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quinta-feira, 26 de agosto de 2021

A Noiva Ladra. Margaret Atwood. «Mais do que apreciava: criava. O porquê ainda é obscuro. Tony não sabe porque se sente compelida a saber. Quem se importa com o porquê, a essa altura?»

Que estejas em Paz. Do amigo.
Cortesia de wikipedia e jdact

«A história de Zenia deve começar por onde começou Zenia. Deve ter sido em algum lugar muito tempo atrás e muito distante no espaço, pensa Tony; algum lugar sofrido e bastante confuso. Uma tipografia europeia, colorida à mão, de uma cor ocre, com a luz do sol cinzenta e muitos arbustos, arbustos com folhas grossas e raízes emaranhadas e antigas, atrás dos quais, fora do alcance da visão, na vegetação rasteira, e aludida apenas por uma bota protuberante, ou a mão solta de alguém, algo corriqueiro mas apavorante está acontecendo. Ou essa foi a impressão com que Tony ficou. Mas tanto já foi apagado, tanto já foi enfaixado, tanto já foi propositalmente entrelaçado que Tony já não sabe mais com certeza qual dos relatos de Zenia a respeito de si mesma é verdadeiro. Ela dificilmente poderia perguntar agora, e, mesmo se pudesse, Zenia não responderia. Ou mentiria. Ela mentiria com seriedade, com um tremor na voz, uma vibração de tristeza contida, ou mentiria com hesitação, como se fizesse uma confissão; ou mentiria com uma raiva impassível, desafiadora, e Tony acreditaria nela. Acreditara antes. Escolha um fio qualquer e corte, e a história se desenreda. É assim que Tony começa uma de suas palestras mais intricadas, a que diz respeito à dinâmica dos massacres espontâneos. A metáfora é com tecelagem ou talvez com tricô, e com tesouras de costura. Ela gosta de usá-la: ela gosta do leve choque no rosto de seus ouvintes. É a mistura de imagem doméstica e derramamento de sangue em massa que causa isso; uma mistura que teria agradado a Zenia, que apreciava essa turbulência, essas contradições violentas.

Mais do que apreciava: criava. O porquê ainda é obscuro. Tony não sabe porque se sente compelida a saber. Quem se importa com o porquê, a essa altura? Um desastre é um desastre; aqueles que foram feridos por ele continuam feridos, os que foram mortos continuam mortos, os escombros continuam a ser escombros. Falar das razões é irrelevante. Zenia era um mau negócio e deve ser deixada de lado. Para que tentar decifrar seus motivos? Mas Zenia também é um enigma, um nó: se Tony simplesmente achasse uma ponta solta e puxasse, muita coisa seria descoberta, para todos os envolvidos, e também para ela mesma. Ou era isso o que ela esperava. Ela tem a crença dos historiadores no poder salutar das explicações. O problema é por onde começar, pois nada começa quando começa, e nada acaba quando acaba, e para tudo é necessário um prefácio: um prefácio, um pós-escrito, um gráfico de acontecimentos simultâneos. A história é um constructo, diz aos seus alunos. Qualquer ponto de entrada é possível, e todas as escolhas são arbitrárias. Porém, há momentos definitivos, momentos que usamos como referência, pois eles quebram nosso senso de continuidade, mudam a direcção do tempo. Podemos olhar para esses acontecimentos e dizer que depois deles nada foi como antes. Eles nos dão começos, e também finais. Nascimentos e mortes, por exemplo, e casamentos. E guerras. São as guerras que interessam a Tony, apesar de suas golas enfeitadas com rendas. Ela gosta de resultados claros. Zenia também, ou era isso o que Tony imaginava antigamente. Agora, ela não sabe ao certo.

Uma escolha arbitrária, portanto, um momento definitivo: 23 de Outubro de 1990. É um dia radiante, quente de forma atípica para a estação. É uma terça-feira. O bloco soviético está desmoronando, os mapas antigos se dissolvendo, as tribos orientais novamente se movimentam pelas fronteiras que se alteram. O Golfo passa por problemas, o mercado imobiliário está em queda, e um buraco enorme se formou na camada de ozono. O Sol entra em escorpião, Tony almoça no Toxique com duas amigas, Roz e Charis, uma brisa leve sopra sobre o lago Ontário, e Zenia retorna do mundo dos mortos.

Tony acorda às seis e meia, como sempre. West continua a dormir, roncando um pouco. É provável que em sonhos ele esteja gritando; nos sonhos, os sons são sempre mais altos. Tony examina seu rosto adormecido, o maxilar anguloso relaxado e suavizado, os olhos de ermitão, absurdamente azuis, fechados com tanta delicadeza. Está feliz por ele ainda estar vivo: as mulheres vivem mais que os homens, e os homens têm coração fraco, às vezes eles simplesmente desmaiam, e embora ela e West não estivessem velhos, não estavam nem um pouco velhos, ainda assim, mulheres de sua idade já tinham acordado de manhã e encontrado homens mortos a seu lado. Tony não considera tal pensamento mórbido. Ela é feliz também num sentido mais geral. Ela é feliz, de qualquer modo, por West estar nesse mundo, e nessa casa, e por ele dormir todas as noites ao lado dela e não em algum outro lugar. Apesar de tudo, apesar de Zenia, ele ainda está ali. Parece um milagre, na verdade. Há dias em que ela não se consegue esquecer disso». In Margaret Atwood, A Noiva Ladra, 1995, Editora Rocco, 2013, ISBN 978-853-252-696-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

JDACT, Margaret Atwood, Literatura,

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

A História de uma Serva. Margaret Atwood. «Diz-lhes para quem são para eles não se porem com coisas. Está bem, digo eu. Não sorrio. Para quê tentá-la à amizade?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Inclinaríamos a cabeça pontuando as vozes umas das outras, a indicar que sim, sabemos tudo sobre o assunto. Falaríamos dos nossos tratamentos e tentaríamos ultrapassar-nos umas às outras no recital de desgraças físicas; queixar-nos-íamos suavemente, em voz baixa em tom menor e queixosas como pombos nas caleiras dos beirais. Sei muito bem o que queres dizer, diríamos. Ou a expressão pitoresca que às vezes ainda se ouve da boca dos velhos Estou mesmo a ver aonde queres chegar, como se a própria voz fosse um viajante vindo de longe. O que ela era mesmo. O que ela é. Como eu detestava essas conversas. Agora anseio por elas. Pelo menos, era conversa. Uma troca de pouco valor. Ou falávamos de bisbilhotices. As Martas sabem coisas, falam entre elas, passam as novidades oficiosas de casa em casa. Tal como eu, escutam às portas, sem dúvida, e vêem coisas até de olhos fechados. Já as ouvi por vezes a fazerem-no, apanhei um cheirinho das suas conversas privadas. Nado-vivo, era o que era. Ou: Espetou-lhe uma agulha de tricô mesmo na barriga. Ciúmes, deve ter sido, a consumi-la. Ou, a espicaçar: foi o produto para limpar as sanitas que ela usou. Funcionou que nem uma maravilha, se bem que não se percebe como é que ele não lhe sentiu o gosto. Deve ter sido aquele bêbado; mas lá que a apanharam, apanharam.

Ou então eu ajudaria a Rita a fazer pão, mergulhando as mãos naquele calor suave e resistente que tanto lembra a carne. Estou sedenta de tocar em alguma coisa que não seja tecido ou madeira. Estou sedenta de cometer o acto do toque. Mas mesmo que pedisse, mesmo que eu violasse o decoro até esse ponto, a Rita não o permitiria. Teria demasiado medo. As Martas não devem confraternizar connosco. Confraternizar significa agir como um irmão. Foi o Luke quem mo ensinou. Disse que não havia um termo correspondente para agir como uma irmã. Teria de ser consororizar, disse ele. Do latim. Ele gostava de saber pormenores desses. As derivações das palavras, usos curiosos. Eu costumava meter-me com ele dizendo-lhe que era um pedante. Pego nas senhas que estão na mão estendida da Rita. Têm imagens das coisas pelas quais podem ser trocadas: doze ovos, um pedaço de queijo, uma coisa castanha que é suposto ser um bife. Enfio-as no bolso com fecho de correr da minha manga, onde guardo o passe. Pede-lhes frescos, os ovos, diz ela. E não como da última vez. E um frango, diz-lhes, não uma galinha. Diz-lhes para quem são para eles não se porem com coisas. Está bem, digo eu. Não sorrio. Para quê tentá-la à amizade?

Saio pela porta das traseiras, para o jardim, que é grande e cuidado: um relvado ao centro, um salgueiro, um chorão; a toda a volta, a moldura de flores, na qual os narcisos estão a esmorecer e as tulipas a abrir as suas corolas, espalhando cor. As tulipas são vermelhas, com um púrpura mais escuro ao aproximar-se do caule; como se tivessem sido cortadas e estivessem a começar a sarar nesse ponto. Este jardim é o domínio da Esposa do Comandante. Vi-a nele muitas vezes ao olhar pela minha janela de vidro inquebrável, ajoelhada numa almofada, um véu azul-claro por cima do chapéu de jardinagem largo, um cesto ao seu lado com aparas lá dentro e pedaços de cordel para atar as flores na posição certa. Um Guardião destacado para o Comandante faz os trabalhos de cavar pesados; a Esposa do Comandante dá as indicações apontando com a bengala. Muitas das Esposas têm jardins assim, é algo para elas porem em ordem, manterem e cuidarem. Em tempos tive um jardim. Ainda me lembro do cheiro da terra remexida, as formas arredondadas dos bolbos na mão, plenitude, o roçagar seco das sementes por entre os dedos. O tempo podia passar mais ligeiro dessa forma. Às vezes, a Esposa do Comandante pede que lhe levem uma cadeira lá para fora e fica simplesmente ali sentada, no seu jardim. A distância, é a imagem da paz. Não está aqui agora e eu começo a pensar onde estará: não gosto de me cruzar inesperadamente com a Esposa do Comandante. Talvez esteja a coser, na sala de estar, com o pé esquerdo em cima do escabelo, por causa da artrite. Ou a tricotar cachecóis para os Anjos que estão nas trincheiras». In Margaret Atwood, A História de uma Serva, 1985, Bertrand Editora, 2013, ISBN 978-972-252-577-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Margaret Atwood, Literatura, Crónica,

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A História de uma Serva. Margaret Atwood. «Deixo o chapéu vermelho onde está, porque sei pela janela que o dia está soalheiro. Pergunto-me se a Esposa do Comandante estará ou não na sala de estar. Nem sempre se senta»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mantém-se ali um espelho, na parede do corredor. Se virar a cabeça de modo que as abas brancas que me emolduram o rosto orientem a minha visão para ele, consigo vê-lo enquanto desço as escadas, redondo, convexo, um espelho de pendurar, como um olho de peixe, e eu nele como uma sombra distorcida, uma paródia de alguma coisa, uma figura de conto de fadas com um capuz vermelho, a descer para um momento de descuido que é sinónimo de perigo. Uma Irmã, imersa em sangue. Ao fundo das escadas, há uma chapeleira de pé alto, das de madeira curvada, com braços compridos e arredondados de madeira que se curvam delicadamente para cima em ganchos com a forma das frondes jovens dos fetos. Contém vários chapéus-de-chuva: preto, para o Comandante, azul, para a Esposa do Comandante, e aquele que me é destinado a mim, vermelho. Deixo o chapéu vermelho onde está, porque sei pela janela que o dia está soalheiro. Pergunto-me se a Esposa do Comandante estará ou não na sala de estar. Nem sempre se senta. Às vezes, ouço-a a andar de um lado para o outro, um passo pesado e depois outro leve, e a pancada suave da bengala na carpete rosa-velho.

Atravesso o corredor, passo pela porta da sala de estar e pela porta que dá para a sala de jantar, abro a outra ao fundo do corredor e entro na cozinha. Aqui, o cheiro já não é de mobília encerada. Está lá a Rita, de pé junto da mesa da cozinha, cujo tampo é de esmalte branco lascado. Está com o seu habitual vestido de Marta, que é de um verde pálido, como a bata de um cirurgião de tempos passados. O vestido assemelha-se muito ao meu na forma, é comprido e ocultador, mas com um avental de corpo inteiro por cima e sem as asas brancas e o véu. Coloca o véu para sair, mas ninguém se importa que se veja a cara de uma Marta. Tem as mangas arregaçadas até ao cotovelo, revelando os braços castanhos. Está a fazer pão, a atirar as bolas para o breve amassar final e depois lhes dar forma. Rita vê-me e acena, é difícil dizer se para me saudar ou simplesmente como reconhecimento da minha presença, limpa as mãos enfarinhadas ao avental e vasculha a gaveta da cozinha à procura do bloco das senhas. De sobrolho carregado, destaca três senhas e entrega-mas. O seu rosto podia ser simpático se sorrisse. Mas o sobrolho carregado não é uma coisa pessoal: é o vestido vermelho que ela censura, e aquilo que ele representa. Julga que eu posso ser contagiosa, como uma doença ou uma espécie qualquer de azar. Às vezes ponho-me à escuta atrás das portas, coisa que nunca teria feito noutros tempos. Nunca fico à escuta por muito tempo, porque não quero ser apanhada. Porém, ouvi certa vez a Rita dizer à Cora que nunca se rebaixaria assim. Ninguém te perguntou nada, disse Cora. E além do mais, o que é que podias fazer, se isso acontecesse?

Ir para as Colónias, disse Rita. Elas têm essa alternativa. Com as Não-Mulheres, e morrer de fome e sabe Deus mais o quê?, disse Cora. Agora apanhei-te. Estavam a descascar ervilhas; mesmo com a porta quase fechada, eu ouvia o leve tilintar das ervilhas duras a caírem na tigela metálica. Ouvi à Rita um resmungo ou suspiro, de protesto ou concordância. De qualquer das maneiras, fazem aquilo pelo bem de todos, disse Cora, ou pelo menos é o que se diz. Se não me tivessem tirado os ovários, podia ter sido eu, se fosse, digamos, uns dez anos mais nova. Não é assim tão mau. Não se pode dizer que seja um trabalho duro. Antes ela que eu, disse Rita, e eu abri a porta. As suas expressões eram as de mulheres que estiveram a falar de alguém pelas costas e acham que foram ouvidas: envergonhadas, mas também um pouco desafiantes, como se estivessem no seu direito. Nesse dia, a Cora foi mais simpática comigo do que o habitual; a Rita, mais antipática. Hoje, apesar do rosto fechado da Rita e dos seus lábios cerrados, gostaria de ficar ali, na cozinha. A Cora podia entrar, vinda de outra parte da casa, com a garrafa de óleo de limão e o pano do pó, e a Rita faria café, nas casas dos Comandantes, continua a haver café a sério, e sentar-nos-íamos à mesa da cozinha da Rita, que pertence tanto à Rita quanto a minha mesa a mim, e conversaríamos, de dores e pontadas, doenças, os nossos pés, as costas, toda a espécie de maldades que os nossos corpos, como crianças rebeldes, nos pregam». In Margaret Atwood, A História de uma Serva, 1985, Bertrand Editora, 2013, ISBN 978-972-252-577-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Margaret Atwood, Literatura, Crónica,

domingo, 24 de janeiro de 2021

A História de uma Serva. Margaret Atwood. «O sino que mede o tempo está tocando. O tempo aqui é medido por sinos, como outrora nos conventos de freiras»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Uma cadeira, uma cama, um abajour. Acima no tcto branco, um ornamento em relevo em forma de coroa de flores, e no centro dele um espaço vazio, coberto de emboço, como o lugar num rosto onde o olho foi tirado fora. Outrora deve ter havido um lustre, um candelabro. Eles tinham removido qualquer coisa em que pudesse amarrar uma corda. Uma janela, duas cortinas brancas. Sob a janela, um assento com uma pequena almofada. Quando a janela está parcialmente aberta, ela só se abre parcialmente, o ar pode entrar e fazer as cortinas se mexerem. Posso sentar na cadeira ou no banco pegado à janela, as mãos com os dedos entrelaçados, e observar isso. A luz do sol também entra pela janela e bate no soalho, que é feito de madeira, em ripas estreitas, muito bem enceradas. Há um tapete no chão, oval, feito de retalhos trançados. Esse é o tipo de toque de que eles gostam: arte folclórica, arcaica, feita por mulheres, nas suas horas livres, de coisas que não têm mais utilidade. Um retorno aos valores tradicionais. Quem tudo economiza tem tudo que precisa. Não estou sendo desperdiçada. Porque ainda preciso?

