Mostrar mensagens com a etiqueta :. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta :. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de janeiro de 2020

As Luzes de Leonor. Maria Teresa Horta. «Assim, tremendo com o frio da madrugada, dirigiu-se afoita à escrivaninha que a avó Leonor Távora lhe deu no Natal e a mãe quisera encostar à parede grande, do lado direito da janela…»

jdact

1754-1758
«(…) Antes de se levantarem as rajadas de vento forte que ajudarão a incendiar Lisboa, o ar imobiliza-se numa espécie de odor turvo e pestilento, cheiro acre a enxofre e a lodo estagnado do rio, a que se mistura o gosto salgado do mar, a acidez apodrecida do suor do medo, mas igualmente do vómito, das fezes e da urina.

De manhã Maria gosta de ficar na cama, entorpecida, amodorrada na quentura dos sonhos, magrinha e sumida no ninho dos cobertores e dos lençóis de linho fino com renda na dobra larga, que ela puxa a esconder-se, antecipando-se à ama que todos os dias abre as janelas, portadas de madeira para trás a deixar entrar o ar fresco do começo da manhã. Leonor, pelo contrário, ergue-se de madrugada pelo gosto de acordar no silêncio da casa à escuta do sono dos outros, mais livre para inventar, poder fazer o que mais lhe apetece. Levanta-se pois de manso, pés miúdos e brancos debruçados de um dos lados do leito, enquanto se espreguiça alteando o corpo franzino escondido pela camisa de cambraia bordada a ponto de cruz na gola de abotoadura, cabelo frisado, caracóis de mel caídos em desalinho nos ombros miúdos. E quando finalmente ganha coragem para enfrentar a escuridez, desliza para o soalho de lustro puxado, embrulha-se arrepiada no xaile esquecido na véspera pela mãe quando lhes fora dar a boa-noite, silhueta delgada a curvar-se à luz bruxuleante da pequena lamparina do oratório: pavio amarelado a vogar aceso e devagar no cimo do azeite, diante da imagem do Menino Jesus vestido de pano branco, faixa debruada a ouro, dois dedos da mão direita soerguidos, enquanto com a esquerda aponta o próprio coração, como quem impõe a pureza no sítio onde se demora o negrume. Mas Leonor não pode ainda entender esses gestos de anseio e eternidade, instruída apenas na beleza loura e pura do Menino, que imagina estar a abençoá-la.
É nessa tremeluzente chama do oratório de talha que acende a vela da palmatória da sua mesa-de-cabeceira, e em seguida, dominando a custo a vontade de largar numa corrida tumultuada pelo corredor cheio de sombras ameaçadoras que parecem persegui-la, segue pé ante pé e de olhos franzidos. Por cada porta que se mantém fechada suspira de alívio, a caminho do gabinete escolhido nesse ano para sua sala de estudo, onde entretanto aprendera a ler sozinha. E quando lá chega pousa no chão a palmatória, estica ambos os braços finos até conseguir agarrar o puxador de louça. Ao entrar olha em torno, desconfiada, a perscrutar os possíveis perigos, sobretudo onde a fraca chama do círio não alcança. Mas aquele é o lugar certo para ela começar o dia que desponta, revendo desde o princípio as gravuras do livro que a custo largara ao fim da tarde da véspera. Assim, tremendo com o frio da madrugada, dirigiu-se afoita à escrivaninha que a avó Leonor Távora lhe deu no Natal e a mãe quisera encostar à parede grande, do lado direito da janela, diante da qual crescem a perder de vista as magnólias, os cedros e as tílias. Mais tarde o sol cairá nas suas copas, soltando os odores dolentes e doces a temperarem as essências ásperas, ácidas, a fazer piscar os seus olhos toldados pelas longas pestanas. Leonor prefere a fulva tonalidade da glicínia, que contamina o fundo do jardim com um rubor intenso, trepando pelo muro alto, quase a chegar ao ferro do portão que abre para a mata.
Senta-se na cadeira alta e abeira-se do tampo da escrivaninha onde na véspera cuidara de dissimular o livro, debaixo de papéis e cadernos que tirara da mesa da biblioteca. Antes de o abrir afaga-lhe a capa castanha de pele macia. Lá dentro encontram-se os mapas celestes, tal como lhos mostrara o pai, debruçado sobre eles tardes inteiras na procura de respostas para as dúvidas de ambos. Folheia uma após outra as páginas preciosas, detendo-se nas gravuras que conhece de cor, na esperança de descobrir nelas um pormenor diferente, na esfera armilar ou no astrolábio de que tanto gosta de repetir o nome, no desenho onde se vê o sol ao centro com planetas girando à sua volta. No cimo de muitos dos desenhos estão figuras de anjos num curto voo parado, dando a ver a toda a largura dos seus braços abertos faixas com frases escritas em latim. Em baixo, pensativa, encontra-se a deusa da sabedoria, com a lira, os livros, enquanto marca equívoca da passagem dos séculos». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

domingo, 2 de dezembro de 2018

Os Filipes. António Borges Coelho. «Os fidalgos pensaram: vinha da parte de Filipe. João Betencourt, capitão da gente de cavalo, saiu da Casa dos Jesuítas com a bandeira levantada e percorreu as ruas»

jdact

Filipe I (II) em Lisboa
«(…) No Cais da Pedra, os mercadores flamengos ergueram à sua custa um portal grandioso. No cimo estavam pintados quatro leões e logo abaixo um retrato do rei Filipe I, tirado pelo natural. Na ilharga, da banda direita, um gigante com o mundo na mão. Uma rua artificial seguia do cais até à Porta da Ribeira, ladeada, de uma e outra parte, por esteios onde estavam representadas as figuras dos reis da Índia, tributários de Portugal.
Da Ribeira à Sé seguiam-se os arcos: o de São Jorge, o dos ourives da prata, o dos barbeiros. O arco da Porta do Ferro, feito pelos cerieiros, era todo lavrado em cera com invenções de árvores e frutos. Na Rua Nova, aos Barreteiros, outro arco; e defronte do Chafariz, um portal com muitos enigmas. Arco da Moeda, arco das Fangas da Farinha, da Tanoaria, dos ourives do ouro. A porta da igreja de Santo António fora lavrada e dourada de novo e a porta da Sé estava bem ornada de pinturas. Os portais mostravam retábulos em louvor de Filipe I.
No Cais da Pedra, no portal dos flamengos, o presidente do Senado entregou ao rei as chaves da cidade. Devolveu-as e, a cavalo, deu as mãos a beijar aos vereadores e procuradores dos mesteres. Pediram-lhe a confirmação dos privilégios e das liberdades de Portugal. Respondeu que era contente de tudo outorgar. A cavalo, seguido a pé pelos fidalgos, chegou à porta da Ribeira onde lhe fizeram a fala. E prosseguiu até à Sé no meio de danças e folias. Voltou pela Rua Nova, a Calcetaria, a Porta da Oura até aos Paços da Ribeira. Chegou quase ao pôr-do-sol. Quanto ele ia alegre e contente, juntamente com os que lhe entregaram o reino e se com ele foram botar, tanto o povo lastimava, com bem de lágrimas, a dor que tinha e mostrava ter em sentimento de o verem a ele, rei, e não a quem desejaram, escreve o antoniano Pero Roiz Soares.
Depois de assentado nos Paços, começaram logo a fazer cruéis execuções nos portugueses que seguiram o senhor dom António, açoutando uns, enforcando outros, degredando muitos para as galés, não guardando decoro a ninguém porque frades, clérigos, leigos, todos iam por um teor remando seus remos nas galés. Em 31 de Janeiro de 1582, em carta a Gabriel Zayas, secretário de Filipe I, Jerónimo Corterreal escreüa: a gente vulgar está cheia de escândalo por estarem ainda correndo sangue as chagas e dores passadas, assim das mortes dos maridos, mulheres e meninos, como das perdas e roubos das fazendas, que se estimam, só no burgo de Lisboa e no circuito do seu termo, em cinco contos de ouro.

Conquista dos Açores
Batalha da Salga ou da Praia da Vitória
Filipe I não dormia tranquilo no Paço da Ribeira. Senhoreava o continente português mas abandeira de dom António tremulava na ilha Terceira e noutras ilhas dos Açores. E de França saía uma armada em apoio do rei Prior do Crato. Pelo seu lado, a rainha Isabel de Inglaterra não tardaria a entrar no conflito. As ilhas tomaram o partido de dom António logo em Junho de 1580 mas, em Janeiro de 1581, por acção do bispo Pedro Castilho e pela pregação dos Jesuítas, a ilha de São Miguel tomou voz por Filipe I. Já antes, em 29 de Setembro de 1580, os poderosos da ilha Terceira, a ilha mais povoada, tinham tentado proclamar o rei espanhol. No porto de Angra entrou uma nau castelhana. Os fidalgos pensaram: vinha da parte de Filipe. João Betencourt, capitão da gente de cavalo, saiu da Casa dos Jesuítas com a bandeira levantada e percorreu as ruas: viva el-rei Filipe! Viva! E quem o contrário disser morra.
O corregedor dos Açores, Cipriano Figueiredo, veio-lhe ao caminho: que coisa é esta senhor João Betencourt? Venho pedir a Vossa Senhoria que não mande atirar da fortaleza àquela nau, que é d'el-rei Filipe. O povo começou a juntar-se: mata, mata este traidor. Prenderam o Betencourt e alguns cidadãos de nome e principais da cidade. Outros cavalgaram para as suas quintas e ficaram a monte». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN 978-972-212-740-0.

Cortesia de Caminho/JDACT