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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Povoados de saudades e de sombras, entraram nos meus sonhos, e, apesar de se repetirem com frequência, nunca de forma tão obstinada como se abateram sobre mim naqueles tristes dias…»

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«(…) Bebendo diariamente daqueles ideais, o menino sonhou a partir de então transformar-se no valente rei que todos desejavam que fosse e que levasse o seu país ao esplendor máximo. Em 1557, sua mãe, a princesa Joana, por recomendação do seu confessor Francisco Borja, fundou em Madrid o mosteiro das Clarissas, Nossa Senhora da Consolação, Convento das Descalças Reais, situado no mesmo palácio onde ela nascera e fora baptizada. Ali se recolheu e levou até à morte uma vida dedicada com total entrega ao serviço de Deus. Tristemente, a 7 de Setembro de 1573, partiu para a eternidade. Sebastião não derramou uma única lágrima porque nunca chegou a conhecê-la, apesar de eu, para que a amasse, nunca tivesse deixado de lhe falar dela. Também eu, na intimidade desta casa do Senhor, me sinto mais perto da minha família perdida... Já nem o meu esposo nem os meus nove filhos estão neste mundo, assim como nenhum dos meus irmãos. A eles falo através de Deus quando rezo e a eles me parece ouvir quando leio a sua palavra na Bíblia.
Recordo como se fosse hoje o dia em que transpus os portões deste claustro. Respirava-se aqui dentro uma atmosfera diferente, eram os aromas da paz e da alegria profunda de estar sempre com a mente posta em Deus, afastada do mundo. Aqui sente-se o estado de graça. Tanto a prioresa como o resto das monjas são mulheres piedosas, sinceras e devotas, naturais, verdadeiras..., que nunca deixam de pisar a terra sem cuidar dos pobres e desvalidos. Henrique, o cardeal, reinou em nome de Sebastião até à memorável data de 1568, em que meu neto, com catorze anos, tomou posse efectiva do trono e assumiu os destinos do reino.
O jovem monarca já tem nove anos de reinado pessoal. Dentro de seis dias fará vinte e três anos. Por muito poucos dias de diferença, nunca pudemos celebrar juntos os nossos aniversários. Para que fosse evidente que o meu desejo era viver recolhida dentro deste mosteiro, renunciei a tudo o que era mundano e ordenei que me conduzissem até aqui. A prioresa preparou com agrado uns claustros espaçosos para meu alojamento. Jurei interiormente, ao transpor o umbral, permanecer em clausura e nunca mais voltar a atravessá-lo em vida, a menos que algum funeral familiar o exigisse. Desde a morte do meu esposo, visto o meu corpo de negro e trago o rosto sombreado pela dor, dor que não posso arrancar da minha alma, por ter presenciado a morte de todos os meus filhos... O convento faz parte, desde esse ano, dos muitos lugares que deram acolhimento ao meu corpo e à minha alma ao longo de toda a existência. Nesta solidão em que me encontro, também se filtram habitualmente notícias políticas e, com elas, os meus pesares normalmente crescem.
Não foi por influência de ninguém, mas por decisão própria, que decidi viver e morrer neste sítio. Com ansiedade procurei este ambiente ao ficar sozinha e encarei-o com agrado, como quem aceita a tarefa que tem de realizar até ao último instante sem fazer mais perguntas; entre outras razões porque o desejo fervorosamente, ou talvez por este único motivo. E compreendi por fim, sem que a minha mente talvez o entendesse, que não é preciso lutar contra a solidão quando a velhice bate à porta, porque e um objectivo vão.
Saí do convento, não vos resguardeis dentro dele ou dentro de vós, ouvi muitas vezes dizer a voz da consciência. Não vos protegeis mais. Se escondeis os vossos olhos para que não os magoe o Sol, mais de mil vezes havereis de vos ofuscar com os seus raios. Já é tempo de provardes o vosso próprio remédio, o alívio não vos virá de fora. Podeis procurá-lo, não vos detendes, nem sequer é preciso que vos movais. Tudo está dentro de vós. Foi nos meses em que acabara de chegar ao mosteiro que surgiram os primeiros pesadelos. Povoados de saudades e de sombras, entraram nos meus sonhos, e, apesar de se repetirem com frequência, nunca de forma tão obstinada como se abateram sobre mim naqueles tristes dias de princípios de 1563. Nesses sonhos apenas eu existia. Quero dizer que só me via a mim mesma junto de um labirinto de atalhos que se abriam, confusos, e que me conduziam sempre para o nosso palácio de Sintra, onde já ninguém habitava, ou por vezes para os mesmos aposentos onde eu residira e por cujas janelas penetravam, imperativas, as primeiras escuridões da tarde. À medida que os pesadelos se repetiam, as minhas noites iam-se tornando mais penosas; esforçava-me durante o dia por afastar da mente aqueles pensamentos carregados de preocupações, mas eles, adiados e não mortos, apareciam novamente todas as noites, mostrando-me as imagens esbatidas dos meus filhos». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Após várias noites de vigília, pálida e com olheiras, tomei a decisão. A minha sobrinha Maria foi a primeira a sabê-lo. Depois, chamei Sebastião…»

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«(…) O principezinho, alheio a tudo o que à sua volta acontecia, sorriu à mãe quando ela o beijou naquela triste despedida e depois, entre os meus braços, voltou a sorrir-me, talvez intuindo que eu iria tornar-me, a partir daquele dia, sua mãe substituta. Joana partiu,o escondendo o pranto dos olhos sob as dobras de um véu negro e com as mãos sufocou os soluçs. Eu, longe de me consolar com a clara manifestação de inocente carinho de meu neto, desfiz-me em prato sobre o morno peito do pequeno órfão. O principezinho acariciou com os dedos o meu toucado em jeito de terno bálsamo. Ao voltar a olhar para ele, os seus claros olhos trouxeram-me a recordação indelével de meu amado filho recentemente falecido. Durante muitos dias, não pude deixar de pensar na simultaneidade dos nossos destinos. Ambos havíamos perdido os nossos progenitores antes de nascer e, em obediência às ordens dos reinos, éramos obrigados a permanecer onde estávamos, só que eu tinha tido a imensa sorte de continuar ao lado da minha adorada mãe, e ele, a riqueza de gozar de uma liberdade que a nós sempre fora negada.
Depois da morte de meu esposo, recordo que assumi a regência agarrada a ele, com integridade e coragem, como se naquele bem-amado principezinho pudesse abraçar todos os meus filhos mortos. A sua mãe nunca mais o pôde voltar a ver, apenas o viu crescer através dos retratos que todos os anos eu mandava pintar aos retratistas da corte, entre eles o português Cristóvão Morais, enviando-os para Espanha. Ela respondia-lhe com presentes que enviava através de Cristóvão Moura, cavaleiro português que fora para Castela como menino da princesa Joana, quando a princesa regressou de Portugal.
Passado o tempo, a dor e o esgotamento levaram-me a abandonar o palácio, em 1562, procurando o único consolo que podiaencontrar, mais perto de Deus, dentro deste convento. Teria gostado de continuar ao lado de meu neto, de o criar e educar com todo o amor de mãe de que sou capaz, até que atingisse a maioridade, mas quando fez oito anos senti que estava na altura de me afastar. Perdera as forças. As amarguras começavam a vergar-me e a minha vida apenas ressumava resignação e cansaço. Foi então que compreendi que era preciso deixar o caminho livre para que outro ocupasse o meu lugar. Verifiquei que já não me sentia capaz de continuar com a minha tarefa de mãe substituta. Estava na hora de ceder o lugar a outra pessoa mais forte do que eu, que pudesse guiar o principezinho pelo caminho certo da formação, tanto física como espiritual, para que, chegada a altura, fosse um monarca bom, digno e amado pelo povo.
Creio que o conseguiu. O seu ideal de grandeza sempre o levou com verdadeiro entusiasmo a procurar os mais altos valores, aqueles que possam tornar reais os maiores sonhos dos Portugueses. Preparou-se com grande esforço e fervorosa fé cristã e creio que Deus o iluminou e amparou até ao dia de hoje. No entanto, por vezes penso que o seu excessivo idealismo e o seu misticismo lhe podem causar grandes desgostos. A sua decisão de não contrair matrimónio espanta-me e inquieta-me ao mesmo tempo. Não deseja casar-se para que ninguém ou nada influencie a sua preparação como monarca. Treinado na arte da guerra e nas virtudes cavaleirescas, sonhou desde criança com a glória de Portugal, e o reino adora-o tanto como eu. Na solidão deste claustro, devo confessar que foi muito duro para mim afastar-me dele. Mas, acreditem, não tinha forças para continuar, todos temos o nosso tempo para servir os outros, mas o meu esgotou-se.
Após várias noites de vigília, pálida e com olheiras, tomei a decisão. A minha sobrinha Maria foi a primeira a sabê-lo. Depois, chamei Sebastião, fui-lhe dizendo devagar, como um condenado quando se confessa, tentando prolongar o tempo que ainda lhe resta para a sua execução, à procura do perdão. Ambos me compreenderam. Com grande alívio no meu coração, renunciei à tutela do menino em favor do cardeai Henrique e entrei nesta santa casa antes de terminar o ano do Senhor de 1562. Fi-lo, não com a ideia de ser uma monja, mas como forma de me isolar do mundo e de permanecer mais tempo em oração do que em tarefas e esforços. Creio que nesses dias tomei a decisão mais acertada da minha vida. Eram tempos difíceis para o reino e para a minha alma. Em Março, um exército marroquino tomara a praça de Mazagão e o reino, que já vira com tristeza Portugal abandonar, entre 1541 e 1549, as praças de Agadir, Azemur, Safi, Alcácer Ceguer e Arzila no país marroquino, viu no pequeno herdeiro a sua própria salvação». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Quando o meu esposo, João III, faleceu, no ano do Senhor de 1557, todos os nossos filhos já tinham morrido. Com apenas três anos e estando sob os meus cuidados, o meu neto Sebastião…»

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«(…) No dia em que decidi entrar nele, as monjas acolheram a minha chegada com imensa alegria, consideraram que era uma grande honra eu as ter preferido. No entanto, a minha corte experimentou um profundo pesar, pois entendeu-o como um abandono da minha parte. E Portugal transformou-se a partir de então no alvo da política imperial dos Habsburgo, ao passar a minha regência, sobre o único herdeiro possível da Casa de Avis, o meu pequeno neto, o rei Sebastião, para o meu cunhado, o cardeal Henrique, irmão do meu esposo. Desejava recolher-me em solidão para rezar. Precisava disso quando tomei a decisão de o fazer e continuo a precisar ainda hoje; ou, por outras palavras, só desejei ser rainha para acompanhar o meu fiel esposo no difícil caminho da governação, mas, ao ficar viúva, não desejava continuar a ser soberana. À minha volta fui tecendo valas de silêncio e oração, e também de reflexão; aquilo a que aspirava era a amarrar-me à alma dos que mais amei e que já não são vivos. Apesar dos possíveis reparos que originava a minha decisão indeclinável de abandonar o mundo para me recolher no mosteiro, fiz saber por todo o reino que renunciava à regência do meu neto. Fazia-o porque já não desejava governar em seu nome, nem me encontrava com as forças necessárias para reger em seu lugar devido à minha idade. O único horizonte dos meus olhos nesses tempos era o convento, como quando era criança, e o único espaço onde se detinha o meu olhar eram os velhos muros de uma fortaleza abandonada.
Quando o meu esposo, João III, faleceu, no ano do Senhor de 1557, todos os nossos filhos já tinham morrido. Com apenas três anos e estando sob os meus cuidados, o meu neto Sebastião herdou o trono lusitano. O pequeno principezinho parecia estar condenado à felicidade e à boa esperança. Nascera a 20 de Janeiro de 1554, sob a protecção de São Sebastião, e, apesar de ter chegado ao mundo dezoito dias depois da morte do pai, o meu querido filho João Manuel, todo o Portugal o considerou um dom do céu, pelo que, para evitar o receio de a Lusitânia acabar por ser um território espanhol, o reino exultante o aclamou como Sebastião, o Desejado.
A sua mãe, a princesa Joana, arquiduquesa de Áustria e infanta de Espanha, era a filha mais nova do meu irmão, o imperador Carlos V que, com a intenção de abdicar do trono, a mandou visitar Espanha com urgência, a 17 de Maio desse ano, deixando o herdeiro aos meus cuidados. A jovem tinha apenas dezanove anos quando assumiu a regência daquele reino, a 12 de Junho de 1554. (Fê-lo porque seu irmão e herdeiro, o príncipe Filipe, viúvo da nossa filha Maria Manuela, tinha de partir para Inglaterra para desposar Maria I. Durante cinco anos, exerceu em seu nome a administração do governo. Amiga pessoal do fundador da Companhia de Jesus, Ignacio Loyola, e de quem fora na minha infância meu pajem em Tordesilhas, Francisco Borja, seu confessor, contou sempre com um apoio incondicional quando teve de assumir a regência.) E, assim, o pequeno infante, sem ter ainda feito quatro meses, teve de ser abandonado pela mãe, pois, ao ser herdeiro legítimo de Portugal, não a pôde acompanhar no seu destino.
Recordo a trágica tarde em que, com lágrimas nos olhos, Joana beijou com ternura, pela última vez, a testa do filho e deixou o menino entre os meus enlutados braços. Obrigada pelas urgências do império, o seu coração partiu-se em dois. A gravidade das circunstâncias encurtou o tempo da despedida. Eu considerei-o um triunfo pessoal do meu irmão e, na tarde em que Joana me anunciou a sua partida, invadiu-me uma profunda dor por ela e pelo menino». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ainda só se passaram dois meses e já estou farta disto, desta casa, desta gente, de Pombeiro, do miserável traste que o meu estimado tio me destinou»

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«(…) Era lá, enfim, que morava João Lourenço Cunha, descendente dos fundadores, e aí passou também a morar Leonor Teles, depois do casamento. Os primeiros dias em Pombeiro foram tumultuosos para ela. Passava o tempo na câmara, estendida no leito, debaixo dos cobertores, ora chorando de infelicidade, ora rezando pela sua própria salvação. Não havia maneira de esquecer o passado, a infância, os primeiros anos da adolescência, muito menos a dolorosa viagem entre Barcelos e Pombeiro. Com um sentimento misto de horror e nojo, não conseguia esquecer igualmente o instante em que se prometeu ao marido para toda a vida, sequer o momento em que João Lourenço Cunha entrou na liteira a ajeitar grosso pénis com a mão esquerda, para depois, já sentado no banco a seu lado, colocar a mão direita nas coxas dela, cobertas, entretanto, por um manto que as resguardava do intenso frio. Fora a noite mais sofrida da sua vida; fora a mais longa e demorada viagem que até então fizera. Vinte pessoas, entre as quais se incluíam criados, pajens, um sacerdote, um curandeiro, duas amas e dois feiticeiros, além de Briolanja Mendes, acompanharam o casal nessa aventura em carroças puxadas por duas bestas ou no dorso de imponentes mulas, nalguns casos de porte quase idêntico às que aparelhavam a liteira.
Pior, no entanto, que a primeira zanga do matrimónio, foi a segunda. E ela ocorreu duas noites após o casamento, justamente quando João Lourenço se apercebeu de que a mulher já não era virgem. O morgado ficou louco de raiva e quis saber na mesma hora quem fora o homem que a desvirgindou, e quem para além do primeiro, se outros houve, se deitou com ela. Humilhada e ofendida com o que acabara de ouvir, Leonor Teles ameaçou João Lourenço de que regressaria a Barcelos no dia seguinte se ele prosseguisse nas ofensas à sua honra, à honra do seu estimado tio, à honrosa memória dos seus dignos antepassados. Mas, cobarde como era, o senhor de Pombeiro deu logo o assunto por encerrado, com um pedido de desculpas, para realizar, então, atabalhoadamente e sem demora, a função da primeira noite com a jovem dama, sua esposa.
Certa manhã, depois de João Lourenço sair para uma caçada de dois dias na região de Cantanhede, a senhora mandou chamar Briolanja Mendes aos seus aposentos para mais uma conversa e umas tantas revelações. Não sei o que fazer, desabafou, logo que a velha entrou no quarto. Ainda só se passaram dois meses e já estou farta disto, desta casa, desta gente, de Pombeiro, do miserável traste que o meu estimado tio me destinou. Tenho vontade de fugir para longe, às vezes apetece-me morrer para não enfrentar esta supliciada vida em que apenas me vou cumprindo nos espaços que competem ao ódio e desamor... Encostada à parede, de mãos cruzadas sobre o peito, Briolanja Mendes ia ouvindo os queixumes de Leonor com a costumada atenção.
Vê lá tu que, logo no primeiro dia de chegarmos aqui, me vi obrigada a dizer ao meu desalmado esposo que iria embora se ofendesse a minha honra como chegou a tentar. Já não sei porquê mas quis discutir comigo, tentou humilhar-me e, através de mim, atingir a digna memória dos meus antepassados. Eu sei, senhora. Ouviste a discussão? Foram as estrelas que mo disseram, respondeu a velha com indisfarçável cinismo. Leonor Teles percebeu que a ama lhe estava a mentir e por isso sorriu com ternura. Sem, no entanto, levar o caso a consideração, aconselhou num tom de voz baixinho, sussurrado: é tempo de começares a pensar nos filtros de amor de que um dia me falaste em Barcelos. Briolanja cerrou os olhos, benzeu-se e, quase num murmúrio, disse: estou já a pensar nisso...» In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
Cortesia de OdoLivro/JDACT

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ao ouvir a frase do irmão, Beatriz, que tinha assistido em silêncio à conversa entre ambos, levantou-se de um salto da borda da cama e, resmungando palavras imperceptíveis…»

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«(…) Afonso Peres Sousa enrubesceu, inclinou a cabeça em sinal de respeito e assentimento, pediu desculpa pela maçadoria da conversa a que sujeitara o monarca e prosseguiu: infelizmente, não ouvi muitas conversas porque o senhor conde, por especial deferência a sua alteza real, levou-me para casa e lá me deixou até à hora do casamento, longe dos convidados. Só durante a boda é que soube de alguém, cujo nome e origem me ocultaram, que terá considerado um perigo para a soberania do nosso país se sua alteza real vier a intrometer-se nos negócios políticos de Castela. Outros houve, porém, e julgo tratar-se da maioria, que defenderam o contrário...
Atento à conversa, Fernando I, muito calmo, interrompeu de novo o relator. Não sabeis quem foi o reles traidor que afirmou isso? Não faço ideia, alteza. Ninguém me revelou nomes. E que mais sabeis do que lá se passou? Sei também que os lentes de Coimbra discutiram o teor das últimas cartas régias e que a maioria está manifestamente contra a que proíbe o alcaide de apreender aos estudantes as bestas que transportam os alimentos. Essa é boa!, exclamou o rei, indignado. O que é que eles querem? Argumentam que uma medida dessas pode determinar a perda de influência e de autoridade do alcaide. Isso foi criticado pelos lentes? É verdade, senhor, eles criticaram sua alteza real. São todos umas bestas..., gritou exasperado, enquanto batia com os calcanhares no leito.
Depois, e após uma breve pausa, o rei levantou-se da cama, deu um suave beijo no rosto da irmã e dirigiu-se a uma das janelas para espreitar lá fora o tempo, o Tejo e a cidade. O tempo estava cinzento e triste; o Tejo, cumulado de barcos cheios de sal, fruta, pescado e vinho, corria manso; a cidade, essa, plasmada como sempre de imundície, fervilhava de catalães, genoveses, biscainhos, aragoneses, milaneses, galegos, castelhanos, corsos e muitos outros vindos de distantes paragens, acotovelando-se nas ruas e vielas, nos cais de escambo, na alfândega, na Corredoura e no Rossio de São Domingos. Com a mão esquerda apoiada no parapeito da janela e com a direita coçando a cabeça como se com tal gesto quisesse afastar da lembrança os seus críticos e detractores, Fernando I perguntou subitamente sem nunca desviar os olhos do Tejo e da cidade: e que tal achastes a noiva?
Afonso Peres Sousa voltou a corar, de novo respirou fundo e, algo constrangido, disse apenas: é formosa, muito bela... O rei Fernando abriu-se num largo sorriso e comentou: quereis dizer que só pela noiva valeu a pena a estafa da viagem. Para qualquer homem, alteza, a formosura da senhora dona Leonor Teles valeria sempre o cansaço de uma longa viagem. Se um dia passar por terras da Beira talvez venha a conhecê-la, comentou o rei, meneando a cabeça.
Ao ouvir a frase do irmão, Beatriz, que tinha assistido em silêncio à conversa entre ambos, levantou-se de um salto da borda da cama e, resmungando palavras imperceptíveis, saiu aparentemente zangada e à pressa dos aposentos. Fernando I não ligou à atitude da infanta ou, pelo menos, deu a ideia de não ligar. E continuou: sabeis se eles já foram para Pombeiro? Acho que partiram nessa mesma noite. Surpreendido com o que acabara de ouvir, o rei levou as mãos à cabeça e voltou a inquirir num tom de voz forte, alto, cadenciado: e passaram a noite do casamento numa liteira?!...
Foi precisamente por terem passado a noite numa liteira que dona Leonor Teles Menezes e João Lourenço Cunha tiveram a primeira zanga matrimonial. Ela queria ficar em Barcelos e seguir para Pombeiro ao outro dia; ele, pelo contrário, desejava partir depois da boda, sob o estúpido argumento de que o céu estava a toldar-se de espessas nuvens que pareciam anunciar uma forte tempestade para a manhã seguinte. De nada valeu à jovem esposa ter-se queixado de fadiga e do medo da noite escura, mesmo que o caminho a percorrer fosse iluminado por fachos e tochas flamejantes a transportar pelos três criados. De nada lhe valeu o protesto.
Vergada ao peso da aliança e do poder do seu senhor, chorosa e triste, Leonor Teles não teve outra alternativa senão ceder às pretensões do marido e deixar-se levar na rota do seu próximo destino: Pombeiro. Pombeiro era uma localidade situada a sul da serra do Caramulo, a poente dos Montes Hermínios, a norte das serranias da Lousã e a nascente de Coimbra e dos vastos campos do Mondego que se estendiam até ao mar. Era lá que se encontrava a residência da família de João Lourenço, um imponente solar construído nvância monástico-litúrgica de Cluny; foi lá, depois de sucessivas heranças e doações, que os So reinado de Sancho II. Foi lá que viveu, embora por pouco tempo, uma casta de beneditinos de obserousas, família poderosa de infanções e ricos-homens, passaram a residir como chefes de linhagem, desempenhando, uns atrás de outros, o cargo de mordomo-mor da corte». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ao entrar no Paço, menos de meia hora depois de convocado, Afonso Peres Sousa foi imediatamente conduzido aos aposentos reais, onde o soberano se encontrava a descansar…»

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«(…) Fernando I tinha a perfeita noção de que aos poucos se começava a tornar cada vez maior em Portugal o fosso que separava a nobreza laica ou eclesiástica do povo das cidades e dos concelhos. Não ignorava que a generalidade dos portugueses vivia num constante tumulto de mortes, roubos e assaltos; não desconhecia que muito poucos ou nenhuns observavam as leis do reino, começando por ele próprio ao mandar recolher vinho e mantimentos sem nunca os pagar. E como não era dado a cumprir as leis, também não as fazia obedecer. Consentia que os infantes, seus irmãos, ou mesmo os poderosos e os alcaides das vilas por ele doadas, assaltassem terras e roubassem os lavradores, que violassem as viúvas e as solteiras sem qualquer prejuízo ou castigo exemplar. Igualmente, pouco ou nada se importava com o facto de fidalgos e prelados se apoderarem de bens alheios para os negociarem de seguida; ou que exigissem às vilas por onde passavam a venda das novidades abaixo do preço real; ou que se assenhoreassem, mesmo à força bruta, do recheio de casas e adegas. Eram estes, infantes, alcaides, fidalgos, prelados, que dispunham do poder de colocar nas vilas os juízes, almotacés e vereadores da sua inteira confiança para depois recusarem o pagamento de impostos para a construção de pontes e calçadas. Até mesmo clérigos compravam e vendiam mercadorias sem a respectiva autorização legal, ameaçando com a excomunhão todos os que não considerassem ser esse um privilégio que lhes cabia. Não constituía assim qualquer estranheza que a maioria dos portugueses se queixasse abundantemente dos corregedores do rei, que apenas julgavam e condenavam as causas dos pequenos e pobres. Era, pois, neste lodo social e político, na desonra e na ignomínia que assentava a base de governação de Fernando I, juntando a ela a constante tentação de responder ao apelo dos vencidos da guerra de Castela, refugiados aos milhares em Portugal, para conflituar com o país vizinho, sob a promessa de que o ajudariam a conquistar a respectiva coroa. Ciente dos principais problemas que afectavam o país, inteirado do clamor popular que um pouco por toda a parte se ia levantando contra a desordem do Estado, o monarca julgava-se quase sempre na necessidade de saber o que outros diziam dele e da sua governação, mesmo que esses outros pertencessem à nobreza laica ou à eclesiástica. Foi o caso, nesse dia.
Ao entrar no Paço, menos de meia hora depois de convocado, Afonso Peres Sousa foi imediatamente conduzido aos aposentos reais, onde o soberano se encontrava a descansar da jornada que empreendera por vários dias à região de Além-Tejo. Estava deitado sobre a cama, vestido e calçado ainda, com a cabeça apoiada no regaço da meia-irmã, a infanta Beatriz, filha de Pedro e de Inês Castro, por quem ele tinha, aliás, uma afeição especial desde os tempos de infância. Contai lá como foi esse casamento, pediu o rei Fernando, logo que o fidalgo entrou na câmara.
Aconselhado a sentar-se numa cadeira em frente ao leito, Afonso Peres Sousa respirou fundo, passando a descrever cronologicamente todos os passos que dera, desde a sua chegada a Barcelos até ao regresso a Lisboa. Longos minutos passados, já cansado de ouvir o que menos lhe importava, Fernando I interrompeu abruptamente o jovem e disse: não estou interessado em conhecer os detalhes da vossa viagem, se fostes ou não assaltado pelo caminho, se pernoitastes ao ar livre ou se vos hospedastes nalgum convento; o que eu quero saber antes de tudo é se ouvistes alguma conversa ao conde ou aos convidados sobre a situação política do país ou sobre a minha própria governação. Depois sim, depois podeis falar-me de tudo, até mesmo da sobrinha do senhor João Afonso Telo, que, ao que me dizem, é muito bela de rosto e de corpo». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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sábado, 9 de fevereiro de 2019

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «Precisas de uma rainha que desse a toda a corte e ao lar, a plenitude e normalidade que não pode ser esperada dum celibatário. Além disso, o celibato tornar-se-á tanto mais perigoso…»

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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
De Dusseldorf para Lisboa. Negoceia-se o casamento
«(…) A família de Bragança era nessa época relativamente numerosa. Viviam no palácio das Necessidades os dois reis e seis infantes irmãos de Pedro: Luís, com 18 anos, João, com 14, dona Maria Ana, com 13, dona Antónia, com 11, Fernando, com 10, e Augusto, com 9. Residiam também em Lisboa uma tia-avó de Pedro, a infanta dona Isabel Maria, filha de João VI e ex-regente de Portugal. Solteira, tinha então 55 anos. E, ainda, dona Amélia de Beauharnais, viúva de Pedro IV ex-imperatriz do Brasil e agora duquesa de Bragança, a quem os infantes tratavam por avó. Com apenas 44 anos de idade, enviuvara há mais de duas décadas e perdera a única filha, falecida em 1853 com 21 anos. A 30 de Janeiro de 1857, o príncipe Alberto da Grã-Bretanha escreve a Pedro:

Precisas de uma rainha que desse a toda a corte e ao lar, a plenitude e normalidade que não pode ser esperada dum celibatário. Além disso, o celibato tornar-se-á tanto mais perigoso quanto os teus irmãos e irmãs se fizerem adultos e quanto mais se evidenciarem as diferenças, nos gostos e nas ideias, entre filho e pai. Assim, como actualmente estão as coisas, depressa o centro da família se perderá de vez e, sem este, não é possível manter uma família unida. A rainha devia ser jovem, bonita, pura, bem-educada e instruída, não ser beata nem mimada. Julgamos ter encontrado uma pessoa com estes requisitos na filha mais velha do príncipe de Hohenzollern-Sigmaringen, que abdicou em 1848. Ela pertence à Casa da Prússia, tem o seu domicílio habitual em Berlim [equívoco de Alberto] e está, neste momento, em casa da princesa da Prússia, que lhe tece os maiores elogios. Eu próprio nunca a vi; Vitória participou todos os pormenores que conseguimos saber sobre ela a teu pai. O que me leva a indicá-la é a circunstância de ela ser praticamente a única princesa católica que preencheria as condições de uma futura esposa para ti.

Já em Outubro anterior Alberto o alertara para a necessidade de se casar: quando é que tu vais pensar no matrimónio? Falta-te uma rainha que assuma a parte feminina da tarefa. Agora, a 30 de Janeiro, diz-lhe também que, se escolher Estefânia, deve apressar-se, porque se afirma que o príncipe Plon-Plon, alcunha de Napoleão Jerónimo Bonaparte, sobrinho de Napoleão I e primo de Napoleão III, estava em vias de a pedir em casamento. Ruben Andresen Leitão salientou há muito as vantagens de ir buscar consorte aos principados alemães: quando, no século XIX, se declarava entre as nações uma certa rivalidade de domínio, em relação à escolha do futuro ou da futura consorte, aparecia sempre um inocente principado, nas margens românticas do Reno, que fornecia matéria para não se extinguirem as monarquias da Europa. Pensando bem, os príncipes dos ducados da Germânia só traziam consigo vantagens, sendo mesmo difícil encontrar-lhes defeitos. Talvez apenas não trouxessem dote, mas os Parlamentos breve lhes atribuiriam uma confortável dotação. Os príncipes das margens do Reno eram na generalidade muito bem instruídos, facto este que contrastava com a corrente dos Bourbons e dos Orleães, onde esta qualidade era pouco frequente; eram bons chefes de família, com fama de prolíferos e, como já mencionei, os príncipes não traziam consigo quaisquer complicações de ordem política, o que era na verdade ideal para a compreensão e o estabelecimento da paz entre os povos do mundo ocidental europeu». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «… o rei viúvo assumiu a regência à morte da rainha, mas já desde 16 de Setembro de 1855, ao completar 18 anos, que Pedro reinava de facto»

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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
«(…) Estefânia cresceu num ambiente de grande religiosidade mas, segundo os biógrafos seus contemporâneos, sem exageros, sem demasiadas manifestações exteriores, íntima e esclarecida. Esta apreciação deve corresponder à realidade, pois é isso que as suas cartas revelam: uma jovem mulher profundamente religiosa, que procura agir em coerência com as suas crenças, que se chocou com a impreparação, preguiça e hipocrisia do clero português, que não gostava das longuíssimas cerimónias religiosas a que assistia em Lisboa, que não aceitava ser orientada por clérigos pouco esclarecidos. Em Dusseldorf, Estefânia contactou com as Ursulinas, que aí tinham um convento e se dedicavam ao tratamento de doentes e ao ensino de crianças, o que será fundamental na sua formação. Descobria o catolicismo social. É nestas mulheres, religiosas não contemplativas, que Estefânia acredita. Elas poderão regenerar a sociedade. O que a levará, já rainha de Portugal, a colocar-se indefectivelmente ao lado das Irmãs da Caridade. O que levará também Pedro V a refreá-la, não a deixando agir às claras.
A princesa envolveu-se em acções de caridade. Katharina Diez afirma que visitava os pobres em suas casas, entrando em portas onde dificilmente passava a crinolina (armação por debaixo das saias que as abriam em grande balão), tão rebelde em se dobrar. Outras vezes saía à noite disfarçada com roupas de camponesa, a socorrer as famílias necessitadas. Deixara já, pois, quando veio para Portugal, essa imagem de anjo da caridade ou ter-se-ia forjado mais tarde, com o seu destino tão ao gosto romântico. Com certeza que a fama cresceu depois da elevação a rainha e da morte prematura, mas a condessa do Lavradio testemunha em 1857 que indo com ela às terras do pai, viu que ela conhecia e falava a todos os pobres; que todos a vinham cumprimentar e que a acompanhou uma vez a um hospital (fundado pelo avô da princesa) aonde teve a prova que ela lá ia muitas vezes, pois conhecia todos os doentes e de todos era conhecida. As cartas que a rainha irá escrever de Lisboa demonstram também que em Dusseldorf se empenhara activamente em acções de beneficência.
Em finais de 1855, com 18 anos, quando em Portugal Pedro iniciava o seu reinado de facto, a mãe acompanhou Estefânia a Berlim, onde foi apresentada na corte. Tinha atingido a idade de aparecer e de lhe procurarem marido. Sob a protecção da princesa Augusta, mulher do príncipe herdeiro (futuro Guilherme I), participou em saraus, festas, bailes, etc. A jovem também viajou ao estrangeiro, pelo menos à Escócia, como a sua correspondência demonstra. Uma passagem de uma carta de 10 de Maio de 1859 revela que esteve com a mãe em casa da tia Maria na ilha de Arran, ou seja, no castelo de Brodick, mansão dos duques de Douglas-Hamilton.
Por essa altura, Napoleão III, ou talvez, por detrás dele, a tia Estefânia, avó da jovem, tentou casar a princesa de Sigmaringen com o rei da Sardenha-Piemonte Vítor Manuel II, que enviuvara em 1855, aos 35 anos, mas o soberano recusou. A princesa Estefânia poderia ter sido madrasta de Maria Pia de Saboia, então com 8 anos e sua sucessora como rainha de Portugal. O que, por certo, nenhuma das duas alguma vez soube.

De Dusseldorf para Lisboa
Negoceia-se o casamento
«(…) Em Janeiro de 1857, o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gotha, marido da rainha Vitória de Inglaterra, aconselhou Pedro V de Portugal a escolher para esposa a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen. Pedro tinha 19 anos, como Estefânia. Era filho da rainha dona Maria II, falecida em 1853, e de Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, intitulado rei desde o nascimento do seu primogénito. Porque o filho era menor, o rei viúvo assumiu a regência à morte da rainha, mas já desde 16 de Setembro de 1855, ao completar 18 anos, que Pedro reinava de facto. Vitória e Alberto, primos direitos
entre si (Vitória era Saxe-Coburgo pela mãe), eram também primos direitos do rei-consorte de Portugal, o que explica as estreitas relações. O jovem rei Pedro de Bragança nutria uma profunda admiração por Alberto de Inglaterra, a quem tratava por tio, como era costume chamar aos primos dos pais. Alberto também admirava a seriedade e sentido de responsabilidade do sobrinho, qualidades que não encontrava no filho, o futuro Eduardo VII. Em contrapartida, Pedro e o pai possuíam personalidades muito distintas e as relações entre eles eram tensas». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «A cerimónia revestia-se de grande importância, assumindo o carácter de solene ritual de passagem da infância à adolescência e de entrada na vida activa cristã, realizando-se nesta época pelos 13 ou 14 anos…»

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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
«(…) Em 1831 Estefânia de Beauharnais casou Luísa (1811-1854), a filha mais velha, com Gustavo Vasa, filho do rei destronado da Suécia. Tiveram uma filha, Carola (1833-1907), que desposou aos 20 anos o príncipe herdeiro da Saxónia. A segunda filha de Carlos de Baden e Estefânia de Beauharnais era Josefina, mãe da futura rainha de Portugal. Era afilhada de Josefina, ex-imperatriz francesa, repudiada três anos antes. A terceira filha de Estefânia de Beauharnais, de nome Maria (1817-1888), casou com Guilherme Alexandre Douglas-Hamilton, 11o duque de Hamilton. Nasceram deste casamento Guilherme Alexandre (1845-1895), Carlos (1847-1886) e Maria Vitória (1850-1922). São estes, pois, os tios e primos, pelo lado materno, da princesa Estefânia de Hohenzollern-Siemaringen. Com a subida ao poder de Napoleão III (que era Bonaparte pelo pai e Beauharnais pela mãe), a avó Estefânia, tia do novo imperador por laços de adopção, estava de novo protegida e instalou-se na corte francesa, onde vivia quando Pedro V e a princesa Estefânia se casaram.
Pelo lado paterno, Estefânia tinha apenas uma tia, Amália (1815-1841), casada com Eduardo, príncipe da Saxónia-Altenburg. Os seus filhos foram Teresa (1836-1914), Antonieta (1838- 1908), Luís (1839-1844) e João (1841-1844). Os pais de Estefânia, cujo casamento se realizou em 1834, tiveram no ano seguinte o seu primeiro filho, Leopoldo. Virá a casar com dona Antónia de Bragança, irmã de Pedro V e Luís I, já após a morte de Estefânia. A esta, dois anos mais nova do que Leopoldo, seguiram-se os nascimentos de Carlos (Carol) em 1839, António em 1841, Frederico em 1843 e Maria em 1845. Até aos seus 8 anos de vida, Estefânia viu, pois, surgir um novo irmão em cada dois anos.
Em Agosto de 1848 Carlos III abdicou no seu filho, pai de Estefânia. Dois anos depois, com a cedência da soberania de Sigmaringen ao primo afastado Frederico Guilherme IV, rei da Prússia, a família Hohenzollern-Sigmaringen abandonou a capital do ex-principado e residiu por algum tempo em Basileia e em Neisse, na Silésia. Em Maio de 1852, tinha então Estefânia 15 anos de idade, o pai foi nomeado para um alto cargo militar e a família mudou-se para Dusseldorf, na Renânia, instalando-se no castelo ou palácio de Iagerhof. Todos os anos, a família Hohenzollern-Sigmaringen passava o Outono numa das suas propriedades na Suíça, perto do lago Constança.

Formação de uma princesa
Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen era uma mulher culta. Bilingue, pois falava como línguas nativas o alemão e francês, exprimia-se facilmente em inglês e italiano. Gostava de história, de literatura, de poesia, que lia nos quatro idiomas que dominava, e possuía bons conhecimentos de arte. Aos 8 anos a sua educação foi confiada a madame Naudin, francesa. Provavelmente a sua mãe, filha de francesa, falava com os seus filhos em francês, língua que Estefânia utiliza sempre nas cartas que lhe escreve. Aprendeu desenho com o professor Mucke, cujo estilo religioso lhe agradava particularmente e que também a orientou na educação religiosa e na história e princípios teóricos e estéticos das artes gráficas. Teve como professora de música a célebre pianista e compositora Clara Wieck Schumann e recebeu lições de doutrina cristã de Lampenscherf. Como qualquer princesa da sua época, Estefânia aprendeu equitação. Montava bem, diz Katharina Diez, e, segundo a mesma, chegou a receber lições de exercícios militares com um oficial do regimento do pai. Mas não devia ser uma boa cavaleira, pois, já em Portugal, Pedro V obrigou-a a ter 1ições de equitação por ter sofrido uma queda de um cavalo que não soube dominar. A princesa foi também treinada, como é óbvio, nos tradicionais lavores femininos. Nas suas temporadas em Mafra, por vezes orientava essas matérias na aula das meninas pobres, ensinando-as a executar um ponto de renda novo, que passou a ser conhecido como ponto da rainha, ou renda alemã. Como a qualquer burguesa que tem de governar a sua casa, a mãe mandou-a ainda seguir lições de culinária e doçaria.
É conhecida uma gravura representando a sua primeira comunhão. Nela se veem os pais, em lugar de honra, e a princesa junto de outras comungantes. A cerimónia revestia-se de grande importância, assumindo o carácter de solene ritual de passagem da infância à adolescência e de entrada na vida activa cristã, realizando-se nesta época pelos 13 ou 14 anos, pois entendia-se só dever comungar quem tivesse adquirido uma sólida formação doutrinal. Posteriormente, já em Dusseldorf, a princesa recebeu o crisma na Igreja de São Lamberto, pelo cardeal, arcebispo de Colónia, monsenhor Geissel». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Maria Pia de Saboia. Maria Antónia Lopes. «Em 1845, Vítor Manuel conheceu Rosa Vercellana, uma jovem de l4 anos, plebeia analfabeta, que o atraiu para toda a vida»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
Família, nascimento e baptismo
«(…) O pai de Maria Pia era ainda desconhecido na Europa. Depois irá impor-se ao mundo dito civilizado. Unificador da Itália, rei constitucional, combatente pelos ideais da liberdade, opositor do poder temporal da Igreja e galantuomo. Este cognome tem sido mal interpretado em Portugal. É verdade que foi um conquistador de amores, que os filhos ilegítimos se sucederam a partir de 1848, mas o epíteto enaltecia uma atitude filosófico-política: a probidade e a fidelidade à palavra como determinantes da acção política, na antítese do maquiavelismo. Maria Pia tinha, pois, 17 meses quando os pais subiram ao trono, a 24 de Março de 1849. A mãe, Maria Adelaide de Habsburgo-Lorena, era uma arquiduquesa austríaca. A Casa de Áustria, porque dominava a Lombardia e o Veneto, territórios vizinhos do Piemonte, e ainda, através de diversos membros da família, várias outras unidades políticas da Península Itálica (como a Toscana), tinha relações difíceis com os Saboias. No processo de unificação italiana serão, a par do papa, os grandes adversários, Mas quando Vítor Manuel se casou, não começara ainda a expansão piemontesa. E a noiva foi uma austríaca como, afinal, também já era a sua mãe, Maria Teresa de Habsburgo-Lorena, princesa de Módena. Além disso, Vítor Manuel e Maria Adelaide eram primos direitos (pelo lado Saboia), sendo ambos Saboias e Habsburgos. Não só Carlos Alberto se unira a uma austríaca, como uma irmã dele, Maria Isabel de Saboia-Carignano, se consorciara com o arquiduque de Áustria, Renato (Rainier) de Habsburgo, vice-rei da Lombardia-Veneto e filho do imperador Leopoldo II da Áustria. E eram estes os pais de Maria Adelaide. Maria Pia era, pois, uma Habsburgo, tanto pelo lado paterno como pelo materno. Durante a sua vida adulta manterá correspondência e relações de afecto com os parentes austríacos.
Quando Maria Pia nasceu, tinha a mãe 25 anos e o pai 27 . Estavam casados desde 1842 e já existiam os irmãos Maria Clotilde, que nascera a 2 de Março de 1843, Humberto, em 14 de Março do ano seguinte, Amadeu, em 30 de Maio de 1845, e Otão (Oddone), em 11 de Julho de 1846. A seguir a Maria Pia, Maria Adelaide deu à luz três outros rapazes que não sobreviveram, numa sucessão de partos demasiado próximos. A família real habitava em Turim. Dela faziam parte, depois do exílio e morte de Carlos Alberto, o jovem casal reinante e seus filhos, a rainha-viúva Maria Teresa de Habsburgo-Lorena (1801-1855), o duque de Génova, Fernando de Saboia (1822-1855), que era irmão de Vítor Manuel, a mulher deste, Maria Isabel da Saxónia (1830-1912) [irmã de Jorge da Saxónia, com quem casou, em 1859, a infanta Maria Ana de Bragança] e os filhos, Margarida, quatro anos mais nova do que a prima Maria Pia, e Tomás Alberto, nascido em 1854. Era ainda viva uma bisavó, a mãe de Carlos Alberto, Maria Cristina da Saxónia-Curlândia (1770-1851). O bisavô, Carlos Manuel de Saboia, tinha morrido há muito, em 1800.
A família materna era mais numerosa, mas estrangeira e residindo longe. Pouco tempo depois do nascimento de Maria Pia, as relações familiares degradaram-se por motivos políticos. Quando a princesa nasceu, viviam ainda os avós Renato de Habsburgo (1783-1853) e Isabel de Saboia-Carignano (1800-1856), além de Maria da Saxónia-Curlândia, que era bisavó tanto pelo lado paterno como materno. Os tios Áustrias eram cinco: Leopoldo (1823-1898), Ernesto (1824-1899), Segismundo (1826-1891), Renato (1827-1913) e Henrique (1828-1891).
Em 1845, Vítor Manuel conheceu Rosa Vercellana, uma jovem de l4 anos, plebeia analfabeta, que o atraiu para toda a vida. Desta ligação nasceu Vitória em 1848 e Manuel em 1851. Em 1852 e 1853 o rei teve mais um filho e uma filha da actriz Laura Bon, a quem se ligara já em 1844. Depois da viuvez, Vítor Manuel terá também uma filha de Vitória du Plessis, que morreu na infância; e de Virgínia Rho nascerão Donato em 1858, Vítor Manuel em 1861 e Maria Pia em 1866. Mas com estes meios-irmãos Maria Pia de Saboia não convivia, naturalmente. Rosa Vercellana, a dilecta de Vítor Manuel II, e muito menos as outras, nunca foram admitidas na corte. Neste século XIX já não se consentiam tais ofensas à família legítima». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Dona Maria Pia de Saboia. Maria Antónia Lopes. «Por estranho que pareça, Maria Pia só tinha estes dois nomes próprios, ao contrário dos irmãos, que, como era hábito, foram baptizados com vários…»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
Família, nascimento e baptismo
«(…) Um ano antes havia sido eleito Pio IX, que nessa altura augurava excelentes relações com os Saboias. O novo papa considerava o Piemonte um pilar da Igreja e a Casa de Saboia Piíssima, distinguindo-se pelo seu filial afecto pelos Pontífices Romanos. Carlos Alberto, devoto atormentado, sempre respeitou a Igreja, e no Verão de 1847, precisamente, tinha apoiado o papa contra a ocupação de Ferrara pelas forças austríacas. Quando meses depois nasceu uma princesinha Saboia, nesta corte tão rigidamente piedosas, nada mais natural que o sumo pontífice a tivesse apadrinhado. Assim, carecem de sentido os comentários acerca da estranha escolha que Vítor Manuel fez para padrinho da sua filha e a não menos estranha aceitação do papa, o seu grande inimigo. Quando a menina nasceu, o pai era apenas príncipe herdeiro e não manifestara ainda as suas convicções políticas. Foi sem dúvida Carlos Alberto, rei e chefe da família, a decidir essa escolha de tanto significado político. E foi através do pai que Vítor Manuel soube que o papa aceitara apadrinhar o filho que iria nascer. Nasceu uma filha, às seis da manhã do dia 16 de Outubro. O parto foi rápido e o nascimento deixou a mãe feliz, pois desejava uma menina.
Nesse mesmo dia, às dezassete e trinta, foi baptizada solenemente, sendo o padrinho representado pelo núncio papal. A cerimónia, brilhantíssima, sob todos os aspectos (nas palavras do mestre de cerimónias), decorreu com rígido protocolo e aparato. Um cortejo de coches ladeados por pajens do rei caminhando a pé dirigiu-se à nunciatura a recolher o representante do papa, monsenhor Altonucci. O baptismo da princesa foi ministrado pelo arcebispo no palácio real e na presença dos reis seus avós, do pai e dos irmãos, das mais altas personalidades da corte e do primeiro-secretário de Estado. A recém-nascida apareceu nos braços da marquesa de Pallavicini, dama da rainha, que se colocou à esquerda do núncio. O arcebispo iniciou então a cerimónia e por ordem do rei impôs à criança o nome de Maria Pia. Terminada a função, a menina foi mostrada a todos os presentes!
Por estranho que pareça, Maria Pia só tinha estes dois nomes próprios, ao contrário dos irmãos, que, como era hábito, foram baptizados com vários. Na sua família sempre lhe chamaram apenas Maria e no palácio era a principessa Maria. Mas o seu nome era Maria Pia, em homenagem ao ilustríssimo padrinho. A escolha agradou à sua família austríaca. O avô materno, ao felicitar o genro pelo nascimento da menina, faz votos de que os nomes de Maria e de Pia lhe tragam felicidade e que seja a consolação dos seus pais, como a sua mãe foi a nossa.
Em 1847 o reino da Sardenha era constituído pela ilha do mesmo nome, pelo Piemonte, onde se localizava a capital do reino, Turim, pela antiga república de Génova e ainda pelo condado de Nice e ducado de Saboia, territórios que actualmente integram a França. A aspiração a uma unidade política da Itália era já bem viva, sustentada por monárquicos liberais e por republicanos. Os Saboias serão os condutores dos primeiros, conseguindo fazer da Península Itálica um reino unido sob um regime parlamentar. Será uma causa exaltante, de feição romântica, conduzida pelo ministro Cavour e pelo rei Vítor Manuel II, que fará dele o pai da Pátria. Um processo longo, culminando em 1870 com a ocupação de Roma, doravante a capital da Itália. Maria Pia viverá tudo isto de longe. Verá a sua pátria, que ama entranhadamente, construir-se gradual e gloriosamente, ignorando-a a ela, uma Saboia, filha do fundador, sem que em nada possa intervir.
Carlos Alberto iniciou a expansão territorial na direção da Lombardia, atacando os Habsburgos que a governavam e que eram a sua própria família, mas foi infeliz. Derrotado em Novara, em Março de 1849, abdicou do trono, despojou-se de tudo e saiu precipitadamente de Itália, com destino incerto. Dirigiu-se, por terra, para Portugal. Não providenciara uma abdicação formal escrita. Foi necessário que enviados especiais o encontrassem, já em território espanhol, para que produzisse um documento que incontestavelmente fazia do seu filho rei da Sardenha-Piemonte. Com 50 anos, Carlos Alberto sempre fora uma personalidade difícil de compreender. Extenuado e doente, o ex-rei da Sardenha morreu no Porto a 28 de Julho de 1849. Este fim conferiu-lhe uma aura romântica que fez esquecer as suas tergiversações». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Maria Pia de Saboia. Maria Antónia Lopes. «Carlos Alberto Saboia, que tão celebrado será pelos liberais por ter outorgado, em 1848, o Estatuto, isto é, uma carta constitucional, como Pedro IV fez no nosso país, foi nos primeiros anos do seu reinado…»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
«(…) Por tudo isto, não é fácil destrinçar a realidade da representação que se forjou, perceber a personalidade de Maria Pia e certos eventos da sua vida. O que dela se afirma é contraditório e em grande parte uma imagem que não se ajusta à pessoa que realmente foi esta rainha, imagem que é necessário desconstruir. Se em muitos aspectos foi possível fazê-lo, depurando-a das camadas sobrepostas de lendas, equívocos, preconceitos, ressentimentos e lisonjas, nem sempre as fontes o permitiram. O historiador não é omnisciente e uma biografia desafia-nos sempre com zonas de sombra que não é possível perscrutar. É bem possível que outra documentação, nomeadamente de índole privada, venha a aparecer e confirmar, matizar ou refutar muitas das minhas interpretações.

Luís Espinha Silveira foi o primeiro a analisar de forma sistematizada a correspondência de dom Luís e dona Maria Pia depositada na Torre do Tombo e no Palácio da Ajuda (Museu) para perceber a personalidade de Maria Pia. Utilizo também essas e outras muitas cartas inéditas escritas e recebidas pela rainha, assim como documentação de natureza diferente, guardadas no Arquivo da Casa Real da Torre do Tombo mas também no Arquivo de Estado de Turim, que dona Maria Pia terá levado consigo para o exílio ou que para lá foram remetidas. Um pequeno núcleo documental do Arquivo Centrai do Estado, em Roma, forneceu informações sobre o seu funeral. Encontra-se ainda documentação de tipologia diversa, incluindo mais uma vez correspondência emitida e recebida por dona Maria Pia, na Biblioteca da Ajuda, no Arquivo da Universidade de Coimbra e no Arquivo Regional de Ponta Delgada.
Dona Maria Pia escrevia em italiano para a família de Itália e em francês pouco correcto ao nível da ortografia para todas as outras pessoas, incluindo o marido e os filhos, que também se lhe dirigiam nessa língua. Assim sendo, todas as pequenas citações que faço em português são traduções da minha responsabilidade. Expressões curtas e claramente compreensíveis foram mantidas no original, mas optou-se, em geral, pelo resumo e não pela transcrição da correspondência. Nos anos de 1880 e 1890 Carlos I redigia por vezes as suas cartas à mãe em português. Maria Pia lia e falava português correctamente e escrevia em português (fazendo rever a grafia) para certas pessoas, como, por exemplo, para Hintze Ribeiro.

Princesa Maria Pia de Saboia (1847-1862). Família, nascimento e baptismo
A princesa Maria Pia nasceu em Turim a 16 de Outubro de 1847, no seio da família reinante de Saboia, a casa donde tinha saído, no século XII, dona Mafalda (ou Matilde), esposa do primeiro rei português. A menina era neta do rei da Sardenha, Carlos Alberto Saboia (1798-1849). Na realidade, a sua estirpe era Saboia-Carignano, ramo colateral da família desde a primeira metade do século XVII. Para se encontrar um rei entre os ascendentes Saboias de Carlos Alberto, há que remontar a Carlos Manuel, o Grande, falecido em 1630. Carlos Alberto, duzentos anos depois, faz aceder ao trono a linha Saboia-Carignano, que descendia de Tomás Francisco, filho segundo de Carlos Manuel, A ascensão ocorreu pacificamente, por se ter extinto a via masculina do ramo principal. Dos três reis anteriores, todos irmãos, só um teve descendência, mas nenhum filho homem: Carlos Manuel IV que reinou de 1796 a 1802, Vítor Manuel I, rei entre 1802 e 1821, e Carlos Félix, rei de 182l a 1831. À excepção de Carlos Félix, todos estes mencionados, incluindo o avô de Maria Pia, abdicaram.
Carlos Alberto, sétimo príncipe de Saboia-Carignano, que depois de rei irá deixar cair o Carignano, nome que passa a ser usado por um primo, agora representante do ramo lateral, foi designado herdeiro do trono da Sardenha por Vítor Manuel I, que, ao abdicar no irmão Carlos Félix, e porque este também não tinha herdeiros, estabeleceu a sucessão no jovem primo do ramo Carignano. A escolha desagradou a Carlos Félix, convicto absolutista que desconfiava do jovem parente educado em França, mas cumpriu a vontade do irmão. Será uma constante na família Saboia do século XIX, incluindo os dois ramos: a lealdade entre os seus membros e o respeito total pela vontade do chefe da casa.
Carlos Alberto Saboia, que tão celebrado será pelos liberais por ter outorgado, em 1848, o Estatuto, isto é, uma carta constitucional, como Pedro IV fez no nosso país, foi nos primeiros anos do seu reinado um soberano absoluto. Mas a sua actuação foi contraditória. Num período em que assumiu a regência na ausência de Carlos Félix terá patrocinado uma revolta liberal, mas submeteu-se de imediato ao rei. Quando subiu ao trono não instaurou o liberalismo. Pelo contrário, reprimiu-o violentamente em 1833-1834 e, no exterior, auxiliou os miguelistas portugueses e os carlistas espanhóis. É só com as convulsões de 1848, após a promessa de constituição feita pelo rei de Nápoles e depois da deposição do rei francês (Luís Filipe Orleães), que Carlos Alberto cede às novas ideias que se expandiam irreversivelmente. Só nesse ano reconhece as monarquias constitucionais de Portugal e de Espanha, só nesse ano, como se disse, concedeu uma Constituição ao seu povo. Por convicção? Por táctica? O certo, o que nos importa frisar, é que quando a sua neta Maria Pia nasceu, filha do príncipe herdeiro Vítor Manuel e da sua mulher Maria Adelaide Habsburgo, ainda a corte de Turim albergava um rei absoluto». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

D. Maria I. Jenifer Roberts. «Enquanto a sua saúde se deteriorava, o rei João passava os dias a assistir a cerimónias religiosas na igreja patriarcal. A perna e o braço já paralisados começaram a inchar…»

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A Vida Notável de uma Rainha Louca
Infância Real (Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa)
«(…) Quando a família viajava de um palácio para o outro, a sua mobília e recheio de casa seguiam com ela: camas, mesas e cadeiras, tapeçarias e carpetes, espelhos, serviços de mesa, pratas e vidros. A corte não podia dar um passo sem levar consigo a mobília, escreveu um francês que viveu em Lisboa, porque a família não tem nada em mais do que um lugar ao mesmo tempo e não pode mudar de morada sem a levar sempre consigo, até mesmo as suas camas e a roupa de cama. Um número prodigioso de veículos, uma misturada de carruagens novas e velhas, era requisitado para cada viagem, assim como cavalos e mulas para as diferentes etapas. E quando chegavam ao destino, os criados tinham de trabalhar com grande rapidez para preparar o alojamento: camas e móveis montados, tapeçaria pendurada e outros tapetes estendidos no chão. Os cozinheiros suavam na cozinha para preparar a primeira refeição, enquanto os criados desempacotavam o guarda-roupa real. Nos estábulos, os cavalos e os arreios eram preparados e polidos porque a família iria levantar-se cedo, na manhã seguinte, ansiosa que estava por montar a cavalo e caçar.
A princesa dona Maria tinha apenas sete anos de idade quando o seu avô sofreu uma trombose que lhe paralisou o lado esquerdo do corpo. Foram feitas preces nas igrejas e conventos, os assuntos de Estado foram esquecidos e procissões religiosas encheram as ruas noite e dia a partir do instante em que adoeceu. Os médicos aconselharam-no a ir a banhos nas Caldas da Rainha, na esperança de que a imersão em águas quentes e sulfurosas o ajudassem a restaurar a saúde. Foi uma viagem de dez horas até à cidade termal, tendo a família partido a 9 de Julho de 1742, de barco pelo rio Tejo acima até Vila Nova da Rainha, onde carruagens esperavam para os levarem por terra até às Caldas.
Regressaram a Lisboa a 17 de Agosto. Seis semanas mais tarde, o rei sofreu novo ataque, um espasmo que o privou dos sentidos durante meia hora. Foram canceladas todas as aparições públicas, à excepção de um auto de fé, a 4 de Novembro, que durou catorze horas e foi uma fonte de fadiga para muitas pessoas com mais saúde que foram obrigadas a assistir. O rei João sofreu uma terceira trombose a 12 de Novembro e nunca mais deixou de manifestar tremuras violentas, que se repetiam quase todas as semanas e se prolongavam, às vezes, por dias inteiros.
Isto pôs fim às visitas regulares aos palácios na província, apesar de os médicos ainda acreditarem nos efeitos benéficos das termas e de a sua família o ter acompanhado às Caldas treze vezes em oito anos. De cada vez que faziam a viagem, o mobiliário real e os adereços viajavam com eles e sempre que o rei se sentia mal no caminho a comitiva inteira tinha de voltar para trás e regressar a Lisboa. A rainha tornou-se regente sempre que João estava demasiadamente doente para se reunir com os seus ministros, mas, na maioria das vezes, o soberano reservava os assuntos de Estado para si próprio. As queixas acerca da inexperiência de dona Maria Ana avolumavam-se, mas filho José, o príncipe herdeiro, recusava um papel mais activo, o que deixava a nobreza descontente. Sua Majestade está tão doente, escreveu o cônsul britânico, que, no melhor dos casos, dormita, sendo muito impertinente, não despachando nada, e, contudo, querendo que tudo passe pelas suas mãos.
Enquanto a sua saúde se deteriorava, o rei João passava os dias a assistir a cerimónias religiosas na igreja patriarcal. A perna e o braço já paralisados começaram a inchar consideravelmente, ao mesmo tempo que o monarca sofria de frequentes ataques de delírio. Em Setembro de 1749, o rei fez a sua última viagem às Caldas. Quando regressou a Lisboa a 6 de Outubro, estava, segundo o embaixador britânico, numa melancolia mais profunda do que de outras vezes, porque tinha alimentado a ideia de que morreria antes de ter os sessenta anos completos, já que nenhum príncipe da Casa de Bragança tinha atingido tal idade. Apesar dos seus presságios, o rei João sobreviveu ao seu sexagésimo aniversário, a 22 de Outubro. Quando o calor do Verão de 1750 chegou, ele permanecia deitado, inchado com o edema, mal se podendo mexer. O quarto estava cheio de padres e frades que recitavam orações e seguravam imagens sagradas, entre eles um jesuíta, Gabriel Malagrida, um homem tratado com reverência pelo casal real, que acreditava que ele fosse um santo ou profeta. O monarca João V morreu a 31 de Julho, ao fim de uma longa enfermidade, acompanhada de sintomas vários e extraordinários. Os médicos fizeram uma autópsia onde, como explicou o embaixador britânico, foi encontrada uma grande quantidade de água na cabeça e no peito, que se supõe ter sido provocada pelos médicos com grandes sangrias e outras evacuações». In Jenifer Roberts, D. Maria I, A Vida Notável de uma Rainha Louca, Casa das Letras, 2012, ISBN 978-972-462-123-4.

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