Na parede acima da cadeira, um quadro, emoldurado, mas sem vidro: uma estampa de flores, íris azuis, guache. Flores ainda são permitidas. Será que cada uma de nós tem a mesma estampa, a mesma cadeira, as mesmas cortinas brancas, eu gostaria de saber? Distribuídas pelo governo? Pense nisso como estar servindo no exército, dizia tia Lydia. Uma cama. De solteiro, colchão de dureza média, coberto por uma colcha aveludada branca. Nada acontece na cama senão o sono; ou a falta de sono. Tento não pensar demais. Como outras coisas agora, os pensamentos têm que ser racionados. Há muita coisa em que não é produtivo pensar. Pensar pode prejudicar suas chances, e eu pretendo durar. Sei porque não há nenhum vidro, na frente do quadro de íris azuis, e por que a janela só se abre parcialmente e porque o vidro nela é inquebrável. Não é de fugas que eles têm medo. Não iríamos muito longe. São daquelas outras fugas, aquelas que pode abrir em si mesma, se tiver um instrumento cortante. Muito bem. Excepto por esses detalhes, isso poderia ser um quarto de hóspedes de uma faculdade, para os visitantes menos importantes; ou um quarto de pensão, de tempos antigos, para senhoras em reduzidas condições de vida. Isso é o que somos agora. As condições de vida foram reduzidas; para aquelas dentre nós que ainda têm condições de vida. Mas uma cadeira, luz do sol, flores: essas coisas não devem ser descartadas. Estou viva, eu vivo, respiro, estendo minha mão para fora, aberta, para a luz do sol. Estar onde estou não é uma prisão e sim um privilégio, como dizia tia Lydia, que era apaixonada por ou isto ou aquilo.

O sino que mede o tempo está tocando. O tempo aqui é medido por sinos, como outrora nos conventos de freiras. Também como nos conventos, existem poucos espelhos. Eu me levanto da cadeira, avanço meus pés para a luz do sol, nos sapatos vermelhos, sem salto para poupar a coluna e não para dançar. As luvas vermelhas estão sobre a cama. Pego-as, enfio-as nas minhas mãos, dedo por dedo. Tudo, excepto a touca de grandes abas ao redor de minha cabeça, é vermelho: da cor do sangue, que nos define. A saia desce à altura dos meus tornozelos, rodada, franzida e presa a um corpete de peitilho liso que se estende sobre os seios, as mangas são bem largas e franzidas. As toucas brancas também seguem o modelo padronizado; são destinadas a nos impedir de ver e também de sermos vistas. Nunca fiquei bem de vermelho, não é a minha cor. Apanho a cesta de compras e a enfio no braço.

A porta do quarto, não do meu quarto, eu me recuso a dizer meu, não está trancada. Na verdade, ela não se fecha direito. Saio para o corredor bem encerado, que tem uma passadeira no centro, de um tom rosa-acinzentado. Como uma trilha aberta em meio à floresta, como um tapete para a realeza, mostra-me o caminho. O tapete faz uma curva e desce a escadaria da frente e sigo por ele, com uma das mãos no corrimão, outrora uma árvore, abatida e transformada noutro século, polida até adquirir um brilho intenso. Do fim do período vitoriano, a casa é uma residência de família, construída para uma família rica e numerosa. Há um relógio de pé no vestíbulo, que distribui o tempo em quinhões, e então a porta que dá para a maternal sala-de-estar da frente, com seus tons rosados e pequenos toques sugestivos. Uma sala onde nunca me sento, apenas fico de pé ou me ajoelho. No final do vestíbulo, acima da porta da frente há uma bandeira semicircular de vidro colorido: flores vermelhas e azuis». In Margaret Atwood, A História de uma Serva, 1985, Bertrand Editora, 2013, ISBN 978-972-252-577-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Margaret Atwood, Literatura, Crónica, 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Crónica de uma Serva. Margaret Atwood. «Os Anjos ficavam postados do lado de fora da cerca, de costas para nós. Eram objectos de medo para nós, mas também algo mais»

jdact e cortesia de wikipedia

«Nós dormimos no que outrora havia sido o ginásio desportivo. O soalho era de madeira envernizada, com listas e círculos pintados, para os jogos que antigamente eram disputados ali; os aros para as redes das cestas de basquetebol ainda estavam nos seus lugares, embora as redes tivessem desaparecido. Uma arquibancada cercava o aposento para os espectadores, e imaginei que podia sentir, muito ligeiramente, como uma imagem evocada, o cheiro pungente de suor, mesclado com a doçura latente de goma de mascar e o perfume das garotas assistindo aos jogos vestidas com saias de feltro, como eu tinha visto em fotografias, mais tarde de minissaias, em seguida de calças, depois com um brinco só, os cabelos espetados com mechas pintadas de verde. Bailes teriam sido realizados ali, com sons jamais ouvidos, um estilo seguindo-se ao outro, como subcorrente, uma cadência de tambores, um lamento desesperançado, guirlandas feitas de flores de papel de seda, máscaras de cartolina, uma esfera giratória coberta de espelhos, salpicando os dançarinos com uma neve de luz. Havia sexo antigo naquela sala e solidão, e expectativa, de alguma coisa sem forma nem nome. Lembro-me daquele anseio, por alguma coisa que estava sempre a ponto de acontecer e que nunca era a mesma como não eram as mãos que nos tocavam ali e, naquela época, por trás, bem lá em baixo nas costas, ou lá atrás no estacionamento nos fundos, ou na sala da televisão com o som bem baixinho e as imagens tremeluzindo sobre corpos que se levantavam.

Nós ansiávamos pelo futuro. Como foi que aprendemos isso, aquele talento pela insaciabilidade? Estava no ar; e ainda estava no ar, como uma reflexão posterior, enquanto tentávamos dormir, nos catres do exército que haviam sido dispostos em fileiras, espaçados de modo que não pudéssemos conversar. Tínhamos cobertas, lençóis de flanela de algodão, como as de crianças, e cobertores padrão fabricados para o exército, dos antigos que ainda diziam U.S. Dobrávamos nossas roupas cuidadosamente e as colocávamos sobre os banquinhos aos pés das camas. As luzes eram diminuídas, mas não apagadas. Tia Sara e tia Elizabeth patrulhavam; tinham aguilhões eléctricos de tocar gado suspensos por tiras de seus cintos de couro. Porém, não tinham armas de fogo, nem mesmo elas mereciam confiança para portar armas de fogo. As armas eram para os guardas. Especialmente escolhidos entre os Anjos. Os guardas não tinham permissão para entrar no prédio excepto quando eram chamados, e não tínhamos permissão para sair, excepto para as caminhadas, duas vezes por dia, duas a duas, ao redor do campo de futebol que agora estava cercado por uma cerca reforçada de malha metálica com rolos de arame farpado no alto.

Os Anjos ficavam postados do lado de fora da cerca, de costas para nós. Eram objectos de medo para nós, mas também algo mais. Se ao menos nos olhassem. Se ao menos pudéssemos falar com eles. Alguma coisa poderia ser usada para troca, acreditávamos, algum negócio acertado, algum intercâmbio feito, ainda tínhamos nossos corpos. Essa era a nossa fantasia. Aprendemos a sussurrar quase sem qualquer ruído. Na semiobscuridade podíamos esticar nossos braços, quando as Tias não estavam olhando, e tocar as mãos umas das outras sobre o espaço. Aprendemos a ler lábios, nossas cabeças deitadas coladas às camas, viradas para o lado, observando a boca umas das outras. Dessa maneira trocávamos nomes, de cama em cama: Alma. Janine. Dolores. Moira. June». In Margaret Atwood, Crónica de uma Serva, 1988, Publicações Europa-América, 1988, ISBN 978-972-100-552-5.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

JDACT, Margaret Atwood, Literatura, Crónica,

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A História de uma Serva. Margaret Atwood. «Uma cadeira, uma cama, um abat-jour. Acima no tecto branco, um ornamento em relevo em forma de coroa de flores, e no centro dele um espaço vazio…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Nós dormimos no que outrora havia sido o ginásio desportivo. O soalho era de madeira envernizada, com listas e círculos pintados, para os jogos que antigamente eram disputados ali; os aros para as redes dos cestos de basquetebol ainda estavam nos seus lugares, embora as redes tivessem desaparecido. Uma arquibancada cercava o aposento para os espectadores, e imaginei que podia sentir, muito ligeiramente, como uma imagem evocada, o cheiro pungente de suor, mesclado com a doçura latente de goma de mascar e o perfume das garotas assistindo aos jogos vestidas com saias de feltro, como eu tinha visto em fotografias, mais tarde de minissaias, em seguida de calças, depois com um brinco só, os cabelos espetados com mechas pintadas de verde. Bailes teriam sido realizados ali, um manuscrito em pergaminho, de sons jamais ouvidos, um estilo seguindo-se ao outro, como subcorrente, uma cadência de tambores, um lamento desesperançado, guirlandas feitas de flores de papel de seda, máscaras de cartolina, uma esfera giratória coberta de espelhos, salpicando os dançarinos com uma neve de luz.
Havia sexo antigo naquela sala e solidão, e expectativa, de alguma coisa sem forma nem nome. Lembro-me daquele anseio, por alguma coisa que estava sempre a ponto de acontecer e que nunca era a mesma como não eram as mãos que nos tocavam ali e, naquela época, por trás, bem lá em baixo nas costas, ou lá atrás no estacionamento nos fundos, ou na sala da televisão com o som bem baixinho e as imagens tremeluzindo sobre corpos que se levantavam. Nós ansiávamos pelo futuro. Como foi que aprendemos isso, aquele talento pela insaciabilidade? Estava no ar; e ainda estava no ar, como uma reflexão posterior, enquanto tentávamos dormir, nos catres do exército que haviam sido dispostos em fileiras, espaçados de modo que não pudéssemos conversar. Tínhamos cobertas, lençóis de flanela de algodão, como as de crianças, e cobertores padrão fabricados para o exército, dos antigos que ainda diziam U.S.. Dobrávamos as nossas roupas cuidadosamente e as colocávamos sobre os banquinhos aos pés das camas. As luzes eram diminuídas, mas não apagadas. Tia Sara e tia Elizabeth patrulhavam; tinham aguilhões eléctricos de tocar gado suspensos por tiras dos cintos de couro.
Porém, não tinham armas de fogo, nem mesmo elas mereciam confiança para portar armas de fogo. As armas eram para os guardas. Especialmente escolhidos entre os Anjos. Os guardas não tinham permissão para entrar no prédio excepto quando eram chamados, e não tínhamos permissão para sair, excepto para as caminhadas, duas vezes por dia, duas a duas, ao redor do campo de futebol que agora estava cercado por uma cerca reforçada de malha metálica com rolos de arame farpado no alto. Os Anjos ficavam postados do lado de fora da cerca, de costas para nós. Eram objectos de medo para nós, mas também algo mais. Se ao menos nos olhassem. Se ao menos pudéssemos falar com eles. Alguma coisa poderia ser usada para troca, acreditávamos, algum negócio acertado, algum intercâmbio feito, ainda tínhamos os nossos corpos. Essa era a nossa fantasia. Aprendemos a sussurrar quase sem qualquer ruído. Na semiobscuridade podíamos esticar os nossos braços, quando as Tias não estavam olhando, e tocar as mãos umas das outras sobre o espaço. Aprendemos a ler lábios, as nossas cabeças deitadas coladas às camas, viradas para o lado, observando a boca umas das outras. Dessa maneira trocávamos nomes, de cama em cama: Alma. Janine. Dolores. Moira. June.
Uma cadeira, uma cama, um abat-jour. Acima no tecto branco, um ornamento em relevo em forma de coroa de flores, e no centro dele um espaço vazio, coberto de emboço, como o lugar num rosto onde o olho foi tirado fora. Outrora deve ter havido um lustre, um candelabro. Eles tinham removido qualquer coisa em que pudesse amarrar uma corda. Uma janela, duas cortinas brancas. Sob a janela, um assento com uma pequena almofada. Quando a janela está parcialmente aberta, ela só se abre parcialmente, o ar pode entrar e fazer as cortinas mexerem-se. Posso sentar na cadeira ou no banco pegado à janela, as mãos com os dedos entrelaçados, e observar isso. A luz do sol também entra pela janela e bate no soalho, que é feito de madeira, em ripas estreitas, muito bem enceradas. Há um tapete no chão, oval, feito de retalhos trançados. Esse é o tipo de toque de que eles gostam: arte folclórica, arcaica, feita por mulheres, nas suas horas livres, de coisas que não têm mais utilidade. Um retorno aos valores tradicionais. Quem tudo economiza tem tudo que precisa. Não estou sendo desperdiçada. Por que ainda preciso?» In Margaret Atwood, A História de uma Serva, 1985, Bertrand Editora, 2013, ISBN 978-972-252-577-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT