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sábado, 30 de maio de 2015

Mulher de Ferro. Dona Beatriz (1429-1506). «… não foi recusado o governo da Ordem de Cristo a Diogo, governo aliás delegado a sua mãe, dada a menoridade do titular, pela bula Nuper carisimo, de Sisto IV datada de 19 de Junho de 1475»

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«(…) É então na sequência da viuvez, e liberta de preocupações quanto ao futuro das suas meninas, que dona Brites emerge desse quase anonimato, revelando as qualidades e aptidões que detinha, até aí ocultas- Ora, se as filhas trilhavam já caminhos que lhes haviam sido destinados e não exigiam, de momento, particulares desvelos, havia que velar pelos varões, ainda de menor idade, que iriam herdar a casa e dona Brites não iria delegar essa competência a outrem. Também assim o entendeu Afonso V que, por carta dada a l0 de Outubro desse mesmo ano de 1470, lhe concederia a curadoria e tutoria dos filhos, considerando nom aver hii pessoa que tamta rrazom amor e afeiçam deua nem posse teer carreguo delles e dos feitos e cousas a elles tocamtes, autorizando-a a gouernar e aministrar a elles seus beens e cousas e pessoas e que lhe pertencerem como milhor ouuer e lhe perecer (...) sem embarguo de quaasquer lex canónicas ciuees groses e openiõoes de doutores hordenaçõoes façanhas ou costumes de nossos regnos, ou seja, o monarca assinava a possibilidade de dona Brites se tornar a verdadeira gestora da casa senhorial: do património e de uma corte que já se divisava como alternativa.
O seu primogénito, João, herdou a casa e os títulos do pai. Foi, portanto, 2.ºduque de Beja e 3.º duque de Viseu, fronteiro de Entre Tejo e Guadiana e reino do Algarve, mestre das ordens de Cristo e de Santiago, condestável de Portugal, senhor da Covilhã, de Moura e das ilhas atlânticas. O rei iria ainda fazer-lhe mercê da cidade de Anafé, com toda a jurisdição e senhorios, apenes com ressalva das alçadas.
Mas, prudentemente, dona Brites, prevenindo um qualquer desaire que roubasse a vida ao jovem duque, obteve de Afonso V uma carta dada em Lisboa, a 14 de Agosto de 1471, que, com dispensa da Lei Mental, permitia a sucessão na pessoa do filho seguinte, caso João falecesse sem deixar descendência. Não se contentou a duquesa com a mercê régia e de novo solicitou, e foi-lhe deferida, por carta dada no Porto, a 7 de Agosto de 1476, a extensão da sucessão aos restantes filhos, considerada a ordem cronológica dos seus nascimentos.
Tivera razão a duquesa, nas suas preocupações! João iria, de facto, ter uma curta vida. Tal como o diploma obtido previa, seguiu-se-lhe Diogo, como 4.º duque de Viseu e 3.º duque de Beja. Porém, não seria contemplado como o irmão. O cargo de condestável seria então outorgado a seu primo, João, marquês de Montemor, cargo de há muito ambicionado pela Casa de Bragança, que se reclamava herdeira directa de Nuno Álvares Pereira. Perderia também o mestrado de Santiago que Afonso V entregou a seu filho, o príncipe João, adentro de uma política de concentração do poder, determinação que não teria agradado a dona Brites, que tentou, desta vez sem êxito, obter o mestrado de Avis, detido também por João, para seu filho Manuel. Argumentou a duquesa que a concessão do mestrado a João, agora João II, ocorrera num tempo em que ereasomente príncipe, pelo que não seria curial continuar a detê-lo. Mas estava-se já noutra era e a dona Brites foi-lhe negada mais esta pretensão, escusando-se, habilmente, o monarca com o depauperamento do reino.
Todavia, não foi recusado o governo da Ordem de Cristo a Diogo, governo aliás delegado a sua mãe, dada a menoridade do titular, pela bula Nuper carisimo, de Sisto IV datada de 19 de Junho de 1475. Dona Brites não se limitou então a aguardar a maturidade do filho, empenhando-se directamente na governação da Ordem, como aliás o havia feito, em relação à Ordem de Santiago, ao tempo detida por seu filho João, que contaria apenas cerca de 13 anos. Assim, considerando que no cartório faltava documentação que convinha deter, nomeadamente quanto a constituições, enviou a Badajoz frei Pedro Abreu, vigário da ordem de Cristo, a fim de obter cópias das directrizes em vigor no reino vizinho». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… referem que Afonso V teria admitido o casamento de seu filho com uma outra sobrinha, a princesa D. Juana, matrimónio muito do agrado do pai desta, Enrique IV de Castela, mas para confortar o irmão…»

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D. Brites no governo e na administração da sua Casa
«(…) Donde, levar-nos a pensar que o infante Fernando não se conformava em permanecer num plano mais secundário. Daí que preferisse agir sozinho. Em caso de sucesso, permitir-lhe-ia alcançar glória, prestígio e mais riqueza, já que também não se mostrava indiferente aos despojos que poderia obter. Em 1463, todavia, acompanhou Afonso V numa expedição que tinha como objectivo atacar Tânger, mas o projecto redundou em fracasso, face à fúria dos elementos que dificultaram o desembarque. Logo a seguir, obtido o consentimento régio, o infante lançou-se sobre povoações situadas nas faldas da serra de Benaminir, exigindo para si o quinto do espólio, fazendo tábua rasa do direito cometido a Duarte Meneses, conde de Viana, primeiro capitão de Alcácer Ceguer. Ignorando conselhos prudentes e assentes na experiência, voltou a tentar a conquista de Tânger, em 19 de Janeiro de 1464, mas a surtida saldou-se, do lado português, por duas centenas de mortos e uma centena de prisioneiros. Apesar do desastre, retornou a África e atacou Arzila, sem quaisquer resultados positivos. Em 1469, promoveu nove expedição a Marrocos, atacando a cidade de Anafé, que arrasou e destruiu.
Nota Vitorino Magalhães Godinho que, se Anafé era um importante ninho de galés e fustas bem armadas para a guerra de corso, que continuamente salteavam as costas de Portugal, era igualmente um activo porto de comércio, por onde se escoava o trigo, a seda fina, a fruta e as moedas de ouro e prata. E, ao levianamente arrasar Anafé, atraído apenas pela colheita de um valioso espólio e pela satisfação de orgulho cavaleiresco, o infante não ponderou a real importância da cidade. Enquanto aguardava o marido, D. Brites remetia-se ao seu papel de mãe. Foram nove as crianças nascidas do matrimónio:
  • João (? – 1472 ou 1473);
  • Diogo (? - 1484);
  • Leonor (1458 - 1525);
  • Isabel (1459 - 1521);
  • Duarte (? - ?);
  • Dinis (? - ?);
  • Simão (? - ?);
  • Catarina (? - ?);
  • Manuel (1469-1521);
  • Mas apenas cinco iriam sobreviver à mortalidade infantil: João, Diogo, D. Leonor, D. Isabel e Manuel.
Mas a 18 de Setembro de 1470, D. Brites viria novamente partir o infante Fernando, mas desta vez para ume viagem sem regresso. Fechava-se um ciclo, que se iniciara em Alcáçovas, quando o recebera por marido. Outro se abria agora, que não lhe iria permitir que e tristeza do momento pudesse aniquilar ou sequer intervir na vida que continuava. As filhas, D. Leonor e D. Isabel, haviam celebrado os esponsais, desde muito jovens, no paço de Setúbal e ainda em vida de seu pai. A primeira, pelo seu casamento com o príncipe herdeiro, João, futuro João II, cingiria a coroa de Portugal; a segunda tornar-se-ia duquesa de Bragança, unindo os seus destinos ao duque Fernando, vinte e oito anos mais velho do que ela, viúvo de D. Leonor Meneses, filha de Pedro Meneses, conde de Viana e marquês de Vila Real. Voltando a citar o conde de Sabugosa, diremos que as duas irmãs tiveram assim em sorte os mais cobiçados maridos da Península, o que mais uma vez vem demonstrar a grandeza da Casa de Viseu - Beja, ou a continuada ambição de Fernando, já que, tanto Rui Pina como Garcia Resende referem que Afonso V teria admitido o casamento de seu filho com uma outra sobrinha, a princesa D. Juana, matrimónio muito do agrado do pai desta, Enrique IV de Castela, mas para confortar o irmão, anojado e triste, com o insucesso da pretendida conquista de Tânger, acedera ao pedido que o infante anteriormente lhe fizera.
Quanto ao outro noivo, naturalmente que havia todo o interesse em reforçar os elos com a poderosa Casa de Bragança, não esquecendo que outra não havia que se lhe comparasse. Fernando não poderia eleger diferentes maridos para suas filhas, sob pena de se constranger a si próprio». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «Sisto IV pretendendo demover João II da aplicação rigorosa da lei do beneplácito, no preciso momento que enviava o núncio João Mierli a Lisboa, solicitava à infanta que envidasse esforços no sentido de aconselhar o rei…»

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Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) E se visitássemos a botica, poderíamos observar as burnees alinhadas, conferindo os xaropes: de mel rosado, de mel de rosmaninho, de mel de avenca; ou espreitar as almotolias com óleo de raposa e com óleo de hortelã; e as arredomas com água de flor de laranjeira, de erva-cidreira e mais vinte e oito cõ xaropes de muitas maneiras e cãtidades. Se o boticário o permitisse, poderíamos ainda reparar nos utensílios que usava para elaborar as mezinhas, e talvez, com um pouco sorte, nos mostrasse os gatos de algália.
Mas não era só o extenso património ou a demonstração da magnificência do seu palácio de Beja, a que acresciam os paços de Azeitão e de Belas, que revelavam o poder de D. Brites. Para além das ligações familiares com as casas mais influentes do reino, a sua corte contava com fidalgos que detinham altos cargos na administração e nas ordens militares, dos quais desatacaremos: Álvaro Almeida, comendador da Ordem de Santiago, Álvaro Cunha, estribeiro-mor de Afonso V e de João II, Antão Oliveira, cavaleiro da Ordem de Cristo, Artur Brito, alcaide-mor de Beja, Duarte Sodré, comendador da Ordem de Cristo, Fernão Sousa, comendador da Ordem de Cristo e alcaide de Salvaterra de Magos, Francisco Góis, alcaide-mor de Mértola, Garcia Melo, comendador da Ordem de Cristo, Gil Vaz Cunha, comendador da Ordem de Cristo, Gonçalo Vaz Cunha, senhor de Vila Nova de Portimão, vedor da Fazenda e governador da Casa do Cível, Henrique Albuquerque, alcaide-mor de Marvão, Henrique Pereira, comendador da Ordem de Santiago, Leonel Rodrigues, cavaleiro da Ordem de Cristo, Rodrigo Afonso Atouguia, membro do conselho de João II e capitão donatário da ilha de Santiago, e Rodrigo Castro, membro do conselho de João II e alcaide-mor da Covilhã.
A Cúria Romana também não ficou alheia à infanta-duquesa, que manteve relações privilegiadas com a Santa Sé, nomeadamente nos pontificados de Sisto IV e de Inocêncio VIII, de quem obteve por intercessão do cardeal de Portugal, Jorge Costa, personalidade sempre muito próxima da Casa de Viseu-Beja, diversas letras apostólicas que, nomeadamente, favorecerem o Mosteiro de Santa Maria da Conceição, que a duquesa edificara em Beja. Ao invés, também o Sumo Pontífice recorreu a D. Brites. Assim, Sisto IV pretendendo demover João II da aplicação rigorosa da lei do beneplácito, no preciso momento que enviava o núncio João Mierli a Lisboa, solicitava à infanta que envidasse esforços no sentido de aconselhar o rei a não attentar contra liberdade eclesiástica.

D. Brites no governo e na administração da sua Casa
O infante Fernando haveria de falecer ainda jovem, aos 37 anos de idade, em Setúbal, a 18 de Setembro de 1470, sucumbindo à doença que o vinha afligindo desde há alguns meses. Nos anos em que decorreu o casamento, pouco se sabe da duquesa que, certamente, estaria cuidando da sua casa e da família, conforme ao modelo estatuído, que congregava o consenso de clérigos e laicos: Boa espose é aquela que está em casa e que da casa toma conta. O marido, demasiadamente ambicioso para se satisfazer com o governo de sua casa, perdidas as esperanças de cingir a coroa portuguesa ou a de Nápoles, já que não obtivera autorização para integrar o séquito que levara sua irmã, a imperatriz D. Leonor, à Itália, ao encontro de Frederico III, o que lhe permitiria contactar seu tio Afonso V, o Magnânimo, que não dispunha de herdeiro legítimo, voltara-se para outro cenário, concretizado em surtidas ao Norte de África, conquanto, numa primeira fase, não houvesse apoiado o irmão na prossecução da política africana». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sábado, 9 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… sem esquecer o velho livro ‘roto em partes’, com sua funda de chamalote azul. O breviário de pergaminho, de letra de pena, com brochas de prata com as divisas de D. Brites; […] o caderno de pergaminho, anotado, em que ‘estam certas misas d’oficio do amjo’»

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Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) A capela, iluminada por castiçais e lâmpadas de prata, adornar-se-ia com ricas alfaias sagradas, entre as quais uma ara de jaspe verde, encastoada num castão de marfim; um porte-paz de prata com sua caldeira de água benta e palea da Holanda lavrada a ouro e aljôfar; um cálice grande de prata dourada cinzelada, com seis campainhas de prata pendentes e respectiva patana, com um esmalte no centro; duas galhetas de prata dourada, em forma de gomis; uma naveta de prata dourada; paramentos de brocado, de damasco, de veludo, de pano da Índia, muitos deles lavrados e ouro. Nas estantes, recobertas com panos de veludo, de damasco ou de chamalote colocar-se-iam os livros litúrgicos: o missal de letra de pena, em pergaminho, que pertencera ao infante João; o missal, também em pergaminho, manuscrito e iluminado; o missal de pena que servia pelas festas; um outro, igualmente de letra de pena, em pergaminho, encadernado em couro vermelho; sem esquecer o velho livro roto em partes, com sua funda de chamalote azul. Seguir-se-iam o breviário de pergaminho, de letra de pena, encadernado, com brochas de prata com as divisas de D. Brites; outro breviário, também de letra de pena, em pergaminho, iluminado; os seis livros de canto de órgão; os doze cadernos de procissões; o santoral anotado, de pergaminho, encadernado em couro vermelho, com brochas de latão; o caderno de pergaminho, anotado, em que estam certas misas d’oficio do amjo; o livro de vésperas, de pergaminho; o oficial de missas, de pergaminho, anotado; o diurnal; o sacramentário; o confessional; o catecismo, em forma purtuguesa, e os livros da educação cristã: Vita Christi, Genesy Alfonse, Vida Amgelica, Flos Santorum, Corte empereal e o livro Das Penas do Imferno e da Gloria Final. Expostos ou resguardados encontravam-se também os relicários: uma cruz, que pertencera ao infante João, encimada por uma coroa de espinhos, tendo ao centro uma bolsa de ouro, ornada com duas vieiras esmaltadas de branco e rodeada por cinco diamantes encastoados, contendo uma relíquia do Santo Lenho; um relicário de ouro, grande, encimado por uma cruz, com três rubis barrocos, três diamantes, seis pérolas grossas, encastoadas em esmalte e um terceiro, também de ouro, esmaltado, em que se continha um osso de São Brás. Enfim, nos armários guardar-se-iam os panos de cetim destinados ao púlpito e as tolhas de altar, de pano da Holanda e de lenço da Índia, lavradas e ouro.
Deixemos a capela e entremos na cozinha. Para a confecção e apresentação dos alimentos dispunha a infanta de uma apreciável quantidade de tachos de cobre, de sertãs, de espetos, de caldeiras, de enfusas, de alguidares, de bocetas, de púcaros, de bandejas, de pratos de estanho e de prata, de talheres de prata, de copos de cristal de variadas cores, de gomis, de jarros, de açucareiros de prata, de porcelanas, de toalhas de damasco, provenientes da Holanda e da Flandres. À sua mesa não faltavam as frutas frescas, as conservas, os confeitos, as especiarias: canela, cravo, gengibre, malagueta, noz-moscada, pimenta». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… três rubis barrocos e dois diamantes de pontas finas; uma safira muyto gramde encastoada em ouro; um anel de ouro grande com uma safira azul; um anel de ouro com uma safira branca e olho-de-gato; um anel pequeno com um diamante…»

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Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) Para o lado da rua dos Infantes ficavam as residências dos moradores. No quintal, plantado de árvores, localizavam-se as necessárias. Se são escassos os elementos de descrição externa do edifício, o que dizer do seu interior para o qual dispomos apenas do auxílio de dois documentos: o que refere o enxoval da infanta e as disposições testamentárias da mesma, que seu filho Manuel I faria executar? Tentemos, ainda assim, entrar no palácio.
Sobre o pavimento, revestido de azulejos valencianos, avultariam as alcatifas, vindas de Castela e do Levante. As paredes deveriam ser total ou parcialmente cobertas por panos de rás (de que D. Brites levara doze, por ocasião do casamento), de dimensão e lavor variado, reflectindo a opulência da casa. Os mais pequenos representavam apenas uma figura, como, por exemplo, um rei detendo na mão o ceptro; outros narravam a história dos profetas. Face à abundância dos cercamentos de câmara, provavelmente de acordo com a dependência, e porventura com a ocasião, assim se colocariam os de cetim azul com esteios de veludo carmesim, os de damasquim pardo ou os de sarja. De entre o mobiliário avultavam as arcas, de primordial importância no acervo de uma casa pela multiplicidade de funções que ofereciam. Nelas se se aconchegavam os objectos de adorno, as peças de indumentária, se guardavam as roupas de casa, os livros, a loiça, mas poderiam igualmente servir de leito, como bem notou Oliveira Marques. A infanta dispunha de setenta e nove. Havia também os cofres: em âmbar, marchetados de marfim, provenientes da Alemanha, da Flandres, de Aragão, de Pisa, onde D. Brites guardaria as muitas jóias de que dispunha, como, por exemplo: uma vieira de ouro; dois negros de ouro; um firmal de ouro com uma figura de donzela esmaltada; um anel de sinete; uma mãozinha de ouro cheia de âmbar; uma cadeia com duas pontas de ouro e esmalte preto; uma lancinha de ouro com uma bandeira e as armas de Castela, sobre esmaltes e ferro de prata; uma língua de escorpião encastoada, em ouro, em forma de faixa com dois escudos das armas de Castela, também de ouro e esmaltados; um escudo das armas de Portugal, de ouro, esmaltado, encimado pela respectiva coroa em que brilhavam três rubis barrocos e dois diamantes de pontas finas; uma safira muyto gramde encastoada em ouro; um anel de ouro grande com uma safira azul; um anel de ouro com uma safira branca e olho-de-gato; um anel pequeno com um diamante; cinco diamantes soltos; cinco esmeraldas; seis safiras grandes, das quais quatro encastoadas em ouro; oito rubis grandes encastoados em ouro; dois castões de ouro, um deles esmaltado de branco; cinco amuletos, três de pérolas e dois de ouro; um castão de ouro, esmaltado, contendo uma pérola; dezoito rubis pequenos; dezasseis safiras; três botões de ouro, cheios de âmbar; uma sobrecopa de ouro, com esmaltes verdes e brancos, em forma de tenda, em que em torno da franja brilhavam seis rubis barrocos, encastoados em ouro, uma safira, também encastoada, entremeadas de pérolas, sendo o conjunto encimado por uma safira grande, três rubis barrocos e três pérolas pendentes entre os rubis e à porta da tenda apresentava-se uma figura de donzela com um rubi barroco na mão; cinco cordões, um de quarenta e cinco corais, outro de cinquenta corais, longos e grossos, com as extremidades de ouro cobertas de âmbar; um outro de contas cobertas de âmbar, com pontas de prata; um quarto, longo, de contas de âmbar e por fim o quinto composto por sessenta corais pequenos e longos, com sete extremidades de ouro. Relativamente às roupas de cama abundavam as colchas da Bretanha, as almofadas, os lençóis da Holanda, os cobertores de grã-vermelha, de Londres e de papa». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

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terça-feira, 4 de março de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «A fachada, onde se rasgava a porta principal, era dotada de uma magnífica escadaria de pedra da região que, nascendo no tabuleiro do adro da Igreja e extradorso do paço, atingia em forma de leque de secção pentagonal, o recinto público do Terreiro»

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Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) Poder que se espelhava no património do ducado, que aos bens anteriormente descritos iria posteriormente acrescer a parte da herança do condestável Nuno Álvares Pereira, adquirida por direito de sucessão aos familiares directos de D. Brites: seus irmãos, Diogo e D. Filipa, ambos falecidos solteiros e sem descendentes. É certo que a primeira herdeira de Diogo seria D. Isabel, a irmã mais velha das meninas, mas esta era rainha de Castela, pelo que Afonso V entendeu comprar-lhe a herança por 60 mil florins de ouro do cunho de Aragão, evitando que esse património passasse a mãos estrangeiras. Do adquirido fez o monarca doação a Fernando, a título de dote de casamento. Entravam, assim, na posse da Casa de Viseu-Beja a vila de Almada, a vila de Loulé e seus termos, com todas as suas rendas e direitos, incluindo os tributos de mouros e cristãos que lavrassem no reguengo, as terres e julgados de Lousada e de Paiva, o montado de Campo de Ourique, com todo o direito do cardo e do verde, a quintã e paço de Belas, com todas as suas rendas, foros, tributos e padroados, a quintã e paço de Azeitão, o reguengo e lugar de Colares, as rendas e direitos de Serpa e a quinta de Alagoa Alva, sita no termo de Santarém, coutada com todas as herdades, ribeiras e águas.
