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sábado, 2 de julho de 2022

A Musa de Camões. A Musa de Camões. «Caminha agora, devagar, a auscultar o silêncio. Pára um pouco, hesitante, as forças a escorregarem pelo medo da revelação. Quem quer que seja sairá antes dela?»

jdact

Madrugada. Os Pássaros da Bonança

«(…) Levanta a cabeça na direcção dos vitrais, na sua frente. Roda o olhar para o centro da nave, onde convergem os feixes de luz acabada de nascer, coados em finíssima poalha pelas frestas da parede, do seu lado direito. Nota a sombra de alguém a manchá-los... Quem pode ser a esta hora da manhã? Curiosidade e instinto de defesa, vira-se ligeiramente para trás, para o lado esquerdo do transepto, quando pressente uma pessoa encoberta com a coluna de pedra, desse lado. A sombra encena intermitentes coreografias: aparece, esconde-se assim que ela vira a cabeça para trás, reaparece quando a pressente concentrada na oração. Na concentração aparente da Infanta há lugar para uma angústia que nunca experimentou, mormente quando ouve o roçar de fato na pedra. Retoma a posição de orar, as mãos postas ate sentir o terço castigar os dedos, ainda com a cabeça ligeiramente voltada para o mesmo lado. O seu ângulo de visão apercebe o vulto de dona Paula, lá à frente, mas não quer denunciar a presença intrusa nem alterar o rumo dos acontecimentos iminentes.

Alguém repete a imprudência de espreitar, numa impaciência reveladora que começa a preocupá-la. Deve ser um homem, mas para que se esconde depois de ter cometido tamanha ousadia? Nessa altura o desconforto acende uma lâmpada no silêncio das lembranças recentes: frases, avisos meus e de outros moradores dos paços, advertências de nobres que muito a estimam em memória de seu pai, têm pedido cuidado. Mais do que uma presença curiosa a sombra pode trazer o abismo... Brevíssima fractura de receios para quem nunca foi tomado por eles. Na mesma posição incómoda confirma mais uma, duas vezes, que não pode estar enganada: espiam-lhe os movimentos descaradamente num lugar de culto, mas não alcança quem poderia escolher a casa de Deus para agir em seu proveito ou proveito de outrem. Vai-se toda a paz de espírito capaz de convocar piedosos apelos, vai-se a vontade de rezar, a confissão. Em ambiente de repente tão estranho só lhe resta fazer por descobrir quem é, ao que vem, porque persiste em tal atrevimento. Nem que seja um novo morador do paço, a melhor maneira de saber é obrigá-lo a revelar a identidade e acabar com a intromissão. E antes que esmoreça a coragem benze-se, levanta-se, ajoelha na passadeira a meio da nave, simula o abandono da capela, tudo isto no tempo em que costuma fazer o sinal da cruz. Enquanto roda o corpo ainda vê a sombra pela última vez, acompanhada do roçar das  roupas.

Caminha agora, devagar, a auscultar o silêncio. Pára um pouco, hesitante, as forças a escorregarem pelo medo da revelação. Quem quer que seja sairá antes dela? E se lá estiver, atrever-se-á a poisar os olhos na irmã de El Rei? Pode chamar dona Paula ou frei António, esperar que ambos venham ao seu encontro. Tal como o pensa toma o sentido contrário, certa de levar o desconhecido a acreditar que o seu destino é a sacristia. Mas mal anda metade do caminho logo se volta direita à porta, .com duas passadas mais rápidas, decidida a surpreendê-lo. E logra obter o efeito que pretende. O homem não pode dissimular a presença, quase enroscado na coluna de pedra em movimento lento, rotativo, no sentido inverso ao dos passos que se aproximam». In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, 2006, Saída de Emergência, 2006, ISBN 972-883-940-5.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

JDACT, Camões, Maria Helena Ventura, História, Literatura, A Arte, MLAC, MLCT,

A Musa de Camões. A Musa de Camões. «Sua Senhoria também se esqueceu deles, em busca da concentração que tarda em chegar. Não é a piedosa postura das imagens que lhe prende a atenção…»

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Madrugada. Os Pássaros da Bonança

«(…) Dona Paula vai até à porta que dá para a capela certificar-se de estarem sós, com o pretexto de ver se Sua Senhoria ordena alguma coisa. Começa por intriga-la a diferente concentração que lhe nota, a rezar de cabeça meio levantada ligeiramente inclinada para a esquerda, como se quisesse dar por tudo o que se passa à volta, mas entende que é melhor não lhe interromper as orações. Torna à sacristia, confiante, tomando o lugar no assento. Frei António arranjou entretanto o seu, um caixote virado ao contrário que experimenta, divertido. Comentam agora a célebre carta de dona Luísa Sigea ao papa Paulo III, sobre as regras da boa conversação, o poema Sintra, os elogios à Senhora Infanta, o agrado que deu tanto ao Santo Padre como a toda a corte pelo conteúdo, pela elegante fluência da escrita. Divergem ainda sobre outros assuntos, a conversa animada a esquecer o correr do tempo.

Frei António partilha alegremente a cultura que vem adquirindo, sabe dosear a informação. Cada interlocutor é um universo de formas de expressão, um cofre de intenções, e ele aprendeu a saber transmitir o equilíbrio entre o que espera cada um e o que lhe é devido. A uma dama como dona Paula, à mui nobre Infanta dona Maria de Portugal, pode abrir o coração sem medo. Mas ainda que muito tenha ouvido a quem o ensina, e tenha paru dizer a quem o ouve, com ninguém se atreve a falar mais do que convém. Bem sabe que o seu natural encanto inspira sempre simpatia e não contando embora para a salvação das almas, muito acrescenta ao brilho intelectual e até à falta dele, porém o comedimento é uma das maiores virtudes e muito lhe tem aproveitado saber usá-lo.

Sua Senhoria também se esqueceu deles, em busca da concentração que tarda em chegar. Não é a piedosa postura das imagens que lhe prende a atenção mais dó que o costume. Nem o fino debruado de talha à volta da capela-mor. Será a mesa vestida com a toalha branca de finíssimo linho?... Por ela se levanta logo que sua dama recolhe à sacristia. Passa os suaves dedos pelo tecido bordado feito sobre uma das estampas, heiligen, de xilogravuras vindas da Alemanha. Este motivo de S. Cristóvão a passar um rio com o menino ao colo, chegou a desagradar à rainha por fugir à representação angelical das mais v.ulgares. Mas depois, apesar da resistência aos elementos de forte inspiração oriental, dona Catarina elogiou fartamente a obra acabada. Sua Senhoria analisa cada pormenor, contente da escolha acertada do desenho, do mérito das bordadeiras do seu paço. Porém conclui que não é a toalha que lhe tira a concentração, é uma desconfiança...

Retrocede até à primeira fila de bancos, do lado direito do pouco largo transepto. Ajoelha, de novo, sem saber porque não flui a oração. Pensamentos desencontrados, ideias esfiapadas, já tinha dado por elas, ainda que há pouco o passeio na muralha lhe trouxesse profundo ânimo, como sempre. São tão gratos esses minutos ao raiar da aurora, ausência de ruído mas não silêncio total, a discreta musicalidade da manhã em tons pastel, chilreios de pássaros que agitam a copa das árvores antes das pessoas acordarem... Nenhum outro momento lhe diz tanta paz, ao mesmo tempo que a inibe de expressão verbal inteligível. Então porque é hoje tão débil a vontade de rezar?» In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, 2006, Saída de Emergência, 2006, ISBN 972-883-940-5.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

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domingo, 23 de janeiro de 2022

Poemas de Alcipe. Marquesa de Alorna. «Fazíeis a delícia dos meus dias, escutai os gemidos lastimosos Com que Lília, nas bordas do sepulcro, vos envia um adeus, com que saudade!»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«[…]

Idílio

«Quando, pela moléstia de peito que então sofria, me desenganaram de que não tinha remédio enquanto estivesse em Chelas, e havia inteira impossibilidade para mudar de sítio»

«Cordeiros meus, que em tempo mais ditoso

Fazíeis a delícia dos meus dias,

Escutai os gemidos lastimosos

Com que Lília, nas bordas do sepulcro,

Vos envia um adeus, com que saudade!

Passou ligeiro o tempo em que, contentes,

No mais alto do monte, consagrado

Aos cânticos das Musas, felizmente

Vos nutríeis de um pasto que regava

A fresca Aurora com a porção mais pura

Do c que dedica ao filho amado.

Gostáveis um licor sacro e sublime,

Que a alma inflama dos cândidos Pastores,

E os obriga a cantar suavemente

Seus amores nas flautas sonorosas.

Que pacíficos gostos eu lograva,

(Ó milagres de Délio!) quando apenas

Da minha pobre avena, mansamente

Os inocentes colos estendendo,

Sentir parecíeis vós esse meu canto,

Parecíeis aplaudir os meus acentos,

Em que a Amor perdoava as travessuras

Com que afligia os míseros pastores!

Outras vezes, que a Amor chamei tirano,

Que só cantei as graças da inocência,

Com que pressa, Cordeiros, me cercáveis,

E com a paz que meus versos inspiravam

Entre os braços do sono vos perdíeis!

Ó memória suave, onde me levas!...

Tais como as densas nuvens que no Inverno

As estrelas aos olhos vão roubando,

A distância me faz ver esse tempo,

Ditoso, mas perdido, ir já cedendo

Ao tirano poder do esquecimento.

Neste vale cruel, onde a desgraça

Ordena que termine os tristes dias,

Escuto só os ventos rugidores,

Arrancando da terra os verdes freixos,

Que abrigavam com as frondosas ramas

Comigo a terna Márcia, a cara Tirce.

O rebanho de Agrário pelos montes

Somente deixa ouvir tristes balidos,

Disperso, quase extinto! Com que pena

Meus olhos tal objeto consideram!...

No espaço imenso dos passados séculos,

Com passos apressados se sepulta

O tempo, que não cessa. A horrenda morte

Com que aspeto a meus olhos (tristes olhos!)

Os descarnados ossos apresenta!

Levanta com furor a enorme foice,

(Que susto!... ó Céus, valei-me!...) que pendente

Vejo sobre a cabeça... Mostra, irada,

O voraz apetite com que esperava

Fazer presa em meus dias brevemente!

Cordeiros, minha doce companhia,

Com quem já reparti os meus prazeres,

Quando da morte o lívido semblante

Vos mostrar com horror minha figura,

E não puder a mão, trêmula e fria,

Sustentar por mais tempo o meu cajado,

(Que jamais vos serviu para castigo,

Que à fonte vos guiava, que ao redil

Vos levou tantas vezes ao descanso)

Ah! não deixeis que algum Pastor profano

À minha Tirce o roube; a minha lira

Nele deixo pendente de um grilhão

Que o maligno Cupido, na cabana

Da mesma Tirce amada, sutilmente

Me trocou pela minha liberdade.

Nos versos meus, que eu confiei dos troncos,

Deixo a fúnebre história dos meus males.

Não consintais que o musgo, o tempo, a sorte

A memória sepultem do que eu sinto,

Antes que os claros olhos do meu Nume

Derramem, quando os lerem, terno pranto,

E que à memória da constante Lília

Pague Amor os extremos que lhe deve.

Ah! possa a mão de Tirce ainda algum dia

Ao querido Pastor, ao Pai amado,

Com os dons que lhe restam, de uma filha

Compensar os suspiros que hoje exala!

Oh! feliz sorte a vossa, triste a minha,

Cordeiros inocentes, que aos desastres

Insensíveis viveis, que da saudade

Não provais a violência, o golpe amargo!

Não sofreis o poder fero e tirano

Deste duro farpão, que rasga o peito,

Monstro que a alma devora sem piedade.

Ficai sempre felices, sempre alegres,

Que eu, sem ver os objetos que adorava,

Acabo... ó Céus!... meus dias... na amargura!...

Razão, por piedade, esconde

O que eu dentro de alma sinto;

Se amor se mostra em meus lábios

Faze crer que sempre minto.

Não quero que hoje a verdade

Se oponha às leis da razão;

Triunfe a modéstia austera,

Gema embora o coração.

Não acenda um só suspiro

Chama que devo apagar;

Siga-se à dor o silêncio:

Vencer é saber calar.

Quantos males evitara

Esse incauto Prometeu,

Se na férula escondido

Ficasse o fogo do Céu!...

Porque se ama, ou se não gosta,

Inda está mal definido;

O acaso, o fado, a estrela

Forjam armas a Cupido.

Se com desdéns recompensa

Zelina meu vivo ardor,

Não tenho de que queixar-me

Não depende dela amor.

Por ela morro; e não pago

De Alcina os ais com os meus.

Ninguém a razão me aindague,

Procure o enigma nos Céus».

[…]

Poemas de Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre, (1750 – 1839), in ‘Poemas de Alcipe’

JDACT

A Arte, Encantamento, Fernando Pessoa, JDACT, Marquesa de Alorna, MLAC, Poesia, Alcipe,    

Poemas de Alcipe. Marquesa de Alorna. «A minha antiga Musa se desvia, só me inspira a cruel melancolia; outro Apolo não tenho que o meu dano»

Cortesia de wikipedia e jdact

«[…]

Águas

Quantas vezes a Musa me guiava

Ao lugar em que terno suspirava

Petrarca saudoso, que em Vaucluso

Suave fez o uso

Da cítara cadente, repetindo

Aquela branda história

Que lhe pôs na memória,

Com as farpas de Amor, um gesto lindo!

Aonde os pensamentos me levavam!

Parecia-me que as Musas enlaçavam

Com fios de ouro as ramas do loureiro;

Depois, que o Deus flecheiro,

Verdes mirtos colhendo, os ia unindo

À formosa capela

De que a Musa mais bela

Coroou Petrarca, Laura, repetindo.

Sonhos vãos que forjava a fantasia!...

Prazeres que benigno Amor fingia!...

As Dríades me ouviram mil canções,

Que aos ternos corações

Excitaram mil gratos sentimentos.

Hoje, nos troncos duros,

Dos meus fados escuros

Escrevo os tão diversos movimentos!

A minha antiga Musa se desvia,

Só me inspira a cruel melancolia;

Outro Apolo não tenho que o meu dano.

Às vezes de ano a ano

Uma triste cantiga solitária

No centro do retiro,

Seguida de um suspiro,

Arranca do meu peito a sorte vária.

Ó Naides, que do fundo desta fonte

Ouvis o mal que Amor manda que eu conte,

Se acaso minhas lágrimas saudosas

Distinguirdes, piedosas,

Ah! condoei-vos, sim, do dano meu!

Se o mal que eu choro tanto

Paga outro terno pranto,

Dai-me a sorte feliz do claro Alfeu!

Canção, vai, que a levar-te não me atrevo;

Segue longe do meu outro destino;

Enquanto nos pesares que imagino

A minha acerba dor eu, triste, cevo.

[…]

Poemas de Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre, (1750 – 1839), in ‘Poemas de Alcipe’

JDACT

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domingo, 15 de agosto de 2021

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «Mas nem tudo podia pertencer ao mundo da fantasia. Gregório tinha chegado ao continente americano com algumas luzes, Pedro ainda sabia pouca coisa e Diogo, entre viagem, adaptação e os nascimentos…»

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Brasil

«(…) Antes de acabar a quarentena, engravidou outra vez. Desta teve enjoos, dores de cabeça, quebras de tensão e, no momento do parto, as coisas pareceram complicar-se de tal maneira que a parteira decidiu recorrer aos grandes remédios. Mandou uma escrava prevenir o padre, que por sua vez mandou o sacristão tocar o sino da igreja nove vezes, enquanto outras mulheres calcorreavam Vila Rica procurando nove meninas virgens chamadas Maria, que deviam rezar nove ave-marias para que tudo batesse certo e a mulher do governador pudesse dar à luz o seu filho sem risco de vida para nenhum dos dois. As escravas bateram a várias portas sem grande resultado, porque, ainda que encontrassem Marias com fartura, ou não possuíam hímen, ou não sabiam dizer as orações. O que se pensou que demorasse meia hora levou tanto tempo que o último filho, José Tomás, nasceu antes que conseguissem reunir as nove meninas. De qualquer forma, o expediente não teria resultado, porque o padre, convencido de que era mais fácil encontrar as meninas, apressou o acólito a dar as badaladas, e esse meio só era eficaz se tudo se fizesse ao mesmo tempo. Maria José, debilitada por três gravidezes em tão pouco tempo, viu-se obrigada a recorrer a uma ama, porque não tinha leite suficiente para dar de mamar a dois filhos e preferiu reservar o seu para o recém-nascido. Custou-lhe entregar Isabel ao peito de uma desconhecida, ainda que a sua condição lho permitisse, não só por uma questão de posses, mas porque a legislação concedia esse privilégio às fidalgas. Havia mulheres do seu meio que não prescindiam mesmo desse direito e secavam o leite pondo folhas de sabugueiro enxutas sobre os seios. Mas ela não partilhava dessas ideias nem achava que amamentar lhe estragasse o peito, pelo contrário, sentia-se mais perto dos filhos quando lhes dava de mamar e, sempre que Rodrigo assistia a esse momento quase mágico, um elo de ternura envolvia-os a ambos. Procurou saber tudo sobre as amas, escolhidas entre as brancas e portuguesas, desde o estado de saúde, não só do corpo como também da alma, até ao lugar onde tinham morado desde a infância e se eram felizes, porque achava que o leite devia azedar com as agruras da vida. Descartou as que não preenchiam os requisitos e contratou uma que caiu nas suas graças pelo sorriso amplo e o olhar luminoso, não tinha a opulência das outras, mas da alimentação se encarregariam na cozinha por ordens estritas suas, não fosse comer algo que desarranjasse os humores da sua filha.

Entretanto, Gregório, Pedro, Diogo e Eugénia sentiam que lhes tinham crescido asas nos braços e nas pernas e, de tanto andarem em liberdade, começaram a perder a cor branca de cera que tinham trazido do reino e adquiriram um suave tom dourado, porque, mesmo obrigados a usarem chapéu, o ar morno parecia bronzeá-los ao passar ao de leve pelos corpinhos que cresciam e espigavam como trigo. Conheceram o prazer de provar frutos exóticos, arrancados das árvores, ainda quentes do sol, o sumo a escorrer pelos bracinhos finos que iam lavar rapidamente ao riacho ou à fonte, para que ninguém suspeitasse de que passavam o dia a comer coisas proibidas, desrespeitando as horas impostas de intervalo entre o almoço, às nove da manhã, e o jantar, às três da tarde. O pior era quando tinham de esconder alguma dor de barriga ou a falta de apetite com a desculpa de que o sono os vencia, esperando que os mandassem dormir a sesta e só tivessem de voltar a sentar-se à mesa à hora do chá, pelas sete, quando o Sol se punha. Aprenderam a brincar com o que a natureza lhes proporcionava, faziam exércitos de escaravelhos, seguiam os trilhos das formigas, partiam à descoberta de aves raras de cores nunca vistas sem terem praticamente de se afastar da casa. Os macacos amestrados para lhes tirarem os piolhos, em vez de fazerem o seu trabalho, corriam atrás deles e roubavam-lhes insectos, folhas secas, vagens e sementes que eles guardavam em esconderijos como se fossem pequenos tesouros. Certos dias faziam de conta que o topo de uma árvore era a torre de vigia de um navio e davam ordens a uma armada imaginária que navegava nas ondas da floresta para que atacasse os barcos de piratas que tentavam invadir o seu reino.

Mas nem tudo podia pertencer ao mundo da fantasia. Gregório tinha chegado ao continente americano com algumas luzes, Pedro ainda sabia pouca coisa e Diogo, entre viagem, adaptação e os nascimentos dos irmãos mais novos, já passara da idade em que se começava normalmente a aprendizagem: sete anos. Ao tomar consciência de que tinha omitido no rol das suas obrigações essa parte importante da formação dos filhos, Rodrigo mandou o seu secretário procurar o melhor preceptor e que não demorasse a cumprir com o que lhe pedia. Nem incomodou a mulher com a escolha, via-a demasiado atarefada com bebés, amas e costumes aos quais tinha dificuldade em adaptar-se. Apresentou-se um homem com cartas de recomendação de famílias respeitáveis e, pelo trato e a maneira como respondia às suas perguntas, contratou-o de imediato». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Cristina Norton, Escrita, JDACT, Literatura, Narrativa, MLCT, MLAC,

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «O calor e algumas moléstias obrigaram-na a ficar de cama no último mês de gravidez e, quando começaram as primeiras contracções, vieram ao seu quarto cinco mulheres para lhe darem assistência durante o parto»

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Brasil

«(…) Em Vila Rica descobriram, da janela do sótão do palácio, montes que se perdiam no horizonte e lhes lembravam o Minho e jardins onde viam meninos como eles a correrem seguidos pelos moleques, filhos de escravos que acompanhavam os senhozinhos nas brincadeiras. À hora do beija-mão, o mais velho dos irmãos pediu licença ao pai para falar, incitado pelos outros que esperavam ansiosos pela resposta, e perguntou se a eles também lhes seria permitido entreterem-se da mesma maneira que os meninos brasileiros. Rodrigo Meneses, tomado de surpresa, não soube o que dizer. Preferiu evitar dar o seu consentimento a algo de que mais tarde pudesse arrepender-se e adiou para outro dia a resposta, pois não conhecia ainda os costumes do país e queria aconselhar-se com alguém que lhe pudesse dar uma opinião. Não deixou de lhes lembrar que não eram meninos nascidos num berço qualquer, eram netos do marquês de Marialva e filhos do governador de Minas Gerais e deviam comportar-se como tal. Ao cabo de alguns dias, deu-lhes, porém, licença para brincarem como os outros e as crianças ficaram contentes por poderem experimentar um modo mais alegre e mais livre de viver.

Os pequenos Meneses trocaram a roupa justa e aperaltada, que só voltava a sair dos baús nos dias de missa e de festa, por outras mais leves, que lhes permitiam mexerem-se à vontade, e adaptaram-se rapidamente a um ritmo que tinha mais a ver com o percurso do Sol, o vento fresco dos montes e as chuvas. Partiam à descoberta desse mundo novo ao raiar do dia, os rapazes seguidos cada um do seu moleque, Eugénia acompanhada por uma pretinha poucos anos mais velha do que ela, chamada Miló, que se prestava tão bem a todas as brincadeiras que pareciam ter a mesma idade. Maria José agradecia a Deus poder ver da janela do seu quarto os filhos jogarem à apanhada entre as árvores, porque ainda amamentava o bebé que tinha nascido no barco e o seu ventre já se arredondava outra vez. Mesmo obedecendo à regra de abstinência sexual nos dias santos e na Quaresma, o calendário ainda lhes permitia muitos dias de liberdade e as consequências não demoravam a aparecer à vista de todos. Logo que se apercebia do seu estado, entregava o molho de chaves à velha criada para evitar que a criança nascesse com lábio leporino e guardava os fios e os brincos numa caixa própria. Assim, as marcas que as joias lhe deixavam nas orelhas e no pescoço não passariam para a pele do recém-nascido.

Na viagem de barco contentara-se com uma ração dupla de biscoitos enquanto estivera grávida, porque não podia pedir o impossível. Mas em terra aproveitou o seu estado interessante para exigir ao marido que mandasse vir do Rio de Janeiro todas as coisas que escasseavam em Vila Rica, com o pretexto dos inevitáveis desejos. Fez uma longa lista e, pouco tempo depois, viu a despensa encher-se de presunto do reino, vinho do Dão, ameixas secas, amêndoas, sidra, conservas de damascos e de ginjas, uvas frescas e maçãs pequenas. O governador lembrou-se de acrescentar umas tigelas de manteiga para barrar o pão cozido em forno de lenha, que um padeiro português instalado no Rio confeccionava para os que podiam matar as saudades estomacais. Foi o próprio Rodrigo que entrou na salinha onde a mulher passava as tardes, seguido de uma criada com um tabuleiro contendo a surpresa, que Maria José agradeceu de boca cheia, porque não resistiu à tentação de comer imediatamente um naco de pão barrado com a insólita manteiga.

O calor e algumas moléstias obrigaram-na a ficar de cama no último mês de gravidez e, quando começaram as primeiras contracções, vieram ao seu quarto cinco mulheres para lhe darem assistência durante o parto. Uma delas trazia as Tábuas da Lei para colocar no travesseiro, outra umas tesouras bentas que deviam ficar debaixo da cama durante o nascimento, a terceira uma taça com caldo feito com penas de perdiz, que Maria José teve de beber dissimulando o nojo que o sabor lhe causava. Entretanto, as restantes começaram a rezar o credo em voz alta e, quando as dores se tornaram menos suportáveis, todas começaram a gritar e a futura mãe com elas, como se não resistisse a fazer parte do coro de lamentos, não tanto porque sentisse rasgarem-se as suas entranhas, mas mais para cumprir com a obrigação de dar à luz com dor, que era como Eva tinha parido. Assim nasceu Isabel, a segunda menina, que foi logo lavada, enfaixada e vestida com camisas de rendas e fitas. Antes de sair nos braços da madrinha para ser imediatamente baptizada, a mãe passou-lhe pela cabeça um fio de algodão grosso com uma medalha e um escapulário para a proteger do mal. Maria José, cansada pela representação teatral do parto doloroso, quando era capaz de deitar os filhos ao mundo sem mais ajuda do que as orações, dormiu até à manhã seguinte». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Cristina Norton, Escrita, JDACT, Literatura, Narrativa, MLCT, MLAC, 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Poesia. Cantiga de Abril. Jorge de Sena. «Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha. Tantos morreram sem ver o dia do despertar!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cantiga de Abril

«Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha».

Poema de Jorge de Sena, in 40 anos de servidão, 1989

 

Cortesia de Edições 70/JDACT

 

JDACT, Poesia, Jorge de Sena, Abril, JLT, Salgueiro Maia, Filomeno Borges, MLCT, MLAC,

Poesia. Era Uma Vez Um País. Ary dos Santos. «Ali nas vinhas sobredos vales socalcos searas serras atalhos veredas lezírias e praias claras vivia um povo tão pobre…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Era uma vez um país

de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
ez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram

das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!»

Poema de José Carlos Ary dos Santos

Lisboa, 1975, Ed Comunicação

Cortesia de Wikipedia/EdComunicação/JDACT

JDACT, Carlos Ary dos Santos, Abril, Salgueiro Maia, Filomeno Borges, MLCT, JLT, MLAC,