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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A Misteriosa Chama da Rainha Loana. Umberto Eco. «Havia também duas mulheres e três crianças, nunca vistas antes, mas podia imaginar quem eram. Foi terrível, porque com a esposa, paciência, mas as filhas, Deus meu, são sangue do seu sangue e os netos mais ainda…»

Cortesia de wikipedia e jdct

«(…) Não se pode excluir, respondia Gratarolo, na origem desses incidentes sempre pode haver tensões imponderáveis. Mas a senhora viu as fichas clínicas, as lesões existem.

Abri os olhos e disse bom-dia. Havia também duas mulheres e três crianças, nunca vistas antes, mas podia imaginar quem eram. Foi terrível, porque com a esposa, paciência, mas as filhas, Deus meu, são sangue do seu sangue e os netos mais ainda, e os olhos daquelas duas brilhavam de felicidade, as crianças queriam subir na cama, pegavam minha mão e me diziam oi, avô, e eu nada. Não era nem névoa; era, como direi, apatia. Ou se diz ataraxia? Era como olhar animais no zoológico, podiam ser macaquinhos ou girafas. Claro que eu sorria e dizia palavras gentis, mas por dentro estava vazio. Ocorreu-me a palavra segurado, mas não sabia o que queria dizer. Perguntei a Paola: é um termo piemontês que designa aquela panela que lava bem e depois esfrega por dentro com aquela espécie de palha de aço para deixá-la como nova, brilhante e limpa como nunca. Pois eu me sentia completamente grato. Gratarolo, Paola, as meninas estavam enfiando-me na cabeça mil detalhes da minha vida, mas era como se fossem caroços de feijão, mexendo a panela eles deslizavam lá por dentro mas continuavam crus, não se diluíam em nenhum caldo, em nenhum creme, nada que fizesse o gosto palpitar, nada que eu quisesse experimentar de novo. Aprendia coisas acontecidas comigo como se tivessem acontecido com outra pessoa.

Acariciava as crianças e sentia o seu cheiro sem conseguir defini-lo, excepto que era muito suave. Vinha-me à mente que há perfumes frescos como carnes de bebé. E de facto minha cabeça não estava vazia, nela volteavam memórias não minhas, a marquesa saiu às cinco no meio do caminho desta vida, Ernesto Sábato e a donzelinha vêm dos campos, Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacób, Jacób gerou Judas e Rocco e seus irmãos, o campanário bate à meia-noite santa e foi então que vi o pêndulo, no ramo do lago de Como dormem dois pássaros de longas asas, messieurs les anglaisje mesuis couché de bonne heure, aqui ou se faz a Itália ou se mata um homem morto, tu quo-que álea, soldado que escapa pára és belo, irmãos italianos ainda um esforço, o arado que traça o sulco é bom para outra volta, a Itália está batida mas não se rende, combateremos à sombra ed e súbito sera, três mulheres em torno ao coração e sem vento, a inconsciente azagaia bárbara à qual estendias a pequenina mão, não pedir a palavra enlouquecida de luz, dos Alpes às Pirâmides fez a guerra e usou o elmo, frescas as minhas palavras na tarde para aqueles quatro poemetos das dúzias, sempre libera sobre asas douradas, adeus montes nascidos das águas, mas meu nome é Lúcia, ou Valentino, Valentino tordilho, Guido eu gostaria que no céu descolorissem, conheci o tremular as armas os amores, de la musique ou marchent des colombes, fresca e clara é a noite e o capitão, ilumino-me pio boi, embora o falar seja inútil, eu os vi em Pontida, em Setembro iremos onde florescem os limões, aqui começa a aventura do Peleio Aquiles, tomo banho de lua diga-me o que fazes, no princípio a terra estava como imóvel, Licht mehr Licht über alies, condessa o que é então a vida? Três corujas no guarda-pó. Nomes, nomes, nomes, Angelo DairOca Bianca, lord Brummell, Píndaro, Flaubert, Disraeli, Remigio Zena, Jurássico, Fattori, Straparola e as noites agradáveis, a Pompadour, Smith & Wesson, Rosa Luxemburgo, Zeno Cosini, Palma o Velho, Arqueoptérix, Ciceruacchio, Mateus Marcos Lucas João, Pinóquio, Justine, Maria Goretti, Taide pu… das unhas merdosas, Osteoporose, Saint Honoré, Baeta Ecbatana Persépolis Susa Arbela, Alexandre e o nó górdio.

A enciclopédia me caía em cima em folhas destacadas, e me vinha de abanar as mãos como se estivesse no meio de um enxame de abelhas. Entretanto as crianças diziam avô, sabia que deveria amá-las mais que a mim mesmo e não sabia quem chamar de Giangio, quem de Alessandro e quem de Luca. Sabia tudo de Alexandre, o grande, e nada de Alessandro, o meu pequenino. Disse que me sentia fraco e precisava dormir. Saíram, eu chorava. As lágrimas são salgadas. Donde, eu ainda tinha sentimentos. Sim, mas fresquinhos da hora. Aqueles de antes já não eram mais meus. Quem sabe, perguntava-me, se alguma vez fui religioso: certamente, de qualquer jeito, perdera a alma. Na manhã seguinte, Paola também estava, Gratarolo me fez sentar numa mesinha e mostrou uma série de quadradinhos coloridos, muitíssimos. Estendia-me um e perguntava de que cor era. Dim, dim dim, sapatinho rosa, dim, dim, dim, de que cor que é? Cor so-nequim, cor de carmim, salta fora ó garibaldiml Reconheci com segurança as seis primeiras cores, vermelho, amarelo, verde e assim por diante. Disse naturalmente que A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu, voyelles, je ditais quelque jour vos naissances latentes, mas percebi que o poeta, ou quem falava em seu nome, mentia. O que quer dizer que A é preto? Aliás, era como descobrir as cores pela primeira vez: o vermelho era muito alegre, vermelho fogo, mas também muito forte, não, talvez o amarelo fosse mais forte, como uma luz que se acendesse de repente diante dos meus olhos. E o verde me dava uma sensação de paz. O problema chegou com os outros quadradinhos. O que é isso? Verde, dizia eu, mas Gratarolo insistia, que tipo de verde, em que sentido é diferente desse outro? Hum. Paola me explicava que um era verde-malva e outro verde-ervilha.

A malva é uma erva, respondia eu, e as ervilhas verduras que se comem, redondas dentto de uma vagem longa e inchada, mas nunca vira nem malva nem ervilhas. Não se preocupe, dizia Gratarolo, em inglês há mais de trinta mil termos para cores, mas em geral as pessoas sabem nomear no máximo oito, em média reconhecemos as cores do arco-íris, vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e roxo, mas já entre o índigo e o roxo as pessoas não sabem distinguir bem. É preciso muita experiência para saber discriminar e nomear as cores, e um pintor sabe fazer isso melhor que, sei lá, um taxista, que só precisa reconhecer as cores de um sinal de trânsito. Gratarolo me deu papel e caneta. Escreva, disse. E que diabos devo escrever?, escrevi, e parecia que nunca fizera outra coisa, a caneta era macia e deslizava bem sobre o papel. Escreva o que lhe vier à mente, disse Gratarolo». In Umberto Eco, A Misteriosa Chama da Rainha Loana, 2004, Editora Record, ISBN 978-850-107-143-9.

Cortesia de Difel/ERecord/JDACT

JDACT, A Escrita, Literatura, O Saber, Umberto Eco, 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Alberto S. Santos. O Segredo de Compostela. «Quando analisava a frio os acontecimentos durante a viagem, e aproveitando uma conversa descontraída com os servos, Lucídio achou que fora a melhor decisão»

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«(…)

Aseconia (Santiago de Compostela) Bracara Augusta (Braga)

Toma o pequeno Prisciliano! É o teu filho! Priscila estendia as mãos para o esposo, sobre as quais repousava uma criança de olhos abertos e rosto sereno. Lucídio segurou-a, desajeitado, mas o mais delicadamente que pode. Afastou ligeiramente os panos coloridos e ficou a contemplar o bebé, como se o tempo tivesse parado. Então, Lucídio?!, acordou-o Priscila, com uma ponta de inquietação. O marido ergueu-o no ar e arvorou um sorriso embevecido. Reconheço-te, Prisciliano, como meu filho, autorizo-te a viver e não permitirei a tua exposição, expressou, afetado, o sublatus, o ritual sagrado de reconhecimento paternal, também proferido pelo seu pai, avô e assim sucessivamente, até à madrugada dos tempos. Orgulhoso, devolveu à mãe o petiz, que o colocou num berço ciosamente fabricado pelos carpinteiros da villa, decorado com motivos florais. Priscila sentou-se na ilharga da cama e Lucídio imitou-a, mesmo ao lado, abraçando a esposa. Um aperto carregado de carinho e afecto. Valéria informou-me que o pequeno está de boa saúde, referiu, pausadamente e em tom baixo. E logo me disse que, ao nono dia, o purificaram no altar da casa e lhe chamaram Prisciliano…

Tínhamos combinado! Se fosse rapaz, ficaria ligado ao meu nome, se fosse rapariga, ao teu. Quem sabe, ainda teremos uma Lucídia!, respondeu, rindo e encostando a cabeça ao ombro do marido. Lucídio acabava de voltar da jornada bracarense, a meio de um dia soalheiro, a tempo de um frugal prandium de pão, queijo e azeitonas. Priscila, preocupada, ainda aguardara pelo esposo até à primeira vigília da noite anterior, pois achava que já devia ter chegado, mas em vão. Dormira intranquila. Porque te atrasaste tanto? Tive umas reuniões imprevistas…, de última hora, respondeu, com o olhar distante. Não quis apoquentar a esposa com os acontecimentos da capital. Percebeu que o que interessava mesmo ao gordo Ithacio era encontrar um bom motivo para convencer o rico proprietário do norte a deixar umas moedas a mais por baixo da mesa. Não tenho recibo para lhe dar… O patrão saiu para as termas!, dissera-lhe o criado de Ithacio, sabedor dos artifícios do seu senhor, quando lhe apresentara a conta do imposto alegadamente em débito e que, tão certo como o destino, não iria parar aos exauridos cofres do imperador Constâncio.

Quando analisava a frio os acontecimentos durante a viagem, e aproveitando uma conversa descontraída com os servos, Lucídio achou que fora a melhor decisão. Muito embora não fosse devoto de Ísis, concluíra, como assegurou com Valéria logo à chegada, que tudo não passara do ancestral rito propiciatório de bonança tão costumeiro na Galécia. No caso, em favor do próprio filho! E que funcionou na plenitude, como lhe asseverou a experiente mulher, quando confidenciou: Ísis continua protectora e maternalmente ligada aos seus mais fervorosos adeptos! Os sacrifícios poderiam ser enquadrados, se uma mente maldosa e astuciosa os acusasse, na categoria de maleficium. Por isso, quando confrontado com a falsa nota fiscal, Lucídio preferiu não correr riscos e pagou o que o soberbo Ithacio lhe receitou. O caso ficaria por ali! O que sobrou daquele episódio e que continuava como um pingo de vinagre a azedar o coração de Lucídio foi não saber ao certo quem fora o apressado delator da visita de Priscila ao santuário de Ísis. O pai de Prisciliano arrumou interiormente a questão, conjecturando uma plausível vinda de um espião de Ithacio aos seus domínios em busca de informação que pudesse usar contra si, na extorsão. Mas estava enganado. Em Bracara Augusta, o cobrador de impostos celebrava com taças de vinho o pecúlio que habilmente surripiara a Lucídio.

Este caiu como um tordo!, dizia, ébrio e deitado sobre a mesa do triclinium, para o escravo de confiança, que o ajudava nos serviços sujos. Sim, não tinha escapatória… O crime de maleficium é o caminho certo para a desgraça. O homem ia morrendo de susto. Quanto não vale manter a rede de informadores! Uma informação, pequena ou incipiente que seja, pode valer uma fortuna! Aprendi em Roma, a grande escola do império. Vá, enche-me a taça e bebe também um trago! Fizeste um excelente serviço. Senhor, estou às suas ordens. Cumpro o que me manda! Na ampla sala de refeições da domus bracarense, embelezada de pinturas e mosaicos finos com desenhos de motivos florais, entrara o filho mais velho de Ithacio, que tinha o nome do pai. Ithacito, vem cá! O redondo rapaz, ainda de tenra idade, mas que era uma fiel imitação paterna na gula como na astúcia, aproximou-se. Sim, meu pai! Em que posso ajudar? Virando-se para o escravo, ordenou o senhor da casa: o meu filho vai contigo à basílica! Leva este donativo ao bispo, pois o que foi tirado a um rico idólatra não é pecado aos olhos de Deus. O bispo precisa de ajuda para as obras do templo e para engrandecer a comunidade cristã. E eu preciso de ficar bem visto». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso»

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«(…) E, assim sentenciado, saiu da sala, alegando ter de mudar de roupa para ir a banhos, logo a seguir. Enquanto esperava que o escravo de Ithacio levasse a ordem de chamada a Flaviano e a Arménio, Lucídio espreitava a janela do seu mundo interior e o que via não lhe agradava minimamente. O chão continuava perigosamente a estremecer. A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso. Eram apreciados pela generalidade da clientela de Villa Aseconia, fossem colonos, escravos e toda a espécie de criadagem, apenas Arménio parecia a excepção, que o patrão, não obstante, desconhecia, e por todos os prestigiados proprietários da Galécia, pelos membros do senado bracarense, pelo governador… Só os cristãos poderiam ter razões para desapreciarem Lucídio, pois menosprezavam todos os que se mantinham fiéis às tradições dos antepassados, fossem romanos de cepa, fossem os descendentes das tribos galaicas e lusitanas que habitavam o ocidente peninsular antes de chegar a civilização nascida nas margens do Tiberis. Aqui estão os teus homens!, informou Ithacio, que irrompeu sala adentro, embargando-lhe as cogitações. À tua disposição! Lucídio notou ironia e até uma pontada de desdém, sobretudo na forma como entoava as palavras e mirava o proprietário da villa do conventus lucensis. Logo saiu para os deixar a sós.

Meus caros, Ithacio insinua uma terrível acusação contra a minha família… Parou para escolher as palavras e tomou os rostos de Flaviano e de Arménio com firmeza, explicando o teor da denúncia. Os dois entreolharam-se. Mas logo o chão de mosaico se tornou o destino de todas as atenções. Era visível a perturbação que os apoquentava. O que se passa?! O que quer dizer o vosso silêncio…?! Senhor…, não sei do que falais…, começou Flaviano, intermitente. Do que vos expliquei! O assunto é sério! Tendes conhecimento de algum acto de magia negra, ou de algo semelhante, praticado por Priscila? O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo. Formavam um triângulo, em cuja ponta do vértice mais agudo se encontrava o senhor, a ferver de desconfiança quanto à interpretação que podia dar a tão ruidoso vazio. Os dois criados posicionados nos vértices da base mais curta do trilátero experimentavam os dramas que a consciência de cada um era capaz de elaborar, como uma aranha que tece a teia, retirando do interior os fios em que haverá de renascer. Contudo, só um deles deu a conhecer os demónios que os atormentavam: senhor, começou, titubeante, a minha consciência cristã, porque nunca lhe escondi a minha crença, não me permite mentir ou omitir perante uma tão clara pergunta, que é do meu directo conhecimento… Arménio!, resmungou Flaviano. Então, o que aconteceu…!?, interrompeu Lucídio, com gotas de suor a escorrerem-lhe das têmporas, apesar da frescura do dia. O que me queres dizer?! Depende da perspectiva, mas talvez seja verdade, senhor, o que esse homem vos informou… Lucídio caiu na cadeira, como se houvesse sido fulminado por uma flecha, pelas costas». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

 Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua dilectíssima esposa é a responsável por isso!»

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«(…) Eram deidades universalistas que haviam sofrido e vencido a morte, que recordavam a fecundidade agrária, renovando todos os anos a vegetação, e sugeriam o renascimento, indo assim ao encontro de muitas das inquietações dos espíritos sedentos de uma nova verdade. Enquanto reflectia nestas questões, Lucídio constatava que o diálogo a que involuntariamente assistia terminara crispado, saindo o desconhecido disparado, de rosto apimentado e a respingar fúrias por todos os poros. Depois da sua alvíssima toga de linho ter deixado um torvelinho à saída, surgiu o roliço dono da casa, não menos arreliado do que aquele que acabava de sair.

Já cá estás e ninguém me avisou?!, questionou de supetão, com a saliva a borbulhar nos cantos dos lábios. Lamento não ter sido anunciado, Ithacio, respondeu Lucídio, com a melhor cortesia que conseguiu encontrar. Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede. Então, qual é a urgência, Ithacio?! Pensei que tínhamos esclarecido tudo na última reunião… Sim, sim… Mas, como sabes, os impostos não me são destinados, pertencem ao império. Apenas cumpro as funções que o Estado romano me confia, respondeu, ainda rubicundo, sentando-se pesadamente no cadeirão. Não discordo, os impostos fazem falta à manutenção do Estado e bem sei que o esforço de guerra com os bárbaros cresce de dia para dia. Lucídio tossicou, aclarando a voz e respirando fundo para se aquietar. Mas apenas os impostos legais e devidos, Ithacio! Já nos bastam os que temos, e não são assim tão poucos! Sete sólidos de ouro por cada caput é uma magnânima contribuição para o império! Deixa-te de lamúrias e vamos directos ao que interessa! Mandei homens a Aseconia verificar os limites das tuas terras e parece que se confirmam. Então, qual é o problema?!, perguntou o convidado, olhando nos olhos de Ithacio. O anfitrião sorriu, mordaz. Relataram-me que não declaraste a totalidade da produção anual… Lucídio engoliu em seco. Considerava aquela afirmação um ultraje, uma autêntica infâmia. Como poderia aquele homem duvidar da sua palavra?! Procurou manter a calma dos aristocratas de boa cepa, escondendo o mais que pôde o remoinho que lhe virava as tripas do avesso. Não pode ser, Ithacio! As contas foram feitas na presença dos teus caesariani… Não é o que me dizem…, contestou o anafado homem, com lentidão, como que procurando estudar o espírito e as reacções do dono da Villa Aseconia. Atestam que viram cereais que não estavam no lote e no local onde foram anteriormente medidos… Foi nesse preciso local que os teus fiscais os viram, colocados após a primeira contagem! Não podiam continuar sujeitos ao tempo… E já vês como está este Inverno! Não vou pagar nem mais um argenteolus, ou mesmo um mísero denarius de bronze que seja!, contestou Lucídio, furioso. O outro, com um estranho ar de caso, puxou o assento para junto de Lucídio, olhou para todos os lados e falou-lhe ao ouvido, num tom estudadamente baixo: ouve cá, isto é o que tinha inicialmente para te dizer. Mas acaba um passarinho de me soprar ao ouvido que os membros da tua querida família andam pelos montes a praticar magia… Magia?! Lucídio esbugalhou os olhos e o coração estremeceu. Sim, mas não uma magia qualquer! Ithacio recostou-se no seu lugar, fitando-o nos olhos. Magia negra!, afirmou, aumentando a voz e alongando as palavras. Sabes bem que esse é o crime que o nosso estimado imperador mais detesta! Mentira! Como és capaz de tão monstruosa insinuação?! Os teus delatores mais uma vez se enganaram!

O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua dilectíssima esposa é a responsável por isso! A terra tremeu sob os pés de Lucídio. Como era possível, e com que fim, aquele homem acusar Priscila de tão grave delito?! E logo ela, coitada, tão atarefada com os preparos para o parto! Desviou os olhos para um recanto da sala ricamente pintada, onde se encontravam duas ânforas e peças de louça de cerâmica da mesma oficina africana que as de sua casa. O peito arfava, congestionado como os olhos. Recordou a imagem de Priscila e não duvidou uma fração de tempo que a amava e que não era a paixão que lhe toldava a razão. Aquele homem não podia dizer a verdade! Mirou-o de novo. A gula reluzia nas bochechas de Ithacio, agora lustradas pelo rubor da soberba. Impotente, amaldiçoou-o e à sua malvadez. Até que, no meio do vórtice do vulcão onde se via, pressentiu uma energia interior que o ajudava a fugir da lava que o afogueava. Lembrou-se dos dois homens da sua clientela que se encontravam na domus para o levarem para Aseconia. Talvez o pudessem ajudar a esclarecer a maldita acusação. Posso chamar aqui os meus criados que acabaram de chegar a Bracara? O redondo homem remexeu-se no cadeirão, repuxou-o para o lugar inicial, semicerrou os olhos e anuiu com a cabeça, para logo sublinhar: podes, claro que sim! Espero que sejam úteis às tuas decisões…» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Alberto S. Santos. O Segredo de Compostela. «Prisciliano, na inocência da infância e do mundo perfeito da villa, procurou compreender os ensinamentos do pedagogo, enquanto o ouvia discorrer sobre a forma como estava organizado o império»

 

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«(…) Esta foi a primeira lição que Prisciliano aprendeu quando o pai trouxe para a Villa Aseconia um pedagogo para providenciar a sua instrução. Até então, o próprio Lucídio se encarregara de o formar com o que julgava mais adequado, embora o petiz apreciasse bem mais as fantásticas histórias que Valéria lhe contava sobre a Galécia. Como vês, se gostas da tua cabeça em cima dos ombros e pretendes viver muito tempo, não queiras ser imperador, brincava o jovem mestre de Prisciliano, para ganhar a sua confiança. O rapaz ria-se e deitava-se a adivinhar que imperador seria o próximo a perder a cabeça. E outra coisa: quando um imperador morre às mãos de outro, o mal não chega só para quem perde a vida! Como assim, magister? É penalizada a família, os amigos e, se o poder for tomado por usurpação, os mais próximos colaboradores do antigo imperador. Eaté mesmo aqueles a quem as suas decisões, por alguma forma, beneficiaram podem perder a cabeça ou, pelo menos, o prestígio.

Prisciliano, na inocência da infância e do mundo perfeito da villa, procurou compreender os ensinamentos do pedagogo, enquanto o ouvia discorrer sobre a forma como estava organizado o império, apontando para um desenho feito num papiro. O Império Romano divide-se em quatro prefeituras, governadas pelos prefeitos do pretório: o Oriente, o Ilírico, a Itália e as Gálias, que é a nossa. Roma e Constantinopla são um caso à parte, cada uma com os seus exclusivos prefeitos. Estas prefeituras dividem-se, por sua vez, em dioceses. A das Gálias é composta pela Britânia, pela Gália e pela Hispânia, governadas por um vigário do prefeito. Por sua vez, cada diocese é dividida em províncias, cada uma com o seu governador. Diz lá então quais são as províncias da Hispânia, Prisciliano? Mas a cabeça do petiz viajava por outras paragens. O pai já lhe havia explicado a geografia e a divisão do império. Por isso, o seu pensamento pousara na procissão mágica em que participara, pela primeira vez, no dia anterior. O progenitor comandou, à frente, de mão dada com Prisciliano. Atrás de ambos, uma grossa coluna de colonos e escravos. Todos percorriam, a pé e completamente descalços, os limites dos campos de cultivo, com archotes na mão, proferindo os ritos propiciatórios da fecundidade da terra. O petiz apertava a mão do pai, impressionado com a experiência. Seguia encantado com a exuberância da procissão, pois sabia, isso era certo desde incontáveis gerações, que aqueles ritos afastariam o granizo, as geadas e as tempestades. Daquela forma, o pequeno Danígico experimentava a emoção de se ver intimamente ligado à sua linhagem. Imaginava-se um pequeno aprendiz de feiticeiro, dos que sabiam dominar os elementos nocivos à vida e à fertilidade das terras da família.

Prisciliano!, gritou o pedagogo, com ar sério e reprovador. Onde está a tua cabeça?! Em cima dos ombros, magister! Onde haveria de estar?! Não sou nenhum imperador… O professor desmanchou-se num riso incontrolável. O pequeno surpreendeu-se com a repentina mudança de humores e perguntou: de que te ris, Pacato? Ó Prisco, eu perguntava-te se sabias quais são as províncias da Hispânia… Prisciliano percebeu então que a cabeça, mesmo em cima dos ombros, também podia viajar através da imaginação, por montes e vales, espaços próximos e longínquos, mundos mágicos e reais, sem que o corpo, ou quem lhe estiver à frente, disso se apercebesse. E, a qualquer momento, poderiam voltar a reunir-se, como o faziam agora, respondendo com um aberto sorriso: Tarraconense, Cartaginense, Bética, Lusitânia e a nossa querida província: a Galécia! Muito bem! E em quantos conventos se divide a Galécia? Essa é muito fácil: o asturicence, o lucense, onde residimos, e o bracarense, onde se encontra Bracara Augusta, a capital do convento e de toda a Galécia.

Naquela noite, o jovem discípulo dormiu mal. As lições do pedagogo e as recentes vivências nos pagi da villa transportaram-no para novas aventuras oníricas, sonhando com intermináveis viagens por cidades, vici, castela e villae do império, e com um imperador que usurpou o poder, mandou cortar cabeças e perdeu a sua depois de causar tanta desgraça ao mundo presente e futuro». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

terça-feira, 17 de março de 2020

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo»

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«(…) O redondo homem remexeu-se no cadeirão, repuxou-o para o lugar inicial, semicerrou os olhos e anuiu com a cabeça, para logo sublinhar: podes, claro que sim! Espero que sejam úteis às tuas decisões… E, assim sentenciado, saiu da sala, alegando ter de mudar de roupa para ir a banhos, logo a seguir. Enquanto esperava que o escravo de Ithacio levasse a ordem de chamada a Flaviano e a Arménio, Lucídio espreitava a janela do seu mundo interior e o que via não lhe agradava minimamente. O chão continuava perigosamente a estremecer. A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso. Eram apreciados pela generalidade da clientela de Villa Aseconia, fossem colonos, escravos e toda a espécie de criadagem, apenas Arménio parecia a excepção, que o patrão, não obstante, desconhecia, e por todos os prestigiados proprietários da Galécia, pelos membros do senado bracarense, pelo governador… Só os cristãos poderiam ter razões para desapreciarem Lucídio, pois menosprezavam todos os que se mantinham fiéis às tradições dos antepassados, fossem romanos de cepa, fossem os descendentes das tribos galaicas e lusitanas que habitavam o ocidente peninsular antes de chegar a civilização nascida nas margens do Tiberis.

Aqui estão os teus homens!, informou Ithacio, que irrompeu sala adentro, embargando-lhe as cogitações. À tua disposição! Lucídio notou ironia e até uma pontada de desdém, sobretudo na forma como entoava as palavras e mirava o proprietário da villa do conventus lucensis. Logo saiu para os deixar a sós. Meus caros, Ithacio insinua uma terrível acusação contra a minha família… Parou para escolher as palavras e tomou os rostos de Flaviano e de Arménio com firmeza, explicando o teor da denúncia. Os dois entreolharam-se. Mas logo o chão de mosaico se tornou o destino de todas as atenções. Era visível a perturbação que os apoquentava. O que se passa?! O que quer dizer o vosso silêncio…?! Senhor…, não sei do que falais…, começou Flaviano, intermitente. Do que vos expliquei! O assunto é sério! Tendes conhecimento de algum acto de magia negra, ou de algo semelhante, praticado por Priscila?
O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo. Formavam um triângulo, em cuja ponta do vértice mais agudo se encontrava o senhor, a ferver de desconfiança quanto à interpretação que podia dar a tão ruidoso vazio. Os dois criados posicionados nos vértices da base mais curta do trilátero experimentavam os dramas que a consciência de cada um era capaz de elaborar, como uma aranha que tece a teia, retirando do interior os fios em que haverá de renascer. Contudo, só um deles deu a conhecer os demónios que os atormentavam: senhor, começou, titubeante, a minha consciência cristã, porque nunca lhe escondi a minha crença, não me permite mentir ou omitir perante uma tão clara pergunta, que é do meu directo conhecimento…
Arménio!, resmungou Flaviano. Então, o que aconteceu…!?, interrompeu Lucídio, com gotas de suor a escorrerem-lhe das têmporas, apesar da frescura do dia. O que me queres dizer?! Depende da perspectiva, mas talvez seja verdade, senhor, o que esse homem vos informou… Lucídio caiu na cadeira, como se houvesse sido fulminado por uma flecha, pelas costas

Aseconia (Santiago de Compostela)
Bracara Augusta (Braga)
Toma o pequeno Prisciliano! É o teu filho!
Priscila estendia as mãos para o esposo, sobre as quais repousava uma criança de olhos abertos e rosto sereno. Lucídio segurou-a, desajeitado, mas o mais delicadamente que pode. Afastou ligeiramente os panos coloridos e ficou a contemplar o bebé, como se o tempo tivesse parado. Então, Lucídio?!, acordou-o Priscila, com uma ponta de inquietação». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.
                                                   
Cortesia de PEditora/JDACT

terça-feira, 3 de março de 2020

Ensaio sobre a Lucidez. José Saramago. «Então o secretário enfiou a mão num dos bolsos exteriores do casaco, sacou de lá um telefone portátil e marcou um número. Enquanto esperava que o atendessem, disse, É mais ou menos como o que se conta da montanha e de Maomé…»


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«(…) A comunicação foi breve, Fala o presidente da mesa da assembleia de voto número catorze, estou muito preocupado, algo francamente estranho está a acontecer aqui, até este momento não apareceu um único eleitor a votar, já lá vai mais de uma hora que estamos abertos, e nem uma alma, sim senhor, claro, o temporal não há meio de parar, chuva, vento, inundações, sim senhor, continuaremos pacientes e a pé firme, claro, para isso viemos, nem é preciso dizer. A partir deste ponto o presidente não contribuiu para o diálogo com mais que uns quantos acenos de cabeça sempre concordantes, umas quantas interjeições abafadas e três ou quatro começos de frase que não chegou a terminar. Quando pousou o auscultador olhou para os colegas da mesa, mas na realidade não os via, era como se tivesse diante de si uma paisagem toda feita de salas vazias, de imaculados cadernos de recenseamento, com presidentes e secretários à espera, delegados de partidos a olharem desconfiados uns para os outros, deitando contas a quem poderá ganhar e a quem poderá perder com a situação, e lá longe algum vogal molhado e prestimoso regressando da entrada e informando que não vem ninguém. Que foi que responderam do ministério, perguntou o delegado do p.d.m., Não sabem que pensar, é natural que o mau tempo esteja a reter muita gente em casa, mas que em toda a cidade suceda praticamente o mesmo que aqui, para isso não encontram explicação, Por que diz praticamente, perguntou o delegado do p.d.d., Em algumas assembleias de voto, é certo que poucas, apareceram eleitores, mas a afluência é reduzidíssima, como nunca se viu, E no resto do país, perguntou o representante do p.d.e., não é só na capital que está a chover, É isso que desconcerta, há lugares onde chove tanto como aqui e apesar disso as pessoas estão a votar, como é lógico são mais numerosas nas regiões onde o tempo está bom, e por falar nisto, dizem que os serviços meteorológicos prevêem melhoria do tempo para o final da manhã, Também pode acontecer que vá de mau a pior, lembrem-se do ditado, ao meio-dia carrega ou alivia, advertiu o segundo vogal, que até agora ainda não tinha aberto a boca. Fez-se um silêncio. Então o secretário enfiou a mão num dos bolsos exteriores do casaco, sacou de lá um telefone portátil e marcou um número. Enquanto esperava que o atendessem, disse, É mais ou menos como o que se conta da montanha e de maomé, uma vez que não podemos perguntar a eleitores que não conhecemos por que é que não vêm votar, fazemos a pergunta à família, que é conhecida, olá, viva, sou eu, sim, continuas aí, por que é que ainda não vieste votar, que está a chover sei-o eu, ainda tenho as perneiras das calças molhadas, sim, é verdade, desculpa, esqueci-me de que me tinhas dito que virias depois do almoço, claro, telefonei-te porque isto aqui está complicado, nem imaginas, se eu te disser que até agora não apareceu ninguém a pôr o voto, és capaz de não acreditar, bom, então cá te espero, um beijo. Desligou o telefone e comentou, irónico, Pelo menos um voto está garantido, a minha mulher virá à tarde. O presidente e os restantes membros da mesa entreolharam-se, saltava à vista que havia que seguir o exemplo, mas não menos que nenhum deles queria ser o primeiro, seria reconhecer que em rapidez de raciocínio e desembaraço quem leva a palma nesta assembleia eleitoral é o secretário. Ao vogal que tinha ido à porta ver se chovia não lhe custou muito a compreender que ainda teria de comer muito pão e muito sal antes de chegar à altura de um secretário como o que temos aqui, capaz, com a maior sem-cerimónia do mundo, de sacar um voto de um telefone portátil como um prestidigitador tiraria de uma cartola um coelho. Vendo que o presidente, retirado a um canto, falava para casa através do seu portátil, e que outros, utilizando os seus próprios aparelhos, discretamente, em sussurros, faziam o mesmo, o vogal da porta apreciou a honestidade dos colegas que, ao não usarem o telefone fixo ali colocado, em princípio, para uso oficial, nobremente economizavam dinheiro ao estado. O único dos presentes que por não ter telefone portátil tinha de resignar-se a esperar as notícias dos outros era o representante do p.d.e., devendo acrescentar-se, no entanto, que, vivendo sozinho na capital e tendo a família na província, o pobre homem não tem a quem chamar. Uma após outra as conversas foram terminando, a mais demorada é a do presidente, pelos vistos está a exigir à pessoa com quem fala que venha imediatamente, a ver como aquilo acaba, seja como for, ele é quem deveria ter falado em primeiro lugar, se o secretário decidiu passar-lhe à frente, bom proveito lhes faça, já vimos que o tipo pertence à espécie dos vivaços, respeitasse ele a hierarquia como nós a respeitamos e teria simplesmente transmitido a ideia ao seu superior. O presidente soltou o suspiro que se lhe havia entalado no peito, meteu o telefone no bolso e perguntou, Então, souberam alguma coisa. A pergunta, além de escusada, era, como diremos, um poucochinho desleal, em primeiro lugar porque saber, aquilo a que se chama saber, sempre alguma coisa se sabe, mesmo quando não sirva para nada, em segundo lugar porque era óbvio que o perguntante se estava a aproveitar da autoridade inerente ao cargo para eludir a sua obrigação, que seria inaugurar ele, em voz e pessoa, o intercâmbio de informações. Se ainda não nos esquecemos daquele suspiro e do ímpeto exigente que em certa altura da conversa nos pareceu notar nas suas palavras, lógico será pensar que o diálogo, supõe-se que do outro lado estaria uma pessoa de família, não foi tão plácido e instrutivo quanto o seu justificado interesse de cidadão e de presidente merecia, e que, sem serenidade para lançar-se a improvisos mal amanhados, se furta agora à dificuldade convidando os subordinados a expressar-se, o que, como também sabemos, é outra maneira, mais moderna, de ser chefe». In José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, Editorial Caminho, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-211-608-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Ensaio sobre a Lucidez. José Saramago. «Opino que não será caso para tanto, o que se passa é que estamos nervosos, perplexos, desconcertados, e já se sabe que num estado de espírito assim é fácil dizer coisas que na realidade não pensamos...»

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«(…) A urna estava vazia, pura, imaculada, mas não havia na sala um só eleitor, um único para amostra, a quem pudesse ser exibida. Talvez algum deles ande por aí perdido, lutando com as enxurradas, suportando as chicotadas do vento, apertando contra o coração o documento que o acredita como cidadão com direito a votar, mas, tal como estão as coisas no céu, vai tardar muito a cá chegar, se é que não acaba por voltar para casa e deixar os destinos da cidade entregues àqueles que um automóvel preto vem deixar à porta e à porta depois virá recolher, cumprido o dever cívico de quem o ocupava no banco de trás. Terminadas as operações de inspecção dos diversos materiais, manda a lei deste país que votem imediatamente o presidente, os vogais e os delegados dos partidos, assim como as respectivas suplências, desde que, claro está, estejam inscritos na assembleia eleitoral cuja mesa integram, como era o caso. Mesmo a fazer render o tempo, quatro minutos bastaram para que a urna recebesse os seus primeiros onze votos. E a espera, não havia outro remédio, começou. Ainda meia hora não tinha passado quando o presidente, inquieto, sugeriu a um dos vogais que fosse espreitar a ver se vinha alguém, se calhar apareceram eleitores, mas deram com o nariz na porta que o vento havia fechado, e logo se foram dali a protestar, se as eleições tinham sido adiadas, ao menos que tivessem a delicadeza de avisar a população pela rádio e pela televisão, que para informações dessas ainda servem. Disse o secretário, Toda a gente sabe que uma porta que se feche atirada pelo vento faz um barulho de trinta mil demónios, e aqui não se ouviu nada. O vogal hesitou, irei não irei, mas o presidente insistiu, Vá, faça-me o favor, e tenha cuidado, não se molhe. A porta estava aberta, firme no seu calço. O vogal pôs a cabeça de fora, um instante foi suficiente para olhar a um lado e a outro, e logo para recolhê-la a escorrer como se a tivesse metido debaixo de um duche. Desejava proceder como um bom vogal, agradar ao seu presidente, e, sendo esta a primeira vez que havia sido chamado a funções, queria ser apreciado pela rapidez e eficiência nos serviços que tivesse de prestar, com o tempo e a experiência, quem sabe, alguma vez chegaria o dia em que também ele presidisse a uma assembleia de voto, voos mais altos que este têm cruzado o céu da providência e já ninguém se admira. Quando ele regressou à sala, o presidente, entre pesaroso e divertido, exclamou, Homem, não era preciso deixar-se molhar dessa maneira, Não tem importância, senhor presidente, disse o vogal enquanto enxugava o queixo à manga do casaco, Conseguiu ver alguém, Até onde os meus olhos alcançaram, ninguém, a rua é como um deserto de água. O presidente levantou-se, deu uns passos indecisos diante da mesa, foi até à câmara de voto, olhou para dentro e voltou. O delegado do p.d.m. tomou a palavra para recordar o seu prognóstico de que a abstenção dispararia em flecha, o delegado do p.d.d. pulsou outra vez a corda apaziguadora, os eleitores tinham todo o dia para votar, deviam estar à espera de que o temporal amainasse. Já o delegado do p.d.e. preferiu ficar calado, pensava na triste figura que estaria a fazer se tivesse deixado sair pela boca fora o que se dispunha a dizer no momento em que o suplente do presidente entrou na sala, Quatro miseráveis gotas de água não é coisa que chegue para amedrontar os votantes do meu partido. O secretário, para quem todos olharam à espera, optou por apresentar uma sugestão prática, Creio que não seria má ideia telefonar ao ministério a pedir informações sobre como está a decorrer o acto eleitoral aqui e no resto do país, ficaríamos a saber se este corte de energia cívica é geral, ou se somos os únicos a quem os eleitores não vieram iluminar com os seus votos. Indignado, o delegado do p.d.d. levantou-se, Requeiro que fique exarado na acta o meu mais vivo protesto, como representante do partido da direita, contra os termos desrespeitosos e contra o inaceitável tom de chacota com que o senhor secretário acaba de se referir aos eleitores, esses que são os supremos valedores da democracia, esses sem os quais a tirania, qualquer das que existem no mundo, e são tantas, já se teria apoderado da pátria que nos deu o ser. O secretário encolheu os ombros e perguntou, Tomo nota do requerimento do senhor representante do p.d.d., senhor presidente, Opino que não será caso para tanto, o que se passa é que estamos nervosos, perplexos, desconcertados, e já se sabe que num estado de espírito assim é fácil dizer coisas que na realidade não pensamos, tenho a certeza de que o senhor secretário não quis ofender ninguém, ele próprio é um eleitor ciente das suas responsabilidades, a prova está em que, como todos os que nos encontramos aqui, arrostou com a intempérie para vir aonde o dever o chamava, no entanto, este reconhecimento sincero não me impede de rogar ao senhor secretário que se atenha ao cumprimento rigoroso da missão que lhe foi consignada, abstendo-se de qualquer comentário que possa chocar a sensibilidade pessoal e política das pessoas presentes. O delegado do p.d.d. fez um gesto seco que o presidente preferiu interpretar como de concordância, e o conflito não foi além, para o que fortemente contribuiu ter o representante do p.d.m. recordado a proposta do secretário, Na verdade, acrescentou, estamos aqui como náufragos no meio do oceano, sem vela nem bússola, sem mastro nem remo, e sem gasóleo no depósito, Tem toda a razão, disse o presidente, vou ligar para o ministério. Havia um telefone numa mesa afastada e para lá se dirigiu levando a folha de instruções que lhe havia sido entregue dias antes e onde se encontravam, entre outras indicações úteis, os números telefónicos do ministério do interior». In José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, Editorial Caminho, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-211-608-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «… o embaixador comenta com o procurador: é mesmo estrábica, a noiva…, como irá El Rei reagir? El Rei?… Pois se já tinha adivinhado pelo retrato. De que retrato falais?»

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«(…) Pois montarás um ginete mais cedo do que julgavas. Mas antes seguirás perto de nós, talvez em cima de uma mula, na viagem até ao paço de Aljaferia. Teu primeiro zelo será para com as carências de minha montada, está bem assim? De outro modo melhor não estaria, minha rainha. Ri com gosto por eu lhe chamar assim. Nessa altura minha tia avança, para se me dirigir em modos tais, que logo reduz a intensidade do meu contentamento Aproveita esta bênção da nossa rainha, toleirão. Por aí, como agora, nada mais te resta de seguro a não ser um burrico, uma cítara e um alforge. E dona Isabel divertida. Não precisas meter a cítara no alforge… E trata de dormir cedo. Antes do romper da alva partiremos para Zaragoza. Vou-me dali à procura de meu tio, para lhe confiar a mudança da sorte, enquanto Soledad pede que chispe, com uma inclinação de cabeça. Talvez precise de tempo para repisar o assunto de Ángel, buscando forma de lhe levar notícias para trazer algum aditamento às que ele enviara cedo. Venho encontrar Juan à janela da cozinha que dá para o varandim dos claustros, a trovar como é seu jeito. Não são versos corteses, denunciam manhãs e vaidades de clérigos que servem senhores de fora, enquanto beijam as mãos aos do reino. Não poucos cuidam das almas com os bolsos cheios, sem vergonha de espiar em terra alheia… Esta é a sentença de Juan Cardeña y Fole, um goliardo de grande descaramento, que por acaso é meu tio.
Não sei em que ínfima fracção de tempo se gera a tormenta, levantada por prelados com excesso de zelo. Mal percebo o que se passa, está Juan a escapar-se para o átrio de serviço, a galgar as escadas da porta virada para o pátio, para desatar a correr rua abaixo, colado à parede das cavalariças. Grita-me que o posso encontrar no lugar de sempre, garantindo que ficará bem em companhia da Virgem da Alegria. E voltado para trás um instante, acena-me sorridente, para me dar confiança. Porém meu coração não pára, açoitado de forma inquieta por uma angústia latente.
Depois chega minha tia. Inteirada dos pormenores do triste episódio, segreda-me que estou protegido por agora, mas que não procure Juan tão depressa. E o episódio encerra com aquela conversa misteriosa entre dona Isabel e o mestre dos trovadores, Aimeric d´Ébrard, antigo prelado da Aquitânia, professor de dom Dinis quando ele era infante, agora bispo de Coimbra. Falam de um certo Bertrand Gott, arcebispo de Bordéus, ali pela gente de França. Era ele que meu tio acabava de acusar.
Quase toda a noite é um desassossego. Afinal o tal prelado é o mesmo que me inquiriu no claustro… Só quando adivinho que o dia vai amanhecer, gélido mas ensolarado, consigo desfrutar do conforto das mantas negras, antecipando o calor do capote surrado para fazer a viagem até Zaragoza, capital de Aragão. Pena é o sono acomodar-se à sensação de aconchego e tomar profundamente as últimas horas da madrugada. Já é tarde quando dou pelo chocalhar dos guizos dos animais de leite, nos currais ali perto, pelos cascos das bestas na laje da Carrer dos Condes.
Só há tempo de correr ao pátio, puxar o balde da cisterna, passar água gelada pelo rosto. Depois venho cuidar da taleiga com roupa lavada, fornecida por Soledad, antes de ir à cozinha do tamanho da maior casa que já vi, comer um resto de assado em cima de um naco de pão divino. De novo ninguém me estranha a presença, antes me estendem um vaso de barro com gemada. E como se eu fosse um servidor da casa, ainda perguntam se quero mais um pedaço de carne para o caminho. Boa vida me espera.
Chega a hora da nossa infanta descer com a família, corte de Aragão, clérigos confessores e ouvidores reais. Os enviados de Portugal conversam a um canto com Beltrán Vila Franca e Bernat Sarria, privado de Pedro III. Um deles é João Pires Velho, embaixador e conselheiro de dom Dinis. O outro é João Martins, trovador, casado com uma dona se não me engano já escolhida para dama de dona Isabel. O terceiro é o procurador Vasco Pires. Pelo que dizem, todos têm o costume de trovar, como dom Dinis, não é só João Martins.
Beltrán Vila Franca quer saber da geografia de Óbidos, das rendas das outras vilas doadas à noiva. Fala dos burgos que estão à cabeça da Casa da Rainha, constantes do contrato de casamento descrito no documento propter nuptias, que ele mesmo foi celebrar o ano passado com dom Dinis, em representação do rei de Aragão. Quando Bernard Sarria e Beltrán Vila Franca se afastam, o embaixador comenta com o procurador: é mesmo estrábica, a noiva…, como irá El Rei reagir? El Rei?… Pois se já tinha adivinhado pelo retrato. De que retrato falais?» In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Ajoelho diante daquela que dizem ser a formosa dona Isabel, mais nova do que eu três anos, menos bela do que as vozes populares fazem crer…»

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«(…) Lugar de destaque para a irmã bastarda dona Beatriz, casada com o duque de Cardona. Ainda perto do coração deve estar dona Vataça Láscaris, filha do conde de Ventigmilia e de dona Irene Lascarina. Têm sido criadas juntas, desde que a dama grega de Niceia veio com os filhos para voltar a casar na Catalunha. Dona Prisca é uma fidalga aragonesa, já noiva de um cavaleiro português. Está indicada como camareira-mor de dona Isabel. Depois vem a colaça, talvez aia principal, a marquesa Rodrigues, a quem cabe escolher damas e donzelas portuguesas para criadas e camareiras. Diferente é minha tia. De linhagem inferior, remete-se a segundo plano, como lhe compete, a segurar com mãos ambas a orla do vestido da noiva. Fazem agora a Carrer dos Condes em sentido inverso até ao palácio, onde a boda começa a ser servida no Salão dos Arcos Românicos.
Ainda envolvido por um deslumbre novo, a repartir o tempo pelas salas e pela copa, não me escapa quando os reis de Aragão e Catalunha sobem com a filha. Os tempos são conturbados, as oportunidades para assuntos de família têm escasseado. Talvez esta conversa viesse sendo adiada desde que se espalharam os rumores da guerra civil em Castela. Ficam uma meia hora no andar de cima, depois acabam por descer sozinhos. Dona Isabel deve ter invocado necessidade de repouso, um tempo para meditar na nova condição.
Daí a pouco sou directamente abordado por um escudeiro. Traz ordens de minha tia para eu subir um instante. Nessa altura repito o percurso de horas antes, agora senhor de mim. Apto a dosear a força dos nós dos dedos, pronto para bater na grossa porta, detenho-me já de braço erguido e punho fechado, quando ouço o chamamento que vem do interior. Soledad pressente tudo, até as patas silenciosas de um gato. Deve ter ouvido o som das minhas calçaduras de couro na pedra, porque me convida a entrar com voz de repente adocicada: não tenhas medo, vem… E já quando empurro a porta e meu rosto aflora, no limar: estás a ouvir…? Faz a vénia à nossa rainha. Depois para dona Isabel. É o tal meu sobrinho, senhora, filho de minha irmã Constança que Deus levou há anos. Não é tão tolo como parece… Sabe discernir, tem qualidades para levar uma mensagem sem lhe devassar o conteúdo. Esta alusão dá a medida das apreensões de minha tia, a ânsia de obter pronta resposta ao pedido de Ángel. Mas se dona Isabel entende o apelo velado, finge nem sequer notar, movida pelo bom senso de não tomar atitude enquanto não falar com dom Dinis. Acolhe-me com doçura. Deixa-o falar, Soledad. E na minha direcção uns passos. Chega mais perto de mim. Como te chamas? Javier Cardeña, senhora minha. Gostarias de servir os reis, meus pais e senhores, em Zaragoza? Seria subida honra, se algum préstimo tivesse, mas como vos dirá minha tia, nada mais sei fazer do que carregar fardos, levar e trazer mensagens. Acontece com todos… Antes de aturada vontade, nada sabemos que valha. No paço não faltam jardins, hortos para mondar e regar, campos de pão e silos, cavalariças e bestas. Aqui meu coração dá um salto…Os cavalos, tratar deles…, meu sonho desde criança. Ajoelho diante daquela que dizem ser a formosa dona Isabel, mais nova do que eu três anos, menos bela do que as vozes populares fazem crer. Ao mandar que me levante encara-me mais de perto, e nesse momento reparo no ligeiro desvio do olho esquerdo rumo ao centro, já falado por meus tios. Mas tem um sorriso tão doce que se torna formosa como quer o povo, sem distância de realeza ou ponta de altivez, só firmeza no contacto. E nem me embaraço quando pronto lhe respondo. Meu fito é poder tratar cavalos, melhor ainda se puder montar um de bom porte, algum dia. Se me for concedida tal mercê, será mais do que sonhei, senhora dona Isabel». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

sábado, 21 de dezembro de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede»

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«(…) Eram deidades universalistas que haviam sofrido e vencido a morte, que recordavam a fecundidade agrária, renovando todos os anos a vegetação, e sugeriam o renascimento, indo assim ao encontro de muitas das inquietações dos espíritos sedentos de uma nova verdade. Enquanto reflectia nestas questões, Lucídio constatava que o diálogo a que involuntariamente assistia terminara crispado, saindo o desconhecido disparado, de rosto apimentado e a respingar fúrias por todos os poros. Depois da sua alvíssima toga de linho ter deixado um torvelinho à saída, surgiu o roliço dono da casa, não menos arreliado do que aquele que acabava de sair. Já cá estás e ninguém me avisou?!, questionou de supetão, com a saliva a borbulhar nos cantos dos lábios. Lamento não ter sido anunciado, Ithacio, respondeu Lucídio, com a melhor cortesia que conseguiu encontrar.
Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede. Então, qual é a urgência, Ithacio?! Pensei que tínhamos esclarecido tudo na última reunião… Sim, sim… Mas, como sabes, os impostos não me são destinados, pertencem ao império. Apenas cumpro as funções que o Estado romano me confia, respondeu, ainda rubicundo, sentando-se pesadamente no cadeirão. Não discordo, os impostos fazem falta à manutenção do Estado e bem sei que o esforço de guerra com os bárbaros cresce de dia para dia. Lucídio tossicou, aclarando a voz e respirando fundo para se aquietar. Mas apenas os impostos legais e devidos, Ithacio! Já nos bastam os que temos, e não são assim tão poucos! Sete sólidos de ouro por cada caput é uma magnânima contribuição para o império! Deixa-te de lamúrias e vamos directos ao que interessa! Mandei homens a Aseconia verificar os limites das tuas terras e parece que se confirmam. Então, qual é o problema?!, perguntou o convidado, olhando nos olhos de Ithacio. O anfitrião sorriu, mordaz. Relataram-me que não declaraste a totalidade da produção anual… Lucídio engoliu em seco. Considerava aquela afirmação um ultraje, uma autêntica infâmia. Como poderia aquele homem duvidar da sua palavra?! Procurou manter a calma dos aristocratas de boa cepa, escondendo o mais que pôde o remoinho que lhe virava as tripas do avesso.
Não pode ser, Ithacio! As contas foram feitas na presença dos teus caesariani… Não é o que me dizem…, contestou o anafado homem, com lentidão, como que procurando estudar o espírito e as reacções do dono da Villa Aseconia. Atestam que viram cereais que não estavam no lote e no local onde foram anteriormente medidos… Foi nesse preciso local que os teus fiscais os viram, colocados após a primeira contagem! Não podiam continuar sujeitos ao tempo… E já vês como está este Inverno! Não vou pagar nem mais um argenteolus, ou mesmo um mísero denarius de bronze que seja!, contestou Lucídio, furioso.
O outro, com um estranho ar de caso, puxou o assento para junto de Lucídio, olhou para todos os lados e falou-lhe ao ouvido, num tom estudadamente baixo: ouve cá, isto é o que tinha inicialmente para te dizer. Mas acaba um passarinho de me soprar ao ouvido que os membros da tua querida família andam pelos montes a praticar magia… Magia?! Lucídio esbugalhou os olhos e o coração estremeceu. Sim, mas não uma magia qualquer! Ithacio recostou-se no seu lugar, fitando-o nos olhos. Magia negra!, afirmou, aumentando a voz e alongando as palavras. Sabes bem que esse é o crime que o nosso estimado imperador mais detesta! Mentira! Como és capaz de tão monstruosa insinuação?! Os teus delatores mais uma vez se enganaram!
O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua diletíssima esposa é a responsável por isso! A terra tremeu sob os pés de Lucídio. Como era possível, e com que fim, aquele homem acusar Priscila de tão grave delito?! E logo ela, coitada, tão atarefada com os preparos para o parto! Desviou os olhos para um recanto da sala ricamente pintada, onde se encontravam duas ânforas e peças de louça de cerâmica da mesma oficina africana que as de sua casa. O peito arfava, congestionado como os olhos. Recordou a imagem de Priscila e não duvidou uma fracção de tempo que a amava e que não era a paixão que lhe toldava a razão. Aquele homem não podia dizer a verdade! Mirou-o de novo. A gula reluzia nas bochechas de Ithacio, agora lustradas pelo rubor da soberba. Impotente, amaldiçoou-o e à sua malvadez. Até que, no meio do vórtice do vulcão onde se via, pressentiu uma energia interior que o ajudava a fugir da lava que o afogueava. Lembrou-se dos dois homens da sua clientela que se encontravam na domus para o levarem para Aseconia. Talvez o pudessem ajudar a esclarecer a maldita acusação. Posso chamar aqui os meus criados que acabaram de chegar a Bracara?» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.
                                                   
Cortesia de PEditora/JDACT

sábado, 17 de agosto de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Vá, Arménio… Cuidado com a língua! Não viste que até os elementos lhe obedecem… Do que estás a falar é de outra coisa, meu caro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto Flaviano e Arménio esperavam à entrada do templo, maldizendo as condições climatéricas e garantindo a segurança das mulheres que trouxeram até Iria Flavia, Priscila dobrou o umbral da porta, com muito custo, devido ao cansaço da viagem e à indisfarçável debilidade. Mas isso não a impedia de prosseguir de cabeça erguida e pose seráfica, a par do sacerdote, que a protegia da chuva, e já inteirado da razão da imprevista visita. Valéria seguia atrás, transportando o que precisava para o culto. O resto seria ali comprado, pois que também era necessário contribuir para o sustento do sacerdote e do próprio santuário, que os tempos iam difíceis. Chegada ao altar, depois de um prolongado momento de reflexão, Priscila ergueu os braços aos céus e, de pé, murmurou a ladainha que lhe saiu do coração:

Ó Senhora, tu que vês e atendes a quem te invoca com toda a boa-fé,
A fé dos nossos antepassados e dos vindouros,
Dos que no teu colo encontraram a cura para todos os males,
Consolo para todas as tristezas,
E que assim será para todo o sempre!
Acode-me e protege-me nesta hora!

Ó deusa da simplicidade, ó protectora dos mortos,
Ó deusa das crianças de quem todos os começos surgiram,
Ó Senhora dos eventos mágicos e da natureza!
Tu que deste origem ao Céu e à Terra,
Que conheces o órfão e a viúva,
Que providencias justiça aos pobres
E que dás abrigo aos frágeis!
Rainha dos Céus,
Acode-me e protege-me nesta hora!

Mãe dos deuses,
Que resplandeces em mil caras,
Em quem habitam todos os nomes,
Esposa que choras a morte do teu próprio esposo,
Senhora das culturas verdejantes,
Senhora da Casa que dá a Vida,
Doadora da Luz do Céu,
Em ti confio a vida e a saúde daquele que gerei!

Em pungente silêncio, acendeu uma lâmpada de azeite e colocou-a delicadamente sobre o altar, derramando uma pitada de incenso junto a uma vela que se consumia em chamas de eternidade. Deitou uma moeda no poço que se abria sobre o lado esquerdo e voltou ao silêncio das orações. O sacerdote, retirado para um compartimento do santuário, atrás do altar, aproximou-se de Priscila e murmurou-lhe ao ouvido: está tudo pronto! As duas mulheres seguiram o homem de túnica verde, muito coçada pelo uso, para a dependência de onde saíra. Nos quatro recantos, ardiam velas e queimavam-se as essências orientais apropriadas ao culto. Ali se consumaria a oblação final, a que ninguém mais poderia assistir.
Valéria tirou do saco um robusto galo negro nascido e engordado na villa, com o bico bem amarrado por fios de fiteira. O sacerdote cortou-os, com delicadeza. O bicho cacarejou, aliviado. Mas foi por tempo curto, pois, num único golpe, uma lâmina sacrificial atravessou-lhe o pescoço, dando apenas tempo a alguns rápidos espasmos do corpo sem cabeça que o comandasse. O sangue encheu de vermelho o bacio preparado para a imolação. Talvez o súbito desaparecimento das mulheres tivesse inquietado os homens que as protegiam, pois Valéria entreviu os olhos dos acompanhantes a surgirem e logo desaparecerem na porta da entrada do compartimento. E quando os dois homens regressaram à luz do dia certamente ter-se-ão espantado com o milagre que acabara de suceder: a chuva parara, depois de dias a fio de tormenta. O vento que soprava do tenebroso mar, fronteira da terra que ali acabava, desvaneceu-se como que por encanto divino. Parece que a velha deusa continua poderosa! Cala-te, Flaviano! São superstições, idolatria, que tanto mal fazem a Deus…
Vá, Arménio… Cuidado com a língua! Não viste que até os elementos lhe obedecem… Do que estás a falar é de outra coisa, meu caro… De outra coisa?! Arménio virou a face para o sul, para onde as nuvens negras corriam para tão cedo não voltarem. Apenas faziam verter dentro de si bátegas de raiva. Foi magia… A poderosa magia negra fez o que acabaste de assistir! Flaviano olhou para todos os lados e encostou o indicador em riste ao nariz, antes de pronunciar as últimas palavras, pois os três vultos saíam, aliviados e sorridentes, do templo de pedra. Cala-te com essa conversa! Senão, serei eu a tomar as medidas…» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «O lado do meio é comum às duas formações. Composto por uma fila de arcebispos das dioceses vizinhas, clero mais importante, antecede o pálio dourado que alberga, sob o tecto de seda com as armas de Aragão e Portugal…»

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«(…) Agora…, com meu tio Ángel é diferente. Letrado, arguto, ambicioso. Tudo sabe dos segredos de Jaime I, pelas leituras das crónicas que ficaram, e o rei Jaime foi criado numa casa templária, a mesma onde meu tio tem peso. Dizem que só ele sabe onde estão os tesouros mais valiosos da ordem, na Catalunha. Além disso é estimado pelo mestre provincial, pelo grão mestre em França, pela nobreza companheira de armas dos monges guerreiros. E por fim é tido em alta conta pela coroa de Aragão, em retribuição de tanta fidelidade. Chegamos. No largo da catedral, apinhado de gente, mulheres e rapazes enxotam galinhas e gansos atrevidos. Depois precipitam-se para a entrada da Carrer dos Condes, mal as trombetas anunciam o cortejo saído da Plaça del Palau. Em breve o avistamos em marcha muito lenta, por causa de velhos arcediagos e bispos das cidades mais importantes dos reinos em redor, já trôpegos, a medir cada passada.
Por nada perderia este espectáculo, dois quadrados de gente com trinta e cinco palmos de lado, guardados por cavaleiros montados em animais de cabeçada de ouro e prata, nas margens exteriores. O lado do meio é comum às duas formações. Composto por uma fila de arcebispos das dioceses vizinhas, clero mais importante, antecede o pálio dourado que alberga, sob o tecto de seda com as armas de Aragão e Portugal, os membros da família real, os confessores particulares. Dona Isabel vem ao centro, de olhos postos no chão, toda vestida de azul pálido e véu branco, cingido com coroa discreta. Logo atrás vêm damas, donzelas da corte, atrás delas a nobreza principal sob a mesma coroa, cavaleiros e convidados de outros reinos vizinhos. É um luzir de pedras e brilho de trajes que ofusca os meus olhos de quase vagabundo. Bela, toda esta pompa, que nem assim diminui meu desejo de regressar a Penedès, às sestas na choça quando o tempo aquece, ao abrigo das paredes de pedra quando chove e o cheiro de pão cozido entra pelos sentidos, acalmando a fome. Isso farei daqui a nada, no fim da cerimónia, garantida a bênção da minha única tia. Deve estar morta por me ver pelas costas, centrada na viagem para Zaragoza com a sua pequena infanta.

Comovente, o silêncio na catedral de Barcelona de planta quadrangular, já preparada para despir velhos trajes e vestir a majestade do gótico. Dona Isabel profere a fórmula de aceitação com voz firme, olhos baixos como quase sempre, postos num lugar indefinido. Desmente os apenas doze anos na altura, na perfeição de formas, na determinação com que repete as palavras decoradas nas últimas semanas. Ego Helisabeth fillia excellentis domini Petri del gratia Illustris Regis Aragonie tredo corpus meum in uxorem legitimam domino Dionisio dei gratia Regis Portugalie et Algarbi…
É uma cerimónia breve, não dispensa as bênçãos numa igreja do reino de acolhimento. Mas cá fora o povo chama pela nova rainha, acotovelando os guardas reais para se apinhar no portal. Alguns vêm de fora, pelas ruas novas rasgadas nas muralhas, à espera de uma migalha de grandeza que lhes dê sentido aos dias, sempre iguais. Os guardas continuam a resistir. Só a muito custo o cortejo consegue abrir caminho à passagem da infanta, de olhos baixos ainda, guardada por suas damas». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
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