Mais tarde, já no estado de viúva, D. Brites iria adquirir diversos bens de raiz nas vilas de Beja, Serpa, Moura, e seus termos, bens que, na sua quase totalidade, legaria ao Mosteiro de Santa Maria da Conceição de Beja, que fundou. Residiu D. Brites, grande parte da sua vida, em Beja, no paço edificado por ocasião do casamento. Localizava-se no largo onde se erguia a Igreja de Santa Maria da Feira, com as traseiras viradas para a rua que, por extensão, tomou o nome dos nobres residentes: Rua dos Infantes. A sua casa era opulenta, ostentosa, e servida com tanta magnificência (…) que dava a impressão de uma verdadeira Corte, constata uma vez mais o conde de Sabugosa. Cremos também que deveria ter sido imponente. Nem outra coisa seria de esperar dos duques, cuja linhagem, estatuto e atitude se comparavam à Casa Real. E dizemos que devia, porque, infelizmente (é sempre doloroso admitir a perda de património onde se inscreve a nossa História), o peso dos anos não poupou o palácio e a degradação foi-se acentuando. Nos finais do século XIX, apresentando já um estado deplorável, a Câmara de Beja, aproveitando as leis emanadas no liberalismo, que determinaram a desamortização dos bens das instituições eclesiásticas e monásticas, solicitou ao poder central, em 12 de Abril de 1894, a cedência do edifício e terrenos adjacentes para demolição, com vista ao alargamento de ruas. Por despacho de 4 de Outubro do mesmo ano, o rei Carlos I havia de deferir o pedido. Donde, da nobre residência de D. Brites apenas hoje restam alguns vestígios, integrados ou recolhidos no Museu Regional de Beja, denominado Museu Rainha D. Leonor, instalado, a partir de 1927, em dependências que haviam pertencido ao extinto Mosteiro de Santa Maria da Conceição: uma belíssima janela geminada de mármore cinzento, que se inseriu na fachada do mosteiro, que Raul Proença classificou como um dos mais lindos e originais ajimeces do mourisco alentejano, algumas pedras de armas e a reconstituição, a partir de uma parte original, de uma grelhagem em terracota do antigo passadiço, composto por arcaturas cegas de ladrilho e gelosias com ornatos geométricos e vegetalistas, que ligava o palácio ao coro alto do mosteiro. Não podendo contemplar o palácio, socorremo-nos da descrição de Túlio Espanca, que inventariou o património artístico, nomeadamente do Sul de Portugal.
A fachada, onde se rasgava a porta principal, era dotada de uma magnífica escadaria de pedra da região que, nascendo no tabuleiro do adro da Igreja de Santa Maria da Feira e extradorso do paço, atingia em forma de leque de secção pentagonal, o recinto público do Terreiro. Um terraço de grelhas de tijolo e balcões geminados com arcos de ferradura dava acesso ao andar nobre, coberto por telhado de quatro águas. Sobranceira à escadaria abria-se um ajiméz de arco em ferradura, em mármore cinzento, denunciando a preferência pela arquitectura mudéjar. Um outro ajiméz, em mármore branco, ornamentava também o palácio. Ao nível do andar nobre corria um balcão, muito provavelmente também de estilo mudéjar, onde se abriam duas largas portas que comunicavam com o salão de recepção. No piso térreo, que deitava para um espaçoso pátio, localizava-se uma enorme sala, sustentada por colunas de tijolo. De cada lado do pátio, situavam-se as habitações dos criados, as cocheiras e as arrecadações». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT