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sábado, 4 de fevereiro de 2017

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «A Infanta debruçou-se e sussurrou qualquer coisa ao ouvido do pai. Diz a minha filha que o casamento não tem por força que ver com amor»

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O desejo de uma mulher
«(…) A sua filha mais velha, a infanta doña Isabel Clara Eugenia, estava de pé, atrás do trono. É um segredo mal guardado, o facto de a Infanta ser o conselheiro mais chegado do rei, bem como a sua filha preferida. Tem doña Isabel os olhos verdes e inteligentes do pai, mas o seu rosto cheio e jovial é muito mais caloroso. O cabelo castanho, trazia-o firmemente apanhado num rolo sobre a nuca. Cobria-o um toucado preto com um rebordo de pérolas, dornado por uma pena de avestruz e um alfinete de pedrarias. Fiz uma vénia e aguardei de cabeça baixa, como à espera da lâmina do carrasco. O aroma a laranja e alperce do perfume da Infanta acalmou a minha respiração agitada. Perturbando o silêncio pomposo, o vulto enorme do marquês destacou-se da multidão para me apresentar. Mais urso que homem, tem um peito poderoso, com a largura de dois, porém dirigiu-se agilmente para o trono. A sua estatura e rapidez fazem do meu mentor e amigo um adversário mortífero em duelo. Vestia de negro, como o rei, mas as suas roupas elegantes ostentavam rendas de prata e ouro. As pontas do seu bigode encerado apontam para cima, ao passo que a barba serpentina desce em espiral. O cabelo, que vem perdendo, revela muito do seu crânio. O nariz e as faces, como sempre, estavam vermelhos, fruto de muitas e lautas refeições e de incontáveis garrafas de vinho. Na vida de um homem, disse-me certa vez, vem um tempo em que a comida se torna mais apetecível que a mulher. Rezei por que, na minha vida, tal dia jamais chegasse.
Majestade, tenho o privilégio de vos apresentar don Juan Tenorio, vosso súbdito fiel. Da fé que o faz fiel será o inquisidor a ajuizar, resmoneou o rei, fazendo a multidão chilrear de gozo e a minha espinha arrepiar-se abominavelmente. A dar ouvidos às histórias que correm na corte, prosseguiu o rei, pousando agora em mim o olhar, seria levado a pensar que sois algum demónio. Apenas um homem, Majestade, respondi. As falas da corte fazem de qualquer homem um demónio. Ergui de relance o olhar e vi que o rei não pôde reprimir um ténue sorriso. Mais que ninguém, é ele vítima da maledicência e mesquinhez dos cortesãos. Disseram-me, continuou, que íeis anunciar esta noite o vosso noivado. O meu rosto deve ter traído a minha surpresa quando olhei para o marquês, cujo sobrolho, agora arqueado, revelava não ter sido ele a origem de semelhante rumor. Ter-me-ão enganado?, perguntou o rei. Iludem-vos os meus inimigos, Majestade. Não sucedeu enamorar-me. A Infanta debruçou-se e sussurrou qualquer coisa ao ouvido do pai. Diz a minha filha que o casamento não tem por força que ver com amor.
A vossa filha tem a vossa sabedoria, Majestade, disse, pondo os olhos, para lá do rei, nos da Infanta. Embora já com vinte e sete anos, ainda vive com o seu idoso pai. A mãe, casada aos quinze anos com o nosso rei para unir Espanha e França, morreu dois anos depois do nascimento de doña Isabel. Mesmo a irmã mais nova e sua única confidente, Catalina, já casou, há oito anos, com o duque de Sabóia. A Infanta aceitaria, sem dúvida, casar sem amor, contanto que o pretendente tivesse o título certo, o que não é naturalmente o meu caso». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «Depressa! Mais depressa! Cristóbal estimulava a égua, brandindo as rédeas, enquanto transpúnhamos, aos solavancos, as portas da cidade. A “Bonita” percorreu velozmente o troço que ainda nos separava do Alcázar

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Uma centelha de paixão
«(…) Tal não consegui. Q futuro é reputadamente difícil de prever, Vossa Reverência. O vosso não, Don Juan, tornou frei Ignacio, rangendo os dentes. Tão logo se extinga o vosso favor junto de el-rei, cuidarei pessoalmente de que sejais punido por todos e cada um dos vossos pecados. Os maiores pecadores são sempre os últimos a ser punidos, Vossa Reverência. Com a vossa permissão, o Rei está à minha espera.
Também eu, replicou o inquisidor. porém, vergando-se à autoridade do rei, estalou os dedos para que os guardas nos deixassem passar. Os soldados e o mar de povo abriram alas e Cristóbal convenceu ansiosamente a égua a prosseguir. Ensinou-me há muitos anos o marquês a jamais mostrar fraqueza diante de um adversário, mas, assim que nos perdemos da vista de frei Ignacio, abati-me contra o fundo do meu assento e suspirei de alívio. Retomámos o galope e, ao descermos a derradeira colina antes da cidade, avistei as suas portas, acolhedoras como dois braços abertos. Na outra margem, contudo, sobressaía a pedra do Castillo de San Jorge, quartel-general da Inquisição (maldita), qual monstro apostado em sitiar a nossa Sevilha.
Depressa! Mais depressa! Cristóbal estimulava a égua, brandindo as rédeas, enquanto transpúnhamos, aos solavancos, as portas da cidade. A Bonita percorreu velozmente o troço que ainda nos separava do Alcázar, com a carruagem sacudida de um liado para o outro, até chegarmos enfim à Puerta del León.
Depois de me ter feito anunciar, abriram-se, pare eu passar, as pesadas portas de madeira, da altura de dois homens. Correndo para o interior do palácio, cheguei finalmente ao salón de Embajadores. Enchia o salão uma nobreza aduladora, e o ar achava-se carregado de um burburinho de mexericos de corte e intriga política. Apresentam-se as paredes revestidas de azulejo e estuque segundo os enredados motivos geométricos dos Mouros. Orlam a divisão colunas de mármore negro com capitéis dourados, unidas por arcos de ferradura. Olhei boquiaberto a abóbada de ouro que resplandecia como um céu estrelado. Foi ali mesmo, naquela câmara de recepção, que, há muito tempo, o rei Pedro, o Cruel, resolveu matar o seu irmão por se ter enamorado da princesa com quem ele próprio devia casar. Perguntei-me se também eu seria ali condenado à morte.

O desejo de uma mulher
A audiência estava a chegar ao fim quando fui chamado à presença da Coroa. Enquanto me dirigia ao extremo da câmara, fez-se silêncio entre a multidão. Todos alongavam o pescoço para ouvir. Ajoelhei ante o nosso rei, em quem a idade começa a manifestar-se. Os seus verdes olhos continuam argutos e desconfiados como sempre, mas o seu rosto cansado, com a barba grisalha, parece agora bem mais perto da cova. Sofre de gota, enfermidade que deve ter tornado insuportável a viagem desde Madrid, e tinha a perna direita assente numa cadeira de armar que lhe foi oferecida peio imperador da China. Somente a bancarrota do tesouro real, consequência de guerras a mais e de um império infinito, pode tê-lo forçado a vir receber os galeões carregados de riquezas que em breve aportarão a Sevilha. Sabia que o rei desprezava a presunção e a falsidade da corte tanto quanto eu, e via que não tentava dissimular o seu enfado. Deixava-se escorregar, o nosso devoto rei, pelo trono de mogno de espaldar direito, tão austero quanto ele». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «Frei Ignacio Estrada tem rugas cavadas nas faces, e as suas têmporas, afundadas na cabeça, dão a impressão de terem sido prensadas num torno»

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Uma centelha de paixão
«(…) Amarrados a altos postes achavam-se doze homens e mulheres. Dois deles mantinham-se direitos, em ar de desafio, enquanto os corpos dos restantes pendiam já sem vida. Os mortos tinham optado por confessar a sua heresia e recebido, em paga, a mercê do garrote antes da fogueira. A seus pés, pilhas de lenha miúda e grossos toros alimentavam os enormes fogaréus que os devoravam, atingindo até mesmo as cruzes que encimavam cada poste. Por entre as chamas, vi o rosto de um mancebo que não teria mais que os dezasseis anos com que eu próprio chegara a Sevilha. Plebeus ou nobres, todos os hereges envergam o sanbenito com chamas e demónios pintados. Embora desconheça quais os seus crimes, alguns seriam por cerro seguidores de Lutero. Uma das mulheres era ruiva, motivo bastante para ter sido denunciada como bruxa. Igualmente amarradas a postes e ardendo ao lado dos hereges, viam-se as estátuas de madeira que permitem executar em efígie os que fugiram ou sucumbiram à câmara de tortura. Nem na morte se escapa à fúria da Inquisição (maldita). Estas figuras ornamentadas parecem tão reais como as imagens de Cristo Nosso Senhor na procissão da Semana Santa, e são os mesmos escultores que as talham.
É, para os inquisidores, de suma importância que a semelhança seja exacta; tão hábeis são os artistas que mesmo as lágrimas de madeira se diria deslizarem pela face das esculturas. As chamas lambiam a pele das vítimas ainda vivas. Enchiam-se os meus ouvidos com os seus gritos. Continua!, ordenei a Cristóbal, ansioso por não ficar outro instante naquele lugar diabólico. Não era possível, contudo, avançar, não apenas pela grossura da multidão mas também porque os soldados nos vedavam agora a passagem. Envergavam couraças vermelhas com pregos de metal sobre cotas de malha, largos cintos de cabedal negro afivelados à cintura, e redondos elmos de aço na cabeça. Empunhavam bestas disparadas por gatilho, o que as torna sobremaneira mortíferas. Abeiraram-se uns quantos da nossa carruagem. Só então vi quem se encontrava por trás deles. Ah, Don Juan, viestes ver o que o futuro vos reserva? Frei Ignacio Estrada tem rugas cavadas nas faces, e as suas têmporas, afundadas na cabeça, dão a impressão de terem sido prensadas num torno. Não exibe o manto negro nem o sumptuoso chapéu pontudo com rubra pluma usados pela maioria dos inquisidores. Em vez disso, traja simplesmente o hábito preto e branco de frade dominicano. Não usa chapéu, apenas a tonsura com a coroa de cabelo tão apreciada por qualquer monge. Ao pescoço traz uma cruz toscamente lavrada em tábua de oliveira. Embora já com mais de cinquenta anos, conserva os ombros largos de um robusto guerreiro de Deus. Era este homem o principal responsável pelo horror que então me cercava. Conquanto os inquisidores entreguem sempre as suas vítimas às autoridades civis para descartar a responsabilidade pelas execuções, toda a gente sabe quem manda pegar fogo à lenha. Frei Ignacio sempre se viu como um Cruzado que envia para a morte todo aquele que afronte a fé ou a pública decência. Subiu depressa na hierarquia da Inquisição (maldita) e é agora a mais importante figura logo após o Inquisidor-Mor. Conheço-o desde que foi meu professor no mosteiro. As suas lições não tiveram o condão de fazer que o estimasse. Nem os maiores pecadores, acrescentou com um sorriso impossível de distinguir de uma careta, logram escapar eternamente à Ira do Senhor. Respirei fundo e esforcei-me por reter a língua». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «Quanto a mim, tinha necessidade de um cocheiro mas faltavam-me as posses para pagar a um adulto. Não teria mais de vinte e dois anos, e tornei-me como um irmão mais velho de Cristóbal»

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Uma centelha de paixão
«(…) Afaguei-lhe a maciez da face com o indicador. Lamento não poder dar-vos mais que uma noite de companhia, disse, mas é quanto posso dar a qualquer mulher. Don Juan, destes-me mais do que o meu marido jamais deu. Ouvira dizer que, nos vossos olhos, vê uma mulher pela primeira vez a sua verdadeira beleza. Elvira engoliu a saliva. Não era mentira nenhuma. Sorri e fiz uma vénia, ciente de que a alma de cada mulher é um tesouro único. Tendo crescido como órfão num convento, cedo descobri essa riqueza, que poucos homens têm o privilégio de contemplar. Foi nas palavras da Irmã Teresa, tanto como nos beijos da sua boca, que aprendi a escutar o murmúrio sossegado das alegrias, dos medos, dos anseios de uma mulher. O tanger dos sinos da igreja mais próxima foi como uma chibata a vergastar-me a pele. O meu cocheiro, Cristóbal, bateu à porta com impaciência. Eu sabia que a minha oportunidade de prestar homenagem ao Rei e conquistar o seu favor me estava a escapar por entre os dedos. Lamento ter de partir tão bruscamente, disse, pondo na cabeça o meu chapéu de plumas. O lugar para onde vou está a léguas de ser tão aprazível como este de onde me vou. A viúva recostou-se no seu leito com um sorriso de assentimento. Deitei mão à capa e à espada e saí num relâmpago.
Cristóbal é mais alto que eu a medida de uma cabeça, mas mais magro, e tem os membros tortos como os de um espantalho. Persignou-se com nervosismo, como sempre que me vê depois de uma das minhas aventuras amorosas. Outra viúva, senhor?, perguntou num estremecimento. Suponho que acreditas nos padres, quando dizem que uma viúva há-de viver como freira até se reunir no Céu com o seu marido… Pois deixa que te conte um segredo, Cristóbal: o desejo de uma mulher não fenece antes do seu último suspiro. O meu cocheiro corou e disse: a audiência, senhor. De que estamos à espera?, retorqui sorrindo, e saltei para a carruagem. Depressa! Cristóbal incitava a égua, sem dúvida temendo pela minha vida, embora não apenas por ela: os mortos não precisam de cocheiro. A Bonita compreendeu a nossa urgência tão-só pelo tom de voz, singularmente elevado, de Cristóbal, e largou a galope pelas ruas estreitas de Lebrija, com as rodas da negra carruagem a roçarem a cal dos muros. Ao contrário de outros cocheiros, Cristóbal não usa chicote. Tem um modo de sussurrar ao ouvido de um cavalo que o leva a fazer tudo o que pretende. Se é certo que, com os cavalos, goza deste dom, as mulheres, contudo, apavoram-no. Tal receio, sempre o teve, desde o dia em que o encontrei, no Arenal, era ainda um rapazito de doze anos. Fugira de casa e procurava trabalho.
Quanto a mim, tinha necessidade de um cocheiro mas faltavam-me as posses para pagar a um adulto. Não teria mais de vinte e dois anos, e tornei-me como um irmão mais velho de Cristóbal, enquanto juntos nos íamos fazendo homens. A carruagem corria veloz pela tosca estrada de terra que conduzia a Sevilha e as rodas levantavam pó em todas as direcções. Volvidas menos de duas horas de árdua cavalgada, divisei pela janela os belos muros da cidade, que a luz do poente estival incendiava de rosa e escarlate. Muralha adentro, a Giralda erguia-se aos céus. No cimo da torre assomava uma mulher de bronze, símbolo da fé da nossa Sevilha, com uma cruz numa das mãos e uma fronde de palmeira na outra. Ao lado do campanário, o círculo da Lua, que na véspera estivera cheia, repousava sobre a catedral como uma mulher satisfeita no seu leito celeste. Aproximávamo-nos de uma espessa multidão reunida no Prado de San Sebastián, não longe das muralhas da cidade, quando um fumo negro de súbito ocultou a Lua. O odor da carne queimada ofendeu-me o nariz e revirou-me o estômago. Olhei em torno apreensivamente, mas não havia outra estrada e Cristóbal sabia que era tarde para fazer meia-volta. A Bonita teve de parar, rodeados que estávamos de todos os lados pela turba que assistia, de boca aberta e olhos fulgentes de fascinação, a um espectáculo infernal». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Diário Perdido de Don Juan. Douglas Carlton Abrams. «Mais um beijo, rogou Elvira, puxando com brandura pela manga do meu gibão castanho-avermelhado, enquanto lestamente eu tratava de me vestir. Estava atrasado»

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A paixão é uma arte. O amor é uma aventura
«Escrevo nas páginas nuas deste diário para que a verdade venha a ser conhecida e a minha sorte não fique à mercê dos rumores e mentiras que já sopram pelas ruas de Sevilha. Quando morrer, muitos serão, estou certo, os que hão-de esforçar-se por fazer da minha vida uma moralidade, mas vida alguma pode ser tão facilmente compreendida ou enjeitada. Não me arriscaria a inscrever os meus segredos neste diário não fosse o meu amigo e protector don Pedro, marquês de la Mota, a tal me ter instigado. Objectei que nada do que escrevesse poderia ser lido enquanto fosse vivo sem que o Tribunal do Santo Ofício (maldito) me condenasse à fogueira. Ontem ainda o inquisidor em pessoa marcou a fogo semelhante perigo na minha imaginação. Terá sido porventura tão recente ameaça, ou o ultimato do rei, que enfim me moveu a pegar na pena e a embebê-la na tinta que ora dá forma a estas palavras. Insistiu o marquês em que é para bem da posteridade que devo escrever um diário, pois que a imoralidade verdadeira é nossa reputação. Mal seria, porém, apenas por vaidade que haveria de o escrever. Trinta e seis anos são passados desde o meu nascimento, ou, mais precisamente, desde que a minha mãe me expôs, envolto em faixas, no celeiro do Convento de la Madre Sagrada. É decerto sinal da idade ter permitido, pela primeira vez na vida, que me persuadissem a considerar de que maneira serei lembrado. Outro desejo, entretanto, me leva de igual modo a escrever: o de legar o que aprendi sobre as artes da paixão e a santidade da mulher. Visto que renunciei ao matrimónio e não tenho herdeiros de meu sangue, forçoso me é olhar para quantos vierem depois de mim como meus descendentes e tentar partilhar com eles quanto aprendi junto das mulheres que tive o privilégio de tão bem conhecer.
As recordações de um homem inclinam-se sempre para o louvor de si mesmo, por isso não irei valer-me somente do meu próprio testemunho mas transcrever, com roda a fidelidade possível, não apenas os casos mas também as palavras bradadas durante um duelo ou sussurradas durante um encontro apaixonado. É o sobredito orgulho que me leva a principiar o meu relato pelo mais ousado feito de sedução que jamais empreendi. Era minha ambição nada menos que libertar da sua clausura, no Alcázar, a casta e solitária filha do rei, por uma noite. Sabia que, sendo descoberto, teria o privilégio, na minha qualidade de homem nobre, de pousar a cabeça no cepo do carrasco e escapar dessa forma à desonra da forca. A ambição de um homem, todavia, como o seu destino, nem sempre é dele conhecida antes do tempo, e, ao deixar os braços da viúva Elvira, não tinha o menor augúrio dos riscos que, a noite passada, sobre mim pesavam.

Mais um beijo, rogou Elvira, puxando com brandura pela manga do meu gibão castanho-avermelhado, enquanto lestamente eu tratava de me vestir. Estava atrasado, não obstante ter sido avisado pelo marquês de que a minha vida dependia de estar presente na audiência do rei. A minha intenção de comparecer a tempo não podia ter sido mais firme, mas cedera ao descobrir que a jovem mulher que ontem à tarde tinha nos braços enviuvara por culpa do oceano. A sua solidão e o seu desejo não tinham conhecido refrigério nos longos cinco anos passados sobre a morre do marido. Só mais um, insistiu, agora com os lábios estendidos na direcção dos meus. Olhei o seu rosto sorridente e os seus negros cabelos, que o nosso desejo de há pouco deixara em desalinho. A limpidez dos seus olhos castanhos reflectia a chama das velas que cingiam o altar do leito. Como recusar semelhante pedido? Tomei-lhe as faces nas pontas dos dedos e aproximei-me, chegando-me ao seu rosto devagar, pois que tudo vai do antegosto. Rocei de leve os meus lábios nos seus e de seguida titilei com a ponta da língua o canto da sua boca. Tive o cuidado de a não sufocar de beijos para que não tivesse de se guardar do meu assalto. Provei-lhe o néctar orvalhado da boca quando me abriu as suas pétalas. Unidas as bocas, era palpável a sua sede, intenso o seu arquejar. Com as nossas línguas e lábios, bebemos um do outro uma poção doce como o mel. Quando, ao cabo de longo tempo, me afastei, Elvira levitava, de olhos cerrados, porém com a sede mitigada». In Douglas Carlton Abrams, O Diário Perdido de Don Juan, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-233-768-7.

Cortesia de EPresença/JDACT