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domingo, 23 de setembro de 2012

Tesouros da Literatura e História. Duarte Nunes de Leão. Chronica del rei D. Afonso Henriques: «… hauendo noue annos que a Rainha sua mai era fallecida, ajuntou boa companhia de gente escolhida, com a qual, como se fez prestes, partio de Coimbra, & na primeira jornada que fez, acontesceo de lhe morrer seu aio, & bom conselheiro…»




jdact

NOTA: Texto na versão original.

«Os religiosos da ordem de Sam Ioam se cliuidem em tres partes: huns saõ caualleiros freires, outros cappellães, outros sargentos, que saõ seruidores para as armas, ou para os officios, que tem algum cargo da religião. Tambem acceptarão Donatos, que saõ huns homeês, que sendo casados, ou solteiros, se fazem familiares da ordem, para gozarem das graças & priuilegios della. Os quaes trazem húa Cruz branca de soos tres braços sem o de cima, que pelas leis deste reino não gozão tlos priuilegios. Em todas as prouincias da Christandade tem esta religião Priores, & dignidades, & muitas commendas, villas, & fortalezas de grossas rendas. E como saõ de differentes nações, se diuidem em oito lingoas principaes, a que as mais se reduzem. A primeira he de Proença. A segunda de Aluernia. A terceira de França. A quarta de Aragão, Valença, Catalunha, & Nauarra. A quinta tle ltalia. A sexta era de Inglaterra. A septima he de Alemanha. A oitaua de Castella, Lião, & Portugal.
Tornando ao Principe Dom Afonso, como houue a seu poder as villas de Leiria & Torres Nouas, & outras, começou a conceber em seu animo outras empresas de mais risco, & de mais honra, indignado de ver em terras, que já Íorão de Christãos, entronizados os sequazes de Mafamede, com suas mesquitas leuantadas, onde ja houue igrejas & altares, em que se celebrauão os diuinos officios, & de que tantos damnos, & oppressofu recebião todas as tenas dos Christãos cada dia. E com conselho dos seus se resolueo em trabalhar quanto podesse por os lançar fora dellas, fazendolhes logo guerra nas terras de Alenteio, assi por nellas hauer poucas fortalezas, & a terra ser fertil, em que podião achar muitos mantimentos, como porque naquellas partes hauia hum Rei Ismar mui poderoso, que dominaua todas aquellas terras do Poente, com quem elle desejaua de se encontrar, & ttarlhe batalha: do qual se Deos quisesse que houuesse victoria, esperaua hauer o dominio de totla a terra da estremadura, que se lhe não poderia defender. Tendo isto determinado, & sendo o anno de M. CXXXIX. & hauendo noue annos que a Rainha sua mai era fallecida, ajuntou boa companhia de gente escolhida, com a qual, como se fez prestes, partio de Coimbra, & na primeira jornada que fez, acontesceo de lhe morrer seu aio, & bom conselheiro Dom Egas Moniz, que elle muito sentio, assi por o amor que lhe tinha como a pai, porque elle o criara, & feruira de menino, como por a muita necessidade que de seu conselho tinha naquelle tempo.
E mostrando por sua morte muito sentimento, (como os Principes deu em fazer polos boõs seruidores que lhes monem, para incitar, & contentar os que lhe ficão) o mandou mui acompanhado de muita nobre gente a Paço de Sousa, hum moesteiro, que elle fundara, duas legoas da ciclade do Porto, para sua sepultura, a que deixou muita renda, & muitos ornamentos, como também edificara o moesteiro de Sam Martinho de Cucujães na terra de sancta Maria, & como sua molher Dona Tareja edificou, & fundou o moesteiro das Cerzedas, duas legoas de Lamego, da ordem de Sam Bento, em que jaz enterrada. E he para notar a differença que ha dos homeõs daquelle tempo aos deste, que hum fidalgo sem terras, & com muitos Íilhos, em tempo que não hauia Indias, nem Mina, nem Brasil, com sua molher fazia tres moesteiros mui sumptuosos & grandes, & os dotaua de muitas rendas, sem deixar diuidas a seus filhos, o que nestes tempos se não taz. A causa disto he a sobriedade, & temperança dos homeõs de entam, & o luxo & destemperança dos dagora». In Tesouros da Literatura e da História, Crónicas dos Reis de Portugal, reformadas por Duarte Nunes de Leão, Lello e Irmão, Editores, 1975, Porto.

Cortesia de Lello e Irmão Editores/JDACT

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ruy de Pina. Crónica de D. João II. «Este Officio estorial, que nas letras, e na pluma consiste, que he assi-fielmente crara luz de nossa vida, e de nossa memoria, e das cousas passadas testemunha taõ verdadeira, que consirados com animo agradecido, os grandes e immensos beneflcios, que pera deleitaçaõ, proveito do corpo, e boa governança da vida…»



jdact

Texto na versão original.

Introducçaõ
«De todas as Chronicas que trazem o nome de Ruy de Pina, esta d'ElHey D. Joaõ II. hé a que mais se deve estimar, pelo author ter sido naõ só testemunha de vista, mas taõbem actor em muitos dos factos que nella se relataõ. Já, neste seculo Miguel Ferreira se propôs dala ao publico, a quem a prometteo, no prologo da sua ediçaõ das Chronicas dos seis Reis, mas naõ chegou a cumprir a sua promessa, Para a presente ediçaõ nos servimos do exemplar da Torre do Tombo, que conferimos com outro de bastante antiguidade, que os Religiosos Benedictinos do Mosteiro de Lisboa, com a urbanidade que lhes hé propria, nos permittiraõ de examinar. Nas Chronicas precedentes seguimos servilmente a orthografia dos originaes, o que continuaremos a fazer nas seguintes, mas julgou-se a propósito supprimir as letras dobradas, de que se fazia hum estranho abuso nos tempos em que foraõ escritas, e cauzavaõ embaraço na impressaõ.

Começa a croniqua do muy eycellente Rey Dom Joham da Groriosa Memoria dos Reys o tredecimo, deste nome o segundo de Portugal, e o primeiro que se entitulou Senhor de Guiné.

Prologo de Ruy de Pina
Cavalleiro da Casa D'elre y Nosso Senhor e Cronista Mór, e Guarda Mor da Torre do Tombo de seus Reynos.

Este Officio estorial, que nas letras, e na pluma consiste, que he assi-fielmente crara luz de nossa vida, e de nossa memoria, e das cousas passadas testemunha taõ verdadeira, que consirados com animo agradecido, os grandes e immensos beneflcios, que pera deleitaçaõ, proveito do corpo, e boa governança da vida, e inteira salvaçaõ d'alma delle sempre recebemos, certo bem parece, que a bondade e prudencia Divina o outorgou soomente a nós os racionaes por graga mui singular, e bem sobre todos; e porque dos louvados, santos, e vertuosos eixemplos, e segura doutrina, que na estoria como em vida e imaserll se nos reprsentam sômos assi ensinados, que naõ sómente em nossos erros, e vicios naturaes nos esfriam, e refream pera com menos lembrança hos obrarmos, mas ainda pera as vertudes e crÍì.ro nome, em tanto amôr, e desejo nos acendem, que com dobrado coraçaõ, e huã vertuosa enveja nos esforçam, e obriguam pera conseguirmos a flnal tençaõ porque nacemos, que he vivermos sempre bem, porque moiramos melhor, e acabemos como devemos. E a cada hum de nobre esprito; póde ser assi mesmo mui autorizado eixemplo; pois he certo que nas taes lembranças, e contemplaçoës das eiccellentes cousas passadas, que assi lêmos, e ouvimos, em especial de nossos proginitores, e naturaeg, e logo secretamente sintimos que nos entra no coraçaõ húa veituosa envoja acompanhada de hum novo esforço, que pera sermos nobres, e justos, o verdadeiros, ousados, e boõs nos avia dobrado, e pera legitimanente conseguirmos per nossas obras groriosa fama de nossos maiores, nos costrange huma necesidade de sangue, e natureza com agudos, e receosos pongimentos de vergonha; de que se segue, que quando sobre elles outro maior merecimento de honra, e mais onrado nome naõ alcançâmos, ao menos porque naõ pareça que por nossa infamia, vicio, e minguoa se apaguou em nós sua tristeza, e resplandecente herança, que elles com verdades, é feitos notavees acenderam, trabalhamos por ser taes, que em algüa boa parte os semelhemos; pelo qual os Estoricos antiguos sentindo em aÌgum Principe passado hüa só vertude singular, elles per sua memoria, e bom eixemplo dos futuros sumamente lha louvávarq, e por ella avendo ho de mortal por immortal; e de umano por divino ho alevantavam até ho Céo; certamente assinada engratidaõ, ou barbara negrigencia seria, se a vida, craros feitos, muy Reaes perfeiçoês do muy alto, e poderoso Principe ElRey Dom Joaõ, deste nome ho segundo de Portugal, ou todafas ! opdades, e vertudes froreceram, ficáram por escrever, apaguadqs e pundenadas ao escuro esquecimento pera sempre, e antes assi he necessario ficar deste mui Real Principe esta sua groriosa memoria, que postoque até seu tempo naõ fôra custumado escrepver-se das bondades, e feitos notavees dialguem; deste bemaventurado Rey per hu singular, e maravilhoso ensino de Reis, era rezaõ que se começasse primeiro, e que por memoria de seu noume, groria…» In Ruy de Pina, Tesouros da História e da Literatura, Lello e Irmão, Editores, 1975, Porto.

Cortesia de Lello e Irmão Editores/JDACT

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Tesouros da Literatura e História. Duarte Nunes de Leão. Chronica del rei D. Afonso Henriques: «E exercitando este officio com muita charidade & deuação, sabendose pelos Principes Christãos, lhes fizerão muitas doações, & lhes appropriarão rendas, & assinarão villas & castellos, para que mais abastadamente, & a mais numero de gente podessem proueer, & sostentarse a si»

Cortesia de wikipedia

NOTA: Texto na versão original

«Chegandose a estes muita companhia de caualleiros, começarão a pelejar contra os infieis, deixando outros em guarda dos caminhos. Pola qual razão muitos Principes Christãos para ajudarem o proposito santo destes caualleiros, lhes assinarão em seus reinos rendas & terras, de que se pudessem sostentar. E o Papa Honorio II aa instancia de Stephano, Patriarcha de Ierusalem, por elles terem feito voto de castidade, & viuerem em irmandade & congregação, lhes deu regra &á. Ordem de vida, ordenada per Sam Bernardo, com habito branco, a que Eugenio III acrescentou hüa Cruz Vermelha, que trouxessem nos peitos. Estes caualleiros crescerão em tanto numero, & fizerão tanto seruiço a Deos, & aa Republica naquellas partes, que todos os Principes Christãos lhes derão em suas terras muitas villas, & castellos, & grandes rendas, per que se estenderão não soomente pelo Oriente, mas pelo Occidente, criando seus Mestres pelas Prouincias, & instituindo commendas, cujo gtam Mestre residia na santa cidade de Ierusalem. Neste estado, crescendo em potencia & rendas, florecerão CC annos, atee o anno de MCCCX em que o Papa Clemente V no concilio de Vienna de França os condenou, & extinguio sua ordem polas causas, & maneira que dizemos na chronica d'el Rei Dom Dinis.

Per este mesmo tempo, & quasi pelos mesmos meos, teue principio a ordem do hospital de Sam Ioam de Ierusalem, cujo principio foi este. Em tempo antigo, antes da sancta cidade de Ierusalem se tomar pelos Christãos, impetrarão alguns peregrinos, da igreja Latina, do Soldão do Egypto, por tributo que lhe derao, que podessem edificar hum moesteiro. O qual fizerão junto da igreja do santo-sepulchro, & the chamarão Santa Maria a Latina: & nelle instituirão hü Abbade com alguns monges. E este Abbade, & monges, da hi a pouco tempo, edificarão hüa cappella & hospital para cura,,& recolhimento dos peregrinos, da inuocação de Sam Ioam Baptista: o qual mantinhão de sobejo de seu moesteiro. Vindo despois a cidade aas mãos de Christãos, hum religïoso de nação Frances, per nome Gueraldo, que muito tempo hauia ministraua naquelle hospital, determinou de fazer húa noua ordem de homees, que fizessem aquelle officio, & mouendo a isso alguns homeês pios, tomou habito regular, & com seus companheiros curaua aos pobres & enfermos, & aos que morrião enterrauão no campo, que chamauão Acheldemach. A obediencia derão ao Patriarcha, & ao Abbade, & lhes dauão os dizimos do que acquirião.

Fotografia de José Filipe
Cortesia de wikipedia 

E exercitando este officio com muita charidade & deuação, sabendose pelos Principes Christãos, lhes fizerão muitas doações, & lhes appropriarão rendas, & assinarão villas & castellos, para que mais abastadamente, & a mais numero de gente podessem proueer, & sostentarse a si. Polo que crescendo o numero destes religiosos, o Papa Honorio II lhes ordenou regra de viuer, & lha confirmou debaxo da ordem de sancto Agostinho, dandolhes habito negro, & Cruz branca, com voto de castidade, pobreza, & obediencia, & de pelejarem contra infieis por a religião Christaã. Polo que ficando o carrego do recolhimento, cura, & enterramento dos peregrinos aos que erão clerigos de ordens, os leigos se occupauão na milicia, & da hi em diante se chamou sua ordem do hospital de Sam Ioam de Ierusalem. O primeiro assento desta religião foi em Ierusalem. Despois de ganhada a cidade per Saladino, se passou aa cidade de Ptolemaida de Phenicia, a que vulgarmente chamão Acre, & outros Acon. E perdendose tambem esta cidade, se passarão os caualleiros aa ilha de Rhodes, que aos Turcos tomarão no anno de MCCCVIII.

E sendo lhes nestes tempos proximos a nós, tomada aquella Ilha pelos Turcos no anno de MDXXII pedirão a el Rei Dom Ioam III de Portugal lhes desse a cidade de Septa, para dalli pelejarem com os infieis, & guardarem o mar Mediterraneo dos Mouros & Turcos, que as praias de Hespanha, & de Leuante infestauão cada dia. O que lhe el Rei negou, não sabemos com quanta vtilitlade de Hespanha, & da Christandade. Polo que assentarão na ilha de Malta, a que os antigos chamauão Melite, junto a Sicilia, que lhe o Emperador Carlos V deu em feudo, com foro de hum falcão por anno. Na qual sendo os caualleiros acõmettidos dos Turcos, que a ella vierão muitas vezes com grandes armadas, se defenderão valerosamente, posto que com sangue, & morte de muitos; & na dita ilha florecem oje com grande honra de sua ordem». In Tesouros da Literatura e da História, Crónicas dos Reis de Portugal, reformadas por Duarte Nunes de Leão, Lello e Irmão, Editores, 1975, Porto.

Cortesia de Lelo e Irmão Editores/JDACT

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tesouros da Literatura e da História. Duarte Nunes de Leão. Chronica del rei D. Sancho I: «Aos quaes no mar de Hespanha succedeo hua tam grande tormenta, que os deitou no porto de Lisboa. El Rei Dom Sancho, que entam staua em Sanctarem, sabendo da vinda de aquellas gentes, & de sua tenção, veo a Lisboa, & os mandou agasalhar & honrar, & proueelos de mantimentos & refrescos necessários»

Cortesia de purl

NOTA: Texto na versão original

«Era o Infante Dom Sancho de XXXII.annos ao tempo que seu pai el Rei D. Afonso Henriquez falleceo. E ao terceiro dia seguinte apos sua morte, foi leuantado em Coimbra por Rei. O que foi a IX de Dezembro do anno de MCLXXXV. E como naquelle tempo quasi todo Portugal staua cobrado dos Mouros, vendose o nouo Rei em paz, entendia no bom gouerno de seus reinos.
E assi para engrossar a terra, como para que os homees não se dessem a vícios, stando ociosos, & viuessem per seu trabalho, fez romper muitos matos, & laurar muitas terras, & cultiualas conforme aaquillo para que erão, dandoas & aforandoas, & fazendo muitos fauores aos que mais benfeitorias fizessem.

Polo que com razão lhe chamarão Laurador. E por que muitos lugares, dos que dos Mouros se ganharão, stauão desbaratados, & outros de todo per elles destroidos, & feitos ermos, reedificou os caídos, & os pouoou, & lhes deu nouos foraes, como forão villas de Valhelhas, Penamocor, Sortelha, Bragança, Sea, Gouuea, Penella, Figueiroo, Couilhãa, Folgosinho, a cidade da Guarda.
E de nouo fundou Monte mor o Nouo, & a villa de Valença, reedificou Torres Nouas, & ennobreceo a cidade de Viseu, & a villa de Pinhel. Polo que também lhe chamauão o Pouoador.Ampliou o Mestrado de Sanctiago, sendo entam instituído nouamente em Castella, & Mestre Dom Sancho Fernandez, Terceiro em ordem, & lhe deu as villas de Alcacere do Sal, Palmella, Almada, Arruda.

Cortesia de purl

E aa ordemda Freiria de Euora, que despois de se passar aa villa de Auis, se chamou daquelle nome, deu Valhelhas, Alcanhede, Alpedriz, Iurumenha, sendo Mestre Dom Gonçalo Viegas, filho de Dom Egas Moniz. E aa ordem do Templo deu a cidade da Idanha.
Nestas obras se occupaua el Rei Dom Sancho no tempo, que não tinha guerras com Mouros. E sendo no anno de MCLXXXVII, tomada a sancta cidade de Ierusalem pelo Soldão Saladino, com grande estrago de gente Christãa, o Papa Vrbano III que entam presidia na igreja de Deos, entre os mais Reis Christãos, lhe mandou requerer, que aquelle feruor, com que seu pai & elle perseguirão os sequazes da lei de Mafamede, o quisesse agora mostrar na conquista da sancta cidade, que com tanto opprobrio dos Principes Christãos, lhe tirarão das mãos, por a discórdia delles. E que agora em concordia se auia de armar com os mais, para vingar tamanha offensa de Deos, e da religião Christãa. Esta empresa acceptara el Rei, & a acommettera, sem ser requerido, por seu esforço & religião, se os pouos lho não contradisserão. Porque lhe puserão diante o grande perigo, em que se punhão as cousas de Hespanha, hauendo ainda nella tantos Mouros, & nas partes vezinhas de Africa, donde saião cada dia com grandes exércitos, & vinhão contra os Christãos. E que se ajudasse a cerrar hua porta aas guerras de Asia, abria muitas aas de Europa, em grande dano da Christandade.

Cortesia de purl

Polo que el Rei se mandou escusar ao Papa per taes & tam justas razões, que do sancto padre, & do Collegio dos Cardeaes forão mui acceptadas, & louuadas, & o conselho que el Rei nisso tomara. E sendo el Rei mui triste, por se não poder achar com outros Principes em tam sancta obra, & honrosa conquista, satisfez em parte a falta de não ir em pessoa, com mandar grandes ajudas de dinheiro a Ierusalem, para aquella guerra. E para o soccorro ser mais perpetuo, deu muitas viÌlas & terras aas nouas ordees do Templo, & do hospital de Sam Ioam, cujas rendas se arrecadauão pelos Mestres & Priores, que daquellas ordees pelo reino erao deputados. E quanto maior foi o impedimento, que seus vassallos lhe poserão a ir aa guerra de vltra mar, tanto maior foi o desejo, que lhe cresceo, de fazer guerra aos Mouros, por não parecer, que buscaua ócio em tempo que tantos Principes pelejauão fora de suas terras, por exalçamento da fee de Christo. Polo que logo leuantou as tregoas, que com os Mouros tinha assentadas, & correo, & destroio muitas terras da fronteira da Andaluzia.

Naquelle tempo correndo o anno de MCLXXXVIII entre muitas gentes, que de toda a Christandade ião aa conquista da terra sancta, forão certos senhores principaes de Dinamarca, Phrisia, Hollanda, & Flandres em hua frotta de cinquoenta & três naos. E segundo Nicolao Gilé noa annaes de França, era de oitenta & sete. Cinquoenta de Dinamarca, Phrisia, & Hollanda, & XXXVII de Flandres. Aos quaes no mar de Hespanha succedeo hua tam grande tormenta, que os deitou no porto de Lisboa.
El Rei Dom Sancho, que entam staua em Sanctarem, sabendo da vinda de aquellas gentes, & de sua tenção, veo a Lisboa, & os mandou agasalhar & honrar, & proueelos de mantimentos & refrescos necessários (101)». In Tesouros da Literatura e da História, Crónicas dos Reis de Portugal, reformadas por Duarte Nunes de Leão, Lello e Irmão, Editores, 1975, Porto.

Cortesia de Lelo e Irmão Editores/JDACT

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Luís de Sousa Rebelo. As crónicas portuguesas do século XVI: «Estas formas de perspectivação impõem determinados protocolos de leitura não só dos descobrimentos senão que também da história de Portugal e da acção dos seus monarcas. “A grande marauilha e misterio do achamento ou mais com uerdade comquista das Indias, numqua esperado…”»

Cortesia de halp

«Uma das implicações desta situação é que não se contrarie um projecto de tal natureza, nem se ponha obstáculos ao trato entre o Oriente e o Ocidente, porque esse contacto é da vontade de Deus. Acresce ainda a convicção de haver gentes cristãs no Oriente, comunidades criadas pelos apóstolos S. Tomé e S. Bartolomeu, e o elo, que entre elas e o ocidente se quer estabelecer, obedece ao propósito de unir toda a humanidade na mesma fé. As seitas e heresias que nasceram na Europa e as que, por implicação de sentido, existiam nas terras agora descobertas, haviam impedido a comunicação entre as duas partes do globo e por isso tinham seguido na frota religiosos que poderiam cristianizar essas populações.

Estas formas de perspectivação impõem determinados protocolos de leitura não só dos descobrimentos senão que também da história de Portugal e da acção dos seus monarcas. Datada de 1 de Março de 1500 e feita em Lisboa, a carta de D. Manuel / Duarte Galvão assinala um momento importante no ideário político da corte. Mau grado as frequentes missões diplomáticas, que lhe são confiadas, Duarte Galvão, a pedido de D. Manuel, provavelmente em 1502, vai proceder a uma revisão da história dos primeiros reis, que em Portugal foram, à luz dos grandes acontecimentos. A sua “Crónica d'el Rey dom Affonso Hamrriques primeiro Rey destes regno de Portugall” completada em 1505, é o fruto dessa incumbência. Muito lida, a julgar pelo número de manuscritos existentes, mas não publicada no século XVI, a obra está baseada essencialmente nas crónicas de Santa Cruz de Coimbra. Duarte Galvão incorre, porém, em vários erros, qual é o de atribuir à casa da Hungria a origem do Conde D. Henrique, pai de Afonso Henriques Na verdade, para os historiadores de feição humanista, como João de Barros, Duarte Galvão não é aceito como um verdadeiro cronista. Ele é mais um ideólogo manuelino dos descobrimentos, como se depreende do prólogo da crónica. Os termos em que aí se refere aos descobrimentos são idênticos aos que utiliza na carta dirigida ao Samorim. Com efeito, descreve-os como:
  • «a grande marauilha e misterio do achamento ou mais com uerdade comquista das Indias, numqua esperado nem crydo pellas gemtes, atee que see uio feito per uosso mandado, e posto per obra».

Cortesia de casadosalunoseya

D. Manuel, a quem atribui a resolução e o cumprimento do plano da navegação, que realizou numa só viagem o que em sessenta anos havia sido feito, logrou que «o mundo em muyta parte nam sabida soubesse parte de ssi mesmo», exprimindo-se o cronista de um modo que prenuncia ecos de um dizer camoniano ("Novos mundos ao mundo irão mostrando"), indício de um discurso dos descobrimentos que se encontra já na sua formação. O êxito da viagem-momento da enunciação do discurso, vai levar Duarte Galvão a desvendar, numa leitura retrospectiva, o significado profético que ocultam as grandes resoluções tomadas pelo monarca:
  • a expulsão de judeus e mouros do reino;
  • a perseguição religiosa que lhes move;
  • o prosseguimento das navegações e a guerra travada contra os mouros nas partes de África.
Alude com frequência a estes feitos como o mistério onde ainda não transparece a inspiração divina. Esta só se manifesta, quando a cadeia dos eventos é movida por uma causalidade que tem como objectivo o descobrimento da Índia, revelando um projecto que, em seu entender, ultrapassa as forças humanas e a consciência dos homens. Os sinais do destino, que descortina no reinado de D. Manuel, vai identificá-los igualmente o cronista nos antecessores do monarca. Ao alongar o olhar pela história, ao deter-se no fundador do reino, capta sentidos latentes na sua biografia que até então jamais haviam sido notados. Para Duarte Galvão a nomeação do bispo negro por Afonso Henriques prefigura «o mistério» do serviço de Deus. Porque ela anuncia a conversão religiosa como tarefa missionária de Portugal e o ingresso na fé cristã dos povos das mais variadas raças e cores:
  • «As gemtes timtas das Ethiopias e Indias, e outras terras nouamente per ... navegaçam e conquista achadas».

Cortesia de cancioneirodeastreya

Os protocolos de leitura da história de Portugal, adoptados por Duarte Galvão, obedecem a um “modos interpretandi” que era frequente na hermenêutica dos textos bíblicos. A concordância entre o Velho e o Novo Testamento serve o duplo processo das identificações providenciais e a harmonia teológica, que compõe a unidade das duas partes, obrigando a uma viagem do olhar para trás, a regressar à autoridade do já conhecido. Tanto quanto podemos conjecturar, no século I há semelhanças e diferenças entre judeus e cristãos quanto à sua dependência da Bíblia Hebraica. Ambos acertaram que os textos bíblicos continham mistérios e profecias e eram textos de sentido messiânico. Mas enquanto os judeus aguardavam o advento do Messias, os cristãos haviam tido já essa experiência e ela modificava por completo a sua leitura dos textos antigos. Duarte Galvão assume na sua leitura dos descobrimentos uma atitude análoga à dos primeiros cristãos perante a Bíblia Hebraica. Os descobrimentos são para ele a manifestação de Deus, a obra do plano divino, que tem os Portugueses como instrumento. E assim como aos primeiros cristãos se impusera outra leitura da Bíblia Hebraica, após a vinda do Messias, assim também toda a história de Portugal terá de ser entendida à nova luz do magno evento das navegações.

Essa atitude transparece na oscilação semântica dos sememas "achamento" e "acaso", quando se refere ao descobrimento do caminho marítimo para a Índia. Só se acha o que já se conhece, aquilo que já sabe que se vai encontrar. E na ordem do plano divino, onde os Portugueses assumem o lugar do povo eleito, compete-lhes consumar a sua realização - a chegada à Índia -, o que se afigura um acto predeterminado. Neste sentido, e apenas neste sentido, o descobrimento seria obra do acaso, pois fora comandada por desígnios superiores à vontade humana. Por outro lado, a ambiguidade semântica engloba ainda o conhecimento que, por diversas vias de informação, se havia daquelas partes do mundo». In As Crónicas Portuguesas do Século XVI, Luís de Sousa Rebelo, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Fundação Calouste Gulbenkian, HALP, 2000, nº 6208/84.

Continua
Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

domingo, 13 de novembro de 2011

Tesouros da Literatura e História. Duarte Nunes de Leão. Chronica del rei D. Dinis: «Polo que tendo elle grandes informações da infanta Dona Isabel, filha del Rei Dom Pedro o III. De Aragão, & da rainha Dona Costança, filha del Rei Manfredo de Napoles & Sicilia, a mandou pedir a seu pai per seus embaxadores, que forão Ioam Velho, Vasco Pires, & Ioam Martijz, fidalgos de seu conselho»

Cortesia de gentemaior

NOTA: Texto na versão original

«Ao tempo que el Rei Dom Afonso III falleceo, era o Infante Dom Dinis seu filho primogénito de XVII. annos. Polo que tanto que foi jurado & leuantado por Rei, tomou logo o gouerno dos reinos aboglutamente, como homem de legitima idade, que polo costume de Hespanha para isso tinha. Mas a Rainha Dona Beatriz, sua mai, que era molher mui bastante & prudente, ou porque por sua industria, & contemplação, se accgrescentarão ao reino de Portugal os lugares do reino do Algarue, & os de alem de Guadiana, de que na vida del Rei Dom Afonso se fez menção, 'ou por el Rei seu filho ser mui liberal, & de idade em que os homêes saõ vehementes a qualquer, parte que se inclinão, quisera, ella gouernar com. elle juntamente naquelles principios de seu reinado.

