapava a qualquer lógica, colocava-lhe problemas que toda a sua ciência não explicava.
Estranhavam-lhe os silêncios e chegaram a pensar que estava amuada por, na sua qualidade de primogénita, ter sido preterida pela irmã. Ela deixou que esta versão vingasse, pois tinha medo de dizer qualquer inconveniência, falar, sem querer, de neurões, enzimas, cêdês, telemóveis, televisão, ipod’s, ou simplesmente de Fernando Pessoa, Saramago ou Jorge Luis Borges. Já que o tempo lhe pregava esta partida, podia, ao menos, apagar-lhe da memória um século de ciência e de evolução. Outras interrogações a assolavam como, por exemplo, se as pessoas que consideramos geniais não serão apenas viajantes de tempos mais avançados que sabem aquilo que ainda não sabemos!, então chegou Miguel, o sobrinho do noivo. Diogo António José tinha avisado que Miguel, seu único parente, viria para conhecer a noiva do tio. Era esperado em casa, mas ninguém, a não ser a mãe, na sua qualidade de anfitriã, pensava muito nisso. Madalena estava deslumbrada com a sua nova condição e ocupada com o enxoval. Levava os dias a bordar e a servir petiscos ao noivo. Queria a todo o custo provar-lhe que ele fizera a escolha certa. Mariana gostava de sair com o pai pela propriedade, supervisionar com ele a vindima que estava em curso, montar a cavalo e conduzir a charrette. Não ia ser fácil arranjar marido. Margarida divertia-se na biblioteca a descobrir os livros autorizados pelo pai Firmino. Eram obras para meninas românticas, com finais felizes, de autores desconhecidos, com nomes que pareciam pseudónimos, talvez de mulheres. Foi na biblioteca que a mãe Maria da Glória a encontrou: Margarida! Onde é que se meteu? Ah está aqui, pois claro. Venha tomar chá, temos uma visita. Na sala azul, despache-se». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, Porto Editora, colecção Marca de Água, 2008, 2011, ISBN: 978-972-0-04181-4.

Cortesia PEditora/JDACT

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «Lisboa pouco ultrapassa o Lumiar, Benfica, Monsanto, o Porto fica-se pela Foz, Campanhã e São Mamede. Tudo o resto tem sido sistematicamente demolido»

Cortesia de wikipedia

«Um não sei quê que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê». In Luís de Camões

«(…) Talvez que, depois daqueles milhares de anos longos em que o tempo era o seu próprio embrião, o primeiro milénio da nossa era fosse a infância do tempo. Naquele século catorze que tantas vezes se me torna presente, encontro a demora da adolescência da história, o tempo detendo-se na penumbra dos castelos de pedra. No final do século vinte, que me trouxe a este cativeiro, descubro um ritmo diferente, mais vivo, mais rápido. Mas no princípio do século vinte e dois que agora frequentemente me aparece, tudo se passa em clarões velocíssimos numa sucessão de imagens iluminadas a azul-gelo, azul-inquietação, azul-miragem, como se o tempo tivesse envelhecido e estivesse com pressa de morrer. Estou louco, dirão. Sim, estou louco, já que chamam loucura a qualquer comportamento menos convencional ou sempre que a nossa mente tem acesso a um pouco mais do que à trivialidade estabelecida. Anda, vadio. Hoje vais comer ao refeitório. Já sabes que à mais pequena confusão...
Mas eu estou calmo. Estou a pensar nisto do tempo, estou a viajar dentro da minha cabeça e, excepcionalmente, estou com fome. Sinto falta de comer sentado à mesa, o prato na mão corta-me o apetite. Há caldo, a que eles chamam verde, mas onde as couves são castanhas. Há batatas guisadas com toucinho que uma vez por outra traz um pouco de carne entremeada e é bom. Tem molho e deram-me uma boa fatia de pão. E quando estou a limpar o prato como se tivesse que devolvê-lo lavado, vem-me tudo à ideia. A primeira imagem é a do oficial de ligação entre o SPP e os serviços prisionais, a dizer, levem-no, levem-no, não me façam perder tempo com o que já está decidido. Porque eu errei. Pequei contra o Planeta.
Este é um tempo em que os Governos da Terra decidiram que todos os males do mundo advêm do excesso de população. Refiro-me aos Governos Continentais donde emanam decisões que globalizam toda a legislação relativa à protecção do Planeta Terra. As crianças aprendem na escola que é preciso escolher entre o Homem e a Natureza, e ao escolhermos a Natureza estamos a salvar o Homem. Por mais cruel que isso seja para o indivíduo, acabaram-se os tempos bárbaros em que os interesses pessoais se sobrepunham à salvação da Terra. Esta doutrina intitula-se Salvismo. Agora o Planeta é o deus a quem todos devemos sacrificar. Por isso as leis são inexoráveis. Pena de morte para quem poluir as águas, derrubar árvores, incendiar florestas, matar animais ou os mutilar. Pena de morte para quem lançar qualquer espécie de substância poluente na atmosfera. Pena de morte para quem se reproduzir fora do sistema. Há, evidentemente, regras muito estritas para a criação e abate de espécies para alimentação dos humanos. Cedências no que se refere a bens de primeira necessidade. A vida tornou-se simples, próxima da natureza: estimula-se o artesanato, encoraja-se o despojamento. Mas isso só é possível com a redução drástica da população, para que se possa acabar com o abate de árvores, a industrialização, a construção desenfreada, o exaurimento dos recursos naturais.
Os Governos Nacionais orgulham-se das suas estatísticas que revelam diminuição progressiva da população que, com o tempo irá atingir a quota proposta de 20%. As medidas foram implementadas nos meados do século XXI, nem sequer passaram os cem anos das previsões, apenas cerca de setenta, pois estamos ainda no primeiro quartel do século XXII. Eu nasci em Dezembro de 2084, sou adulto na minha rememoração dos acontecimentos. Chamo-me Pedro Rey e negoceio em madeiras. É uma profissão trabalhosa, mas que me proporciona um nível de vida razoável. Dada a proibição de abater uma árvore que seja, a madeira tornou-se preciosa e atinge por vezes preços muito interessantes. Mas há que recuperá-la das demolições das cidades grandes. Isto é. As cidades periféricas, as zonas-dormitório, deixaram de existir porque a população diminui cada vez mais. E muitos dos habitantes das cidades, entusiasmados com os vantajosos apoios que lhes são propostos, optaram por ir viver em pequenas comunidades nos campos, aldeias verdejantes espalhadas por todo o país. Lisboa pouco ultrapassa o Lumiar, Benfica, Monsanto, o Porto fica-se pela Foz, Campanhã e São Mamede. Tudo o resto tem sido sistematicamente demolido para que, uma vez os terrenos limpos e tratados, se possam plantar florestas e jardins. Respeitam-se os edifícios que pela sua arquitectura ou valor histórico mereçam ser preservados e que passam a erguer-se entre frondosas matas em vez de continuarem a ombrear com dependências de bancos e lojas de quinquilharias. Portugal tornou-se mais bonito. E a Natureza, apaziguada, fez uma trégua na sua profusão de catástrofes e epidemias. Mas não. Ainda não é o paraíso». In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, Círculo de Leitores, cortesia de ASA Editores, 2005, ISBN 978-989-660-034-1.

Cortesia CL/JDACT

A Alma Trocada. Rosa Lobato Faria. «O miúdo foi crescendo por ali, caladinho, muito afeiçoado aos animais, a minha avó registou-o, para poder mandá-lo à escola, com o nome improvável de Justino Trovoada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Vai correr, então. Mostra os sapatos, são bons. Foi a tua mãe que os comprou? Mandou o motorista. Ele tem filhos da minha idade, está mais habituado. Vai, então. Cuidado com os lacraus. Corri até à beira da charca, mas fiquei entre as árvores, que o sol ainda ia alto e estava calor. As palavras continuavam a aparecer na minha cabeça como se alguém mas ditasse miligrã, oxálida, xarel e foi quando vi o Tinito, todo nu, entretido com o seu próprio membro. Negro. Assustador. Acho que há um Tinito ou uma Tinita na vida de todos nós. Pode ser a criadita descarada, a filha da vizinha, o rapaz das pizzas, o sabidão da turma. Este Tinito, que se chamava Justino, era um cigano que os pais tinham deixado à minha avó como penhor de um empréstimo que ela lhes fez. Era uma criança linda de dois anos, e por mais que a minha avó gritasse que não queria penhor nenhum (porque o dinheiro, já se sabe, havia de acabar por ser dado), muito menos um menino para criar, eles picaram a mula e desapareceram na curva da estrada, não sem recomendar que acautelassem a criança do mau-olhado.
O miúdo foi crescendo por ali, caladinho, muito afeiçoado aos animais, a minha avó registou-o, para poder mandá-lo à escola, com o nome improvável de Justino Trovoada, que era a alcunha do pai. Estudou até ao 9º ano, com relativa facilidade, era um ás em matemática, medíocre em português, mas não quis continuar. Os bichos eram a sua paixão e a avó Jacinta pô-lo a tomar conta das vacas e dos cavalos. Era um criado da sua casa, devidamente assalariado e assim as coisas deixavam de ser equívocas. O rapaz é seu neto? Não, não, é meu afilhado. A avó Jacinta era uma viúva ainda fresca, o rapaz um matulão incrivelmente bem-parecido com olhos negros e caracóis na testa, bermudas e t-shirt Benetton, que sabia misturar o odor a cavalo com um toque de lavanda. Mas de um modo geral chamavam-lhe o cigano e ele não escondia a sua origem. Gabava-se até, para as muitas raparigas que desviavam caminho para passar no monte da minha avó, da sua aristocracia cale. Sou neto de rei, dizia, embora não fizesse a mais remota ideia de quem era o avô. Esquecera os pais e só sabia como fora ali parar porque a Maria e a avó Jacinta lho tinham contado como se fosse uma história de fadas. Chegou a pensar que era um príncipe encantado e daí à convicção de ser neto de rei foi um pequeno passo.
Lá estava o Tinito na beira da charca, ao sol, com aquele corpo como eu só tinha visto num livro sobre escultura grega na biblioteca do meu avô, mas em moreno, a deliciar-se com o seu rapidíssimo jogo de mão. Depois meteu-se na água, deu meia dúzia de braçadas e viu-me quando vinha a sair. Veio ter comigo. Viste, não viste? Então agora tens que experimentar. Não, não. Dá fraqueza nos pulmões e até cegueira e até nascem pêlos na palma da mão. Ele virou as palmas claras para mim, exibindo-as como uma evidência. Vá, experimenta. Eu ensino-te. Despe-te. Foi ele que fez. Eu não despreguei os olhos dos seus olhos negros, a fingir que aquilo ali em baixo não me pertencia. E de repente aconteceu. A descoberta tomou conta de mim com tal violência que pensei que ia morrer. Depois fomos os dois ao banho. A charca (que hoje está seca) tinha água que dava ao Tinito pela cintura, a mim pelo pescoço. Brincámos como dois miúdos que éramos, o Tinito ia fazer dezoito anos, eu treze, e de repente senti-me enjoado, maldisposto, com uma urgência enorme de voltar para casa, para o meu quarto, para a minha cama, para a minha cortina de renda. Entrei só de calções, meio molhado e pus-me a vomitar». In Rosa Lobato Faria, A Alma Trocada, Edições ASA, Autores Contemporâneos de Língua Portuguesa, Porto, 1a edição, 2007, ISBN 978-972-415-283-7.

Cortesia de ASA/JDACT

A Alma Trocada. Rosa Lobato Faria. «Eu, doze anos, um rasgão no peito, uma saudade de mim, a pensar em palavras, voo, regato, antemanhã, tão à espera da minha verdadeira alma, tão à deriva…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Foi a minha avó que me contou. A minha avó Jacinta, tão diferente da filha, tão alegre e directa e terra-a-terra e desbocada, que faz a minha mãe morrer de vergonha com a sua total ausência de hipocrisias classe média, a sua vitalidade, o seu apetite, os seus sapatos todo-o-terreno. A minha mãe deixou de ser uma Ferreira para se transformar, com o casamento, numa Mendonça; numa senhora como-deve-ser; num tailleur escuro de bom corte; num agasalho de peles herdado da sogra; numa frase feita; num cliché. O meu avô João Teófilo, diz a avó Jacinta, morreu do 25 de Abril. Não da democracia, nem das novas ideias que aliás professava, mas da ingratidão dos seus homens que estimava e ajudava como se fossem família. Apareceu-lhe um grupo de mal-encarados com o Custódio à frente, de caçadeira; ó senhor engenheiro, isto não é nada com vosse-mecê, mas tem uma semana para deixar a casa e o monte que isto agora é tudo da gente. É o quê, meu filho de uma grande pu…? Tratei-te sempre como se fosses um irmão, paguei a clínica da tua mulher, os estudos do teu filho doutor, dei-te dadas as belgas que agora são tuas e tu atreves-te a vir com essa conversa? Dou trabalho a uma cambada de madraços, achas que me vou embora com medo da tua caçadeira de chumbar pardais?
Eles disseram que eu era para dizer: Não, passarão! Tás-me a chamar passarão? Filho duma égua, cabrão dum corno, paneleiro de mer… Mata-me já, que daqui não arredo pé, e depois de morto só se quatro homens me levarem como diz o marquês de Pombal. Esse tal marquês não sei quem é, mas o senhor engenheiro é que é para sair de hoje a oito dias, são ordens, que eu cá por mim nem me dá jeito perder o emprego. A gente agora arretira-se em boa ordem e vossemecê pensa o que é melhor para vossemecê. E tenha muito boas tardes que a gente tem mais montes para despejar. A minha avó Jacinta saiu a porta com uma enxada e correu-os a poder de braços, com tal força de argumentação que nunca mais lá puseram os pés. O Custódio desapareceu da circulação, diz-se que levou um tiro num dos montes que andou a despejar. Mas o meu avô não se refez. Teve uma pataleta do coração (frases da avó Jacinta) e ficou desminingúido para o resto da vida. Que foi curta. Morreu em 1975, em Julho, nove meses antes de 20 de Março de 1976, que foi o dia em que eu nasci. Feitas as contas e estando os meus pais a estrear as férias de Verão num hotel do Algarve, como é suposto em pessoas do seu estatuto económico e social, houve a previsível coincidência da cópula conjugal (que só viria a repetir-se um mês depois, no final das férias, para despedida).
Como o meu avô se passou desta para melhor com a sua segunda pataleta à meia-noite e quinze, é de supor que a minha mãe, tão cumpridora dos seus deveres de esposa, estivesse de perna aberta a receber no seu casto seio a semente de mim na hora em que seu pai desencarnou. Foi nesse instante que me trocaram a alma.
Um rasgão no peito, uma saudade de mim. E a minha mãe para sempre com aquele remorso (ela considera que fazer-me foi uma coisa suja) a imaginar, logo à partida, formas de se redimir, e a primeira, assim que lhe comunicaram que tivera um rapaz, foi pôr-lhe o nome do morto recente, o meu pai achou Teófilo mais carismático que João Teófilo, pois bem, deixaram cair o João, mas a homenagem ao finado era inevitável. Teófilo Deus, pois claro. Nem repararam que Teófilo quer dizer o que ama Deus (o meu pai é economista), só faltou porem-me Teófilo Amadeu e lá carrego eu este nome em duplicado, eu, que nem sou religioso e não é para contrariar a minha mãe. É porque no dia em que acreditar que há um Deus tenho de lhe pedir contas da minha alma trocada e duvido que ele saiba responder-me.
Ao contrário do que diz a Natália Correia, raramente encontro relação entre a pessoa e o seu nome, essa ligação misteriosa e premonitória, imaginem, a minha mãe chama-se Generosa (Geni para disfarçar). Punham-me no Alentejo quando iam viajar, só os dois, felizmente nunca se lembraram de me levar, tudo o que viajei foi por minha conta e risco, já adulto, e tudo o que não viajei foi aprendizagem de mim e do universo, foi o silêncio, os cântaros a beberem avidamente das fontes, o recolher do rebanho, um cão com alma de leader, um pássaro tardio num desenho de flecha, o meu coração inquieto, uma pedra fechada na palma da mão. Em contraluz, a Maria vinha devagar, menino Teozinho está a merenda servida, a avozinha, já sabe, mandou fazer um bolo grande de chocolate por sua causa e agora quer que o vá comer com ela, sempre alegre a minha senhora, sempre alegre apesar de tudo, da falta que lhe faz o avôzinho, da morte do seu tio Emílio na guerra de África, da sua mãezinha que, com sua licença, não lhe passa cartão, sempre armada em fina e em desocupada das que não têm tempo para nada, nem para pegar num telefonezinho, salvo seja, e perguntar a mãe se está viva, vá o menino ter com ela à sala que já lá levo a bandeja, fiz salada de frutas, vai gostar.
Eu, doze anos, um rasgão no peito, uma saudade de mim, a pensar em palavras, voo, regato, antemanhã, tão à espera da minha verdadeira alma, tão à deriva, a agarrar-me como um náufrago à minha fatia de bolo de chocolate, a pô-la no prato, a cobri-la de salada de frutas, mais pêssego que pêra, dois cubinhos de melão e por fim uma ginja em calda, tão bonita, mas que afinal me enjoa e me faz arrepender. É fácil conversar com a avó Jacinta. É ela que me conta a história, que considera hilariante, da minha concepção, do meu nascimento, a Generosa a tapar-se toda para amamentar, e a avó a lembrar-se de como expunha, às vezes ao sol, os seus belos peitos, fartos de leite, para alimentar os filhos, nada mais belo que a maternidade, a assunção do corpo, a verdade da pele voo, regato, antemanhã. Lanchaste bem? Comi de mais, avó». In Rosa Lobato Faria, A Alma Trocada, Edições ASA, Autores Contemporâneos de Língua Portuguesa, Porto, 1a edição, 2007, ISBN 978-972-415-283-7.

Cortesia de ASA/JDACT

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Os Pássaros de Seda. Rosa Lobato de Faria. «Preciso que me tragas aqui, às onze em ponto, uma fatia de bolo de mel, há bolo de mel? Há sim, senhor doutor, e um cálice de peitoral Ferreirinha que eu vou fazer serão…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Quem não o conhecer que o compre, doutor Bento. Olhe aqui o balãozinho aquecido e o cheirinho do café! Quer um charuto da caixa? Está aqui. E fica a saber que a Margarida não é para o seu dente, é só uma menina e se ela for embora eu vou com ela. Margarida? Que Margarida? Não sei de quem é que estás a falar. Com um filho de dez anos, que já percebe tudo, a sorte dele é estar no colégio interno, devia mas era ter vergonha. E tu que idade tens, sabichona? Tenho vinte e cinco mas podia ser sua mãe. E não se esqueça que estou cá desde os doze e se não fosse ter uma joelhada tão certeira já andava há que tempos desgraçada aí pelos caminhos com algum bastardo Proença pela mão. Mais café? Está bom pois, foi a Joana-Dália quem o fez. Ninguém faz café como ela, por isso trate-a bem que ela é competente e muito séria. Se eu tivesse aquela dentuça também era sério. Podes levar. Quando é que vais à terra? Nunca.
Mas o homem põe e Deus dispõe e Tiana foi chamada à terra por doença e por fim falecimento da mãe e abriu uma crise na cozinha que pôs dona Joana em completa histeria. Esta gentinha passa a vida a ter ataques e a morrer e deixam aqui uma pessoa a braços com almoços e jantares, ainda se o Bento não fosse exigente, mas não me vai perdoar nem um molho, nem uma omelete, nem sequer um pâté. A menina, Teresinha, é que me podia emprestar a sua Conceição. Nem pense, tenho os anos do meu sogro e nós também almoçamos e jantamos, não é só o Bento, a menina tem seis criadas, não me diga que nenhuma sabe fazer uma açorda. Isso era preciso que o Bento comesse açorda, odeia, nem parece alentejano, não sei o que hei-de fazer, Bem, vou andando, que o Henrique está a chegar de Lisboa, foi vender a cortiça e tenho souflé de camarão de entrada, se descai a Conceição despede-se, saiu venenosa a Teresinha, escadaria abaixo.
Era bem feita e talvez a Conceição quisesse cá vir fazer quinze dias. E agora como é que eu explico à Dália, à Jacinta, à Margarida, à Joaquina, que não sei cozinhar? Mas não foi preciso explicar. Elas já sabiam, a Joaquina e a Margarida puseram-se ao fogão, a Dália nos doces, a Jacinta na loiça, deram conta do recado enquanto o Diabo esfrega um olho. O Bento não teria dado por nada se a Joana não aparecesse à mesa afogueada, ela que dizia sempre que o jantar era o repouso do guerreiro e a mulherzinha digna desse nome devia apresentar-se linda e fresca, como se a vida fosse um mar de rosas e nenhuma crise doméstica pudesse, nem de longe nem de perto, afectar o apetite e a disposição do seu amo e senhor.
Bem prega frei Tomás, sentou-se na borda da cadeira desgrenhada e a limpar o resto das lágrimas, Agora a Tiana resolveu ir à terra e eu que me amanhe, se o jantar estiver um lixo não se admire, foram aquelas incapazes que o fizeram, nem faço ideia o que é que vai aparecer na mesa, não se espante se for chouriça assada e pão com azeitonas, deve ser tudo o que elas sabem fazer. Joana-Dália trouxe a vichyssoise, ligada, geladinha, o gostinho do alho francês diluído nas natas, o Bento repetiu, o peixe era rolinhos de linguado com feijão-verde cortado finíssimo, manteiga e limão, a Joaquina tinha extrapolado, a carne lombinhos de porco com molho de maçã e croquetes de batata, lindos, todos dourados por igual, a sobremesa fatias da China, já nem conseguiu provar a salada de frutas apresentada em cama de merengue.
Quem é que fez este jantar, perguntou o doutor Proença à Dália-Joana. Fomos nós. Nós quem, quero-as aqui todas e da cozinha vieram a Margarida e a Joaquina, acharam justo que viesse a Jacinta, tanta loiça tinha lavado, batatas descascado, claras separado e ela veio, toda envergonhada, a esconder o riso no avental. Pois a partir de hoje vão todas aumentadas no ordenado e tu do avental às riscas cor-de-rosa, leva-me ao escritório o café e a garrafa de Napoleão daí por mais ou menos dez minutos. Margarida entrou no escritório com a pesada bandeja, tremia tanto que a xícara, mal apoiada no pires, batia contra a colher de prata, Estás nervosa? Não estou habituada a servir os senhores, o meu serviço é limpar e arrumar, o senhor doutor desculpe e se não precisa mais de mim... Preciso. Preciso que me tragas aqui, às onze em ponto, uma fatia de bolo de mel, há bolo de mel? Há sim, senhor doutor, e um cálice de peitoral Ferreirinha que eu vou fazer serão. Quando a Margarida apareceu grávida ainda a Tiana não tinha voltado da terra. Confiou-se à Joana, olha a minha desgraça, a Tiana se calhar sabe de alguma coisa que possas tomar, elas às vezes comem quinino, aquilo das sezões, também há umas ervas amargas, faz-se um chá mas não sei o nome, precisávamos de alguém mais velho e a Tiana que não volta». In Rosa Lobato de Faria, Os Pássaros de Seda, licença editorial por cortesia de Asa Editores, Círculo de Leitores, 2002, ISBN 972-422-650-6.

Cortesia de ASAE/CLeitores/JDACT

Os Pássaros de Seda. Rosa Lobato Faria. «Ah, agora vens tu? A conversa já chegou à cozinha? Serve-me o café e o Napoleão e se estás armada em fada madrinha para cá vens de carrinho»

Cortesia de wikipedia

«(…) Passaram meses e um dia o marido foi-se de vez com a amiga para outra terra e nesse mesmo dia o Sol Nascente entrou pela janela e foi de livre vontade meter-se na gaiola que lá continuava de porta aberta pendurada na trave, a mulher que estava triste alegrou-se e ele cantou para ela até ao fim dos seus dias. Perguntaste-me tu, Márito e tu, Diamantina, porque é que eu, que tanto prezo a liberdade, sou capaz de meter canários em gaiolas. Pois eu entendo que, já que eles são das poucas avezinhas que cantam em cativeiro, certamente o Senhor as criou para alegrar o coração das mulheres solitárias. Tiana, na juventude, tinha-se chamado Ana. Mas o seu temperamento maternal grangeara-lhe muito cedo o grau de tia e as duas palavras, fossilizadas juntas, tinham formado Tiana, a ponto de as criadas novas a tratarem por dona Tiana. Diamantina sentou-se a tomar chá e pediu à Júlia que a chamasse. Tiana largou o tacho de cobre onde luzia a marmelada, tirou o avental de quadrados que atara à cintura, limpou-lhe as mãos e veio à salinha. A menina chamou? Tiana. Senta-te aí e toma chá comigo. Agora és a minha única amiga. Margarida Narciso, minha mãe, nasceu numa família muito pobre. O pai era ganhão, a mãe remendava a roupa de outros pobres, que lhe pagavam com um enchido, um púcaro de azeite, um pão acabado de cozer, uma mão de azeitonas. Gente calada, fechada pela miséria, os meus avós não conheceram nem deram a conhecer a ternura e Margarida, a mais nova de três e única rapariga, cresceu a ajudar a mãe, a privar-se com ela dos melhores bocados, a dividir com ela os mais duros serviços. Aos quinze anos puseram-na a servir na casa mais rica de Castelo de Vide, o  doutor Bento Proença e a dona Joaninha que tinham pessoal para dar e vender: cozinheira, ajudanta, duas de fora, uma da mesa, uma de meninos quando o Simãozinho era pequeno, uma na costura, jardineiro e chofer.
Margarida começou de ajudanta de cozinheira e dois anos depois passou para os quartos, quando a Adelina casou. A criada de mesa chamava-se Joana, mas culpada do atrevimento de ter o nome da patroa, passou a chamar-se Dália, que era o nome da anterior, nem a senhora estava disposta a habituar-se com outro. Margarida costumava ajudá-la a servir jantares maiores, almoços de domingo, banquetes de visitas. Logo da primeira vez o doutor Proença pôs o olho nela, era um jantar de vinte pessoas, sussurrou à Dália-Joana que lhe servia o Redondo tinto, a tua colega quem é? É a Margarida dos quartos, senhor doutor, pois diz-lhe que não segure a travessa do lombo pelas bordas, já sabes que a dona Joaninha é distraída, a mão é por baixo e se queimar queimou. O senhor doutor já reparou em ti, estás feita, temos de ir todas ao castigo, a Dália foi-se embora por causa disso, eu até agora escapei porque tenho os dentes saídos graças a Deus, mas qualquer dia apanha-me no escuro e esquece-se, agora tu, bonita como és, não tens por onde fugir, há-de fazer serão e mandar-te ao escritório com uma fatia de bolo de mel e uma garrafa de peitoral Ferreirinha.
Estão a tocar para os doces, agora o que é que eu faço? Serves a encharcada e eu os papos de anjo e seja o que Deus quiser. Nesse dia não aconteceu nada. Quase nada. Com vinte pessoas à mesa, o doutor Proença, um senhor tão fino, tinha que ter maneiras, só quando a Margarida lhe trocou o prato da fruta que estava todo lambuzado pela calda do doce, ele apalpou-lhe a coxa pelo lado de dentro, bem cá em cima, onde a meia de algodão enrolada na liga deixava aquele palminho de carne branca. Isto imaginou ele, porque a farda azul escura era de sarja e deixava pouco campo de manobra ao tacto. Margarida passou a andar com o credo na boca, escondia-se à espera que ele saísse, só lhe arrumava o quarto quando tinha a certeza que ele ia longe no Studebaker ou no alazão, se ele pedia uma bebida ou um café ao escritório ia lá sempre a Dália, afinal ela é que era da mesa, à Margarida só competiam limpezas e arrumações. Mas o doutor Proença era de ideias fixas e um dia, estranhando nunca mais ver a Margarida, disse à mulher, Ó Joana, porque é que nós temos uma criada de mesa com os dentes de fora? Porque sabe servir bem à mesa, não entorna nada, não é escaldadiça, não troca os copos, é silenciosa e faz bom café de balão. Mas aqueles dentes não são agradáveis de ver, estou sempre à espera que ela dê uma dentada na minha perna de borrego.
Ora, Bento! Sabe como é difícil treinar este pessoal! A outra Dália, quando estava no ponto, foi-se embora, nunca percebi porquê, umas ingratas, é o que elas são. Agora não me faça ensinar outra, que eu não tenho cabeça para tudo. Tu não tens mas é cabeça para nada, mas está bem. Manda-a lavar aquelas favolas antes de pôr o avental de renda e passar pó Avelar para branquear o esmalte. Mas isso faz cair os dentes, estraga-os todos! E eu ralado. Esfrega-os bem esfregados, estica a beiça por cima deles o mais que puder e quando eu precisar de qualquer coisa no escritório mandem-me outra que consiga fechar a boca sem ser preciso pendurar-lhe um peso na beiçola. Quando a Joana-Dália lhe apareceu no escritório com a bandeja de prata do café e a garrafa do Napoleão, a Senhora não te disse nada? De quê, senhor doutor? Leva isso para trás e manda-me outra depressa, antes que o café esfrie e o balão do conhaque arrefeça. Mas porquê, senhor doutor? Está tudo com o senhor dou... Xô; mula! Arreda, cabresto! E a Joana-Dália apareceu na copa a chorar, Aquilo é mesmo um bruto, que mal é que eu lhe fiz e a Tiana disse: Eu vou lá. Ah, agora vens tu? A conversa já chegou à cozinha? Serve-me o café e o Napoleão e se estás armada em fada madrinha para cá vens de carrinho». In Rosa Lobato de Faria, Os Pássaros de Seda, licença editorial por cortesia de Asa Editores, Círculo de Leitores, 2002, ISBN 972-422-650-6.

Cortesia de ASAE/CLeitores/JDACT

As Esquinas do Tempo. Rosa Lobato Faria. «Não é a Margarida, é a minha bisavó, que por sinal também se chamava Margarida. Uma parecença incrível, não achas? Impressionante…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Continua indisponível, disse Pedro. Não insistas. Ela foi dar um passeio e não tem rede. A Margarida diz que tu às vezes és um chato, e eu estou a ver que ela tem razão. Se eu ao menos soubesse em que hotel ela está. Mas não diz nada. Vou a Vila Real ou Bragança, ou Braga, sei lá, fazer uma palestra. Quando voltar telefono. Mas nem volta, nem telefona. Já é meio-dia, vou ligar à Matilde. Não faças isso, vais alarmar a senhora sem necessidade. Tens razão. É melhor aparecer à hora do almoço. És mesmo um chato, Pedro! Não sou eu que sou chato. És tu que não percebes nada de amor. Tens um casamento estável, tranquilo, uns filhos óptimos, para ti o amor é um dado adquirido. Mas de um modo geral há um que ama e outro que se deixa amar. Não é isso que dizem? Mariana, sabe alguma coisa da sua irmã?
Eu não, mãe. Não faço ideia. Acho que foi para o Norte. Vila Real, ou lá o que é. Ah, pois, é isso. Matilde estava a par das escapadelas da filha e tinha resolvido achar tudo natural. Preferia que ela tivesse dado um telefonema, como às vezes fazia, para dizer estou bem, mas talvez estivesse tão bem que nem lhe ocorresse telefonar. Antes assim. Desde que tivesse saúde. Quando Pedro chegou, mostrou-se tão tranquila que o contagiou com essa calma que muitas vezes a caracterizava. Senta-te, Pedro. Vou buscar um aperitivo. Mas Pedro não conseguia sentar-se. Andou às voltas na saleta de Matilde e reparou, na camilha do canto, numa fotografia que nunca tinha visto: Margarida vestida de dama antiga, segurando nas mãos um colar de pérolas. E quando Matilde voltou, que linda que está a Margarida nesta fotografia, vestida de dama antiga. Ela que odeia o Carnaval... Não é a Margarida, é a minha bisavó, que por sinal também se chamava Margarida. Uma parecença incrível, não achas? Impressionante. Pedro sentiu-se um pouco tonto. Sentou-se com a fotografia na mão e pareceu-lhe que aquela outra Margarida troçava da sua preocupação e do seu amor.

Margarida, no desespero de não ter um duche que lhe fornecesse água para o banho ou electricidade onde pudesse ligar um secador, lá ficou pronta, lavada a prestações, penteada pela Lucinda, vestida de menina rica do princípio do século vinte. Em compensação, o pequeno-almoço requintado tinha feito as delícias de uma viajante esfomeada. Um século mais tarde não teria comido melhor. A Lucinda levou a bandeja e recomendou-lhe que não se demorasse. Não tinha alternativa: era preciso descer. A escadaria, cheia de quadros, abafava os passos na passadeira de veludo bordeaux e as vozes, vindas de baixo, indicaram-lhe o caminho. Tinha imaginado que talvez os pais se parecessem com os pais, mas, a serem aquele casal austero, não se pareciam nada. A senhora, bastante velha, estava vestida de preto com uma blusa branca dejabot onde se aninhava um camafeu. Um cordão de ouro com duas voltas e brincos de brilhantes nas orelhas. O cabelo grisalho estava apanhado com várias travessas de tartaruga e sobre a cabeça tinha um pequeníssimo véu de tule bordado. Margarida pensou que se ela pintasse o cabelo havia de aparentar menos dez anos.
Bom-dia, Margarida. Está muito bonita. Dê-me um beijo, não precisa de estar assustada, disse a mãe com doçura. O pai não lhe vai ralhar por ter dormido até tarde. Nós sabemos que ontem não se sentia bem. Está melhor?, perguntou o pai, dando-lhe a mão a beijar. Estou um bocadinho melhor, obrigada. Queria ter dito obrigada, pai, mas não conseguiu. Sente-se, então. Não abuse das forças. Mariana também estava na sala. E essa sim, era idêntica à sua irmã do mesmo nome. Estava, como ela própria, mascarada de menina antiga e pareceu-lhe que tinha vontade de rir. O Senhor Novais Souza vai escolher-te a ti, tenho a certeza. Faz sentido, Mariana. A sua irmã é a mais velha e está em idade de casar, disse o pai. Espero que se portem impecavelmente. Não quero risinhos nem segredinhos. Correctas, discretas e, quanto a palavras, só as indispensáveis. Que idade terá esse senhor?, atreveu-se a perguntar Margarida. Estará na casa dos cinquenta, como eu. É um homem na força da vida. Está muito conservado. É viúvo, disse a mãe. E não tem filhos. Só um sobrinho que criou como se fosse filho dele. E quem se casar com o Senhor Novais Souza tem que fazer as vezes de mãe do sobrinho?, perguntou Mariana». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, Porto Editora, colecção Marca de Água, 2008, 2011, ISBN: 978-972-0-04181-4.

Cortesia PEditora/JDACT