Mostrar mensagens com a etiqueta D. Inês de Castro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta D. Inês de Castro. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A personagem do rei Pedro I. Na narrativa portuguesa do dealbar do século XXI. Pedro J. Rodrigues. «… segundo a qual ‘talvez’ Fernão Lopes já tivesse acesso a ‘uma lenda do rei justiceiro’, pelo que a imagem que aí colhemos do monarca estaria desde logo condicionada por um saber adquirido»

Cortesia de wikipedia e jdact

A figura do rei através dos documentos oficiais do seu reinado
«(…) Na opinião de Veríssimo Serrão, este aspecto liga-se a outros dois vectores significativos: à já referida itinerância e à defesa das populações que buscavam justiça ou protecção. São estas, afinal, as mais salientes marcas da imagem de dom Pedro, com reflexos evidentes no discurso historiográfico, desde as primeiras crónicas até aos estudos mais recentes.

A escrita historiográfica: aspectos históricos e traços ficcionais
Num trabalho recente, Cristina Pimenta diagnostica as dificuldades de apresentar uma imagem real de Pedro I, uma vez que as informações, quer cronísticas, quer documentais, disponíveis se encontram envoltas em cenários complexos; refere-se a autora ao facto de a Chancelaria de dom Pedro ter sido reduzida a um só livro, à circunstância de muitos documentos das Cortes se terem perdido e também ao facto de as duas crónicas mais antigas conhecidas terem sido elaboradas em circunstâncias pouco favoráveis à imparcialidade desejada. A primeira destas, da autoria de Fernão Lopes, centra-se sobre a figura de dom Pedro e foi comissionada ao cronista por dom Duarte, neto deste rei; parece-nos lógico que o autor se sentisse compelido à benevolência não só para com dom Pedro, mas também em relação ao seu descendente, dom João I, muito provavelmente ainda rei de Portugal na altura da produção escrita (faleceu apenas em 1433). A segunda destas obras aborda o reinado de dom Afonso IV, pelo que só indirectamente tratará de assuntos relacionados com dom Pedro. Ainda assim, a conduta do autor, Rui Pina, não está isenta de polémica, pois diz-se que terá baseado a sua obra numa crónica homónima do mesmo Fernão Lopes, escrita cerca de um século antes, e que entretanto se terá perdido. Quanto à mencionada crónica de Rui Pina, o registo é basicamente factual, centrando-se a sua importância na descrição de acontecimentos a que Fernão Lopes não faz referência, como a morte de Inês de Castro, ou de factos mais pormenorizados, como a enumeração dos descendentes do rei Pedro I. Pouco retiramos desta obra que nos possa revelar aspectos importantes sobre dom Pedro, dado tratar-se da crónica relativa ao reinado de dom Afonso; constituem excepção pormenores como o pedido do ainda infante Pedro ao seu pai para que não o obrigasse a casar contra sua vontade, o que demonstrará, desde logo, a personalidade forte e o carácter independente do infante.
No que se refere à crónica de Fernão Lopes, é inquestionável a sua importância, por se tratar da obra temporalmente mais próxima da época retratada, e também porque neste relato nos é apresentada uma imagem que perdurará nas crónicas posteriores, assim como em toda a produção literária que este tema gerou. Embora se aceite, geralmente, a visão do cronista, não será de afastar liminarmente a hipótese levantada por Cristina Pimenta, segundo a qual talvez Fernão Lopes já tivesse acesso a uma lenda do rei justiceiro, pelo que a imagem que aí colhemos do monarca estaria desde logo condicionada por um saber adquirido. Existe a possibilidade de tal ter acontecido, o que, somando-se às condicionantes já antes mencionadas, deixa antever eventuais divergências entre a realidade e este relato; é nossa opção, no entanto, considerar esta produção escrita o elemento mais próximo da verdade histórica que poderemos utilizar, pelo que nela basearemos a nossa interpretação. Assumimos que não serão colmatáveis as insuficiências da fonte, nomeadamente no que se refere às fases iniciais da vida de Pedro; como refere Suzanne Cornil, são poucos os dados sobre os seus gostos de adolescente e as suas relações com o pai; aliás, para além de uma referência breve ao contacto tardio com os avós, que só terá ocorrido aos quatro anos, devido às discórdias entre Afonso e Dinis, apenas temos informações indirectas e, por isso mesmo, de reduzida credibilidade histórica. Quanto a aspectos físicos, Cristina Pimenta considera ser comum, mesmo nestes tempos mais recuados, haver descrições detalhadas, estranhando esta falta de informação relativa a dom Pedro». In Pedro Jorge Rodrigues, A personagem D. Pedro, Na narrativa portuguesa do dealbar do século XXI, Tese de Mestrado em Estudos Portugueses Interdisciplinares, Universidade Aberta, Coimbra, 2006,

Cortesia de UAberta, Coimbra/JDACT

domingo, 5 de abril de 2015

A personagem do rei Pedro I. Na narrativa portuguesa do dealbar do século XXI. Pedro J. Rodrigues. «… seiam certos que aos seus corpos e averes me tornarey eu porem. ou stranhar lho ey nos corpos como minha mercee for. … por esta altura, a principal fonte do poder de Pedro I não é o amor que provoca, mas o temor que suscita»

Cortesia de wikipedia

A figura do rei através dos documentos oficiais do seu reinado
«(…) O facto é que foi Pedro I, o primeiro rei português a afirmar-se detentor de um poder absoluto, usando algumas vezes essa fórmula nos documentos da sua chancelaria. Baquero Moreno considera que esta concepção do poder por parte do rei terá implicações directas no seu próprio entendimento da lei: Em conformidade com o seu poder absoluto o rei era a representação da lei viva. Expressões como querendo lhe fazer graça e merçee ou tenho por bem e mando, muito frequentes na sua chancelaria, constituem, afinal, formas simples de vincar a diferença de posições entre os que vão pedir algo e aquele que concede um favor, pois detém o poder de o atribuir ou de o negar. Acrescia ainda a esta posição, já de vantagem, o facto inquestionável de o rei ser detentor de um poder directamente delegado pela divindade, em nome da qual era exercida a autoridade real; aliás, ao contrário do que se poderia depreender de algumas demonstrações de má vontade para com o clero, a crença religiosa parece nunca ter abandonado o pensamento do monarca, se atendermos não só a diversas formulações de artigos da chancelaria, mas também às suas determinações finais, como afirma Montalvão Machado: D. Pedro mostrava-se efectivamente bastante religioso, como demonstrou na redacção do seu testamento, impregnado duma preocupação de salvação da alma, maior do que se vê no testamento de D. Afonso IV, muito maior do que a revelada pelo testamento de D. Dinis. Após a afirmação do poder real perante os diversos grupos sociais, Pedro I parece ter sentido necessidade de adaptar à sua máquina da administração central (e, principalmente, no que se referia ao sistema de aplicação da justiça) a imagem de firmeza, imparcialidade e honestidade com que o próprio era identificado.
Consideramos que será neste contexto que, a partir de certa altura, os próprios diplomas da chancelaria perspectivam tudo em função do rei, da sua imagem. Cremos que terá sido necessária a intervenção pessoal do rei para implementar, nesta época, um sistema de justiça em que as sentenças aplicadas respeitavam as formalidades processuais exigidas pela legislação e asseguravam algumas garantias aos acusados, tanto mais que, simultaneamente, se legislou no sentido de permitir o rápido desembargo dos assuntos pendentes e de evitar tudo o que possa dar lugar a situações de favor ou a desonestidades cometidas no exercício dos cargos. Para além desta tentativa de moralização junto dos servidores régios, sentia-se a necessidade de obrigar ao cumprimento das decisões da justiça real; para este fim, o rei adverte, amiúde, nas próprias cartas da sua chancelaria, para as punições em que incorrerão os prevaricadores: seiam certos que aos seus corpos e averes me tornarey eu porem. ou stranhar lho ey nos corpos como minha mercee for. Assim, poder-se-á considerar que, por esta altura, a principal fonte do poder de Pedro I não é o amor que provoca, mas o temor que suscita. Esta nova realidade relativa à aplicação da justiça, em flagrante contraste com a prática até aí conhecida e sentida pelas populações, foi indicador decisivo na adesão do povo à figura do rei Pedro I. A paixão pela justiça, tantas vezes mencionada em relação a este monarca, é visível nos diplomas da sua chancelaria e resume realmente a essência de um rei cuja vontade he e foy sempre d estranhar e castigar os maãos fectos, independentemente da origem social do criminoso». In Pedro Jorge Rodrigues, A personagem D. Pedro, Na narrativa portuguesa do dealbar do século XXI, Tese de Mestrado em Estudos Portugueses Interdisciplinares, Universidade Aberta, Coimbra, 2006,

Cortesia de UAberta, Coimbra/JDACT

domingo, 29 de março de 2015

A personagem do rei Pedro I. Narrativa portuguesa do dealbar do século XXI. Pedro J. Rodrigues. «… um Monarca itinerante, que calcorreou as estradas para levar a presença régia a todos os cantos do País, sacrificando-se e agindo sempre em prol grande da sua terra»

Cortesia de wikipedia

A figura do rei através dos documentos oficiais do seu reinado
«(…) Poderemos sempre questionar se as decisões originadas nas Cortes (tal como, mais tarde, as exaradas na Chancelaria) são o reflexo das vontades e convicções do rei Pedro I ou se, pelo contrário, resultam das opiniões maioritárias do seu Conselho, o qual ajudava na elaboração dos documentos escritos que constituíam as respostas às queixas (ou agravamentos) apresentadas pelos grupos sociais ou pelos diversos concelhos. Este Conselho Real continua a acompanhar o rei ao longo do seu reinado, desempenhando funções consultivas, mas o seu verdadeiro peso nas decisões régias permanecerá sempre uma incógnita: se alguns salientam a sua importância, como Joel Serrão e Oliveira Marques, que associam a manutenção da paz no reino ao facto de o rei se ter rodeado de bons conselheiros, outros, pelo contrário, consideram que o conselho assumia uma posição subalterna, confinado, na prática, a intervir apenas quando o rei o chamava a pronunciar-se ou, caso este se ausentasse, a decidir nos casos mais simples. É possível que o rei se tivesse escudado inicialmente nos conselhos de homens experientes que o acompanhavam desde os tempos dos confrontos com Afonso IV, passando a agir de forma individual, à medida que ia adquirindo mais experiência e confiança nas suas próprias capacidades; de tal modo que, justificando decisões suas quanto à centralização dos mecanismos de desembargo, o rei mostra não abdicar do seu direito de controlar bem de perto a aplicação da justiça que era feita em seu nome: per esta guisa vera el rrey todo o que se livra na sua corte. Assim, a importância do Conselho Real ter-se-ia esvaziado gradualmente, até ser apenas um meio de conseguir que a máquina judicial continuasse a funcionar quando o rei se ausentasse para as suas diversões venatórias, constituindo excepção os casos mais complexos, que esperariam o seu regresso.
Esta aparente falta de responsabilidade de um rei que abandona o trono e os deveres a ele associados para se divertir caçando, por vezes durante longos espaços temporais, pode levar-nos a reflexões um pouco mais complexas. É verdade que Pedro I se deu conta da necessidade de colmatar a sua ausência, delegando poderes nos seus oficiais de justiça, embora se reservasse o direito de fazer esperar pela sua real decisão os casos mais complexos, como já vimos; mas também não podemos deixar de atribuir algum significado ao facto de, durante os dez anos do seu reinado, raramente se encontrar num mesmo local mais de um mês. O estudo dos seus itinerários, baseado nos documentos da chancelaria real, confirma esta característica; mas quanto às causas, mais uma vez, não existe consenso. Mesmo entre os historiadores mais recentes, há divergências essenciais quanto às motivações de Pedro I: Oliveira Marques, por exemplo, identifica o rei com um indivíduo incapaz de se demorar em qualquer cidade ou região, com necessidade constante de mudança, em suma, um homem instável no mais elevado grau; por outro lado, Veríssimo Serrão apresenta-o como um Monarca itinerante, que calcorreou as estradas para levar a presença régia a todos os cantos do País, sacrificando-se e agindo sempre em prol grande da sua terra. É esta última posição a que parece reunir a preferência dos estudiosos actuais. Luís Krus, em comentário breve à edição da Chancelaria de D. Pedro, acredita que o facto de o monarca viajar por todo o reino, ouvindo os povos, cimenta a própria unidade do país através da sua simples presença e acção. Dora Luís, por outro lado, prefere salientar a sensatez do rei, já que considera que as suas viagens são uma excelente estratégia de relações-públicas e de propaganda, porque exponenciam a projecção da sua imagem. O hábito de viajar pelo país viria já, aliás, da juventude do infante, atitude a que se poderia atribuir uma intenção concreta do príncipe herdeiro, que circulava constantemente de terra em terra fazendo-se conhecido e estimado.
Parece-nos difícil crer que Pedro I desde tão cedo previsse a necessidade de captar as simpatias do povo para fortalecer o seu próprio poder daí a vários anos, tanto mais que não poderia antever as tensões imediatamente anteriores à sua investidura. Mas se o novo rei fez questão de continuar a obra legislativa de seu pai, sabendo aproveitar a herança de Afonso IV, respeitá-la, mantê-la e segui-la, a verdade é que não demorou muito tempo a controlar os poderes dos nobres e a tomar medidas concretas que afrontaram o clero de forma significativa, tudo isto com um apoio já incondicional do povo, cuja confiança o rei cultivaria de forma consciente. Esta estratégia de consolidação do poder parece ter assentado também, segundo Valentino Viegas, na substituição dos alcaides por pessoas da confiança do rei e na distribuição de cargos importantes a vassalos escolhidos, certamente não de modo aleatório; desta forma e através da concessão de alguns benefícios, o rei dominava a engrenagem do poder central. Isto apesar de não ser, de todo, consensual a ideia de que Pedro I tenha sido extremamente liberal: de acordo com o referido autor, o rei Pedro I foi bastante comedido em acrescentamentos, incomparavelmente mais do que os seus sucessores, a não ser que os seus antecessores fossem ainda mais parcimoniosos, o que parece confirmar-se pelo menos em relação a Afonso IV». In Pedro Jorge Rodrigues, A personagem D. Pedro, Na narrativa portuguesa do dealbar do século XXI, Tese de Mestrado em Estudos Portugueses Interdisciplinares, Universidade Aberta, Coimbra, 2006,

Cortesia de UAberta, Coimbra/JDACT

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A personagem D. Pedro. Na narrativa portuguesa do dealbar do século XXI. Pedro J. Rodrigues. «Segundo LMS, “uma cláusula” aí colocada pelo pai da noiva, condicionando o casamento à inexistência de ‘amantes’ na vida do infante, mostrará anteriores “desmandos femeeiros” de Pedro. … a verdade é que nos parece legítima a inferência apresentada»

Cortesia de wikipedia

Inês de Portugal, de João Aguiar. A Trança de Inês, de Rosa Lobato Faria. A Rainha Morta e o Rei Saudade, de António Cândido Franco
O rei Pedro I: o homem e o mito
«De todos os reis das duas primeiras dinastias portuguesas, Pedro I é aquele cujo reinado se revela mais breve, se exceptuarmos o caso especial do seu neto Duarte I. No entanto, e por contraste, é talvez o monarca cuja actuação foi alvo de maior polémica e deu origem a maior número de obras de cariz histórico ou literário, ao longo dos séculos e até ao tempo presente. Em parte, tal facto fica a dever-se a acontecimentos anteriores à sua subida ao trono, como a morte de Inês de Castro ou a consequente guerra civil que liderou contra seu pai, ao longo de sete meses. Mas a eliminação física da sua grande paixão teve repercussões que se prolongaram para além das pazes assinadas em Canaveses, assumindo Pedro I, já enquanto rei, acções que em muito contribuíram para a imagem que, ao longo do tempo, os diversos autores foram criando e difundindo. A variedade de textos actualmente disponíveis que se debruçam sobre esta época histórica permite-nos uma análise pormenorizada, sob diversos pontos de vista, da figura do rei Pedro I. Devemos, no entanto, considerar que nem todos os escritos que utilizámos como fonte se inscrevem num mesmo género, tal como não assumem, na sua globalidade, uma intenção semelhante. Seria, neste sentido, pouco adequado assimilar todas as contribuições numa caracterização única, razão pela qual optámos por abordar separadamente os textos de intenção basicamente historiográfica e as criações de cariz ficcional mais ou menos assumido. Por outro lado, sentimos ser necessário particularizar a análise dos documentos oficiais do reinado de Pedro I, exactamente por constituírem os únicos elementos coevos através dos quais podemos deduzir, ainda que de modo indirecto, alguns traços da personalidade deste monarca tão controverso.

A figura do rei através dos documentos oficiais do seu reinado
Em termos cronológicos, o primeiro documento coevo que nos pode transmitir informações sobre o Infante Pedro é exactamente o contrato de casamento com dona Constança. Segundo Leonor Machado Sousa, uma cláusula aí colocada pelo pai da noiva, condicionando o casamento à inexistência de amantes na vida do infante, mostrará anteriores desmandos femeeiros de Pedro. Fosse ou não habitual a presença de anotações com este conteúdo nos contratos nupciais, a verdade é que nos parece legítima a inferência apresentada, mesmo que não creiamos, como certos autores com maior liberdade literária, num eventual casamento secreto do príncipe, anterior a esta época. Na realidade, independentemente da veracidade da declaração de Cantanhede, sobre o casamento com dona Inês de Castro, não podemos ignorar o valor documental dos monumentos funerários mandados construir por Pedro, como não devemos esquecer outras atitudes do rei que revelam a grande vontade de assumir Inês como sua rainha (a exumação e a trasladação do corpo, a coroação da estátua jacente, a própria colocação dos túmulos), deixando entrever a paixão que terá existido entre ambos, tenha ela tido o seu início antes ou após o casamento com dona Constança. A evidente vontade do rei quanto à legitimação dos seus filhos com dona Inês não nos parece, ainda assim, a razão única para as atitudes e iniciativas régias atrás enumeradas.
Tanto mais que, para tal fim, conhecemos as diversas tentativas de Pedro I, quer junto do papa, quer através de acções concretas, como grandes doações aos infantes, com a confirmação do futuro rei Fernando I, ou ainda as suas presenças nas Cortes de Elvas, em 1361, juntamente com o legítimo herdeiro do trono. A realização das Cortes em Elvas funciona, aliás, como um marco extremamente importante da capacidade de governar de Pedro I, mesmo tendo em conta que já haviam decorrido quatro anos completos de reinado, acrescidos de outros dois de co-governo, pois o infante assumiu, após o final da guerra civil subsequente à morte dona de Inês de Castro, a plena jurisdição cível e crime em todo o País. Não admira que o ano de 1361 seja entendido como a inauguração de um novo ciclo da acção de Pedro I. Embora realce a vontade de tratar com igualdade todas as pretensões que lhe sejam apresentadas, esta é a oportunidade utilizada pelo monarca para mostrar a protecção ao povo, atitude que vai marcar a sua actuação ao longo dos tempos; simultaneamente, aproveita para uma remodelação quase total do elenco dos desembargadores e dá indicações seguras quanto às suas intenções relativamente ao clero: segundo Montalvão Machado, em Elvas diminuíram-se os privilégios do Clero, para além de que se confirmou o beneplácito régio, já outorgado por Afonso IV. Sem dúvida que, com esta última medida, Pedro I pretendia evitar a proliferação de documentos papais falsos, situação bastante comum já no reinado anterior, mas também é óbvio que aproveita a ocasião para salientar a supremacia do Estado sobre o poder espiritual, ideia que reiterará ao longo do tempo. Em todo o caso, o rei assumiu uma posição de firmeza para com esta classe, raramente permitindo situações de excepção: Pedro I quis, desde logo, sublinhar o triunfo do poder real sobre o religioso». In Pedro Jorge Rodrigues, A personagem D. Pedro, Na narrativa portuguesa do dealbar do século XXI, Tese de Mestrado em Estudos Portugueses Interdisciplinares, Universidade Aberta, Coimbra, 2006,

Cortesia de UAberta, Coimbra/JDACT

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A morte de D Ignez de Castro. 3º Canto. Camões. «Queria perdoar-lhe o Rei benino, movido das palavras que o magôam; mas o pertinaz povo, e seu destino, que desta sorte o quiz, lhe naõ perdôam. Arrancam das espadas de aço fino, os que por bom tal feito alli pregôam. … Ferozes vos mostrais, e Cavalleiros?»

jdact

«As filhas do Mondego a morte escura, longo tempo, chorando, memória». Luís de Camões

De acordo com o original

Episódio do Grande Luiz de Camões. À Morte de D. Ignez de Castro
[...]
CXXVII
Ó tu, que t[ë]es de humano o gesto, e o peito,
(Se de humano he matar h[ü]a donzella
Fraca, e sem força, só por ter sujeito
O coraçaõ a quem soube vencella)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o naõ t[ë]es á morte escura della:
Mova-te a piedade sua, e minha,
Pois te naõ move a culpa que naõ tinha.

CXXVIII
E se vencendo a Maura resistencia
A morte sabes dar com fogo, e ferro;
Sabe tambem dar vida com clemencia
A quem para perdê-la naõ fez erro.
Mas se to assi merece esta innocencia,
Põe-me em perpétuo e misero desterro,
Na Scythia fria, ou lá na Libya ardente,
Onde em lagrimas viva eternamente.

CXXIX
Põe-me onde se use toda a feridade;
Entre leões, e tigres; e verei
Se nelles achar posso a piedade
Que entre peitos humaos naõ achei.
Alli co'o amor intrinseco, e vontade,
Naquelle por quem mouro, criarei
Estas reliquias suas que aqui viste,
Que refrigerio sejam da mãi triste.

CXXX
Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magôam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino,
Que desta sorte o quiz, lhe naõ perdôam.
Arrancam das espadas de aço fino,
Os que por bom tal feito alli pregôam.
Contra h[~u]a dama, ó peitos carniceiros,
Ferozes vos mostrais, e Cavalleiros?

CXXXI
Qual contra a linda moça Policena,
Consolaçaõ extrema da mãi velha,
Porque á sombra de Achilles a condena,
Co'o ferro o duro Pyrrho se aparelha:
Mas ella os olhos, com que o ar serena,
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na misera mãi postos, que endoudece,
Ao duro sacrificio se offerece:

CXXXII
Taes contra Ignez os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sostinha
As obras com que amor matou de amores
Áquelle que despois a fez Rainha,
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ella dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam férvidos, e irosos,
No futuro castigo naõ cuidosos.

CXXXIII
Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquelle dia,
Como da seva mesa de Thyestes,
Quando os filhos por maõ de Atreo comia.
Vós, ó concavos valles, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.

CXXXIIII
Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, candida, e bella,
Sendo das mãos lascivas maltratada,
Da menina que a trouxe na capella,
O cheiro traz perdido, e a côr murchada;
Tal está morta a pallida donzella,
Seccas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva côr, co'a doce vida.

CXXXV
As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoráram;
E, por memoria eterna, em fonte pura
As lagrimas choradas transformáram:
O nome lhe pozeram, que ainda dura,
Dos amores de Ignez, que alli passáram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lagrimas saõ agua, e o nome amores.

CXXXVI
Naõ correo muito tempo que a vingança
Naõ visse Pedro das mortaes feridas;
Que em tomando de Reino a governança,
A tomou dos fugidos homicidas:
De outro Pedro cruissimo os alcança;
Que ambos imigos das humanas vidas,
O concerto fizeram duro, e injusto,
Que com Lepido, e Antonio fez Augusto.
Luiz de Camões, in ‘À Morte de D. Ignez de Castro’

In Luiz de Camões, Manuel Maria Barbosa du Bocage, A morte de D Ignez de Castro, 3º Canto, The Project Gutenberg, Produção de Tiago Tejo, Cantata, A Morte de D. Ignez, 2007, Lisboa, Typographia Rollandiana, 1824.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

A morte de D Ignez de Castro. 3º Canto. Camões. «Estavas, linda Ignez, posta em socego, de teus annos colhendo doce fruto, naquelle engano da alma, lédo, e cego, que a fortuna naõ deixa durar muito; nos saudosos campos do Mondego, de teus formosos olhos nunca enxuto…»

jdact

«As filhas do Mondego a morte escura, longo tempo, chorando, memória». Luís de Camões

De acordo com o original

Episódio do Grande Luiz de Camões. À Morte de D. Ignez de Castro

CXVIII
………………….
O caso triste, e digno de memoria,
Que do sepulchro os hom[~e]es desenterra,
Aconteceo da misera, e mesquinha,
Que despois de ser morta foi Rainha.

CXIX
Tu só, tu puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Déste causa á molesta morte sua,
Como se fora perfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua,
Nem com lagrimas tristes se mitiga,
He porque queres aspero, e tyrano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

CXX
Estavas, linda Ignez, posta em socego,
De teus annos colhendo doce fruto,
Naquelle engano da alma, lédo, e cego,
Que a fortuna naõ deixa durar muito;
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando, e ás hervinhas,
O nome que no peito escripto tinhas.

CXXI
Do teu Principe alli te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam;
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus formosos se apartavam;
De noite em doces sonhos que mentiam,
De dia em pensamentos que voavam;
E quanto em fim cuidava, e quanto via,
Eram tudo memorias de alegria.

CXXII
De outras bellas Senhoras, e Princezas,
Os desejados thalamos engeita;
Que tudo em fim, tu puro Amor, desprezas,
Quando hum gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas
O velho pai sisudo, que respeita
O murmurar do povo, e a phantasia
Do filho, que casar-se naõ queria:

CXXIII
Tirar Ignez ao Mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso;
Crendo co'o sangue só da morte indina,
Matar do firme amor o fogo acceso.
Qual furor consentio, que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do Furor Mauro, fosse alevantada
Contra huma fraca dama delicada!

CXXIIII
Traziam-na os horrificos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade,
Mas o povo com falsas e ferozes
Razões á morte crua o persuade.
Ella com tristes e piedosas vozes,
Sahidas só da mágoa, e saudade
Do seu Principe, e filhos, que deixava,
Que mais que a propria morte a magoava:

CXXV
Para o Ceo crystallino alevantado
Com lagrimas os olhos piedosos;
Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Hum dos duros ministros rigorosos:
E despois nos meninos attentando,
Que taõ queridos tinha, e taõ mimosos,
Cuja orphandade como mãi temia,
Para o avô cruel assi dizia:

CXXVI
Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento;
E nas aves agrestes, que sómente
Nas rapinas aerias tem o intento;
Com pequenas crianças vio a gente,
Terem taõ piedoso sentimento,
Como co'a mãi de Nino já mostráram,
E co'os irmãos que Roma edificáram
[…]

In Luiz de Camões, Manuel Maria Barbosa du Bocage, A morte de D Ignez de Castro, 3º Canto, The Project Gutenberg, Produção de Tiago Tejo, Cantata, A Morte de D. Ignez, 2007, Lisboa, Typographia Rollandiana, 1824.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

A morte de D Ignez de Castro. Cantata. Bocage. «Toldaõ-se os ares, murchaõ-se as flores: morrei, Amores, que Ignez morreo. Misero Esposo, desata o pranto, que o teu encanto já naõ he teu»

jdact

«As filhas do Mondego a morte escura, longo tempo, chorando, memória». Luís de Camões

De acordo com o original

Cantata
[…]
Ah! Que fausta Visaõ de Ignez se apossa!
Que scena, que espectaculo assombroso
A paixaõ lhe afigura aos olhos d'alma!
Em marmóreo salaõ de altas columnas
A Sólio magestoso, e rutilante
Junto ao regio Amador se crê subida;
Graças de neve a púrpura lhe envolve,
Pende augusto Docel do tecto de oiro;
Rico Diadema de radioso esmalte
Lhe cobre as tranças, mais formosas que elle;
Nos luzentes degráos do Throno excelso
Pompósos Cortezãos o orgulho acurvaõ;
A Lisonja sagaz lhe adoça os lábios,
O Monstro da Politica se aterra,
E se Ignez perseguia, Ignez adora.

Ella escuta os extremos,
Os vivas populares, vê o Amante
Nos olhos estudar-lhe as leis que dicta;
O prazer a transporta, Amor a encanta;
Premios, dádivas mil ao Justo, ao Sábio
Magnanima confere,
Rainha esquece o que soffreo Vassalla:
De sublimes acções orna a Grandeza,
Felicita os Mortaes, do Sceptro he digna,
Impera em corações... mas Ceos! Qu'estrondo
O sonho encantador lhe desvanece!
Ignez sobresaltada
Desperta, e de repente aos olhos turvos
Da vistosa illusaõ lhe foge o quadro.
Ministros do Furor, tres vís Algozes,
De buidos punhaes a dextra armada,
Contra a bella Infeliz bramindo avançaõ.
Ella grita, ella treme, ella descóra,
Os Fructos da ternura ao seio aperta,
Invocando a piedade, os Ceos, o Amante;
Mas de marmore aos ais, de bronze ao pranto,
Á suave attracçaõ da formosura,
Vós, bruto Assassinos,
No peito lhe enterrais os ímpios ferros.

Cahe nas sombras da Morte
A Victima de Amor, lavada em sangue,
As rosas, os jasmins da face amena
Para sempre desbotaõ.
Dos olhos se lhe sóme o doce lume,
E no fatal momento
Balbucia, arquejando: "Esposo, Esposo."
Os tristes Innocentes
Á triste Mãi se abraçaõ,
E soltaõ de agonia inutil chôro.
Ao suspiro exhalado,
Final suspiro da formosa Extincta,
Os Amores acodem.
Mostra a Próle de Ignez, e a tua, ó Venus,
Igual consternaçaõ, e igual belleza:
Huns dos outros os candidos Meninos
Só nas azas differem,
(Que jazem pelo campo em mil pedaços
Carcazes de marfim, virotes de oiro)
Súbito voaõ dois do Côro alado:
Este, raivoso, a demandar vingança
No Tribunal de Jóve,
Aquelle a conduzir o infausto annuncio
Ao descuidado Amante.

Nas cem tubas da Fama o graõ desastre
Irá pelo Universo:
Haõ de chorar-te, Ignez, na Hircania os Tigres,
No torrado Certaõ da Libya féra
As Sérpes, os Leões haõ de chorar-te.
Do Mondego, que attonito recua,
Do sentido Mondego as alvas Filhas
Em tropel doloroso
Das urnas de crystal eis vem surgindo,
Eis, attentas no horror do caso infando,
Terriveis maldições dos lábios vibraõ
Aos Monstros infernaes, que vaõ fugindo.
Já crôaõ de cipreste a Malfadada,
E, arrepejando as nítidas madeixas,
Lhe urdem saudosas, lúgubres endeixas.
Tu, Eco, as decoraste,
E, cortadas dos ais, assim resoaõ
Nos côncavos penedos, que magoaõ:

Toldaõ-se os ares,
Murchaõ-se as flores:
Morrei, Amores,
Que Ignez morreo.
Misero Esposo,

Desata o pranto,
Que o teu encanto
Já naõ he teu.

Sua alma pura
Nos Ceos se encerra:
Triste da Terra
Porque a perdeo!

Contra a cruenta
Raiva ferina
Face divina
Naõ lhe valeo.

Tem rôto o seio,
Thesouro occulto,
Bárbaro insulto
Se lhe atreveo.

De dôr, e espanto
No carro de oiro
O Numen loiro
Desfaleceo.

Aves sinistras
Aqui piáraõ,
Lobos uiváraõ,
O chaõ tremeo.

Toldaõ-se os ares,
Murchaõ-se as flores:
Morrei, Amores,
Que Ignez morreo».
Cantata de Bocage, in ‘A Morte de D. Ignez de Castro’

In Manuel Maria Barbosa du Bocage e Luiz de Camões, A morte de D Ignez de Castro, Cantata, Bocage, The Project Gutenberg, Produção de Tiago Tejo, Cantata, A Morte de D. Ignez, 2007, Lisboa, Typographia Rollandiana, 1824.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

A morte de D Ignez de Castro. Cantata. Bocage. «Lê, suspira, meu Bem, vendo hum composto de raras perfeições aniquilado por maõs do Crime, á Natureza opposto. Tu és cópia de Ignez, encanto amado, tu tens seu coraçaõ, tu tens seu rosto... Ah! Defendaõ-te os Ceos de ter seu Fado»

jdact

«As filhas do Mondego a morte escura, longo tempo, chorando, memória». Luís de Camões

De acordo com o original

Aulina. Soneto
«Da miseranda Ignez o caso triste,
Nos tristes sons que a magoa desafina,
Envia o terno Elmano á terna Ulina,
Em cujos olhos seu prazer consiste.
Paixaõ que se a sentir naõ lhe resiste
Nem nos brutos certões Alma ferina,
Belleza funestou quasi divina,
De que a memoria em lagrimas existe.
Lê, suspira, meu Bem, vendo hum composto
De raras perfeições aniquilado
Por maõs do Crime, á Natureza opposto.
Tu és cópia de Ignez, encanto amado,
Tu tens seu coraçaõ, tu tens seu rosto...
Ah! Defendaõ-te os Ceos de ter seu Fado».


Cantata
«Longe do caro Esposo Ignez formosa
Na margem do Mondego,
As amorosas faces aljofrava
De mavioso pranto.
Os melindrosos, candidos Penhores
Do Thálamo furtivo,
Os Filhinhos gentís, imagem della,
No regaço da Mãi serenos gozaõ
O somno da Innocencia.
Côro subtil de alígeros Favónios,
Que os ares embrandece,
Ora enlevado afaga
Com as plumas azues o Par mimoso,
Ora, sôlto, inquieto

Em léda travessurá, em doce brinco,
Pela Amante saudosa,
Pelos tenros Meninos se reparte,
E com ténue murmúrio vai prender-se
Das aureas tranças nos anneis brilhantes.
Primavera louçãa, Quadra macia
Da ternuia, e das flores,
Que á bella Natureza o seio esmaltas,
Que no prazer de Amor ao Mundo apuras
O prazer da existencia,
Tu de Ignez lacrimosa

As mágoas naõ distrahes com teus encantos.
Debalde o Rouxinol, cantor de amores,
Nos versos naturaes os sons varía,
O límpido Mondego em vaõ serpêa
C'um benigno susurro, entre boninas
De lustroso matiz, almo perfume;
Em vaõ se doira o Sol de luz mais viva,
Os Ceos de mais pureza em vaõ se adornaõ
Por divertir-te, ó Castro:
Objectos de alegria Amor enjoaõ
Se Amor he desgraçado.
A meiga voz dos zephyros, do rio
Naõ te convida o somno:
Só de já fatigada
Na luta de amargosos pensamentos,
Cerras, misera, os olhos;
Maõ naõ ha para ti, para os Amantes
Somno plácido, e mudo;
Naõ dorme a fantasia, Amor naõ dorme:
Ou gratas illusões, ou negros sonhos
Assomando na idéa, espertaõ, rompem
O silencio da Morte».
[…]

In Manuel Maria Barbosa du Bocage e Luiz de Camões, A morte de D Ignez de Castro, Cantata, Bocage, The Project Gutenberg, Produção de Tiago Tejo, Cantata, A Morte de D. Ignez, 2007, Lisboa, Typographia Rollandiana, 1824.

Cortesia de PGutenberg/JDACT