E como os Reis naturalmente saõ impacientes de parçaria na jurdição, & mando, o não consentia. Do que entre, elles suceedeo grande desauença, pola qual a Rainha se foi a Castella, com ptetexto de ir visitar seu pai, com o qual steue ate seu fallecimento, & ao fazer de seu testamento, como se vee delle; que foi –hüa das testemunhas que o assinarão. Sendo, pois, el ,Rei ,Dom Afonso descontente por a discordia que hauia entre sua filha & neto, querendo acordalos, se veo aa cidade de Badajoz, lugar do estremo de Castella, & da hi mandou pedir a el Rei Dom Dinis, seu neto, se quisesse ir tambem a:Eluas, lugar do estremo de Portugal, que dista três legoas de Badajoz. Vindo el Rei Dom Dinis el Rei de Castella, seu avoo, lhe mandou a eluas os Infantes Dom Sancho, Dom Pedro, & Dom Iaimes, seus fllhos, & o Infante 'Dom Manuel, seu irmão, pedindolhe por elles, se quisesse ver com elle em Badajoz.


Cortesia de moodle

El Rei Dom Dinis deteve seus tios consigo três dias & despedindoos lhe disse, que logo se ia apos elles.E stando el Rei Dom Afonso mui aluoroçado, sperando per o neto, elle o não quis ir ver, receando que com rogos o quisesse metter em poder & arbitrio de sua mai. E da hi se foi logo a Lisboa, parecendolhe, que menos aggrauo fazia a seu avô em não ir verte com elle, que em lhe negar o que lhe pedisse, teendo delle recebido tantos benefícios com a exempção di reino do Algarue. Polo que el Rei Dom Afonso descontente, & mui sentido de seu neto, se tornou para Seuilha.

Vindo o anno de MCCLXXXI. & sendo el Rei Dom Dinis de idade de XX. annos, lhe pedirão seus pouos, quisesse tomar molher. Polo que tendo elle grandes informações da infanta Dona Isabel, filha del Rei Dom Pedro o III. De Aragão, & da rainha Dona Costança, filha del Rei Manfredo de Napoles & Sicilia, a mandou pedir a seu pai per seus embaxadores, que forão Ioam Velho, Vasco Pires, & Ioam Martijz, fidalgos de seu conselho.
Do qual requerimento sendo el Rei de Aragão mui contente, como quem grandemente o desejaua, Ioam Velho, que como principal pessoa para isso leuaua special poder, recebeo a infanta em nome del Rei Dom Dinis. A qual aaquelle tempo era de XI annos, & de estremada fermosura, & ornada de grandes virtudes, per que veo ser sancta & venerada como tal. El Rei seu pai a trouxe ate o estremo de Castela & Aragão, & despedindose della com muitas lágrimas & saudade, assi por sua bondade & mansidão, como por ser tam moça, & que elle muito amaua, a entregou ao bispo de Valença & a outros grandes do reino de Aragão, que a trouxerão a Portugal.


Cortesia de ciscodedeus e azultradicional  

Quando a Rainha per Castella entrou, o Infante Dom Sancho, que era seu primo coirmão, por ser filho da rainha Dona Violante, irmãa del Rei Dom Pedro, a veo ao caminho receber, & mandou fazer a ella & a suas gentes grandes gazalhados. E por elle ser occupado nas guerras em que andaua, a que lhe era necessário ser presente, mandou com ella o infante Dom Iaimes, seu irmão, que a acompanhou ate Bragança, onde foi a entrega.

Em Bragança staua o Infante Dom Afonso, irmão del Rei Dom Dinis, & o Conde Dom Gonçalo, seu cunhado, casado com Dona Lianor, sua irmãa bastarda, & muitos ricos homees & prelados, que trouxerão a rainha a Trancoso, onde el Rei Dom Dinis a ataua sperando, & a recebeo, &e se fizerão as vodas com grandes festas, & aparato. Da Rainha Dona Isabel, sua molher, houue el Rei Dinis a infante Dona Costança, que foi rainha de Castella, molher del Rei Dom Fernando IIII que morreo emprazado, & o infante Dom Afonso, que lhe succedeo no reino.

Fora do matrimonio houue, seis filhos de diuersas mais. S. de hua Aldonça Rodriguez houue Afonso Sanchez, que se chamou de Albuquerque, mordomo mmor del Rei seu pai, & a que elle muito quis. Do que nasceo a discórdia & desobediência do infante Dom Afonso contra seu pai. Este Afonso Sanchez foi casado com Dona Tareja Martijz, ou segundo outros, de Meneses, filha de Dom Ioam Afonso de Albuquerque, & de Dona Tareja Sanchez, filha bastarda del Rei D. Sancho o III de Castela, de que nasceo D. Ioam Afonso senhor de Albuquerque; alferez del Rei D. AÍonso XI, de Castela, o qual foi grande senhor». In Tesouros da Literatura e da História, Crónicas dos Reis de Portugal, reformadas por Duarte Nunes de Leão, Lello e Irmão, Editores, 1975, Porto.

Cortesia de Lelo e Irmão Editores/JDACT

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

FCG. Luís de Sousa Rebelo. As crónicas portuguesas do século XVI: «Atribui ao infante D. Henrique, tio de D. Manuel, o propósito de fazer aquela navegação em "serviço de Deus” […]. Em D. Henrique profetiza e mitifica Galvão o futuro, que é o tempo presente do rei Venturoso»

Soldado indiano e mulher da vida indiana dançando e cantando
Cortesia de halp

«[...] É dentro destes parâmetros históricos que se situam os cronistas portugueses da Ásia na era de Quinhentos. Eles traçam a narrativa da presença portuguesa na Índia e no Oriente, iniciada com a partida de Vasco da Gama de Lisboa em 1497 até aos anos 50 do século XVI. Nem todos abrangem, porém, esse período na totalidade. Fernão Lopes de Castanheda planeava tratá-lo em 10 livros na sua “História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses”. João de Barros, nas “Décadas” da Ásia, detém-se em 1539. E Diogo do Couto, que procurou continuá-las, estende as suas “Décadas” até ao ano de 1550. Gaspar Correia, nas “Lendas da Índia”, abrange um período de igual duração, dando um quadro minucioso do que ocorre entre 1497 e 1550. De todos eles o primeiro a redigir e a publicar a sua obra é Fernão Lopes de Castanheda, que viveu dez anos no Oriente, conhecia os lugares que descreve e não desempenhava qualquer caÍrgo na corte.

O primeiro livro da “História do Descobrimento e Conquista da Índia” é dado à estampa em Coimbra, em 1557, por João da Barreira e João Alves. Narra o autor neste volume o descobrimento do caminho marítimo para a Índia até à guerra com o Samorim de Calecute em 1504. Por ser o primeiro relato, que sobre o assunto se publica, conhece a “História” de Castanheda uma enorme popularidade, sendo prontamente traduzida para francês, castelhano, italiano e inglês.

Lisboa do século XVI
Cortesia de wikipedia

Mas esta primeira versão e os volumes que se seguiram cedo incorreram no desagrado dos fidalgos da corte, inquietos com a probidade e isenção do cronista, que não hesitava em apontar condutas menos dignas no Oriente, em particular durante o primeiro cerco de Diu (1538). Este grupo obteve da regente, D. Catarina, o embargo da publicação da obra, que se defrontou desde então com toda a ordem de percalços. Mas o aparecimento do livro primeiro da “História” de Castanheda em 1551, é da maior importância para compreender o sentido e os rumos do discurso histórico dos descobrimentos. Pouco depois, em 1554, a mesma obra é reimpressa, numa edição refundida pelo Autor, por João da Barreira, em Coimbra.

O cortejo das duas edições da “Historia do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses” é essencial para compreender a formação do discurso histórico e da mitologia dos descobrimentos. Nem apenas a elas se deve restringir a comparação, mas, sim, alargá-la à que entre estas e a “Década I” de João de Barros, saída em 1552, se faça, onde o discurso aparece já na sua forma definitiva e institucionalizado como versão oficial.
Na edição de 155I a honra do descobrimento da Índia é claramente atribuída nos primeiros capítulos da “História” de Castanheda a D. João II. Esta situação muda radicalmente no texto de 1554. Ai a inspiração do feito cabe na totalidade a D. Manuel I e a viagem de Vasco da Gama parece movida por um desígnio providencial, que, às vezes, se confunde com o acaso. Esta viragem reflecte a nova mentalidade da corte, onde a ideia manuelina do império começa a criar forma em torno do monarca e do grupo que o cerca, não correspondendo, no entanto, essa posição a uma atitude generalizada.

Goa
Cortesia de wikipedia

Uma das figuras primaciais e activo fomentador dessa corrente é Duarte Galvão, conselheiro do círculo íntimo do soberano e com poder para influenciar as decisões régias. Das muitas cartas e ofícios que redigiu, resta-nos a que, em nome de D. Manuel, endereçou ao Samorim e lhe é entregue numa versão em «lingoa Arabica». O texto é reproduzido na íntegra por Fernão Lopes de Castanheda, que atribui a Duarte Galvão a sua autoria na edição da “História” de 1554. Aí se define perante o soberano oriental o carácter único daquele encontro, efectuado por inspiração do Espírito Santo, cousa que foi "posta em obras e tempos" por Deus "limitados é não antes nem depois". Afirma-se aqui o tempo português no qual se consuma um plano de inspiração providencial. É a partir deste presente, em que se tem a visão confirmatória do que se considera a vontade divina (visão que o era tanto mais para o autor do texto quanto é certo que antecipa um encontro que não presencia), que ele constrói retrospectivamente o tempo da história. Atribui ao infante D. Henrique, tio de D. Manuel, o propósito de fazer aquela navegação em "serviço de Deus” e confere aos antecessores do monarca a continuidade do projecto que leva ao seu sucesso. Em D. Henrique profetiza e mitifica Galvão o futuro, que é o tempo presente do rei Venturoso. A viagem atinge o seu termo, cumprindo ao mesmo tempo uma missão espiritual: o encontro do Oriente com o Ocidente. A entrega da missiva de D. Manuel, efectuada por Pedro Álvares Cabral ao Samorim de Calecute, conclui ritualmente esse tácito acordo, que vinha esboçando-se, ao longo dos tempos entre Portugal e a divina Providência:
  • “Assi que ainda que esta cousa seja feyta per homens, não se deue de julgar se não por obra de Deus a cujo poder he possiuel o que os homens não podem fazer”.
In As Crónicas Portuguesas do Século XVI, Luís de Sousa Rebelo, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Fundação Calouste Gulbenkian, HALP, 2000, nº 6208/84.

Continua
Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

sábado, 29 de outubro de 2011

Tesouros da Literatura e História. Duarte Nunes de Leão. Chronica del rei D. Afonso Henriques: «Pela authoridade dos antepassados padres somos amoestados, que tudo aquillo que quisermos ser firme & valioso, per escripturas publicas o encommendemos aa memoria, assi dos presentes, como dos que ao diante forem. Polo qual eu a Rainha Tareja…»

Cortesia de andancasmedievais

NOTA: Texto na versão original

«Per morte do conde Dom Henrique ficou a Rainha Dona Tareja sua molher em posse & cabeça do reino, como senhora proprietaria que era delle,por el Rei Dom Afonso seu pai lho dar em dote. O qual ella administrou & gouernou os annos que viueo despois da morte de seu marido, que forão dezoito annos, segundo se auerigou. Sob cuja gouernança & administração ficarão o Infante Dõ Afonso seu filho, & suas filhas Dona Sancha, & Dona Vrraca, como se vee do testamento & doação, que a mesma Rainha Dona Tareja fez da jurdição da cidade do Porto a Dom Hugo Bispo della no anno do senhor de M. CXX. que forão despois da morte do conde seu marido oito annos: na qual assinarão ao custume daquelle tempo os ditos seus filhos, o Infante Dõ Afonso, & Dona Sancha, & Dona Vrraca. O qual testamento & doação está registrado no tombo Real do reino, na lingoa Latina, em que naquelle tempo fazião as escripturas publicas. Do qual porei aqui o treslado em Portugues, como na see do Porto está, & della mo mandou Dom frei Marcos Bispo da mesma cidade. Porque he o mór testemunho, que póde hauer, para confutação das calumniosas fabulas, que contra aquelles principes andarão ategora no vulgo. Porque per este instrumento se vee, como a Rainha Dona Tareja não casou com dous irmãos, como logo o marido falleceo, nem sua filha Dona Sancha passou a infamia de casar com seu padrasto, sendo viua sua mai. Nem o Infante D. Afonso Henriquez teue causa de prender sua mai, senão de venerala, como sempre fez ate morte. E a doação he a seguinte.
Cortesia de purl
  • «Pela authoridade dos antepassados padres somos amoestados, que tudo aquillo que quisermos ser firme & valioso, per escripturas publicas o encommendemos aa memoria, assi dos presentes, como dos que ao diante forem. Polo qual eu a Rainha Tareja, filha do glorioso Emperador Afonso, em honra & gloria de nosso Senhor Iesu Christo, […] Doo por tanto & otorgo os sobreditas heranças, ou pesqueiras a santa Maria da see do Porto, & a Dom Hugo Bispo da dita see, & a seus successores, & faço caução firmissima per seus termos. […] Eu a Rainha Dona Tareja, filha do glorioso Emperadar Afonso, confirmo & assino esta carta, ou caução, com mintas próprias mãos, juntamente com consentimento de meu filho Afonso, & de minhas fihas Vrraca, & Sancha. […]».
Gouernaua a Rainha Dona Tareja suas terras de Portugal, & o Infante Dom Afonso seu fllho, que era mancebo, & de altos pensamentos, as defendia dos continuos assaltos, que os Mouros, que tinha por vezinhos, lhes fazião; como foi o cerco que a Coimbra veo pôr hum Rei Mouro chamado Eujuni no anno de M. CXVII. com hum exercito de tantos mil homeês, que as memorias daquelle tempo dizem ser trezentos mil, de que muitos erão de cauallo.

Cortesia de arqnet 

Mas o Infante com os que na cidade tinha, se defenderão tam valerosamente, & tanto entretiuerão os Mouros, que nelles deu hüa tam cruel peste, que cada dia lhes fallecia muito numero de homeês, alem da fome, de que vierão padecer, por se lhe gastarem os mantimentos no largo tempo do cerco, cuidando elles, que em chegando tomarião a cidade. Polo que vendo os Mouros a diminuiçaõ que nelles fazia de húa parte a peste, & da outra os Christãos, & que os cercados tinhão muitos mantimentos, que lhes a elles faltauão, desesperados de tomar a cidade, leuantarão o cerco, & com grande afronta sua se forão, deixando grande parte da gente, que trouxerão, morta, com grande honra do Infante Dom Afonso, que naquelle tempo era de XXIII. annos.

Naquelle mesmo anno ajuntou o Infante algúa gente, determinando de não estar vago, & ganhar honra com os maos vezinhos, que tinha, & fez entrada pela terra de Leiria, cujo castello combateo rijamente. E posto que fosse mui forte, & os Mouros se defendessem com muito esforço, tomou o castello per força, matando aa espada os mais dos Mouros, que achou. Tomada a villa a deu ao Prior Dom Theotonio de Santa Cruz de Coimbra, que era hum homem santo, & em que elle tinha muita deuação, & a elle, & ao seu moesteiro fez doação do temporal & espiritual della, em que o Prior pôs por Alcaide Paio Goterrez, homem principal & esforçado. E tomada Leiria, proseguindo o Infante mais pela terra dos Mouros, tomou a villa de Torres Nouas, & da hi se tornou para Coimbra cõ os seus carregados de honra, & despojos.
Nestes tempos teue origem a ordem dos Templarios, que inda oje he mui embrada por o muito louuor que ganharão os primeiros caualleiros della, & o infame & lastimoso fim, que houuerão os derradeiros. E muito mais pola grande & altercada duuida de sua innocencia, ou culpa. Hauia naquelles tempos, em que da Christantlade toda ia aa guerra santa grande multidão de gentes, noue caualleiros quasi todos Franceses mui esforçados. Dos quaes soomente ficarão os nomes de Hugo de Paganis, & Gaifredo de santo Adelmaro, que tomarão por officio defender os peregrinos, que aos lugares santos ião, dos salteadores, que hauia, assi do porto de Iapha, atee a santa cidade de Ierusalem, como per outros lugares. Andando, pois, o tempo em que se vio a vtilidade, que aos Christãos vinha de seu amparo & defensaõ, & sendo ja muitos em numero, lhes foi assinado por pousada & recolhimento hum certo lugar no santo templo do sepulchro de nosso Senhor, per permissaõ do Abbade delle, donde lhes veo o nome de Templarios, ou caualleiros do templo». In Tesouros da Literatura e da História, Crónicas dos Reis de Portugal, reformadas por Duarte Nunes de Leão, Lello e Irmão, Editores, 1975, Porto.

Cortesia de Lelo e Irmão Editores/JDACT