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sábado, 13 de dezembro de 2014

Figuração da personagem. A ficção meta-historiográfica de José Saramago. Carlos Reis. «Herculano dizia, em 1840, que ‘o noveleiro [entenda-se: novelista] pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive’»

Cortesia de wikipedia

«(…) Outra questão seria a de saber até que ponto as telas de Santa-Bárbara, cada uma por si ou todas em conjunto, assumem alguma coisa da narratividade de que o romance de Saramago naturalmente é tributário. O que bem se compreende, não só por força da basilar natureza modal do romance, mas também como efeito derivado daquela outra narratividade que é própria de muitos textos historiográficos ou similares (por exemplo, as biografias), designadamente aqueles que o escritor terá lido para escrever o seu romance. Se hoje a problematização da narratividade se alarga a outros âmbito modais (a poesia) e até a práticas artísticas não-verbais (a música e a pintura), com mais razão ela pode colocar-se quando falamos da pintura como leitura do romance. Esta é, contudo, uma questão que ultrapassa os limites desta análise. Que a literatura constitui um fundamental veículo de conhecimento de épocas, de costumes, de figuras e de acontecimentos é bem sabido, como também se sabe que ele é de natureza diferente daquele que a reflexão científica busca, incluindo-se aqui o conhecimento histórico facultado pela historiografia. Porque o conhecimento que a literatura permite modeliza-se em função de factores normalmente alheios ao discurso científico: a configuração de mundos ficcionais, sem obrigação de verificação empírica ou de validação documental; a propensão para a elaboração simbólica, metafórica ou alegórica; a vocação para cultivar, na linguagem verbal que em primeira instância suporta o discurso literário, procedimentos estilísticos de muito variada feição.
Quando a literatura se faz romance, o conhecimento que dela decorre tende, em todo o caso, a homologar-se (como é óbvio, a homologia é coisa diversa da analogia) ao da historiografia. Por isso, o romancista e historiador Alexandre Herculano dizia, em 1840, que o noveleiro [entenda-se: novelista] pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive; e acrescentava: Essa [a novela] é a história íntima dos homens que já não são: esta [a história] é a novela do passado. O raciocínio de simetria que Herculano explana inviabiliza-se quando, muito depois do idealismo romântico que o determinou e em tempo de pulsões pós-modernistas, o romance, em provocatória radicalização do seu poder evocativo, fomenta visões alternativas da História e desafia o conhecimento que dela temos. Por isso, faz sentido dizer que a ficção histórica pós-modernista constrói e desenvolve dispositivos de contraditória conjectura e autorreflexividade, de modo a questionar a natureza do conhecimento histórico, tanto de um ponto de vista hermenêutico como de um ponto de vista político. Conforme é notório, uma parte importante da ficção de José Saramago constitui uma activa interpelação da História, através da palavra do romance. Desde Manual de Pintura e Caligrafia (1977) e Levantado do Chão (1980) que assim aconteceu, então ainda de forma moderada. Mas é o romance Memorial do Convento que constitui, no conjunto da produção saramaguiana, uma verdadeira pedra angular, em vários aspectos e também naquele a que me reporto: tanto do ponto de vista temático, como no que toca às estratégias narrativas nele instauradas, como ainda pela peculiaridade do seu estilo, Memorial do Convento revelou-se um momento de viragem técnica e de refinamento ideológico, reafirmando a vocação para aquela interpelação da História que ficou referida e que foi retomada, em termos diferentes, na História do Cerco de Lisboa (1989).
De forma necessariamente sintética e antes de voltar a figuras históricas presentes no Memorial do Convento, trato de recordar que um traço evidente da ficção de José Saramago é, por certo, o impulso para operar uma revisão da História, em função de um ponto de vista ideológico que subverte imagens e heróis aparentemente estabilizados pela historiografia oficial». In Carlos Reis, Figuração da personagem, A ficção meta-historiográfica de José Saramago, Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, Academia, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Figuração da personagem. A ficção meta-historiográfica de José Saramago. Carlos Reis. «… ele aflora apenas e de forma parcelar ou implícita em episódios (e em telas) como, ‘A ara de Cheleiros’, ‘Infanta gatinhando’, ‘Os fazedores do capricho’ e sobretudo ‘Os passatempos d’El-Rei’. O pintor fixou-se em acções e em contexto que, articulando-se com as personagens…»

Cortesia de wikipedia

«A 19 de Agosto de 2001, foi inaugurada na Biblioteca Nacional, em Lisboa, uma exposição do artista plástico José Santa-Bárbara, intitulada Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento. Estava-se ainda relativamente perto da atribuição do Prémio Nobel da literatura a José Saramago e o autor de Memorial do Convento (1982), em grande parte graças a este romance, era já uma figura com projecção e com notoriedade internacionais. O motivo e os temas da exposição eram evidentes: o pintor fizera uma leitura de Memorial do Convento e as obras exibidas traduziam, num outro médium, o resultado dessa leitura. Recordo brevemente o que foi a mencionada exposição (que à época conheceu assinalável êxito de público), tal como testemunha o catálogo (Santa Bárbara, 2001): trata-se de 35 telas, compreendendo 11 estudos, com recurso a diferentes técnicas e predominância do óleo e da têmpera vinílica sobre papel colado; todos os estudos usam o pastel, com uma excepção (uma aguarela). A feição geral das obras revela-nos um conjunto de figuras com rostos alongados, individualmente e em grupos, pintados em cores sombrias e envoltos por uma atmosfera pesada e dramática. Importa sublinhar desde já que se trata, neste conjunto pictórico, sobretudo de personagens, para usar um conceito que provém do romance e que aqui é pertinente. E parece estranho, à primeira vista, que nenhum dos quadros fixe a monumentalidade do convento que dá título ao romance: ele aflora apenas e de forma parcelar ou implícita em episódios (e em telas) como, por exemplo, A ara de Cheleiros, Infanta gatinhando, Os fazedores do capricho e sobretudo Os passatempos d’El-Rei.
O pintor fixou-se em acções e em contexto que, articulando-se com as personagens, desde logo sugerem o reiterar de componentes ideológicos que semanticamente estruturam a história contada no romance: o esforço anónimo dos operários, os cenários da Inquisição (maldita), a construção da passarola voadora. Aqueles componentes odeológicos e também, naturalmente, o tempo histórico em que transcorre a acção do Memorial do Convento, ou seja, o século XVIII português e o reinado do monarca João V, que a História, digamos oficial fixou com o cognome de Magnânimo. É em função do tempo histórico, da sua representação ficcional e das figuras que nela encontramos que me interessa aqui a pintura de José Santa-Bárbara, em diálogo activo com o romance Memorial do Convento e, pela mediação deste, com aquele tempo histórico.
Encontram-se no catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento breves textos que constituem uma boa abertura para a análise do diálogo a que me referi, um diálogo desenvolvido em função da triangulação história-ficção-pintura. Num deles, é o próprio pintor que nota que Saramago deu nome aos fazedores do capricho, João Francisco, João Elvas, Manuel Milho, Julião Mau-Tempo, José Pequeno, Francisco Marques, Joaquim da Rocha Baltazar Mateus, Blimunda; e logo depois cita o conhecido passo do Memorial do Convento em que são alfabeticamente elencados os nomes dos tais fazedores: torna-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino. Brás, Cristóvão, Daniel, Egas Firmino, Geraldo… Ou seja, todos os nomes, sem título de distinção social ou apelido de família, remetendo-se deste modo e por antecipação para a lógica da nomeação do desconhecido que reencontraremos num outro romance de Saramago, precisamente Todos os Nomes (1997). Por fim: aqui fica a minha leitura d’aquilo que para mim é a verdadeira História. Como quem diz: há uma leitura outra, que não é modelizada em palavras, mas em imagens, e a verdadeira História requer a questionação (ideológica bem entendido) da versão oficial que uma outra história tratou de instalar no imaginário que dela se alimentou.
O próprio José Saramago confirma o que fica sugerido no breve texto que escreveu para o catálogo. Ou seja: a questionação empreendida por Santa-Bárbara, pela via da pintura, prolonga o romance e aprofunda a indagação da História que nele pode ler-se. Destaco três ideias desse texto: uma, Santa-Bárbara não pinta a História, mas sim uma sua representação literária, ou seja, a ficção meta-historiográfica chamada Memorial do Convento; outra, o pintor representou e sublinhou a figuração humana do Memorial do Convento, quer dizer, valorizou nele o processo retórico-narrativo de construção de personagens; outra ainda, a pintura como re-figuração permitiu a Saramago superar aquela espécie de persistente inibição que o fez retardar por algum tempo a autorização para adaptações cinematográficas (para estas, não para as teatrais ou para as operáticas) do Memorial do Convento. Não quero ver as caras das minhas personagens, dizia Saramago; mas agora, vendo as telas de Santa-Bárbara, sei, finalmente, como era Blimunda. O que quer dizer que a pintura deu à personagem o rosto que o romance mal havia esboçado.
Curiosamente, é um outro escritor, Orlando Costa, quem, igualmente num texto do catálogo, nota: Neste conjunto de quadros impõe-se sobretudo a figuração, como uma ordem a que o pintor obedece com um sentido de liberdade instrumental de criatividade interpretativa, figurantes sem voz, personagens carregadas de silêncio e vontades, vontades, mesmo em trabalhos forçados. O termo figuração está dito e tem um alcance teórico e metodológico que hoje tratamos de acentuar, no que toca ao seu significado conceptual; no caso de Santa-Bárbara, o movimento de figuração confirma a relevância das personagens como imagens disponíveis para uma releitura cuja dimensão fenomenológica é salientada num outro texto do catálogo, o do também pintor Rogério Ribeiro. Diz Ribeiro: os quadros de Santa-Bárbara são uma construção paralela, um outro tecido, associando o desígnio de dar forma, onde cada um já pôde construir as inevitáveis imagens mesmo que as não represente; e assim, se o pintor pôde propor um certo rosto das personagens, não é essa proposta outra coisa a não ser o resultado de uma leitura da História e de algumas das suas personagens agora refiguradas, desde logo em confronto com as imagens que a leitura de cada leitor tratou de constituir. Melhor: trata-se de uma
leitura da leitura da História, pois que ela se centra num romance que só o foi a partir da pesquisa meta-histórica que o escritor José Saramago levou a cabo, para proceder à figuração ficcional do monarca João V». In Carlos Reis, Figuração da personagem, A ficção meta-historiográfica de José Saramago, Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, Academia, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sábado, 4 de maio de 2013

Memorial do Convento. José Saramago. «Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é, razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar…»

jdact

«Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era necessária melhor razão. Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa.
Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.
Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é, razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue. Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

terça-feira, 30 de abril de 2013

Memorial do Convento. José Saramago. «… e esta que é filha, e amada como se viu pelo modo como a olhava a mãe, não teve mais dizer senão, Ali vai, e depois voltou-se para um homem a quem nunca vira e perguntou, Que nome é o seu, como se contasse mais sabê-lo que o tormento dos açoites»

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«E tendo ouvido as sentenças, as minhas e mais de quem comigo vai nesta procissão, não ouvi que se falasse da minha filha, é seu nome Blimunda, onde estará, onde estás Blimunda, se não foste presa depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.
Já passou Sebastiana Maria de Jesus, passaram todos os outros, deu volta inteira a procissão, foram açoitados os que esse castigo haviam tido por sentença, queimadas as duas mulheres, uma primeiramente garrotada por ter declarado que queria morrer na fé cristã, outra assada viva por perseverança contumaz até, na hora de morrer, diante das fogueiras armou-se um baile, dançam os homens e as mulheres, el-rei retirou-se, viu, comeu e andou, com ele os infantes, recolheu-se ao paço no seu coche puxado a seis cavalos, guardado pela sua guarda, a tarde desce depressa, mas o calor sufoca ainda, sol de garrote, sobre o Rossio caem as grandes sombras do convento do Carmo, as mulheres mortas são descidas sobre os tições para se acabarem de consumir, e quando já for noite serão as cinzas espalhadas, nem o Juízo Final as saberá juntar, e as pessoas voltarão às suas casas, refeitas na fé, levando agarrada à sola dos sapatos alguma fuligem, pegajosa poeira de carnes negras, sangue acaso ainda viscoso se nas brasas não se evaporou. Domingo é o dia do Senhor, verdade trivial, porque dele são todos os dias, e a nós nos vêm gastando os dias se em nome do mesmo Senhor não nos gastaram mais depressa as labaredas, por duplicada violência, que é, a de me queimarem quando por minha razão e vontade recusei ao dito Senhor ossos e carne, e o espírito que me sustenta o corpo, filho de mim e de mim, cópula directa de mim comigo mesmo, infuso do mundo sobre o rosto escondido, igual ao mostrado e por isso ignorado.
No entanto, é preciso morrer.
Frias hão-de ter parecido, a quem perto estivesse, as palavras ditas por Blimunda, Ali vai minha mãe, nenhum suspiro, lágrima nenhuma, nem sequer o rosto compadecido, que ainda assim não faltam estes no meio do povo apesar de tanto ódio, de tanto insulto e escárnio, e esta que é filha, e amada como se viu pelo modo como a olhava a mãe, não teve mais dizer senão, Ali vai, e depois voltou-se para um homem a quem nunca vira e perguntou, Que nome é o seu, como se contasse mais sabê-lo que o tormento dos açoites depois do tormento do cárcere e dos tratos, e que a certa certeza de ir Sebastiana Maria de Jesus, nem o nome a salvou, degredada para Angola e lá ficar, quem sabe se consolada espiritual e corporalmente pelo padre António Teixeira Sousa, que muita prática leva de cá, e ainda bem, para não ser tão infeliz o mundo, mesmo quando já tem garantida a condenação.
Porém, agora, em sua casa, choram os olhos de Blimunda como duas fontes de água, se tornar a ver sua mãe será no embarque, mas de longe, mais fácil é largar um capitão inglês mulheres de má vida que beijar uma filha sua mãe condenada, encostar a uma face outra face, a pele macia, a pele frouxa, tão perto, tão distante, onde estamos, quem somos, e o padre Bartolomeu Lourenço diz, Não somos nada perante os desígnios do Senhor, se ele sabe quem somos, conforma-te Blimunda, deixemos a Deus o campo de Deus, não atravessemos as suas fronteiras, adoremos deste lado de cá, e façamos o nosso campo, o campo dos homens, que estando feito há-de querer Deus visitar-nos, e então, sim, será o mundo criado». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Memorial do Convento. José Saramago. «Pregou frei João dos Mártires, provincial dos arrábidos, e certamente ninguém o estaria merecendo mais, se nos lembrarmos de que arrábido foi o frade cuja virtude Deus coroou engravidando a rainha, assim aproveite a prédica à salvação das almas como aproveitarão a dinastia e a ordem franciscana…»

jdact

«E sendo o calor tanto, vão-se refrescando os assistentes, com a conhecida limonada, o geral púcaro de água, a talhada de melancia, que não seria por irem morrer aqueles que se consumiriam estes. E se o estômago pede recheio mais substancial, não faltam aí os tremoços e os pinhões, as queijadas e as tâmaras. El-rei, com os infantes seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição (maldita) depois de terminado o acto de fé, e estando já aliviado do seu incómodo honrará a mesa do inquisidor-mor, soberbíssima de tigelas de caldo de galinha, de perdigões, de peitos de vitela, de pastelões, de pastéis de carneiro com açúcar e canela, de cozido à castelhana com tudo quanto lhe compete, e açafroado, de manjar-branco, e enfim doces fritos e frutas do tempo. Mas é, tão sóbrio el-rei que não bebe vinho, e porque a melhor lição é sempre o bom exemplo, todos o tomam, o exemplo, o vinho não.
Outro exemplo, mais do proveito da alma, se o corpo tão repleto está, será dado hoje aqui. Começou a sair a procissão, vêm os dominicanos à frente, trazendo a bandeira de S. Domingos, e os inquisidores depois, todos em comprida fila, até aparecerem os sentenciados, foi já dito que cento e quatro, trazem círios na mão, ao lado os acompanhantes, e tudo são rezas e murmúrios, por diferenças de gorro e sambenito se conhece quem vai morrer e quem não, embora um outro sinal haja que não mente, que é ir o alçado crucifixo de costas voltadas para as mulheres que acabarão na fogueira, pelo contrário mostrando a sofredora e benigna face àqueles que desta escaparão com vida, maneiras simbólicas de se entenderem todos quanto àquilo que os espera, se não reparassem no que trazem vestido, e isso sim, é tradução visual da sentença, o sambenito amarelo com a cruz de Santo André a vermelho para os que não mereceram a morte, o outro com as chamas viradas para baixo, dito fogo revolto, se confessando as culpas a evitaram, e a samarra cinzenta, lúgubre cor, com o retrato do condenado cercado de diabos e labaredas, o que, passado a linguagem, significa que aquelas duas mulheres vão arder não tarda. Pregou frei João dos Mártires, provincial dos arrábidos, e certamente ninguém o estaria merecendo mais, se nos lembrarmos de que arrábido foi o frade cuja virtude Deus coroou engravidando a rainha, assim aproveite a prédica à salvação das almas como aproveitarão a dinastia e a ordem franciscana em sucessão assegurada e prometido convento.
Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse chegar a toda a parte ou oferecer o espectáculo edificante a toda a cidade, aquele que ali vai é Simeão de Oliveira Sousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo Ofício (maldito) declarava ser qualificador, e sendo secular dizia missa, confessava e pregava, e ao mesmo tempo que isto fazia proclamava ser herege e judeu, raro se viu confusão assim, e para ser ela maior tanto se chamava padre Teodoro Pereira de Sousa como frei Manuel da Conceição, ou frei Manuel da Graça, ou ainda Belchior Carneiro, ou Manuel Lencastre, quem sabe que outros nomes teria e todos verdadeiros, porque deveria ser um direito do homem escolher o seu próprio nome e mudá-lo cem vezes ao dia, um nome não é nada, e aquele é Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portel, que fingia visões para ser tido por santo, e fazia curas usando de bênçãos, palavras e cruzes, e outras semelhantes superstições, imagine-se, como se tivesse sido ele o primeiro, e aquele é o padre António Teixeira Sousa, da ilha de S. Jorge, por culpas de solicitar mulheres, maneira canónica de dizer que as apalpava e fornicava, decerto começando na palavra do confessionário e terminando no acto recato da sacristia, enquanto não vai corporalmente acabar em Angola, para onde irá degredado por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Memorial do Convento. José Saramago. «O Dia do Desassossego é uma chamada de atenção. Somos seres pensantes e queremos viver enquanto tal. Não somos massa, nem um número, nem uma estatística, e muito menos um rebanho dirigido. Somos homens e mulheres capazes das maiores proezas, incluindo a de sorrir em tempos sombrios, porque decidimos que ninguém nos gela o sangue nem nos corta a respiração»


jdact e fundacaosaramago

‘José Saramago, que deu à literatura portuguesa o único Nobel, é um bom exemplo daquilo que vale a união entre dois povos. Em Espanha Saramago é tão lido como em Portugal. A sua morte foi tão sentida como em Portugal. Quem um dia escrever a sua história vai ter que falar da criança pobre que nasceu num pequeno povoado junto ao Tejo, num lugar onde “a terra é plana, lisa como a palma da mão”, e que a meio da vida conseguiu o que até hoje nenhum português havia conseguido: conquistar a Espanha e os espanhóis’. In Joaquim António Emídio, Jornalista, Chamusca, Ribatejo.


«Calaram-se os homens, indignados, das freiras não se ouvia agora um suspiro, e Sete-Sóis declarou, Na guerra há mais caridade, A guerra ainda está uma criança, duvidou João Elvas. E não havendo mais que dizer depois desta sentença, puseram-se todos a dormir.

Dia do Desassossego
“Escrevo para desassossegar, não quero leitores conformados, passivos, resignados”, disse José Saramago pelos cantos do mundo e, pela última vez, na apresentação de “Caim”, para muitos mais do que um romance, um grito para romper com a indiferença. Nunca a sociedade precisou tanto de seres humanos desassossegados, capazes de mostrar colectivamente a inquietação e, a partir dela, elaborar alternativas que nos devolvam a racionalidade. O Dia do Desassossego é uma chamada de atenção. Somos seres pensantes e queremos viver enquanto tal. Não somos massa, nem um número, nem uma estatística, e muito menos um rebanho dirigido. Somos homens e mulheres capazes das maiores proezas, incluindo a de sorrir em tempos sombrios, porque decidimos que ninguém nos gela o sangue nem nos corta a respiração. “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”, escreveu Ricardo Reis-Fernando Pessoa. E José Saramago mostrou-lhe esse espectáculo no ano da sua morte porque sempre soube que contemplar é um passo necessário, mas o segundo, tão urgente hoje como em 1936, é intervir, antes que intervenham sobre nós. Como pessoas, como culturas, como países. Neste Dia do Desassossego, quando José Saramago faria 90 anos, contemplemos o espectáculo do mundo pela sua mão. Caminhemos com “O Ano da Morte de Ricardo Reis” pelas ruas de Lisboa e, em cada esquina descrita, paremos para pensar, de cabeça levantada. Somos cidadãos desassossegados, gente que pensa e tem coração para sentir a força da beleza, da bondade e dos argumentos. Saiamos à rua neste 16 de Novembro, desassossegados mas não vencidos, com as nossas capacidades despertas, a nossa sensibilidade afinada, seres de palavras, de memória e de gratidão. O desassossego será uma forma de romper todos os cercos. In A Fundação.


D. Maria Ana não irá hoje ao auto-de-fé. Está de luto por seu irmão José, o imperador da Áustria, que em pouquíssimos dias o tomaram as bexigas, verdadeiras, e morreu delas, tendo somente trinta e três anos, mas a razão por que ficará no resguardo dos aposentos não é essa, muito mal andariam os Estados quando uma rainha afracasse por esse pouco, se para tão grandes e maiores golpes são educadas. Apesar de já ir no quinto mês, ainda sofre dos enjoos naturais, que, no entanto, também não bastariam a desviar-lhe a devoção e os sentidos de vista, ouvido e cheiro da solene cerimónia, tão levantadeira das almas, acto tão de fé, a procissão compassada, a descansada leitura das sentenças, as descaídas figuras dos condenados, as lastimosas vozes, o cheiro da carne estalando quando lhe chegam as labaredas e vai pingando para as brasas a pouca gordura que sobejou dos cárceres. D. Maria Ana não estará no auto-de-fé porque, apesar de prenha, três vezes a sangraram, e isso foi-lhe causa de grande debilitação, em acréscimo dos afrontamentos de que vinha padecendo há muitos meses. Demoraram-lhe as sangrias como lhe tinham demorado a notícia da morte do irmão, que queriam os médicos segurá-la mais, sendo de tão pouco tempo a gravidez. Que, em verdade, os ares não andam bons no paço, como ainda agora se averiguou ao dar a el-rei um flato rijo, de que pediu confissão e logo lha deram, pelo bem que sempre faz à alma, mas terão sido imaginações suas, que tudo se desatou num bom sucesso quando o purgaram, afinal era só a tripa empedernida. Está o palácio triste, sobre a tristeza em que de costume está, com o luto que el-rei mandou dar a toda a sua casa, e ordem para que os títulos e oficiais dela o pusessem, como ele pôs, fechando-se oito dias e tomando seis meses de nojo, três de capa comprida e três de capa curta, por demonstração do grande sentimento da morte do imperador seu cunhado.
Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o gosto vem de mais fundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo de suas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando-se no Rossio para ver justiçar a judeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outras miuçalhas passíveis de degredo ou fogueira. São cento e quatro as pessoas que hoje saem, as mais delas vindas do Brasil, úbere terreno para diamantes e impiedades, sendo cinquenta e um os homens e cinquenta e três as mulheres. Destas, duas serão relaxadas ao braço secular, em carne, por relapsas, e isto quer dizer reincidentes na heresia, por convictas e negativas, e isto quer dizer teimosas apesar de todos os testemunhos, por contumazes, e isto quer dizer persistentes nos erros que são suas verdades, só desacertadas no tempo e no lugar. E estando já passados quase dois anos que se queimaram pessoas em Lisboa, está o Rossio cheio de povo, duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-fé, nunca se chegará a saber de que mais gostam os moradores, se disto, se das touradas, mesmo quando só estas se usarem. Nas janelas que dão para a praça estão as mulheres, vestidas e toucadas a primor, à alemoa, por graça da rainha, com o seu vermelhão nas faces e no colo, fazendo trejeitos com a boca em modo de a fazer pequena e espremida, visagens várias e todas viradas para a rua, a si próprias se interrogando as damas se estarão seguros os sinaizinhos do rosto, no canto da boca o beijocador, na borbulhinha o encobridor, debaixo do olho o desatinado, enquanto o pretendente confirmado ou suspirante em baixo se passeia, de lenço na mão e circulando a capa. E sendo o calor tanto, vão-se refrescando os assistentes, com a conhecida limonada, o geral púcaro de água, a talhada de melancia, que não seria por irem morrer aqueles que se consumiriam estes». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Memorial do Convento. José Saramago. «Deviam de ser de fora da corte, se fossem moradores nela dava-se pela falta da mulher e começavam a murmurar, terá sido algum pai que determinou matar a filha por causa de desonra e a mandou trazer…»


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«Tornou a conversa ao ponto primeiro, e foi contado o caso do dourador que deu uma facada numa viúva com quem queria casar, e não queria ela, que por castigo de não coroar o desejo do homem ficou morta, e ele foi-se meter no convento da Trindade, e também aquela desventurada mulher que tendo repreendido o marido de descaminhos em que andava, lhe passou ele uma espada de parte a parte, e mais o que aconteceu ao clérigo que por história de amores levou três formosas cutiladas, tudo em tempo de quaresma, que é sazão de sangue ardido e humor retraído, como se tem averiguado. Mas Agosto também não é bom, como ainda o ano passado se viu, quando aí apareceu uma mulher cortada em catorze ou quinze pedaços, nunca se chegou a saber a conta, o que se percebia é que tinha sido açoitada com muita crueldade nas partes fracas, como traseiras e barriga das pernas, cortadas fora, separadas dos ossos, os pedaços foram deixados na Cotovia, metade postos nas obras do conde de Tarouca, e os outros abaixo nos Cardais, mas tão manifes tos que facilmente foram encontrados, nem os enterraram, nem os deitaram ao mar, parecia que de propósito os deixavam à vista, para que fosse geral o horror.
Tomou então a palavra João Elvas, que declarou, foi grande chacina, e deve ter sido feita em vida da infeliz, porque teria sido rigor demasiado tratar assim um cadáver, e porquê, quando o que ali se via era o retalhado das partes sensíveis e menos mortais, só alguém de coração mil vezes danado e perdido pode ter praticado tal crime, nunca na guerra viste uma coisa assim, Sete-Sóis, mesmo não sabendo eu o que na guerra viste, e o que começara a contar o caso pegou nesta vírgula e continuou. Depois foram aparecendo as partes que faltavam, ao outro dia achou-se na Junqueira a cabeça e uma mão, e um pé à Boavista, e por mão, pé e cabeça se viu ser pessoa mimosa e bem-criada, mostrava o rosto ter de idade não mais que dezoito, vinte anos, e no saco onde apareceu a cabeça vinham as tripas e mais partes interiores, e os seios, cortados como laranjas, e com eles uma criança que mostrava três ou quatro meses, estrangulada com um cordão de seda, em Lisboa tem-se visto muito, nunca um caso assim.
Tornou João Elvas, acrescentando o que do sucesso sabia, El-rei mandou pôr cartéis com promessa de que se dariam mil cruzados a quem descobrisse os culpados, mas já lá vai quase um ano e nunca se descobriram, pudera, que logo toda a gente viu que deviam ser pessoas com quem se não havia de entender, que os tais homicidas não eram sapateiros nem alfaiates, que estes só nas bolsas fazem cortes, e os da tal mulher foram feitos com tal arte e ciência, sem se errar nenhuma junta de tantas partes do corpo que se lhe cortaram, quase osso por osso, que os cirurgiões chamados à vistoria disseram que aquilo fora feito por pessoa peritíssima na arte anatómica, só não confessaram que nem eles sabiam tanto. Por trás do muro do convento ouviam-se ladainhar as freiras, mal sabem elas do que se livram, parir um filho e tão violentamente pagar por ele, então Baltasar perguntou, E não veio a saber-se mais, nem quem fosse a mulher. Nem dela nem dos homicidas houve notícia, puseram-lhe a cabeça na porta da Misericórdia para ver se alguém a conhecia, foi o mesmo que nada, e um dos que ainda não tinham falado, de barbas mais brancas do que negras, disse.
Deviam de ser de fora da corte, se fossem moradores nela dava-se pela falta da mulher e começavam a murmurar, terá sido algum pai que determinou matar a filha por causa de desonra e a mandou trazer, espedaçada, em cima de mula ou escondida a carniça numa liteira, para a espalhar na cidade, se calhar, lá onde mora, enterrou um porco a fingir que era a assassinada, e disse que a sua pobre filha tinha morrido de bexigas, ou de humores corruptos, para não ter de abrir a mortalha, ele há gente capaz de tudo, até do que está por fazer». 
In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Memorial do Convento. José Saramago. «Baltasar Sete-Sóis girou pelos bairros e praças durante toda a tarde. Foi beber um caldo à portaria do convento de S. Francisco da cidade, informou-se das irmandades mais generosas na esmola, retendo três delas para ulterior averiguação…»


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«Meteu-se Baltasar pela rua larga, em direcção ao Rossio, depois de ter entrado na igreja de Nossa Senhora da Oliveira, onde assistiu a uma missa e trocou sinais com uma mulher sozinha que dele se agradou, divertimento aliás geral, porque, mulheres a um lado, homens ao outro, recados, gestos de mão, movimentos de lenço, trejeitos de boca, piscadelas de olhos, não faziam mais, se não é pecado fazer tanto, que transmitir mensagens, combinar encontros, pactuar acordos, mas vindo Baltasar de tão longe, afalcoado do caminho, sem dinheiros para manjares-do-céu e fitas de seda, não foi por diante com o namoro, e, saindo da igreja, meteu pela rua larga, em direcção ao Rossio. Era este um dia de mulheres, como se confirmava pela dúzia delas que vinham saindo duma rua estreita, rodeadas de quadrilheiros pretos que as tocavam para a frente, com um corregedor de vara na mão, e eram quase todas louras, de claros olhos, azuis, verdes, cinzentos, quem são estas, perguntou Sete-Sóis, e quando um homem cerca lho disse, já ele estava acertando que seriam inglesas levadas ao navio donde por fraude do capitão haviam sido largadas, e que remédio agora senão irem para as ilhas Barbadas, em vez de ficarem nesta boa terra portuguesa, tão favorecedora de putas estrangeiras, ofício que se ri das confusões de Babel, porque nas oficinas dele se pode entrar mudo e sair calado, desde que antes tenha falado o dinheiro. Mas o mestre da barca dissera que eram ao todo umas cinquenta e ali não iam mais que doze. Que é das outras, e o homem respondeu, já apanharam umas tantas, mas não as levam todas, porque algumas se esconderam muito bem escondidas, se calhar a esta hora já sabem se há diferença entre ingleses e portugueses. Seguiu Baltasar o seu caminho, fazendo a S. Bento promessa de um coração de cera se lhe pusesse adiante, ao menos uma vez na vida, uma inglesa loura, de olhos verdes, e que fosse alta e delgada. Se no dia da festa daquele santo vai a gente bater-lhe à porta da igreja a pedir que não falte o pão, se as mulheres que querem arranjar bons maridos mandam rezar-lhe missas às sextas-feiras, que mal tem que peça um soldado a S. Bento uma inglesa, ao menos uma vez, para não morrer ignorante. Baltasar Sete-Sóis girou pelos bairros e praças durante toda a tarde. Foi beber um caldo à portaria do convento de S. Francisco da cidade, informou-se das irmandades mais generosas na esmola, retendo três delas para ulterior averiguação, a de Nossa Senhora da Oliveira, onde já estivera, que era a dos confeiteiros, a de Santo Elói, dos ourives da prata, e a do Menino Perdido, por alguma semelhança que consigo encontrava, mesmo lembrando-se tão pouco de ter sido menino, perdido sim, se me acharão um dia.
Caiu a noite, e Sete-Sóis foi procurar onde dormir. Já então se tinha ligado de amizade com outro antigo soldado, mais velho de anos e experiência, chamava-se este João Elvas, agora com modo de vida na rufiagem, que justamente se acoitava para a noite, estando suave o tempo, nuns telheiros abandonados, rentes com os muros do convento da Esperança, para o lado do olival. Fez-se Baltasar hóspede de ocasião, sempre era um amigo novo, uma companhia para a conversa, mas, pelo sim pelo não, dando como desculpas convir-lhe muito aliviar o braço são do peso do alforge, encaixou o gancho no coto, não querendo ofuscar João Elvas e mais quadrilha com o espigão, arma mortal, como sabemos. Ninguém lhe fez mal, e eram seis debaixo do telheiro, e ele não fez mal a ninguém.
Enquanto não adormeceram, falaram de crimes acontecidos. Não dos seus próprios, cada qual sabe de si, Deus saberá de todos, mas dos de gente principal, sem castigo quase sempre quando conhecidos os autores, e sem escrúpulo extremo da justiça nas averiguações se fora misterioso o acto.
Ladrãozito, briguento, matador de a real e meio, se não havia perigo de soltar este a língua para denunciar o mandante, esses malhavam com os ossos no Limoeiro, e ainda assim tinham as sopas garantidas, tanto como a merda e o mijo em que viviam. A pontos de há pouco tempo terem soltado uns cento e cinquenta de culpas menos pesadas, que então estavam no Limoeiro, por junto, mais de quinhentos, com as muitas levas de homens que vieram para a Índia e que acabaram por não ser necessários, e era tanto o ajuntamento, e a fome tanta, que se declarou uma doença que nos ia matando a todos, por isso soltaram aqueles, um deles sou eu.


E outro disse. Isto é terra de muito crime, morre-se mais que na guerra, é o que diz quem lá andou, e tu que dizes, Sete-Sóis, e Baltasar respondeu: Vi como se morre na guerra, não sei como se morre em Lisboa, por isso não posso comparar, mas que fale aí o João Elvas, tanto sabe de praças de guerra como de praças de gente, e João Elvas só encolheu os ombros, não disse nada». 
In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Memorial do Convento. José Saramago. «Aquilo além é o palácio do rei, está o palácio, o rei não está, anda a caçar em Azeitão, com o infante Francisco e os seus outros irmãos, mais os criados da casa, e os reverendos padres jesuítas João Seco e Luís Gonzaga, que decerto não foram só para comer e rezar…»



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«Com pouco dinheiro no bolsilho, umas só moedas de cobre que soavam bem menos que os ferros do alforge, desembarcado numa cidade que mal conhecia, tinha Baltasar de resolver que passos daria a seguir, se a Mafra onde não poderia a sua única mão pegar numa enxada que requer duas, se ao paço onde talvez lhe dessem uma esmola por conta do sangue perdido. Alguém lhe tinha dito isto em Évora, mas também lhe foram dizendo que era necessário pedir muito e por muito tempo, com muito empenho de padrinhos, e apesar disso muitas vezes se apagava a voz e acabava a vida antes que se visse a cor ao dinheiro. Na falta, aí estavam as irmandades para a esmola e as portarias dos conventos que proviam ao caldo e ao tassalho do pão. E um homem a quem falte a mão canhota não tem muito de que se queixar se ainda lhe ficou a destra para pedir a quem passa. Ou exigir com um ferro aguçado.
Sete-Sóis atravessou o mercado do peixe. As vendedeiras gritavam desbocadamente aos compradores, provocavam-nos, sacudiam os braços carregados de braceletes de ouro, batiam juras no peito onde se reuniam fios, cruzes, berloques, cordões, tudo de bom ouro brasileiro, assim como os longos e pesados brincos ou argolas, arrecadas ricas que valiam a mulher. Mas, no meio da multidão suja, eram miraculosamente asseadas, como se as não tocasse sequer o cheiro do peixe que removiam às mãos cheias. A porta duma taberna que ficava ao lado da casa dos diamantes, Baltasar comprou três sardinhas assadas, que, sobre a indispensável fatia de pão, soprando e mordiscando, comeu enquanto caminhava em direcção ao Terreiro do Paço. Entrou no açougue que dava para a praça, a regalar a vista sôfrega nas grandes peças de carne, nos bois e porcos abertos, quartos inteiros pendurados dos ganchos. A si próprio prometeu um festim de viandas quando lhe desse o dinheiro para isso, não sabia então que ali viria a trabalhar, um dia próximo, e que deveria o emprego, a padrinho sim, mas também ao gancho que trazia no alforge, tão prático para puxar uma carcaça, para escoar umas tripas, para arredar umas mantas de gordura. Tirando a sangueira, o lugar é limpo, com as paredes forradas de azulejos brancos, e se o homem da balança não enganar no peso, com outros enganos ninguém dali sai, porque em qualidades de macieza e saúde é muito verdadeira a carne. Aquilo além é o palácio do rei, está o palácio, o rei não está, anda a caçar em Azeitão, com o infante Francisco e os seus outros irmãos, mais os criados da casa, e os reverendos padres jesuítas João Seco e Luís Gonzaga, que decerto não foram só para comer e rezar, talvez quisesse el-rei refrescar as lições de matemáticas e latinidades que deles, quando príncipe, recebeu. Levou também sua majestade uma espingarda nova, que lha fez João de Lara, mestre-de-armas dos armazéns do reino, obra fina, adamasquinada de prata e ouro, que se a perder em caminho tornará prestes a seu dono, pois tem ao comprido do cano, em boa letra romana embutida, como a do frontão de S. Pedro de Roma, estes dizeres explicados:
  • SOU DE EL-REI NOSSO SENHOR AVE DEUS GUARDE DOM JOAM O V, todos em maiúsculas, como se copia, e ainda dizem que as espingardas só sabem falar pela boca e em linguagem de pólvora e chumbo.
Essas são as comuns, como foi a de Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, agora desarmado e parado no meio do Terreiro do Paço, a ver passar o mundo, as liteiras e os frades, os quadrilheiros e os mercadores, a ver pesar fardos e caixões, dá-lhe de repente uma grande saudade da guerra, e se não fosse saber que não o querem lá, ao Alentejo voltaria neste instante, mesmo adivinhando que o esperava a morte». 
In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

domingo, 15 de julho de 2012

Memorial do Convento. José Saramago. «O mestre levantara uma pequena vela triangular, o vento ajudava a maré, e ambos o barco. Os remadores, frescos da noite dormida e da aguardente bebida, remavam certo e sem pressa. Quando dobraram a ponta de terra, a barca foi apanhada na força da corrente e da vazante, parecia uma viagem para o paraíso…»


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«Quando chegou ao cais, era já sol-fora. Começara a vazante, o mestre da barca gritava que ia largar não tarda, Está a maré boa, quem embarca para Lisboa, e Baltasar Sete-Sóis correu pela prancha, tilintavam-lhe os ferros dentro do alforge, e quando um gracioso disse que o maneta levava as ferraduras no saco, se calhar para as poupar, olhou-o de revés, meteu a mão direita e tirou o espigão, onde, agora bem se via, se não era aquilo sangue seco, era o diabo que o fingia. O gracioso desviou os olhos, encomendou-se a S. Cristóvão, que defende de maus encontros e acidentes de viagem, e dali até Lisboa não abriu mais o bico. Uma mulher que calhou ir sentada ao lado de Sete-Sóis, com o marido, desatou o farnel do almoço, e se à vizinhança ofereceu por comprazer, mas nenhuma vontade de repartir, com o soldado insistiu tanto, que ele aceitou. Baltasar não gostava de comer diante de gente, com aquela sua mão direita que sozinha parecia canha, o pão que escorregava, o conduto que caía, mas a mulher ajeitou-lhe a comida em cima duma larga fatia, e assim, alternando o uso dos dedos com a ponta da faquita que tirara do bolso, pôde comer com descanso e suficiente asseio. A mulher tinha idade para ser sua mãe, o homem para ser seu pai, não se tratava ali de nenhum namoro sobre as águas do Tejo, nas barbas de involuntário ou consentidor pau-de-cabeleira. Apenas alguma fraternidade, dó de quem vem da guerra aleijado para sempre.
O mestre levantara uma pequena vela triangular, o vento ajudava a maré, e ambos o barco. Os remadores, frescos da noite dormida e da aguardente bebida, remavam certo e sem pressa. Quando dobraram a ponta de terra, a barca foi apanhada na força da corrente e da vazante, parecia uma viagem para o paraíso, com o sol relampejando na superfície da água e duas famílias de toninhas, qual uma, qual outra, cruzando à frente da barca, escuros os seus lombos luzidios, arqueados como se imaginassem o céu perto e lhe quisessem chegar. Na outra margem, assente sobre a água, ainda longe, Lisboa derramava-se para fora das muralhas. Via-se o castelo lá no alto, as torres das igrejas dominando a confusão das casas baixas, a massa indistinta das empenas. E o mestre começou a contar, Boa foi a que sucedeu ontem, quem quer ouvir, e todos queriam, sempre era um modo de passar o tempo, que a viagem não é curta, Então foi assim, começou o mestre, chegou aí uma frota inglesa, que está além, em frente da praia de Santos, e traz tropas que hão-de ir para a Catalunha, para a guerra, com as outras que cá estavam à espera, mas veio também com ela um navio que trazia uns casais de facinorosos desterrados para a ilha das Barbadas, e umas cinquenta mulheres de má vida que para lá também iam, a fazerem casta, que em terras dessas tanto monta honrada como desonrada, mas o capitão do navio entendeu, diabo do homem, que em Lisboa a poderiam fazer melhor e assim se aligeirou da carga, mandou pôr as mulheres em terra, com o corpinho que têm, que algumas vi-as eu, não era nada má a inglesia. Riu-se de gosto antecipado o mestre, como se estivesse fazendo seus próprios planos de navegação carnal e calculando os proveitos da abordagem, riram grosso os remadores algarvios, Sete-Sóis espreguiçou-se como um gato ao sol, a mulher do farnel fez que não ouvira, o marido estava sem saber se havia de achar graça à história ou ficar sério, justamente porque histórias destas já a sério as não podia tomar, se alguma vez pudera, vivendo longe, em terra de Pancas, onde, do nascer ao morrer, é sempre o mesmo rego da charrua, a própria e a figurada. E, pegando numa ideia, depois noutra, por alguma razão desconhecida as ligando, perguntou ao soldado, E vossemecê, que idade tem, e Baltasar respondeu, vinte e seis anos.
Lisboa ali estava, oferecida na palma da terra, agora alta de muros e de casas. A barca aproou à Ribeira, fez o mestre manobra para encostar ao cais depois de ter arriado a vela, e os remadores levantaram num só movimento os remos do lado da atracação, os do outro lado harpejaram a amparar, mais um toque no leme, um cabo lançado por cima das cabeças, foi como se se tivessem juntado as duas margens do rio. Estando vaza a maré, ficava alto o cais, e Baltasar ajudou a mulher do farnel e seu homem, de peito feito pisou o gracioso que não tugiu nem mugiu, e, alçando a perna, num só impulso se achou em firme.
Havia uma confusão de muletas e caravelões que descarregavam peixe, os olheiros gritavam e maltratavam de palavras e algum safanão os carregadores pretos que passavam ajoujados, encharcados pela água que escorria das grandes alcofas, com a pele dos braços e da cara salpicada de escamas. Parecia que tinham vindo juntar-se no mercado todos os moradores de Lisboa. A Sete-Sóis crescia-lhe a água na boca, era como se uma fome acumulada em quatro anos de campanha militar estivesse saltando agora os diques da resignação e da disciplina. Sentiu o estômago aos torcegões, inconscientemente procurou com os olhos a mulher do farnel, onde é que ela já iria, mais o seu sossegado marido, este provavelmente a mirar as fêmeas que passavam, a adivinhar se eram inglesas e de má vida, um homem precisa de fazer a sua provisão de sonhos». 
In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Memorial do Convento. José Saramago. «Aconchegou com o braço esquerdo o alforge, enroscou-se no capote e tornou a adormecer. Ao menos livrara-se da guerra. Com menos um bocado, mas vivo. Na claridade do primeiro alvorecer, levantou-se. O céu estava muito limpo, transparente até às últimas e pálidas estrelas»


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«Baltasar Sete-Sóis leva os ferros no alforge porque há momentos, horas inteiras, em que sente a mão como se ainda a tivesse na ponta do braço e não quer roubar a si próprio a felicidade de se achar inteiro e completo como inteiros e completos se hão-de sentar Carlos e Filipe em seus tronos, afinal haverá para os dois, quando a guerra acabar. A Sete-Sóis basta-lhe, para seu contentamento, e desde que não olhe onde lhe falta a comichão que sente na ponta do dedo indicador, e imaginar que está coçando com o polegar o sítio onde lhe come. E quando esta noite sonhar, se a si próprio se olhar no sono, ver-se-á sem que nada lhe falte e poderá apoiar a cabeça cansada nas palmas das duas mãos.
Também por outra interesseira razão traz Baltasar os ferros guardados. Aprendeu rapidamente que com eles postos, em particular o espigão, lhe escusam a esmola, ou dão-lha sovina, ainda que a alguma moeda sempre forçados pela espada que leva à cintura, descaída sobre a anca, apesar de que espada toda a gente a usa, até os pretos, porém não com este perfeito ar de quem aprendeu a servir-se dela, agora mesmo se for preciso. E se o número de viajantes não equilibra a desconfiança causada por aquele vulto que no meio do caminho, cortando a passagem, pede auxílio para um soldado a quem cortaram a mão e só por milagre não a vida, se quem vem teme que a súplica possa mudar-se em assalto, a esmola sempre cai na mão que resta, é o que vale a Baltasar, ter ainda a mão direita.
Passado Pegões, à entrada dos grandes pinheirais onde começa a terra de areia, Baltasar, ajudando-se com os dentes, ata ao coto o espigão, que fará, urgindo a necessidade, as vezes de adaga, em tempo que foi esta proibida por ser arma facilmente mortal. Sete-Sóis tem, por assim dizer, carta de privilégio, e, duplamente armado de espigão e espada, mete-se ao caminho, na penumbra das árvores. Matará adiante um homem, de dois que o quiseram roubar, mesmo tendo-lhes ele gritado que não levava dinheiros, porém, vindo nós de uma guerra onde vimos morrer tanta gente, não é este caso que mereça relato singular, salvo ter Sete-Sóis trocado depois o espigão pelo gancho para mais facilmente arrastar o morto para fora do caminho, assim ficando experimentados os préstimos de ambos os ferros. O salteador safo seguiu-o ainda por meia légua entre os pinheiros, por fim desistiu, e só de longe lhe lançou palavras de insulto e maldição, porém, como quem não acreditava que umas empecessem e outras ofendessem.


Quando Sete-Sóis chegou a Aldegalega, estava anoitecendo. Comeu umas sardinhas fritas, bebeu uma tigela de vinho, e, não lhe chegando o dinheiro para a pousada, tão-só, à escassa, para a passagem amanhã, meteu-se num telheiro, debaixo de uns carros, e aí dormiu, enrolado no capote, mas com o braço esquerdo de fora e o espigão armado. Passou a noite em paz. Sonhou com o choque de Jerez de los Caballeros, que os portugueses desta vez irão vencer porque à frente deles avança Baltasar Sete-Sóis segurando na mão direita a mão esquerda cortada, prodígio para que os espanhóis não têm escudo nem esconjuro. Quando acordou, não havia ainda então luzeiro de madrugada no levante do céu, sentiu umas grandes dores na mão esquerda, nem era para admirar, com um espigão de ferro ali espetado. Desatou as correias, e, podendo tanto a ilusão, muito mais sendo noite, e espessa a treva debaixo dos carros, não ver Baltasar as suas duas mãos, não significava que não estivessem lá. Ambas. Aconchegou com o braço esquerdo o alforge, enroscou-se no capote e tornou a adormecer. Ao menos livrara-se da guerra. Com menos um bocado, mas vivo.
Na claridade do primeiro alvorecer, levantou-se. O céu estava muito limpo, transparente até às últimas e pálidas estrelas. Era um bonito dia para entrar em Lisboa, com bom tempo para lá, ficar ou continuar viagem, logo veria. Meteu a mão ao alforge, tirou as botas arruinadas que em todo o caminho do Alentejo nunca calçara, e calçasse-as ele nesse mesmo caminho teriam ficado, e pedindo à mão direita habilidades novas, com o frouxo amparo que o coto, ainda em primeira aprendizagem, podia oferecer, conseguiu acomodar os pés, se pelo contrário não ia sacrificá-los em bolhas e roeduras, tão antigo era o hábito de andarem descalços, em sua vida de paisano, ou, no tempo militar, quando a impedimenta nem para jantar tinha sola, quanto mais para botas. Não há pior vida que a do soldado». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT